Desenha-me. Olha para mim e vê o que se esconde debaixo da minha pele. Olha os meus olhos. Vê se há lagos dentro de mim. Se os descobrires, percorre as minhas margens, mergulha nas minhas águas. Olha o vagar com que as minhas pálpebras se movem, as pestanas. Olha-as. São, talvez, ramos que as árvores que se debruçam nas margens entregam para que as encontres, os meus braços chamando por ti. Olha para mim de outra maneira. Cobre-me de verde. Vê se há em mim montanhas imensas, mistérios silenciosos, o aconchego dos leopardos, varandins, mares, lonjuras, horizontes só teus. Espreita bem. Descobre-me.
Desenha-me. A minha boca. Olha bem para ela. Passa os teus dedos devagar nos meus lábios. Sente a pele, sente a macieza vermelha e húmida que se esconde do olhar esperando que os teus dedos ou os teus lábios ou a tua língua a procurem. Olha como os meus lábios se abrem com o riso, como se mordem com a impaciência da espera. Sente o meu sabor.Desenha-me. Afasta o cabelo da minha testa, olha-me bem. Afasta o cabelo do meu pescoço. Observa a curva da nuca. Vê como o sol se refecte na minha pele. Aproxima-te. Vê a tua sombra em mim. Olha como deixo que te aproximes. Toca a minha pele. Passa a tua mão pelo meu braço, pelas minhas costas, pelos meus seios, pela curva do meu ventre. Baixa-te. Espreita-me.
Desenha-me. Fala devagar palavras que venham de dentro de ti, inventa palavras para mim. Olha-me nos olhos, toca-me, cobre-me com a música do teu olhar, cobre-me com a doce toada das tuas palavras. Olha como fecho os meus olhos para melhor sentir a tua presença. Chega-te a mim. Cheira-me. Diz que cheiro a erva fresca, a laranjas, à aragem que faz dançar os pinheiros, ao fundo do mar. Cobre-me com o perfume das flores, com o canto dos pássaros, com o calor do teu corpo.
Desenha-me. Diz-me que sabes de mim o que eu não sei, inventa-me, pinta-me de azul ou de mar ou de cor de fogo e depois deixa que a luz da tarde tinja os meus cabelos, deixa que se saiba que arde em mim a chama da saudade, ah como me arde esta saudade, deixa que as palavras voem em volta de mim e da tua mão que me pinta, deixa à vista de todos o pássaro inventado que em mim canta e grita e, como um louco, ri sem parar, deixa à vista o meu coração que não sabe esconder-se ou parar de sonhar. Diz-me. Diz-me devagar o que sabes de mim, diz-me devagar que me queres.
Diz-me. Conta-me como me vês. Desenha-me. Com cores. Apenas com traços. Apenas com palavras.
Diz-me. Conta-me como me vês. Desenha-me. Com cores. Apenas com traços. Apenas com palavras.
Ou não.
Deixa. Não digas nada. Não faças nada. Não me desenhes.
Deixa. Não digas nada. Não faças nada. Não me desenhes.
(Eu já sei como me vês).
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É assim
Tilda Swinton diz 'Like This' de 'The Essential Rumi'
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Hung in Time: John Berger desenha Tilda Swinton
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As imagens mostram trabalhos respectivamente de John William Waterhouse e Leonardo da Vinci
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E aceitem o meu convite e queiram continuar a descer
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