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sexta-feira, junho 04, 2021

O segredo das rosas

 


Dia feriado e, só por isso, bom. Os meus dias já não são exactamente o que eram. Agora com qualquer coisa já acho que está bem assim. De manhã fomos ao supermercado. Dantes odiava. Agora gosto. Para além das utilidades, sucumbi às flores. Três. Duas cristas-de-galo, uma em fúcsia intenso e outra em amarelo, e uma begónia. Escuso dizer que o meu marido tenta impedir-me, diz que não temos onde pô-las. Nem respondo. Como não temos? Claro que temos. É como para mais um sorriso ou um bombom de chocolate: há sempre lugar. A minha mãe diria: o coração das mulheres é muito grande, há sempre lugar para mais um. Neste caso, uma.

Vim para casa feliz da vida.

De tarde, fomos ao Leroy. O tema era puxadores de porta. Mas trouxe três vasinhos brancos para as flores novas e uns suportes. A ideia de ter vasos suspensos anda a agradar-me muito. Queria um que lá estava que tem uma pega para pendurar mas estava numa prateleira a que não chegávamos. Tirei senha para pedir a um empregado mas nunca mais chegava a minha vez. Tanta gente... Vi lá uma outra flor linda mas sem o vasinho com a pega fiquei sem saber bem onde a poria. O meu marido fica em transe quando vê muita gente e me vê a querer trazer coisas que ele acha inúteis. 

Fui também ver de uma coisa da qual andava atrás há algum tempo: uma escarificadora manual. Têm estado esgotadas. Ainda não descobri uma como aquela máquina que aqui me foi recomendada em tempos, de nos montarmos em cima dela, ideal para os meninos fazerem exercício. Esta é das simples,. Quando vi uma fiquei toda contente. Mas a alegria não foi consensual. Por pouco, ele não acabou ali mesmo com o casamento. Que eu não pensasse que ele ia andar com aquilo. Eu disse que eu é que ia andar. Não acredita, diz que não tenho disciplina nem paciência para aquilo, que quero é que ele faça as coisas mas que tire isso da cabeça. Tive que lhe dizer que estava em público, que controlasse o mau feitio. Como não consegui ver o preço, disse que ia levar até à caixa e, se fosse cara, não trazíamos. Trouxemos. Estou desejando de ter tempo e de estar melhor do joelho (já marquei consulta) para me ir pôr a escarificar a relva. Não sei se o conceito se aplica à relva ou à terra mas, seja a escarificar a planta ou o leito em que se deita, tanto faz. Hei-de escarificar tudo. Só o verbo já é interessante e, quer-me a mim parecer, há-de prestar-se a boas metáforas. . 

Quando chegámos a casa, estive a transplantar as florzinhas novas para os vasos. O meu marido no outro dia trouxe uma ponta para a mangueira que tem várias posições. Gosto muito de usar a posição de chuveiro para regar os vasinhos que estão pendurados no gradeamento que separa o terraço da cozinha do jardim. A água escorre de uns para outros. Está tudo viçoso e quando rego ao pôr-do-sol, em contraluz, fica tudo muito bonito.

As taças de suculentas no pequeno terraço junto à outra porta estão a ficar muito bonitas. Estão ao pé daquela maravilhosa Brugmansia suaveolens que afinal tem tanto de tóxico quanto de bonita. 

Quem diria que uma planta com aquela beleza pode ser tão perigosa? E a magana que, pela tarde, se perfuma como uma tentadora allumeuse...? Um perfume... Só visto (e cheirado). É o perigo das sedutoras: mais vale que os incautos se mantenham longe. Caso contrário, os que se se afoitam demais logo caem nos seus encantos e ficam fatalmente agarrados.

As nêsperas também estão uma tentação: carnudas de boas. Como-as imoderadamente e, pior, sem sentimento de culpa. É o que dá não ter ligado muito à catequese. Peco sem querer saber se estar a pecar, ignorando a culpa.

Tenho ainda a dizer que ontem li um artigo que me deixou alegre e vitoriosa. Fiz até questão de o ler em voz alta ao meu marido. Aquilo pelo qual tanto tenho batalhado afinal ali, em letra de forma, no Guardian: The brilliance of brown lawns: why your grass shouldn’t always be greener. Ainda no outro dia o meu filho dizia que a relva não estava grande coisa. Eu achava que estava óptima. O meu marido cantou de galo, sentindo apoio na sua luta. Em algumas zonas a relva estava maior e eu gostava de a ver assim. Não tem que estar rapada. E se houver uma ou outra zona em que está mais seca, acho que é uma questão de escarificar e ir regando.  Não gosto de ver o jardim como se fosse uma coisinha muito bem comportada. O meu marido e o meu filho acham que relva, por definição, é relva aparada e regular. Neste particular não nos entendemos, portanto.

Pois bem. Relvas pipis, aqui sentenciado e sacramentado pelo Guardian, são relvas que anulam a biodiversidade. Deixá-la crescer um pouco, deixar que algumas florzinhas se aventurem, tudo isso me parece saudável e bonito -- e é. Atrai insectos, atrai pássaros, estimula a reprodução selvagem (e afins). Ou seja, aquilo pelo qual tenho sido tão contestada, afinal, não apenas não é ideia assim tão disparatada como é o melhor para a natureza. Pimbas.

Hoje, quando íamos a sair para o supermercado, ele apontou para o chão e disse: olha um malmequer. Fiquei contente. A reacção dele já foi resultado da leitura de ontem. Senão teria dito: é no que as tuas teorias dão, até já flores nascem no meio da relva, se não se trata rapidamente, não tarda isto está uma m...

Debrucei-me. Era mesmo. Uma florzinha linda, pequenina e atrevida. Talvez uma mini-margarida. Não a arrancámos, como é óbvio. O que leio no artigo é que há florzinhas que se podem aparar como a relva, que não morrem. O meu marido não convive bem com esta minha abertura de espírito, tenta restabelecer a ordem. Diz: não lhe podes é chamar relva, é outra coisa.

Esteve cá a anterior dona da casa. É sempre uma lufada de boa disposição. Olha em volta, vê as flores. Ficou espantada com a abundância de rosas. Cachos de rosinhas encarnadas. Mostrei-lhe aquelas que, ainda há pouco, eram grandes, amarelas, cor-de-salmão, brancas e disse: veja, estão outra vez pequeninas, encarnadas. Ela fez um ar desconcertado. Sempre foram assim como estão agora, pequeninas, encarnadas. Nunca tive rosas amarelas... Pois, que é misterioso é. Por isso ainda mais gosto delas, mutantes, inexplicáveis.

Apanhei um pequeno cacho e coloquei na jarrinha pequenina que coloquei no parapeito da janela que está junto à mesa onde tomamos as refeições.

E andei a fotografá-las. Little red roses. Tão, tão bonitas, tão, tão difíceis de justificar. 

Não sei se, aí onde estão, sentem a vibração da sua cor e a beleza do seu perfume. Gostava que sim.


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Andei à procura de uma canção com rosas vermelhas, sem desgostos ou frescuras. Não encontrei. Optei pela La vie en rose na voz da Melody Gardot, e optei apenas porque sim. Depois, para compensar, apeteceu-me ter rosas em palavras ditas. Mas também não tive paciência para grandes pesquisas. Partilho convosco: A red red rose por Robert Burns (lido por Tom O'Bedlam) e o Soneto 130 de Shakespeare (lido por Alan Rickman)
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Desejo-vos um dia feliz

domingo, novembro 24, 2019

Eu, guardadora de segredos
[Quando em meu mudo e doce pensamento chamo à lembrança as coisas que passaram]





Uma Leitora enviou-me um mail para me dizer aquilo para que outros já antes já me tinham alertado: o fundo colorido que o blog tinha dificultava a leitura. Eu via bem mas, provavelmente, em alguns computadores ou telemóveis via-se mal. Várias vezes antes tentei perder a cor e outras tantas voltei atrás, involuntariamente deixando que a paleta inteira se vertesse sobre a superfície sobre a qual as minhas palavras, que geralmente nascem adormecidas, ganham vida. 

Ontem decidi-me: hei-de ser capaz de ser mais forte do que eu. Hei-de ser capaz de me despir de cores e ruído, de me desnudar de tudo -- de veludos, rendas e folhos, de flores, de luz colorida, de brilhos -- e assim permanecer. E tentei. Mas pode alguém ser quem não é? Comecei com a página em branco e, mal dei por mim, já tudo estava tingido de mil cores. Recuei, tentei moderar-me. Por fim, deixei-o como agora o têm. Mas não estou convencida. Não sei por quanto tempo conseguirei ver as palavras deitadas em lençol branco.

Enquanto o mudava, olhei para mim. Tinha chegado a casa tarde, cansada, muitos quilómetros em mim sob chuva intensa, e, como sempre faço, tinha-me lavado, apanhado o cabelo, despido. Depois tinha vestido uma roupa confortável: umas calças de veludo macio, preto, uma blusa de manga curta, justa, decote em bico, em cinzento clarinho, umas meias quentinhas às risquinhas de vários tons de cinza. E, até ver, tudo sob controlo, ton sur ton em discreto. Mas estava com frio. Vesti, então, um casaquinho fininho em verde relva, com fecho eclair à frente e capuz. Só que, durante o dia, tinha estado durante horas num solar apalaçado requintadamente decorado, pé direito altíssimo -- mas frio, frio, frio. Ou melhor, tinha aquecimento mas o calor, como todos os calores, subiu, deixando-me com os pés gelados. E eu suporto bem o frio em todo o lado excepto nos pés. Resfriei-me. Então, aqui no sofá, continuei a sentir-me com frio. Fui escolher um agasalho e peguei num casaquinho em lã macia, fúcsia. Pareceu-me bem. Mas depois, ao olhar para mim, constatei como, até à noite, cansada, resfriada, me sabia bem sentir sobre o corpo a vibração das cores.

Enfim.

E, no entanto, como gosto de sobriedade, planura, limpidez.

É um caminho que tenho que percorrer: ir deixando para trás as camadas de pele carregadas de cor até conseguir estar nua, envolta apenas em luz, até me esquecer da gramática, das leis do mundo, até conseguir escrever palavras destiladas, puras, palavras que contenham apenas a música natural que as habita -- palavras puras escritas sobre a superfície transparente do vasto espaço.

Mas adiante.

Durante o dia de sexta-feira muitas coisas se passaram, algumas delas bem interessantes e que dariam belos títulos em primeiras páginas. Mas a mais curiosa de todas foi a que se passou no carro, quase à chegada. A outra pessoa que estava no carro, justamente a que estava a conduzir, recebeu uma chamada. Como estava com o telefone passado para o carro, em alta voz, e não teve o sangue-frio para dizer que estava acompanhado, a outra pessoa falou à vontade. Vi-o a ficar consternado com o que estava a ouvir, estranhamente apreensivo, depois atrapalhado, atarantado por eu estar a ouvir. No fim, depois da chamada ter terminado, inventou uma explicação mal alinhavada que me deixou ainda mais intrigada.

Ontem à noite mal pude esperar por googlar o nome da pessoa referida na chamada e confirmei: aquilo que a pessoa que fez a chamada dizia que ia acontecer, de facto, já estava confirmado. Vários jornais online o referiam. Fiquei espantada: porque é que isso incomodou tanto a pessoa que estava comigo e a que lhe ligou? Não sei e isso deixa-me muito desconfiada, muito mesmo.

E, no entanto, estou convencida que mais vale nem tentar descobrir até porque tenho a intuição que será preferível nem o saber.

A vida é uma tapeçaria sem plano ou guião cujos pontos e cores vão nascendo de acasos e opções que, a cada momento, vão acontecendo. Quem me diz que se eu desse um passo, um só -- e sei bem qual seria --  não mudaria para sempre a vida das duas pessoas cujo telefonema acidentalmente ouvi? Mas não o darei e, portanto, o que vier a acontecer não terá a minha influência.

(E intuo que o fim de semana dessas duas pessoas está a ser duplamente intranquilo: primeiro, pelo assunto do telefonema e, segundo, por o telefonema ter sido testemunhado).

Agora que escrevo isto lembro-me de um mail que um dia recebi. Era de um blogger que acompanho, com quem simpatizo, e com quem, na altura, já tinha trocado alguns mails. Nesse mail, ele confessava a sua paixão. Logo percebi que a destinatária era outra que não eu pois não apenas continha o nome da sua amada como dava para perceber que se tratava de um amor clandestino,  alguém a quem ia ver dentro de poucas horas, provavelmente disfarçando o laço que os unia para que os colegas não percebessem. Pouco depois recebi outro mail pedindo desculpa pelo equívoco. Descansei-o, que não se preocupasse. E apaguei o mail. Mas que problemas ele poderia ter arranjado se eu não fosse como sou, uma guardadora de segredos?

E quantos mais segredos tenho guardado ao longo de toda a minha vida? Tantos, tantos. Por vezes penso que um dia deveria escrevê-los para que nunca deles me esqueça e para que um dia, mais tarde, se para isso me der, possa escrever um livro de segredos. Sem nomes, sem qualquer informação que permita identificar os seus intervenientes. Despi-los da realidade que um dia tiveram como se de um processo de ecdise se tratasse. Segredos abstractos, reduzidos à sua essência.


Outra coisa que eu gostava seria de, um dia, recolher todos os poemas que me têm oferecido. Ou no blog ou por mail ou de outras maneiras. Por vezes, poemas ditos. Fico sempre tão sensibilizada. Não há dádiva mais sentida, presente que eu receba com maior emoção.

Devia recolhê-los, juntá-los, guardá-los numa caixinha preciosa e um dia oferecê-la ao mundo como prova de agradecimento a todos quantos me têm trazido momentos tão felizes.



E porque me está a apetecer ouvir um poema:


ou desta forma:


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As fotografias são da autoria de Nick Knight.

No título deste post, entre parêntesis, um pequeno excerto do soneto 30 de Shakespeare na tradução de Vasco Graça Moura

PS: E depois de ter escrito este post, voltei a mudar o aspecto do blog, já retirei o preto do exterior e já mudei o lençol que era branco e agora é cor de baunilha. E já mudei todas as demais cores e a imagem do início. Ou seja, já mudei outra vez de pele. Sou uma ecdísia, uma stripper.

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E a todos desejo um belo dia de domingo

quarta-feira, maio 31, 2017

Ou nada





Espreitar a perspectiva. Cortar a parede para a colar às flores ao longe. As cordas rangendo no rio. O sol a afundar-se no horizonte. As mãos que pensam em silencioso sossego. A árvore que se agita. O tronco da árvore, rugas e pele, calores e frios, cantos de pássaros. O musgo e a flor que se deita sobre ele. O olhar doce que se abeira. A indiferença do gato. As casas ao longe. O momento. O ângulo que a sombra desenha no muro branco. Fotografar.


Pintar. Nasce a forma, imperceptível forma, desfaz-se a cor em várias outras, sublima-se o movimento. Oculta-se. Insinua-se o imperceptível objecto. Oculta-se. Ou apenas se disfarça. Derrama-se a luz. Linhas suaves, uma curva que amacia o olhar. Olha-se e é o irreconhecível. Percebe-se, então, que nada mais há a acrescentar. Tarde, tão tarde já. Noite alta, já madrugada.


Ou uma arca cheia de fios, rolos, meadas. De todas as cores. Um papel muito grande, quadriculado, o quarto de um desenho. Uma grande tela em branco, um tecido que cheira a trabalhos manuais, juta, fios indomesticados, orgânicos. Os joelhos cobertos, a tela que se vai enchendo de desenhos feitos de lã. Cores, uma pintura a formar-se feita de fios de lã. Imensa, calor nas pernas, um peso crescente, um labor insano, uma obra prestes a nascer. Quase, quase. Só mais uma flor. E agora o caule. Quase. Quase. Noite após noite.

E as borboletas no estômago. A página em branco. As borboletas a subirem ao peito. Os dedos a deslizarem no teclado. A borboletas a taparem a visão, a tomarem conta do sentido. Os dedos a procurarem as letras, sozinhos, os dedos com vida própria, as borboletas em volta, as palavras a surgirem. Noite adentro. Até que o cansaço pega nas mãos e as leva a dormir.

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Nada mais a dizer. A não ser ver as imagens que chegam do mundo, esse lugar desconhecido que os nossos corpos habitam (as mentes habitam num outro universo, também desconhecido: aquele em que queríamos estar, aquele em que gostámos de ter estado, aquele que esconde os nossos medos e guarda os nossos sonhos, um mundo só nosso).

Cox’s Bazaar, Bangladesh

A villager heads to a storm shelter as Cyclone Mora hits the region, bringing winds of up to 84mph. Thousands of homes have been damaged and more than 300,000 people have fled coastal villages
[Photograph: AFP/Getty Images]

Balmazujvaros, Hungary

A white stork takes off from a nest at sunset
[Photograph: Zsolt Czegledi/AP]

Bangkok, Thailand

Shopkeepers in flooded streets after heavy rainfall hit the city
[Photograph: Lillian Suwanrumpha/AFP/Getty Images]

Bristol, England

A baby western lowland gorilla in the arms of her mother, Touni, at Bristol Zoo Gardens. The zoo has invited the public to help name the baby
[Photograph: Ben Birchall/PA]
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Ou ler. Ler, Os olhos semi-cerrados, ler em silêncio.

Ou ler em voz alta. Acto de amor. Ler um livro para que o outro ouça o que os nossos olhos lêem.


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Ou dizer com o corpo: poesia-me.


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Ou nada. 
Talvez apenas escrever em silêncio, em segredo. 

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As pinturas são, uma vez mais, de Georgia O'Keeffe. A primeira fotografia é minha. As quatro legendadas em inglês são fotografias do dia do The Guardian, A música lá em cima é interpretada por Catrin Finch e Seckou Keita, Alan Rickman em 'Reading to Marianne' no filme Sense and Sensibility. Carolina Mancuso é uma das bailarinas que dança 'Tiger Lily' numa coreografia de Jiří Kylián

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E, agora, eu desejo a todos os que aqui estão comigo um dia muito feliz.

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quinta-feira, junho 30, 2016

Uma mulher com máscara de gata




Um dia disse-te que um dia falaria. Pediste: não. Não te respondi. Sabes, deverias saber desde sempre, que um dia eu falaria. Não poderias esperar que, para sempre, vivesse sob esta máscara que um dia me ofereceste, sem saberes que ela se iria colar a mim.

Pensaste que eu me limitaria a esperar por ti, pelos teus humores, que me limitaria a compensar as tuas atitudes inconsequentes e infantis com devaneios, talvez até com uma ou outra recaída nos braços efémeros de outros inúteis como tu. Pensaste. Sempre pensaste segundo os teus imaturos e idiotas padrões, não foi?

Não percebeste que eu não sou a gatinha doce que gostas de acariciar e depois maltratar? Não percebeste, pois não?

Julgavas que eu estaria aqui sempre à tua espera? Julgavas? Julgavas que, enquanto dormias, eu ficava num canto à tua espera, talvez olhando os horizontes infinitos, talvez as longínquas serranias? Ou lendo, ou sorrindo ao céu e às nuvens que passam?

Fingias não perceber as minhas saídas, ou, se mostravas conhecê-las, mostravas desprezo, como se tudo o que eu pudesse fazer fosse desprezível. Mostravas desprezo, oh pobre idiota, como se não percebesses o desprezo crescente que eu ia sentindo por ti. Pobre, pobre idiota.

Querias que eu falasse para te entreter, para que tivesses pretexto para me fazeres ouvir-te. E eu fazia o que tu me pedias, eu queria o teu bem. Mas nem isso percebeste, pois não? Oh pobre, pobre idiota.

Eu colocava a máscara com que gostavas de me ver fantasiada, eu deixava que me olhasses e te iludisses, eu deixava que tu pensasses que eu te queria bem. Porque eu te queria bem. Apesar de tudo, eu queria-te bem, talvez até te amasse. Mas nunca percebeste isso, pois não? Sempre tão cheio de ti, sempre só tu, tu, tu. Tu e a mulher com a máscara. Eu, a mulher da máscara.

De vez em quando, senti que suspeitavas mas sempre tiveste medo de perguntar. Cobarde. Pobre, pobre cobarde.

Quem te julgas, tu, pobre homem que não sabes amar uma mulher? Tu que não sabes ser amado por uma mulher? Quem te julgues tu, pobre, pobre idiota?

Eu disse-te: um dia digo-te tudo.

Não. Pediste. Não. 

Mas eu digo-te. Há um mundo lá fora, sabes? E é lá fora que eu vivo, eu a mulher com a máscara que um dia ofereceste e com a qual tanto gostas de me ver fantasiada.

Olhavas para mim, dizias-me poemas, sonhavas comigo, desejavas-me -- não digas que não, oh não digas, que o teu desejo era tão visível -- e querias ter-me nos braços, imaginar-me disponível para te ouvir, para te amar. E julgavas que eu não tinha vontade, que a minha vontade era estar disponível para ti. Coitado, coitado.

Mal te sentia a dormir, eu evadia-me do teu casebre, entrava no mundo, esgueirava-me pela porta secreta, subia a escada que me levava ao paraíso e juntava-me a outras como eu, a mulheres que gostam de homens que gostam de mulheres clandestinas, a homens que gostam de prazeres secretos, desconhecidos como eu. Homens e mulheres sem nome, como eu.

Não, pobre idiota, não rias. Poderia dizer-te que ali se discutem e tomam as grandes decisões que mudam os destinos do país, poderia falar-te de como são belas as vozes que dizem poemas roucos como gritos de amor, poderia, até contar-te como são acesas as lutas em torno de ideais, de sonhos, de como por ali passa a grande e a petite histoire. Mas poderia estar a mentir-te porque a ti não me apetece sequer dizer-te a verdade. Que sabes tu da vida, pobre, pobre idiota? Que sabes tu de como a adrenalina que a mente ordena faz vibrar os corpos? Que sabes tu dos instantes de abandono e felicidade? Que sabes tu de alguma coisa?

Por pena, poderia contar-te. Mas não o compreenderias. Tu, pretenso rebelde, insurgir-te-ias, dir-me-ias perdida, louca, acusar-me-ias de orgias - e que mal têm as orgias? -, mostrarias, uma vez mais, desprezo. Pois mostra, estás à vontade, quero lá eu saber do que pensas.

Olha, sabes?, se quiseres, um dia levo-te lá.

Ofereço-te eu uma máscara. Irás, pobre idiota, ver o mundo que desconheces. Irás ver como eu sou quando vejo la vie en rose. Irás ver-me em momentos de prazer como nunca me viste. Verás como me amam os homens e as mulheres que me amam como tu, pobre, pobre idiota, nunca foste capaz de me amar. Poderás dizer que não, que aquele é um lugar de falsos prazeres solitários, falsos porque partilhados, de voyeurs, poderás dizer que é um antro de taras e loucuras, poderás dizer o que quiseres que a mim tanto me dá. Sabes lá tu, pobre idiota, o que penso ou sinto?

Pobre coitado. Para que estou eu a dizer-te isto? Para quê se não percebes nada, nem de mulheres nem de afectos nem de prazeres nem de nada? Pobre, pobre idiota.

Olha, se quiseres ir lá ver-me, inscreve-te no clube. Se te aceitarem - o que duvido, pobre idiota -talvez até me divirta a tentar descobrir-te no meio dos outros mascarados, talvez, até, deliberadamente seduza outros fingindo que é a ti que estou a tentar seduzir. E, mesmo que tenha a certeza que és tu, podes ter a certeza que farei de conta que não te conheço, talvez assim consiga suportar o tédio que exalas.

Ou não. Talvez simplesmente me deixe tocar para que me vejas como nunca me viste, uma mulher gata, uma mulher cujos gemidos atravessam a noite.

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E agora, se quiseres que eu te recomende para que te deixem entrar no clube, pobre, pobre homem, faz por me agradares.

Não sabes como? Claro que não sabes. Nunca o saberás. Olha, nada esperes mas fica a saber que te concedo uma última oportunidade, não para algum dia me teres mas para eu continuar a olhar com comiseração para ti: diz-me um poema, ao meu ouvido, mas diz devagar, devagar, vá, lenta, lentamente. Deixa que eu sinta a tua respiração, deixa que eu sinta o latejar do teu sangue, o latir do teu coração, deixa que a tua voz entre docemente em mim, deixa.

Diz. Um qualquer. Pode ser este:
My mistress' eyes are nothing like the sun;
Coral is far more red than her lips' red;


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Texto inspirado no artigo:

INSIDE A HAMPTONS SEX PARTY FOR THE ELITE da Harper's Bazaar, 

Jenna Sauers, Jun 28, 2016


[For the first time, London-based ​Killing Kittens brought its upper-class orgy to an exclusive East Hampton estate. Armed with La Perla ​lingerie and an open mind, one writer decided to investigate.]


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sexta-feira, janeiro 15, 2016

O mundo ficará mais seguro agora que desapareceu uma voz tão perigosa?


And yet, by heaven, I think my love as rare


Sou muito sensível a vozes. Poderia dizer que o sou em relação a todos os sentidos, aos seis. Mas a voz, agora que penso nela, é fatal. Por uma voz eu posso ficar rendida, por outra posso afastar-me irremediavelmente. 

Gosto de vozes que sabem ser pausadas, que sabem incorporar o silêncio, que sabem moldar-se ao olhar de quem ouve.

Gosto de vozes que sabem dizer poesia. Não recitar, não declamar. Não gosto, na poesia, de vozes enfáticas, teatralizadas: gosto da poesia dita, sentida, quase intuída. Gosto que a voz venha até mim como uma tentativa, pé ante pé, que avalie se se pode aproximar, que venha com algum pudor e muito descaramento.


Alan Rickman tinha uma voz assim. Não é a primeira que aqui está e não será a última. O seu corpo saíu deste mundo mas a sua voz perigosa permanecerá. Uma voz assim é uma forma de respiração, uma forma de viver, uma forma de seduzir. E quem um dia se deixou cativar por uma tal forma de perdição jamais se soltará de tão forte laço.



Levantam voo os pássaros. Voltam, uns. Partem para longe, outros. Mas, dos que alto voam, fica a pairar sobre nós a lembrança dos seus elegantes voos.





Minha amante nos olhos sol não tem,
mais rubro é o coral que sua boca,
se a neve é branca, o peito é escuro e bem,
se há toucas de oiro, negro fio a touca.
Vi rosas brancas, rubras, damascadas,
não tem rosas na face, ao contemplá-la,
e há essências que são mais delicadas
do que o bafo que a minha amante exala.
Gosto de ouvir-lhe a voz, contudo sei
da música mais doce a afinação,
e uma deusa a passar jamais olhei,
a minha amante a andar põe pés no chão.
     Creio no entanto o meu amor tão raro
     quão falsas ilusões a que o comparo.

Soneto 130, numa tradução de Vasco Graça Moura no livro 'Os Sonetos de Shakespeare', com desenhos de Jorge Martins 

...


A última vez que vi Alan Rickman:  O Rei Luís XIV em A Little Chaos

....

Não, o mundo não fica mais seguro -- porque uma voz assim não morre.

...

As primeiras fotografias foram feitas junto ao rio Minho, Vila Nova de Cerveira. A última em Baiona,  Espanha.

...

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma sexta-feira muito boa.

..

sábado, novembro 03, 2012

Sobre o amor, seja ele do puro, do impuro, do sonhado, do desejado, do proibido. A voz a quem o sabe cantar, dizer, dançar, viver. Vasco Graça Moura, Billy Paul, Melody Gardot, Edith Warthon, Michelle Pfeiffer, Daniel Day-Lewis, Shakespeare, Alan Rickman, Grupo Corpo e Lecuona. Até porque 'é mais doce no outono a tua pele'


                                             despi-la dos reflexos nervosos da seda moirée lilás.
                                             desapertar-lhe as rendas devagar. deixar-lhe
                                             as pérolas apenas sobre o peito. ver-lhe a pele
                                             luminescente e branca na semiobscuridade.
                                             descalçá-la e afagar-lhe os pés.
                                             beber riesling de olhos nos olhos, incandescentes.
                                             aspirar o seu perfume de água de rosas.
                                             desatar-lhe as cascatas negras do cabelo.
                                             tocar a macieza do seu colo, sentir pétalas.
                                             e ousar percorrer-lhe as sombras.
                                             estremecer sem poder ainda acreditar.
                                             ver a luz das velas a reflectir-se nos espelhos
                                             como estrelas a transformarem-se em música e gemidos.






                                                falo às vezes do amor, dos seus dilemas,
                                                e das noites de insónia em que me viro
                                                para um e outro lado, mas prefiro
                                                que o próprio amor escreva os meus poemas.

                                                se o faz, à própria vida é que retiro
                                                casos por mim passados e outros temas,
                                                para depois usar estratagemas
                                                de mentira e verdade e lhes adiro.

                                                e então digo e desdigo e contradigo
                                                o dito e o não dito, e deixo o gosto
                                                das entrelinhas do que não consigo

                                                dizer de outra maneira e é suposto
                                                andar a vida toda em mim, comigo:
                                                e assim falo do amor e do teu rosto.






                                                ela guardava os sentimentos
                                                como um animal ferido que se agarra
                                                à vida por de dentro

                                                e a vai perdendo devagar
                                                enquanto sangra e sofre
                                                emudecendo.

                                                então beijavas-lhe
                                                os seus próprios gemidos, a sua
                                                desolada liberdade, o que no seu

                                                olhar se enevoava,
                                                não lhe peças mais nada,
                                                não lhe digas

                                                mais nada, mas não deixes
                                                que a noite toma conta dela e
                                                dite as suas leis.






                                                  como sentir a tua cara rente
                                                  à minha e as tuas mãos nas minhas, ou
                                                  como se a dança amarguradamente
                                                  nos desse nesta noite ainda um slow

                                                  levado a medo, apenas a ternura
                                                  a conduzir de leve os nossos passos
                                                  e o corpo estremecendo-te à procura
                                                  do seu lugar na grade dos meus braços,

                                                  e a luz, fina película de vidros
                                                  por entre a frialdade de janeiro,
                                                  a trespassar os corações partidos
                                                  estranhamente, e o meu sendo o primeiro,

                                                  como se não doesse o que doía
                                                  na própria dor tingida de alegria.






devagar, devagar. é mais doce no outono a tua pele.







                                                    My mistress' eyes are nothing like the sun;
                                                    Coral is far more red than her lips' red;
                                                    If snow be white, why then her breasts are dun;
                                                    If hairs be wires, black wires grow on her head.
                                                    I have seen roses damask'd, red and white,
                                                    But no such roses see I in her cheeks;
                                                    And in some perfumes is there more delight
                                                    Than in the breath that from my mistress reeks.
                                                    I love to hear her speak, yet well I know
                                                    That music hath a far more pleasing sound;
                                                    I grant I never saw a goddess go;
                                                    My mistress, when she walks, treads on the ground:
                                                    And yet, by heaven, I think my love as rare
                                                    As any she belied with false compare.


*

Este último poema, em inglês, dito encantatoriamente por Alan Rickman, é o Soneto 130 de Shakespeare.

Todos os outros são de Vasco Graça Moura, podem ser lidos no seu novo livro, 'Poesia Reunida', e chamam-se respectivamente: 

                                                        o rei e lola montez: infinitos
                                                        soneto de companhia
                                                        o fim da noite
                                                        como a sentir a tua cara rente
                                                        setembro - o último verso

A primeira canção é Me and Mrs Jones e prefiro esta versão de Billy Paul à do Michel Bublé. Este tem voz de veludo mas, para esta canção, pede-se mais que isso, pede-se um tom imperfeito, com um certo sabor a a pecado, e a voz de Billy Paul, em minha opinião, sugere isso. As imagens que acompanham são consideravelmente kitch mas, enfim, foi o que se arranjou.

A canção seguinte é Love me like a river does e é de Melody Gardot que, como é sabido, tem uma voz que apela à sedução, à intimidade. Neste caso as imagens são mais do meu agrado.

O filme é a Idade da Inocência, baseado na obra de Edith Warthon e é interpretado por Michelle Pfeiffer, Daniel Day-Lewis e Winona Ryder.

Finalmente o Grupo Corpo, que tem assento cativo no Um Jeito Manso e que, somo é sabido, eu adoro, interpreta (maravilhosamente) mais uma composição de Lecuona.

*

Desejo-vos um sábado (chuvoso e ventoso) bem aconchegado e feliz. 
E, se possível, cheio de amor ou de vontade de o encontrar.

*

PS: Volto às entradas no Um Jeito Manso através de palavras que se escrevem nos motores de busca. Gosto sempre de ver estas estatísticas. É o meu momento Monty Python. Farto-me de rir e, frequentemente, acho que não faz sentido pois não percebo como, escrevendo aquilo no google, se vem parar aqui. 

Hoje para além de algumas mais 'normais' como 'Kandinsky', 'Chirico', 'alfarrabistas na guarda', 'antiquários', 'grandes cavalos azuis', 'Ana Drago', etc, lá voltou a aparecer, e mais do que uma vez, 'mulher de vítor gaspar' (pessoa de que nunca falei nem imagino quem seja), e, reparem bem, estas duas que me deram que pensar: 'Preferência dos portugueses nas relações sexuais' e, imagine-se, 'susana desdentada'.

Alguém escreveu 'susana desdentada' (quem será ela?) e veio cá parar. Tentei reproduzir o facto para ver a que mensagem ia ter mas não descobri.  Só espero que não fosse parar à mesma mensagem a que se vai ter quando se quer saber qual a preferência dos portugueses nas relações sexuais.