segunda-feira, março 09, 2026

Ça va san dire, que é o mesmo que dizer que that goes without saying

 

Não dormi nada bem. A meio da noite, ou melhor, da madrugada, vendo que a coisa não ia, por si só, a bom porto, levantei-me e fui tomar meio comprimido daqueles que cá tenho, acho que é de raiz de valeriana. Não me faz logo efeito mas, quando faz, para aí daí por uma hora, finalmente caio no sono. E já sei que, durante uma semana ou duas, vou dormir como uma santinha. Foi o médico de família que me receitou há algum tempo. Tenho ideia que cada caixa tem para aí uns 20 comprimidos e dá-me, à vontade, para 1 ano. 

Mas, por causa disso, acordei tarde. E com mais dor no pescoço. Agora, de vez em quando é isto, torcicolo. Na sexta-feira já me doía um pouco e fui ao ginásio na mesma, não quero dar mole. E, enquanto der, continuarei a ir, mesmo puxando pesos e fazendo aquelas forças que, ao que parece, me garantem a longevidade eterna. Só que, não sei a que propósito, também acordei com dor de garganta. Tenho cá para mim que, quando pinta um stress, o meu corpo reage, inflama, manifesta-se. Estou a virar um vidrinho, é o que é.

Por exemplo, no último ano de vida da minha mãe, em que andei permanentemente debaixo de uma enorme pressão, com ela a queixar-se de tudo e mais alguma coisa mas tudo de forma errática, ilógica, aparentemente nada correlacionado, e em que eu julgava que ela estava num estado descontrolado de hipocondria e já não sabia o que havia de fazer, andei constantemente com inflamações ora num joelho, ora num pé, ora num braço. Ora andava meio manca, ora completamente de perna no ar com canadianas, ora de braço ao peito. Quando ia com ela ao médico ou ao hospital, ela ia lesta e eu toda lesionada. Tenho para mim que o stress me afogava em cortisol e o cortisol amarfanhava-me de todas as maneiras possíveis e imaginárias.

Depois meteu-se o pesadelo de esvaziar a casa, meses e meses, infindáveis meses, de stress. E a ter que carregar com sacos e caixas e toda feita dondoca, a deixar o esforço todo para os outros, em especial para o meu marido, pois continuei aleijadinha de todo e qualquer carga fazia exacerbar ainda mais a inflamação nas articulações. Só visto.

E dormir mal também me atrofia toda. Dantes, quando trabalhava, dormia seis horas, por vezes menos que isso, e andava fresca e arrebitada todo o dia, um mimo. Agora, se durmo menos que sete, já fico com alguma coisa a tender para o disfuncional. 

Seja como for, para já, nem o torcicolo nem a dor de garganta são por aí além. Por isso, fomos na mesma passear à praia. Não estava bom tempo. Mas estava um movimento do caneco, os estacionamentos inexistentes. Tivemos que andar por ali e pelas redondezas à procura de agulha no palheiro. Não íamos almoçar lá mas queríamos comprar sushi para almoçarmos em casa. Tudo cheio, a deitar por fora, tudo com montes de gente à porta. Não estávamos a perceber o que era aquilo. Vi uma mulher com uma roupa meio estranha e por um instante ainda pensei que, na volta, o carnaval se tinha estendido no tempo. Depois vi várias com flores. ainda me ocorreu que fosse dia dos namorados mas depois lembrei-me que isso já tinha sido. Antecipação do 25 de abril não porque não eram cravos. O meu marido também não estava a perceber. Pensei que se calhar era dia da mãe. Depois, porque gosto de confirmar as minhas suposições, perguntei ao gemini. Dia da Mulher. Só me apeteceu pensar que se calhar mais valia passar a chamar-se dia do restaurante.

Fomos passear à beira mar. Como sou míope, vi ao longe uma criatura pequena e gorda a rodopiar com os braços ao alto e um objecto na mão. Comentei: 'Até já as miúdas pequenas se auto-filmam em poses parvas. Em vez de olhar para o mar, olha ali aquela miúda a filmar-se a ela própria como se o mar fosse um mero pano de fundo. Caraças'. O meu marido respondeu: 'Qual miúda?'. Com o queixo apontei. Ele, sempre parco de palavras, apenas perguntou: 'Achas que é uma miúda?'. Pus-me a fotografá-la naquelas poses inestéticas, irracionais e despropositadas. Quando cheguei perto, vi que, afinal, criança era coisa que ela já não era,  era uma mulher baixa e gorda de calças muito justas, o volumoso rabo e as pequenas e gordas pernas a quererem estraçalhar aquelas calças todas. Num banco perto, uma criança à espera que a mãe se cansasse de fazer aquelas tristes figuras. Depois lá foram, à nossa frente. Fotografei-as: a criança mais alta que a mãe e, aparentemente, mais sensata, vestida mais normalmente. Só não ponho aqui as fotografias que tirei não vá a senhora descobrir e ficar furibunda. Afinal estou a descrevê-la como estou enquanto ela se vê, tenho a certeza, como uma nova Raquel Welch. E se já não há por aí a ler-me uma alma que saiba de quem estou a falar, então muito me contam. Serei a mais idosa ou a menos desmemoriada de entre todos os que por aqui passam? -- E ok, ok, façam o favor de fazer a caridade de não me responderem.

O que sei é que, à medida que ia andando, ia pensando: é este o mundo que temos pela frente. Não a perguntar mas a afirmar.

Mas, para não dar a viagem por perdida, ainda lá fiz dois pequenos vídeos que publiquei no Instagram. E, entretanto, ao telefone, a minha filha já manifestou, mais uma vez, a sua estranheza e incompreensão: não sabe o que é aquilo, o mar faz muito barulho, a minha voz mal se ouve, não falo de nada que interesse, e teme que ande, eu também, a fazer figurinhas tristes. Sosseguei-a: estava num sítio em que não havia mais ninguém. E são uns segundos, aponto o telemóvel, digo o que me ocorre dizer naquele instante e já está. Deveria editar ou ter o discernimento de me deixar estar quieta, bem sei. Mas se acho piada a fazer aquilo, porque não hei-de fazer, ora essa? E depois há coisas bizarras. Na quinta-feira à tarde fui passear à beira rio e vi um barquinho quase todo afogado. O barquinho chamava-se Faisão. Apontei o telemóvel e disse: 'Olha... o faisão foi ao banho...'. Pois bem, acreditam que ontem vi que aquilo já tinha sido visto mais de 3.800 vezes? Achei fantástico. E incompreensível. Claro que 3.847 é coisa nenhuma, zero vezes zero quando comparado com os milhões que as influencers de sucesso alcançam. Mas eu sou uma simples anónima, de voz sumida, que não diz coisa que se aproveite. Porque é que as pessoas veem? Será que acham que é uma coisa tão descabida que veem para tentar perceber se há ali alguma mensagem subliminar? Se é, lamento desapontar mas é mesmo só falta de jeito e, se calhar, também de tino.

E, para que vejam bem o grau de desorientação em que esta minha cabeça anda -- na volta porque o pescoço que a sustém está repuxado e a garganta dorida -- tenho que confessar que, quando abri o computador, vinha com a ideia de aqui desabafar um bocado a propósito do animal, do estupor, do infame e cruel cavalgadura que anda a desaustinar o mundo inteiro. Mas distraí-me e, depois, não me apeteceu arrepiar caminho.

Portanto, não levem a mal que eu não tenha feito mais nada senão por aqui ter andado na converseta, sem acrescentar nada que valha a pena... Mas, para que não fiquem a pensar que já estou mesmo maluca de todo e que, com a divagação pegada para a qual derrapei, me esqueci da abestalhada figura, aqui vai o cartoon que a Ella Baron fez para o Guardian

Finalmente, aqui chegada, e vou já dar a faena por encerrada, não faço ideia do nome que hei-de colocar lá em cima, como título deste post. Só me faltava mais esta, já meio a dormir e sem encontrar um denominador comum no que escrevi...

A guerra de Trump e Netanyahu no Irão: As novas roupas do Imperador 


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Desejo-vos uma boa semana

domingo, março 08, 2026

E, agora, uma boa notícia...

 

O dia teve uma componente muito boa, com a família reunida. Os meninos estão naquela fase meio volátil da adolescência e pré adolescência em que, tirando o mais novo, já todos entraram na altura da vida em que já estão a deixar para trás a pele da infância mas em que ainda não ganharam a segurança e independência da vida adulta, e em que todo aquele bulício e confusão de antes está a dar lugar a grupos de interesses distintos ou a que uns se isolem para falar com os seus amigos. Já lá estivemos, sabemos como é. O tempo vai passando e a vida tem que saber ir apanhando o comboio das idades que vão mudando.

Mas o dia, já à noite, teve uma componente desagradável, factores externos que, independentemente da nossa vontade, vieram-nos bater-nos à porta. Já tentámos enxutá-los e só espero que fiquem definitivamente bem longe de nós. A vida também tem destas coisas, sobressaltos, inconveniências. E nós, que tanto gostamos de paz e descanso, que não causamos problemas a ninguém, temos que estar preparados para saber reagir a contratempos que, sem se saber bem como, parece que querem bater-nos à porta. Mas, enfim, a vida nem sempre se apresenta com a suavidade angélica do céu na terra - isto admitindo que o céu é o lugar de paz que se imagina e não o espaço que, por vezes, é atravessado por bombas, mísseis e drones.

Portanto, adiante.

Entretanto, na tentativa de reencontrar a paz de espírito, vim espreitar o youtube. Notícias, não. Não quero ver mais ataques, ouvir sirenes, ver nuvens de fumo, prédios destruídos, gente sem casa ou em fuga. Tudo terrível de mais. Não é bom alhearmo-nos pois o sofrimento ou as injustiças alheias devem merecer-nos atenção, respeito e preocupação. Mas é tanta coisa má, tanta, por todo o lado, a toda a hora, que chego a um ponto e penso: chega, já não consigo mais. 

E, como se soubesse que eu estava a precisar de coisas fofas, eis que o algoritmo me presenteia com o vídeo que aqui partilho.

A história é simples. Um dia, num hospital, a anestesista foi ao encontro da criança que ia ser operada ao coração. Para sua surpresa, a criança, pequena, estava sozinha. Era um menino que estava institucionalizado e, por qualquer motivo, nenhum adulto o tinha acompanhado. Enquanto olhava o menino que estava a ser operado, foi-se formando uma ideia na cabeça da médica. Mal acabou, ligou ao marido. Apesar de já terem 6 filhos, resolveram adoptar o menino. Só que o menino tinha irmãos, cinco... Então convenceu familiares e amigos e vizinhos e cada um adoptou um dos irmãos. Agora todos convivem e, na verdade, é tudo de uma ternura tocante. A bondade por vezes encontra o seu espaço, abre caminhos, transforma vidas.

Médico adota menino que chegou sozinho à clínica e depois arranja lares para os 5 irmãos

Quando um rapazinho apareceu sozinho para um procedimento importante no Nebraska, uma anestesiologista interveio. Como relata Steve Hartman, ela não se ficou por aqui


Desejo-vos um feliz dia de domingo

sábado, março 07, 2026

Leibovitz. Annie Leibovitz

 

Sempre gostei imenso de fotografar e, nos meus anos áureos, com as minhas boas machines, era sempre a aviar. Não conseguia parar. Milhares, resmas, paletes de fotografias. 

Disseram-me uma vez, ao verem as minhas fotografias, que eu tinha um 'eye for detail', e eu gostei de ouvir isso. Descobrir o pormenor que faz a diferença, é isso que sempre procurei. Fotografar, para mim, não é só ver uma coisa bonita, apontar a lente e lá vai disto. Isso é o banal, não acrescenta, não vale a pena. Para mim, fotografar é captar o apontamento, o momento, a luz fugaz, a expressão ou o movimento, a sobreposição de imagens, o reflexo, o irrepetível.

E gostava sobretudo de fotografar pessoas quando elas não estavam a fazer pose ou, de preferência, quando nem reparavam que eu estava a fazer das minhas. Posições descontraídas, instantes de partilha, um olhar perdido, um grupo a conversar. Isso, sim.

Quando vejo aqueles grupos de pessoas em que todas riem, algumas abrem desmesuradamente a boca ou mostram a língua, e ninguém parece estar como é na realidade, penso que é o tipo de fotografia que a mim jamais me interessaria. Mas agora parece que é só disso que se consome. Quando passeio na praia, toda a gente se fotografa e toda a gente faz o mesmo tipo de poses. Presumo que todas essas se exibam da mesma maneira nas redes sociais. Como o algoritmo já percebeu que me interessa sobretudo política, sobretudo política internacional, ou arte em geral, ou dança, ou fotografia ou arquitectura, ou temas japoneses, decoração japonesa, por vezes culinária, outras vezes decoração, frequentemente jardinagem, adoro tudo o que tenha a ver com jardinagem, é disso que me dá a manjar. Não me aparecem majorettes, podcasters da treta, influencers de meia tigela, coisas assim. Por isso, quando vejo aquelas vedetas na praia a levantarem a perna, a alçarem o braço, a porem a cabeça para trás ou a fazerem biquinho de beijoca ou a abrirem a goela, penso que é para se mostrarem no Insta ou no Tik Tok... mas não tenho provas do que digo.

Nos antípodas de tudo isso estão os grandes fotógrafos. Uma das grandes fotógrafas de pessoas, especializada em gente conhecida, é Annie Leibovitz. Desde há muito sou sua admiradora. Tenho livros dela que guardo como peças de estimação. Ver a vida através de uma lente. Conheço essa sensação, embora, agora que uso telemóvel e não máquina a sério, isso seja uma recordação remota. O telemóvel não permite a intimidade de espreitar pela lente e dar-lhe zoom, aproximarmo-nos à socapa, chegar até muito perto, quase à intrusão na alma de quem estamos a querer desvendar.





Annie Leibovitz tem conseguido grandes retratos, daqueles que ficam para a posteridade. Ela consegue teatralizar o ambiente para que a alma da pessoa surja em todo o seu esplendor, ou em toda a sua candura, ou bravura, encarnando a persona que parece viver dentro dela. Annie Leibovitz é a anti-banalidade por excelência.

Este vídeo fala um pouco disso. 

Annie Leibovitz partilha momentos dos bastidores das suas sessões fotográficas com algumas das mulheres mais influentes do mundo

Ao longo da sua carreira, Annie Leibovitz fotografou mulheres influentes, incluindo a juíza do Supremo Tribunal Ketanji Brown Jackson, a Rainha Isabel e a ex-presidente da Câmara dos Representantes Nancy Pelosi. Ela falou com Anthony Mason sobre os momentos por detrás das fotos e os seus planos para o futuro. 


Desejo-vos um sábado feliz

sexta-feira, março 06, 2026

Ah... aqueles que sabem sempre tudo...

 

No outro dia, um comentário -- que muito agradeço -- dizia: "E a proposito de desgraças e malvadez ou percepção delas, em linha com o comentário que deixei há uns minutos.." e deixava o link para o vídeo que aqui partilho.

Ao ouvir, lembrei-me também, de 'O escândalo do século'. Para quem não leu, o conto, que não é bem um conto pois assenta numa situação real que Gabriel García Márquez relatou, do princípio ao fim, quando ainda era “apenas” jornalista — mas já com o olhar agudo que viria a marcar toda a sua obra.

Tudo começa com a morte de uma jovem encontrada numa praia. Quase de imediato, a comunidade, a imprensa e a opinião pública começam a tecer teorias: suspeita-se do namorado, inventam-se motivos, surgem ligações a interesses obscuros, fala-se de política, de drogas, de conspirações. Em poucos dias, o caso deixa de ser uma tragédia pessoal para se tornar um escândalo nacional — com versões cada vez mais elaboradas, cada vez mais seguras de si mesmas, mas cada vez mais afastadas dos factos.

A investigação prolonga-se, desmontando lentamente as certezas precipitadas. O que se descobre, no fim, é muito mais simples — e muito menos sensacional — do que aquilo que todos tinham decidido acreditar. A morte não correspondia a nenhuma das histórias que tinham sido repetidas com tanta convicção.

O relato mostra como, antes mesmo de qualquer tribunal, já todos tinham julgado, condenado e explicado o caso. E expõe a facilidade com que a reputação de uma pessoa — viva ou morta — pode ser destruída pela soma de boatos, preconceitos e pela necessidade colectiva de encontrar culpados.

Mais do que um mistério, é uma reflexão sobre a sede de punição e sobre a ilusão de certeza que tantas vezes domina a opinião pública — como se a verdade pudesse ser substituída por versões repetidas com suficiente convicção.

O protagonista do vídeo que partilho é sobejamente conhecido e a história é recente. De qualquer forma relembro-a. 

Em 2017, o ator Kevin Spacey passou de um dos nomes mais respeitados de Hollywood a uma figura praticamente banida da indústria. Surgiram várias acusações de assédio e agressão sexual feitas por diferentes homens, muitas delas relativas a factos que alegadamente teriam ocorrido décadas antes, num contexto marcado pela vaga de denúncias associada ao movimento #MeToo.

Um dos casos mais mediáticos foi o do ator Anthony Rapp, que afirmou que Spacey o teria abordado de forma sexual em 1986, quando ele tinha 14 anos. O caso deu origem a um processo civil nos Estados Unidos. No Reino Unido, também surgiram várias acusações relacionadas com alegados incidentes entre 2001 e 2013, período em que Spacey dirigia o teatro Old Vic, em Londres.

Antes mesmo de qualquer decisão judicial, a reação pública e mediática foi imediata e avassaladora. Kevin Spacey foi afastado da série “House of Cards”, cortado de projetos em curso e substituído no filme “All the Money in the World”. Na prática, foi julgado e condenado na praça pública muito antes de qualquer tribunal se pronunciar. Durante anos, para grande parte da opinião pública, a culpa parecia já estar decidida.

Contudo, quando os casos chegaram efetivamente aos tribunais, os resultados foram diferentes. Em 2022, um júri em Nova Iorque decidiu que Kevin Spacey não era responsável pelas alegações apresentadas por Anthony Rapp. Em 2023, num tribunal de Londres, foi considerado inocente das nove acusações de agressão sexual que enfrentava.

Independentemente das opiniões pessoais sobre o actor, o caso suscitou uma questão importante sobre o poder da comunicação social e da opinião pública: até que ponto alguém pode ser social e profissionalmente condenado antes de existir um julgamento e uma decisão da justiça?

A presunção de inocência — o princípio de que, em caso de dúvida, não se deve condenar um inocente — é um dos pilares do Estado de direito. O caso de Kevin Spacey recorda como esse princípio pode tornar-se frágil quando o julgamento passa primeiro pela praça pública.

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O vídeo tem uma leitura interessante e um twist inesperado no final. Por isso, sugiro que o vejam na íntegra. 

De novo, relembro que, na rodinha dentada do vídeo, em baixo, podem escolher que tenha legendas e, depois, no auto-translate, seleccionar a língua portuguesa

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Vencedor por duas vezes de um Oscar, Kevin Spacey discursa na Oxford Union

Segundo se lê na apresentação da Oxford Union, trata-se da sociedade de debates mais prestigiada do mundo, com uma reputação inigualável por trazer convidados e oradores internacionais a Oxford. Desde 1823 que a Union promove o debate e a discussão não só na Universidade de Oxford, mas em todo o mundo.


Desejo-vos uma happy friday
[Quando trabalhava, o meu colega britânico, chegava ao fim da semana e, todo feliz da vida, ia espreitar ao meu gabinete para se despedir: TGIF! (thank god it´s friday)]

quinta-feira, março 05, 2026

Há quem os tenha no sítio
-- Quem o dia é o meu marido --

 

De quando em vez um ou outro comentador de direita da nossa televisão diz mal do Pedro Sánchez. Não conheço o suficiente da politica espanhola para me pronunciar mas há pelo menos duas coisas que sei. A economia espanhola é das que mais cresce na UE e o PM espanhol, ao contrário do que acontece com o governo português, não faz fretes ao Trump e não verga a espinha à administração americana. Eu sei que é difícil a Europa falar a uma só voz e que há líderes europeus que não aprendem, mas as declarações que têm sido feitas por estes lados são verdadeiramente irritantes e diminuem o papel que UE devia ter na cena internacional. 

Não aprenderam que a única vez que a Europa mostrou alguma união e fez frente ao Trump, refiro-me á Gronelândia,  o tipo TACO (Trump always chickens out). Não percebem ou não querem perceber que estes actos da administração americana, que toma medidas despóticas, irracionais, que não respeitam o direito internacional e fortalecem objetivamente as posições dos russos e dos chineses têm que ser criticados e a que UE não pode ser complacente com eles. O que vale é a lei do mais forte e, se a UE fosse firme, poderia fazer das fraquezas forças e começar a contar na política mundial.

Na realidade, a Europa dividida e minada por duas ou três toupeiras, não é suficientemente forte e muitos dos países da UE não contam para este campeonato. O Macron, de vez em quando, tenta pôr-se em bicos dos pés e o Merz dá mais no cravo que na ferradura. Por exemplo, na terça-feira, na Casa Branca, quase fez figura de urso.

No caso português, ninguém os tem no sítio. A entrevista do Paulo Rangel na CNN para justificar o injustificável relativamente às Lajes foi ridícula. Nem coragem têm para assumir o que aconteceu. Estou convencido que, se o Pedro Sanchez fizesse alguma escola, a Europa era mais respeitada e o eixo transatlântico não ia ao fundo, antes pelo contrário. Felizmente, esta quarta-feira, o Costa mostrou solidariedade com Espanha o que é relevante.

Tenhamos esperança, mas não estou suficientemente confiante que as midterms tragam grandes mudanças nos Estados Unidos. O Trump é tão nocivo como o Putin e a sua eleição foi uma verdadeira catástrofe planetária.

O Trump é um grande problema, mas, o problema enorme são aqueles que o rodeiam e que tudo manobram para conseguirem os votos dos grunhos e demais acéfalos. Será que vão conseguir continuar a manobrar a esta gente em Novembro? 

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Uma nota final: A conferência de imprensa do Peter Hegseth e a forma como falou do afundamento do navio iraniano revelam bem a boçalidade da administração americana. Ao elogiar empolgadamente a forma como, com um torpedo, o navio foi afundado, esquecendo-se que a bordo estavam quase duzentas pessoas, revela a crueldade e a falta de respeito pela vida humana da administração Trump.

quarta-feira, março 04, 2026

O novo eixo do mal é um belicista aventureiro? Ou não passa de um grande e gordo motor de impulso laranja?

 

 Tinha identificado uns quantos candidatos a serem sucessores de Ali Khamenei mas o ataque foi tão bem sucedido que morreram todos. 

Isto foi dito por Trump. 

Não é de loucos? Eu ouço isto e não consigo conter uma gargalhada. Não parece uma anedota? Mata um para pôr uns que ele lá sabe e, afinal, mata-os a todos? Se não fosse trágico, não era de ir às lágrimas?

É como aquela outra maluquice. Perante as crescentes vozes de que não havia quaisquer evidências de que nos próximos anos o Irão representasse qualquer risco, o fofo Marco Rubio, sempre com aquela sua boquinha de folhos e ar meio perdido, veio dizer que a coisa tinha sido assim: os americanos tinham sabido que Israel -- que se está nas tintas para as negociações que os dois artolas, o genro e o outro totó também do imobiliário, andavam a ter com o Irão -- tinha descoberto uma cena que era uma janela de oportunidade e que iam avançar à bomba sobre o dito Irão. E que pensaram que, se isso ia acontecer, os iranianos, furiosos, iriam retaliar e ainda iam fazer mal aos americanos. Portanto, antes que isso acontecesse, apanharam a boleia de Israel e lá foram dar cabo deles.

Perante a candura desta confissão, a casa veio abaixo: uns a rebolar a rir, outros de boca aberta. Então foi essa a grande razão para avançarem para uma guerra destas que está a desestabilizar o mundo? Então é mesmo verdade que o Bibi é que manda nos Estados Unidos?

Face a esta revelação que pôs o mundo a dar cambalhotas para trás e para a frente, meio mundo perplexo e desconcertado e o outro meio sem sabe se rir ou chorar, Trump, para remediar a barracada, veio contradizer o Marquito: não, não nada disso, não foi bem assim, ele é que forçou a mão de Israel. Só que ninguém acredita numa palavra que ele diz.

Enquanto estou a escrever, estou a ver televisão. E de novo aqui está ele. Confirma que mataram todos os que pensaram que poderiam suceder a Khamenei mas que vão lançar uma onda de ataques ainda mais ofensiva e que, provavelmente, vão matar outros que talvez também pudessem servir. E como, se calhar, a seguir haverá outra onda de ataques ainda mais destrutiva, se calhar depois já lá não conhecem ninguém. 

Ouço isto e penso: mas isto não será para os Apanhados? Isto não será uma comédia? É que é tudo uma maluquice tão grande que é impossível encontrar aqui algum racional.

Também o ouvi a dizer que vai proibir todo o comércio contra Espanha e que, se quiser, usa as bases que (o corajoso e, aparentemente, dos poucos adultos na sala) Pedro Sánchez diz que ele não pode usar. Que não precisa mas, se precisar, os aviões vão para lá e sempre quer ver quem é que o vai proibir. 

Ouço isto e penso que é preciso respirar fundo. Um palhaço destes armado em ditador, em imperador de meia tigela... 


Mais um dilema para Trump
(da autoria de Ben Jennings para o The Guardian)


E não sei se este voluntarismo é bazófia, se é loucura, se é um destemperamento provocador e inconsequente, se é ganância, ou se é demência pura e dura. Sobretudo penso que um estupor destes está é a precisar de uma lição.

E, o que mais me tira do sério, é que, ao lado dele está Merz... a apoiá-lo... Porquê? Como se ouve uma coisa destas e se fica a apoiar? Como!? Não deveria interrompê-lo, não deveria dizer que cada país é soberano e que ninguém se pode sobrepor a isso e, mostrando que não está para alimentar a sede imperialista do bufão laranja, não deveria levantar-se e sair da sala?

Enfim... Um mundo pantanoso em que uns quantos espantalhos se levantam para roubar, vilipendiar e matar os indefesos que esbracejam, tentando salvar-se.

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No vídeo abaixo fala-se numa coisa que me parece muito verdade: se pensarmos em líderes que desencadeiam guerras ilegais, cruéis criminosos de guerra que causam muitas mortes absurdas, então, ao lado de Putin, haverá que colocar Donald Trump e Benjamin Netanyahu.

Claro que, ao falar-se em líderes, David Rothkopf torce-se todo e questiona-se sobre se Trump é mesmo um líder ou, até mais do que um belicista aventureiro, não é senão um grande e gordo motor de impulso laranja. 

E, com isto, já estão a perceber que, uma vez mais, escolho quem quero ouvir sobre o que se passa. Fonte sempre muito bem informada, David Rothkopf, aqui no vídeo ainda não tinha ouvido a confissão de Rubio e as parvoíces de Trump que se lhes seguiram já que a conversa com Joanna Coles foi gravada na 2ª feira de manhã. Mas é sempre uma voz que se ouve de gosto (relembro que nas definições do vídeo podem seleccionar legendar e, aí, seleccionar a auto-tradução para português)

Como a guerra de Trump desencadeou um novo eixo do mal | Podcast do The Daily Beast

David Rothkopf junta-se a Joanna Coles para defender que a guerra de Donald Trump contra o Irão revela um presidente que acredita governar como um rei, e não como um comandante-chefe constitucional. Rothkopf, colunista imperdível do The Daily Beast e fundador da DSR Network, apresenta os argumentos de que se trata de uma guerra ilegal, iniciada sem a aprovação do Congresso, com apenas 21% de apoio público, sem um processo coerente do Conselho de Segurança Nacional e com baixas iniciais que já agravam o caos. Relaciona o ataque impulsivo de Trump aos incentivos políticos de Benjamin Netanyahu, ao risco de escalada regional, aos choques petrolíferos em vésperas de eleições intercalares e à perigosa fantasia de que a mudança de regime resultará de alguma forma em democracia em Teerão.


Desejo-vos um diz tão feliz quanto possível 

terça-feira, março 03, 2026

Shibui

 

Há muitos anos comprei um blusão de pele. É forrado a cetim e tem um feitio intemporal. Sempre gostei imenso de o vestir, sinto-me bem, não é quente nem frio, não é justo nem é largo. Nem é desportivo nem clássico. Portanto, sempre o vesti em qualquer situação.

No entanto, não sei se foi o maluco do cão que, quando era mais pequeno, num daqueles saltos festivos, ferrou o dentinho ou se foi qualquer outro acidente: rasgou-se atrás, um pouco acima do cós. Fiquei passada. Não passada no sentido de zangada, já que acidentes acontecem, mas triste. Pus cola, tentando disfarçar, colando a pele ao forro. Não ficou grande coisa. E acabou por se deslocar e rasgar um bocado mais. Quando o visto, o meu marido diz que já não está capaz. É que, para além do rasgão, o cabedal também já está, em várias zonas, um pouco coçado. Tenho ideia que já a minha mãe também me dizia que o blusão já tinha visto melhores dias e que, se calhar, estava na altura de me desfazer dele.

Contudo, parece que gosto ainda mais dele. Parece que está cada vez mais afeiçoado a mim e eu a ele. E vejo beleza no passar do tempo sobre aquela pele.

Ocorre-me ainda uma outra coisa: há um lugar, in heaven, em que o terreno desce e se encosta à propriedade vizinha, vendo-se para lá e de lá para o nosso lado. Há uns anos imaginei um grande muro que estabelecesse uma barreira visual. Alto e comprido, com várias faces, quase como um grande livro aberto, com folhas desdobradas. A minha ideia era fazer pinturas em cada folha do muro. Poderia ser uma história que se desenrolasse ao longo da superfície ou poderia ser um deslizar de cores em movimento, formas abstractas, subtis. Sonhei com o que lá iria desenhar e pintar. Antecipei o prazer que era, para mim, pintar à mão livre em grandes superfícies. 

Para começar, houve que aplicar primário e, a seguir, umas camadas de tinta branca para que, com a superfície devidamente selada, pudesse, então, partir para as minhas rêveries.

E o que aconteceu é que me apaixonei pelo muro branco. As sombras que lá se desenhavam, as árvores ao lado, os arbustos por detrás, tudo aquilo, na singeleza de um grande muro branco, me parecia muito belo. 

Andei naquela dúvida durante algum tempo: persistir na ideia que me tinha levado a construi-lo ou abdicar dela e aceitar a surpresa da inesperada beleza de uma superfície branca. Ficou assim. Agora a perder cor, com alguns musgos, com aquela patine que acrescenta beleza ao tempo.

E depois há aquelas outras imperfeições que me parecem embelezar e enriquecer os objectos. Vou dar um exemplo do qual já aqui falei algumas vezes. Uma vez fui sozinha, para poder andar com tempo e à vontade, à FIL Artesanato. Já foi na FIL no Parque das Nações mas deve ter sido pouco depois da Expo 98. Saí do trabalho e fui para lá. Tínhamos mudado de casa pouco antes, havia muito por decorar. A feira enorme, cores, criatividade, tudo muito apelativo. Vi coisas giríssimas e fui comprando. Claro que não trouxe tudo aquilo de que gostava mas, ainda assim, muita coisa. Pior: coisas muito pesadas. As coisas mais pesadas, eu pedia para ficarem no stand enquanto ia passarinhar por outros stands. Antes de me vir embora, fui fazer a recolha. Tenho ideia que já eram umas dez da noite, senão mais. Quando me vi com aquilo tudo, percebi o disparate. Pensei que não ia conseguir. Quilos e quilos e quilos. Muitas peças em terracota, espessa, pesada. E peças muito grandes. Não podia deixar cair, senão partiam-se. E quase não conseguia dar passo. Aliás, dava dois passos e parava e pousava tudo. Depois mal conseguia retomar. O carro tinha ficado numa rua perto mas, com uma carga daquelas, era como se estivesse a milhas. Só me ocorria ligar ao meu marido e pedir que me fosse buscar. Mas já era tarde e não ia ficar no meio da rua, rodeada de tralha, assim de noite, para além de que não ia dar-lhe essa colherzinha de chá... 

Mas, não sei como, lá consegui. Cheguei a casa esbaforida, derreada, arrasada, apesar de ter deixado grande parte das compras no carro, para o meu marido lá ir buscar. Escusado será dizer que ficou até assustado com o despropósito de tamanho carregamento. Aliás, já tinha apanhado um susto pois eu nunca mais aparecia e não atendia o telefone. Lá dentro, com o barulho, não ouvia tocar. E, na rua, ajoujada como ia, não tinha mãos para pegar no telemóvel e depois, não sei como, deixei-o cair para dentro de um saco que ficou no porta-bagagem e nessa altura ainda não havia bluetooth. Aquela noite foi um stress do qual jamais me esquecerei

Uma das peças que trouxe é uma senhora a fazer tricot. Andando eu, naquela altura, sempre a fazer tapetes de arraiolos, isto depois do período do crochet e do tricot, achei que aquela mulher era uma bela piada para mim própria. E nessa mesma noite coloquei-a na sala do piso superior. 

Na altura, a nossa cãzinha, a doce boxer cor de mel, estava na flor da sua idade. Dormia na sua caminha, na copa. Geralmente, quando acordava, subia a escada e vinha para o nosso quarto. Mas, na manhã seguinte, acordámos com ela a ladrar furiosamente, como quando alguém tocava à porta. Contudo, o ladrar vinha da sala. Não fazíamos ideia do que se passava, alguma coisa era. Fomos ver, intrigados. 

Estava, então, a ladrar, possuída, aos saltos, junto à senhora que, tranquilamente, fazia tricot. Fartámo-nos de rir. 

Por segurança, tivemos que pôr a nova habitante quase entalada entre um sofá e o móvel-estante, para a proteger, pois a raiva contra o abuso de invasão do seu espaço poderia levar a ex-pacífica cãzinha a atacar a pacífica senhora.

Sempre tive mil cuidados para que não se partisse. Quando mudámos de casa, quase a trouxe ao colo, entre espuma, com receio de algum acidente.

Pois bem... há algum tempo, ao passar por ela, o casaco de malha solto que trazia prendeu-se numa das agulhas de tricot e, pimbas, lá caiu a senhora. Desastre, desastre. Quebrou-se toda. Fiquei cilindrada. Mas por pouco tempo. Resolvi que ainda não tinha chegado a hora dela. Fui buscar cola e tentei recompô-la. Depois, ainda pensei tentar disfarçar as cicatrizes. Mas ficou assim. Acho-a ainda mais bonita, imperfeita, não escondendo as vicissitudes pelas quais passou. 

(ampliem a saia e os joelhos e verão as cicatrizes...)

Quem a veja, pensará que termos, num lugar de tanto destaque, uma peça que se vê que já se escaqueirou toda não tem grande jeito. Mas eu acho que tem.

E, com todas estas minhas particularidades, já concluí muitas vezes que, afinal, se calhar o que há em mim não será tanto uma valente pancada mas uma veia oriental. 

A minha casa não é nada como as casas que no vídeo abaixo se veem, pois resulta de uma vida inteira vivida segundo hábitos ocidentais. Não é uma casa minimalista nem monocromática. Mas, apesar de tudo, é uma casa que privilegia o espaço livre e a entrada da luz. Circula-se abertamente pela casa toda, sem obstáculos. 

E passo a vida a fotografar reflexos, projecções, sombras e luzes vogando sobre os objectos.

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Shibui é a estética japonesa que encontra beleza na simplicidade, na imperfeição e na passagem do tempo. Ao contrário do minimalismo extremo que se concentra no vazio, o Shibui cria riqueza através de materiais naturais, artesanato e uma elegância discreta que se torna ainda mais bela com o passar dos anos.

Principais Características do Shibui

  • Beleza Sutil e Natural: Valoriza materiais naturais (madeira, pedra, algodão) e formas imperfeitas, muitas vezes associado ao conceito de wabi-sabi.
  • Contenção e Moderação: O design é simples, funcional e sem adornos desnecessários.
  • Profundidade: A beleza não é óbvia; é algo que cresce com o tempo e o uso.
  • Cores Neutras: Preferência por tons suaves, apagados ou monocromáticos, como cinza, castanho e branco suave.
  • Elegância Discreta: É o oposto de chamativo; uma sofisticação tranquila. 

O Shibui aplica-se a artes, design de interiores, arquitetura e à vida quotidiana, focando-se no que permanece bonito ao longo do tempo.

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3 regras japonesas para um lar pacífico

Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, março 02, 2026

Um sistema intrinsecamente corrupto

 

Quando os aviões cruzam os céus para despejar bombas, quando os mísseis atravessam países, quando pessoas começam a reduzir-se à condição de corpos -- e quando as televisões nos encharcam as mentes com imagens e com explicações e mil comentários -- chego a esta hora e mais depressa me apetece falar dos meus meninos, todos os dias mais crescidos, do que de toda a instabilidade que grassa pelo mundo.

Tempos houve, e não foram longínquos, em que os países faziam as pazes, em que os muros caíam, em que as guerras, fossem guerras de bombas e botas no terreno ou guerras frias, pareciam coisa do passado. Infelizmente voltámos a esses tempos sombrios. E é um pavor.

Como chegámos até aqui?

Talvez a explicação esteja na ausência de saúde moral de parte dos regimes que, em vez de cultivarem a paz, parece que, no seu âmago, se atolam na lama.

Diz David Rothkopf que a assinatura de Trump e, na realidade, a assinatura destes tempos é a 'história' que se conta através dos ficheiros Epstein. 

E, embora já aqui tenha falado dele algumas vezes pois gosto imenso de ouvi-lo, recordo que David Rothkopf é uma pessoa particularmente bem informada, daquelas pessoas de quem se pode dizer que bebe do fino. O seu currículo é impressionante e a quantidade de pessoas que conhece e conheceu de perto, a rede de informações que facilmente cruza, e a forma simples, quase humilde, mas sempre perspicaz e sólida, tornam-no, a meus olhos, uma pessoa cujas opiniões interessam.

Aqui, no vídeo que abaixo partilho, está de novo à conversa com Joanna Coles que garante sempre conversas interessantes, leves qb e com um toque de boa disposição. A conversa decorreu no momento em que Clinton, com quem David Rothkopf trabalhou, estava a depor no Congresso. Por isso, a novidade do ataque ao Irão ainda não tinha ocorrido.

A conversa é longa mas tem interesse do princípio ao fim. 

Para quem duvida das ligações de Epstein à Rússia ou à Mossad, para quem duvida da longa mão de Putin na governação Trump, para quem ainda pensa que tudo gira à volta de sexo com menores de idade, para quem ainda não percebeu o esquema da troca de favores e da pirâmide da influência, para quem ainda não percebeu como o esquema de financiamento privado que existe nos Estados Unidos com políticos e universidades a terem que arranjar financiamento para as suas actividades leva, quase inevitavelmente, à venalidade -- aqui fala-se de tudo isso.

Porque é que Epstein é o crime que define Trump: Rothkopf | Podcast do The Daily Beast

David Rothkopf junta-se a Joanna Coles para defender que o escândalo Epstein é a crise que define Donald Trump, ligando o poder global, a desigualdade de rendimentos, a corrupção e a impunidade. Rothkopf, colunista imperdível do The Daily Beast e fundador da DSR Network, explica como Epstein envolveu uma rede de elites como Bill Clinton, Príncipe André, Peter Mandelson e magnatas de Wall Street, ao mesmo tempo que levanta questões mais profundas sobre obstrução à justiça, desaparecimento de provas e envolvimentos dos serviços de informação. Discutem também como figuras-chave encobriram ativamente irregularidades para se protegerem a si e aos seus aliados, mostrando um mundo onde o privilégio protege o crime e a verdade completa pode nunca vir ao de cima.

00:00 - Porque é que os arquivos de Epstein podem remodelar a política americana
05h05 - Clinton, Trump e a política de desvio de atenções
10h00 - Mortes, silêncio e o medo em torno do círculo íntimo de Epstein
15h00 - A Rússia, as agências de informação e a armadilha de Epstein
20h05 - Kompromat, o poder e como as elites são comprometidas
25h00 - O príncipe André, as elites globais e a troca de acesso por influência
30h00 - O "escândalo característico" de Trump e a cultura da impunidade
35:05 - Comunicação social, desinformação e obstrução à justiça
40h00 - O que revela o caso Epstein sobre a corrupção nos Estados Unidos
45:05 - Porque é que este escândalo ainda importa e o que vem a seguir

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Desejo-vos uma boa semana 

domingo, março 01, 2026

Trump, as guerras, as palhaçadas, os sistemáticos atentados à democracia, à lei e à ordem -- e a cobardia hipócrita dos líderes europeus

 

Não consigo dizer que os americanos são estúpidos tal como não digo que os russos são criminosos. Uma coisa é a população e outra é o regime instalado no respectivo país. Não fomos fascistas só porque tivemos, durante décadas, um fascista a governar-nos. 

Por isso, ao pensar no que os Estados Unidos têm feito no último ano, tenho que fazer a ginástica mental de me focar nos responsáveis pelas anormalidades a que temos assistido: Trump e os seus acéfalos carneiros, tão ignorantes quanto seguidistas.

Mais uma vez, não sei se mais esta ofensiva contra um outro estado soberano é fruto de um plano assente em ideologia ou que vise uma estratégia, ou se é, apenas, fruto de um desvario narcisista, alguém que começa guerras para depois apregoar vitórias (mesmo que ilusórias) ou se é uma demanda tresloucada para afastar a atenção do seu eventual envolvimento no ambiente Epstein ou se, por qualquer motivo que um dia se perceberá, está nas mãos do criminoso Bibi e, por isso, faz o que este lhe manda. 

Claro que o regime iraniano não é defensável sob qualquer ponto de vista. Mas o Irão é um estado soberano e, a haver ajuda ao povo, não poderá ser desta forma. O direito internacional é para ser levado a sério. 

Se, lá porque se acha que quem governa um determinado país é um déspota, for aceite que um outro país o invada e atire bombas e mísseis e drones para cima da população então o que não falta são países candidatos a serem arrasados, a começar pelos países governados pelos ídolos de Trump ou, até, os próprios EUA.

E o que me faz ainda mais confusão é como os merdas dos líderes europeus, em vez de condenarem veementemente esta acção bélica de Trump e de Netanyahu, aparecem quase de gatas, com uma conversinha de caca, em que se limitam a condenar a retaliação do Irão contra outros países. O que é que estavam à espera? Que o regime iraniano vergassm sem disparar um míssil? Supostamente, o Irão estaria a pretender atacar bases americanas e o que terá acontecido em zonas urbanas terá resultado de mísseis interceptados. Mas sabe-se lá, quando se começa uma guerra nunca se sabe o que acontece a seguir: há erros, há acidentes, há excessos. E, para mim, de forma inequívoca, em primeiro lugar haveria que condenar a ofensiva de Trump, que, ainda por cima, parece ser ilegal mesmo face à constituição americana. Ele, o bufão cor de laranja, dirá que é uma ofensiva tremenda, nunca antes vista, talvez até diga que é hot, se não mesmo big and beautiful. Mas, por sabermos todos o chanfrado cruel e demente que é Trump é que se justificaria condená-lo, condená-lo com veemência. A ele e ao outro criminoso, o manipulador Netanyahu.

Claro que sou pacifista, totalmente pacifista (excepto quando a paz é sinónimo de rendição e anulamento de identidade). Portanto, claro que gostaria muito que todos os países fossem democracias, que os povos vivessem em liberdade e pudessem gerir as suas vidas num ambiente tranquilo e feliz. E isso vale para os iranianos, os coreanos do norte, os russos, os venezuelanos que agora nem devem saber a quantas andam, até os americanos que agora vivem tão atormentados, e tantos mais.

Só espero que esta última loucura de Trump, o doido varrido que se acha merecedor do Nobel da Paz e a quem ninguém parece conseguir controlar, não alastre, não traga mais mortes e não se arraste no tempo.

Só espero também que os líderes europeus mostrem que se regem por princípios e por valores, que têm capacidade de liderança, que sabem fazer ouvir a sua voz -- ou seja que têm cabeça. E tomates.

E pardon my french. Mas é que fico passada com gente cobarde e hipócrita. Com burros, então, nem vos digo nem vos conto.

Conta lá

 

No outro dia, por mero acaso, dei com uma coisa nova. Estava ali no canal 19 ou 20, não sei, estava como canal convidado da NOS: Conta lá. Fiquei espantada, a ver de gosto.

Depois desapareceu de lá. Fiquei intrigada, pensei que tivesse sido um cometa que tivesse passado por ali e logo desaparecesse. 

Mas ontem resolvi não me dar por vencida. Fui à pesca, de canal em canal, já pensando que se tinha evaporado. Mas, surpresa, surpresa, acabei mesmo por descobri-lo. Estava, e se calhar é o lugar dele, no Canal 123. 

E é viciante. Ainda há bocado, o meu marido dizia que não havia nada que se pudesse ver. Já estava um bocado saturado de mais esta maluquice do Trump. Disse-lhe para espreitar o canal 123. Quis saber o que era e nem soube bem dizer-lhe o que era, falei-lhe em reportagens locais, apontamentos, coisas com muita piada. Um bocado céptico mas lá foi. E ficou também agarrado. A qualidade é boa mas, sobretudo, há muita proximidade.

Belíssimas reportagens, bons jornalistas. É o país que somos, visto de perto. Para quem ainda não conhece, aqui fica a minha viva recomendação. 

Conta lá.

sábado, fevereiro 28, 2026

Ucrânia

 

Criei o blog há um bom par de anos, sem plano nem propósito -- sobretudo, queria descobrir como se fazia. Mas, assim que o percebi, o lado estético e lúdico entusiasmou-me bastante e logo resolvi que o seu look haveria de ser mutante. Quase todos os meses lhe mudava a imagem de abertura e as cores. Privilegiava pinturas do meu agrado mas também fotografias alheias que considerava também arte, frequentemente com um certo toque provocatório. E divertia-me imenso a escolher cores, em volta ou por detrás, no tom da imagem ou, pelo contrário, altamente contrastantes. 

Mas, quando a Rússia criminosamente invadiu a Ucrânia e começou a matar e a destruir, imediatamente abdiquei desse meu prazer e resolvi arranjar uma imagem que simbolizasse a esperança e o futuro, assentes nas cores ucranianas. A coragem e a capacidade de resistência daquela gente, o heroísmo de todos, a começar por Zelensky, alguém por quem nutro enorme admiração, sempre me comoveu muito e, desde sempre, na humildade da minha irrelevância, coloquei-me do seu lado. E decidi que assim ficaria até que a Ucrânia pudesse voltar a viver em paz, em liberdade, em felicidade. 

Achei, e cada vez mais o acho, que estar ao lado de quem defende a sua terra, as suas fronteiras, a sua identidade, o seu querer, o seu futuro, era o mínimo. Sem adversativas, sempre me coloquei do lado da Ucrânia e do seu direito a defender-se e a fazer valer a sua vontade, e sempre me mostrei inequivocamente contra quem demonstra não respeitar o direito internacional, não respeita as fronteiras dos outros países, não respeita a vontade dos povos desses países, não mostra compaixão nem mostra arrependimento nem empatia nem coisa boa alguma.

Confesso que nunca pensei que tivesse que manter a criança com as cores da bandeira pintadas no rosto nem o fundo amarelo e azul por muito tempo. Uma guerra desta natureza, absurda como todas as guerras e tanto mais quanto assenta em vontades imperialistas que eu julgava mortas e enterradas, uma guerra tão aberrante, tão assassina, tão estúpida, julgava eu que não poderia durar muito. Imaginei que alguma solução os civilizados deste mundo haveriam de arranjar e que, se não isso, então, internamente, os próprios russos haveriam de impor a retirada das tropas russas do território ucraniano e imporiam a neutralização do regime putinista para que a própria Rússia pudesse aspirar a um futuro tranquilo, livre e democrático. 

Enganei-me. Já lá vão 4 anos. Putin continua a usar os seus como carne para canhão, e ouve-se falar em cerca de 600.000 mortos, impondo também pesadas perdas para a Ucrânia, fala-se em cerca de 300.000. Uma brutalidade. Vidas interrompidas para as quais não pode haver perdão. Um dia Putin será julgado como o grande criminoso que é.

Não sei qual será ou quando será o desfecho desta guerra mas sei que um dia acabará e acabará bem para a Ucrânia. Espero que seja em breve.

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NB: Fiz as imagens que ilustram este texto com recurso a Inteligência Artificial

sexta-feira, fevereiro 27, 2026

OMG, how stupid they are...

 

Não foi tanto o chorrilho de mentiras, os disparates sucessivos, a infantilidade da conversa, a descarada provocação aos adversários políticos - foi, sobretudo, a atitude dos correlegionários.

De 10 em 10 segundos levantavam-se para aplaudir, sorrindo em êxtase, abanando aquiescentemente a cabeça. Como marionetas enfeitiçadas, assim eles. Dissesse Trump as alarvidades que dissesse, aldrabices sem ponta por onde se lhes pegasse, proferisse as afirmações que proferisse algumas delas de arrepiar a consciência de quem respeite o civismo, o conhecimento, a verdade, e logo os deus patetas atrás, J. D. Vance e Mike Johnson, se levantavam, desfeitos em sorrisos e aplausos. Ao mesmo tempo a plateia fazia o mesmo. 

Ora não é possível que entre toda aquela gente não houvesse um ou outra com dois dedos de testa. Não se pede muito mais. Não se pede uma boa dose de escrúpulos, de conhecimento da história, nomeadamente da história económica do país, de bom senso, de respeito alheio. E, no entanto, ali estiveram, durante quase duas horas, a levantarem-se e a sentarem-se, a babarem-se perante um burro, um demente, um estúpido, um alarve.

Que raio de mundo é este? 

Não creio que este comportamento acéfalo seja específico dos americanos. Podemos vê-lo nos cultos e nos regimes ditatoriais. Mas, mesmo aí, não sei se o grande líder tem o despudor de dizer tanta mentira, de ser tão aberrantemente provocador, mal educado. Salazar, Mussolini, Hitler e toda essa estirpe de gente, e reportando-me apenas, aos idos, despertaram grandes manifestações de apreço e gáudio.

Ou seja, é a raça humana que é mesmo assim. Quase metade de nós é para esquecer: uns ignorantes, estúpidos, acéfalos, maldosos, vingativos, invejosos, cruéis. Somos nós, ou melhor: alguns de nós, que elegemos os piores, os mais perigosos, os fascistas, os nazis, que os mantemos no poder, que lhes damos a força de que necessitam para darem cabo de parte da população.

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Felizmente, Jimmy Kimmel ainda consegue dizer das suas. E que bem que as diz. Haja alegria.

Jimmy Kimmel reage ao discurso de Donald Trump - State of the Union Address 2026

Jimmy reage ao discurso sobre o Estado da União de Donald Trump. O discurso estendeu-se por muito tempo, a popularidade de Trump está no ponto mais baixo do seu segundo mandato, todo o tempo sentado e de pé deixou o vice-presidente JD Vance entusiasmado, a equipa masculina de hóquei dos EUA compareceu após visitar a Casa Branca, a equipa feminina de hóquei dos EUA recebeu uma oferta melhor de nada mais nada menos que Flavor Flav, as pessoas estavam a apostar no que Trump diria esta noite, e temos a réplica oficial dos democratas ao discurso de Trump, feita por nada mais nada menos que o governador da Califórnia, Gavin Newsom (Josh Meyers).

quinta-feira, fevereiro 26, 2026

Quem foram as vítimas de Epstein? As crianças e mulheres violadas e traficadas? Ou também os bilionários, intelectuais e outros que foram atraídos por ele?

 

Neste grande escândalo Epstein muitas coisas me intrigam. Já falei nisto várias vezes antes. Tudo para mim é um mistério. É tudo tão improvável, tão inacreditável... Mais: muitas coisas quase me parecem materialmente inconcretizáveis. Custa crer que um só homem conseguisse ter relações sexuais com tantas mulheres (mais de mil), que tivesse tempo para isso e para milhares e milhares de mails e para viagens e mais viagens, várias de longo curso, para tantas farras e orgias, para tantas sessões de brainstorming com físicos e com biólogos, para reuniões com universidades para seleccionar projectos a financiar, para idas a galerias de arte e para escolher objectos decorativos atípicos... e sei lá que mais. E, nas fotografias, sempre como se tivesse tempo, com calma, com espaço para desfrutar das companhias, das brincadeiras, das velhacarias.

E depois há o cerne: qual o eixo central de toda esta história? A pedofilia e a proxenetismo, envolvendo crianças? A obtenção de material comprometedor para sacar dinheiro aos prevaricadores? Ou o material comprometedor destinava-se a ser cedido ou vendido a agências de informação como a Mossad ou a CIA ou o MI6 ou as derivadas do ex-KGB? Ou, para além disto, ainda mais qualquer outra coisa?

A máquina Epstein movia-se pelo prazer? Pelo dinheiro? Pelo poder? Por outra coisa?

Tenho lido coisas sinistras que envolvem a gravidez de muitas miúdas, o sacrifício de bebés para diferentes fins, manipulação de DNA, e muitas outras loucuras, cada uma mais desvairada que as anteriores, que, como sempre, mantenho na minha cabeça em stand by até que apareçam referidas por congressistas ou por jornalistas de referência. 

Mas, isto para dizer que a leitura ad hoc, avulsa, analisada casuística e não sistemicamente, dificilmente conduzirá a conclusões sólidas.

Vi um vídeo em que um especialista em Data Analytics explicava como estava a desencantar fotografias e vídeos que se encontram encapsuladas em ficheiros pdf, como estão a tentar indexar e sistematizar a informação ou a tentar cruzar informação rasurada com a não rasurada para tentar detectar pontas soltas. Isto porque é tanto mail, tanto documento avulso, tanto power point, tanto documento encafuado dentro de outros documentos, e quase todos cheios de rasuras, que não é fácil identificar o fio da meada nem se é suposto que as coisas se organizem segundo uma lógica única (a da pedofilia, por exemplo), ou se faz sentido que, em simultâneo, multidimensionalmente, se organizem segundo lógicas diversas. E, note-se, aparentemente o que está publicado, e altamente rasurado, é uma pequena parte de todo o material que há. 

Eu, se tivesse meios e tempo, não apenas faria aquilo que o especialista em Data Analýtics fez, como, de seguida, aplicaria aos datos devidamente limpos e sistematizados, a teoria dos grafos. Tenho para mim que será com um modelo que assente na teoria dos grafos que se conseguirá mapear todas aquelas conexões, perceber caminhos equivalentes, pontos de relevância, nós górdios e qual o (ou os) caminho/s crítico/s que movia/m esta pessoa (ou este esquema)? 

Seria um bom tema para as universidades estudarem sob diversas perspectivas (a matemática com tratamento de dados e modelagem, a antropologia e a sociologia, a psicologia, as finanças -- porque afinal, que cash flow era aquele, de onde vinha e para onde ia o dinheiro? -- o direito e a investigação criminal, etc).

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Uma coisa que custa a encaixar em qualquer das partições que façamos para dar lógica a esta história: o que, por exemplo, levava Chomsky ou Stephen Hawking ou tantos outros a frequentar e fazer de tudo para agradar a Epstein? 

Entretanto, li um artigo interessante da autoria de Emma Brookes no The GuardianHow did Epstein ensnare so many rich men? By knowing they were entitled and insecure. Como conseguiu Epstein enganar tantos homens ricos? Sabendo que eram privilegiados e inseguros.

Penso que traz uma perspectiva nova e curiosa, porventura realista, pelo que me permito transcrevê-lo. 

Uma das coisas que tem intrigado frequentemente, à medida que os desenvolvimentos da história de Epstein continuam, é a forma como um jovem que abandonou a faculdade e achava cool cometer gralhas conseguiu persuadir os mais poderosos do mundo a entrar no seu covil. Qual era, precisamente, a natureza do seu "génio"? Era chantagem? Era o esquema de pirâmide social de usar um nome importante para atrair outro? Nada chegou perto de o explicar até que, com a mais recente leva de pormenores dos arquivos de Epstein, algo se tornou subitamente claro: não eram as raparigas e mulheres traficadas que Jeffrey Epstein aliciava. O verdadeiro talento do homem, se assim lhe podemos chamar, estava em aliciar o seu grupo de associados.

Isto não significa, naturalmente, que os homens e a ocasional mulher que se aliaram a um homem a quem nos devemos referir, com toda a seriedade, como "o pedófilo morto" não fossem culpados. No entanto, ao analisar a enorme quantidade de material relacionado com Epstein, desde a investigação profunda do New York Times sobre as suas finanças até ao vasto acervo de correspondência contido nos arquivos, emerge a imagem de um homem que causou danos aos seus pares de uma forma que normalmente se vê dirigida às vítimas. Embora múltiplos testemunhos de sobreviventes indiquem que Epstein considerava as raparigas e mulheres que traficava como de tão pouca importância que nem sequer tinha de se dar ao trabalho de as aliciar – segundo o relato de Virginia Giuffre, Epstein violou-a no primeiro encontro –, todos os seus recursos, através de diversas tácticas, foram direccionados para conquistar a lealdade de homens poderosos.

Analisemos Andrew Mountbatten-Windsor, que, após a sua detenção na semana passada, viu o seu público relaxar subitamente, deixando de se inibir em descrever o homem como ele realmente é. Talvez tenha visto o vídeo de 2022, agora amplamente divulgado, no qual o ex-oficial de segurança de Mountbatten-Windsor disse a um canal de notícias australiano que a alcunha que davam ao seu chefe real era "o filho da puta". Com um pouco mais de civilidade, o deputado trabalhista Chris Bryant chamou na terça-feira a Mountbatten-Windsor "rude, arrogante e prepotente", observações que podem ser úteis para explicar como Epstein conseguiu tamanha lealdade do oitavo na linha de sucessão ao trono. Em Mountbatten-Windsor, vemos um homem vaidoso, fraco e prepotente, a viver na sombra do irmão, e que Epstein pode ter atraído para uma amizade através de uma combinação de lisonja e demonstração de poder.

Crucial para esta abordagem é o facto de, a julgar pelos e-mails de Epstein, ele nunca ter sido subserviente, pelo menos não com Mountbatten-Windsor. O seu tom em relação ao ex-príncipe e à sua ex-mulher, Sarah Ferguson, muitas vezes roça a grosseria, dando-lhes ordens e impondo-lhes comandos numa espécie de paródia de um empresário ambicioso e dinâmico que está ali para oferecer ao casal uma hipótese de algo que nunca tiveram em toda a vida: relevância real e central. "Sarah, podes [sic] pedir a uma das tuas filhas para mostrar [censurado] Buckingham, por favor?", escreveu Epstein num e-mail de 2010 — dois anos após a sua primeira pena de prisão — no qual parece estar a pedir à antiga duquesa de York que mostre o Palácio de Buckingham a alguém. (A “Sarah” do e-mail respondeu no mesmo dia: “Claro”.)

Os professores do MIT provavelmente preocupam-se menos com a relevância do que dois ex-membros da realeza decadentes, mas podem, por outro lado, sentir inseguranças persistentes sobre o seu estatuto em relação às mulheres. Veja-se o caso de Marvin Minsky, o falecido professor do MIT que, segundo o livro de memórias de Giuffre, foi levado para a ilha de Epstein para ser vítima de tráfico sexual. Neste caso, o poder que Epstein exercia sobre homens como Minsky pode estar menos relacionado com o sexo do que com a auto-imagem. No livro de Giuffre, esta alega que, depois de um dia a andar de mota de água e a fazer atividades turísticas comuns, Minsky teve a ousadia de lhe pedir aquilo que Epstein anunciara como “uma das suas famosas massagens”. É uma passagem terrível, sobretudo porque, a acreditar no relato de Giuffre, Minsky está claramente muito constrangido com o que está a fazer. Dizem que Epstein ofereceu a este homem a oportunidade de viver uma versão fantasiosa de si mesmo que – pesquisem sobre ele no Google – está completamente fora da realidade, e, meu Deus, ele agarrou a oportunidade.

Foi aí que o falecido criminoso sexual se destacou: em extrair influência e proteção de pessoas poderosas, identificando e explorando as suas fraquezas. Como tal, compreendia algo melhor do que ninguém: que, por mais diferentes que fossem nos seus pormenores, estes homens, todos senhores do universo, ainda sentiam fundamentalmente que a vida os tinha prejudicado; que tinham direito a mais do que possuíam. Epstein podia ajudá-los com isso e, a julgar por como e com que risco continuavam a agradar-lhe, amavam-no por isso.

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quarta-feira, fevereiro 25, 2026

A nomeação do Luís Neves traz água no bico?
-- Pergunta o meu marido --

 

Embora tenha havido algumas vozes menos entusiasmadas, ouviram-se loas à nomeação do diretor da PJ para MAI. Louvou-se o personagem e elogiou-se o outro Luís que, após dois tiros completamente ao lado, teria agora acertado no alvo. Uma coisa é certa, lembrando um slogan célebre de eleições no Brasil, "pior não fica". 

O Luís Neves terá tido sucesso no combate ao crime organizado (claro que neste domínio não se publicitam os insucessos) mas também fica para os anais a "invasão" da Madeira a bordo de duas aeronaves da FA para conseguirem, do que se sabe até à data, uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma, e aquele frete que fez ao Fernando Gomes sobre a investigação do edifício da FPF. 

O novo MAI esteve sempre ligado à investigação, não é político, não se lhe conhecem valências na área da proteção civil, não é fluente e não terá experiência com as outras polícias. Dará um bom ministro? Não sei, o tempo o dirá.

Mas existem dois aspetos que devem ser objeto de reflexão e que, na minha opinião, não abonam em favor desta nomeação. Como todos sabemos continua a investigação ao Montenegro sobre a construção da casa em Espinho. O Luís Neves terá que ter conhecimento do estado da investigação. Por alguma razão sentiu necessidade de dizer ontem que o diretor da PJ não investiga. Curiosamente, o PGR também não averigua e, semanas antes de serem formalizadas as conclusões sobre a averiguação ao Montenegro, já  o PGR tinha anunciado, de forma mais ou menos clara, que a averiguação seria arquivada. 

Será credível que, havendo uma investigação ao PM, o diretor da PJ não saiba nada do processo...?

Não nos queiram fazer crer que na PJ, como na Procuradoria, cada um faz o que quer e não diz nada à hierarquia. Parece muito pouco provável. O Luís Neves, como ministro, tendo o dever de lealdade ao PM. Será que, em determinadas situações, um dos dois não terá a tentação de pedir ou passar informação "interessante"? Também é preciso estar muito atento à nomeação do novo diretor da PJ. Vamos ver se não será alguém de confiança do Luís para dar uma "ajudinha" quando for preciso. Honi soit qui mal y pense. Vamos esperar para ver o desempenho do novo ministro e ver se mais uma vez não estamos perante uma chico espertice do Montenegro para se ver livre do processo em curso. 

terça-feira, fevereiro 24, 2026

Aqueles que Ficaram
(Em Toda a Parte Todo o Mundo Tem)

 

O meu marido, quando não tem paciência para tanta desgraça, tanto comentário e tanto fala-barato, refugia-se no 24Kitchen. E eu, vendo a comida que estava a ser preparada, interessei-me. Só que adormeci. Tentei acordar mas não consegui. Passado um bocado, o meu marido levantou-se, foi para a cama. Esforcei-me. E fiz zapping. 

E, então, fui parar a um documentário extraordinário. Extraordinário, mesmo. Comovi-me. E comovi-me também por uma peça tão importante da nossa história estar a passar na 2 quando toda a gente está a dormir. Que falta de respeito para com quem tanto sofreu, que falta de respeito para com o que deveria ser a memória colectiva do nosso País.

Devia ser exibido em todas as escolas, todas sem excepção. E as escolas deveriam organizar debates entre os miúdos depois de assistirem à sua exibição. E, quando falo em escolas, incluo as Universidades também. E, na televisão, deveria ser passado todos os anos, na RTP 1, em horário nobre, tal como, no Natal, passa o Sozinho em Casa

Parece-me essencial. Vejo pelos meus netos: não fazem ideia de como era a vida antes do 25 de Abril, não têm noção do salto de gigante que a sociedade deu, pensam que o 25 de Abril não serviu para modernizar o país, acham que o país ainda está muito atrasado em relação aos países mais desenvolvidos. Não fazem ideia do que é a privação da liberdade, não fazem ideia do que foi a polícia política, não fazem ideia de nada.

Quando alguns palhaços por aí andam a falar na falta que faz o Salazar, seria bom que toda a gente tivesse bem presente do que era o regime do Salazar.

Não sei como é que os nossos partidos que defendem a liberdade e a democracia não percebem que é relevantíssimo mostrar aos jovens de hoje que mostram simpatia pelos movimentos de direita, que a mudança é importante, mas tem que ser mudança para melhor, nunca mudança para pior -- para um passado de opressão e pobreza, isso nunca.

A quem não viu este excelente documentário muito vivamente recomendo que veja. Estava a passar na RTP 2 e vi agora, na programação, que começou um pouco antes da meia-noite.

Transcrevo o texto da apresentação:

Aqueles que Ficaram (Em Toda a Parte Todo o Mundo Tem)

Documentário que dá voz aos familiares de resistentes, aqueles que enfrentaram, em silêncio, as consequências do regime do Estado Novo

Portugal viveu 41 anos o regime político do Estado Novo, que prendeu, torturou e levou ao exílio a quem se lhe opunha. Através dos testemunhos diretos de 28 familiares de resistentes deste regime ditatorial, faz-se o retrato de uma época e de um país, mas também se abrem linhas para o entendimento deste presente. Depois da voz dada aos presos políticos, clandestinos, exilados ou deportados, em vários trabalhos anteriores, chegou a hora de ouvir quem também resistiu ao "cárcere" das privações materiais e emocionais, tantas vezes ainda sem idade para entender e muito menos aceitar as inevitáveis e profundas mudanças abruptas no quotidiano. Filhos, filhas, mulheres quase sempre e ainda hoje em silêncio.

Partindo da recolha e análise de algumas das cerca de 100 entrevistas realizadas com familiares de opositores e inseridas num trabalho de investigação académica na área da História Contemporânea, o filme documental vai conduzir-nos pelas vivências e consequências de um tempo obscuro na vida de cada uma dessas personagens e as suas formas de resistência, contribuindo de igual modo para o acrescer do conhecimento da história da resistência à ditadura do Estado Novo. 

Viva a liberdade! 

Robert de Niro

 

É um dos meus actores preferidos. Considero-o extraordinário. Em qualquer registo, Robert de Niro é memorável. 

E é um bravo. Não se cala, não tem medo, dá o peito às balas. Sempre de uma forma que a ninguém ocorre questionar. Merece o respeito de quem já viu de tudo e sabe colocar-se do lado certo. A bem da democracia e da liberdade.

De Niro emociona-se ao falar sobre a divisão causada por Trump e a necessidade de o afastar do cargo quando "se recusar a sair"

Numa rara, franca e emocionante conversa com Nicolle Wallace, da MS NOW, o lendário ator Robert De Niro abandona as suas personagens e fala abertamente — como um cidadão profundamente preocupado com o futuro do país que ama.

De Niro reflete sobre a coragem, a intimidação e o que significa posicionar-se quando mais importa. Baseando-se numa vida inteira a interpretar "duros", deixa claro: este momento não é sobre dureza — é sobre responsabilidade.

Desde a sua avaliação direta de Donald Trump até ao seu alerta sobre a complacência, De Niro não tem meias palavras. Fala sobre o medo, o silêncio e porque é que a intimidação só funciona se as pessoas o permitirem.

Apesar das personagens rudes e duras que costuma interpretar, diz a Nicolle: "Não sou um duro. Sou um cidadão preocupado." Traz essa sensibilidade intrinsecamente humana para este episódio de "The Best People", tendo sido uma voz consistente e apaixonada na luta contra os piores instintos do Presidente Trump. De Niro e Nicolle aprofundam a discussão sobre a imagem negativa que os líderes empresariais passam a ter perante as ações do governo, a necessidade de mobilização em massa para proteger a integridade das eleições intercalares e a importância da bondade numa era marcada pela divisão. E a estrela de Hollywood tem um sábio conselho para aqueles que se opõem a Trump: "Todos precisam de se mobilizar de todas as formas possíveis... É agora ou nunca. Este é o nosso país."

segunda-feira, fevereiro 23, 2026

Será possível que o mundo esteja nas mãos de alguém que padece de demência frontotemporal?



Tenho visto entrevistas ou vídeos de médicos americanos que convergem na opinião de que Trump padece de demência frontotemporal. Inicialmente havia quem dissesse que poderia ser Alzeihmer, tal como o pai teve, mas agora todos referem que parece não ser isso mas algo com consequências piores dadas as funções que ocupa.

Pedi ao chatGPT que caracterizasse essa doença e transcrevo parte da informação que obtive.

A demência frontotemporal (DFT) é um grupo de doenças neurodegenerativas que afetam sobretudo os lobos frontal e temporal do cérebro — áreas responsáveis pelo comportamento, personalidade, linguagem e funções executivas (planeamento, controlo emocional, julgamento).

Ao contrário de outras demências, no início a memória pode estar relativamente preservada. O problema principal está no comportamento, personalidade ou linguagem.

Sinais típicos:

    • Mudanças de personalidade marcadas
    • Falta de empatia
    • Comportamentos socialmente inadequados
    • Impulsividade
    • Apatia ou perda de iniciativa
    • Desinibição (dizer coisas impróprias, gastar dinheiro impulsivamente, etc.)

Afeta a linguagem. Pode causar:

    • Dificuldade em encontrar palavras
    • Fala lenta ou com erros
    • Dificuldade em compreender frases
    • Problemas em nomear objetos

Evidências e sinais de alerta

- Alterações comportamentais:
  • Indiferença emocional
  • Falta de autocontrolo
  • Repetição de comportamentos (rotinas obsessivas)
  • Alterações alimentares (ex: comer exageradamente doces)
  • Alterações cognitivas
  • Dificuldade em planear
  • Perda de capacidade de tomar decisões
  • Diminuição do pensamento abstrato
- Linguagem
  • Fala pobre ou com erros
  • Dificuldade em compreender ou expressar ideias
Como é diagnosticada

O diagnóstico baseia-se em:
  • Avaliação clínica e neurológica
  • Testes cognitivos
  • Exames de imagem (TAC ou ressonância magnética)
  • Às vezes exames genéticos
Prognóstico
  • Evolução média: 6 a 10 anos após início dos sintomas (mas pode variar)
  • Geralmente progride mais rapidamente que a doença de Alzheimer
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Tem sido o próprio Trump a referir que tem feito testes cognitivos (que ele se gaba de acertar em tudo, a começar por identificar a girafa e o elefante) bem como Ressonância magnética ou TAC. 

E parece estar a perder os poucos filtros internos que tinha e a ter as suas capacidades cada vez mais deterioradas: insulta pessoas, toma decisões erráticas, parece não planear nada do que decide nem acautelar as consequências, inventa as mais desvairadas aldrabices em que parece mesmo acreditar, demonstra não se informar sobre as matérias sobre as quais decide, passa a vida a adormecer nas reuniões, nas conferências de imprensa e até já adormeceu de pé.

Li que há opiniões médicas a referir o seu estado de declínio desde o 1º mandato, o que o colocaria já na recta final do percurso da doença. Como sou leiga na matéria, não consigo avaliar mais do que o que salta à vista de toda a gente (de toda a gente menos dos MAGAs, claro)

Com o poderio militar de que os Estados Unidos dispõem, com um gabinete de gente fraca e bajuladora em que não se consegue perceber quem é que, de facto, manda ali, a ser verdade que Trump padece mesmo de demência frontotemporal, ter à frente dos destinos do mundo uma pessoa que não mede o que diz ou faz parece ser causa para alarme.

Estou certa de que meio mundo deve andar já a estudar formas de 'atacar' o problema caso venha a tornar-se evidente que não pode continuar ao leme do país. O pior é o que ele ainda irá fazer até que o retirem. Por exemplo, a situação do Irão pode ser explosiva e ter consequências dramáticas e duradouras. Mas saberá ele avaliá-las? Tenho muitas dúvidas.

Vejo muitas discussões políticas e muitos comentadores a analisarem as suas decisões como se fossem ideológicas. E não vejo que as analisem como me parece que deveriam também ser analisadas, como provas de um caso clínico.

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Junto o vídeo em que Joanna Coles conversa, de novo, com o Dr. John Gartner para analisarem os acontecimentos mais recentes. Como sempre, é interessante e, até, divertido. Poderão accionar a tradução automática para língua portuguesa.

Porque é que o ego instável de Trump está a deixar o mundo em alerta | Podcast do The Daily Beast


O Dr. John Gartner junta-se a Joanna Coles para uma análise profunda e instigante do que ele defende serem os sinais crescentes de declínio cognitivo e comportamental em Donald Trump — desde palavras confusas e histórias desconexas até grandiosidade, paranóia e o espetáculo de adormecer no seu recém-formado Conselho da Paz. Enquanto dissecam a história da conspiração da escada rolante de Trump, a obsessão com a aparência, a fixação em nomear pontos turísticos em sua homenagem e os discursos noturnos nas redes sociais, a conversa alarga-se aos verdadeiros riscos: os códigos nucleares, a política de risco no Médio Oriente, as eleições intercalares e aquilo a que o Dr. Gartner chama uma perigosa combinação de ferida narcisista e poder desenfreado. Com referências à Gronelândia, Gaza, Irão, ao Departamento de Justiça e até à sombra dos arquivos de Epstein, Coles questiona se ainda existem mecanismos institucionais de proteção — ou se o impulso orienta agora as políticas.

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Desejo-vos uma boa semana