Geralmente é o meu marido que, de manhã, levanta a persiana do quarto. Levanta-se bem antes de mim, toma o pequeno-almoço, vai acordar o pobre do cão e arrasta-o até à rua, a seguir vai podar árvores, árvores e arbustos ou causar estragos que não lhe perdoo pois corta sempre demais e, quando já não sabe o que mais fazer, vai até ao quarto e pergunta-me se ainda não são horas. Isto para dizer que, quando levantou a persiana, vi que estava sol. Pensei: 'Vou mas é pôr já a roupa a lavar'. E assim fiz. Lençóis, toalhas, panos das mãos e o mais a que deitei a mão (compatível com temperaturas e cores, bem entendido), tudo para a barrela.
Depois tomei o meu pequeno almoço. Laranja, depois um copo de kefir natural com sementes e latte dourado. A seguir um café.
Depois de estendermos a roupa, tarefa que dividimos, fomos para o ginásio. E, a propósito disso quero aqui deixar um apontamento: no outro dia, se calhar por causa duns stresses que vieram bater-me à porta (e de que já me livrei), estava com um torcicolo, acho que falei nisto aqui, o pescoço tolhido, a nuca apanhada e dorida. O meu marido pensou que eu não ia ao ginásio e, para dizer a verdade, ainda hesitei. Mas depois resolvi que ia na mesma. Não abusei muito, mas fiz o habitual, embora não tivesse puxado demais pelos ombros ou braços. Não piorei. E voltei. E pus-me boa. Sem tomar um comprimido.
Aqui há algum tempo li um artigo científico em que se concluía que, para osteoartrites e inflamações de articulações e/ou artroses, o melhor remédio é o exercício. Não o repouso ou contenção de movimentos mas, justamente, o oposto, o exercício. Não sei se é para todas as situações, mas o que me tem parecido é que, pelo menos comigo, parece ser verdade. Em contrapartida, sinto que estar muito tempo sentada, andar pouco, fazer pouco exercício, isso é que dá cabo do corpo todo.
Bem.
Vindos do ginásio, tomámos banho, apanhámos a roupa e fomos almoçar. E não sei se foi a essa hora que ouvi a notícia que me pareceu a mais estúpida do dia. No meio das desgraças inomináveis das guerras absurdas e cruéis que estão em curso e de todas as implicações que já aí estão e as muitas mais que por aí virão, ouvi novidades da mais recente e espectacular operação da Polícia Judiciária, a Rigor Mortis: que as buscas à morgue do Hospital Santa Maria e às casas das pessoas, aparentemente, têm por base o facto de os funcionários da morgue receberem verbas entre 5 e 30 euros por cada corpo que preparam antes de os entregar às funerárias. Ouvi isto e só me apeteceu atirar um copo de água à cabeça do maluco que mobilizou investigadores da Judiciária para uma treta destas. É que não sei quem é que fica prejudicado com isto. Se os pobres coitados que têm como profissão lidar com mortos preparam minimamente os respectivos corpos e, com isso recebem uns trocos, que mal há nisso? O hospital fica prejudicado? Alguém fica prejudicado? E, mesmo que haja aqui qualquer coisa de vagamente ilícito, é caso para mobilizar tanta gente, tantos investigadores que custam caro, para uma coiseca destas? Não andariam melhor a apanhar traficantes de droga? Não andariam melhor a apanhar traficantes de armas de todo o tipo? Não andariam melhor a caçar pedófilos? Não andariam melhor a prestar atenção a bandidos que praticam violência doméstica e ameaçam as mulheres caso estas os denunciem? E a comunicação social também não tem neurónios? Que sentido dar tanto destaque uma notícia destas que nem se percebe que raio de notícia é? Não bastaria dar uma rabecada aos pobres coitados que, pelos vistos, ganham uns trocos indevidos? Era preciso tanto aparato?
Bolas, só maluquices. Caraças.
Adiante.
Depois de almoço, estava um sol bastante jeitoso. Pensei que não era cedo nem era tarde: boa ocasião para a vitamina D. Vesti uns calçõezitos e uma tshirtezita e estendi-me numa espreguiçadeira. E senti-me abençoada por poder receber assim, em liberdade, um calorzinho tão bom. Ser reformada tem destas coisas: não ter horários nem obrigações, não ter que estar enfiada em escritórios de manhã à noite, a respirar ar condicionado e a resolver problemas e a aturar gente em contínuo, por telefone e em pessoa, sem possibilidade de pôr o pescoço de fora para curtir um raiozinho de sol.
Pois, pois. Foi mas foi sol de pouca dura. Veio uma nuvem e foi-se o verão. Logo depois estava frio. Tive que vir para dentro, mudar de farpela.
Tenho ainda a dizer que cá em casa praticamente não se comem doces: o meu marido não aprecia e eu aprecio mas, por cada 10 gramas de açúcar que ingiro, aumento 1 quilo. Além disso, não gosto de fazer sobremesas. Mas, de vez em quando, apetece-me. E o meu marido, volta e meia, diz: 'devia haver qualquer coisa que se comesse entre refeições, quando nos apetecesse, para não ser só frutos secos'. Pois bem. O Instagram tem-me trazido coisas com piada. No outro dia apareceu-me um japonês que dizia que se pode fazer um doce sem farinha e sem açúcar.
E mostrava: esmaga-se batata doce cozida, mistura-se um ovo, leite de amêndoa e cacau em pó, bate-se e leva-se ao forno. E ficava com bom aspecto. Então resolvi fazer. O pior é que não tinha quantidades. Tudo a olho. Não tinha leite de amêndoa mas tinha kefir. Pensei que, com o kefir, ainda deveria ficar menos doce. Então, antes de vazar a mistura para a forma, juntei algumas, poucas, tâmaras e nozes cortadas aos bocadinhos. Levei ao forno.
E, se querem que vos diga, acho que ficou razoável. O meu marido não ficou extraordinariamente convencido e diz que com mais tâmaras talvez fique melhor pois assim parece que ficou com pouco sabor. É que, quando a gente vai comer um bolo -- e este fica macio, com um ar até a modos que apetitoso -- vai à espera de lhe saber a doce. E este doce, doce, não é. Para a próxima junto-lhe ou uma colherzita de mel ou mais tâmaras e talvez, até, algumas passas e arandos. Contudo, há pouco reparei que, apesar de lhe saber a pouco, até já comeu um bom bocado.
E depois fomos fazer uma caminhada e vi umas florzinhas amarelas muito lindas, lindas mesmo, um amarelo torrado, mais do que dourado, quase a querer alaranjar, mas tão perfeitas, tão harmoniosas, as pétalas quase translúcidas... Umas florzinhas ali, nascidas do nada. Nunca as tinha visto. Fiquei fascinada.
A natureza é uma coisa repleta de mistérios. Tira-os da manga a toda a hora. Fotografei-as e filmei-as e depois coloquei o vídeo no instagram. Não sei se quem vê estas minhas platitudes pensa que, se não tenho nada de mais original para partilhar, mais valia estar quieta. Talvez. Mas, para mim, estas coisas não são vulgaridades, são, isso sim, verdadeiros milagres. E milagre que é milagre deve ser louvado e, se é para louvar, que o seja com testemunhas. Por isso, partilho.
O pior é que, quando estava a pôr aquilo no instagram, recebi uma chamada. Interrompi o processo, Quando acabou a chamada, carreguei na coisa de partilhar ou publicar ou lá o que é. E lá vai disto. Fui à minha vida.
Há bocado, fiquei perplexa: vi que publiquei duas vezes. Ou seja, quando recebi a chamada, sem querer devo ter publicado. Depois dupliquei a dose. Agora quero apagar um deles e não consigo pois têm ambos visitas. Quem vê deve achar que sou maluca, publicar duas vezes a mesma coisa.
E, pronto, vou ficar por aqui, não vou pôr-me ainda a falar do jantar nem da minha magnólia -- que está espectacular, coberta de um manto de flores belíssimas -- nem da nova bebé da família, fofa, fofinha, fofésima, uma ternurinha, por sinal minha homónima, nem do meu tio que está cada dia mais confuso, o único sobrevivente daquela geração, nem de mais nada que isto já vai para aqui um lençol que não se aguenta.
[Nota: Dei o título de 'linha do tempo de um dia tranquilo' pois agora está na moda isto da linha do tempo: por tudo e por nada, lá sai a linha do tempo à cena. E eu embirro solenemente com estas coisas que viram virais e só tenho pena que a ironia não se perceba bem sem uma expressão facial de malícia ou desdém. E aqui, a escrever, e ainda por cima num título, sem verem que isto tem ironia à mistura, penso que, sem eu acrescentar esta nota, não perceberiam que claro que isto não é nenhuma linha do tempo, é um simples desfiar de tarefas irrelevantes ao longo de um dia normal, bom mas normal.]
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Mas, antes de ir pregar para outra freguesia, toma lá mais esta, ó Chalamet, vê lá se percebes que meteste a pata na poça.















