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domingo, março 19, 2023

Mila era para ser filósofa mas preferiu ser pedreira

 

E eis que às cerca de duas semanas minhas de covid, retomámos a vida social, pelo menos a nível familiar. 

Depois do electricista na parte da manhã (que apareceu com duas horas de atraso quase fazendo perigar parte do programa de festas), visitas à família na parte da tarde e, a seguir, pimentinhas cá em casa a jantar e a dormir. 

Muito bom. Muito queridos. Muita brincadeira. 

Depois de jantar, estando todos na sala da televisão, diz um deles: 'O que eu gosto disto, aqui todos juntos...'. Mais fofo.

E houve mimo e penteados e todos a ver Task Master durante um bocado e todos a rirmos. Depois, na hora da deita, teve que ser a história da Princesa Margaret e do seu cão atrevido, história que já deve ir no milésimo capítulo.

Ainda tivemos uma pequena peripécia com o mais pequeno a querer dormir, primeiro, na que costuma ser a cama do irmão e, depois, na cama onde estava a irmã-- com os mais velhos a protestarem, claro. Mas lá se conseguiu convencer a deixar de inventar pretextos para atrasar o sono e passado pouco tempo já dormiam todos a sono solto.

E eu estou aqui a cair para o lado, cheia de sono. Além disso, já se sabe que com esta malta miúda o despertar é com as galinhas. Por isso, o melhor que tenho a fazer é ir dormir senão no domingo vou estar de gatas. E não posso porque o programa também promete.

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Contudo, tenho aqui um vídeo giríssimo para partilhar convosco. Mila era estudante de filosofia mas não conseguia encontrar o sentido da vida. Até que um dia construiu um muro e descobriu aquilo de que andava à procura. Largou a filosofia e dedicou-se a ser pedreira. Há histórias que parecem ficção. Aliás, que superam a ficção.


Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde. Alegria. Paz.

sábado, janeiro 30, 2021

Então não é que vi uma chouette de verdade...?

 


Estou em crer que as televisões são o grande partido da oposição ou as grandes forças da desestabilização do país. Ou melhor: os fiéis seguidores da religião do bota-abaixo e os porteiros de serviço ao populismo. Manipulam as notícias, não sei se porque a inteligência não chega para perceber tudo e, portanto, deturpam a realidade ou se porque acham que rende mais se empolarem e infectarem a opinião pública. Seja como for, é nefasto. Quanto às redes sociais, felizmente a sua frequência é mal de que não padeço pelo que, se deformam mentalidades, estou fora.

Quanto às televisões, não vejo muito, apenas um pouco à noite mas, se não encontro melhor alternativa, passo-me com a gandulagem encartada que é convidada para lá opinar. Gente que não dá uma para a caixa. Sempre com voz muito doutorada dizem disparates atrás de disparates. Reinterpretam o que se passa, reescrevem o que estamos a viver, inventam narrativas. E depois há chusmas de outros que comentam o que os outros comentaram indo toda a gente atrás do primeiro que disparatou. Disparates virais.

Passei na Sic N e, para além do putativo-sábio mano-Costa, até a Cristas ali vi. Só vi uma intervenção da dita mas do que vi constato que continua burrinha como nos tempos em que assinou de cruz e sem pestanejar o fim de um dos grandes grupos económicos do país. Com sorriso beato e a convicção dos néscios, continuar a afirmar convictamente os maiores disparates. Depois de termos assistido durante anos às severas limitações do seu intelecto, eis que o mano-Costa ali a tem a fazer de conta que tem neurónios na cabeça. Porque o faz? Porque ainda não conseguiu perceber que ela não acrescenta nada? Ou porque acha que quanto mais burros os que lá leva mais confusão lançam... e nada melhor em televisão do que a confusão? Não sei, apenas pergunto.

Do outro lado, num outro canal, está aquele jeitoso que se acha o máximo e que, com ar pedante, só diz coisas que não sei se é pelas parvoíces que diz, se é pelo sorrisinho superior, só dá vontade a gente encher-lhe os fundilhos de pastilha elástica mastigada e pregar-lhe uma folha a4 às costas do casaco  dizer: sou um ganda parvalhão. Ao lado dele, outra que se acha o máximo e que, só pela forma como se desdobra em evidência de superioridade, me obriga a mudar de canal. É outro dos grupos que opinam em grupo há séculos e em que me não sei qual o critério: um porque é de direita, outra porque é socialista, outra porque é de esquerda-esquerda e outro porque paira por ali, sempre sorrindo? Ou um porque é parvo, outra porque tem a mania que é boa, outra porque é uma fofa e outro porque é um pachola? Não sei mas olhando para o moderador tudo é possível.

Quando dava o MasterChef Australia eu tinha o meu naco de boa televisão garantido. Agora nem percebo o que é aquilo. O MasterChef Brasil. Nos antípodas. Aqui, agora, tudo gente que não faz a mínima. Desajeitados, inexperientes, sem ponta por onde se pegue. Nem percebo qual a lógica daquilo que ali se passa. Fazem cozinhados que não lembram ao diabo, a bancada desarrumada, eles desorientados. O próprio júri é do além. Não consigo aguentar-me ali. Zappo.

Obviamente pelo Big Brother tento nem sequer passar. Se sempre foi coisa de lúmpen, agora que todo o canal levou banho de cristina é coisa pela qual não se pode nem passar perto. Desqualificou de vez. E digo isto com a segurança de quem nunca viu um único programa da deslumbrada e esguinchadora criatura. Só de a ver, de raspão, a fazer anúncio aos seus programas já fico com brotoeja. Muito, muito mau. Não é apenas ela que está em trajectória descendente: vai dar cabo da TVI.

Entretanto, nesta minha fuga para a frente, ao voltar ao passar pela Sic N já tinha acabado o Expresso da Meia-Noite e já lá estava aquele outro grupinho que não se aguenta a começar pelo zero à esquerda que Marcelo, num dia de forte pancada na cabeça, convidou para uma função que até aí tinha sido desempenhada por gente com alguma elevação. Não consigo. Salva-se, pela moderação, mas é uma salvação relativa, o Mexia mas os que o ladeiam são maus de mais: um porque é de tal forma limitado que não sabe o que diz, apenas sabe dizer baboseiras sobre pessoas cuja linguagem ele não percebe, e outro porque acha que vale tudo e lambuza toda a gente de má-língua fazendo de conta que é humor. 

Uma intoxicação. 

Felizmente ainda me sobra algum ânimo para fugir desta praga. Contudo, os dias frios e húmidos não ajudam e o confinamento ainda menos. Já está a passar o primeiro mês mas o facto de não saber quanto mais tempo disto temos pela frente tira-me alguma boa disposição. 

O meu filho já nos arranjou uma solução para os frescos e isso tira-me um peso de cima. Com sorte, nas próximas semanas talvez não precisemos de ir ao supermercado já que tenho o congelador cheio e produtos de higiene e limpeza com fartura. Era mesmo o conjunto dos legumes para a sopa e para os acompanhamentos, alguma fruta e algum pão que me estava a faltar e a fazer ir ao supermercado todas as semanas. Mas, por outro lado, ao ter-nos arranjado um fornecedor, ficamos sem o único lugar em que tínhamos contacto com o que sobrou da anterior civilização. 

Ontem estive a fazer encomendas online para o aquariozinho mais querido e lindo. Mas não é a mesma coisa. Gosto de ver, de mexer. Além disso, parece que desapareceu de mim toda a vontade de fazer compras com excepção das básicas, do supermercado. Deixei de ser consumista. Está a fazer um ano que não entro em loja de roupa ou sapatos, em perfumarias. Comprei algumas peças, poucas, na decathlon e foi porque a roupa quente para estar em casa está in heaven. E comprei uns quantos livros para mim pelo Natal. Tirando isso, nada. E sem saudades. Pelo contrário, é por vezes com alegria que entro no closet para escolher a roupa que visto para as reuniões. Tenho que chegue e fico contente de todas as vezes que o constato. Ontem tinha vestido uma blusinha cor de rosa mas é uma blusinha fininha, decotada, pelo que, quando estava a pensar o que haveria de vestir por cima para não arrefece e para se conjugar bem, lembrei-me de um casaquinho da benetton com umas cores um pouco impulsivas: na parte da frente, losangos cor de rosa e cor de laranja. Pouco o vestia já, parecia-me já coisa um pouco datada, anos e anos que já o tenho. Fui lá abaixo, à cave, ao roupeiro onde estão os agasalhos, e trouxe-o. Gostei mesmo do conjunto. Agora fico contente com coisas assim. 

No outro dia fiquei contente com outra coisa. Íamos a fazer a nossa caminhada e, ao passarmos junto a uma casa, reparámos num pequeno vulto escuro no canto de um muro. Demos uns passos atrás para ver o que era. Para meu espanto, era uma coruja. Linda, irreal. Devia ter levado a máquina para registar a beleza daquele instante. 

Digo coruja mas não sei se era coruja ou mocho, nem sei se há diferenças entre ambos ou se é a mesma coisa. 

Muito direita, uma cabeça imponente, muito digna. É a primeira vez que vejo ao vivo uma ave destas. In heaven às vezes, de noite, ouve-se o piar que penso que seja de uma destas aves. Mas ver, nunca vi. E é uma alegria olhar para aquela bela ave e pensar que coabitamos o mesmo espaço que animais tão extraordinários.

Também nunca mais vi a raposa e disso tenho alguma pena. Agora trabalho muito, horas ininterruptas. Mas, um dia que tenha tempo, penso que facilmente andarei pelos campos, em silêncio, tentando descobrir animais. Posso até sentar-me num canto, talvez lá ao fundo ao pé da horta, a ver se vejo passar algum esquilinho, um veado, um destemido galaroz. 

Bem. E hoje, talvez por andar a pesquisar as diferenças entre coruja e mocho, ao parquear-me no Youtube, o meu amigo tinha me propor um vídeo muito bonito.

Sur les traces de la chouette, un animal si discret

Dans le massif du Jura, des Aiguilles de Baulmes en passant par l’Auberson, au plus profond des forêts de sapins et de hêtres se cachent les oiseaux mythiques que sont la chouette Hulotte, Tengmalm ou encore Effrai. 

Seuls quelques initiés ont le bonheur de les apercevoir dans leur milieu naturel et c’est bien le privilège qu’on obtenu Pierre-Alain et Denise. Ce couple de passionné sillonne la région depuis plus de 40 ans afin de mieux comprendre ces mystérieux volatiles, et ceci avec une flamme intacte comme au premier jour.  

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As fotografias que fiz cá em casa vêm ouvir Yo-Yo Ma e Wu Tong interpretando "Rain Falling From Roof"

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Desejo-vos um bom sábado
Saúde

terça-feira, dezembro 08, 2020

Mió ainda

 



Dia que pareceu suspenso no ar. Foi daqueles dias que é e não é. Precisava de fazer uma compra mas não sabia se podia circular, se o comércio estava aberto. Desatenta, certamente. Uns lugares saíram de muito elevado, não sabia bem quais. Fomos à hora de almoço, meia compra feita. De qualquer modo, dia de trabalho. 

Mas frio, muita humidade, escuro a meio da tarde. Esta terça-feira, dia feriado. Ainda há menos de um ano, dia de folga era dia de passeio ou de encontro. Agora é dia de recolhimento e ainda não aprendemos a viver assim. Sobra tempo mas não sabemos bem o que fazer com ele porque não podemos usá-lo como quereríamos. 

De tarde, lareira acesa. A trabalhar na mesa redonda junto ao calor. Acabou a faena já estava muito escuro e frio para ir passear no jardim. Fui buscar um livro e estive a ler ali mesmo. Uma estreia. Gosto de ler reclinada, não sentada numa cadeira. Mas, à lareira, estava-se bem. Podia ter ido para o lado de lá, sentar-me num cadeirão. Mas achei que não valia a pena. Fiz chá de erva-príncipe e gengibre, fui lendo e bebendo. Uma novidade, isto. Bem me soube.

Depois fui ver as notícias. Mas ando enjoada, niquenta: nada me interessa por aí além. Aquilo que sei que deveria dizer é de tal forma incómodo (sobretudo para mim própria) que ando a evitá-lo há meses. Tem a ver com a morte de Ihor Homenyuk no aeroporto de Lisboa. Não gosto de falar do que não sei. Mas fosse o que fosse que tivesse provocado tal sanha por parte dos inspectores e fosse o que fosse que os levou a todos a encobrir o caso, pelo menos com os contornos que parece ter tido, uma coisa parece inegável: é indesculpável que agentes da autoridade agridam alguém até à morte, deixando-o a agonizar, sem tratamento ou suporte de vida. Acho tudo o que se vai conhecendo de uma tal barbaridade que não compreendo como não houve uma investigação célere e exaustiva para que já houvesse acusados e para que já tivessem sido retiradas conclusões políticas. Seria bom que fosse público o que ali se passou naquele dia trágico para um homem que, ao que parece, vinha em busca de uma vida melhor; e seria bom que também se conhecesse quais os procedimentos habituais para averiguações do SEF no aeroporto e quais os mecanismos de controlo para que nunca mais haja lugar a situações de violência e encobrimento como as que envolveram o espancamento até à morte de Ihor. Também me parece que seria bom que tivéssemos todos conhecimento dos exames psicológicos a que os agentes de autoridade são geralmente sujeitos bem como qual o controlo de despiste de consumo de álcool ou drogas que lhes é feito.

A bem da transparência e da confiança da população nas autoridades, tudo isto deveria ser claramente exposto.

Mas, enfim, tema de tal gravidade não pode ser falado en passant e, por isso, prefiro nada dizer. 

Continuo, então, onde estava: no meu livro. Um livrinho pequenino. Manuscritos de Felipa. No outro dia, quando o folheei estava com aquela alta expectativa que sempre sinto em relação a Adélia Prado e, não tendo sido atingida por um raio de luz ao abri-lo, logo me assustei perante a perspectiva de que, desta vez, talvez fosse decepcionar-me.

Mas não: há na escrita de Adélia Prado uma irreverência, uma subversão, uma brincadeira, uma graça e, ao mesmo tempo, uma tal ida ao miolo que não consigo nunca ficar-lhe indiferente. Pelo contrário, espanto-me. Mas é um espanto agradado, uma vontade de perceber como se consegue cerzir de forma tão criativa palavras normalmente dadas a outras companhias.

Não é fácil transcrever excertos pois perde a graça se descontextualizado. Há ali uma dança em que cada passo faz parte da coreografia. Não dá para amputar o pas-de-deux, não dá para retirar o voo, a graciosidade do movimento, a amplitude do salto. Mas, ainda assim, arrisco. Um petit amuse-bouche.

Teodoro atende o telefone e pelo jeito a Angelina acabou de morrer. Me dá a notícia no tom em que toda a notícia assim deveria ser dada: olha, a Angelina terminou o serviço dela, tomou banho e voltou para casa dos pais, foi de primeira classe. (...)

Acordei ótima, sem estranhar o mundo, nos eixos. Eixo é uma palavra perfeita, não propriamente bonita, mas como palavra é sentido, esta tem apenas o que chamaríamos beleza interior, consolo dado a mulheres feias e bondosas, ideia e consolo enganosos, porque beleza radia e o que radia radia para fora, ou estou delirando? Vou acabar descobrindo que eixo é uma palavra bonita por dentro e por fora? Azeite. Vou pensar muito não, pra não gerar confusão. 

Estou no eixo, isto é, funcionando sem estranhezas para alegria ou tristeza, rima e solução; mais ou menos no 'tanto faz' daqueles santos meio estranhos, esquisitos e inteiros como o macaco da historinha que acharam felicíssimo em seu galho:

-- Macaco, sua mãe morreu.

-- Ah, é? Mió.

-- É mentira, macaco.

-- Mió ainda.

Se minha mãe morrer vou ter escrúpulos de falar: melhor, ou melhor ainda, porque não sou perfeita, não sei conversar sem adjectivos, ainda não sou essencial. (...)

E é isto. Um prazer. A vida pode ser uma coisa simples. Basta não complicar. Mas não é fácil. Descomplicar é como desajectivar. A gente quer, quer, mas, mal se distrai, já está a acrescentar adjectivo ou complicação. Ou as duas coisas ao mesmo tempo que é ainda pior.

Talvez por isso, quando passei para o YouTube, o meu amigo algoritmo, adivinhando que ando a complicar o que é simples, avançou com uns vídeos que me prenderam do princípio ao fim. Cada um com uns vinte e poucos minutos. Ou seja, ao todo, para mais de uma hora de coisa boa. Ainda por cima, uma hora falada em francês -- que é língua que me agrada por demais, civilizada, elegante, cheia de convite para viver bem -- e com música suave em fundo. Caso não saibam francês, não faz mal. São vídeos bonitos de ver. Três casos de saber viver bem. E se vocês já têm uma vida assim, simples e boa, mió ainda.

Sylvie Ramu, sculptrice et femme de cœur dans son petit paradis 


La folle vie d’un aventurier philosophe de 95 ans - Paul Du Marchie


Les merveilles d'une créatrice de papier, Viviane Fontaine

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Pinturas de Oscar Howe ao som de Farewll, Angelina segundo Joan Baez
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Até aqui, no post, não entrou a palavra Natal mas não faz mal: entrou agora e está bem assim. Se gostaram destes vídeos façam de conta que são três presentes que aqui vos ofereço

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