segunda-feira, agosto 03, 2026

Luís Neves -- o passivo dos desenrascados

 

Como é sabido por quem por aqui me acompanha, trabalhei mais de mil anos em contexto empresarial, seja o de empresa pública seja, maioritariamente, privada. Trabalhei com gente que nunca mais acaba e, agora, de ginjeira, consigo caracterizar toda a gente que me passa à frente. 

Trabalhei com dois que, a meu ver, são cópias chapadas do Luís Neves. Em empresas diferentes e em anos desencontrados, eles não se conhecem. Mas eu conheci-os bem demais. Ambos altos dirigentes nas respectivas empresas.

Não vou entrar em pormenores mas , caso eles tenham cometido irregularidades, fizeram-nas certamente "por bem". E, de resto, já prescreveram, já foi tudo há muito tempo. 

O primeiro era responsável por uma grande área que, por sinal, tinha vários pontos de risco. Sob sua coordenação, directa ou indirecta, trabalhavam muitas centenas de pessoas. A Administração da qual ele dependia, gostava genericamente dele. Consideravam que não seria um estudioso nem um inovador, nem sequer metódico e, muito menos, especialmente rigoroso. Atrasava-se nos relatórios, sabia-se que, aqui e ali, alguns procedimentos eram aligeirados, e não era extraordinariamente brilhante quando tinha que apresentar planeamentos detalhados ou justificações mais complexas. Mas resolvia todos os problemas. Nunca levava problemas para a Administração. Resolvia tudo e a Administração, na maior parte das vezes, nem sabia que tinha havido qualquer problema. E haver uma pessoa assim é um descanso. Um desenrascado. Por vezes sabia-se que tinha lá estado uma equipa da ACT e chegavam rumores de algumas situações estranhas mas ele dizia que estava tudo ultrapassado, que nem valia a pena entrar em pormenores. Sabia-se que tinha boas relações com os inspectores, que os convidava para almoçar. Era cordial, descontraído, simpático.

Outras vezes, a posteriori, ouvia-se falar em eventuais acidentes de trabalho, outras vezes ambientais. Mas ele assegurava que não, coisas de nada que os intriguistas do costume gostavam de empolar. A Administração lembrava-o que os procedimentos eram para cumprir religiosamente, que a transparência era imprescindível. E ele dizia que sim, claro.

Os seus indicadores eram sempre de excelência. Os colegas torciam o nariz, desconfiavam que ele atirava os problemas para debaixo do tapete, recorria a expedientes, encobria problemas. Mas eram suposições.

Até que mudou de funções. E aí foi o ver se te avias. O pobre coitado que para lá foi encontrou um passivo desgraçado. Situações até embaraçosas, problemas para resolver que não acabavam, os anteriores colaboradores todos a demarcarem-se do antigo chefe, tudo a vir acima.

Infelizmente, por essa altura aconteceu um problema de grandes dimensões, coisa séria, que o transcendeu. Ele foi acusado por inerência de funções mas, directamente, toda a gente acreditou que foi mais um grave acidente do que uma gravíssima negligência. Mas ele foi-se muito abaixo, adoeceu, teve uma depressão, e passou a ser uma pálida sombra do que tinha sido.

O segundo, num outro tempo, numa outra empresa, era igualmente um alto dirigente. Muito do género do primeiro. Considerado um ás, um solver, ainda se estava a começar a ouvir falar de um problema e já ele estava em campo, a resolvê-lo. Afável, simpático, bom trato. Toda a gente gostava dele. Talvez fosse das pessoas mais conceituadas da empresa. Os clientes adoravam-no, os fornecedores estavam sempre a querer falar com ele, as instituições com as quais a empresa se relacionava tinham nele o rosto operacional da empresa, os sindicatos entendiam-se muito bem com ele.

Nunca enviava relatórios e várias áreas penavam para ele dar alguns inputs de que precisavam, por exemplo, para ter orçamentos ou para se fechar as contas. Nunca tinha tempo, andava sempre em reuniões, andava no terreno, dizia que não tinha tempo para papéis.

O pior foi quando se começaram a fazer auditorias. O passivo era gigantesco. Verbas inusitadamente altas por facturar por acordos que fazia com clientes sem informar ninguém, gente que reclamava aumentos e promoções que ele tinha garantido e, como não podia ser ele a dá-los, arranjava maneira de compensar as pessoas com falsas horas extraordinárias ou falsos subsídios. Acordos com fornecedores que fazia à revelia da área de Compras, segundo ele para resolver emergências (das quais as Compras nunca tinham ouvido falar). Recurso a trabalho temporário ou a prestação de serviços sem autorização. Ou, mesmo, querer corromper quadros bem colocados em algumas organizações, segundo ele porque eram pessoas influentes que poderiam ajudar em concursos, e de que, in extremis, foi impedido, deixando-o incomodado por achar que quem o impedia era gente burocrática, sem visão.

Foi afastado de funções de responsabilidade, claro, pois a empresa não queria correr riscos de danos reputacionais. Mas muita gente na empresa pôs-se do lado dele, desculpando as múltiplas e graves irregularidades e louvando o seu espírito desenrascado 

Agora quem quiser que diga se identifica ou não esta maneira de ser com a de Luís Neves.

Nas empresas em que trabalhei, no mínimo seria encostado. No governo do Montenegro, encaixa bem.

domingo, agosto 02, 2026

Querida Maria João

 

É sempre um prazer ouvir Maria João Pires, seja a tocar, seja a conversar. Aos 82 anos continua a ser uma menina: espontânea, franca, inocente, pura.

Não há nela uma ponta de egocentrismo, vestígios de vaidade, preocupação com imagem. É uma pessoa extraordinária. Perto dela, mesmo que apenas através de uma entrevista, sinto-me bem. Há nela uma leveza, uma bondade, uma simplicidade que ilumina.

E fiquei a saber que tenho uma coisa em comum com ela: não gosto de festejar os meus aniversários. Estar com os meus chega-me. Se quiserem cantar-me os parabéns, tudo bem, canto também, apago as velas. Mais do que isso já seria, para mim, uma violência. Há quem aprecie festanças, muitos convidados, altas produções. Abominaria. 

No entanto, gosto de ser convidada para aniversário alheios, gosto de festejar os sucessos e mais um ano de vida dos outros. Gosto mesmo. Mas sem aparatos, só alegria e afecto. Os aparatos são artifícios, futilidades, ilusões efémeras e desnecessários.

No outro dia, quando a minha filha perguntou se eu não gostasse convidar amigos de longa data ou primos e primas para os meus anos, respondi que quando fizer 100 anos reconhecerei que talvez haja motivo para festejar. Digo mais: até me parecerá caso para atirar foguetes --  "olhem para ela, com 100 anos e ainda por cá anda'. Aí, sim. Até lá, é só mais um dia que veio a seguir a outro. 

Mas o tema não tem a ver comigo, tem a ver com a menina Maria João, deusa de Belgais. Deixemo-nos ficar na sua companhia.

Prova Oral - Fernando Alvim conversa com Maria João Pires

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Nota

Não sei se repararam mas tenho andado a escrever pouco. O meu marido tem sido uma preciosa ajuda. A razão é simples: estou com o meu computador em reparação. Por isso, estou a usar um antiquíssimo que já só funciona com teclado virtual, o que me impede de escrever rapidamente e, sem escrever a mil, a minha cabeça bloqueia. A minha cabeça não funciona bem com travões. Também uso o telemóvel mas não é a mesma coisa e, para editar textos dentro do editor do blogger usando telemóvel, também é uma maçada. Por isso, ou passo a palavra ao meu marido (que escreve no telemóvel e me manda por mail e eu só tenho que ajeitar dentro do editor do blogger) ou escrevo coisas curtas. E responder a comentários só mesmo em casos extremos.

Vamos ver se isto se resolve porque, sem computador, sinto-me diminuída.

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Desejo-vos um belo dia de domingo 

sábado, agosto 01, 2026

Seguro: TACO... perdão SACO
-- E cá está, de novo, o meu marido --


Percebemos hoje, com surpresa e agrado, que afinal a fonte de Belém não secou. Terá estado em manutenção, talvez em reparação, mas voltou a jorrar pujante. Diz o Expresso que o Presidente não falou para não adensar a crise. A questão do Seguro não falar é um hábito antigo, para quê comprometer-se?, não é surpresa é mais do mesmo. Mas esta de ele assumir haver uma crise também me surpreendeu. 

O Neves segue as pisadas do Montenegro: trapalhadas, irregularidades, quiçá, ilegalidades (até ouve mimetismo na cena dos dossiers na conferência de imprensa, só para inglês ver). 

O Fernando com as suas decisões cria desigualdades no acesso dos jovens ao ensino superior e desbarata o erário público para corrigir os erros que originou. 

A ministra da saúde dá cabo da saúde dos portugueses. 

A ministra da justiça finge que não existe, quando bens sob custódia do estado vão parar a um armazém lá para os lados de Barcelos. 

O gabinete do Ventura na AR é, presumivelmente, assaltado. 

E, com este panorama, o Expresso refere que há uma crise e que o PR não falou para não a adensar. 

Nada mais errado. Este é o normal funcionamento do governo da AD e das instituições. Só os mais tresloucados achariam bem que o Seguro dissesse umas banalidades, que outra coisa não lhe parece vir ao espírito, por causa da situação atual. A coisa está normal, tudo o que o governo faz é asneira. E já agora uma proposta, se de Trump se diz que TACO, não fiquemos atrás dos cowboys: de Seguro se passe a dizer que SACO (Seguro always chickens out). Parece-me adequado! 

sexta-feira, julho 31, 2026

Fernando Medina, Miguel Sousa Tavares & Luís Neves Lda.
-- A palavra ao meu marido --

 

Critiquei há dias o Henrique Machado pela defesa bacoca que fez do Luís Neves. Para meu espanto, ouvi ontem o Fernando Medina, na mesma linha, a defender, de forma ainda mais incoerente, o Luís Neves.  Então o Medina, talvez o político mais "apertadinho" cá do burgo, vem dizer que o Luís talvez tenha cometido um errito ou dois mas fez o que a maralha geralmente faz e que aquilo de haver uma única empresa a trabalhar para a PJ era por questões de segurança. 

Vamos lá ver se nos entendemos e não atiramos poeirada para os olhos da maralha. 

Se o Luís Neves pode construir em zona protegida, pode pagar (se é que pagou, não apresentou provas) ao empreiteiro de forma informal, se pode não entregar declarações de rendimentos (só porque sim), se pode desrespeitar as ordens do MP, se pode alegar desconhecimento da lei para praticar irregularidades (quiçá ilegalidades), se pode transformar tanques em piscinas num fim de semana (que argumento ridículo, ainda por cima esqueceu-se de que também lá tem deck e da piscina de apoio), se não licenciou as obras (a propósito, o tanque também deveria ter sido licenciado), então qualquer um de entre a maralha pode fazer o mesmo, e não vale a pena vir cá chatear a malta com essa coisa chata do cumprimento da lei. 

E será que o Medina pensa (claro que não pensa) que só há uma empresa a fazer obras para a NATO, a PSP, a GNR, a Marinha, o Exército e a Força Área? 

O que acontece é que existem concursos públicos e, se as questões de segurança forem relevantes, só podem ser consultadas empresas credenciadas. 

Já agora, com que fundamentos é considerada a empresa do amigo do ministro suficientemente segura para trabalhar na PJ? 

Que os argumentos do Medina não têm fundamento e são poeirada é fácil de perceber. Mas o porquê desta defesa tão despudorada do ministro é que é para mim uma incógnita.

A tese de que o Ventura tem um ódio de estimação pelo Luís Neves devido às afirmações sobre a não relação da segurança com a imigração e à perseguição da extrema direita serão, provavelmente, verdade. Mas se o Luís Neves tivesse seguido as boas práticas não estava metido em trapalhadas, irregularidades e, talvez, ilegalidades.

Só mais uma questão. Já alguém viu a proposta dos 150 mil euros para destruir os produtos químicos? E tendo sido "um extraordinário acto de gestão" mandar os barris para lá do sol posto para poupar o erário público, o Luís Neves estava a pensar posteriormente mandar os produtos para a sarjeta para não ter que gastar dinheiro? Os jornalistas podiam fazer algumas perguntas mais incisivas.

Nota: também o Miguel Sousa Tavares fez hoje uma defesa acalorada do Neves. Borrifando para as irregularidades assumidas pelo ministro (parece que o simplex ético do Montenegro está a fazer escola), não tocando em alguns "pormenores" e desvalorizando o comportamento do Neves, tentou limpar o  Luís. 

A ética democrática que vá para as urtigas -- ou será que o Miguel também tem uma empresa tipo Spinumviva para meter as despesas e pagar menos impostos? 

Mas há uma coisa que deve fazer antes de emitir doutas opiniões: é informar-se. O chorrilho de disparates ao desvalorizar os riscos inerentes ao armazenamento (de produtos químicos, não nos esqueçamos - e dos perigosos) só é comparável à sobranceria com que emite opiniões. Qualquer engenheiro químico ou responsável de uma fábrica ou de um armazém de produtos químicos o poderá elucidar para ele perceber as burrices de que enfermaram as suas opiniões. 

Miguel, uma perguntinha: se houvesse um incêndio no armazém do construtor, os bombeiros teriam condições para o combater (note-se que o próprio amigo do ministro informou não haver qualquer documentação relativa aos produtos químicos) ou seria uma catástrofe? A Proteção Civil saberia como agir? 

Sei que o Miguel ganha a vida a botar faladura mas ao menos informe-se sobre o que não sabe.

PS: Quem esteve bem no Eixo do Mal foi a Clara Ferreira Alves -- informou-se  antes de opinar, foi factual, foi incisiva e falou correctamente. Por isso, desta vez, chapeau.

quinta-feira, julho 30, 2026

O atrelado, os bidões e a "boa gestão" -- O que a conferência de imprensa de Luís Neves não resolveu

 

Os factos, por ordem

Em dezembro de 2024, a Operação Pacoba desmantelou um dos maiores laboratórios de produção de cocaína alguma vez encontrados na Europa. Entre o material apreendido estava uma galera (o "atrelado") carregada com dezenas de bidões de precursores químicos — as notícias divergem entre amoníaco e uma combinação de acetato de etila e hexano, num total que o Expresso situa em 12.400 litros. É provável que se trate de um conjunto de substâncias diferentes, mas o ponto relevante é o mesmo: são produtos perigosos, usados no processamento de droga sintética, e a sua gestão exigia cuidados que claramente não foram tidos.

O atrelado foi inicialmente entregue ao parque de apreendidos da Autoridade Marítima, no Seixal. Em agosto de 2025, a Marinha pediu a retirada imediata do material das suas instalações, por os bidões estarem expostos a risco de incêndio. A PJ terá pedido orçamentos para destruir os químicos; o valor mais baixo rondaria os 144 mil euros, tido como incomportável. Sem solução de destruição, o diretor financeiro e do património da PJ, Álvaro Pires, terá proposto entregar o atrelado à guarda provisória de João dos Santos Carvalho — empresário à frente da Construbarcelos e amigo pessoal do então diretor nacional da PJ, Luís Neves, que deu aval à decisão. A 5 de setembro de 2025, a galera seguiu do Seixal para Barcelos, a 350 quilómetros de distância, sem que a PJ tivesse sequer pago o combustível da viagem.

O atrelado ficou então acoplado a um camião da Construbarcelos, num espaço da empresa, exposto às condições climatéricas. Foi aí que, em julho de 2026, uma equipa de reportagem da TVI/CNN Portugal/Nascer do Sol o encontrou, no seguimento da investigação sobre as obras feitas pela mesma empresa na propriedade de Luís Neves em Odemira. Três dias depois, a PJ recuperou o material.

O que há de anómalo aqui

Vários juristas e ex-responsáveis policiais consultados pela imprensa foram unânimes num ponto: não têm memória de um caso semelhante. Um ex-inspetor da PJ com décadas de carreira descreveu a situação como inédita, notando que a prática habitual é os bens apreendidos ficarem à guarda das próprias forças policiais, nunca de particulares. Um antigo procurador-geral adjunto foi no mesmo sentido, sublinhando que a lei só prevê a afetação provisória à Polícia Judiciária — a entrega a um cidadão comum não tem, à partida, cobertura legal. O Expresso avançou mesmo que podem estar em causa crimes de abuso de poder e de descaminho.

O que disse Luís Neves esta quarta-feira

Na conferência de imprensa desta quarta-feira, com luz verde do primeiro-ministro Luís Montenegro, Luís Neves assumiu a decisão como sua e não do subordinado que a propôs. Classificou-a como um "puro acto de boa gestão" e disse que, dadas as circunstâncias, voltaria a tomá-la hoje. Como justificação para a falta de alternativas, referiu que os armazéns da PJ estavam cheios de tabaco e azeite contrafeito apreendidos, o que terá dificultado encontrar espaço para o atrelado. Negou qualquer desvio de bens, qualquer comprometimento de prova ou qualquer contrapartida dada a João Carvalho por ter recebido o material, e garantiu que o transporte foi acompanhado por elementos da PJ — admitindo que, a não existir documentação sobre essa deslocação, se trataria apenas de "uma mera irregularidade". Questionado sobre a ausência de documentos, respondeu não ter "de saber se há documentos ou não", remetendo essa responsabilidade para a atual direção nacional da PJ. Considerou não haver qualquer gravidade no facto de o Ministério Público estar agora a investigar uma decisão tomada por ele próprio.

A reação da oposição foi dura: o PCP considerou incompreensível que o Estado não tivesse uma instalação própria para guardar o material, questionando como é possível o material ter ficado "no meio da rua" à guarda de uma empresa privada sem condições especiais para tratar destas matérias, e criticou o atraso nos esclarecimentos; o Chega falou em oportunidade perdida de decência por parte do Governo.

Os riscos reais dos produtos químicos

Independentemente de se tratar de amoníaco ou de solventes como acetato de etila e hexano, os riscos de dezenas de bidões destas substâncias expostos ao ar livre, junto a uma via de trânsito, são concretos:

      Risco de incêndio e explosão, no caso de solventes inflamáveis — foi precisamente este o motivo invocado pela Marinha para exigir a retirada do material das suas instalações.

      Corrosão dos próprios bidões pela exposição prolongada ao sol e à chuva, aumentando a probabilidade de fugas ao longo do tempo.

      Toxicidade por inalação, sobretudo no caso do amoníaco, que forma vapores irritantes e corrosivos para vias respiratórias, olhos e pele.

      Ausência de contenção adequada — bacias de retenção, ventilação controlada, distância de segurança — que existiria numa instalação licenciada para produtos perigosos, mas não num armazém de uma empresa de construção civil à beira de uma estrada.

      Escala do problema: com uma ordem de grandeza de milhares de litros, um incidente não seria pontual.

O risco que ninguém abordou: e se tivessem sido roubados?

Há uma dimensão que as notícias disponíveis não abordam directamente, mas que decorre logicamente dos factos: durante quase um ano, dezenas de bidões de precursores químicos usados no fabrico de droga sintética estiveram acoplados a um camião, num espaço de uma empresa de construção civil, à vista da via pública — sem o nível de vigilância, controlo de acessos e cadeia de custódia que um armazém policial ou uma instalação licenciada para substâncias perigosas teria.

Quem garante que nenhum bidão foi retirado, substituído ou adulterado nesse período? Não há qualquer auditoria pública ao conteúdo do atrelado comparando o que lá estava em 2024 com o que a PJ recuperou em julho de 2026 — apenas a garantia genérica da PJ, dada a 17 de julho, de que os produtos "não têm natureza estupefaciente". Isso confirma o que os produtos não são, mas não confirma que a quantidade e composição sejam exatamente as mesmas de quando o atrelado saiu do Seixal. Para uma rede criminosa, precursores químicos como estes têm valor de mercado próprio — são bens cobiçados por quem processa droga, com ou sem ligação à rede original da Operação Pacoba. Um armazém de obras, sem vigilância 24 horas dedicada a bens apreendidos, é um alvo bem mais acessível do que uma instalação policial.

Este ponto é especialmente forte porque não depende de provar má-fé de ninguém: mesmo assumindo total boa-fé da parte do empreiteiro, a simples ausência de condições de segurança equivalentes às de um depósito de bens apreendidos já é, por si, uma falha grave de gestão do risco — quer o risco seja ambiental, quer seja de furto ou desvio de substâncias controladas.

Porque é que "boa gestão" não sustenta o argumento

Vale a pena desmontar esta expressão ponto por ponto, porque é o eixo central da defesa do ministro e não resiste a um escrutínio simples:

      "Boa gestão" não é o mesmo que "solução mais barata". Neves justificou a decisão com a falta de espaço nos armazéns da PJ e o custo de destruição (144 mil euros, tido como incomportável). Mas evitar uma despesa não é gerir bem um risco — é transferir esse risco para fora do controlo do Estado, sem o eliminar. Um material que era perigoso a ponto de a Marinha o recusar não deixa de o ser por passar para um armazém privado; muda apenas quem fica exposto a ele e quem o vigia.

      Não há registo de avaliação de risco nem de comparação de alternativas. Uma decisão de "boa gestão" pressupõe, no mínimo, ter pesado opções concretas — outras instalações estatais, outras entidades licenciadas para produtos perigosos, adiamento da decisão até haver verba. Não há indicação pública de que essas alternativas tenham sido sequer consideradas antes de se optar por entregar o material a um amigo pessoal do decisor.

      O Estado nem sequer pagou o transporte. Se a lógica fosse poupança e eficiência, seria de esperar que a operação ficasse, no mínimo, documentada e financiada pela PJ. O facto de o combustível da viagem de 350 km não ter sido pago pela PJ é inconsistente com a ideia de uma decisão institucional ponderada — sugere antes um favor pessoal disfarçado de procedimento administrativo.

      Não há cobertura legal identificada. A lei só prevê a afectação de bens apreendidos à própria Polícia Judiciária — não a um cidadão privado. Uma decisão que carece de base legal não pode, por definição, ser apresentada como boa gestão; é, na melhor das hipóteses, uma improvisação sem cobertura, e na pior, uma decisão administrativamente irregular.

      O conflito de interesse esvazia o argumento da neutralidade técnica. "Boa gestão" implica uma decisão tomada em função do interesse público, não da conveniência de quem a toma. O facto de o beneficiário ser um amigo pessoal do próprio Luís Neves — e simultaneamente empreiteiro noutras obras ligadas ao ministro — retira credibilidade à ideia de que se tratou de uma escolha meramente técnica e imparcial.

      O próprio ministro admite que pode ter havido irregularidade. Ao dizer que, na ausência de documentação sobre o transporte, se trataria de "uma mera irregularidade", Neves está a admitir, ele próprio, que o processo pode não ter cumprido requisitos básicos de registo e controlo — o oposto de uma gestão exemplar.

O ponto final que resume todos os outros: esta decisão não resolveu o problema — apenas o adiou, e pelo meio aumentou os riscos que devia ter eliminado. Em dezembro de 2024, o problema era "o que fazer a bidões perigosos apreendidos". Em julho de 2026, o problema é exatamente o mesmo — os bidões continuam por destruir ou armazenar em segurança —, com o agravante de terem passado quase um ano expostos ao ar livre, junto a uma via pública, sem vigilância policial, sem cadeia de custódia documentada e sem certeza sobre se o conteúdo permaneceu intacto. Gerir bem um risco é reduzi-lo ou eliminá-lo; aqui, o risco ambiental, de saúde pública e de furto que já existia em 2024 não só se manteve como se prolongou e agravou. Chamar a isto "boa gestão" inverte o significado da própria expressão: descreve, na realidade, a ausência de gestão — um problema empurrado para a frente até ser outra pessoa a encontrá-lo.

O que deveria ter acontecido aos produtos

A lei prevê que bens apreendidos fiquem afetos à polícia responsável até decisão judicial; produtos químicos perigosos, precursores de droga, deveriam seguir um de dois caminhos:

1.              Destruição controlada por empresa licenciada para tratamento de resíduos perigosos, com autorização judicial e acompanhamento das autoridades ambientais — o procedimento que a própria PJ terá chegado a orçamentar, mas não executou por alegada falta de verba.

2.              Armazenamento em instalação licenciada para produtos perigosos, com as condições de segurança que nem a Autoridade Marítima nem, muito menos, um armazém privado de construção civil oferecem.

O que não deveria ter acontecido, segundo o consenso dos especialistas citados, é a terceira via que de facto ocorreu: entregar o material a um privado, sem base legal aparente, sem custos assumidos pelo Estado e sem supervisão adequada — sobretudo tratando-se de alguém com uma relação de proximidade pessoal com quem autorizou a decisão.

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Nota: Texto elaborado com recurso a IA, no caso o Claude.

Fontes consultadas: Público, Diário de Notícias, SOL, CNN Portugal/TVI, Correio da Manhã, Expresso/Observador, RTP, Jornal de Negócios, ECO, SÁBADO.

quarta-feira, julho 29, 2026

Ainda o Luís (neste caso, Neves) e a meritocracia
-- Ainda a palavra ao meu marido --

 

Uma das teses que anda por aí é que, como parece que entre os 11,4 milhões de portugueses (vamos ver se o INE não me vem corrigir) o Luís Neves é o único que sabe combater fogos, tenha ele pisado a linha ou ficado em cima dela, não se deve demitir nem ser demitido porque é competente naquilo que faz. É uma tese muitíssimo perigosa. Vou só dar um exemplo e por absurdo demonstrar onde nos podem levar as teses de quem se marimba para a ética republicana e acha que os resultados estão acima de tudo. Vejamos o nosso influencer da área da comunicação e da restauração, de sua graça Isaltino Morais. Se tivesse sido apenas julgado pelos resultados à frente da câmara de Oeiras certamente não teria sido  condenado e preso, porque teve e tem excelentes resultados como autarca. Tinha pisado o risco, mas que se lixe, o que interessa são os resultados. 

E, assim, se vai dando força ao populismo.

Ainda sobre o caso do Luís (neste caso Neves): ouvi hoje o Henrique Machado na CNN fazer uma defesa acérrima do senhor. Ouvindo-o parece que não deve haver qualquer preocupação com os bidons de amoníaco. São perigososos, podem explodir ou evaporar e originar sérios problemas de saúde pública  -- mas, para ele, o que é que interessa? O antigo diretor nacional da PJ é um tipo desenrascado, manda aquilo para um descampado e não há-de ser nada. Mas o Henrique acrescenta que, ainda por cima, a PJ não tinha verba  para destruir corretamente o amoníaco. Com certeza, pedir à Ministra a verba necessária, nem pensar! Guardar o amoníaco numa empresa de produtos químicos com condições para o armazenamento seguro do produto, que heresia! O Machado bloqueou, já não consegue pensar. Habitualmente tão castigador para com criminosos, pseudo criminosos e potenciais criminosos, tornou-se, nesta caso, um cordeirinho. Será que deve alguma coisa à PJ ou ao seu ex-diretor? Nem o advogado de defesa do Luís Neves faria uma defesa mais empoderada do seu constituinte. E já agora, aquela história de ter sido o diretor financeiro a assumir a saída do camião, para mim, é um clássico. Quando quem manda quer fazer uma coisa que não quer assumir que fez, arranja um tipo próximo e pede-lhe (isto é, manda-o) fazer o frete. Deve ter sido o que aconteceu com a entrega da galera ao construtor. Até apostava!

terça-feira, julho 28, 2026

Eleições antecipadas -- na lógica do Tiririca, pior do que está não fica
[A opinião do meu marido]

 

A minha opinião diverge da opinião daqueles que dizem que não deve haver eleições antecipadas porque delas não resultaria nenhuma solução de governo estável. Acho que, pelo contrário, se os astros estiverem alinhados pode resultar uma solução de governo estável. 

Uma coisa é certa: a não ser que o Chega tivesse maioria absoluta, o que não parece provável, qualquer governo que resultasse das eleições não conseguia, por muito que tentasse, ser pior que o atual -- portanto, haveria pelo menos uma vantagem. 

Mas qual a razão para eu pensar que pode haver um governo estável? 

Admitindo que o Luís não ganhava as eleições (as sondagens atuais colocam a AD em 3º lugar) e que o Chega não tem maioria absoluta, é possível que o Chega, ganhando ou não as eleições, fique à frente do PSD. Neste cenário, o Luís ia às urtigas e voltava à Spinumviva, e não me parece que o novo líder, seja ele qual for, esteja disponível para participar como subalterno do Andrézito numa solução governativa. 

Se apostar de forma irritante no otimismo, acredito que até é possível que o próximo líder do PSD seja um social democrata sensato e que se preocupe com o futuro do País. Como acredito que o José Luís Carneiro tem estes atributos, não é descabido pensar que dois líderes com esta natureza poderão dar origem a uma solução governativa duradora, forte e que potêncie o desenvolvimento do País. 

Muito otimismo? Talvez, mas não é impossível, certo?

segunda-feira, julho 27, 2026

O PS desbaratou a maioria absoluta? Então a comunicação social, o MP e o Marcelo não contam?
-- O meu marido reage a um comentário --

 

Num dos comentários ao texto de ontem, que agradeço, foi referido que "o PS desbaratou a maioria absoluta", tese que também é frequentemente referida na comunicação social. Acho muito redutora esta tese. Creio que ainda todos nos lembramos dos ferozes ataques da comunicação social por tudo e por nada e do cerco montado pelo Marcelo, iniciado no discurso de tomada de posse e mantido, dia após dia, com intervenções pouco abonatórias para um PR, com o objetivo de manietarem e desgastarem o governo recém-eleito para, num prazo curto, ocorrerem novas eleições. E parece-me que também ninguém se esqueceu dos golpes soezes do magistratura pública que culminaram com o comunicado da PGR, verdadeiro golpe institucional, que de facto derrubou o governo. 

Um governo com maioria absoluta tem um horizonte de quatro anos e, se houver planeamento estratégico, as medidas são planeadas e postas em prática ao longo de toda a legislatura e não apenas no início do mandato. De facto foi a comunicação social, o Marcelo e o MP que desbarataram as possibilidades resultantes da maioria absoluta. 

Vamos ver se não desbaratam a democracia -- mas, que contribuiram fortemente, isso, não há dúvida!

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-- Texto escrito em resposta ao seguinte comentário:

Somos um povo temeroso. Pensamos que é sempre possível pior e nos recentes actos eleitorais, de facto, fomos de mal a pior. Preferimos o mal que conhecemos e tememos que mudar nos possa colocar em piores lençóis. A resignação cultivada pela sociedade católica-salazarenta. A falta de crédito do ps reparte-se, a meu ver, por culpas próprias, na forma como desbaratou uma maioria absoluta, e pela eficácia da campanha de propaganda anti-ps que é sempre orquestrada com sucesso pela direira. É o ps não parece estar em grande forma.Ontem ouvi Eurico B. Dias, lider parlamentar a a faĺar aos jornalistas e até senti vergonha alheia. Não disse nada, atabalhoado nas palavras, parecia não saber o que dizer, comprometido.. porquê?...O que o psd não faria se fosse oposição com os caso mai e meci, já para não falar sa saúde. E, no entanto, o ps tem esta coisa patética de se preocupar com o que o psd possa "pensar" dele quer mostrar-se "responsável", do que em ir à luta. E penso que o povo percebe isso e o seu desprezo pelo ps decorre mais do facto da sua falta de coragem e situacionismo do que das qualidades do actual governo. "Para mal, já basta assim"

domingo, julho 26, 2026

Somos um povo de masoquistas para querermos que esta legislatura chegue ao fim?
-- A palavra ao meu marido --

 

Admitindo que a sondagem foi bem feita, a maioria dos portugueses quer que a legislatura chegue ao fim, embora na mesma sondagem haja uma maioria de portugueses que desaprova fortemente as políticas setoriais do governo. É difícil perceber qual é o racional desta opção. Seremos maioritariamente masoquistas? Temos um governo em que o PM não sabe governar, segue a agenda da extrema direita, mente descaradamente (ainda hoje ouvi que no início do ano anunciou que iam adquirir 275 viaturas para o INEM e hoje o respetivo diretor referiu que iam lançar um concurso para 40 viaturas), atravessou mais vezes o atlântico durante o mundial que os pilotos da TAP, demonstra uma enorme insensibilidade social, decretou o simplex ético (uma vénia ao Pedro Marques Lopes) e não cumpriu as promessas que fez na campanha eleitoral. Um ministro da administração interna que, de acordo com as notícias recentes, trata os aspetos relacionados com obras particulares com uma grande informalidade, senão, irregularidade ou pior. Um MAI que nasceu com o rabo virado para a lua e consegue comprar vários montes no Alentejo por preços muito inferiores ao preço de mercado e, simultaneamente, efetuar obras nos montes sem os correspondentes pagamentos ao empreiteiro, que não entrega declarações de património e parece protagonizar uma situação alo bizarra com uma galera sob custódia da PJ. Uma ministra da saúde que para além de tudo o que de péssimo tem feito no SNS agora conseguiu põr diversas especialidades médicas contra ela e, mais grave, recusarem-se a efetuar atos médicos. Um ministro da educação, uma verdadeira fraude, que, com a sua arrogância e incompetência, conseguiu introduzir o caos no sistema de exames e introduzir desigualdades nas avaliações -- pior seria difícil. Um ministro das infraestruturas que de pacote em pacote continua na mira do MP por causa do período em que foi vice-presidente da câmara de Cascais e participou na aprovação de um projeto muito controverso. Uma ministra do trabalho que também mente descaradamente (a última foi sobre as baixas) e levou com chumbo grosso quando tentou alterar a lei laboral. Uma ministra da justiça que não fez nada no setor e se mantém muda e queda apesar da galera á guarda da PJ ter ido passear para  Barcelos. Um ministro das finanças que não controla a despesa pública. Um ministro da presidência que não prima pelo rigor e revela uma falta de preparação atroz. Um ministro da economia que não existe. Uma ministra da juventude que para além de pôr em prática políticas erradas também mente. E já basta de exemplos. Portanto, com este panorama, das duas uma: ou somos masoquistas ou andamos a chutar para a veia para querermos manter este governo. Por mim mandava-os pastar caracóis de imediato. Existem riscos na opção de convocar eleições mas em democracia há surpresas e pode acontecer que depois desta experiência a maioria vote com a cabeça e não com os pés.

sábado, julho 25, 2026

Bilionários, Musk e o fim do dinheiro: uma profecia por medida

 

Li esta semana a newsletter do Robert Guest, director-adjunto da Economist, a propósito da entrevista de Zanny Minton Beddoes a Elon Musk. O texto é curto, mas junta num único parágrafo três ideias que merecem ser separadas antes de serem discutidas: a defesa da fortuna dos bilionários, a profecia de Musk sobre o fim do dinheiro e o aviso, vindo do próprio Musk, de que a IA poderá deixar de nos obedecer.

Imagem gerada pelo Chat GPT

Começo pela primeira. O Economist argumenta que a maior parte da riqueza dos bilionários actuais não vem de heranças nem de cunhas, mas de indústrias competitivas, e que isso beneficia o público. É uma tese defensável, e Guest tem a honestidade de admitir a sua própria ironia biográfica: foi bilionário durante uma noite, em Angola, na era da hiperinflação, o que reduz o conceito ao absurdo antes mesmo de o discutir a sério. Mas a tese generaliza um argumento sectorial (tecnologia, sobretudo) para uma classe inteira de fortunas que inclui petróleo, imobiliário e finanças, sectores onde a relação entre riqueza e benefício público é muito menos evidente. Defender os bilionários em bloco porque alguns deles inovaram é o mesmo erro, ao contrário, de condená-los em bloco porque alguns herdaram ou exploraram posições dominantes.

A segunda ideia é a mais reveladora. Musk prevê que, dentro de poucos anos, o dinheiro deixará de ter importância, incluindo a sua própria fortuna de 750 mil milhões de dólares, porque a IA criará uma abundância tal que acumular moeda deixará de fazer sentido. É uma promessa antiga com roupagem nova: sempre que uma tecnologia promete acabar com a escassez, promete também acabar com o poder que a escassez sustenta. Ora quem faz esta previsão é, precisamente, quem mais beneficia de adiar a redistribuição desse poder até esse dia hipotético chegar. Enquanto a abundância não chega, a fortuna, o controlo das empresas e a influência política continuam concentrados nas mesmas mãos que prometem dissolvê-los amanhã. É uma escatologia conveniente: pede-se fé no fim dos tempos a quem já detém o presente.

A terceira ideia é a que devia preocupar mais gente e preocupa menos. Musk admite, na mesma entrevista, que a IA poderá vir a ser tão mais inteligente do que os humanos que a nossa relação com ela se pareça com a relação entre um chimpanzé e um humano. A proposta de segurança que oferece, os próprios pioneiros da IA vigiarem-se uns aos outros, com o governo como rede de protecção, é notavelmente fraca para o tamanho do risco descrito. Confiar a auto-regulação a um punhado de empresas em competição directa entre si, cada uma com incentivos financeiros para acelerar em vez de travar, não é uma política de segurança, é uma declaração de intenções. O próprio artigo lembra a fuga recente de um modelo de uma jaula supostamente segura, o que só sublinha a distância entre o discurso tranquilizador e os factos já disponíveis.

Vale a pena juntar a isto a crítica de Tim O'Reilly, citada no mesmo texto: Musk estaria a construir uma forma de capitalismo sem os controlos que os accionistas normalmente exercem sobre os gestores. Esta observação liga as três ideias anteriores. Um homem que concentra poder sobre empresas sem supervisão efectiva dos accionistas, que promete uma abundância que ainda não chegou, e que ao mesmo tempo admite não ter a certeza de conseguir controlar a tecnologia que está a construir, não está a oferecer garantias, está a pedir confiança antecipada. E a história do luddismo, também referida na mesma edição, devia servir de aviso: não é que os luditas estivessem errados sobre o impacto da mecanização nas suas vidas, estavam errados sobre a possibilidade de a travar. A pergunta que interessa hoje não é se a IA vai mudar tudo, é quem decide os termos dessa mudança enquanto ela acontece, e não depois, quando já não houver nada a negociar.

Este texto parte do editorial de Robert Guest na newsletter da Economist de 24 de Julho de 2026, a propósito da entrevista de Zanny Minton Beddoes a Elon Musk.

sexta-feira, julho 24, 2026

Ela não dava respostas, ela ficava na pergunta

 

Não sei bem qual o primeiro livro dela que eu li. Sei, isso sim, que me agarrou pelas vísceras. É daquelas coisas que, se eu quiser explicar, não sei bem o que dizer. A ideia que tenho é que ela não contava propriamente uma história, contava o que alguém, ou ela mesma, sentia. Mas sentia a um nível muito elementar. Em geral os escritores falam de eventos especiais, marcantes. Quando muito, numa crónica ou num registo mais diarístico, acontece o autor permitir-se falar de pequenos nadas da sua vidinha, insignificantes impressões. Mas abrir-se um livro, romance ou novela, e uma pessoa sentir aquela sensação estranha de que entrou na cabeça ou no corpo de alguém e que experimenta aquelas dúvidas miúdas que geralmente nunca veem a luz do dia ou aqueles medos ou aflições que nunca se verbalizam, aquela maldade de que se sente vergonha apesar de ser inofensiva, isso é muito estranho. Lembro-me de de avançar de página em página e depois recuar, querer ter a certeza de que tinha lido bem, que aquela escrita existia mesmo da forma como eu estava a assimilar. Uma sensação que era de estranheza, sim, mas, ao mesmo tempo, de grande admiração, uma admiração por algo novo, e, também, de vontade de a ter descoberto há mais tempo. E, reconheço agora, uma vontade de também ser capaz de escavar assim, tão impiedosamente, dentro de mim.

Fui comprando os seus livros. 

Quando o mundo deixou de ser analógico e as pessoas, mesmo as desaparecidas, continuavam vivas nos nossos computadores, comecei a ver como ela era, como era a sua voz, como demonstrava tão cruamente o desinteresse pelas aparências, como não disfarçava o seu cansaço. 

Também morreu cedo de mais.

Alguns dos seus livros, para mim não ser para ler de seguida. Não costumo ler missais mas imagino que abra-se em que página se abrir, está sempre certo, faz sempre sentido. E, se não vier a calhar, abre-se ao acaso noutra página e já vai estar bater certo com o que estamos disponíveis para ler. Assim com algumas das suas coisas. É a escrita pela escrita. Mas isto não significa que seja desprovido de sentido. Significa apenas que é uma escrita que não se encaixa nas escalas a que estamos habituados: é uma escrita multidimensional em que as derivadas e os vectores secindários são tão determinantes quanto os eixos principais e os pontos que por entre eles se deslocam.

Há muitos documentários sobre ela e, às tantas, já não há nada de novo a acrescentar. Mas vou sempre ver. Gosto de ver o seu desapego. Era também assim que escrevia, sem querer saber.

Já aqui o referi antes: nestes tempos de mil solicitações, em que a sua atenção fica cativa dos youtubes, dos influencers, das redes sociais, da omnipresença do futebol, não sei como se instila nos jovens o prazer da leitura. A realidade deles já é quase exclusivamente a das notícias que se descrevem em meia dúzia de palavras, dos vídeos cheios de palavrões, dos jogos e das interacções através das muitas plataformas de partilha de toda a espécie de coisas, sobretudo de lixo. 

Como conseguir que um jovem, mesmo um jovem adulto, pegue num livro dela, tão diferente de tudo, e não desista antes de chegar ao fim da primeira página?

Não sei.

Vou dizer o que disse no outro dia: um dos meus netos fez o 12º. Creio que não leu um único dos livros obrigatórios. Sei que gostou dos Lusíadas, mas não sei se o leu todo. Da maioria dos livros que poderiam sair no exame sei que não leu. Disse que não tinha tempo nem paciência, que precisava do tempo para se concentrar na matemática. E, no entanto, nos testes lectivos teve sempre boas notas. Não lhe disse nada para não o enervar, mas temi pelo exame. Mas ainda bem que não disse pois no exame teve uma nota igualmente alta, nem sei se até um pouco superior à lectiva. Como o conseguiu? Youtube, provavelmente trabalhando em conjunto com a IA na caracterização de personagens ou na descrção do enredo. Não sei ao certo. O que sei é que resultou com o tipo de ensino que temos que, como se vê, não consegue estimular o gosto pela leitura. Em casa cresceu entre livros, sempre testemunhou hábitos de leitura, sempre foi incentivado a ler. E lia. Até que cresceu e começou a ter menos tempo livre e até que foi confrontado com a necessidade de ler livros que não lhe dizem nada. Como é inteligente e facilmente apanha do ar, desenvolveu formas de atingir os objectivos escolares. Mas temo que o prazer de desbravar o infinito mundo da literatura se tenha dissipado, pelo menos para já.

Mas, enfim, o inteligente ministro da educação (letras deliberadamente pequenininhas) há-de também te solução para isto.

O enigma de Clarice

Clarice Lispector não escrevia apenas histórias. Neste vídeo, mergulhamos na vida e na mente de uma das figuras mais enigmáticas da literatura mundial. De sua origem Ucraniana ao auge no Brasil, entenda como Clarice transformou a literatura. Se você já se sentiu um "estrangeiro" no próprio mundo, este vídeo é para você.

E já estamos outra vez numa sexta-feira

Que ela seja feliz

quinta-feira, julho 23, 2026

Da próxima vez

 

No acelerar dos dias, entre toda a espuma da infinita torrente informativa que nos submerge, grande parte do que é importante passa desapercebido. Por experiência própria, agora que tenho conta de instagram, sei que se queremos acompanhar tudo o que o algoritmo tem para nos mostrar, não paramos de escorregar o dedo pelo ecran para ver a notícia seguinte e a outra e a outra e a outra. E tantas vezes, aquilo que não compreendemos bem acaba por se esvair entre tudo o que é sugado pela máquina trituradora do que já foi visto.

No outro dia li uma notícia. E como me tem acontecido com alguma frequência, sempre que é uma aberração, a minha reacção é a de pensar que talvez não seja credível. Faço mal. O inteligente seria ir investigar. Mas continuo a deslizar, penso que depois logo vejo se é mesmo verdade, e o que acontece é que nunca mais me lembro.

E, tal como tem acontecido com todas as aberrações, venho a verificar, depois, que, afinal, era mesmo verdade.

Quando um assunto é nebuloso, fora do nosso controlo, coisa complexa, há quem tenda a não querer saber. Uma reacção do tipo 'entrega para deus'. Só que, neste caso, não é bem a deus que se entrega. É à Open Ai, à Anthropic, à Gemini, sabe-se lá a quem.

Transcrevo: "Modelo de IA da OpenAI age por conta própria e lança ciberataque durante testes de segurança"

"(...) A OpenAI afirmou que o que aconteceu foi um incidente "sem precedentes" e está a conduzir uma investigação em conjunto com a Hugging Face, cujo diretor, Clement Delangue, afirmou numa publicação no X que é "impressionante que tudo isto aconteceu de forma autónoma".

Só que não é apenas impressionante: é a prova provada dos reais riscos que todos corremos com a corrida desenfreada nos domínios da Inteligência Artificial. O mercado bolsista pressiona mais e mais ganhos e as empresas são pressionadas a entregar mais e mais, a chegar mais e mais longe. 

Enquanto houver quem descubra o que vai acontecendo ou enquanto houver quem vá denunciado as linhas vermelhas que, aos poucos, vão sendo pisadas, talvez os riscos vão sendo amortecidos. Mas pode acontecer que um dia algo de muito mau aconteça sem que ninguém vá a tempo de travar.

Não é alarmismo. É a realidade. Os riscos começam a apertar o cerco. Como será da próxima vez?

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Ao acordar e ao dar uma vista de olhos pelas notícias vi o que também não queria ver: Luís Represas saiu de cena. Não devia. A sua voz parecia eterna. A sua voz mobilizava e emocionava multidões. Ficam os vídeos, os discos. É certo. E é também certo que ninguém cá fica. Mas ele foi cedo demais.

Como sempre acontece, quando sei destas notícias, tento compreender. Tento ver nas imagens que agora nos vão aparecendo se já havia indícios. Em Março esteve no concerto e, que se tivesse percebido, parecia bem, não parecia debilitado, cantava, não arfava nem tossia. 

Dois familiares muito próximos morreram com cancro no pulmão. Foram anos de sofrimento com tratamentos horríveis. E tinham tosse, falta de ar, custava-lhes a respirar, tudo lhes doía. Um calvário. Mas, no caso da minha mãe, não foi assim. Não soubémos de nada até que já estava às portas da morte. Será que com o Luís Represas foi também assim? Saberia ele, no concerto de Março, que estava a escassos três ou quatro meses de se despedir deste mundo? Faz-me isso muita impressão. Ao ver agora as suas imagens, penso que estava mal encarado. Aliás, já o tinha achado envelhecido, enrugado. Na altura pensava apenas que a idade não perdoa, que era normal que, quase aos 70, não tivesse a mesma carinha de menino que sempre teve. Mas, agora que sei, penso que, se calhar, era já a morte, inclemente, a galope dentro dele. Se calhar é mórbido eu querer perceber o que talvez não tenha nada que perceber. Mas faz-me isto muita impressão. Ele e o João Gil e os outros ali em palco, todos reunidos. Saberiam que o fim dele estava para breve? Fico triste. Nem todas as perdas são assim, mas esta é. A morte não deveria ter levado já o Luís Represas. 

Não haverá próxima vez.


Desejo-vos um dia feliz

quarta-feira, julho 22, 2026

Maitê

 

A vida das mulheres bonitas ou das grandes actrizes nem sempre é um mar de rosas. Olhando de fora, imagina-se glamour, festa, sucesso e recompensa, rosas com fartura, mesa farta, casas divinas, cabelos sempre impecáveis, pele replandescente, sorriso sempre presente. E, no entanto, pode não ser exactamente assim. A beleza não mostra forçosamente os antecedentes, os sofrimentos, a carne marcada. A arte de bem representar esconde por vezes a força da sobrevivência -- e não são apenas as artistas de cinema, televisão ou teatro que recorrem a essa arte.

Com Maitê Proença a vida começou por ser bem dura, trágica mesma. Mas, talvez porque sempre foi de fibra, a verdade é que foi vingando na vida. E foi desbravando caminhos. E foi trabalhando, lavrando a escrita, inventando, criando. Os anos de vida foram-lhe tanto segurança, ainda mais força, maior capacidade para escolher.

E continua linda. Assertiva, inteligente, leve. Pode não ser exactamente assim por dentro mas, depois de ouvi-la, é isso que parece. Uma mulher muito interessante. E gosto de ouvi-la falar da terra, das coisas simples. Conversa gostosa. É bom ouvir conversar assim.

Maitê Proença: “Acho que quis me matar durante anos, sem saber” | THE BUSINESS OF LIFE

“Acho que quis me matar durante muitos anos, sem saber que queria aquilo,” disse Maitê Proença, aos 66 anos. Relembrando sua difícil história familiar, a atriz revelou que se colocou em situações de alto risco, porque não via tanto valor na vida. “Se eu fosse embora, seria um grande alívio,” afirmou a Nilton Bonder neste episódio do The Business of Life.

Aos 12 anos, precisou lidar com a trágica morte de sua mãe - assassinada por seu pai por ciúmes. Anos depois, em 1989, seu pai se suicidou. Na sequência, seu irmão adotivo também tirou a própria vida. “A morte da minha mãe teve consequências em outras mortes igualmente trágicas. Todo mundo à minha volta foi afetado.”

Maitê Proença contou que precisou criar uma “persona para si” para poder ficar de pé. “Eu não tinha mais família. A família do lado da minha mãe nunca mais falou comigo [após o ocorrido],” por ela ter sido testemunha de defesa do pai no processo. “Escolhi não odiá-lo pois entendi, não sei como, que o ódio não levaria a um bom lugar.”

Após o falecimento da mãe, a atriz morou num pensionato luterano e estudou um tempo em Paris. Indecisa sobre qual profissão seguir, prestou vestibular para várias faculdades, mas resolveu viajar o mundo, indo para diversos países da Europa, África e Ásia. Dois anos depois, retornou ao Brasil e ingressou no teatro, convidada pelo diretor Antunes Filho. Em pouco tempo, estreou na TV: primeiro na TV Tupi, em 1979, com Dinheiro Vivo; depois, em 1980, na Globo, como uma das protagonistas na novela As Três Marias. 

O começo não foi fácil, porque ainda não estava pronta para expor minhas “vulnerabilidades emocionais,” afirmou. “Até meus 20 anos, eu era muito fechada. Achava que, se eu lidasse com o emocional, iria morrer. Aí bebi, me droguei, para dar conta de tudo.” O teatro foi desafiador no início, mas, ao mesmo tempo, maravilhoso. “Fui obrigada a mexer num vespeiro. Se tivesse escolhido outra profissão, teria vivido naquela aridez emocional até hoje.”

Ao longo da carreira, Maitê foi cronista, publicou romances, escreveu e produziu suas próprias peças de teatro. Sobre seu momento atual, ela afirmou: “Graças a Deus envelhecemos, porque as coisas vão ficando mais fáceis.”


Um dia feliz para todos

terça-feira, julho 21, 2026

O clube dos macho men da pila curta*

 

Já contei que sou tão céptica em relação às redes sociais que, quando me aparece alguma publicação especialmente estúpida, passo à frente: penso que pode ser fake, imagens manipuladas ou forjadas. Continuo a ter a ideia de que o mundo pode estar em franca degenerescência, pode estar infectado até à medula com populistas, palhaços e fantoches por todo o lado, mas, enfim, ainda há alguns limites. Ora tenho constatado que faço mal em ser tão cépica pois, na prática, o que estou a ser é ingénua.

Por exemplo, há não muito tempo eu juraria que seria impossível que o mundo estivesse nas mãos de um maluco rodeado de verbos-de-enche, de lambe-botas, de puxa-sacos. Depois, quando constatei que aconteceu, juraria que não se aguentavam muito. Aguentam-se. Portanto, mais me vale render-me às evidências.

Uma das personagens que acho de gargalhada, anedora pura e dura, é o Secretário da Defesa Pete Hegseth, intitulado da Guerra. Uma coisa inenarrável. Nitidamente é daqueles fulanos que acredita que é por ser alto e bem constituído que é mais homem. Ainda por cima, vê-se que é daqueles mentecaptos que acredita que, se em cima das suas condições genéticas, acrescentar uns músuculos trabalhados vai despertar o respeito alheio.

Parte das suas instruções aos militares tem a ver com essas parvoíces: que não podem ter barriga, que não podem  ser gordos, que não podem ter barba.

Pode ser pancada minha mas sempre tive para mim que os homens que se têm em alta conta, que têm um grande orgulho no seu físico, são tipos com fraco miolo. Por acaso, até hoje ainda não encontrei a excepção. Muito direitinhos, muito espetadinhos, músculos muito trabalhadinhos e, vai-se a ver, e são uns parvinhos que até enjoam.

Pior ainda se têm uma conversa muito sexuada. Um tipo que fala muito em testosterona, cá para mim é um parvinho que tem medo de a ter em fraca dose. Que tem medo de ou que sabe mesmo que a tem em pouca ou rala qualidade. É como os que contam muitas piadas de gays, fingindo-se de muito machos: geralmente são gays não assumidos. Ou que andam sempre com piadas sobre pénis pequenos querendo dar a entender que os deles, não, os deles são gigas: nada, coisa nenhuma, geralmente são uns pilas-de-gato.

É o caso deste Pete Hegseth: calmeirão, calmeirão, todo quitado, todo músculos, agora quer tudo o que é tropa a medir a testosterona. Não sei sequer o que pense disto, de tão absudo que é. Não sei se a seguir vai impor que levem injecções, que ponham adesivos ou que apliquem o gel milagroso ou se o próprio Donald não forma uma empresa de Pau de Cabinda convencendo os incautos magalas a abastecer-se no Trump Free Shop. E, pensando bem, o mais certo é que, em breve, da ficha de candidatura às Forças Armadas conste também o tamanho do pénis.

Imagem gerada pelo ChatGPT

Como as duas divertidas tertulianas que no vídeo que abaixo partilho, dizem: só um tipo que tem défice da dita se lembra de impor os testes aos outros como se ele a tivesse de sobra. Como o demente Trump que passa a vida a gabar-se de fazer testes cognitivos sem perceber que toda a gente pensa que se lhos fazem tantas vezes é porque andam a monitorizar o avanço da maluquice.

Michael Woolf no outro dia dizia que nos próximos cem anos, em termos de análise histórica, muita gente vai tentar perceber como é que foi possível que uma trupe tão desqualificada, comandada por um narcisista maligno, cruel, inconsequente e demente, tivesse conseguido ser eleito duas vezes com taxas de aceitação apesar de tudo razoavelmente elevadas. Concordo. É surpreendente, mesmo. Acho que seria interessante acrescentar mais um indicador para análse e para estudo de corrrelações: o tamanho do pénis, e, porque não?, também os níveis de testosterona.

Eu sei qual é o problema de Pete Hegseth com a questão masculina | Podcast do The Daily Beast

Jennifer Welch regressa ao podcast do Daily Beast depois de ter provocado uma tempestade política, revelando como um comentário sobre o ensino doméstico a colocou na mira do Departamento de Educação e dos meios de comunicação conservadores. De seguida, ela e Joanna Coles voltam a sua atenção para as maiores batalhas políticas da semana. Desde a obsessão de Pete Hegseth com a testosterona e a crítica mordaz de Jennifer ao movimento MAGA, passando pela saúde de Mitch McConnell, o futuro político de Andy Beshear, Todd Blanche, os arquivos de Epstein e as crescentes divisões dentro de ambos os partidos, Jennifer apresenta algumas das suas análises mais provocadoras até à data, explicando porque é que os democratas precisam de parar de se defender, porque é que as quezílias internas republicanas só pioram e porque é que as histórias que dominam Washington estão longe de terminar.


[*Ia dizer da pila murcha mas depois receei incomodar alguma alma mais sensível Por isso, ficou curta, assim como assim, pode ser que seja mais consensual]

segunda-feira, julho 20, 2026

Mário Centeno, português de gema -- em entrevista com Miguel Nabinho

 

Gosto de Mário Centeno. Parece-me uma pessoa de bem. Com ele, eu aprendo sempre qualquer coisa. E confio nele.

Penso muitas vezes como Portugal poderia estar muito melhor se Marcelo Rebelo de Sousa não tivesse cometido o erro disparatado e imperdoável de não o aceitar como Primeiro-Ministro. 

Mas não vou falar, vou partilhar a interessante conversa dele com Miguel Nabinho, que me tem surpreendido com entrevistas muito boas.

QUE PAÍS É ESTE - Entrevista a MÁRIO CENTENO conduzida por Miguel Nabinho


Desejo-vos uma boa semana

domingo, julho 19, 2026

Atrelados, mentirosos e quejandos: Luís , Luís & Alexandre -- firma unipessoal de irresponsabilidade ilimitada
[A palavra ao meu marido]

 

O Luís (neste caso Neves) seguiu as pisadas do Luís (neste caso Montenegro) no caso Spinumviva. Arranjou um empreiteiro amigalhaço que tinha feito obras para a PJ, da qual era diretor, para fazer umas obras lá em casa num espírito de grande informalidade. A coisa já tem que se lhe diga, mas piorou. Soube-se que o Luís (neste caso Neves) autorizou que um atrelado apreendido numa operação de droga, cheio de químicos, parqueado num depósito da Marinha no Seixal, fosse parar às mãos do empreiteiro amigalhaço. Tão inverossímil que parece fake. Se o MAI não for corrido depois desta, nunca ninguém será corrido de um governo de Luís (neste caso Montenegro). E já agora sugiro uma linha de investigação à PJ sobre este caso. Parece que o Luís (neste caso Neves) cravou uma solipas à IP para fazer obras lá em casa. Será que o atrelado não foi cedido para transporte do material cravado?  Já agora um conselho ao responsável pelo depósito do Seixal. Vi numa imagem televisiva que há imensas lanchas parqueadas no depósito -- será que ainda estão lá todas? Uma embarcação destas dava imenso jeito para dar umas voltinhas tanto no mar como no rio em Odemira.

O caos nos exames é inacreditável e o comportamento do ministro ainda pior. O Alexandre mente, ameaça, chuta responsabilidades e enxovalha os professores. Para além disso é burro que nem uma porta. Um tipo com inteligência mediana nunca cometeria tantos erros em tão pouco tempo como o Alexandre fez no processo dos exames. Os senhores comentadores que achavam que este tipo é o suprassumo da batata frita o que dizem agora? Pois,... A talhe de foice, os professores que foram desrespeitados, acusados de várias formas e ameaçados com demissões impossíveis comeram, calaram e não fizeram birras. Longe vai o tempo em que por dá cá aquela palha amuavam e faziam greve. O dinheiro é um poderoso motivador não é?

Este governo é um governo de incapazes e mentirosos, até a ministra pepsodente mentiu descaradamente sobre as instruções da UE relativamente à gratuitidade em algumas entradas nos museus. 

As sondagens indicam que os portugueses pensam o pior sobre as políticas setoriais e, no entanto, também mostram que querem que o governo se mantenha até ao fim. Há muito tempo que conclui que somos um povo de masoquistas, o que se confirma com esta opção paradoxal. 

Um governo em que não fazem nada que se aproveite, criam problemas atrás de problemas, mentem descaradamente... e a malta quer mantê-los a governar? Está tudo bêbado ou é do calor que se tem sentido?

sábado, julho 18, 2026

[Em actualização] Sem rede... mas com muita competência*

 

Finalmente, às onze da noite, saíram as notas na escola de um dos meus netos. Recebi fotografias dos carros e do monte de alunos à porta da escola. Já as sabe, já está aliviado. Pelo menos não foi um dos 'suspensos' cujas notas não puderam ser publicadas porque as provas ou parte das provas desapareceram ou coisa que o valha. Teve as notas que esperava e, portanto, até ver, está tranquilo. 

O do 9º ano, ao contrário do que o ministro anunciou, vai continuar a aguardar, mas, enfim, sendo aborrecido e frustrante, não é determinante para a sua vida futura. 

E, como era previsível, aquela ideia anunciada pelo ministro de que iam disponibilizar a todos os alunos, sem ser necessário pedir, a cópia do exame e a correcção, por mail, não vai acontecer. Só vai ser facultada, caso a caso, a quem a pedir. Como ontem disse, enviar massivamente não seria nada de mais desde que a aplicação tivesse bem desenhada e testada. Agora, anunciado da forma que foi, que pareceu mero improviso, dificilmente correria bem às primeiras. Seria como todo este processo: erros, omissões, dúvidas, atrasos e mais atrasos, e, até ao último momento, o ministro sem perceber o que se passava. E, como parece apanágio deste governo, meteram-lhes na cabeça que a melhor forma de defesa é o ataque e, portanto, no meio da maior confusão de que há memória, teve a lata de aparecer a disparar em todas as direcções: contra os partidos que o criticaram, contra os professores, contra as escolas e, até, contra as famílias que foram imprudentes em acreditar nos calendários. A forma como as escolas e os professores, então, têm sido tratados, ameaçados e desrespeitados é insana, cobarde e revoltante. Ocorre-me, até, a palavra abjecta, mas reservo-a para mais tarde.

De qualquer maneira, parece que para a grande maioria dos alunos*, embora às quinhentas da noite, as notas já estão visíveis e já conseguirão ajuizar se devem pedir revisão ou se podem avançar para as candidaturas à próxima etapa da sua vida académica. 

Como balanço provisório, o que posso dizer é que isto não é uma transformação, não é uma modernização, nem nada do que aconteceu é normal em processos desta natureza: é, isso sim, um processo miserável, toda a gente mais aos papéis do que antes da dita 'digitalização', um verdadeiro atraso de vida, a gastarem pipas de massa, vamos ver se não houve falhas em termos de RGPD, e criando em toda a sociedade a sensação de amadorismo, de incompetência, de falta de rigor. E conduzido por um ministro arrogante, irresponsável, e, cobardemente, a sacudir a água do capote para todo o lado.

* E, tal como eu antecipava, não conseguiram concluir o processo. Não apenas deixaram para trás os alunos do 9º ano como, tal como era mais do que previsível, não conseguiram que todos os ficheiros do 12º estivessem incorruptos, sem registos com problemas (por exemplo, alunos sem classificação, alunos com classificação superior a 20, classificações com items negativos, alunos sem items classificados). Então, fizeram uma coisa que eu nem pensei que fosse legal fazer: avançaram com a divulgação das notas, deixando para trás milhares de alunos (segundo se lê nas notícias, são milhares e não centenas). Alunos sem nota nas pautas. Este governo é assim: passa por cima de toda a folha. Mesmo que a folha sejam alunos e as respectivas famílias que a esta hora devem esar bem ansiosos sem saber o que lhes vai acontecer.

E uma coisa me parece: não apenas a legalidade desta discriminação deveria ser averiguada como a forma como as correcções estão, a posteriori e à pressa, a ser feitas deveria ser muito seriamente auditada. Quem garante que, para ultrapassar o que, em alguns casos, pode ser inultrapassável de forma limpa, não substituem os erros por valores para lá postos à martelada? Marteladas em informática é a tentação óbvia para quem não sabe corrigir as coisas de forma correcta. Ainda por cima, na fase em que se está, de preparação de ficheiros, já não há professores envolvidos que possam denunciar alguma manobra pouco canónica. 

Só espero que os sindicatos dos professores, as associações de directores escolares ou de pais ou os próprios deputados exijam uma auditoria muito séria à forma como os milhares de registos errados, incompletos ou (informaticamente) corrompidos vão ser corrigidos. Read my lips: ponham-se em cima disto.

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Mas já é sábado e, muito francamente, estou sem saco para me ocupar do Fanã-alex (que anda com um cabelo que só me dá vontade chegar-lhe uma máquina de tosquiar cães) e afins. Por exemplo, ao ocorrer-me aquela coisa bizarra do atrelado que estava parqueado num recinto da PJ e foi 'dispensado' ou 'emprestado' (não faço ideia) a um empreiteiro (parece que sem alvará) que fez as obras na casa do Luís Neves, fico a pensar que talvez pudesse aqui dar um lamiré sobre o assunto. Mas, por um lado, nem sei o que dizer, não percebo nada daquilo e, por outro, não me apetece.

Andei a regar. De fato de banho, descalça, de mangueira em punho, aí, sim, aí estou na minha praia. E devia ter varrido mas estava muito calor e o calor derrete-me a energia. Felizmente parece que este sábado a temperatura vai dar alguma trégua e pode ser que consiga sentir aquela pica que me leva a varrer sem parar, a encher carrinhos de caruma e folhas secas e levá-los para os despejar na terra.

Até lá, fico com imagens fantásticas como as desta jovem que, com uma força e uma perícia extraordinárias, se eleva e se contorce e tudo a uma altura perigosíssima. 

(* Perigosíssima, arriscadíssima... e sem rede. Mas isto de fazer coisas arriscadas sem rede é para quem sabe o que faz).

Golden Buzzer: Pólo Aéreo de Veronika Goroshkova atordoa Sofia Vergara | Audições | America's Got Talent 2026


Desejo-vos um belo dia

sexta-feira, julho 17, 2026

Incompetência e irresponsabilidade a um nível impensável

 

Onde eu trabalhava, praticava-se a gestão activa de porfólio. Para quem não está por dentro desta gíria pode parecer que estou a armar-me ao pingarelho. Mas não estou, era assim que dizíamos. Isto significava que era normal adquirir ou vender empresas, outras vezes formar empresas, outras vezes ainda organizá-las debaixo de diferentes holdings e sub-holdings.

Em termos de gestão isto é um desafio pois havendo áreas corporativas centralizadas ou empresas  de serviços que os prestam a outras, e havendo processos normalizados e, em grande parte, automatizados, de cada vez que havia destas jiga-jogas todos os processos eram virados do avesso, novos processos eram implementados, pessoas eram postas a fazer trabalhos diferentes daqueles a que estavam habituadas -- e tudo tinha que se passar sem que a operação fosse beliscada, sem que os clientes e fornecedores fossem afectados. 

Outas vezes era preciso mudar sistemas, automatizar de forma transversal processos novos (processos de toda a espécie, desde a gestão de topo até ao dito shop floor). Acontecia haver revoluções que afectavam, ao mesmo tempo, milhares de pessoas, geralmente ao longo do país, geralmente ao mesmo tempo em várias empresas, por vezes ao mesmo tempo em Portugal e fora de Portugal. 

Nada poderia falhar. A última coisa que se queria era ter falhas que originassem prejuízos ou danos reputacionais. O que se pretendia era que a transição fosse tão tranquila que quase não se desse por ela, que parecesse fácil.

Tudo isto era planeado ao milímetro, era executado com monitorização apertada, havia não apenas a equipa de projecto como um steering committee que envolvia não apenas a equipa de projecto mas também a equipa de gestão e a administração. Não havia uma ponta solta. Toda a estrutura tinha que estar envolvida, coesa, solidária. Não podia haver gente desconhecdora, desalinhada, contrariada. Nem pensar. Garantir que toda a gente remava para o mesmo lado, ao mesmo ritmo, era responsabilidade da equipa de gestão do projecto. E do projecto constavam várias vertentes incluindo a formação e a gestão da mudança, os testes intensivos aos vários níveis, funcionais e técnicos, o acompanhamento in loco e remoto a quem estava no terreno. Antes de se arrancar com a nova realidade já tudo estava oleado, compreendido, agarrado. Ainda assim havia sempre um plano de contingência. Nem pensar em atirarmo-nos para a piscina com uns a não saberem nadar, outros a não saberem que estilo ou para que lado era para nadar e sem haver bóias e equipas de salvamento a postos. A gestão de risco avançava sempe a par e passo da gestão do projecto.

E trabalhei por várias vezes com equipas alemãs, por exemplo quando empresas alemãs nos compravam ou nos vendiam empresas. Aí o planeamento era levado ao detalhe mais minucioso que se possa imaginar. Aí eu, que sou rigorosa e exigente, chegava a ficar pelos cabelos com as cautelas deles. Para cada pequena etapa definia-se a margem admissível de falha e o respectivo plano de contingência. Não havia uma vírgula ou um papel que fosse deixado ao acaso. Antes de se ir para o terreno, tudo estava ensaiado e acautelado ao mais ínfimo pormenor. Quando trabalhávamos com alemães já sabíamos que era assim.

Outros casos: aconteceu-me várias vezes alguns colegas dizerem-me que se estava em fase avançada de negociação e que uma determinada empresa, cujo funcionamento eu não conhecia, devia começar a trabalhar, de forma integrada dentro do Grupo, dentro de um mês. Face a isso eu não tinha qualquer pejo em dizer que era impossível, que havia vários levantamentos a fazer, muito trabalho de migração, de documentação, de formação, de testes de integração e de funcionamento e que, portanto, na melhor das hipóteses isso poderia acontecer no prazo de x meses (o x variando em função da complexidade da empresa adquirida). E isso era aceite. Nestas coisas, prevalecia sempre o bom senso, a vontade de que tudo corresse bem, a prudência e o sentido de responsabilidade. Não havia lugar ao voluntarismo nem ao amadorismo.

Sempre que se resolvia avançar com modernizações transversais, e foram muitas as vezes em que isso aconteceu, uma coisa era sempre clara: modernizar não é fazer informaticamente a mesma coisa que se fazia de forma tradicional. Modernizar é repensar um processo, é optimizar.

O que está a acontecer com isto dos exames é a antítese de tudo isto. Não há estratégia, não há método, não há gestão, não há noção, não há sentido de responsabilidade. O que estão a fazer não apenas não está a funcionar bem como é uma coisa arcaica, uma ineficiência, uma aberração, um atraso de vida. Um aborto.

Tenho ouvido o ministro, o primeiro-ministro e alguns comentadores a defenderem que mudar é correr riscos e que é normal que as coisas corram mal em processos de transformação. Não é. NÃO É. O normal é que tudo corra on time, on budget, on scope. Ou seja, sem desvios orçamentais, a tempo e horas e a corresponder ao requerido. Isto é o normal. O normal é correr bem. Correr bem é o objectivo do qual os bons profissionais não se desviam.

E digo outra coisa: depois do que fui sabendo a propósito deste caos dos exames, tenho antecipado todos os problemas que têm havido. E não porque seja mais esperta do que quem não o antevê. Simplesmente tenho experiência, conheço os passos que têm que ser dados antes de se passar à fase seguinte. E esta gente, pelo que tenho visto, não pesca boi. Uma indigência como nunca vi.

Por exemplo, tenho ouvido toda a gente a dar por garantido que, a partir do momento em que acabem as avaliações, acto contínuo as notas serão disponiblizadas. Não quero antecipar ou parecer que estou a querer que corra mal, até porque não conheço o que se fez em cada fase do projecto. Pode acontecer que o sub-processo que medeia o fim das classificações na nova plataforma e aparecerem as notas, integradas por aluno e separadas por disciplinas e por escolas no sistema do Júri Nacional de Exames, tenha sido testado e re-testado e estar a funcionar direitinho, incluindo todos os mecanismos de controlo (por exemplo, confirmar que os x items de cada prova foram classsificados, confirmar que todos os items que foram separados por avaliador, são bem agregados e bem totalizados por aluno, confirmar que não faltam alunos em cada disciplina e em cada escola, etc -- por forma a garantir que a informação que vai nos ficheiros gerados pela nova plataforma e que será carregada no portal do JNE está integra e correcta. Se tudo isso foi bem testado e se foram também realizados testes de carga por forma a garantir que esses ficheiros chegam direitinhos e a tempo e horas às escolas, sem sobrecargas e time outs, e que a integração com as notas escolares é um processo rápido, então, perfeito, óptimo.

Só que o que tenho visto até aqui é um amadorismo sem paralelo, uma sucessão de calinadas e de improvissos como nunca vi em décadas de vida profissional. Nunca. Se isso é geral, então as notas serem calculadas, ponderadamente, agregadas por aluno e por escola, e saírem da nova plataforma até chegarem e serem lidas como deve ser pelo sistema do JNE, pode muito bem vir a ser outro problema.

Contudo, espero bem que não. Já o disse várias vezes: tenho dois netos à espera de notas, um deles no 12º ano, a aguardar poder candidatar-se à universidade. Por isso, desejo muito sinceramente que as notas deles saiam, sejam credíveis, estejam correctas, e que, atempadamente, as escolas as publiquem  e emitam as fichas que são necessárias às candidaturas.

Mas só quando isso acontecer eu descanso porque agora a confiança que tenho na integridade deste processo é bola. Zero.

Depois, um outro aspecto. O sistema oficial que vigora é que os alunos têm o direito a pedir uma cópia do seu exame. Como até aqui as provas estavam em papel na escola, isso era banal. Era ir buscar e fotocopiar. Agora não é assim pois, fisicamente, estão no armazém da bagunça em Mem Martins. Mas foram digitalizadas. Só que estão anonimizadas. Ou seja, para localizar a cópia digital de cada prova para a fazer chegar a cada aluno, ela tem que ser desanonimizada. Ora só a escola as pode desanonimizar, fazendo corresponder a identidade do aluno ao código da prova digitalizada. E depois tem que se juntar o endereço de mail dos encarregados. Supostamente no sistema do JNE já existe esse endereço. Só que as cópias digitalizadas estão na nova plataforma e a integração com o sistema do JNE pelos vistos não existe, pelo menos em tudo o que devia. Gerar mails a partir de uma lista de endereços e localizar anexos para indexar aos mails ou gerar links não é nada de especial. O que não faltam são aplicações para o fazer que nem ginjas. Mas tem que ser testado, especialmente quando está em causa enviar 130.000 mails e quando, pelos vistos, se as notícias estão correctas, à última hora os códigos e os endereços de mail vão ser carregados à mão. Mas se esse processo também foi testado, perfeito, talvez corra bem. Só que parece que isto foi uma bola que saiu do saco à última hora e ontem as escolas ainda não sabiam onde iam registar esses endereços. Por isso, nem sei o que pensar.

Ou seja, pode acontecer que as únicas barracadas e burrices grosseiras só tenham surgido no sub-processo do split das provas em items e envio dos itemas para avaliar e que tudo o resto esteja a funcionar às mil maravilhas. Pode ser e seria bom para os alunos e famílias.

Mas, se a inexistência de gestão de projecto, de experiência, de prudência, de know how foi generalizada, pode acontecer que, entre o fim da avaliação e a disponibilização das notas e das fichas pelas escolas, venham a surgir novas surpresas.

Ouvi a incoerente, tendenciosa e preguiçosa Clara Ferreira Alves no Eixo do Mal a justificar este caos dizendo que isto é mesmo assim. Talvez seja na casa dela ou nos ministérios do Montenegro. Não é decidididamente assim em todos os lados em que há gente responsável e competente è frente de lugares de responsabilidade.

Mas, enfim, vou acender uma velinha. Pode ser que os meus netos amanhã já conheçam as notas dos exames e as médias com que acabaram respectivamente o 9º e o 12º anos. É o que eu desejo.

quinta-feira, julho 16, 2026

A vida no palácio

 

Tinha pensado escrever mais um post sobre o tema dos exames mas, à última hora, resolvi que não. Sempre tive um problema na minha vida: parece que antecipo os problemas. Ainda eles não aconteceram e já eu estou capaz de dizer, tim-tim por tim-tim, o que vai acontecer. Pode até parecer que estou a agoirar, mas não é, quero apenas tentar que se evite que aconteçam. Mas as pessoas reagem mal, acham que estou a preocupar-me á toa, dizem que há que dar o benefício da dúvida, que pode ser que as coisas corram bem. Mas eu, quando tal acontece, sei que não podem correr bem. Nunca engracei especialmente com grafos mas, caraças, parece que a mecância ficou gravada na minha cabeça. Dou por mim, a percorrer os caminhos críticos, a detectar os caminhos que são dead ends, a ver o que devia estar a ser feito em paralelo, a antecipar a barracada por estar a fazer em série coisas que, com toda a probabilidade, vão dar bode e empancar todo o processo. Mas como verbalizar isto? Não dá. 

Se me dissessem 'vamos digitalizar os exames' eu adoraria fazê-lo e, acto contínuo, começaria a delinear todo o processo. E, de caras, vos digo: seria um processo limpinho, económico, sem falhas. Se em contrapartida me aparecesse um bando de anhucas a propor implementar o processo que está em curso eu mandá-los-ia ir dar banho ao cão e nunca mais perdia um minuto da minha vida a ouvi-los. O que está em curso não é uma modernização, não é uma transformação (no bom sentido): é um aborto. Com todas as letras: um aborto. Mais um dos abortos em que o Governo de Montenegro se especializou. Um aborto. Não tem ponta por onde se lhe pegue. Não é moderno, não é eficiente, não é racional, não é económico, não é coisa nenhuma. É um aborto.

Não preciso de vir a ter conhecimento concreto sobre o que vai passar-se nos próximos dias: já o sei.

E tudo o que ouço ao Fanã Alex, ao Luís, ao Hugo, ou a qualquer desses cromos (incluindo a intragável Ana Paula) só prova que é gente que não sabe o que anda a fazer, gente incompetente e irresponsável.

Já aqui falei disso muitas vezes: um colega e amigo dizia-me muitas vezes: 'ter razão antes de tempo, em termos práticos, é o mesmo que não ter razão'. Por isso, não vou estar para aqui a enumerar as burrices imperdoáveis que toda esta gente anda a cometer. Na sexta-feira ao fim do dia falamos. Se estiver enganada, e muito gostaria de estar, será bom para os alunos e para as famílias e, até pelos meus dois netos que estão envolvidos nesta cegada, eu gostaria que tudo corresse bem.

Mas, portanto, em vez de falar nisto, opto por partilhar um vídeo que é, todo ele, um documento: as relações de poder, de chantagem implícita, a bajulação, a anulação da personalidade, e, ao mesmo tempo, a capacidade de tirar proveito de uma situação que tem a anulação implícita, são um roteiro do que se passa nos corredores do poder da Casa Branca. Não sei se é só na Casa Branca ou se é também em Downing Steet, no Eliseu, em S. Bento -- não sei. Mas é interessante perceber como funcionam as 'fontes', como a informação é veiculada.

Lindsey Graham morreu. O amigo indefectível de Trump morreu. Homofóbico, defensor da perseguição aos gays era, contudo, um gay. Toda a gente sabia disso, inúmeras histórias circulavam, e, no entanto, ele manteve-se até ao fim no armário. E Trump sabia disso. E, portanto, tinha-o na mão. Mais do que um grande amigo e um asqueroso puxa-saco de Trump, Lindsey Graham tinha medo dele.

O vídeo fala disto e de muito mais e é, como sempre, muito interessante. Mais do que tentar encontrar motivações ou estratégias políticas na actuação de Trump, talvez seja mais útil perceber como funciona a cabeça destrambelhada do doido varrido e quais as dinâmicas dos ridículos personagens que por ali gravitam.

Este é o motivo obscuro pelo qual Trump aterrorizou Graham | 

Dentro da mente de Trump

Michael Wolff e Joanna Coles investigam as consequências políticas da morte súbita de Lindsey Graham, revelando o que Trump realmente pensava por detrás das suas homenagens públicas, como são elaboradas as publicações do Truth Social dentro do seu círculo íntimo e porque é que a complexa relação de Graham com o presidente era motivada tanto pelo medo e influência como pela lealdade. Analisam também as crescentes especulações em torno da saúde de Mitch McConnell, o conflito cada vez mais inescapável de Trump no Médio Oriente, apesar da sua promessa de evitar guerras intermináveis, e porque é que Michael acredita que o presidente está preso à sua própria incapacidade de mudar de rumo. Por fim, voltam-se para uma força inesperada que está a remodelar o Partido Democrata, argumentando que Bernie Sanders pode ter tido um impacto muito maior na política norte-americana do que até os seus críticos estão dispostos a admitir.