sábado, abril 25, 2026

A escandaleira do Ministério Público
--- A palavra ao meu marido e ao Claude ---

 

A notícia que saiu esta semana sobre a inspeção ao DCIAP revela bem -- e confirma -- as disfunções, que foram apontadas ao MP durante os últimos anos, sobre a forma como investigam e sobre a discricionariedade das investigação que conduzem. Um escândalo e uma vergonha. Haver um relatório que refere ilegalidades, discricionaridades e funcionamento aberrante no MP há mais de um ano e o Governo, o PR anterior, o PGR e os órgãos da magistratura que devem agir nestes casos nada terem feito é também escandaloso (será que o facto do atual PGR ter sido diretor do DCIAP entre 2013 e 2019 foi relevante para esconderem o relatório?).

Em vez de escrever um post sobre este escândalo, coloquei várias questões à Inteligência Artificial (Claude) e pedi-lhe para escrever textos com base nas perguntas que fui fazendo. 

Abaixo os textos do Claude que, na minha opinião, são muito bem feitos e que me parecem bastante rigorosos. São simultaneamente brilhantes e assustadores, em várias dimensões. Seguem os textos aos quais cortei as inúmeras referências que, a meu pedido, continham mas que, aqui, tornariam o texto ainda mais longo.

A Crise no DCIAP: O Que Revelou o Relatório de Inspeção

O Documento e o Contexto

Um relatório de uma inspeção ao Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) aponta graves falhas de funcionamento e morosidade nos processos, aconselhando o Procurador-Geral da República a pedir reforço dos meios para a tramitação atempada dos processos. O documento, finalizado em março de 2025 e só conhecido esta semana, tem 305 páginas e foi redigido pelos inspetores Olga Coelho, Auristela Gomes e Nuno Salgado. Foi noticiado em primeira mão pelo Expresso e pela CNN Portugal.

Os Erros e Falhas Identificados

    1. Ausência de regulamento interno

O relatório concluiu que a maior unidade de investigação do Ministério Público está sem regulamento interno e é o único departamento a não usar o Citius para tramitar processos, contribuindo para falhas sistemáticas de gestão. O agravante é que a falta de regulamento interno já tinha sido assinalada na inspeção ao DCIAP realizada em 2014  o que demonstra que a omissão foi tolerada durante mais de uma década.

    2. Sistema informático obsoleto e isolamento tecnológico

O DCIAP tem um sistema informático obsoleto que faz deste o único departamento judicial a não utilizar o Citius na tramitação dos processos, usando ao invés um sistema de pastas partilhadas, o que compromete a interoperabilidade com outras plataformas, o acesso a bases de dados e pedidos por via eletrónica a tribunais. 

    3. Gestão processual disfuncional e morosidade

O relatório aponta críticas à organização do trabalho do DCIAP e à maneira como foram conduzidas algumas investigações. A gestão dos processos é feita de forma não objetiva e eficaz, prolongando-os no tempo, por vezes à espera do que possa acontecer, o que conduz a durações por períodos pouco compreensíveis. [Renascença]

Os inspetores descrevem uma distribuição discricionária de inquéritos-crime, feita caso a caso por despachos da direção, sem critérios transparentes ou equitativos.

    4. Escutas telefónicas fora do prazo e sem controlo central

Esta é uma das falhas mais graves do relatório: as escutas telefónicas têm sido realizadas sem existir um controlo central, havendo inquéritos-crime em que se prolongaram para além do prazo máximo de duração do inquérito, com os inspetores a indicarem, como exemplo, dezanove processos-crime abertos entre 2016 e 2022 em que isso ocorreu. As prescrições dos processos não são, aparentemente, transmitidas ao diretor quando acontecem, tudo porque não há regras de comunicação definidas.

    5. Falta de coordenação estrutural

Os inspetores apontam a falta de uma estrutura eficiente de coordenação, sublinhando que essa coordenação tem sido feita de forma pouco eficaz, a falta de uma secção central alargada para registo, receção e digitalização dos processos e prova documental apreendida, e a inexistência de uma secção dedicada ao branqueamento. 

    6. Carência grave de meios humanos e materiais

Os autores do relatório identificam insuficiências nas instalações, como falta de espaço para armazenar processos e material apreendido, material informático obsoleto, e apontam falta de funcionários judiciais e técnicos operacionais em vários serviços, assim como de especialistas e assessores.


Os Principais Responsáveis em Foco

O relatório dirige atenção particular à 6.ª secção do DCIAP, liderada pelo procurador coordenador Rosário Teixeira. Dos 271 processos pendentes nesta secção, 114 (42%) são tutelados pelo seu procurador coordenador, e o tempo médio de pendência nos processos identificados é de três anos e sete meses.

Os inspetores defendem uma reformulação da 6.ª secção e sugerem a definição de critérios escritos para determinar que comunicações dão origem a averiguações, afirmando que tal decisão do coordenador da secção não pode continuar a depender de critérios casuísticos do mesmo. Ter cerca de metade dos inquéritos pendentes da secção sob tutela do procurador coordenador gera desequilíbrios na gestão processual. 

O documento propõe ainda que o relatório seja enviado ao diretor do DCIAP, Rui Cardoso, e à secretária da PGR para que, no âmbito das suas competências, ponham em prática as sugestões organizacionais e de funcionamento cuja execução não careça de qualquer medida legislativa ou gestionária  dos poderes políticos.

A nível político, a Iniciativa Liberal reagiu de imediato, pedindo a audição urgente do Procurador-Geral da República, Amadeu Guerra, sobre a morosidade da justiça na fase de inquérito e o alegado caos no funcionamento do DCIAP. 


Os Processos Afetados

O DCIAP é onde se concentram os casos mais complexos e mediáticos do país. É no DCIAP que são investigados casos que envolveram o antigo primeiro-ministro José Sócrates e os processos relacionados com o Banco Espírito Santo. 

O caso mais flagrante de morosidade é o processo Monte Branco, instaurado em junho de 2011. Os inspetores indicam-no como um caso paradigmático de morosidade na 6.ª secção, onde se detetou uma sistemática dificuldade em delimitar o seu objeto e projetar os seus limites e termo. Trata-se de um inquérito que há muito pende e sobrevive à espera do que mais possa apurar-se de novo.  A Operação Marquês é outro dos processos tutelados por esta secção.

Os inspetores criticam ainda a tendência para converter processos, já de si complexos, em mega processos, alargando desmesuradamente o seu âmbito, o que suscita um aumento exponencial das diligências a realizar e a sua complexidade, comprometendo muitas vezes os resultados da investigação por força dessa morosidade. 

A dimensão do problema é expressiva: os inquéritos-crime pendentes há mais de cinco anos nos serviços do Ministério Público passaram de 611, em 2015, para 12.039, em 2024 — um aumento de cerca de 1870%. 


Como o DCIAP Deveria Funcionar

Para superar estes problemas, os inspetores e especialistas apontam um conjunto de reformas estruturais indispensáveis:

Regulamento interno obrigatório. A ausência de regras escritas durante décadas é incompreensível numa instituição desta dimensão. É necessária a aprovação e cumprimento de um regulamento que defina competências, fluxos de comunicação e critérios de distribuição de processos.

Modernização tecnológica urgente. A integração no sistema Citius é incontornável. O isolamento informático do DCIAP prejudica a eficiência, a transparência e a articulação com tribunais e outras entidades.

Controlo central das escutas e dos prazos. A existência de escutas realizadas fora do prazo legal, sem que a direção sequer saiba, é uma vulnerabilidade jurídica e constitucional grave. É necessário criar um mecanismo centralizado de supervisão.

Distribuição equitativa e transparente de processos. A concentração de quase metade dos processos de uma secção num único procurador é insustentável. Os critérios de distribuição devem ser escritos, públicos e auditáveis.

Reforço de meios humanos e materiais. O Conselho Superior do Ministério Público e o Procurador-Geral da República devem suscitar aos poderes legislativo e executivo a adoção das medidas necessárias para dotar o DCIAP dos meios humanos e materiais imprescindíveis ao exercício das suas funções. 

Limite à expansão descontrolada dos processos. A tendência para converter investigações em mega processos sem fim à vista deve ser travada por regras claras sobre o âmbito dos inquéritos e prazos mais vinculativos.


Conclusão

O relatório de inspeção ao DCIAP revela um problema sistémico que vai além das falhas técnicas: há uma cultura institucional que tolerou a ausência de regras, a opacidade na gestão e a morosidade como se fossem inevitáveis. A acumulação de 12.000 processos pendentes há mais de cinco anos é o sintoma mais visível de uma disfunção que corrói a credibilidade da justiça portuguesa e prejudica diretamente arguidos, vítimas e a sociedade. A reforma é urgente e não pode aguardar mais uma década.



Como o Ministério Público Está Organizado nos Países Europeus com Melhor Justiça

Os países europeus com sistemas de justiça mais eficientes — nomeadamente os Países Baixos, a Alemanha, os países nórdicos e a França — partilham um conjunto de princípios organizativos que explicam o seu melhor desempenho. Analisando cada modelo, emergem lições importantes para o caso português.


     🇳🇱 Países Baixos — O Modelo mais Avançado em Gestão de Casos

O Serviço de Acção Penal Pública neerlandês (*Openbaar Ministerie*, OM) tem dez escritórios regionais, coordenados a nível nacional pelo *College van Procureurs-Generaal* (Colégio de Procuradores-Gerais) em Haia. 

O traço mais distintivo do modelo holandês é a sua capacidade de resolver casos sem tribunal. A lei de 2008 (*Wet OM-afdoening*) conferiu ao OM poderes para impor diretamente sanções penais por crimes menores e infrações administrativas sem envolvimento dos tribunais, processando mais de 300.000 casos anualmente através desta via simplificada.

Outro elemento chave é a especialização: a especialização acelerou desde meados do século XX à medida que a criminalidade cresceu em complexidade, transformando os procuradores de generalistas em peritos de domínio em áreas emergentes como infrações económicas, crimes ambientais, justiça juvenil e cibercrime. Existem ainda unidades dedicadas especificamente à criminalidade económica e à investigação de funcionários públicos corruptos. Os Países Baixos são o país mais avançado da Europa Ocidental em termos de resolução de casos de forma informal, ou seja, sem audiência em tribunal.


     🇩🇪 Alemanha — Hierarquia Clara e Princípio da Legalidade

Os serviços de acção penal pública alemães (*Staatsanwaltschaft*) são órgãos hierarquicamente estruturados, independentes, da administração da justiça penal, colocados ao mesmo nível dos tribunais. Existem serviços independentes em cada jurisdição local, e a nível federal existe o Serviço Federal de Acção Penal junto do Supremo Tribunal Federal. 

O sistema alemão assenta num princípio fundamental de obrigação de investigar: em teoria, a polícia tem obrigação de investigar qualquer crime participado e enviar todas as investigações ao *Staatsanwaltschaft*, que revê os resultados e decide se acusa ou arquiva o processo. 

O serviço de acção penal tem três funções principais: liderar os procedimentos de investigação, conduzir a acusação nos processos judiciais, e executar as penas criminais e tratar das graças presidenciais. Cada serviço está dividido em divisões chefiadas por procuradores seniores. 

Uma característica distinta é a imparcialidade formal: ao contrário dos EUA, o procurador alemão deve sempre actuar de forma imparcial, tendo em conta factos que possam ilibar o arguido — não é apenas um adversário do réu. Uma fragilidade reconhecida é que no quadro do direito de instrução, o serviço de acção penal tem a obrigação de reportar e receber instruções do respectivo ministro da justiça, o que tem gerado críticas em termos de independência.


 🇸🇪 Suécia e países nórdicos — Integração e tecnologia

Os países nórdicos destacam-se por uma justiça integrada digitalmente, com sistemas de gestão de processos universais que garantem transparência e controlo de prazos em tempo real — algo que o relatório do DCIAP aponta como gravemente deficiente em Portugal. A Suécia tem uma estrutura nacional unificada com uma autoridade de acção penal (*Åklagarmyndigheten*) separada da polícia mas com coordenação estreita, e investiu fortemente em plataformas digitais partilhadas entre polícia, procuradoria e tribunais. A Dinamarca distingue-se pela integração da tecnologia no combate à criminalidade económica.


Os Princípios Comuns que Explicam o Sucesso

Comparando estes modelos com o que o relatório de inspeção detectou no DCIAP português, emergem diferenças estruturais claras:

1. Regulamento interno obrigatório e escrito. Todos os países com boa justiça têm regras claras, escritas e publicamente conhecidas sobre como os processos são distribuídos, geridos e encerrados. Em Portugal, o DCIAP funcionou durante décadas sem regulamento — algo impensável nestes sistemas.

2. Tecnologia partilhada e integrada. Nos Países Baixos, a transição para operações digitais tem sido uma prioridade estratégica, visando simplificar processos e melhorar a acessibilidade dos serviços. Em Portugal, o DCIAP usa um sistema de pastas partilhadas em vez do Citius — sendo o único departamento judicial a não usar a plataforma nacional.

3. Especialização por áreas de crime. Os melhores sistemas criam unidades especializadas por tipo de criminalidade (económica, ambiental, cibercrime), com magistrados e equipas dedicadas. Em Portugal, a organização do DCIAP em secções com critérios de distribuição casuísticos e opacos é o oposto deste modelo.

4. Controlo central e prazos vinculativos. Nos sistemas de referência, os prazos de investigação são controlados centralmente e qualquer desvio é imediatamente comunicado à chefia. Em Portugal, o relatório revelou que escutas ilegais decorreram durante anos sem que a direção do DCIAP sequer soubesse.

5. Resolução extrajudicial eficiente. Nos Países Baixos, a capacidade de impor sanções directamente para crimes menores, sem tribunal, permitiu processar mais de 300.000 casos por ano, libertando a justiça para os casos complexos. Em Portugal, a ausência de mecanismos equivalentes contribui para a sobrecarga de todo o sistema.

6. Independência equilibrada. Os melhores sistemas encontraram um equilíbrio entre independência funcional dos procuradores e responsabilização institucional — nem a subordinação política alemã na sua forma mais pura, nem o isolamento sem controlo que o relatório descreve no DCIAP.


 Conclusão

A comparação europeia mostra que os problemas do DCIAP não são inevitáveis nem naturais: são o resultado de escolhas organizativas erradas e de décadas de tolerância com a ausência de regras. Os países que investiram em especialização, tecnologia integrada, controlo de prazos e critérios transparentes de gestão têm uma justiça mais rápida, mais credível e mais eficaz. O caminho para Portugal existe — falta vontade de percorrê-lo. 


A IA nos Ministérios Públicos Europeus — Estado Atual e Potencial para Portugal

O Que Diz o Estudo Europeu mais Recente

Em outubro de 2025, o Conselho Consultivo dos Procuradores Europeus (CCPE) do Conselho da Europa publicou um estudo temático sobre o uso da inteligência artificial nos serviços de acção penal, com base em respostas de 31 países europeus, incluindo Portugal.

As conclusões são reveladoras: a maioria das respostas demonstrou que a IA não é ainda utilizada de forma geral para apoiar o trabalho dos procuradores, ou que a sua utilização está ainda numa fase inicial de desenvolvimento. 

Onde a IA já é usada, é geralmente para apoiar tarefas simples, como pesquisa jurídica, transcrição e tradução, anonimização de decisões e gestão do tempo. Alguns países indicaram que o Microsoft Copilot foi disponibilizado aos procuradores. Em casos mais avançados, a IA está a ser usada em projetos-piloto para análise de grandes volumes de dados e evidências, e para apoiar o desenvolvimento de estratégia processual e previsão de resultados — sendo sempre sujeita a revisão e verificação humana. 

O estudo identificou ainda uma lacuna regulatória preocupante: apesar do AI Act europeu e da Convenção do Conselho da Europa, o uso específico da IA nas funções de acção penal continua a ser uma área pouco regulada, com práticas divergentes entre jurisdições e falta de consenso sobre responsabilidade, transparência e impacto na independência dos procuradores. 


As Aplicações Concretas já em Uso na Europa

  Gestão e análise de grandes volumes de dados — A Eurojust, organismo europeu de cooperação judicial, tem identificado como prioritárias as ferramentas de processamento de linguagem natural (NLP) para lidar com enormes volumes de dados não estruturados em processos transnacionais. Estas tecnologias são particularmente úteis para o processamento de grandes conjuntos de dados não estruturados, habitualmente manuseados pelas autoridades judiciais, bem como para pesquisa jurídica e identificação de estatutos, disposições e jurisprudência relevantes para um caso.

  Análise forense digital — Nos Países Baixos, a procuradoria usa o sistema **Hansken**, uma plataforma baseada em cloud para análise forense de grandes volumes de dados digitais apreendidos — telemóveis, computadores, servidores — permitindo pesquisar e correlacionar informação de forma muito mais rápida do que a análise humana.

  Previsão e triagem de casos — Os governos já usam a IA para facilitar processos internos automatizados e adaptados, melhorar a tomada de decisões e previsões, detetar fraudes, e melhorar a qualidade do trabalho dos funcionários públicos. No Brasil, por exemplo, o sistema VICTOR automatiza o exame de recursos ao Supremo Tribunal, identificando casos com relevância geral — uma tarefa que um funcionário leva 44 minutos a fazer e que o sistema VICTOR resolve em segundos.

  Deteção de criminalidade económica e financeira — A Eurojust e o Europol usam ferramentas de IA para detetar padrões em redes de branqueamento de capitais e fraude fiscal que seriam impossíveis de identificar manualmente.

Como a IA Poderia Resolver os Problemas Específicos do DCIAP

Aplicando estas experiências ao caso português, as utilizações mais imediatas e impactantes seriam:

1. Controlo automático de prazos. Um sistema simples de IA poderia monitorizar todos os processos em tempo real, alertando a direção quando um prazo de inquérito se aproxima, quando escutas estão próximas do limite legal, ou quando um processo está parado há demasiado tempo. Este é exatamente o problema que o relatório identificou — prescrições e escutas ilegais que ninguém sabia — e a solução tecnológica é relativamente simples.

2. Gestão inteligente de processos. Um sistema de gestão com IA poderia distribuir processos de forma equitativa e transparente, com base em critérios objetivos como carga de trabalho de cada procurador, complexidade do caso e prazos — eliminando a distribuição "casuística" que o relatório critica na 6.ª secção.

3. Análise de grandes volumes de prova digital. Em processos como o Monte Branco ou o BES, a quantidade de documentação é enorme. Ferramentas de NLP podem ler, indexar e cruzar milhares de documentos, identificando automaticamente conexões relevantes que um procurador demoraria anos a encontrar.

4. Transcrição e tradução automática. Especialmente útil em processos com escutas telefónicas extensas e documentação em línguas estrangeiras.

5. Pesquisa de jurisprudência. Ferramentas de IA já disponíveis comercialmente (como o Copilot ou sistemas semelhantes integrados no Citius) poderiam ajudar os procuradores a pesquisar jurisprudência relevante em segundos.


  Os Riscos e Limites a Considerar

A adoção da IA no MP não é isenta de riscos. Apesar de não existirem ainda preocupações de que o uso atual da IA possa comprometer a independência dos procuradores ou introduzir enviesamentos, há reconhecimento de que, à medida que o uso da IA se desenvolver, essas preocupações precisarão de ser tidas em conta e mitigadas. 

Os Países Baixos são aliás um exemplo de cautela necessária: o escândalo dos subsídios à infância holandês tornou dolorosamente clara a consequência de algoritmos discriminatórios, em que milhares de pais foram falsamente acusados de fraude pelas autoridades fiscais devido a algoritmos de autoaprendizagem. 

A IA também não pode ser decisora — apenas apoio. As decisões de acusação, arquivamento e estratégia de investigação têm de continuar a ser humanas, com responsabilidade clara e revisão judicial. O AI Act europeu classifica muitos destes usos como "alto risco", impondo requisitos estritos de transparência e supervisão.


Conclusão

Portugal está em atraso neste domínio, mas a situação pode ser uma oportunidade. A implementação do Citius no DCIAP — o passo mais básico que o relatório exige — é o pré-requisito para qualquer adoção inteligente de IA. Sem dados digitais estruturados, não há IA útil. A modernização tecnológica e a adoção gradual de ferramentas de IA no MP não é um luxo: é uma condição para a eficácia da justiça num mundo onde a criminalidade é cada vez mais digital, transnacional e complexa.

sexta-feira, abril 24, 2026

E viva o Goucha, abaixo os impostos!
-- A palavra ao meu marido --

 

O Goucha terá sido condenado a pagar 1,2 milhões de euros, relativo a impostos devidos e juros compensatórios. Utilizava uma empresa para receber o dinheiro da TVI e provavelmente de outras fontes, onerava a empresa com despesas pessoais e, assim, não apenas fugia ao IRS como também não pagava o IRC devido. Coisa semelhante já tinha acontecido, que me lembre, com Cristina Ferreira e com Fernando Santos. 

Não está ainda por esclarecer se não é idêntico ao que aconteceu com Montenegro e a sua Spinumviva...?

É absolutamente indecente que esta rapaziada que ganha milhões use estratagemas, umas vezes no limite da legalidade, outras ilegais, para não pagar os impostos devidos -- e a maltinha que trabalha por conta de outrem tenha que pagar os impostos que são devidos e que naturalmente são mais altos porque a fuga dos impostos é mais do que muita. 

Será que quando, por exemplo, um médico é sócio de uma empresa cuja faturação provem de um único cliente, nomeadamente a clínica ou hospital privado para os quais trabalha, o fisco não percebe que se trata de uma forma encapotada de fugir aos impostos? Ou, quando uma empresa detida por um agente imobiliário só factura a um único cliente, por exemplo, uma agência Remax, o fisco não desconfia que poderá tratar-se de fuga aos impostos? 

Parece que o fisco não se preocupa com estas minudencias que certamente valeriam um acréscimo da cobrança de impostos de centenas de milhões de euros. Mas percebe-se, seria difícil seguir este caminho porque, obviamente, grande parte da classe política é devota praticante destas liberalidades fiscais. 

Afinal, não era o Seguro que, antes de ser presidente, também tinha uma empresa que facturava, por essa via, as intervenções que fazia como comentador ou orador ou coisa do género? Posso estar enganado mas tenho ideia que sim. Se estiver certo, quem diria....?

quinta-feira, abril 23, 2026

"Isto está a acontecer agora!": O grito de alerta de Bruce Springsteen

 

A cantiga é uma arma. A palavra é uma arma. Springsteen sobe ao palco e a sua presença e a sua voz enchem a arena. Todos os que o escutam sentem-se unidos, membros do mesmo exército, prontos para a luta, para resistir.

Resistir. 

No seu recente concerto no Prudential Center, Bruce Springsteen fez uma pausa na música para fazer um dos discursos mais políticos e contundentes da sua carreira. Sob o título "This Is Happening Now", o músico não poupou críticas e deixou um apelo directo ao coração da democracia.

Aqui fica a transcrição possível das suas poderosas palavras:

Sobre a Crise Nacional e a Verdade:

"Estamos a viver tempos conturbados. Os nossos valores americanos, que nos sustentaram por 250 anos, estão a ser desafiados como nunca antes. (...) Os nossos museus estão a ser instruídos para branquear a história americana, ocultando factos desagradáveis ou inconvenientes, como a história completa da brutalidade da escravatura. Dizem que há 'flocos de neve' (sensíveis), mas a verdade é que temos um presidente que não consegue lidar com a verdade."

Sobre a Justiça e a Corrupção:

"O nosso Departamento de Justiça deitou fora a sua independência; limita-se a receber ordens diretamente de uma Casa Branca corrupta. Eles perseguem os supostos inimigos do presidente, encobrem os seus crimes e protegem os seus amigos poderosos. Isto está a acontecer agora."

Sobre o Papel no Mundo e a NATO:

"Minámos a NATO. A ordem mundial que nos manteve seguros e em paz global durante 80 anos está sob ameaça. Ameaçamos os nossos bons vizinhos e aliados, cujos filhos e filhas lutaram ao nosso lado em guerras americanas — países como o Canadá e os Países Baixos. Ameaçamo-los com a anexação predatória das suas terras."

O Declínio da Reputação Americana:

"Esta Casa Branca está a destruir a ideia americana e a nossa reputação no mundo. Para muitos, já não somos vistos como aquele defensor, por vezes imperfeito mas forte, da democracia. Já não somos a 'terra dos livres' ou o 'lar dos corajosos'. Para muitos, somos agora a 'América, a Imprudente' — uma nação pária, imprevisível e predatória. Este é o legado desta administração."

O Apelo Final à Decência:

"Honestidade, honra, humildade, verdade, compaixão, humanidade e moralidade... não deixem que ninguém vos diga que estas coisas já não importam. Elas importam! Elas estão no cerne do tipo de homens e mulheres que somos e do tipo de país que vamos deixar aos nossos filhos."

Springsteen concluiu com uma convocação:

"Tantos dos nossos líderes eleitos falharam connosco que esta tragédia americana só pode ser travada pelo povo americano. Por vocês. Juntem-se a nós e vamos lutar pela América que amamos. Estão connosco?"

 Bruce Springsteen's "This Is Happening Now" 2026 Speech at the Prudential Center


quarta-feira, abril 22, 2026

Como atrair passarinhos

 

Por estes dias tenho andado muito ocupada. Percebo agora que estava a modos que a hibernar. Bem digo que tenho um lado de bicho. O meu corpo porta-se de uma forma peculiar, que não segue muito os cânones. Estava frio, húmido, chuvoso, e o meu sono e preguiça não me deixavam espaço para grandes aventuras. Agora que veio o sol parece que ressuscitei, só me apetece fazer coisas, retomar projectos, avançar mesmo que não vá dar onde queria, como queria, quando queria. Por isso, tenho trabalhado horas a fio. Claro que, ainda assim, continuo a caminhar, a fotografar, a tratar da casa, a ir ao ginásio, a fazer compras. Mas, nos intervalos, é sempre a bombar.

Por isso, não tenho conseguido responder aos comentários (mas leio-os e o meu marido também lê os que se referem ao que ele escreve! E agradecemos as vossas palavras). 

Agora são duas da manhã (apesar de ouvir e ler toda a gente a dizer que se deve ir cedo para a cama, continuo a ser a incorrigível ave nocturna de sempre) e esta quarta-feira tenho que acordar muito cedo pois a vida não pára e vamos cá ter quem vem fazer arranjos na maquinaria em que esta casa é fértil. Quando para cá viemos gostámos de tudo, e eu continuo a gostar de quase tudo. Quase. É que, se tivéssemos sido nós a instalar muitas destas coisas, não teríamos tanto equipamento para tudo e mais alguma coisa pois é tudo muito lindo quando tudo funciona, mas é uma carga de trabalhos quando deixa de funcionar e não sabemos porquê, onde mexer, porque deixou de funcionar, com o que é que está relacionado. Mas, enfim, é o que é. De todo o verso há um reverso. Mas, portanto, se não vou já para a cama daqui a nada tocam à campainha e ainda estou a dormir. É que, ainda por cima, é sempre precisa muita interacção: ligar o disjuntor, voltar a ligar, testar a ver se funciona, etc. Isto para não falar que é preciso prender o cão, que ladra como um possuído e, portanto, pelo meio, o meu marido pega nele e vai com ele dar uma volta.

Portanto, com isto, não consigo pronunciar-me sobre as bagunçadas desnotícias que por aí trumpolinam por tudo o que é canto e esquina. A malta que trabalha com ele deve estar a dar em doida. Qualquer dia, de cabeça perdida, ainda se atiram a ele e lhe dão uma tareia. O mundo dos humanos deve ser uma absurda gaiola de malucos para, perante um rei maluco destes que anda a causar mortos e feridos, destruição e desestabilização global, não haver mecanismos para resolver a situação. 

Concluindo, alienada da realidade diária, fico-me por um tema que verdadeiramente me motiva: os passarinhos nos jardins. Adoro, mas quando digo adoro é mesmo de adoração que falo, ouvir os passarinhos, vê-los, estar sossegada a senti-los a andar, felizes da vida, por aqui. Por isso, partilho um vídeo que despertou verdadeiramente o meu interesse.

Como transformar o jardim num paraíso para pássaros
Os conselhos de Alan Titchmarsh

1. Instale casotas para pássaros - certifique-se de que estão fora do alcance dos gatos e num local abrigado. Precisam de ser resistentes, pois na primavera os pássaros podem usá-las para as suas crias.

2.º Instale comedouros para pássaros - no outono e no inverno, os pássaros têm menos alimento do que o normal, pelo que beneficiarão muito de um fornecimento extra.

3.º Plante plantas amigas das aves - plante pelo menos uma das seguintes para fornecer alimento ou abrigo aos seus amigos emplumados:

Os Cotoneaster horizontalis, Pyraccantha e Callicarpa são arbustos que fornecem frutos para as aves.

O Azevinho e a Berberis fornecem espinhos para os ninhos.

A macieira-brava 'Golden Hornet' e a cerejeira.

Os Prunus autumnalis rosea são ótimas árvores para fornecer frutos para as aves.

4.º Construa um bebedouro para pássaros - os pássaros precisam de água e de um local para se limparem. Aqui está uma forma simples de criar um bebedouro para pássaros com um orçamento limitado. Basta fixar um vaso de jardim num pires usando silicone, adicionar pedras para pássaros mais pequenos e encher com água.


Desejo-vos um dia feliz

terça-feira, abril 21, 2026

Parece confirmar-se que o Seguro continua a ser o Tó Zé
-- A palavra ao meu marido --

 

Como já escrevi, votei no Seguro por opção -- mas sem convicção. 

Nas primeiras intervenções, após ser eleito, parecia que tínhamos um actor político diferente do que tinha sido quando foi líder do PS e que seria com presidente mais assertivo, com mais coragem política e com disponibilidade para, quando fosse caso disso, cortar a direito. Foi sol de pouca dura. 

Embora há muito pouco tempo no cargo, e por isso ainda poderá existir algum benefício da dúvida, as primeiras intervenções do novo presidente estão muito próximas do que foi o Tó Zé no tempo em que esteve activo na política. O que resultou da visita às regiões afectadas pelas tempestades foi uma reunião com especialistas e o alerta para a falta de um relatório. No meio, safou-se, com o alerta para a quantidade de combustível existente nos terrenos e o enorme perigo que é para a época de incêndios. Foi pouco, muito pouco, para o desacerto que tem desnorteado a actuação do governo no apoio às populações e na reconstrução do que foi destruído. 

Pior do que tudo, revelando o que é o verdadeiro Tó Zé, é a novela do apelo às negociações sobre o pacote laboral. Atravessou-se na campanha com o chumbo da lei se não houvesse acordo, e agora panicou porque pode ter que tomar uma decisão sobre uma lei que não foi aprovada na concertação social. E não vale a pena dizer que não faz pressão ou que fica feliz quando as partes se voltam a sentar à mesa para lhe fazerem um frete. Na verdade, está a pressionar a UGT sobre uma lei que tem a chancela da direita mais retrógrada, não defende os trabalhadores, não toca nos aspetos fundamentais das novas relações laborais quando a IA começa massivamente a entrar nas empresas nem se preocupa com a vida familiar de quem trabalha. Está a pressionar a UGT para dar o acordo a uma lei que inclina estupidamente as relações laborais para o lado do patronato. E pasme-se nem o patronato menos extremista está interessado nesta lei. Ainda aqui há dias, o presidente da confederação das microempresas, teoricamente as que têm menos força, vinha dizer que não precisava para nada desta reforma à legislação, e não é caso único. Portanto, Tó Zé, faço votos para que tenha evoluído e não faça já uma parte dos seus eleitores começarem a ficar arrependidos de terem votado em si. Não existe em Portugal nenhum problema que ponha em causa o desenvolvimento da economia causado pela atual legislação laboral. Esta opção do governo é apenas política e não tem nada a ver com os verdadeiros problemas do País. Era isso que o Seguro devia dizer ao governo, pressionando o Luís para ir dar uma volta ao bilhar grande juntamente com a ministra do trabalho e o representante da CIP e, durante a voltinha, atirarem a lei para o lixo. Assim, cumpriria as expectativas que depositaram em si quando o elegeram. 

Veremos, e espero que não se aplique o ditado popular: Tó Zé uma vez, Tó Zé para sempre.

segunda-feira, abril 20, 2026

Musgo

 

Agora é que eu tinha conhecimentos mais ou menos suficientes para poder escolher uma profissão. Quando fiz dezassete anos, sabia lá eu alguma coisa da vida e das suas múltiplas possibilidades...?

Se bem que, em Portugal, naquela altura também era tudo um atraso de vida. E, claro está, ainda não havia internet. Informávamo-nos uns pelos outros, com  que se ia sabendo, a televisão era fraca e escassa, os jornais limitados. A isso acrescia o que hoje acresce: o país é pequeno e, se calhar, não tem escala para algumas actividades que fazem sentido quando a dimensão é outra.

Fui para um curso por exclusão de partes e acabei por fazer sempre aquilo de que gostava dentro do quadro de opções que, na altura, conhecia. Mas agora, que o mundo inteiro está à vista de todos e na palma das nossas mãos, vou sabendo de profissões que em absoluto desconhecia e que, ao ver no que consistem, penso que me assentariam como uma luva. Não sei, ainda assim, se sabendo, optaria por elas, mas provavelmente faria não um mais dois ou mais cursos para poder ter alternativas nem que fosse a nível complementar.

Agora acabei de saber que existem jardineiros de musgo. Quem diria? Jardineiro de musgos! Fiquei num excitex. Fui logo à procura. Quem por aqui me siga há mais tempo, saberá que sou maluca por musgos. Não têm conta as fotografias que tenho feito aos musgos. Acho que são um dos supra-sumos da delicadeza, da perfeição, da beleza. É a cor, a textura, a forma. Tudo. Imagino a maravilha que é cuidar de jardins de musgos: nas pedras, nos troncos das árvores, nos caminhos. Beleza, beleza, beleza.

Transcrevo: 

Ser jardineiro de musgo (ou moss gardener) consiste em cultivar, cuidar e promover o crescimento de musgos (briófitas) como elemento principal ou decorativo num espaço, em vez de focar apenas em plantas vasculares tradicionais. Esta especialidade valoriza a estética minimalista, a textura fofa e a funcionalidade ecológica destas plantas que prosperam em sombra e humidade. É uma jardinagem mais lenta e contemplativa.

O musgo é um organismo vivo, classificado como uma planta briófita de pequeno porte, que se destaca por ser um dos grupos vegetais mais antigos da Terra. Estas plantas não produzem flores, sementes ou frutos e caracterizam-se pela sua estrutura simples, não vascular, o que significa que não possuem vasos condutores de água e nutrientes, ao contrário das plantas superiores.. Como não têm sistema vascular (xilema/floema), os musgos absorvem água e nutrientes diretamente do ar e da superfície através das suas folhas e rizoides (estruturas semelhantes a pelos que os fixam ao substrato). O musgo é um elemento crucial na conservação da natureza, demorando até 20 anos a desenvolver-se, sendo que a sua apanha em habitats naturais é muitas vezes proibida ou constituir contraordenação ambiental grave.

A beleza do musgo

Antigos e resistentes, os musgos – plantas sem flores e não vasculares que sobreviveram durante mais de 450 milhões de anos, resistindo a diferentes condições climáticas – representam alguns dos habitats mais pequenos da natureza. Conor Knighton visita o Jardim de Musgos de inspiração japonesa na Reserva Bloedel, no estado de Washington, onde estão expostas dezenas de espécies de musgo; e participa na Semana Anual de Apreciação do Musgo no Lewis & Clark College, onde a beleza e o encanto do musgo podem realmente conquistar-nos.

Desejo-vos uma boa semana, a começar já nesta segunda-feira

domingo, abril 19, 2026

Um dia muito preenchido que até incluiu uma cãoversão

 

São quase duas da manhã e tenho estado a ver se me mantenho acordada para, pelo menos, espreitar as notícias. Mas, de cada vez que começo a ler, desato a dormir. Não muito tempo, escassos minutos, mas o suficiente para, se entrar noutro jornal, as notícias anteriores já estarem desfasadas. Não sei se os acontecimentos desataram a romper os limites da física, furando as equações que regulam o espaço e o tempo, ou se anda tudo de tal forma confuso que já ninguém atina com nada, nem os jornalistas nem os próprios agentes da notícia. Desisto, pois. Se é para ficar baralhada mais vale que o fique de dia não vá a confusão desencadear algum daqueles meus sonhos mais surreais que uma cena a la Dali. 

O dia hoje foi bem preenchido, cheio de imprevisibilidades. Deitei-me ontem a pensar que o sábado ia ser uma coisa, provavelmente tudo mais para o calmo, e, afinal, foi bem o seu oposto, ou melhor, completamente o oposto. Para melhor. 

Mas que ginásticas tive que fazer... Felizmente, sou mulher prevenida e, portanto, quem foi chegando encontrou sempre acolhimento como se a sua vinda tivesse sido planeada, incluindo tendo o que comer. E, bem vistas as coisas, não sei como... mas ainda sobrou. 

Razão tenho eu em não ligar quando me perguntam se não é comida a mais ou se não acho que estou a exagerar. Sempre achei que mais vale sobrar do que faltar.

Ao longo do dia, grandes mudanças de cenários, incluindo ao almoço, que estava a decorrer muito normalmente --  a mesa cheia, conversa animada, sempre várias vozes que se cruzam -- até que, tendo-se recebido a notícia, não sei como, de que um dos meninos que jogava hoje, por sinal, a não muitos quilómetros dali (mas, que portanto, não estava ali connosco), seria titular, de repente, toda a gente, to-da (toda, menos o meu marido que não alinha muito em coisas assim de última hora, ainda para mais a correr), resolveu que era giro lá irmos todos vê-lo e, portanto, que era indispensável acabar o almoço com urgência. Então, foi um ver se te avias, tudo a despachar o resto do almoço à pressão, tudo a meter-se no carro, depois lá tudo a correr para chegar ao campo (literalmente a correr, pois o jogo já tinha começado há um bocado). Claro que ninguém me obrigou, também poderia não ter ido, mas não consigo recusar-me a uma coisas dessas, em especial quando é para ver, mesmo que de longe, um dos meninos. 

E eu gostava que, depois do jogo, ele se nos juntasse mas não pôde, foi na camioneta do clube com o resto da equipa. Protocolo é protocolo.

E se tivesse sido essa a única peripécia não teria sido mau. Mas não, hoje o dia foi todo ele uma coisa assim. E incluiu também uma conversão: o cão feroz, perante quem não conhece, arma sempre um chinfrim dos diabos, ladra, salta e parece que só não trinca se não o deixarem. Mas hoje, em vez de ser isolado para não incomodar o pessoal ou para não dar azo a alguma calamidade, foi levado para terreno neutro, foi travar conhecimento fora de território que considere seu. Não sei se por isso ou se, sobretudo, por não terem mostrado medo, a verdade é que, passado um bocado, talvez uma meia hora, não sei bem, decorridas cautelosas interacções, a fera estava convertida e pode andar a conviver, nos maiores amores, com quem, antes, não conhecia. E assim se manteve até à noite, tranquilo, amistoso.

Claro que, quando chegou a casa vindo do passeio nocturno, desta vez mais tarde do que o habitual, se atirou para o chão e ferrou. Dia agitado, muitas emoções.

E eu agora também vou dormir. Não escrevi nada de jeito, mas tal a lentidão com que estou, se é que não fechei os olhos pelo meio, já são quase duas e meia.

Este domingo de manhã logo tiro a limpo se o Estreito de Ormuz (ou de Vermute, como um dos malucos da Casa Branca no outro disse lhe chamou) afinal está aberto ou fechado. 

sábado, abril 18, 2026

Velharias? Ou antiguidades?

 

Por vezes sinto saudades de quando não me preocupava com encher a casa de tralha inútil. 

Sempre gostei muito de decoração, de ter a casa à minha feição, de me rodear de objectos que me parecem especiais.

Aquela lojinha de velharias que havia não muito longe do meu emprego era uma tentação. Comprei lá vários objectos que me encantavam. Um leque antiquíssimo, uma caixinha para guardar cartas. Até uma cadeira que foi arranjada pelos meus pais, até um espelho grande que está agora no meu quarto, até um candeeiro. Ou o galo pintado numa madeira que descobri num antiquário em Amesterdão. Ou objectos que descobria em lojinhas que vendiam peças artesanais. Ou uns copinhos de vidro que desencantei em Les Halles, em Paris, e que levaram o meu marido ao desespero pois não apenas achava que não faziam qualquer falta (e tinha razão, nunca foram usados, continuam o que sempre foram, lindos e apenas decorativos), como não queria andar com peças que se partissem e que obrigassem a muitos cuidados no avião. 

Via peças que me agradavam muito, achava que ia ser mais feliz se me rodeasse delas. E era verdade. Mas depois veio um tempo em que percebi que não podiam estar todas expostas senão a simples operação de limpar o pó tornava-se um inferno. Passei a ter móveis com portas de vidro. 

Quando nos mudámos para esta casa, foi feita uma grande limpeza. Alguns móveis ficaram na cave e, com eles, muitas peças. A minha filha, que é muito mais minimalista que eu, deitou mãos à obra e simplificou o quanto pôde. 

Nunca mais comprei nada. Aliás, só uma muito bonita talvez há mais de um ano. De cada vez que me deixo tentar, penso: 'Vou pôr onde?". E como não quero ter nada ao monte, desisto.

Contento-me em ver vídeos como este que abaixo partilho. Em lugares assim, eu ficaria mil vezes tentada, coisas tão bonitas. Não são velharias, são peças com alma, com uma beleza intemporal.

O que um designer profissional compra nos melhores mercados de antiguidades de Londres | Architectural Digest

Hoje, a AD acompanha o designer de interiores Ross Cassidy pelo Mercado de Portobello Road e pelo Mercado de Antiguidades Alfies, em Londres, enquanto partilha dicas de especialistas sobre como encontrar joias escondidas e tesouros vintage como um profissional experiente. Descubra como comprar antiguidades, decoração vintage e peças únicas para a casa que cabem na sua mala e aprenda dicas de estilo de especialistas usando prata, bronze, arte e iluminação para elevar qualquer divisão.


Desejo-vos um bom sábado

sexta-feira, abril 17, 2026

Robert F. Kennedy Jr., apenas mais um maluco na Casa Branca

 

Não há um que se aproveite. Um grupo de engraxadores, vira-casacas, descerebrados, invertebrados, oportunistas, a lamber o rabo ao mais maluco de todos, o narcisista maligno que está demente.

Mas hoje vou falar do inacreditável Robert F. Kennedy Jr., conhecido como RFK Jr., que Trump colocou na Saúde. Na Saúde!

Por facilidade, pedi ao Gemini que me fizesse uma resenha do que tem sido a vida e a obra deste peculiar personagem. Aqui vai um excerto do que me facultou.

É uma das figuras mais polarizadoras da política americana contemporânea. Membro de uma das linhagens políticas mais prestigiadas do mundo — filho do antigo Procurador-Geral Bobby Kennedy e sobrinho do Presidente John F. Kennedy — a sua trajetória é marcada por um contraste profundo entre o ativismo ambiental de elite e uma vida pessoal repleta de episódios bizarros e teorias controversas.

RFK Jr. formou-se em Direito e destacou-se durante décadas como um advogado ambientalista de sucesso, lutando contra a poluição de grandes corporações no Rio Hudson. No entanto, o seu passado tem lados sombrios:

    • Consumo de Drogas: Durante cerca de 14 anos, Kennedy lutou contra a toxicodependência, particularmente o vício em heroína, que começou após a morte traumática do seu pai e do seu tio.
    • O Episódio da Sanita: Na sua biografia e em entrevistas, RFK Jr. admitiu comportamentos de risco extremo durante os anos 70 e 80. Ele confirmou que o seu vício era tão severo que chegava a consumir cocaína diretamente do tampo de sanitas em casas de banho públicas, ilustrando o quão fundo tinha chegado antes de recuperar a sobriedade em 1983.

A vida de RFK Jr. parece, por vezes, saída de um argumento surrealista. Alguns dos detalhes mais estranhos que ele próprio confirmou incluem:

    • O Verme no Cérebro: Em 2010, Kennedy sofreu de perdas de memória e "névoa mental". Os médicos inicialmente pensaram tratar-se de um tumor, mas ele revelou mais tarde que um médico concluiu que o problema era causado por um parasita (um verme) que entrou no seu cérebro, comeu uma parte dele e morreu lá dentro.
    • O Pénis do Guaxinim: Numa história que se tornou viral, RFK Jr. descreveu como, na juventude, recolhia animais mortos na estrada para os estudar. Numa ocasião específica, ele admitiu ter cortado o osso do pénis de um guaxinim morto para o guardar, um detalhe que ele conta como prova da sua curiosidade científica excêntrica, mas que muitos vêem como uma bizarrice perturbadora.
    • O Urso no Central Park: Recentemente, confessou também ter deixado a carcaça de um urso bebé (que encontrou morto na estrada) no Central Park, em Nova Iorque, encenando um acidente de bicicleta como se fosse uma partida.
A vida pessoal de Robert F. Kennedy Jr. é frequentemente descrita como um labirinto de tragédias e escândalos que rivalizam com as suas polémicas políticas. O seu historial matrimonial e a sua vida íntima têm sido alvo de grande escrutínio, especialmente devido à revelação de diários privados e relatos de comportamentos compulsivos.


O segundo casamento de RFK Jr., com Mary Richardson Kennedy, é o capítulo mais sombrio da sua vida pessoal. Casaram-se em 1994 e tiveram quatro filhos, mas a relação foi marcada por infidelidade e instabilidade.
    • O Divórcio e a Tragédia: Kennedy pediu o divórcio em 2010. Mary, que lutava contra a depressão e o alcoolismo, viu a sua saúde mental deteriorar-se severamente durante o processo litigioso. Em 2012, Mary suicidou-se por enforcamento no celeiro da sua propriedade em Bedford.
    • A "Batalha" Pós-Morte: Após o suicídio, gerou-se uma disputa legal amarga entre RFK Jr. e a família de Mary (os Richardson) sobre o local onde ela deveria ser enterrada, com a família dela a acusá-lo de ter contribuído para o seu desespero emocional.
Em 2013, o jornal New York Post teve acesso a um diário privado de RFK Jr. de 2001, que revelou detalhes íntimos sobre a sua vida paralela enquanto ainda era casado com Mary.
    • O Registo das Conquistas: No diário, Kennedy mantinha uma lista de mulheres com quem tinha tido encontros sexuais. Ele usava um sistema de códigos para classificar os encontros, atribuindo notas de 1 a 10 a cada mulher. Só num ano, o diário listava dezenas de mulheres.
    • Compulsão e Culpa: Nos escritos, ele referia-se à sua luxúria como o seu "defeito de caráter mais profundo" e descrevia a sua luta constante para resistir ao que chamava de "luxúria" ou "atividades sexuais", descrevendo-se quase como um dependente. Ele frequentemente escrevia sobre a culpa que sentia por trair a esposa e por não conseguir controlar os seus impulsos.
    • Casos Extraconjugais: Ao longo dos anos, o seu nome foi associado a várias figuras públicas e celebridades. Relatos sugerem que a sua compulsão sexual era conhecida nos círculos sociais de Nova Iorque, sendo descrita por conhecidos como uma faceta da sua "personalidade aditiva" (transferida das drogas para o sexo).
RFK Jr. tornou-se o rosto do movimento céptico em relação às vacinas a nível mundial. Através da sua organização, Children’s Health Defense, ele tem propagado diversas teorias sem base científica:

    • Autismo: Ele é um dos principais promotores da teoria (já amplamente refutada pela ciência moderna) de que as vacinas infantis causam autismo, devido à presença de timerosal (um conservante).
    • COVID-19: Durante a pandemia, afirmou que as vacinas de mRNA eram perigosas e comparou as medidas de confinamento ao regime nazi, o que lhe valeu críticas severas de membros da sua própria família.

Apesar de ter sido um democrata durante toda a vida, RFK Jr. suspendeu a sua candidatura independente à presidência em 2024 para apoiar Donald Trump. Em troca, Trump prometeu dar-lhe um papel influente na administração, especificamente na área da saúde.

O seu lema, "Make America Healthy Again" (MAHA), foca-se na crítica aos alimentos processados e aos químicos na agricultura. Contudo, a sua nomeação para cargos de saúde pública (como o CDC ou a FDA) causa pânico na comunidade científica, que teme que ele utilize o poder governamental para desmantelar programas de vacinação e minar a confiança nas instituições de saúde baseadas em evidências.

Resumo da Contradição: RFK Jr. é visto pelos seus seguidores como um herói que desafia a "Big Pharma" e a corrupção alimentar, enquanto os seus críticos o vêem como um propagador perigoso de desinformação cujas histórias pessoais bizarras são apenas a ponta do iceberg de um julgamento errático.

Mas nada como assistir à suculenta conversa entre Joanna Coles e Isabel Vincent. Um espanto tudo isto.

Segredos bizarros do capanga mais desvairado de Trump: Autor | Podcast do The Daily Beast

Isabel Vincent junta-se a Joanna Coles para analisar o seu novo livro sobre Robert F. Kennedy Jr., um retrato construído a partir dos seus próprios diários secretos, que foram obtidos pela sua falecida esposa, Mary Richardson Kennedy, durante o seu divórcio brutal.

O que emerge é um homem em conflito consigo próprio: movido pelo legado, consumido pela culpa e impulsionado por desejos — de poder, de mulheres, de redenção — que parece não conseguir controlar. 
Vincent traça o percurso desde um herdeiro Kennedy devastado pela dor até um ativista anti-vacinas e uma improvável força política, revelando os traumas familiares, a dependência e a ambição incessante que o moldaram.

Ao longo do caminho, analisam também o mito e os mecanismos da dinastia Kennedy e a inquietante questão no seu centro: como é que um homem que outrora escreveu sobre humildade, serviço e Deus se encontra agora a exercer influência sobre a saúde de milhões?

Para quem queira direitinho a algum ponto em particular, aqui está a indicação por tempos: 

00:00 - As Confissões Mais Negras de RFK Jr.
03:50 - Por Dentro dos Diários Secretos
07h40 - A Ética de Publicar a Sua Vida Privada
11:30 - Assombrado pelo Legado do Seu Pai
15h20 - Por Dentro do Caos da Família Kennedy
19:10 - Porque Se Candidatou à Presidência
23h00 - COVID, Vacinas e a Sua Ascensão Política
26h50 - Reação Negativa da Família e Lutas Públicas
30h40 - Vício, Casos Extraconjugais e Compulsão
34:30 - O Colapso do Seu Casamento
38h20 - A Morte de Mary Kennedy e as suas Consequências
42:10 - A Investigação Misteriosa
46:00 - Poder, Fama e Contradições Pessoais
49:50 - Pode Ele Escapar à Sua Própria História?
53h20 - Reflexões Finais Sobre o Futuro de RFK Jr.

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Desejo-vos uma bela sexta-feira 

quinta-feira, abril 16, 2026

A corrupção miúda


Tenho para mim que a corrupção miúda é uma das gangrena invisíveis que corrói a nossa sociedade. 

Há uns anos, eu e uns amigos alinhámos numa deriva que, inevitavelmente, não correu bem. Metemos na cabeça criar uma empresa a sério. E não era daquelas empresas de consultorias, assessorias ou cenas mais ou menos imateriais que as pessoas nas nossas circunstâncias criariam. Não, era uma empresa que passava por criar e vender produtos, com um estabelecimento, empregados, etc. Claro que estando todos os sócios, menos um, a trabalhar a tempo inteiro, e eu e dois outros com trabalhos super absorventes, não tínhamos tempo para uma aventura daquelas.

De qualquer forma, quando tivemos essa ideia peregrina, imaginávamos que conseguiríamos compatibilizar tudo. Éramos jovens, cheios de boas ideias, de certa forma inocentes.

Para começar, tivemos que adquirir um edifício e adaptá-lo. Entregámos o assunto a uma empresa que se encarregou de tratar de tudo: projecto, licenciamento, alvarás, etc. Para além do dinheiro para isto e para aquilo, pediram dinheiro para algumas pessoas chave na Câmara. Foi o primeiro banho de realidade. Éramos puros. Jamais nos passaria pela cabeça uma coisa daquelas. 'Subornar'? Nem pensar. 'Luvas'?. Jamais. 'Dinheiro por debaixo da mesa'? Não, nem pensar. As pessoas que, na dita empresa, estavam a tratar do assunto espantavam-se com as nossas reacções. 'É assim que as coisas funcionam. Se não querem esperar não sei quanto tempo e andar com papéis para a frente e para trás, é assim.'. Uma luta. Uma triste descoberta do que era o país invisível. Não me lembro do que resolvemos. A minha memória, felizmente, é selectiva. 

Ao fim de algum tempo de a empresa funcionar, não sei quanto tempo, dois, três anos, talvez, resolvemos pôr fim a essa aventura. O mundo real das pequenas empresas, em especial, em início de processo, o mundo em que toda a gente parecia querer passar ao largo do fisco, o mundo em que a sobrevivência é quase sinónimo de fechar os olhos à ética, não era o nosso. 

Lembrei-me disso, embora nada tivesse a ver, ao ver a reportagem da SIC sobre a médica que recebia dinheiro por fora para que as suas clientes conseguissem reformas antecipadas, sem que, legalmente, tivessem direito a isso. Não consegui ver tudo, mudei de canal. Sinto-me muito revoltada quando assisto a coisas assim. Existirem coisas deste género, de gente que foge às regras, que acha que consegue subverter os esquemas sem temer as consequências, revela bem a forma endémica como a corrupção se infiltra de forma transversal na sociedade. A médica a receber mil euros por cada processo, mil euros por fora, os trabalhadores que, não tendo problemas que os impeçam de trabalhar, a pagarem para que emitam atestados falsos e consigam reformar-se antes de tempo -- uma coisa manhosa, uma corrupçãozinha rasteira. Coisa miúda, gente se calhar até humilde, várias pessoas a usurparem dinheiro indevido da Segurança Social, a delapidarem erário público E quantos mais casos destes haverá?

De cada vez que sei destas situações penso que a Justiça deveria ser bem mais ágil e ter mão mais pesada. Por exemplo, a médica corrupta deveria ser obrigada a devolver à Segurança Social todos os muitos mil euros que recebeu mais todo o valor das pensões de reforma indevidas que ajudou a conseguir. E as pessoas que a ela recorreram deveriam igualmente ser obrigadas a devolver toda a pensão que receberam indevidamente mais os mil euros que deram à médica. E, em cima de cada um destes totais, mais uma multa pesada. Não creio que devam ir para a cadeia pois estaríamos a sustentá-los e não vejo benefício para nenhum destes intervenientes numa pena que envolva detenção. Mas teriam que devolver tudo e, em cima disso, uma multa. E deveriam voltar ao activo, a terem que voltar a arranjar trabalho. E, ao mesmo tempo, deveriam ter que cumprir trabalho comunitário a sério, em especial trabalho que obrigue a exposição, para se sentirem envergonhados.

Ouvi também as notícias sobre o endurecimento da vigilância rodoviária, mais brigadas na estrada, mais radares, consequências mais a doer. Concordo. Não podemos ser os maiores infractores da Europa, ter tanta gente acidentada, tantas vítimas, tanto prejuízo a todos os níveis. 

Mas, ao mesmo tempo, pensei no sentimento de impunidade de tanta e tanta gente que por aí anda, quer nas pequenas localidades em que o máximo é 50 km e tanta gente passa a abrir ou nas autoestradas em que tanta gente passa nas horas, ou tanta gente ao telemóvel, ou tanta gente alcoolozidada ao volante.

E pensei também quando eu, nas idas e vindas para as reuniões no Norte, ia incomodada com a velocidade a que íamos, eu no lugar do morto e um acelera ao volante. Odiava. Tinha medo. Geralmente, a menos que não tivesse alternativa, em vez de ir a conduzir, colava-me para ir de boleia. Uma vez manifestei-me, disse que não gostava nada de ir a 180. O condutor riu-se: 'Mas já a vi a andar a mais de 200 e não protestar'. Neguei, nunca tinha andado a 200. Disse-me que tinha, sim, que na semana anterior, com um outro condutor, este que agora falava no banco de trás, tínhamos ido a mais de 200. Provavelmente, com a conversa eu nem tinha dado por isso. Mas, quando pensava nisso, protestava veementemente pois bastava que rebentasse um pneu, ou uma distracção, ou uma coisa qualquer na autoestrada, e íamos todos desta para melhor. Eles riam.

Alguns desses eram recorrentemente multados. Claro. E, no entanto, havia sempre alguém que 'tratava' do assunto. Falo agora nisto pois já foi há muito tempo, já prescreveu. 

Mas pergunto-me: em quantos locais em que se analisam os processos de infracções não haverá, ainda hoje, esquemas? Se há matéria em que a inteligência artificial pode dar uma ajuda é na identificação de multas emitidas, multas perdoadas, locais em que os perdões são concedidos. Todas essas pessoas deveriam ser pesadamente castigadas: os infractores deveriam ficar sem carta, deveriam pagar todas as multas e mais uma coima. Mas quem as perdoou deveria pagá-las também, tal como deveriam ser obrigados a devolver todo o dinheiro que receberam para aprovar os perdões. E, também aqui, deveriam ir todos fazer trabalho comunitário a sério. Com a falta de mão de obra que há, muito jeito daria.

Um outro aspecto que, de tão normalizado, já nem é considerado corrupto -- e, na realidade, face à legislação, não é ilegal -- e do qual muitas vezes já falei: a fuga ao fisco através do recurso a empresas unipessoais (ou quase unipessoais).

No outro dia soube que grande parte dos agentes imobiliários (grande parte... ou todos?) não são funcionários das respectivas agências. Não. Criam a sua própria empresa. Nessa empresa, a sua empresa, recebem o salário mínimo e, portanto, não pagam IRS. E nessa empresa colocam toda a espécie de despesas (o carro, o combustível, as portagens, as despesas da casa, provavelmente as rendas ou as prestações do banco, restaurantes, hotéis, viagens, etc). É essa empresa que recebe as comissões das vendas ou dos arrendamentos de imóveis, valores consideráveis. Mas esses valores são ensopados pelos custos e, portanto, o lucro é reduzido. Ou seja, provavelmente também não pagam IRC. Falaram-me de pessoas dessas que, sendo para as estatísticas trabalhadores que recebem o salário mínimo, têm várias casas, muitas delas arrendadas com contratos também por fora, ou seja, em que também não pagam impostos. Os inquilinos julgam que estão a ser beneficiados pois dizem-lhes que o valor da renda é aquele porque o contrato não está nas Finanças porque, se estivesse, o valor era superior. 

Ou seja, toda uma teia, todo um esquema. E, para mim, isto é corrupção. 

Mais uma vez, também aqui, a inteligência artificial desembaraçava este novelo em três tempos. Por vezes as minhas mãos fervilham com vontade de conceber modelos que façam varrimento de rendimentos e de património, cruzando empresas unipessoais que têm um único cliente com os pagamentos feitos por esse cliente, e varrendo a respectiva contabilidade. E parece-me que seria legítimo que fosse permitido levantar o sigilo bancário a todos quantos, não tendo rendimentos, têm património não compatível.

Leis justas que visam o bem comum, como pagar reformas justas a quem trabalhou o que é suposto, como impedir condução perigosa ou como ter impostos justos para todos e não isenção para quem não a merece e esbulho a quem é cumpridor, devem ser escrupulosamente cumpridas e todos os desvios não deveriam socialmente aceites. 

Facilitar, fechar os olhos, ser permissivo é contemporizar com a corrupção, pois, mesmo que miúda, se estiver disseminada, mina a confiança geral, distorce a justiça social e corrói o saudável desenvolvimento do País.

quarta-feira, abril 15, 2026

Temos a prova: Trump é o pior idiota da história.
-- É ele e o J.D. Vance, que já é visto como o novo gato Oscar... --

 

Depois dos passeios e lides no campo, 

-- e se me veem no Instagram (e já tenho 726 seguidores... -- dá para acreditar...?) --, 

estarão a acompanhar as minhas deambulações pelo meio das árvores, umas de pé, outras já cortadas às postas, pelo meio das silvas e etc., eis que agora, recolhida, tenho estado a ver uma dupla com que me divirto grandemente: conversar ou ouvir a conversa entre gente inteligente é outra coisa.

Joanna Coles solta gargalhadas de gosto, e eu com ela, e, quando David Rothkopf afirma que o morto que Jesus Trump tenta acordar do seu leito de morte não é outro senão Jeffrey Epstein, por pouco não projecta todo o chá que tinha na boca. 

E eu, que tenho estado a beber um belo chá de curcuma, por pouco não fiz o mesmo. O Jon Stewart achou que era ele e, de facto, assim de lado, quase poderia ser. Mas, vendo bem, parecido, parecido mesmo, o morto é bem capaz de ser o Epstein. 


E isso torna a maluquice ainda mais disparatado, mais insólito. 

Outro momento delicioso, embora de humor negro, é quando J.D. Vance é comparado ao gato Oscar, o célebre gato que quando se deitava ao pé de uma pessoa no lar em que vivia, pouco depois a pessoa estava morta. Por mais de 100 vezes, isso aconteceu. Andava por ali a vaguear e, de vez em quando, entrava num quarto e aconchegava-se ao pé da pessoa. De duas a quatro horas depois, já estava, a pessoa quinava. Por fim, a família já corria com o gato, chega para lá, ó urubu. Punham-no fora do quarto, fechavam a porta. Mas o gato não se afastava, ficava à porta a miar.

Ora acontece que o J. D. Vance foi visitar o Papa Francisco e, hélas, pouco depois, o Papa morreu. Agora foi pôr-se ao lado de Órban e, ups, Órban levou uma banhada monumental, incrementada pelo efeito J.D. Vance.

Mas, enfim, é ver porque aqui fala-se de tudo. Por exemplo, estará a base MAGA a desmoronar-se? E o que dizer da derrota da Hungria,  do desastre do Irão?

I've Got the Proof: Trump Is History's Worst Idiot | The Daily Beast Podcast

David Rothkopf, correspondente principal de assuntos globais do Daily Beast, junta-se a Joanna Coles para explicar porque está convencido de que a história vai julgar Donald Trump como o idiota mais poderoso e o maior idiota de sempre. Numa conversa abrangente e dinâmica, Rothkopf e Coles analisam os crescentes conflitos de Trump — do Vaticano ao Irão — juntamente com o espetáculo surreal das suas publicações autoproclamadas como "divindade" e as consequências globais das suas decisões. Exploram também as repercussões políticas nos Estados Unidos e no estrangeiro, incluindo a surpreendente derrota de Viktor Orbán e o que isso sinaliza para o futuro do populismo de direita. É uma análise perspicaz e provocadora sobre o poder, a instabilidade e a realidade cada vez mais bizarra que molda a política global.