sábado, junho 06, 2026

Colheita Feira do Livro de Lisboa 2026

 

Cá estão eles, conforme ontem tinha dito. 

Mas, antes de transcrever uma página de cada, explico porque os comprei.

  • Comprei o livro da Carla Pais e o do Nuno Duarte pois foram vencedores de prémios Leya e tenho curiosidade em perceber que género de livros estão os jurados a valorizar. Em concursos alguns anteriores, li-os e fiquei intrigada pois não consegui levá-los até ao fim, mal acabava de ler já me tinha esquecido do que tinha lido (e até tenho boa memória), e, enquanto os lia, não via interesse nem na história nem no rasgo literário. Claro que pode ser um problema meu, ou pode acontecer que, nessas vezes, eu estivesse a passar por uma crise aguda de exigência. Por isso, vou fazer nova tentativa com os dois últimos.
  • Comprei o '1984' pois acho que já o li mas, ao vê-lo no stand, ocorreu-me a dúvida se o teria. Como estava a um bom preço, pensei que mais valia trazer não fosse já não o ter cá em casa.
  • Comprei o da Lídia Jorge pois acontece que também tenho alguma dificuldade em manter-me interessada quando tento os seus romances. Como fez um grande discurso o ano passado no 10 de Junho, em Lagos, e está incluído neste livro de crónicas e não a conheço enquanto cronista, resolvi trazer.
  • Comprei o da Siri Hustvedt porque tenho simpatia por ela e porque gosto de ler memórias e tenho curiosidade em acompanhar a sua vida, não apenas enquanto mulher e viúva de Paul Auster, mas também enquanto pessoa autónoma e escritora.
  • Comprei o de Leonardo Sciascia porque o Paulo Portas o recomendou e, até ver, quando seguimos as suas recomendações, não nos temos dado mal.
  • Comprei o de Laura Agustí porque gostei da capa e porque fala de flores.

E agora a transcrição de uma página de cada livro. Fotografei e pedi à IA para passar a imagem a palavras. 

------------------------

(...) possibilidades: ou a senhora Roscio e o seu primo tinham sido surpreendidos em flagrante crime de adultério, como se diz nos processos verbais da polícia; ou Roscio não tivera qualquer suspeita, mesmo fundamentada, da sua ligação. No primeiro caso, devia reconhecer-se um comportamento muito estranho: ver, declarar friamente ao amante da sua mulher a intenção de o esmagar ali; depois, organizando a vingança, manter com o homem odiado um relacionamento cordial. No segundo caso, ficava por explicar como Rosello tinha sabido o que Roscio tramava contra ele. Havia, é verdade, uma terceira hipótese: que a senhora Roscio, inocente, tivesse sido seduzida, enganada, pelo primo, perseguida pelas suas assiduidades, e tivesse avisado o marido, ou, ainda, que o marido se tivesse apercebido disso. Mas, nesta última hipótese, assegurado da fidelidade da mulher, Roscio ter-se-ia limitado a modificar ou a romper as suas relações com Rosello. A sua compreensão e a sua tolerância para com as paixões humanas, perante esta ofensa irreparável, mesmo que apenas projectada, não podiam ter evoluído até ao ponto de procurar uma vingança irreparável.

Poder-se-ia, todavia, considerar que ele não tinha ido encontrar-se com o deputado comunista a não ser para verificar se este estava disposto à denúncia; que ele não tinha ainda resolvido exercer a sua vingança, e havia, aliás, claramente declarado ao deputado que devia ainda decidir que lhe diria tudo ou nada, segundo... Segundo o quê? Segundo o quê, sob a ameaça, Rosello mudaria ou não de comportamento?

Por conseguinte, ao ameaçá-lo abertamente, Roscio tinha-lhe posto uma condição? Era necessário, neste caso, voltar à primeira hipótese: a uma maneira mais estranha de se comportar, no estilo floreado continental, ou de cinema, da parte de um marido enganado mas apaixonado pela sua mulher, decidido a conservá-la contra todos e contra tudo. E embora Laurana julgasse severamente toda a maneira de viver governada pelas paixões, particularmente pelas do amor-próprio e da honra, não podia fazer de outro modo que o de sentir, na sua hipótese, uma falta de respeito pela memória de Roscio: era por isso que fazia todos os esforços por a demolir, por a aniquilar. Mas seja qual for a maneira como se encare o assunto, este tinha algo de equívoco, de ambíguo: mesmo que não aparecessem ainda muito claramente as relações de causa e efeito, as relações dos protagonistas entre eles, dos elementos de que dispunha com o mecanismo do crime. E no equívoco, na ambiguidade, Laurana sentia-se moral e sensualmente implicado. (...)

in 'A cada um o seu' de Leonardo Sciascia

-----------------------------------------

Na primavera, o jardim da minha mãe torna-se um espetáculo de calêndulas e outras flores, que crescem com vigor, e ela envia-me sempre fotografias para que eu veja como evolui cada uma das plantas. O jardim, quadrangular e quase tão amplo quanto a casa, tem uma secção dedicada à horta, onde o Francesco, o seu companheiro, planta curgetes, pimentos, tomates, beringelas, alhos e cebolas. Todos os anos acaba por semear mais do que o necessário, e a colheita é tão generosa que a minha mãe costuma repartir as verduras entre as amigas, para que nada se perca. Apesar das suas tentativas de convencer o Francesco a plantar menos, ele entusiasma-se sempre com a horta, como tantos outros reformados que encontram na jardinagem uma forma de se manter ocupados e produtivos.

Quando construíram a casa, a horta era uma das ideias-chave do Francesco. Instalaram mesmo uma cisterna para recolher a água dos telhados e poder assim regar sem depender da rede pública, um recurso especialmente valioso numa província seca como Teruel. Agora estão a pensar em ampliar a cisterna, devido ao aumento de restrições ao consumo de água.

A calêndula, que cresce com abundância no jardim, é uma planta bastante resistente, que não exige muito da terra e tolera bem tanto as geadas como as secas. Além de ser decorativa, tem aplicações práticas: as pétalas podem substituir o açafrão-das-índias como corante, e as propriedades anti-inflamatórias e cicatrizantes fazem dela uma base ideal para a confeção de cremes caseiros. Todos os anos, a minha mãe aproveita a colheita de calêndulas para fazer o seu próprio creme, e eu guardo os boiões vazios do que gasto durante o ano para que ela possa enchê-los com a sua produção artesanal. (...)

in 'Furor Botânico' de Laura Agustí

---------------------------------------------------

(...) corre que se desunha, rapaz, se queremos que aprendas a ler em condições devemos correr atrás dele, quando não, será tarde demais, dizia-lhe isto porque nunca voltava inteiro das ausências, ficava sempre mais qualquer coisa perdida naquele vácuo para onde desaparecia enquanto o Victor lhe enchia o cachimbo com tabaco e o calcava no fundo, era como uma parede a que iam sendo retirados tijolos, seria chegado o dia em que desabaria, e nesse dia não haveria nada mais a ensinar e nada mais a aprender. Não tem filhos?, perguntou-lhe o Victor, e o Ângelo respondeu, tenho três, mas têm mais o que fazer do que aturar um velho rabugento, moram longe, um está na Alemanha, outro no Canadá, o terceiro é professor universitário em Coimbra, vê lá tu, e o Victor disse, o meu irmão vai para a Universidade, não sei se para Coimbra, e o Ângelo respondeu, pois faz muito bem.

O Vicente deu-lhe uma palmadinha no ombro e disse, anda lá, vá, disse-lhe aquilo e ele foi como foram todos, mas o que o apoquentava desde esse dia não era ter ido, era ter sido o último a ir como se algo dentro de si dissesse, fica, fica, fica, a coisa má dos Tirapicos, uma espécie de desejo mórbido de ser preso outra vez, uma vontade de se vingar do flato do pai, ter um filho ladrão e também subversivo, talvez até comunista, porque não?, o que não faltava em Alcântara eram reuniões clandestinas do Partido, se quisesse mesmo muito poderia aderir, fazer parte, mas nesse caso seria o comunista mais estúpido de sempre porque estaria a arriscar a prisão e a tortura apenas e só por despeito a um velho agonizante, e não por acreditar naquilo, sabia lá ele em que é que acreditava, tudo o que conseguia distinguir era aquilo em que não acreditava, sempre era melhor do que nada, e não acreditava nos cabrões dos americanos que diziam que a grua tinha sido verificada na semana anterior. Deu outra vez por si de punho (...)

in 'Pés de Barro' de Nuno Duarte

----------------------------------------------------

(...) escala, sem sabermos como sair deste imbróglio. A questão não é de deformação por uma espécie de justiça essencial como a que movia Maria das Dores, ou pelos sentimentos contrários que tenham a ver com poder ou ressentimento. O problema é da ordem do embate entre o antropológico e o tecnológico em cuja encruzilhada nos encontramos perplexos. Li num artigo assinado pelo jornalista José Vegar que «a quantidade de informação transmitida por telecomunicações durante todo o ano de 1986 poderia ser transmitida em apenas dois milésimos de segundos em 1996».

Vinte e oito anos depois, a estrela irradiante que é a pulsão comunicacional como é descrita? Não tem descrição possível. Um mundo inimaginável de imagens, números e sinais crípticos expande-se pelo universo e leva-nos na enxurrada. O que entra nessa cadeia infinita não se retira mais, ainda que se apague. Esta é a eternidade que criámos. A responsabilidade por colocar mensagens que tenham a ver com a verdade nesta cadeia transfiguradora deveria por isso inserir-se na Ética e na Moral. Mas onde bater à porta de semelhante igreja?

5.

O ano de 2024 que agora entra, se acaso a História continua a ter parecenças com a lógica de uma narrativa, depois dos nós que se ataram, sobretudo desde há dois anos, estas guerras devem começar a ter suas peripécias definitivas e seus desenlaces, ao longo dos próximos meses. É possível (...)

in 'O céu cairá sobre nós' de Lídia Jorge

--------------------------------------------------------

(...) que a criança se perdesse no seio dos homens de barba feita e pés valentes, fizera-se ali um lugar para ele por ter aquele dom de falar com as pedras e por trazer àquelas almas uma certa curiosidade envolta de misticismo. Era preciso acolher aquele enviado, vigiar todos os sinais que o corpo transmitisse. Cada palavra, dita ou por dizer, podia significar uma profecia de oráculo que decifrasse a vontade de Alá. Davam-lhe livros sagrados a estudar, a decifrar, a ler em voz alta num refúgio da mesquita a que apenas os homens cultos tinham acesso. Uma espécie de quarto recôndito que se fizera para ouvir e refletir sobre as palavras do Profeta e assim preparar o sermão da sexta-feira para os fiéis. Mohamed fizera-se homem dentro daquele lugar. A cumprir o desejo do pai e a cava fé da mãe, orgulhosa que ficava a olhar para ele como um salvador tocado pela divindade e, por isso, aliviada das possíveis agruras que a vida lhe pudesse reservar. Bastava-lhe aquela ideia de que o filho mais novo trazia consigo as vontades cumpridas de um Deus. Trajado a preceito, com brio e esmero, a crescer sob uma bênção maior. Um saber inteiro que a escola não podia dar naqueles tempos de que só os escolhidos de Alá teriam o privilégio de desfrutar. Mohamed era, portanto, a voz materializada da crença e o menino que havia de estudar mais do que os outros. Mas, ao contrário do que se poderia imaginar, toda aquela doutrina lhe veio acentuar o silêncio e a mudez; foi-se calando ao longo dos anos, governando as vozes dentro de si, emudecendo-as com o passar do tempo, ora de mudos não se rege a religião, por isso, certo dia, o imã chamou o pai de Mohamed para lhe dizer que de nada lhe valia ter ali o filho, que ali só havia lugar para gente que adorasse as palavras e se vergasse às preces do Profeta, o que aparentemente não era o caso do miúdo. Isto, claro está, foi um grande desgosto para a mãe, que até ali via em (...)

de Carla Pais em 'A sombra das árvores no inverno'

-----------------------------------------------------------

(...) que o que tinham antes. Estavam a dançar à porta do Michel. Ele vive pertinho da Bastilha e telefonou-nos por entre a barulheira toda. Acho que vou deixar a política pelo amor, não são coisas completamente separadas uma da outra, como é óbvio. Contei-te os horrores da minha doença para evocar a tua mais profunda e sincera compaixão pela tua pobre querida no Soho, atormentada por duas aflições: o coração e a cabeça. Espero que tenha resultado. Estás pronto para fugir comigo agora? Contento-me com um café. Que tal um café, sem beijos nem abraços. Pode ser um café perfeitamente espiritual para exibir a minha alma em toda a sua radiosa pureza. Se um café for demasiado íntimo, contento-me com fazer amor ao telefone. Como vai a vida? Esta palermice toda é só para te dizer que parece que passou uma eternidade e que tenho mais saudades tuas por não saber se e quando te verei. Acho que és o melhor do mundo e é muito triste perder o melhor.

Com amor,

Siri

Lembro-me da dor de cabeça. Passou depois de uma violenta explosão gastrointestinal na sanita que me deixou trôpega e zonza, mas sem dores. Diarreia-choque como cura milagrosa.

Demerol? Quando andava na faculdade, um médico receitou-me um medicamento para uma enxaqueca obstinada que continha Demerol, um opiáceo, nos ingredientes. Deu-me sete cápsulas roxas e vermelhas. A dor de cabeça durou mais de um ano e, depois, passou. Guardei aqueles comprimidos para tomar caso tivesse uma dor que me parecesse insuportável. Teria sobrado algum? Parece-me pouco provável. Não me lembro de arranjar uma receita para Demerol em Nova Iorque, mas talvez o tenha feito. (...)

De Siri Hustvedt, em 'Fantasmas, um livro de memórias'

--------------------------------------------------------------------

(...) meia-volta. Um rapaz com cabelo louro e cara de parvo chamado Wilsher, que ele mal conhecia, convidava-o, sorridente, a sentar-se num lugar vago à sua mesa. Não era seguro recusar. Depois de ter sido reconhecido, não podia continuar e ir para a mesa duma rapariga sozinha. Daria demasiado nas vistas. Sorrindo amavelmente, Winston sentou-se ao pé dele. O loiro Wilsher arvorava o seu sorriso parvo e radiante. Winston teve uma alucinação e imaginou-se a cravar-lhe uma picareta no meio da cara. Poucos minutos depois, a mesa da rapariga ficou inteiramente ocupada.

Mas ela devia tê-lo visto avançar na sua direcção, e talvez tivesse percebido a dica. No dia seguinte, Winston teve o cuidado de chegar mais cedo. E de facto ali estava ela, sentada mais ou menos no mesmo local e novamente sozinha. A pessoa imediatamente à sua frente na fila era um homenzinho com movimentos rápidos de percevejo e uma cara achatada, com uns olhitos pequenos e desconfiados. Quando se afastou do balcão com o seu tabuleiro, Winston viu que o homenzinho avançava a direito para a mesa da rapariga. As suas esperanças desvaneceram-se de novo. Havia um lugar vago numa mesa mais à frente, mas algo na aparência do homenzinho sugeria que ele apreciava suficientemente o conforto para escolher a menos ocupada. Com gelo no coração, Winston seguiu-o. Seria inútil se não conseguisse apanhar a rapariga sozinha. Nesse momento ouviu-se um grande estrondo. O homenzinho estava estatelado no chão, o seu tabuleiro voara pelos ares e havia dois jorros de sopa e café a escorrer à sua frente. Levantou-se e deitou a Winston um olhar feroz, parecendo suspeitar que este lhe passara uma rasteira. Mas estava tudo bem. Cinco segundos depois, com o coração a ribombar no peito, Winston estava sentado à mesa da rapariga.

Não olhou para ela. Colocou na mesa o conteúdo da bandeja e começou de imediato a comer. Era importantíssimo falar de imediato, antes que chegasse alguém, mas entretanto apossara-se dele um medo terrível. Passara uma semana desde que ela o abordara. A jovem podia ter mudado de ideias, podia ter mudado de ideias! Era impossível que aquela aventura acabasse bem; essas coisas nunca aconteciam na vida real. Winston podia ter recuado completamente na intenção de lhe falar se nesse momento não tivesse avistado Ampleforth, o poeta de orelhas peludas, a coxear pela sala com um tabuleiro nas mãos, à procura de um lugar

de George Orwell em 1984

____________________________________________

Desejo-vos um belo sábado

sexta-feira, junho 05, 2026

Dia bom, com ida à Feira do Livro (um gelado, vários livros).
E, para acabar, um vídeo todo fake.

 

Pode ser que amanhã mostre os livros que trouxe. Hoje não. Só faço bocejar. Estou com uma soneira tal que nem dá para imaginar. Acordei mais cedo do que devia e, em vez de voltar a adormecer, fiquei acordada a tentar descobrir se estava sozinha em casa ou se estavam apenas silenciosos. Depois ouvi o portão e percebi que estavam a chegar. Tentei perceber se já seriam horas de acordar ou se ainda era muito cedo. Claro que poderia ter-me levantado e ir ver as horas, mas tive receio de espertar. Já houve tempos em que tinha, na mesa de cabeceira, um relógio despertador. Agora, tudo isso caiu em desuso. Quando quero saber as horas, vejo no telemóvel. Mas geralmente não o tenho ao pé de mim.  Com isto, não voltei a adormecer e fiquei com um défice de horas dormidas.

Depois fui à Feira com a minha filha. Ela ainda se lembra das horas abaixo e acima quando ela e o irmão eram pequenos. Também me lembro. Íamos pelo menos duas vezes em cada feira, mas geralmente mais. Por vezes, no fim do dia de trabalho, ia lá numa corrida. Era muito viciada em livros. E lembro-me ainda antes, quando a Feira ainda era na Avenida da Liberdade e eu, sozinha, ainda miúda, por ali andava nas minhas sete quintas. Também me lembro de ir com os meus pais, sempre era uma maior capacidade de investimento do que quando ia sozinha e esticava a mesada para dar para alguns livros.

Agora a Feira está enorme, mas dá ideia que mais de metade dos livros são treta, tanga, muita cor e fantasia, mas conteúdo nulo. Mesmo alguns dos livros mais afamados, supostamente comercializados por editoras 'sérias', abrem-se e o que se vê são redacções básicas, conversa para encher chouriços, palavras desprovidas de vida. No meio daquela barafunda, desfoco-me, desconcentro-me, até porque se me focasse precisaria de muito mais tempo. Mas sobretudo, a falta de sobriedade das capas, o ruído de 'mercado', de feira popular, a confusão, tudo isso me causa algum agastamento. Também me dá um bocado de pena os escritores que ali se põem à espera que lá vão ter com eles. Nunca percebi qual a lógica ou a vantagem. Parece-me uma exposição um bocado artificial, senão mesmo humilhante. E depois há longas filas para pessoas que não se sabe quem são mas que, pelos vistos, vendem livros. Enfim, aquela já não é bem a minha praia. Ainda assim, trouxe sete livros. A ver se amanhã os mostro.

E jantámos em casa da minha filha, naquela sua ampla, bem temperada e luminosa casa. Os rapazes cada vez maiores, já só a quererem laré, cada um com as suas combinações. Ainda não há muito, era a mãe e o tio deles também sempre a saírem com os amigos. É bom que sejam sociáveis, que arejem as cabeças, que pratiquem desporto, que tenham amigos, que gostem de conviver.

Entretanto, íamos recebendo mensagens: o outro futebolista, o mais novo dos três guarda-redes (só o mais novo não saiu guarda-redes, e a menina é do vólei), estava num torneio de dia inteiro, a família foi torcer, e o pai ia dando notícias. Depois um vídeo, ele a defender um penálti, o pessoal a gritar pelo nome dele. Ao fim da tarde, tinha passado e ia para mais um jogo a ver se ficavam por ali ou se iam à final. Foram à final. E, por fim, já bem de noite, a vitória: venceram o torneio. E, para rematar, ele, todo feliz, com a taça na mão. Campeão. mais lindo

Entretanto, nós dois, quando regressámos à noite, ainda fomos passear com o cão mais fofo.

Com isto, só chegámos à sala tarde e más horas. O meu marido ligou a televisão, estava a dar o Eixo do Mal. Fiquei um bocado surpreendida, não sei porquê parecia-me sábado. Depois caí na real, qual sábado?, era quinta-feira. Seja como for, fiz um esforço para não dormir mas a impressão que tive é que não estive sempre acordada pois estou com dificuldade em lembrar-me do que disseram.

Agora liguei o computador e, ao abrir o youtube, apareceu-me um vídeo extraordinário. Às primeiras, vamos na inocência, uma pessoa até fica na dúvida se é verdade. Mas, quando se pára para pensar, percebe-se que é invenção, fake do mais fake que pode haver. Já há algum tempo me tinha parecido no Instagram mas aparece tanta coisa feita por IA que, mal me parece tanga, sigo adiante. Neste caso, fiquei a olhar e a tentar perceber, sob o ponto de vista de programação ou da física, se seria possível e a minha opinião foi que nem pensar. Por exemplo, fazer implantes capilares em segundos? No way. Mas, por via das dúvidas, perguntei às IA's. Embora me digam que já há robots que cortam e  lavam cabelos e massajam cabeças, ainda não fazem tranças nem fazem nascer cabelo. Claro.

Mas a verdade é que se, para já, não existem tais máquinas, a IA já consegue forjar uma realidade em que isso é possível. E, cada vez mais, vai sendo mais difícil perceber com exactidão onde está a fronteira entre o que é verdade, embora extraordinário ou extra-futurista, e o que é forjado.

De qualquer maneira, aqui fica desde já o meu veredicto. Caso haja por aí quem esteja mesmo a pensar fazer máquinas destas: a mim é que não me apanham a enfiar a cabeça numa coisa destas ou a deixar que uma cena daquelas me aspirasse o cabelo sabe-se lá para fazer o quê. Olha se o cabelo se ensarilhava lá para dentro e não conseguia tirar a cabeça a menos que lá deixasse ficar o cabelo todo... Ou se a máquina se engana e me pinta o cabelo de roxo e faz mil trancinhas, impossíveis de desfazer... Ná, not me.

Mas vejam lá o despautério (e não se deixem ir em cantigas, é tudo aldrabice):

Testaram estas máquinas de cabelo do futuro… Ninguém esperava por isto.

As máquinas de cabelo do futuro estão a começar a mudar a forma como o cabelo é penteado. Nesta compilação, são testadas diversas tecnologias capilares avançadas em demonstrações reais.

Desde sistemas automatizados de tranças a máquinas de styling futuristas, estes dispositivos de última geração podem transformar o cabelo em segundos.

Veja o vídeo completo e veja como funcionam estas máquinas de cabelo do futuro na prática.


Desejo-vos uma feliz sexta-feira

quinta-feira, junho 04, 2026

NotebookLM

 

Estava a falar com o meu filho sobre as minhas experimentações em volta das diferentes ferramentas de Inteligência Artificial e ele falou-me no Notebook LM, uma ferramenta google que cria bases de conhecimentos privadas, analisando a informação que lá metemos, permitindo associar-lhe notas ou o que quisermos.

Fiquei logo altamente curiosa. No outro dia tinha feito uma experiência com o Claude, enfiando-lhe uma série de exames médicos relacionados com um episódio cardíaco e fiquei espantada com os resultados.

Hoje, mal me apanhei aqui no sofá, fui experimentar este NotebookLM. 

O meu ponto fraco, a nível físico, são as articulações, em especial os joelhos. Penso que seja um misto de genética, de anos de vida sedentária, intercalados por grandes esforços físicos. In heaven acartei com toneladas de pedras. A minha mãe ficava aterrada quando me via, dizia que o meu corpo iria dar de si. E, uma vez, falaram-me que não havia nada melhor para o chão de madeira do que a vaselina líquida. Claro que fui experimentar. Estava a aplicá-la, quando desataram a tocar à campainha. Aquilo era para dar e depois secar, pois, quando se dava ficava manteiga, deslizava como sei lá o quê. Mas, para ir ver quem era, levantei-me à pressa e, esquecida de ter cuidado, levantei voo, e de que maneira, e aterrei aparatosamente de joelhos. Tive uma dor monumental e pensei que tinha esfanicado os joelhos, partido todas as pecinhas que os compõem. Mas não, ficaram só muito doridos. Durante bastante tempo, andei aflita. Mas nem me ocorreu ir ao médico, limitei-me a esperar que passasse. E passou. Mas, seja porque é de família (o lado paterno padeceu de dores), ou dos maus tratos, a verdade é que volta e meia tenho alguma inflamação articular ou alguma dor muscular. Como durante anos frequentei o mesmo local de saúde, tenho praticamente todo o meu historial médico lá guardado. Então, agora estive a dar-me ao trabalho de entrar no portal, ver exame a exame, e, se tivesse a ver com o tema ou com análises feitas numa dessas alturas, descarreguei. 

Com tudo descarregadinho, abri o dito NotebookLM e criei o meu primeiro notebook privado. Meti lá para dentro 20 relatórios médicos (incluindo algumas imagens). E pedi uma cronologia e uma análise.

E a vantagem é que agora fica ali tudo guardadinho naquele notebook, não apenas os exames, como as análises 'dele' e, ainda, toda a conversa subsequente -- porque, claro está, desatei a fazer perguntas. E aquilo vai mais longe: sugere perguntas, e algumas pertinentes e de que eu nem me lembraria. Tudo guardado.

E o que 'ele' concluiu, mais uma vez, deixa-me a modos que siderada. E deixa-me assim porque constato que só uma máquina, uma máquina super aditivada, consegue, num abrir e piscar de olhos, ler todos os relatórios, analisar evoluções ao longo de anos, cruzar informação. Claro que ninguém vai para o médico de família carregado de relatórios desde antes de cristo até agora. Não há tempo ou capacidade de análise imediata de tanta informação. Impossível. Só tirando apontamentos e mais apontamentos -- mas quem é que teria tempo para fazer isso?

Perante o que vi, não tenho dúvidas que, para cada utente do SNS, deveria haver uma base de dados que juntasse todo o seu historial clínico, proveniente de onde fosse, incluindo de hospitais privados. E, de cada vez que qualquer médico, estivesse onde estivesse, deveria aceder a esse historial, tendo-lhe a Inteligência Artificial preparado um relatório de síntese, alertando para os pontos críticos, sugerindo questões ou novos exames.

No meu caso concreto, não vou estar agora aqui a entrar em detalhes que só me interessam a mim mas, por exemplo, 'ele' (ele, o notebookLM), assinalou como causa provável para as minhas crises algo de que nunca nenhum médico me falou, provavelmente porque não repararam e porque isso ficou perdido num relatório que nunca mais ninguém viu:  Constatou, num rx de 2016, o seguinte ->  Desequilíbrio Mecânico da Bacia, concretamente um supradesnivelamento de 8 mm à direita. E sugere que este desnivelamento pode ser a causa de grande parte dos problemas. Se for, resolve-se com palmilha. Imagine-se. Se ele, ele com aspas, tiver razão, os problemas que eu poderia ter evitado... Mas é a primeira vez que estou a saber disto.

Depois detectou, ao longo dos anos, uma tendência relativa ao funcionamento da tiroide. Nas últimas análises em que isso aparecia, e já lá vão uns 4 anos, ainda não era crítico mas a tender para o sub-clínico. No entanto, nunca mais ninguém pediu essa análise. Se já estiver mais elevado, também explicaria muita coisa.

A Inteligência Artificial é uma coisa tão extraordinária que, nas mãos erradas, representa riscos existenciais. E disso eu não tenho dúvidas. Mas, bem usada, traz vantagens se calhar também existenciais. Quando se diz que dentro de pouco tempo terá sido descoberta a cura para todas as doenças, isso tem tanto de magnífico como se terrífico. 

Agora, pensando apenas em usos benéficos, há que considerar o tempo de aprendizagem, a adaptação de todos, da sociedade no seu conjunto. Em vez de se andar a querer impingir leis laborais ou a discutir tretas, não seria mais ajuizado se a sociedade se mobilizasse para ver como lidar com a Inteligência Artificial? Como assegurar o seu bom uso? Como potenciar os seus benefícios? E, ao mesmo tempo, como impor linhas vermelhas?

Por exemplo: tendo eu esta informação clínica a meu respeito, compilada, analisada, interpretada, posso eu fazer alguma coisa com isso? Duvido. Para começar tenho que pensar como é que, com muito jeitinho, posso transmitir alguma coisa ao meu médico de família sem que ele fique furioso, a achar que quero saber mais que ele.

É um tema, este. E coloca-se em todas as profissões, ou quase todas.

Neste caso da saúde, se eu estivesse no Ministério da Saúde, encomendava já o projecto de que acima falei: criar um modelo de IA para concentrar toda a informação clínica de todos os utentes num único sistema, criando 'notebooks' para cada um, e gerando os relatórios, alertas e sugestões para que cada médico, ao receber cada doente, tivesse essa informação. 

Enfim. Não tenhamos dúvidas: estamos a entrar num mundo novo que era bom que fosse admirável (no bom sentido).

_______________________________

Desejo-vos um bom feriado

quarta-feira, junho 03, 2026

Noah Eckstein, um jovem graduado em Harvard e gerado na intersecção de culturas e religiões, faz um discurso que vai lá, vai

 

Quando uma pessoa passa a ser um obstáculo ou quando alguém que não pensa ou sente como nós passou a ser um inimigo, sabe bem ouvir alguns alertas ditos por um jovem, no caso um jovem graduado de Harvard.

Seria bom que a moda pegasse e que viesse dos mais novos a vontade de voltar a colocar as pessoas, o respeito pelo ser humano, no centro de todas as políticas. Seria bom que se pusessem de acordo numa nova carta de intenções, numa nova tábua de mandamentos.

Avanço já com os que eu juraria defender:

  • Não matarás. 
  • Não destruirás a casa do outro. 
  • Não separarás famílias. 
  • Não enviarás ninguém para a guerra. 
  • Não desviarás fundos do desenvolvimento, da investigação, da ciência, da cultura e da paz para os gastar na guerra. 
  • Não desejarás território alheio. 
  • Não mentirás para justificar os teus maus actos. 
  • Não quererás enriquecer quando isso implica deixar alguém na miséria. 
  • Amarás os outros mesmo quando não pensam como tu e não são destilam e praticam a maldade
  • Acolherás os outros, mesmo quando nasceram noutros lados e têm a pele de cor diferente da tua. 
  • Pensarás no futuro e na felicidade das pessoas antes de tomar decisões que os possam comprometer
Noah Eckstein não fala nestes mandamentos mas, de certa forma, estão subjacentes a uma cultura de bondade e de inclusão, de democracia e  de liberdade.

Vale a pena assistir ao vídeo.

Noah Eckstein profere o discurso de formatura | Cerimónia de Formatura de Harvard 2026


Desejo-vos um belo dia

terça-feira, junho 02, 2026

Cenas da vida de um casal

 

Estive ocupada cá com a minha vidinha, coisas que meto na cabeça fazer e que me ocupam bastante, sabe-se lá se com resultados algum dia atingíveis. Mas sou discípula daqueles que diziam que só são vencidos os que desistem de lutar. 

Como continuo a ser a mesma -- quando meto na cabeça que tenho uma coisa para fazer, não descanso enquanto não a faço --, trabalho no assunto horas a fio sem me cansar, sem me desviar. O meu marido pasma com o meu regime, com a minha capacidade de me manter focada durante tanto tempo, apesar de não ter qualquer perspectiva de vir a ser bem sucedida. Nunca trabalhou no mesmo sítio que eu pelo que não sabe que, no que se refere a trabalho, é assim que sou. Isto agora não se pode dizer que seja um trabalho propriamente dito mas, pelo menos, é um projecto. Pode ser um projecto mais lírico do que pragmático. Mas é um projecto e lutarei para que se concretize.

Com isto, a televisão passa-me praticamente ao lado. Mesmo as notícias me parecem um carrossel que anda em volta sem sair do mesmo lugar. Espreito as novidades do dia, e está feito, fico informada q.b. Os jornais da noite alongam-se, alongam-se, metem reportagens e trapalhadas pelo meio, esticam a duração até mais não. Espreito o que se segue a isso, e ou é o Joker com o Palmeirim sempre com piadas secas, coisa que me deprime, e, portanto, evito, ou são novelas da treta na SIC para as quais não tenho qualquer pachorra, ou a xaropada indigente dos intermináveis big brothers e afins na TVI, o que faz com que, há anos, nunca paremos neste canal, ou são debates sobre tudo o que mexe, gente saída sabe-se lá de debaixo que pedra e para cujo peditório não me peçam para dar. Na Dois às vezes há coisas interessantes mas é preciso estar concentrado pois muitas vezes falam línguas que não domino e, portanto, requerem que esteja só a ver televisão para ler as legendas. Ora gosto é de estar com um olho no burro e outro no cigano e, portanto, se não posso, abdico. O meu marido, por ele, vê ténis, o Roland Garros, ou futebol. Eu desando e vou para a minha vida.

Ele, como todo o dia anda ocupado com desbastes, limpezas de terreno, corte de rebentos ladrões, etc., chega à noite e dá-lhe o sono. Portanto, ao fim de um bocado, a televisão fica a falar para o boneco. 

Claro que nessas suas actividades diárias o que não falta são disparates. Gosta do que faz mas não consegue ser cuidadoso, atento. Por exemplo, a última. Num canteiro, havia um arbusto grande, de nome Ivone, que era preciso aparar. Em volta desse arbusto estava a enlear-se uma coisa que não sei como se chama, uma espécie de hera selvagem, que cresce doidamente e que pica. Então, eu tinha-lhe dito que era preciso arrancar essa hera e desbastar um bocado o arbusto. Ouvi-o andar não sei se com a serra eléctrica, se com a roçadora ou o aparador. Não fui ver senão não faço outra coisa senão andar atrás dele. Confiei. 

Fiz mal. Quando vi, fiquei para morrer. Tive que respirar fundo cinquenta vezes. Noutras alturas, quando eu estava na flor da idade, dispararia em direcção a ele, capaz de engoli-lo vivo. Agora, com a sabedoria que a idade madura me está a trazer, prudentemente afasto-me dele. E espero que a fúria me passe. Só quando o vi, tentando mostrar toda a calma do mundo, lhe disse: 'Há algum motivo para teres dado cabo da Ivone?'. Ficou espantado. Ao fim destes anos todos, ainda não aprendeu que a defunta se chamava Ivone. Expliquei, com a calma possível: 'Cortaste, deste cabo, acabaste com a Ivone. O arbusto verde com nuances douradas. Não sobrou nada.'. E apontei para o espaço vazio. Com aquele ar de sonso que tão bem conheço, respondeu: 'Não disseste que era para arrancar?. Mais uma vez tive que fazer cinquenta respirações, e das profundas. 'Arrancar a erva daninha, a hera, não a legítima. Obviamente não era para assassinares a Ivone'. De novo, tentou a abordagem do costume, desvalorizar: 'Volta a nascer'. 

O pior é que não: não volta a nascer, deu cabo dela. 

Mas depois fico a pensar: o mal está feito. Por muito que eu estrebuche ou estabeleça tácticas de vingança, a Ivone não vai ressuscitar. Poderia pensar: 'Enganos destes não podem passar impunes, senão vai continuar a fazê-los'. Mas sei que, de uma maneira ou de outra, vai. Não distingue espécies, gosta é de cortar a eito. Portanto, tenho é que pôr o coração ao alto.

Enfim. É o que é.

Ao fim da tarde, o tempo tinha mudado, estava vento, a tender para o frio. Fui dar uma volta mas tive que voltar a casa para buscar um agasalho. No caminho, atravessou-se à minha frente, a correr, um pequeno bicho, peludo e quase preto. Dorso arqueado. Fiquei parada, de espanto. Não há coelhos ou esquilos pretos. Então o que foi aquilo? Ainda me enfiei pelo meio das pedras e das ervas a ver se via alguma coisa, mas os bichos são espertos e dissimulados. Por isso, não vi nada. Saí foi toda arranhada nas pernas.

Para o jantar, o meu marido comeu lombinho de porco estufado, acompanhado por legumes, mas eu ando cada vez mais a tender para a simplificação em tudo, até nos jantares. Como tinha um resto de iogurte grego, magro, juntei-lhe um bocado de kéfir, um bocado de queijo cottage, um bocado de uma mistura de sementes, umas cinco amêndoas, cinco ameixas secas, quatro ou cinco morangos e meia banana. Misturei. Soube-me lindamente. E fiquei bem.

E agora fico-me por aqui, a noite já vai avançada.

Desejo-vos uma boa terça-feira.

segunda-feira, junho 01, 2026

Mato cortado, calças cosidas, calças vintage
-- Sobre o que fizeram ao Juiz Ivo Rosa terei que deixar para outro dia --

 

O chamado mato está já praticamente todo cortado e, felizmente, desfeito. Num terreno contíguo, andaram a cortar e o que eram arbustos e ervas verdes são agora montes de folhagem seca, verdadeiro combustível. Há muita pedagogia a fazer pois o que se faz para cumprir a lei é aumentar o risco de incêndios. Também nós já recebemos um aviso e uma coima porque não cortámos alecrim e rosmaninho, verdes, porque a GNR, de longe, vendo a partir da estrada, não viu a terra nua mas sim campo verde e entendeu que não tínhamos cortado o mato. É um problema. Mais do que imposições absurdas deveria haver campanhas informativas, vídeos exemplificativos. 

E temos visto que, nesta preocupação de cortar o mato, muita gente faz avançar tractores ou roçadoras e ficam os campos cheios de mato seco, muito pior do que se estivesse fresco, na terra.

Mas, enfim, cortámos tojo e silvas e, claro, compreendo que não lhes é fácil andar a distinguir pé a pé de flor, e, portanto, em grandes zonas, cortaram tudo o que estava sob as árvores. Mas as máquinas são fantásticas pois, no fim, a terra está fofa, atapetada, tudo desfeito, não fica qualquer vestígio do que foi cortado.

O que ainda não conseguimos resolver, mas temos esperança de que o será durante este mês é a remoção da lenha, mas isso pensamos que cá virá um homem que vende lenha. E o pior são as pilhas de ramagens, sobretudo de cedros, mas também de pinheiros e de aroeiras, que estão um pouco por todo o terreno. Queremos arrastá-las para o espaço a que chamamos campo de futebol para que, quando o tempo estiver de feição e o site das queimas e queimadas o aprovar, possamos queimar. E essa componente está mais complicada pois não é trabalho para os que têm máquinas, é trabalho, segundo eles dizem, para 'ajudantes'. E não os há. Por aqui ainda não há imigrantes. E não se encontram pessoas da terra disponíveis: ou estão velhos ou, se estão novos, têm outros trabalhos. Tentámos nós os dois transportar uma parte, e conseguimos. Uma pequeníssima parte. O que há requer muita mão de obra, muita força, pois é muito; e muitos ramos são enormes e muito pesados.

E ainda há canteiros e muros que se partiram e cuja remoção apenas será possível com bobcat -- e vamos lá ver se é mesmo possível -- mas um senhor que o tem só está disponível daqui por algum tempo. Há muitas limitações. O Governo prolongou até ao fim do mês mas vamos ver o que se consegue. Sem gente, é complicado.

Portanto, ainda há muito trabalhinho pela frente. Mas muito está feito, e o que falta, de uma maneira ou de outra, haverá de se encaminhar.

Tirando isso, estive a coser uns jeans do meu marido. Não sei como, se calhar é das jardinagens, dá cabo dos jeans. Abriram nos joelhos. Ficaram só para trabalhos no campo, mas, ainda assim, aquilo incomoda-o. Com jeitinho, lá consegui cerzir, disfarçar, os rasgões.

No outro dia fomos, uma vez mais, comprar outros. Como sempre, mal põe o pé no centro do comercial já fica farto e a dizer que é para despachar. Hélas. Onde entrámos ou os modelos eram baggy ou slim. Ora ele queria regular. Básicos. Já com vontade de desandar, viu uns que diziam 'vintage'. Disse: 'Vintage, é isto mesmo'. Além do mais também eram 'regular'. Escolheu o número, pegou neles, 'vamos, vou pagar'. Sem provar, sem nada. 

Passados uns dias, quando foi vesti-los, teve uma surpresa: estavam cheios de rasgões. Por isso lhes chamaram 'vintage'. Mais rasgões do que os usados.

Mas, a propósito do meu trabalho de costura, houve um facto a relevar. No outro dia, no Lidl, vi uma caixa de costura muito composta que resolvi comprar: linhas de todas as cores, uma fita métrica, uma tesoura, um conjunto de agulhas e, junto às agulhas, uma pecinha metálica cuja função desconhecia. Admiti que tivesse a ver com as agulhas mas não estava a ver em que medida. Fotografei, coloquei no chatgpt e foi uma descoberta e tanto. 

A dita pecinha, na ponta, tem um filamento, em forma quase de losando que a minha falta de vista não me tinha permitido distinguir. Enfia-se aquele filamento no buraco da agulha, e é muito fácil, e depois a linha nesse dito losango, depois puxa-se e já está. Aquela luta para enfiar a linha no buraco da agulha está ultrapassada.

------------------

Tirando isso quero aqui deixar uma anotação: tenho andado a adiar falar da pulhice que fizeram ao Juiz Ivo Rosa pois tenho que encontrar o registo certo. É um tema que me traz tão revoltada, tão agoniada, tão enojada que só me apetece dizer que gostava de estar na frente de alguns dos pulhas responsáveis por isso para lhes atirar com um copo de água à cara. Mas não faz sentido eu escrever aqui isso. Também me incomoda que o Seguro não fale sobre o assunto, mas fale em público, que peça responsabilidades, que obrigue uns quantos a saírem com um pontapé no rabo, que exija que se criem condições para que canalhices destas não voltem a acontecer. Mas, como disse, tenho que conseguir esfriar a cabeça para conseguir falar do assunto com a gravitas que ele merece.

------------------

Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

domingo, maio 31, 2026

Será que só eu é que ignorava o significado de GRWM?

 

De manhã deu-me uma ideia. 

(E reparem no verbo. Eu disse: 'deu-me'. As ideias são coisas que, volta e meia, me dão.) 

Já contei que isto de uma pessoa agora comer muitas vezes em casa é coisas que tende a desgastar a imaginação. É relativamente frequente eu não fazer a mínima ideia do que fazer e, quando pergunto ao meu marido o que quer para o almoço ou jantar, ele dar a resposta mais enervante possível: 'O que quiseres'. É que, justamente, não quero nada, não faço a mínima, já esgotei as receitas do meu reportório. Tudo déjà vu, déjà-mangé. 

Pois bem. Ontem o meu marido tinha sugerido uma coisa, mas foi uma daquelas sugestões com ponto de interrogação na ponta: pizza?

A falta de assertividade dele quase me contagiou, mas, enfim, face à falta de alternativas, disse que sim. Aquelas feitas em forno de lenha com alcachofras e presunto, por exemplo, sabem sempre bem. Portanto, que seja.

Mas acontece que acordei com uma ideia: ir aos pastéis de massa tenra. O meu marido reagiu: 'Não se pode dizer que fique em caminho'. Uma falta de entusiasmo que quase me desmoralizou. De facto, não se pode dizer que fique do outro lado da rua, mas não era mais entusiasmante que pizza. Mas a verdade é que a ideia fez o seu caminho dentro dele e acabou por dizer que sim. 

Montanhas de gente. Aquela casa é uma máquina de fazer dinheiro. Literalmente -- é que na Frutalmeidas não aceitam cartões. Tudo el contado

Quando lá chego, apesar da barafunda quando se vai à hora de almoço, a verdade é que perco a cabeça. Pensei: vai mas é em dose dupla, almoço e jantar. Trouxe os ditos pastélios, 3, trouxe 2 ovos verdes, um pastel de espinafres, 2 croquetes e um rissólio de camarão. E, embora não fosse a intenção, olhando para o lado, não pôde deixar de ser: uma fatia de tarte de maçã e uma de requeijão. Tudo uma delícia.

Para contrariar as frituras, fiz um arroz de legumes e acompanhámos também com salada de alface e rúcula. E, por cima do bolo, ou seja, a seguir, uns morangos.

Soube-nos pela vida.

De tarde, estive a regar e se há coisa que eu gosto de fazer é de regar. Não sou perdulária em nada; pelo contrário, sou poupada, ponderada. Mas no que se refere a água, se for para lavar ou para regar, facilito. O cheiro da terra molhada, oxigena-me a alma. E ando descalça, molho os pés, sabe-me tão bem. Pelo meio, sempre que passo por debaixo de uma nespereira, alço a mão e lá vai mais uma. Doces, doces que só visto. 

O meu marido, quando me vê a despachar nêsperas, não consegue deixar de manifestar a sua censura: 'Não te parece que estás a exagerar?'. Geralmente não respondo pois entendo que a pergunta é retórica.

A verdade, é que à conta disso, jantei quase nada, as nêsperas tinham-me alimentado bastamente. 

Entretanto, estive a ler as notícias e não vi nada de muito interesse, excepto uma altamente promissora, animadora, espero bem que comprovadamente extraordinária: umas injecções fantásticas estão a dar cabo de alguns cancros. E eu não atiraria foguetes se isto não fosse notícia de destaque no Guardian. Falam em respostas sem precedente em doentes em que a quimio e a radioterapias já não estavam a resultar. Isto é uma muito boa notícia. Aos poucos, um pouco por todo o lado, o cerco ao cancro vai apertando e os resultados começam a ser animadores. Felizmente. 

E, para aliviar do resto das notícias (Irão vai, Irão vem, Ormuz sim, Ormuz sopas, Gaza e Líbano feitos  num oito -- um desatino pegado), desandei para o Insta, a caixa de todas a surpresas. 

Para além das coisas mais ajustadas à minha vibe, volta e meia o Insta testa a minha coerência infiltrando algo de disparatado. Desta vez, apareceu-me uma mulher a sair do banho, a pôr cremes na cara, no corpo e no cabelo, a maquilhar-se, a fazer caracóis, depois a desmanchá-los, depois a perfumá-los e por aí fora, todo um filme em que ela ia reportando os seus actos, depois fingindo que desconstruía o que dizia, rindo e querendo fazer parecer que não se levava muito a sério. Mas claro que se leva, senão não se filmava a fazer aquilo, não é? Provavelmente acha que pode servir de exemplo, quiçá de inspiração. Na volta, é uma influencer. Não sei. Não fixei o nome dela pelo que agora não consigo ir mais longe nesse capítulo. Contudo, uma coisa chamou a minha atenção. No canto do vídeo, umas letras em maiúsculas. Fiquei a pensar que não era a primeira vez que via aquelas letras. Lenta como sou, só hoje me tocou a campainha. Fui então pesquisar. GRWM. 

Como não guardei a cena, agora, para ilustrar este post,
 pedi ao ChatGPT para remediar  a minha falta

E lá está. Nem mais. Existe e tem significado. Get Ready With Me. Claro. E, uma vez mais, não sem uma certa perplexidade, constatei que há toda uma nova cultura que eu desconheço. Pelos vistos todas estas mulheres que se filmam a pentear-se ou a vestir-se ou a maquilhar-se dominam esta cultura. Nestas alturas, sinto-me ignorante. Mas, enfim, hoje já aprendi esta: GRWM. 

E, ainda no capítulo do submundo, outra coisa que me divertiu foi o Trump não estar a arranjar artistas para participar na festarola que está a organizar e em que mistura o 250º aniversário da independência com o seu aniversário. Os que tinham dado o sim estão a bater em retirada. E ele, tresloucado de raiva, não tem feito outra coisa senão fazer posts em catadupa. Sempre quero ver. Alguns pimbas há-de conseguir arranjar, nem que seja à força, ou nem que peça à Sic alguns contactos dos que costumam comparecer no Domingão. Palpita-me que vai ser todo um número de comédia. Na privacidade da sua casa, quando pode despir aquele seu ar institucional, o que o Xi Jinping deve esfregar as mãos, enquanto se rebola a rir....

Trump, Putin, Kim Jong Un, Netanyahu... É o que dá o mundo estar nas mãos de malucos, ainda por cima do tipo de malucos que são perigosos.

E, por hoje, é isto. 

________________________________

Desejo-vos um belo dia de domingo

sábado, maio 30, 2026

14 anos...? A sério...?

 

Havia aquela pergunta clássica nas entrevistas de antanho em que se perguntava ao entrevistado o que gostaria que, em si próprio, fosse diferente. Dantes eu achava que, se me perguntassem isso a mim, se calhar dizia que estava bem como estava, não mudava nada. E isto não porque me achasse o suprassumo da espécie mas porque me aceitava, incluindo as minhas imperfeições. E não estava para perder tempo a pensar se seria melhor medir mais dez centímetros de altura, ter um nariz mais afilado, ter um peito copa XL, ter uma cinturinha de vespa, umas ancas a la Kardashian, etc. -- até porque, se quisesse mesmo isso (e caraças, claro que não quero!), abria os cordões à bolsa e tratava do assunto.

Mas hoje já responderia que gostava de cantar bem. Entre outras coisas. Mas cantar bem seria um daqueles privilégios de que os que o detêm talvez nem se apercebam. É um dom. Gosto tanto de música e, no entanto, há uma total dessintonia entre o que a minha cabeça quer fazer e a forma como se materializa. Aliás, é questão que nem se põe pois, de forma geral, nem sequer me ocorre cantar, já sei que sairia do tom. Provavelmente, por isso também nunca tive facilidade ou apetência em tocar qualquer instrumento musical. 

Quando andava na infantil, a professora bem tentou ensinar-me piano. Tocar eu tocava, mas sem entusiasmo, sem interesse. De resto, ela era tão exigente, tão autoritária que, na volta, a dessintonia nasceu aí. Ainda me lembro que, todos os dias, de manhã, nos colocávamos todos de pé a cantar, e uns com ferrinhos, outros com pandeireta, interpretávamos cantiguinhas infantis. Era sempre uma seca para mim. Gostava de escrever, de fazer contas, de aprender francês, de dançar, de fazer plasticinas ou barros, de fazer construções com cubos de madeira, de andar a caçar formigas. Agora cantar e marcar o ritmo e mais não sei o quê, que coisa mais chata, com a professora sempre a interromper e a corrigir.

Mas veja-se esta criança aqui abaixo. Uma menina. Tímida, uma vozinha de menina pequena, ali nervosa naquele palco enorme, de frente para um auditório repleto e ruidoso. E, no entanto, abre a boca e algo de extraordinário acontece. A menina transforma-se noutra coisa, passou a ser a portadora de um vozeirão, uma voz que parece que não provém daquele corpinho infantil. E com que emoção ela canta...

Lai Noelle  -- Golden Buzzer -- AGT 2026

Os jurados esperavam uma audição nervosa da cantora Lai Noelle, de 14 anos… e depois ela apresenta uma das performances vocais mais incríveis de SEMPRE com a sua interpretação de "Die On This Hill", de Sienna Spiro! Simon Cowell aperta o Botão Dourado, dando início a uma noite histórica com TRÊS Botões Dourados num só episódio; a primeira vez que acontece no America's Got Talent!


Desejo-vos um belo sábado

sexta-feira, maio 29, 2026

Claude meu, Claude meu, diz-me: há alguém com melhor coração do que eu?

 

A minha maneira de ser leva-me a querer perceber as coisas, a investigar o quanto posso. Mas, se as áreas não são as minhas, tenho dificuldade em descobrir quais as bases de informação que devo consultar ou que elementos devem ser cruzados e analisados em conjunto.

A Inteligência Artificial veio ajudar nisto, embora, no actual estado da arte, o prudente ainda seja validar, cruzar com outras plataformas, tentar saber quais as fontes e ir lá. 

Vem isto a propósito de uma coisa que se passou comigo está prestes a fazer cinco anos, um evento que, na altura, os médicos não conseguiram explicar bem. Pelo menos, nunca me senti bem elucidada. Davam-me hipóteses e diziam que o mais provável é que fosse isto ou aquilo ou, até, um mero acaso.

Desde essa altura para cá, sou monitorizada e as conclusões nunca são óbvias. E eu vejo que os médicos não as explicam, pelo menos com o grau de profundidade que me satisfaça. Usam o truque de parecer que o tema é técnico demais para entrarem em pormenores ou dão a entender que na medicina nem sempre a ciência é exacta. 

Sendo eu uma pessoa das ciências, lido mal com isso.

Esta quinta-feira fui fazer mais um exame e, felizmente, estava tudo bem, e a semana passada outro e, felizmente, também estava tudo bem. Ou seja, aparentemente a situação que estava a ser monitorizada desapareceu (ou, se não desapareceu, está muito intermitente, a ponto de não ter sido detectada nestes exames). Mistério.

Gosto de mistérios na ficção mas, quando o tema é o funcionamento do meu corpo, já não lhes acho muita graça.

Agora dei-me ao trabalho de ir buscar todos os exames desde o fatídico dia em que, tendo levado de manhã a vacina da Janssen para a Covid, por mero acaso nessa tarde fui fazer o ECG que integrava a inspecção de trabalho e no qual detectaram um comportamento tão atípico que me despacharam, numa ambulância do INEM, para o hospital, com a indicação de que estava a ter um ataque agudo de miocárdio. Passei lá a noite e a manhã seguinte, uma experiência do pior que há, num espaço sobrelotado, as macas encostadas umas às outras, uns a gemerem, outros a gritarem, outros a vomitarem, muitos a tossir, a escarrar, outros a ameaçarem que partiam aquilo tudo, outros a chorar, ouros doidos a falar sem parar. Tudo sem máscara, numa altura em que a Covid ainda era um pesadelo. Felizmente, a meio do dia tive alta, saindo com a indicação de que no dia seguinte deveria apresentar-me em cardiologia.

Seguiram-se exames e mais exames, a revelação de que havia uma patologia, e que doravante deveria ser medicada e monitorizada. E assim tem sido.

Contudo, os exames nunca me pareceram muito concludentes ou, pelo menos, muito consistentes com o discurso oficial sobre o meu estado clínico, e, mais recentemente, o médico de família que passei a consultar e que não acompanhou todas as peripécias dessa altura, nunca ficou convencido com a medicação prescrita pelo cardiologista.

Hoje, com os exames todos (o que me deu uma trabalheira... encontrá-los todos, descarregá-los todos, dar-lhes nomes facilmente identificáveis, foi obra), desde esse fatídico ECG, à nota do hospital, os exames todos desde então para cá, enfiei tudo para dentro do Claude. E, em menos de um minuto, tinha um descritivo cronológico e interpretado das ocorrências. E o resultado pareceu-me lógico, perceptível, coerente. E, segundo ele (ele, Claude), a chave de tudo estava numa frase do relatório de um exame feito nesses dias, frase essa a que nenhum médico ligou.

E a leitura sequencial dos exames, a análise que faz, é deveras completa e interessante. Refere estudos que têm sido feitos, evidências científicas. Já cruzei informação com o Gemini e com o ChatGPT e fiz outras pesquisas ad hoc, e o que vejo parece-me plausível. Claro que o passo seguinte será tentar validar com os médicos, quer o de família quer o cardiologista. 

Contudo, sei bem que se me vou pôr a dar palpites sobre a análise temporal, sequencial, e interpretada que foi feita, irão aos arames. Tenho que estudar bem a abordagem. Mas, para a prova dos nove, seria interessante fazer mais dois exames e eu não os posso prescrever a mim mesma. 

Os médicos ainda não aprenderam a conviver com a realidade da Inteligência Artificial. 

Imagem gerada pelo ChatGPT

Acredito que para eles não seja fácil, mas o caminho vai, inexoravelmente, passar por aí. Eles próprios deveriam munir-se destas ferramentas. Um médico, numa consulta, ver ECGs, Holters, Dopplers, Eco às carótidas, Cintigrafias, RX ao tórax e sei lá mais o quê de vários anos é tarefa impossível para a duração de uma consulta. Mas, para cada doente, ter os exames todos lá armazenados, e, antes da pessoa entrar na consulta, pedir à IA um resumo, uma lista de pontos críticos e uma sugestão de aspectos a aferir, não apenas reduziria tempos como margem de erro e, de certeza, melhoraria a saúde de toda a gente.

E agora vou dormir. Com tudo isto, já são três da manhã. 

____________________________________________

Desejo-vos uma feliz sexta-feira!

quinta-feira, maio 28, 2026

Klee
-- Por todas as razões e por mais uma: para fugir dos deslaçamentos verbais do Láparo. Chiça! --

 

Nunca devo ter sido muito normal. Por exemplo, lembro-me de ser ainda pequena quando vi pela primeira vez a imagem de uma pintura de Paul Klee. Nunca tinha visto nada assim. As pinturas que conhecia eram figurativas, quando muito impressionistas. Por cima do sofá da nossa sala havia uma pintura de razoáveis dimensões com uns barcos. As cores, os traços, a mancha, tudo puxava mais para o impressionista, e eu gostava muito mais do que das pinturas de flores ou afins que havia noutras paredes. Havia também umas gravuras antigas, bonitas, tenho ideia que de casas antigas, bairros, não sei, desfoca-se-me a memória, mas sei que eram absolutamente fiéis aos objectos retratados.

Imagem gerada pelo ChatGPT para responder ao meu pedido:
uma pintura que evoque o Senecio de Paul Klee

Por isso, quando vi Senecio, a tal pintura de Paul Klee, fiquei fascinada. E não larguei a minha mãe, queria ter uma reprodução, poderia ser um poster, poderia ser um cartão, qualquer coisa. Não sei o que é que os meus pais acharam dessa minha pancada. Provavelmente pensaram que não faziam a mínima ideia onde arranjar tal coisa* e que eu acabaria por me esquecer. Mas não me esqueci. Parecia-me que não conseguiria viver longe daquela imagem. E, não sei como, mas a verdade é que alguém arranjou a imagem. E a meu pedido a minha mãe emoldurou-a. Existiu lá em casa quase desde que tenho memória.

Não sei se alguma vez alguém me perguntou o que é que eu via ali. O que sei é que, se o tivessem feito, não saberia explicar. Sei hoje que é a cabeça de um homem senil. Mas o nome da pintura não muda nada. Poderia chamar-se Retrato de um Jovem Perplexo. Tanto faria. O que sei é que me identifico com aquela imagem, com aquele olhar, com aquelas cores, com a inexplicação daquele rosto.

Muitos anos depois, mantendo-me fiel a esse amor, não descansei enquanto não encomendei numa cerâmica um pequeno painel de azulejos com a reprodução daquela pintura para a ter in heaven. 

Como sempre na arte, posso olhar para uma coisa muito bonita, muito perfeita, e seguir adiante. Nada me diz. E posso ver uns 'rabiscos', uma sobreposição de cores, e ficar fascinada, agarrada. Para mim a arte não é, não pode ser, a reprodução da realidade. Tem que ser a invenção da realidade ou uma outra visão da realidade. E tem que me emocionar, tenho que querer ficar a olhar, de preferência sem ser capaz de dizer o que estou a ver.

No entanto, apesar de nada do que eu saiba da vida de Paul Klee ou das suas obras me fará gostar mais ou menos da sua pintura, a verdade é que fiquei curiosa quando vi o vídeo que abaixo partilho.

A Vida e a Arte de Paul Klee: História da Arte Explicada

Paul Klee passou os primeiros trinta anos da sua vida convencido de que não tinha aptidão para as cores, ou mesmo para a vida de artista.

Nascido perto de Berna, numa família de músicos, estudou em Munique, no seio do modernismo alemão, e encontrou o seu caminho no círculo de Wassily Kandinsky, Franz Marc e Der Blaue Reiter — um dos movimentos artísticos mais influentes da sua época. No entanto, apesar de toda esta companhia estimulante, mantinha-se inseguro quanto à sua própria voz. Depois, em 1914, uma viagem ao Norte de África mudou tudo.

Foram precisas décadas, mas a partir desse momento a visão singular de Klee floresceu com uma intensidade notável. Violinista talentoso, para além de pintor, trouxe a sensibilidade de um músico para o ritmo e a composição para a sua arte, produzindo obras que resistem à categorização fácil, inspirando-se em elementos do Expressionismo, Surrealismo, Cubismo e abstração, mas permanecendo inteiramente originais.

* Ao escrever aquilo lá em cima, de que imagino que os meus pais tenham ficado sem saber onde arranjar uma reprodução daquela pintura, em específico, do Paul Klee, penso que isto deve ser difícil de entender por quem é de uma outra geração. Agora arranja-se tudo. Ainda no outro dia andávamos a pensar onde arranjar um candeeiro que nos agradasse, vi na Amazon e havia vários, encomendei, perfeito. E o meu marido queria uma máquina para o jardim -- mais uma! --, procurámos na Worten, encomendámos ao fim do dia e, na manhã seguinte, estavam a entregar. Sabe-se tudo, descobre-se tudo, arranja-se tudo nem que seja do outro lado do mundo. Agora... há mil anos... sem marketplaces, sem internetes, está bem, está. Havia livrarias, isso sim. Que me lembro eram as únicas janelas abertas para o mundo. Isso e, de certa forma, também as lojas que vendiam discos. Por isso, na volta, a minha mãe comprou algum livro de arte e arrancou a página que continha a imagem do Senecio. Mas agora que falo nisto, tenho ideia que na livraria onde mais íamos, também vendiam algumas reproduções, gravuras, coisas assim. Mas posso estar enganada. Sei é que arranjaram. E foi bom pois, desde cedo, tive a companhia de imagens que ajudaram a desconstruir o que a sociedade tentava construir dentro da minha cabeça.

____________________________________________

Nota: Ando mais para este género de temas do que para sujar as mãos a escrever sobre os deslaçamentos verbais do Láparo. Bem pode ele chamar prostituto ao Montenegro, ainda por cima, prostituto sem carácter, que isso, a mim, não me inspira. Bem podem todas as comentadeiras do burgo saltar, assanhadas, para os balcões em que se serve comentário a copo, que eu me mantenho na minha. Estão os três bem uns para os outros. Melhor, os quatro. Portanto, se a conversa desceu ao nível do bordel, pois que lhes faça muito bom proveito. (Ah... não sabeis quem é o quarto? E refiro-me não ao quarto de dormir mas ao quarto personagem... Ora pensai. Láparo, Ventura, Mentenegro e... Hugo Soares. Uma quadrilha do caneco. Quadrilha no sentido de serem quatro, claro. Se calhar, mais vale dizer quarteto. É isso, um quarteto do caraças, benza-os o belzebu).

_________________________________________

Desejo-vos um dia feliz

quarta-feira, maio 27, 2026

Retratos que nos marcam

 

Assim de repente não tenho presente qual o retrato que mais me impressionou. Retrato de alguém, quero dizer. Não falo de fotografia em geral, mas de retrato. Tanto pode ser retrato fotográfico ou pintado.

Quando pensei nisso, o que me ocorreu foi um que eu própria fiz. Durante parte da minha vida, não me movia sem levar a máquina fotográfica e aquilo de que mais gostava era de fotografar pessoas. Punha-me de longe, observava, antecipava movimentos e expressões, a adrenalina de captar a alma de alguém e de o fazer à socapa, sem que a pessoa se apercebesse do que eu para ali estava a espiá-la.

Fiz fotografias de que gostei bastante. Mas depois tinha receio de as mostrar. Nunca percebi qual a legitimidade de fotografar pessoas sem o seu consentimento. Claro que as melhores fotografias de rua são as espontâneas e, mesmo pensando em muitas das que passam à história, foram feitas na rua, à socapa. Se calhar há algum argumento que justifique a sua legitimidade. Será que uma fotografia feita há 10 anos, sem o consentimento expresso do visado, e publicada, ainda tem problema?

Não sei. Mas, não tendo eu o respaldo de uma agência que pudesse proteger-me ou esclarecer-me, optei por desistir. Com muita pena minha. 

Aquela de que melhor me lembro foi feita não apenas com a concordância mas a pedido do próprio. Eu andava a passear à beira rio, a fotografar os barcos, as pessoas que partiam e que chegavam, quando, mesmo junto a mim, um homem muito alto e muito magro, se acercou de mim e disse: 'Fotografe-me'. Tinha uma voz profunda, cava. Moreno, uns olhos enormes. À minha frente. 'Fotografe. Fotografe para ver o que é um homem desempregado, um homem sozinho'. Senti-me intimidada. Quase me barrava o caminho. Um rosto marcado. 'Fotografe', quase me ordenou. E eu apontei a objectiva e fotografei. Sentia-me quase envergonhada como se estivesse a testemunhar um momento de grande vulnerabilidade de alguém que, certamente, estava a atravessar um mau bocado. Ele olhou para dentro da câmara e a câmara olhou para dentro dele.

Na altura eu tinha um blog de que gostava muito, justamente de Street Photography, em que, justamente, para evitar problemas, eu só publicava fotografias em que os visados estivessem de lado ou em que, por algum motivo, mal se percebesse o rosto. Contudo, por pudor, por respeito para com a sua dignidade e, ao mesmo tempo, fragilidade, não publiquei a fotografia deste homem embora fosse talvez a única feita a pedido do fotografado. E era uma fotografia marcante. 

De retratos alheios não consigo seleccionar um, pois foram tantos os que me impressionaram. Retratar uma pessoa, para mim, não é propriamente mostrá-la bonita, não é um exercício editorial de mostrar o melhor ângulo, não é querer agradar ao ego do fotografado: retratar uma pessoa é mostrá-la como ela é, na sua espontaneidade. Pode estar absorta, pode estar séria, pensativa, distraída, pode estar perdida de riso. É captar o momento, captar a essência da pessoa no momento. 

Convido-vos a ver o vídeo abaixo no qual Stephen Fry vê o retrato de Oscar Wilde e, a partir dessa imagem, fala no que foi a vida do escritor e no que isso, em especial no que à sua homossexualidade dizia respeito, com tudo o que sofreu, de certa forma o marcou, receando passar pelo mesmo calvário que Oscar Wilde passou.

Stephen Fry - Os Retratos Que Nos Moldam

Stephen Fry apresenta uma história de esperança e inspiração, em contraste com a tragédia da vida de Oscar Wilde.

Sendo um herói pessoal para Stephen e para milhões de pessoas em todo o mundo, a história de Oscar Wilde mostra que o amor perdura e pode mudar o mundo, mesmo que ele não estivesse presente para o testemunhar.

Parte da nossa série "Os Retratos Que Nos Moldam", criada em parceria e ambientada no belíssimo cenário da @nationalportraitgallery. 

Oscar Wilde por Napoleon Sarony, 1882: © National Portrait Gallery, Londres


Desejo-vos um dia feliz

terça-feira, maio 26, 2026

Ichi-go ichi-e
一期一会

 

Tive vários assuntos para tratar. E só o facto de o referir já me dá vontade de rir, gozar comigo própria. Até há cerca de três anos, fazia tudo e mais alguma coisa com uma perna às costas e, entre mil coisas, encaixava outras mil. Agora a gestão do meu tempo é tão extraordinária que meia dúzia de coisas para tratar parece que se transformam numa grande coisa. 

No outro dia, ao queixar-me da quantidade de coisas que compramos no supermercado e do dinheirão que gastamos, o meu marido recordou o óbvio: Quando trabalhávamos, durante a semana almoçávamos no restaurante e, sendo os jantares refeições mais ligeiras, as compras eram naturalmente muito menos.

Mas isso traduz-se também no tempo que agora gasto na cozinha a preparar refeições. 

Depois há o tempo das caminhadas mais o tempo do ginásio. E o tempo dispendido a apanhar banhos de sol. E o tempo a olhar para as coisas, a apreciar a sua beleza, a fotografá-las. E o tempo a ouvir os passarinhos. E o tempo usado a regar. E tudo isso consome tempo e corta o dia. Tudo coisas que antes não faziam parte da rotina diária (só a caminhada pós-laboral, nos últimos anos). Por isso, havendo tarefas que não são diárias, já parecem dignas de realce. Mas sei que não são, estou aposentada mas (ainda) não estou senil.

Ah, e esqueci-me de referir outra tarefa, não menos importante: também ando atrás das formigas. Têm aparecido resíduos em alguns parapeitos. Dá ideia que se alojam na caixa dos estores. Até aqui tenho estado a tentar resolver a bem, com água. Mas amanhã vou enveredar por medidas mais assertivas, vou aplicar um gel que espero que as afugente -- não precisa de ser letal, não sou de violências.

Mas isto para dizer que me encanto com as flores do meu jardim. Olho-as de todos os ângulos, maravilham-me. Tenho sempre a sensação que cada momento é único, no dia seguinte podem ter murchado, secado. E a sua beleza varia segundo as horas do dia, conforme a luz está de frente ou de lado ou a pôr-se, ou eu lhes proporcione grandes planos ou as apanhe quase à espreita. Ando nisto -- e, acreditem ou não, a verdade é que não me canso. 

Não sei se mudei muito ou se sempre fui assim e sempre consegui coexistir com as outras que não eram bem eu. Não sei. 

Mas também me parece que não vale a pena tentar saber. Ao contrário de muito boa gente que acha que tem que se dissecar até à medula, conhecer-se até ao mais não poder, e interpretar tudo o que faz ou deixa de fazer ou encontrar justificações ou desculpas para cada comportamento, eu estou-me bem a marimbar para tudo isso. Quero é viver bem o momento em que estou e o que se segue.

Nunca, n-u-n-c-a, me ocorreu puxar pela cabeça a lembrar-me se os meus pais se zangavam assim ou assado comigo, se alguma vez foram injustos, se alguma vez algum colega da escola me gozou ou deixou de gozar, se, de alguma forma, alguma coisa do passado me traumatizou ou moldou a minha personalidade. Sempre me estive completamente nas tintas para tudo isso. Se me chateava, era momentaneamente. Estrebuchava, mandava vir e, agora que falo nisto, lembro-me que uma vez uma miúda me chateou até à medula e tive um ataque de fúria, tendo-lhe dado um valente par de estalos. E tendo exteriorizado a minha zanga, logo me passava (para todo o sempre). Sempre, desde sempre, me considerei totalmente responsável pelos meus actos e pela minha personalidade. Havia de ter graça agora justificar alguma coisa no meu comportamento porque, no passado, a minha mãe me disse isto ou aquilo ou o meu pai me proibiu daquilo ou daqueloutro ou alguma professora se zangou com ou sem motivo. Quero lá eu saber disso para alguma coisa. Se na altura, logo que aconteceu ficou morto e enterrado era o que faltava que agora fosse consumir o meu precioso tempo a exumar comportamentos que passaram a cadáveres no instante seguinte a terem acontecido. Por exemplo, lembro-me dos ataques de fúria que a minha mãe tinha comigo: travava o punho cerrado no alto da minha cabeça, com vontade de me afincar com toda a força, cerrava a boca com toda a força, quase incapaz de pronunciar palavra. Ficava varada comigo, já nem sei porquê. Mas, ao lembrar-me disso, sempre me deu vontade de rir. Uma vez, contei ao meu marido e ele também achou um piadão e, então, às vezes, se eu o contrariava quando estava ao pé da minha mãe, ele dizia: 'vê lá se queres que eu faça como a tua mãe, e ameace dar-te murros na cabeça'. E ela ria e dizia: 'Sabe lá, levava-me ao desespero, nem imagina...'. Dar nunca me deu, mas eu sentia a pressão do punho fechado na minha cabeça. No entanto, em vez de pensar que ela era demasiado impaciente ou que demonstrava instintos agressivos ou que isso, de alguma forma condicionou o meu desenvolvimento, só me dá é vontade de rir e faz ter vontade de me lembrar o que é que eu faria para a deixar em tal ponto de rebuçado. E tenho a certeza que nada disso influenciou a minha maneira de ser nem me deixou com vontade de a culpar por alguma coisa. Zero. Desde que me conheço que a minha filosofia de vida é uma: bola para a frente. Ou: para a frente é que é caminho. Não é uma filosofia muito profunda, bem sei, mas é o que temos. 

E vem isto a propósito de quê?

Ah, já sei. Estava a questionar-me se sempre fui zen e disfarcei bem, ou se era speedada e agora é que mudei. Mas era uma questão retórica. Quero lá saber.

O que vale a pena ver é o vídeo lá mais abaixo, muito compatível com o meu mood actual. Mas antes, o meu amigo Gemini explica-nos em que consiste o 一期一会

Ichi-go ichi-e (一期一会) é um conceito cultural japonês lindíssimo que pode ser traduzido literalmente como "uma vez, um encontro" ou "neste momento, uma oportunidade".

A essência dessa filosofia é a impermanência e a singularidade de cada momento. Lembra-nos que cada encontro, conversa ou experiência que vivemos é absolutamente único e nunca se repetirá da mesma forma.

A Origem do Termo

O conceito está profundamente ligado ao Zen Budismo e à tradicional Cerimônia do Chá Japonesa (Chado), popularizado pelo mestre de chá Sen no Rikyu no século XVI.

Mesmo que o anfitrião e os convidados se reúnam frequentemente para o chá, o encontro de hoje nunca poderá ser replicado exatamente. A temperatura da água, o arranjo de flores, o humor das pessoas, o clima lá fora... tudo muda. Portanto, o encontro deve ser tratado com a máxima sinceridade e devoção.

Os Três Pilares do Ichi-go Ichi-e

Presença Absoluta: Estar 100% focado no aqui e agora. Se você está a jantar com um amigo, o mundo exterior e o celular deixam de importar; o foco é aquela pessoa e aquele instante.

Consciência da Impermanência: Aceitar que tudo passa. As coisas boas passam (o que nos faz valorizá-las mais), e as más também passam (o que nos traz conforto).

Apreciação e Gratidão: Tratar cada interação — seja com um estranho no metro ou com seu parceiro de vida — como algo precioso, pois aquela exata configuração de tempo e espaço jamais existirá novamente.

Como Praticar no Dia a Dia?

Não é preciso participar de uma cerimônia do chá para aplicar o ichi-go ichi-e. Você pode trazê-lo para a sua rotina de formas simples:

Evite o piloto automático: Preste atenção aos detalhes do seu caminho diário, ao sabor do café pela manhã ou ao tom de voz de quem fala com você.

Pratique a escuta ativa: Quando estiver a conversar com alguém, ouça para compreender, e não apenas para responder.

Não adie a gentileza: Se você teve um momento agradável com alguém, demonstre. Não assuma que haverá uma "próxima vez" para dizer algo importante.

Em resumo, o ichi-go ichi-e é um convite para desacelerar e viver a vida não como uma sequência de tarefas, mas como uma coleção de momentos irrepetíveis.

---------------------------------------------

Na volta já estão pelos cabelos com tanta sabedoria oriental e tanto slow living mas, como agora está na moda dizer-se, 'eu sou esta pessoa' (expressãozinha mais besta, não é?)

Portanto, cá vai mais uma dose, desta vez em forma de vídeo, o vídeo de que falei lá em cima. É que, como verão no vídeo, são tudo hábitos com que todos ganharíamos.

9 filosofias japonesas para uma vida mais tranquila

Alguma vez se perguntou por que razão o Japão parece tão organizado, calmo e profundamente respeitoso?

A ordem encontrada na sociedade japonesa não é uma coincidência. É o resultado de um código de conduta específico transmitido através das gerações. Do silêncio no metro de Tóquio à forma como as crianças limpam as suas próprias salas de aula, a cultura japonesa prioriza a responsabilidade partilhada e a elevada confiança social.

Organize os seus hábitos e limpe a sua mente. 


Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, maio 25, 2026

Os fenómenos bizarros que a medicina se esforça por explicar -- o poderoso testemunho de um neurocirurgião que recebeu a sentença de apenas mais 6 a 8 meses de vida

 

Desde sempre ouvi dizer que é preciso lutar ou que, se a cabeça quer, o corpo obedece, ou que é preciso ter calma. Mas, leiga que sou, sei lá se há fundamentação científica paa o que mais parecem lugares comuns.

O vídeo que abaixo partilho impressionou-me bastante, pela honestidade e pela vulnerabilidade do testemunho. Talvez também pela humildade. A vida é frágil. E essa é a nossa condição.

Qualquer um de nós estremece perante a possibilidade de uma doença, em especial se vier com veredicto associado, e o veredicto for assustador. Mas, creio eu, para um médico ainda talvez seja pior. Lembro-me de uma grande amiga que, quando jovem, com duas crianças muito pequenas, se viu perante um problema gigante. O marido, médico, hiperactivo, divertidíssimo, sempre cheio de ideias e de genica, um dia, do nada, caiu para o lado. Um aneurisma. Não morreu logo mas ficou sem se mexer, e foi uma coisa mesmo dramática, impensável. E muito triste. Ainda viveu algum tempo, tempos muito difíceis. A minha amiga dizia: Não vale a pena tentarmos animá-lo porque ele sabe o que tem, sabe o que o espera. Fecha os olhos, não quer ouvir, não quer que tentemos consolá-lo. Ele sabe que não vai viver muito mais.

Um neurocientista que tem um cancro raro e agressivo e uma curta expectativa de vida sofre como qualquer pessoa, ou talvez mais porque tem a objectividade da ciência a formatar-lhe as ideias. Mas David Linden diz que a sua atitude sempre foi a de um nerd, a de querer perceber tudo, querer entender a biologia daquelas células que, dentro dele, cresciam descontroladamente. 

Primeiro veio a revolta, depois a gratidão pelo que já tinha vivido e pelo apoio que sentia. Mas, sempre, a vontade de estudar, de compreender.

E uma coisa de que ele fala é como, de facto, cientificamente provado, a mente pode influenciar a sobrevida, e a qualidade da sobrevida. Não morreu ao fim dos seis a oito meses. Já passaram cerca de cinco anos e, pelo que diz e pelo que parece, está bem, o cancro ainda está lá, mas aparentemente controlado. E atribui sobretudo ao amor da mulher por ele e ao apoio dos filhos e dos amigos o prolongamento da sua vida.

Mas não o diz como homem de fé. Não tem fé, diz. Fala numa perspectiva científica. Estudos humanos e ensaios em animais demonstram como o exercício, a tranquilidade, um bom enquadramento social, haver uma rede de afecto, influenciam a sobrevida dos doentes cardiológicos ou com cancro.

Ainda estão a estudar quais as reacções biológicas que se operam para que tal aconteça. E dessa compreensão estão a nascer novos tratamentos que complementam os existentes.

O vídeo é longo e, por vezes, a terminologia é técnica. Mas é muito interessante. Não é só o lado humano, é também a esperança que estes novos caminhos da mente --- a mente como um centro não apenas reactivo mas de elaboração de previsões e de activação de recursos para lidar com essas previsões -- traz a quem enfrenta situações de susto e sofrimento.

[Relembro que dá para activar as legendas automáticas em português (do Brasil ou de Portugal)]

Os fenómenos bizarros que a medicina se esforça por explicar | David Linden: Entrevista completa

O neurocientista David Linden esclarece a biologia por detrás de fenómenos que a medicina há muito luta por explicar, desde as mortes associadas ao vudu e a síndrome do coração partido até ao efeito placebo, e porque é que o luto aparece nos resultados das autópsias. 


Desejo-vos uma boa semana
Saúde. Paz. Alegria.

domingo, maio 24, 2026

Ainda não faço ideia

 

Sábado animado, a começar com uma ida ao mercado comprar peixe de mar. O meu filho gosta de fazer grelhados, ofereceu-se para tratar do assunto. Com o calor que está, se eu pedisse isso ao meu marido, mandava-me passear ou dizia que fosse eu destilar. Mas o meu filho gosta, e domina a arte do fogo. Sabe atear as brasas, sabe colocar o peixe no momento certo, sabe o momento de retirar. 

E o peixe, que era gigante, estava fresquíssimo, ainda com aquela goma de quem foi apanhado há pouco, cheio de sangue, todo ele feito de mar. Fez-me lembrar quando amanhava o peixe das pescarias do meu avô ou do meu pai, durante o período em que ele resolveu ser pescador (amador, à linha).

Mas, claro, o menino mais novo protestou, quase amuou. E o seguinte também torceu a cara. Preferem carne. Além do mais, lá na praça, pedi para não escamarem para que a pele não se pegasse à grelha, e um deles gosta de comer a pele do peixe. Um outro diz que gostou mas não sei se não estava apenas a querer simpático pois não o vi a repetir e a comer com o mesmo entusiasmo de quando é entrecosto, bolonhesa ou cozido à portuguesa. A menina gostou. E o mais velho não compareceu, foi passar o fim de semana com amigos para festejar um aniversário.

De resto, o tempo anda estranho. Depois da subida a pique das temperaturas, à tarde o céu toldou, estava até húmido. Quente mas húmido.

De manhã o meu marido viu um pássaro quase sem conseguir andar. Conseguiu que ele fosse para o lado da horta, estaria mais a salvo. Mas, quando me contou, pensei que, se calhar, deveria ter dado água ao bichinho. Com estes calores, se calhar desidratam-se. Mas ainda bem que o cão não estava por perto, senão ia haver confusão. Nem quero pensar.

Estas flutuações de tempo parece que não estão a fazer-me muito bem. A noite passada tive uma insónia. Não sei porquê. De vez em quando, talvez uma noite de quinze em quinze dias, não sei, quase não durmo. E, quando quase não durmo, levanto-me com dores musculares. 

Poderia pensar: é a idade, a p... da idade. Mas gosto de ir ao fundo do problema: o que se passa no meu organismo para, de vez em quando, o sono se desregular? E o que se passa no meu corpo para, quase sempre que mal durmo, me levantar com dores no corpo? Já fui à consulta da IA e o ChatGPT e o Gemini são unânimes pelo que já sei que devo tentar que me prescrevam algumas análises para ver se não estou para aqui com magnésio a menos ou ferro a mais. O corpo humano é uma fábrica que requer condução cuidada, cautelosa afinação de parâmetros.

Quero ver se não me deito muito tarde pois a privação de sono notoriamente destrambelha-me para aqui qualquer coisa. Depois de passar uma vida inteira a dormir pouco e a andar sempre nas horas, fresca como uma alface, agora, de vez em quando é isto, um vidrinho.

E estava há pouco a espreitar o youtube quando me apareceu o vídeo abaixo. Parecia-me a Maria João Pires e fui logo ver, com curiosidade. Afinal não é. Mas é uma mulher com piada. Quatro casamentos e nenhum deu certo. E a graça e a objectividade com que fala disso... E fala de outra coisa, essa em que me revejo. Diz que ao fim de muitos anos, organizaram um fim de semana de reencontro de colegas de escola. E que a atenção que agora dedicam umas às outras é muito diferente de quando eram miúdas em que sabiam lá se alguma passava fome ou se tinha problemas em casa. Também comigo acontece não ter a mínima ideia de quem eram aquelas pessoas, quando andávamos na escola. Talvez por ser míope, habituei-me a não me pôr a olhar para as pessoas pois parece até coisa de mau gosto. Portanto, não vejo, passo ao lado. Depois, sou despassarada, distraída, interesso-me por algumas coisas, ignoro as demais. Acresce que, nessa altura, andava sempre apaixonada ou a gerir diferentes paixões. Pouco tempo me sobrava. Tinha o meu grupo de amigas e amigos com quem andava sempre no laré e em festas e idas ao cinema e à praia, e o resto era um vasto grupo de pessoas que por ali andava. Agora tenho curiosidade, sinto simpatia.

Partilho, pois, o vídeo. Dá para escolher legendas em português. (E vejam lá se, assim de repente, não parece a Maria João Pires)

Ainda não faço ideia

Reflections of Life

Passamos grande parte da nossa vida na esperança de que um dia saberemos finalmente exatamente o que estamos a fazer. Que chegaremos a alguma resposta clara e definitiva. Mas talvez parte de ser humano seja aprender a viver com serenidade dentro da incerteza.

Há momentos em que a vida nos pede para olharmos honestamente para nós próprios, para os padrões que repetimos, as histórias que carregamos e os momentos em que nos perdemos demasiado no nosso próprio mundo. Pode ser um trabalho desconfortável, mas também pode abrir as portas a novas perspetivas, em qualquer idade.

Talvez a sabedoria não esteja em ter todas as respostas. Talvez esteja simplesmente em mantermo-nos abertos, prestar atenção e questionar qual a melhor forma de utilizar o tempo que temos. Para nós próprios, uns para os outros e para a pequena parte que cada um desempenha no todo maior.

Com Célia Beaumont. Filmado em Mossel Bay, África do Sul.


Desejo-vos um belo dia de domingo