terça-feira, maio 19, 2026

Depois das especialistas em Human Design, das Psicoterapeutas Somáticas, das Criadoras de Conteúdos Digitais, das Mentoras, das Coaches e das empresários da treta, eis que hoje aprendi que também há as Terapeutas Sentimentais, ao que parece, uma evolução da carreira de Esteticista.
-- E escrevi no feminino porque calhou, mas também os deve haver no masculino --

 

Nem de propósito: hoje, quando ligámos a televisão, um pouco antes das 20h, estava a dar uma síntese ou um anúncio, não percebi, do programa Casados à Primeira Vista. E, aí, assisti a outro momento extraordinário: uma senhora de sessenta e picos anunciava-se como Terapeuta Sentimental, explicando que durante cerca de trinta anos tinha sido esteticista. Dava a ideia que a carreira de esteticista tinha sido a base formativa para passar para o degrau acima: exercer terapia sentimental. Mais à frente, mostrava-se com anéis enormes, pavorosos, e enaltecia os benefícios daquela pedraria de pechisbeque na afirmação pessoal.

E eu fiquei a pensar: mas que género de pessoas paga a uma tal 'profissional'? E o que é que ela vende? Conselhos? Anéis? 

Passou de esteticista para terapeuta sentimental. E, portanto, concluo eu, isto parece que agora as profissões já não têm que ser homologadas. Nem obedecem a nada. Cada um inventa a profissão que lhe apetece. Aqui não há ASAE que consiga verificar se estão a ser cumpridos requisitos, respeitados valores profissionais, se não está a ser vendido gato por lebre. Nada. Tudo à margem de tudo, imagino.

O que eu gostaria de saber é, a nível de Finanças, como é? Quando recebem dinheiro dos clientes é na base do toma lá, dá cá e... impostos viste-os? E a AT deixa que as pessoas vivam com mais do que o que oficialmente recebem, e não tem mecanismos para ir atrás?

Claro que isto é arraia-miúda. Dir-se-á que não é por aí. Pois. Mas multiplique-se pelos vários milhares de pessoas que exercem estas novas profissões e talvez já tenha expressão. Mas vale para esta como para todas as influencers e toda a matilha que por aí anda a ganhar dinheiro de qualquer maneira, sem acrescentar qualquer valor ao País -- e, às tantas, ainda criticam o estado das coisas quando não devem pagar 1 euro de impostos. Parasitam a sociedade. 

NB: Note-se que estou a falar em abstracto pois não conheço a dita senhora de lado nenhum, não é, nem poderia ser, dela, em concreto, que estou a falar. Se a dita concorrente daquele programa for uma zelosa cumpridora de todas as regras, mandamentos e preceitos, maravilha. Mas eu não estou a falar dela, estou a falar em geral, em abstracto.

Outro exemplo. Não há muito tempo, ao falarem-me de uma pessoa, disseram-me que tinha uma empresa. O meu sexto sentido farejou coisa. Para me provarem que eu não tinha razão, disseram-me qual a empresa. Fui verificar. De facto a empresa existe, de facto essa pessoa é sócia, creio que sócia única. Objecto social: registo de patentes. Aí o meu faro apurou-se ainda mais. Melhor: eriçou-se. Registo de patentes?! Sei bem o que é a actividade de registo de patentes, sei o que exige. Afirmei categoricamente que a história estava mal contada. Era impossível aquela pessoa ter uma empresa de registo de patentes. Algum tempo depois, mostraram-me algumas facturas emitidas por essa empresa. Numa facturava 'x dias' a um certo valor unitário, sem especificar dias de quê. E numa outra facturava 'x items' a um outro valor unitário, também sem especificar quais os items. Valores baixos. E, obviamente, nada de nada de nada de nada a ver com patentes. Ou seja, quem tinha emitido aquelas facturas não fazia a mais pálida ideia do que são patentes. Como a internet tem destas coisas, googlei o nome da pessoa. E, claro, certinho, direitino, fui parar à sua página de instagram. Na sua inocência (ou estupidez), a pessoa tinha vídeos a promover os seus produtos, chegava a mostrar-se em casa a abrir uma caixa de cartão e a retirar os produtos: cintas. Cintas a granel. Cintas para afunilar a cintura, ocultar a barriga, salientar o rabo. O que ela vendia eram cintas. Nesses vídeos, dizia às pessoas para lhe encomendarem antes que esgotassem. Percebi que as vendas se faziam por ali. Provavelmente, as pessoas mandam mensagem a dizer que querem, ela deve dizer o MB Way, as clientes devem dizer a morada para envio, e está feito. Imagino eu. Devia fazer uma meia dúzia de facturas por ano para fazer de conta e o resto sabe-se lá como. E volto a dizer: imagino. Não sou inspectora das Finanças, não me compete andar atrás. Por isso, certo, certo, comprovado, não posso afirmar. O que sei é que, nas Finanças, está registada como uma empresa de venda de patentes. Profissão: empresária.

Fico perplexa, banzada, quase em estupor catatónico com o desplante desta gente. Meio mundo a inventar, a passar ao lado, a vender embustes e tretas. E para tudo há clientela. Seja a estupidez encartada do human design, seja os psicoterapeutas somáticos, os terapeutas sentimentais, os mentores de lifestyle, os criadores de conteúdos digitais, seja toda essa chusma de empresários que criam uma empresazeca de vão de escada e que não devem ser sujeitas a qualquer controlo -- para tudo há clientes. Para tudo. Ou seja, se estas pessoas, estas embusteiras, ao todo, serão da ordem dos milhares e se, cada uma, tiver umas centenas de clientes, já estamos a falar de centenas de milhares de obtusos que consomem e pagam por toda a espécie de porcarias -- ou seja, teremos a ideia da dimensão da mancha humana que é a nódoa de gente que consome todas estas patranhas.

Se calhar, verbas não da ordem dos biliões. é que, para além desta arraia-miúda há depois os tubarões. Bem sei. Concordo. Mas, seja muito ou pouco, é dinheiro que outros estão a pagar a mais para cobrir o que os que deveriam pagar não pagam. E é o princípio. E é a seriedade do sistema que é posta em causa. É aquela corrupção miúda, corrupção moral. E aquele sentimento aflitivo de que há os tais 25% da população que integram ignorantes, gente mal formada, obtusos, invejosos, crápulas, estúpidos, gente que, ainda por cima, geralmente entrega o seu voto a partidos que são se alinham com a democracia, com a verdade, ou com o bom desenvolvimento do país.

Não admira, pois, que, em Portugal, também 25% da economia seja paralela. Ah pois é, bebé.

segunda-feira, maio 18, 2026

O admirável mundo das novas profissões

 

Até há cerca de um ano mantive-me longe das redes sociais. Geralmente era eu que procurava a informação e, quase sempre, junto dos media de referência. Claro que também consumia os vídeos do youtube (e ainda consumo) mas, enfim, há que reconhecer que nada a ver com a avalanche, não editada, que agora me chega via instagram. 

Quando a minha filha criou a conta, perguntou se os posts que eu criasse para o instagram também deveriam ir para o facebook. Segundo ela, o facebook é coisa mais de terceira idade e que ainda há muita gente que começou aí e ainda aí se mantém. Portanto, disse que sim. Mas nunca me lembro de tal. Quando abro a caixa de correio, o que não é frequente, espanto-me com dezenas e dezenas de notificações, mensagens, pedidos de amizade que estão pendentes no facebook. Se lá vou, é tanta coisa que nem me entendo. E aquilo parece-me uma barafunda, nada a ver com a arrumação do Instagram. E, aliás, sendo o meu perfil público, não vejo a lógica de eu ter que aprovar o pedido. E tudo aquilo me parece um tal caos que desisto. Provavelmente qualquer dia desisto do facebook. E os posts do instagram não apenas vão para o facebook como para uma coisa chamada Threads e aí só consigo ver de soslaio pois parece que devia criar conta específica. Mas vi que uma minha coisa qualquer tinha milhares de visualizações. Não faço ideia se o Threads também funciona com base em 'seguidores' ou 'amigos' ou se é bar aberto ou se há comentários ou não. Mas nada disso é a minha praia, não tenho paciência, não quero perder tempo a aprender coisas que me parecem redundantes. O Instagram já me chega. 

Mas vem isto a propósito das coisas que aprendo no Instagram... Coisas que eu não poderia aprender apenas lendo o Guardian, e isto só para dar um exemplo. É todo um mundo novo. Muitas vezes aparecem-me posts de pessoas desconhecidas. Quando quero ver quem são, clico no perfil e, com muita frequência, aparece-me que são criadores de conteúdos digitais. Não sei se é porque acham que é o que está a dar ou se é mesmo a sua ocupação principal, mas, do que lá se vê, não haverá mais que isso.

Mas não é só. 

Há bocado apareceu-me um que se anuncia como psicoterapeuta somático. Nunca em tal eu tinha ouvido falar. Fui ver: descreve algumas das suas habilidades para tratar pessoas. Daquela conversa toda, não me pareceu ver ali qualquer base científica, tudo aquilo me pareceu uma chachada sem ponta por onde se pegue. Posso estar simplesmente desfasada do imenso leque de profissões que agora parece que brotam como cogumelos, e esta ser uma profissão legítima, validada por alguma Ordem, sujeita a regulação. Mas esta é apenas mais uma das que me vão aparecendo. 

Há poucos dias uma outra descrevia-se como especialista em human design. Como nunca tinha ouvido falar em tal coisa fui informar-me. E tudo aquilo me tresandou a treta de uma ponta a outra. Mas, pelo que vi, organiza cursos ou retiros ou coisa do género. E parece que desenha mapas. Se calhar antes designar-se-ia astróloga e não organizaria workshops ou encontros. E eu espanto-me: quem é que vai em tal conversa? Os clientes não se importam por nada daquilo ter qualquer fundamentação científica? Há assim tanta gente a embarcar em balelas e ainda pagar por isso ou ainda bater palminhas? 

Mas depois ainda há quem que se anuncia como coach ou mentor e, se eu resolvo ir espreitar a realidade que ali subjaz, vejo grupos (geralmente de mulheres) que se riem muito, frequentemente de braços abertos, boca aberta e, muitas vezes, de língua de fora e perna no ar. Não imagino sequer o chorrilho de disparates, de vacuidades, de banha da cobra que aí se vende. 

E depois há ainda quem faça sessões online para explicar as vantagens de suplementos alimentares. E quando, na minha inocência, pergunto se quem ministra tais sessões é nutricionista ou afim, respondem-me que não, que agora na internet encontra-se tudo o que é preciso. Mas dizem-me isto não com ar envergonhado de quem foi apanhado em falso mas como se a minha pergunta é que fosse absurda.

Quando me espanto por haver tanta gente que vota em partidos que apresentam propostas não fundamentadas, não deveria. Se há tanta gente que embarca nestas parvoíces, a quem nem ocorre saber se a profissão está homologada por entidades competentes ou  se esses pseudo-especialistas têm bases académicas para fazer aconselhamentos psicológicos ou human design (esta expressão, então, é de morte), como não haverão também de ir atrás da conversa de populistas e afins...?

Não sei que mundo é este. Mas, cá para mim, metade da população é mesmo assim, abestalhada, feliz com a sua ignorância, disposta a seguir ou a pagar a todos os que lhes dizem o que eles querem ouvir (mesmo que, à vista desarmada, se perceba que é tudo uma tanga). Metade não, estou a exagerar. Acho que é para aí um quarto, são os tais 25% de pessoas que votam sempre nos partidos ou nas pessoas que não interessam para nada, que se vê, a milhas, que tudo aquilo é uma 'furada'. E não estou a pensar só no Chega, no Ventura (ou, nos States, no Trump): já pensava isso de quem vota no PCP, no Bloco, de certa forma, em parte, na IL. Propostas vagas, simpáticas, incitamento, ainda que, por vezes, mais veladamente, à divisão do mundo entre o lado bom e o lado mau, 'nós, os bons, os prejudicados, os impolutos' contra 'os outros, os maus, os corruptos, os ladrões'. Por vezes, a estes 25% de gente que vai atrás de tudo o que os vendedores de banha da cobra vendem, por razões circunstanciais há mais quem se lhes junte, uma franja flutuante que tanto vai por ali como por aqui. Agora, em todo o lado, parece que há sempre 25% de pessoas que não sei dizer se são burras, ignorantes, inseguras, fúteis, marias-vão-com-as-outras ou o quê. Mas acho que andam sempre por aí.

E, para resumir, acho que é essa camadinha que alimenta esses profissionais de meia-tigela, gente sem escrúpulos ou sem consciência ou sem noção, que se armam em líderes, em mentores, em especialistas, em psico ou experts da treta e que não passam de sacos cheios de coisa nenhuma.

Ou, então, temos que nos ir habituando: uma onda de coisas fake a passar por cima dos incautos e, se calhar, um dia, quando menos dermos por isso, já a passar por cima de todos nós.

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Desejo-vo suma boa semana, a começar já por esta segunda-feira

domingo, maio 17, 2026

À atenção da Ministra Palma Ramalho
-- Terceira Idade: "Recomendações de Política Pública para Portugal" -

 

Ora bem. Em dia de constipação ou gripe ou whatever, volto à cold cow e termino o que no outro dia comecei: "BASE PARA REFLEXÃO -- Cuidados e Apoio à Terceira Idade em Portugal", um conjunto de apontamentos coligidos e organizados com recurso ao Claude, essa fantástica ferramenta de Inteligência Artificial da Anthropic 

(e, um à parte: porque diabo não há nenhuma empresa europeia entre as majors que estão a dar cartas nestes domínios? Isso parece-me estrategicamente gravíssimo e é tema que, só por si, deveria merecer ampla discussão. Aliás, todo o tema da IA deveria fazer com que todos, todos, em todo o mundo, fizéssemos uma pausa para pensar: no que se está a fazer, para onde vamos, com que objectivos, com que consequências, com que medidas para fazer face às consequências. Mas, enfim, é o que é: a malta prefere ocupar-se com porcariazecas que enxameiam as redes sociais e que, de tão parvas, viralizam, e ignorar o que realmente importa).

Se no outro dia essencialmente divulguei diagnósticos e comparações entre o que se passa em Portugal e noutros países de referência, hoje avanço para o que poderia ser o caminho para nos posicionarmos de forma digna, para que todos saibamos com o que poderemos contar, para que tenhamos a certeza de que a nossa identidade, autonomia e liberdade de decisão (mesmo que reduzidas) sejam respeitadas, para que a velhice não seja um pesadelo mas uma etapa tranquila.

Fiz questão de que, entre as medidas a tomar, figurasse aquilo que sempre quis nos processos transformacionais que conduzi: os chamados quick wins (termo anglicanês que, na gíria de gestão. se usa para designar as medidas imediatas, relativamente simples de implementar e que produzem resultados imediatos, ou seja, em que não é preciso esperar por projectos estruturais e demorados para ver resultados).

O que aqui apresento parece-me lógico, razoável, benéfico. Pode ser que haja melhores alternativas -- óptimo, venham elas. Mas o que é preciso é meter pernas a caminho. Assim como estamos é que não pode ser. 

Notas: Como já alertei antes, não validei todas as fontes mas elas estão listadas no post anterior. Podem ser validadas. E volto a pedir: se detectarem erros ou disparates, muito agradeceria que mo dissessem para eu poder validar e/ou corrigir. 

Alguns textos, nas caixas (coloridas), estão com má formatação, o texto muda de linha sem que seja caso disso. Mas esse é o tipo de coisas para as quais não tenho grande paciência. Já no outro dia estava assim e acabei por deixar passar. Não fica bem, eu sei, mas já não me apetece andar às cabeçadas a ver se o texto me obedece...

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6. Recomendações de Política Pública para Portugal

Este capítulo apresenta um plano de acção estruturado e internamente coerente com o benchmarking que o antecede. Não é uma lista de boas intenções: é uma arquitectura com eixo central, repartição clara de responsabilidades, estimativa de recursos humanos necessários, modelo de financiamento e sequência de implementação — com resultados visíveis a curto prazo enquanto as reformas estruturais estão em curso. 

PRINCÍPIO ORIENTADOR INEGOCIÁVEL:

O domicílio e a comunidade são o eixo central. O lar é o último recurso.

Todas as medidas aqui propostas decorrem deste princípio — e são incompatíveis com a lógica

inversa que tem dominado a política portuguesa: construir mais lares como resposta por defeito.

Um documento que diagnostica o problema não pode propor a sua perpetuação.

 

6.1 O Eixo Central: Envelhecer em Casa e na Comunidade

A reforma do sistema de cuidados a idosos em Portugal deve partir de uma declaração política clara, traduzida em legislação e orçamento: o objectivo do Estado é que cada pessoa possa envelhecer no seu domicílio ou numa habitação privada de sua escolha, pelo máximo de tempo possível, com acesso a cuidados adequados independentemente dos seus rendimentos.

Este princípio implica uma inversão: em vez de o idoso se deslocar até aos cuidados — indo para um lar —, os cuidados deslocam-se até ao idoso. O Estado paga os cuidados. O idoso paga a habitação onde já vive. Esta separação, adoptada pela Dinamarca em 1988 e pelos Países Baixos com o modelo Buurtzorg, é o fundamento de todos os sistemas com melhores resultados documentados. 

Os lares continuam a ter lugar neste modelo — mas como rede de último recurso para situações de dependência grave sem alternativa domiciliária viável. Não como resposta por defeito. Esta reorientação não é ideológica: é económica, social e demograficamente racional. Cada idoso que permanece em casa com apoio domiciliário custa ao Estado menos do que numa cama de lar ou hospitalar. E é mais feliz. 

6.2 Arquitectura de Responsabilidades

Um dos problemas estruturais da política portuguesa é a indefinição de responsabilidades: o Estado central legisla sem financiar, os municípios executam sem recursos, as IPSS prestam serviços sem comparticipação adequada. A reforma exige uma divisão clara e vinculativa.

 

Nível

Responsabilidades

O que muda face ao actual

Estado Central

Legislação, padrões de qualidade nacionais, financiamento base, regulação, carreira de cuidador, fiscalização nacional

Passa a financiar cuidados domiciliários como direito universal, não como benefício discricionário

Municípios

Avaliação de necessidade, coordenação local, gestão de equipas domiciliárias, centros comunitários, transporte social, cohousing

Tornam-se o pivot do sistema — o gestor de caso de cada idoso no seu território

IPSS e Misericórdias

Prestação de serviços domiciliários e residenciais com financiamento público adequado e auditoria de qualidade

Deixam de ser subfinanciadas — comparticipação passa a cobrir custo real

Setor Privado

Prestação de serviços num mercado regulado com padrões mínimos exigíveis e rating público de qualidade

Opera com regras claras — não num vácuo regulatório

Famílias

Apoio emocional e relacional — não substituição do sistema formal

Libertadas do papel de cuidadoras a tempo inteiro por esgotamento

 

6.3 Recursos Humanos: Quantos Profissionais, de Que Tipo

A maior lacuna do sistema português não é de edifícios nem de regulação — é de pessoas qualificadas. Sem uma massa crítica de profissionais formados, estáveis e bem remunerados, nenhum modelo funciona. Este é o investimento mais urgente e mais negligenciado.

Estimativa de Necessidades

Portugal tem aproximadamente 2,6 milhões de pessoas com 65 ou mais anos. Estimando que 30% necessitam de alguma forma de apoio domiciliário regular, isso representa cerca de 780.000 utentes. Com uma ratio de 1 cuidador por 8 a 10 utentes (padrão Buurtzorg), seriam necessários entre 78.000 e 98.000 cuidadores domiciliários a tempo inteiro — para além dos já existentes no sector.

 

Categoria Profissional

Função

Formação Mínima

Postos a Criar

Cuidador domiciliário certificado

Apoio nas actividades da vida diária, companhia, monitorização

Curso profissional de 1 ano (novo)

40.000 – 60.000

Enfermeiro comunitário

Cuidados de saúde no domicílio, prescrição de equipamentos assistivos

Licenciatura + especialização

8.000 – 12.000

Assistente social de gestão de caso

Avaliação de necessidade, plano individualizado, coordenação

Licenciatura em Serviço Social

3.000 – 5.000

Técnico de centro comunitário sénior

Animação, actividades culturais e físicas, voluntariado

Curso profissional de animação

3.000 – 4.000

Técnico de teleassistência

Instalação, monitorização e resposta a alertas domiciliários

Formação técnica específica (novo)

1.500 – 2.500

 

A Carreira de Cuidador: Criá-la do Zero

Em Portugal, o cuidador de idosos não tem carreira definida, tabela salarial própria, progressão remuneratória nem reconhecimento formal. Trabalha frequentemente sem contrato, sem formação e sem perspectiva. O resultado é rotatividade elevada, qualidade baixa e dependência de mão de obra imigrante sem qualquer preparação para este trabalho específico.

A criação de uma Carreira Nacional de Cuidador de Idosos exige: currículo formativo nacional de 12 meses com componentes de cuidados físicos, primeiros socorros, gestão de demências, comunicação e ética do cuidado; certificação obrigatória; tabela salarial própria com progressão; e reconhecimento legal equivalente ao de outras profissões da saúde. Esta medida é a pré-condição de tudo o resto.

 

6.4 Modelo de Financiamento

Uma reforma desta dimensão custa dinheiro. Mas o custo de não agir — em despesa hospitalar, em produtividade perdida pelas famílias que cuidam, em pobreza sénior, em lares clandestinos — é substancialmente maior.

 

Fonte de Financiamento

Mecanismo

Precedente Internacional

Transferências do OE para municípios

Verba dedicada a cuidados domiciliários, fora do envelope geral

Finlândia, Suécia — subsídio estatal específico para cuidados locais

Aumento da comparticipação às IPSS

Passa dos actuais 523€ para valor que cubra custo real (est. 900–1.100€)

Necessário para eliminar o deficit estrutural das IPSS

Poupança em internamentos hospitalares sociais

Redução das 2.342 camas sociais liberta ~85M€/ano

Argumento de eficiência: cama hospitalar vs. apoio domiciliário

Fundos Europeus Portugal 2030

Co-financiamento da transição, formação profissional, piloto Buurtzorg

Janela de oportunidade aberta agora

Seguro de Cuidados de Longa Duração

Contribuição de 0,5–1% do salário a partir dos 40 anos, fundo autónomo

Japão (2000), Alemanha (1995), Coreia do Sul (2008)


 

6.5 Quick Wins: Resultados Visíveis em 12 Meses

Para criar confiança pública e construir apoio político para as medidas mais exigentes, é indispensável um conjunto de acções com impacto visível e rápido. Estas medidas não substituem a reforma — criam as condições para ela ser aceite e sustentada.

Quick Win 1 — Rating Público de Lares (mês 3)

Criar e publicar online um sistema de avaliação pública de todos os lares licenciados, com classificação de 1 a 5 estrelas baseada em inspecções regulares. Modelo: Care Quality Commission do Reino Unido. Custo: baixo. Impacto: imediato — famílias podem escolher com informação, lares com má classificação têm incentivo a melhorar. A transparência é o regulador mais eficaz e mais barato.

Quick Win 2 — Teleassistência Universal para Maiores de 80 (mês 6)

Programa nacional de instalação gratuita de dispositivo de teleassistência (botão de pânico com resposta 24h) para todos os cidadãos com 80 ou mais anos que vivam sozinhos. Estimativa: 180.000 a 220.000 beneficiários. Custo: 40 a 65 milhões de euros anuais — menos do que o custo anual de 500 camas hospitalares sociais. Impacto: redução imediata do medo das famílias, prevenção de internamentos por quedas não assistidas, sinal político fortíssimo.

Quick Win 3 — Programa Piloto Buurtzorg em 5 Municípios (mês 9)

Lançar apoio domiciliário com equipas estáveis em 5 municípios de dimensão média, um por região. Cada equipa de 10 cuidadores certificados cobre 80 a 100 utentes. Co-financiamento Estado/município. Avaliação independente ao fim de 12 meses com publicação de resultados. O piloto cria o modelo, demonstra a viabilidade e prepara a escala nacional.

Quick Win 4 — Linha Nacional Sénior (mês 3)

Criar uma linha telefónica e digital de orientação para idosos e famílias: que apoios existem na área, como aceder, o que custa, a que se tem direito. Hoje esta informação é inacessível para a maioria. Custo: mínimo. Impacto: imediato — resolve o problema da invisibilidade do sistema.

Quick Win 5 — Curso de Cuidador: Primeiras 5.000 Vagas (mês 6)

Lançar, em parceria com centros de formação profissional, o primeiro curso nacional certificado de Cuidador de Idosos, com 5.000 vagas no primeiro ano. Prioridade a desempregados, imigrantes já residentes e familiares que prestam cuidados informais. Financiamento: fundos europeus Portugal 2030.

 

6.6 Reformas Estruturais (2 a 10 anos)

A — Lei do Envelhecimento no Domicílio (ano 1–2)

Legislação que consagra o direito de cada cidadão a envelhecer no seu domicílio com apoio do Estado, e que obriga os municípios a disponibilizar avaliação de necessidade, plano individual de cuidados e serviços domiciliários dentro de prazo definido. Sem esta lei, tudo o resto é voluntário e reversível.

B — Programa Nacional de Habitação Sénior (ano 2–5)

Legislação que exige espaço privado completo em toda a nova habitação de apoio a idosos com financiamento público. Incentivos fiscais para cooperativas que desenvolvam cohousing sénior e habitação assistida acessível. Meta: 50 projectos de cohousing nos primeiros 5 anos, com prioridade aos municípios mais envelhecidos.

C — Escala Nacional do Modelo Domiciliário (ano 3–7)

Expansão do modelo-piloto a todos os municípios, com meta de cobertura de 60% dos idosos com necessidade de apoio domiciliário até ao ano 7. Cada município coordena; a prestação é mista — pública, social ou privada regulada. O financiamento é do Estado central.

D — Reforço da RNCCI e Eliminação das Listas de Espera (ano 2–4)

As mais de 10.000 pessoas em lista de espera na Rede Nacional de Cuidados Continuados representam um fracasso humano e económico mensurável. Meta: eliminação da lista de espera até ao ano 4, com reforço de camas e de equipas multidisciplinares.

E — Seguro de Cuidados de Longa Duração (ano 5–10)

Contribuição obrigatória de 0,5 a 1% do salário a partir dos 40 anos, gerida por fundo autónomo com governação independente. Financia cuidados por critério de necessidade — não de rendimento. Garante previsibilidade orçamental a longo prazo, desligada dos ciclos políticos.

F — Os Lares: Regulação, Não Expansão (contínuo)

Os lares existentes são regulados com rigor, inspeccionados sistematicamente e avaliados publicamente. Os clandestinos são encerrados ou integrados na rede legal com prazo definido. Não se constroem novos lares tradicionais com financiamento público — o investimento vai para domicílio, comunidade e habitação assistida. Quando o lar for inevitável, obedece ao padrão dinamarquês: quarto, sala, cozinha e casa de banho individuais. Nunca quartos partilhados.

 

6.7 Trazer o Tema para a Agenda: O Argumento Económico, Social e Político

Uma reforma desta dimensão precisa de agenda política, de opinião pública mobilizada e de um argumento que vá além da compaixão — embora a compaixão seja, em si mesma, um argumento poderoso. Velhos serão todos os que tiverem a sorte de não morrer novos. Esta frase não é retórica: é a mais eficaz das convocatórias políticas, porque torna o problema de todos.

O Argumento Económico

       Uma cama hospitalar ocupada por situação social custa 800€ a 1.200€ por dia. Apoio domiciliário de qualidade custa 30€ a 80€ por dia. A matemática é inequívoca;

       As 2.342 camas hospitalares permanentemente ocupadas por situações sociais representam um desperdício de 680 a 1.000 milhões de euros por ano;

       O custo de um cuidador informal que sai do mercado de trabalho para cuidar de um familiar é estimado em 15.000 a 25.000€ anuais em PIB perdido — à escala nacional, vários milhares de milhões;

       Cada euro investido em prevenção e apoio domiciliário evita 3 a 5 euros em cuidados agudos hospitalares — ratio documentado em estudos do Buurtzorg e de programas finlandeses.

O Argumento Social

       Portugal tem uma taxa de pobreza sénior de 21,1% — acima da média europeia. Uma parte significativa resulta de reformas baixas confrontadas com custos de cuidados incomportáveis;

       O cuidado informal não remunerado recai esmagadoramente sobre mulheres. É uma questão de igualdade de género tanto quanto de política social;

       O isolamento social dos idosos tem custos mensuráveis: maior consumo de urgências, maior prevalência de depressão e demência, maior mortalidade precoce.

O Argumento Político

       Em 2030, mais de um quarto da população portuguesa terá 65 ou mais anos — e vota. Este grupo eleitoral é o de maior participação nas eleições;

       O tema é transversal — não é de esquerda nem de direita. Os países mais conservadores e os mais progressistas convergem nos modelos de referência quando os dados estão em cima da mesa;

       Portugal tem fundos europeus disponíveis — Portugal 2030 — que podem co-financiar a transição. A janela de oportunidade é agora.

 

A MENSAGEM POLÍTICA CENTRAL:

Não estamos a propor gastar mais dinheiro em idosos.

Estamos a propor gastar melhor o dinheiro que já está a ser desperdiçado —

em internamentos sociais, em lares clandestinos, em famílias exaustas.

E a fazê-lo antes que a demografia torne a escolha impossível.

 

7. O Fator Humano: Cultura, Afeto e Dignidade

Nenhum modelo técnico ou político resolve o problema sem atender à sua dimensão mais profunda: o que significa envelhecer com dignidade, e o que os idosos realmente querem.

7.1 O Apego à Casa

Em Portugal, como noutros países mediterrânicos, o apego ao lar é especialmente intenso. A casa não é apenas um espaço físico — é memória, identidade, autonomia. A pesquisa internacional confirma que este apego é universal: os idosos que permanecem em ambientes familiares têm melhor saúde mental, menor declínio cognitivo e maior longevidade.

Este não é um capricho cultural que deve ser gerido ou superado. É uma necessidade humana fundamental que a política pública deve respeitar e incorporar. Os melhores sistemas — dinamarquês, holandês, finlandês — foram construídos exatamente sobre este princípio: o idoso tem o direito de ficar onde quer estar, e o sistema vai até lá.

7.2 O Sentimento de 'Fim de Linha'

Em Portugal, a ida para um lar é frequentemente vivida como uma derrota — pelo idoso e pela família. Esta perceção não é irracional: em muitos casos, a qualidade de vida deteriora-se significativamente. O isolamento social aumenta; a autonomia diminui; a vida passa a ser organizada por horários institucionais.

O antídoto não é negar que o lar pode ser necessário — é transformar o que o lar significa. Nos melhores exemplos internacionais, quando alguém precisa de cuidados residenciais, vai para um espaço que tem a sua cozinha, a sua sala, os seus móveis, e onde decide com quem come, quando acorda e o que faz. O lar deixa de ser uma instituição e torna-se uma comunidade habitada.

7.3 O Cuidador como Parceiro, Não como Serviço

Um dos maiores medos expressos pelos idosos portugueses é 'meter desconhecidos em casa'. Esta resistência é compreensível e deve ser levada a sério. A solução não é ignorá-la — é criar condições para que os cuidadores deixem de ser desconhecidos.

Isso exige continuidade (a mesma pessoa), formação (competência e empatia), e regulação (garantias legais e reputacionais). O modelo Buurtzorg mostra que é possível: a relação de confiança entre cuidador e utente é explicitamente cultivada e é considerada um indicador de qualidade do serviço.

7.4 O Papel das Famílias

Em Portugal, a família continua a ser o principal prestador de cuidados informais a idosos — frequentemente mulheres, frequentemente em sacrifício da sua vida profissional e pessoal. Esta realidade não pode ser romantizada: é, em muitos casos, uma situação de esgotamento silencioso.

O objetivo da política pública não é substituir as famílias, mas apoiá-las. A experiência dinamarquesa mostra que os idosos que recebem apoio domiciliário público continuam a ver os filhos com a mesma ou maior frequência. O cuidado formal liberta o afeto familiar de ser trabalho.

 

8. Síntese e Visão para Portugal

8.1 A Visão

Um Portugal onde envelhecer não é sinónimo de perda — de casa, de autonomia, de identidade. Onde cada pessoa pode escolher, de acordo com as suas necessidades e preferências, como quer viver a última etapa da vida, com acesso a apoio adequado independentemente dos seus rendimentos.

 

A PROPOSTA CENTRAL DESTE DOCUMENTO:

Construir o espaço intermédio que falta em Portugal —

entre 'ficar em casa sem apoio' e 'ir para um lar sem alternativa'.

Esse espaço é feito de:

→ Apoio domiciliário de qualidade, com continuidade e confiança;

→ Centros de dia integrados na comunidade;

→ Cohousing sénior com habitação privada e vida comunitária;

→ Habitação assistida acessível;

→ Cuidadores profissionais, regulados e reconhecidos;

→ Lares residenciais de qualidade quando inevitáveis —

   mas com quarto, sala e cozinha individuais.

 

8.2 O Papel do Estado, dos Municípios e da Sociedade Civil

A experiência internacional é clara sobre a distribuição de responsabilidades:

       O Estado central define o enquadramento legal, os padrões de qualidade, o financiamento base e a regulação;

       Os municípios implementam, adaptam ao território e fazem o acompanhamento de proximidade — são o nível mais eficaz para responder à diversidade de situações locais;

       As entidades sociais (Misericórdias, IPSS, cooperativas) prestam serviços com financiamento público adequado e controlo de qualidade;

       O setor privado opera num mercado regulado, com padrões mínimos exigíveis e informação pública sobre qualidade;

       A sociedade civil — vizinhos, voluntários, grupos comunitários — complementa o que os sistemas formais não conseguem: presença humana, convívio e pertença.

8.3 O Custo de Não Agir

Não reformar o sistema tem custo elevado — e crescente. O envelhecimento da população é inevitável: em 2050, Portugal terá cerca de 35% da população acima dos 65 anos. Cada ano sem reforma significa mais lares clandestinos, mais idosos isolados, mais camas hospitalares ocupadas por situações sociais, mais famílias exaustas e mais despesa pública ineficiente.

Os países que fizeram esta transição mais cedo — Dinamarca, Finlândia, Países Baixos — fizeram-na com investimento público inicial significativo, mas geraram poupanças a médio prazo e, sobretudo, geraram bem-estar humano mensurável. O retorno não é apenas financeiro: é social, cultural e ético.

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Desejo-vos um bom domingo

sábado, maio 16, 2026

Ora aqui está o que se pode chamar 'partir a loiça toda'...

 

Tudo, um dia, chega ao fim. Tudo e todos, bem entendido. Mas, por vezes, não chega por razões naturais, mas porque se é empurrado. 

Se há figura incontornável na forma de conversar, de receber, de fazer humor, de saber escolher os convidados, de dizer o que tem que ser dito e fazê-lo sem meias palavras -- essa figura é Stephen Colbert.

O seu indisfarçável pó a Trump valeu-lhe um par de patins. Depois de estar no ar há anos e anos e de ser sempre um sucesso, recebeu guia de marcha. Durante o período que tem decorrido entre o aviso e a data em que vai dizer adeus, que é para a semana, Stephen Colbert tem aproveitado para pintar ainda mais a manta. Bem, não sei se é correcto dizer 'ainda mais' pois ele sempre foi assim, gozão, irónico, certeiro, implacável.

Desta vez, convida o já lendário David Letterman -- percursor, mestre --, e a forma que arranjaram para se divertirem a partir a louça é surpreendente. Vingança a sério... 😂😂😂😂 A CBS deve ficar a ranger os dentes com estas gracinhas...😁

Destruição desenfreada de propriedade da CBS - Letterman e Colbert atiram coisas do telhado do Ed Sullivan.

David Letterman convida Stephen Colbert para repetir um dos quadros mais queridos e gratificantes do "Late Show" de Letterman.


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E, portanto, como se vê, ainda não é hoje que chuto à baliza e partilho algumas das medidas que não tenho dúvida que fariam toda a diferença no pântano de águas paradas e pouco perfumadas que é a realidade da terceira idade em Portugal. Como previa, não tive tempo para me dedicar. Dia atarefado... 

E, para além do mais, parece que agora sou eu que estou a ficar engripada. O meu marido tem andado assim. Começou com dores de garganta, depois congestionado, corpo dorido, abatido, e agora tosse, tosse, tosse. Aliás, tenho ido sozinha ao ginásio pois ele não se tem sentido minimamente com pedalada para ginásticas. E eu, estranhamente, fresca como uma alface, a achar que o meu sistema imunitário estava a bombar. Pois bem, parece que nem por isso. Já estou a chupar uma pastilha para a garganta, já espirrei não sei quantas vezes, ardem-me os olhos, estou assim a modos que não sei quê. Pode ser que, com uma noite sono, isto me passe. Não me apetecia nada agora ser eu a ficar jururu.

Tirando isso, tá-se.

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Um bom sábado para todos
Saúde. Alegria. Paz.

sexta-feira, maio 15, 2026

Um pesadelo -- e, no fim, para rematar, dois mandamentos que encerram o conteúdo de 'Os Dez mandamentos da Lei da Pança'

 

Hoje tive um dia mais ocupado e disperso do que é costume. Para além disso, um pesadelo acordou-me ainda muito cedo e era daqueles que, de tal forma se enrodilham em volta dos neurónios, já não me deixou voltar a adormecer. Por isso, durante o dia, nos momentos em que estive parada, estive a combater o sono. Mas não consegui: há bocado adormeci aqui no sofá, de forma pesada. A ver se não me vai causar insónia.

O pesadelo foi mais um daqueles que não tem por onde se pegue mas que teve uma ponta final que me deu conta do juízo. Conto. Tinha sido um daqueles dias na empresa que começavam da pior maneira: mal punha o pé dentro, logo alguém se acercava para me atazanar a cabeça com problemas, sem me dar tempo a pousar, a beber café, a ligar o computador. Portanto, tinha largado a carteira e o telemóvel e tinha sido puxada por esse colega para ir ver um assunto urgente. Mas o tema em causa não era no nosso piso: fomos pelo corredor, mas era um corredor comprido que parecia que circulava em torno de muitos gabinetes, até que chegámos a um elevador, no que devia ser a extremidade do edifício; e tínhamos ido para outro andar. A pessoa com quem ele queria que eu falasse estava ocupada e ele sentou-se à espera. E eu pensei que de líder ele não tinha nada pois a pessoa, que hierarquicamente dependia dele, tinha continuado, nas calmas, como se não visse que nós estávamos à espera e como se nem tivesse consciência que ambos éramos pessoas muito ocupadas, para estar ali especados, à espera. E eu com vontade de beber café e a pensar que devia ter trazido o telemóvel. O meu colega, entretanto, tinha começado a contar-me sobre os filhos, sobre o seu amor ao teatro, e falava, falava, falava. E eu a ver o tempo a passar. Às tantas, fartei-me daquele número e resolvi voltar para o meu gabinete. Mas apanhei um elevador que me levou para uma zona que eu não conhecia e que não tinha saída. E não vou estar a descrever o raio do labirinto em que me vi metida. Só que andava por lugares em que toda a gente com que me cruzava me era desconhecida. E eu pensava que àquela hora já o meu marido deveria estar lá em baixo à minha espera pois tínhamos combinado ir almoçar juntos. E eu, sem telemóvel, não tinha como avisá-lo. 

E o sonho basicamente foi isto. Mas eu não dar com a saída, andar acima e abaixo, às tantas já andava em monta-cargas, imagine-se, e não dar com o caminho para o meu gabinete, não poder comunicar com ninguém, fez com que acordasse completamente desatinada.

Provavelmente tem a ver com um colega me ter dito que a empresa agora já ocupa mais uma ala do edifício, aliás, se bem percebi, o edifício contíguo, que têm estado a admitir montes de gente, que, se eu lá fosse, se calhar, tirando uns três ou quatro, já não ia conhecer ninguém, que ele, que lá trabalha todos os dias, passa a vida a cruzar-se com gente que não sabe se é de lá ou se são consultores ou alguém de fora que veio para alguma reunião.

Ainda no outro dia, um outro que trabalhava directamente comigo, um dos resistentes, me contava que ia sair dentro de poucos meses, que já tinha tratado de tudo. Eu fiquei muito espantada pois ele está ainda bem longe da idade da reforma. Mas disse-me que começou a trabalhar cedo, tem muitos anos de descontos, e que, sobretudo, que as coisas tinham perdido a graça, que aquilo mais parecia o recreio da escola ou, por vezes, uma esplanada, que 'a malta gosta é de conviver, todos lá muito na curtição deles, ao fim do dia, e ainda o dia não terminou, é vê-los a juntarem-se para irem para o rooftop', que parece que a história e a tradição da empresa se estavam a esvair rapidamente. Quando pergunto por um ou outro, já tudo saiu. Não sei se é a empresa a querer rejuvenescer à força toda, se é a malta mais velha que se cansou. 

Mas deve ser por isto que depois, de noite, a minha cabeça se perde em meandros que já não conheço.

Tinha dito que ia tentar partilhar o resto do estudo de ontem sobre a Terceira Idade mas, muito francamente, pouco tempo e pouca disponibilidade mental tive para avançar nisso. E amanhã também não vai ser fácil, mas logo vejo.

Também estou a hesitar sobre se devo partilhar aqui alguma da 'descodificação' dos papéis velhos, velhíssimos, alguns com mais de um século, que trouxe de casa dos meus pais e que pertenceram a bisavós, um de cada lado e que o Claude -- apesar das manchas do papel ou da tinta esbatida ou da caligrafia muito diferente da actual -- descortinou com uma perna às costas. São documentos que têm muito a ver com a história da minha família.

Talvez partilhe amanhã, pela graça -- e porque nada têm de pessoal ou reservado --  o 'Padre Nosso d’um bêbado' e 'Os Dez mandamentos da Lei da Pança' que um tio-avô ou a mãe dele, minha bisavó -- certamente algum dos dois -- , escreveram, com uma caligrafia espantosa, em 1911. Não sei se é coisa de lavra deles ou se reproduziram alguma coisa que ouviram algures. Por hoje, limito-me a transcrever o remate desses mandamentos:

"Estes 10 mandamentos se encerram em dois: - Comer até arrebentar, beber até cair."

Ora bem!

Pintura by ChatGPT
(pedida para ilustrar os ditos 10 mandamentos)

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Desejo-vos um dia feliz