Mostrar mensagens com a etiqueta vídeo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta vídeo. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, maio 28, 2026

Klee
-- Por todas as razões e por mais uma: para fugir dos deslaçamentos verbais do Láparo. Chiça! --

 

Nunca devo ter sido muito normal. Por exemplo, lembro-me de ser ainda pequena quando vi pela primeira vez a imagem de uma pintura de Paul Klee. Nunca tinha visto nada assim. As pinturas que conhecia eram figurativas, quando muito impressionistas. Por cima do sofá da nossa sala havia uma pintura de razoáveis dimensões com uns barcos. As cores, os traços, a mancha, tudo puxava mais para o impressionista, e eu gostava muito mais do que das pinturas de flores ou afins que havia noutras paredes. Havia também umas gravuras antigas, bonitas, tenho ideia que de casas antigas, bairros, não sei, desfoca-se-me a memória, mas sei que eram absolutamente fiéis aos objectos retratados.

Imagem gerada pelo ChatGPT para responder ao meu pedido:
uma pintura que evoque o Senecio de Paul Klee

Por isso, quando vi Senecio, a tal pintura de Paul Klee, fiquei fascinada. E não larguei a minha mãe, queria ter uma reprodução, poderia ser um poster, poderia ser um cartão, qualquer coisa. Não sei o que é que os meus pais acharam dessa minha pancada. Provavelmente pensaram que não faziam a mínima ideia onde arranjar tal coisa* e que eu acabaria por me esquecer. Mas não me esqueci. Parecia-me que não conseguiria viver longe daquela imagem. E, não sei como, mas a verdade é que alguém arranjou a imagem. E a meu pedido a minha mãe emoldurou-a. Existiu lá em casa quase desde que tenho memória.

Não sei se alguma vez alguém me perguntou o que é que eu via ali. O que sei é que, se o tivessem feito, não saberia explicar. Sei hoje que é a cabeça de um homem senil. Mas o nome da pintura não muda nada. Poderia chamar-se Retrato de um Jovem Perplexo. Tanto faria. O que sei é que me identifico com aquela imagem, com aquele olhar, com aquelas cores, com a inexplicação daquele rosto.

Muitos anos depois, mantendo-me fiel a esse amor, não descansei enquanto não encomendei numa cerâmica um pequeno painel de azulejos com a reprodução daquela pintura para a ter in heaven. 

Como sempre na arte, posso olhar para uma coisa muito bonita, muito perfeita, e seguir adiante. Nada me diz. E posso ver uns 'rabiscos', uma sobreposição de cores, e ficar fascinada, agarrada. Para mim a arte não é, não pode ser, a reprodução da realidade. Tem que ser a invenção da realidade ou uma outra visão da realidade. E tem que me emocionar, tenho que querer ficar a olhar, de preferência sem ser capaz de dizer o que estou a ver.

No entanto, apesar de nada do que eu saiba da vida de Paul Klee ou das suas obras me fará gostar mais ou menos da sua pintura, a verdade é que fiquei curiosa quando vi o vídeo que abaixo partilho.

A Vida e a Arte de Paul Klee: História da Arte Explicada

Paul Klee passou os primeiros trinta anos da sua vida convencido de que não tinha aptidão para as cores, ou mesmo para a vida de artista.

Nascido perto de Berna, numa família de músicos, estudou em Munique, no seio do modernismo alemão, e encontrou o seu caminho no círculo de Wassily Kandinsky, Franz Marc e Der Blaue Reiter — um dos movimentos artísticos mais influentes da sua época. No entanto, apesar de toda esta companhia estimulante, mantinha-se inseguro quanto à sua própria voz. Depois, em 1914, uma viagem ao Norte de África mudou tudo.

Foram precisas décadas, mas a partir desse momento a visão singular de Klee floresceu com uma intensidade notável. Violinista talentoso, para além de pintor, trouxe a sensibilidade de um músico para o ritmo e a composição para a sua arte, produzindo obras que resistem à categorização fácil, inspirando-se em elementos do Expressionismo, Surrealismo, Cubismo e abstração, mas permanecendo inteiramente originais.

* Ao escrever aquilo lá em cima, de que imagino que os meus pais tenham ficado sem saber onde arranjar uma reprodução daquela pintura, em específico, do Paul Klee, penso que isto deve ser difícil de entender por quem é de uma outra geração. Agora arranja-se tudo. Ainda no outro dia andávamos a pensar onde arranjar um candeeiro que nos agradasse, vi na Amazon e havia vários, encomendei, perfeito. E o meu marido queria uma máquina para o jardim -- mais uma! --, procurámos na Worten, encomendámos ao fim do dia e, na manhã seguinte, estavam a entregar. Sabe-se tudo, descobre-se tudo, arranja-se tudo nem que seja do outro lado do mundo. Agora... há mil anos... sem marketplaces, sem internetes, está bem, está. Havia livrarias, isso sim. Que me lembro eram as únicas janelas abertas para o mundo. Isso e, de certa forma, também as lojas que vendiam discos. Por isso, na volta, a minha mãe comprou algum livro de arte e arrancou a página que continha a imagem do Senecio. Mas agora que falo nisto, tenho ideia que na livraria onde mais íamos, também vendiam algumas reproduções, gravuras, coisas assim. Mas posso estar enganada. Sei é que arranjaram. E foi bom pois, desde cedo, tive a companhia de imagens que ajudaram a desconstruir o que a sociedade tentava construir dentro da minha cabeça.

____________________________________________

Nota: Ando mais para este género de temas do que para sujar as mãos a escrever sobre os deslaçamentos verbais do Láparo. Bem pode ele chamar prostituto ao Montenegro, ainda por cima, prostituto sem carácter, que isso, a mim, não me inspira. Bem podem todas as comentadeiras do burgo saltar, assanhadas, para os balcões em que se serve comentário a copo, que eu me mantenho na minha. Estão os três bem uns para os outros. Melhor, os quatro. Portanto, se a conversa desceu ao nível do bordel, pois que lhes faça muito bom proveito. (Ah... não sabeis quem é o quarto? E refiro-me não ao quarto de dormir mas ao quarto personagem... Ora pensai. Láparo, Ventura, Mentenegro e... Hugo Soares. Uma quadrilha do caneco. Quadrilha no sentido de serem quatro, claro. Se calhar, mais vale dizer quarteto. É isso, um quarteto do caraças, benza-os o belzebu).

_________________________________________

Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, janeiro 26, 2026

Um mercado de coisas impossíveis


Quando não havia El Corte Inglês em Portugal, sempre que eu ia a Espanha tentava dar uma volta por esse 'mercado. Ou pelos Preciados. Tal como, em Paris, gostava de ir às Galerias Lafayette ou ao Printemps. Sobretudo, gostava do piso de baixo e, aí, em especial, gostava da zona dos chapéus. 

Gostava de me pôr a experimentar chapéus. Quanto mais arrojados e espectaculares melhor. Gostava deles coloridos, com véus, com plumas, com flores. Gostava de me ver com eles. Ficava sempre tentada a trazer alguns. Se ia com o meu marido, só para eu me despachar -- pois achava um absurdo eu perder tempo a experimentar chapéus, se era para não trazer algum -- dizia: 'Esse é bom, vá, traz esse.', fosse qual fosse. Mas eu não trazia pois não teria onde usá-lo. 

Houve uma altura que usei, de feltro, discretos, elegantes, mas, ainda assim, era sempre olhada com alguma curiosidade. A moda dos chapéus, nos tempos recentes, nunca pegou em Portugal.

Mesmo que pense: 'Se gosto tanto de chapéus, o que me impede de os usar?', há sempre o lado prático das coisas. Ia onde com um chapéu artístico: ao supermercado? Ao shopping? Almoçar ou jantar fora? Ao museu? Ver uma exposição? Onde...? Não faria sentido, seria a única nesses preparos, seria como se estivesse deslocada no tempo e no espaço, uma carnavalesca deslocada.

Agora, quando está frio, quando vamos fazer as nossas caminhadas, uso um de que gosto muito, um modelo muito engraçado num veludinho macio, castanho escuro. Ainda hoje o meu marido se riu a olhar para mim, disse que eu parecia 'de leste' com aquele chapéu. Mas aqui não há problema: com este tempo somos praticamente os únicos malucos a andar na rua e, além do mais, este frio justifica-o bem.

Mas este meu gosto não é só com chapéus: mesmo com as roupas, existe em mim uma certa contradição: por um lado, sou atraída por roupas divertidas, com um certo toque de exuberância e graça, mas, por outro, não gosto de me sentir a doida fugida do manicómio. Por isso, tenho uma certa pena que a moda comum, do dia a dia, não ouse, não desafie convenções, não resulte da criatividade individual em que cada um possa misturar peças irreverentes, engraçadas. 

Há tempo, partilhei um vídeo no qual uma actriz britânica que admiro bastante lia um poema. Essa actriz é bastante heterodoxa, audaciosa, usa vestidos com decotes ousados e rendas à vista, casacos de veludo com golas de pele e enfeites insólitos, chapéus nunca vistos, toda ela quase vitoriana. E achei graça à reacção de uma amiga minha: 'É parecida contigo, muito o teu género, não é?'. Fiquei surpreendida, não me tinha ocorrido tal. Olho para mim como sendo muito mais convencional. Mas nunca nos vemos como os outros nos veem. 

Ao ver o vídeo abaixo, todo ele feito de pessoas e coisas realmente inexistentes, não posso deixar de pensar que ali, naquele mercado, eu estaria em casa. Tudo ali me agrada: as maquilhagens, os penteados, as toilettes, as bijuterias, os excessos e as graciosidades, os chapéus, as batatas e cebolas e frutas à mistura com coelhos e galinhas e todos os objectos que se vendem naquele mercado, as pessoas e os bichos que o frequentem, a graciosidade, a alegria, o toque festivo da pequena loucura.

A Inteligência Artificial tem este lado agradável: permite imaginar mundos alegres, bem humorados, leves, felizes. E a canção, composta também com recurso a IA, é também dançante, ou melhor, flutuante (e uma ameaça para os compositores, para os músicos...).

A propósito do Market Of Impossible Things, a palavra à autora,  © 2026 Kelly Boesch:

Com todas as cenas horríveis que vemos nas redes sociais, quero tentar dar às pessoas alguns minutos para se afastarem desses pensamentos e sentimentos, para que possam imaginar um lugar cheio de bondade e alegria... e um pouco de estranheza. Escrevo sobre isso sempre, mas acho que é importante manter a esperança, sermos fortes e mantermo-nos unidos. Esta obra chama-se "Mercado de Coisas Impossíveis". Mais um conto de fadas para adultos :-)

Faço muitos vídeos sobre mercados. Adoro explorar feiras de rua, observar as pessoas e imaginar histórias sobre as suas vidas. Criei estas imagens usando um bonito código de referência ao estilo #Midjourney. A animação foi feita com #VEO3 e #Pika. O VEO não anima as crianças, por isso usei o Pika para estas imagens. O novo lançamento deles é ótimo. Letra escrita por mim, Kelly Boesch. Música criada sob a minha direção criativa com a ajuda de Suno.


Votos de uma boa semana.

Dias felizes

domingo, janeiro 18, 2026

Komorebi

 

Acabei de ter uma grande alegria. Aprendi uma coisa e percebi que, na volta, não sou maluca de todo.

Vou contar-vos. 

Tenho um hábito, coisa muito minha, que me leva a ficar a olhar para os muros, para as paredes, para o chão, e que me deixa encantada. É como se o mundo dito real, palpável, se desdobrasse em vários outros, ao mesmo tempo efémeros e imarcescíveis. 

Se tenho comigo o telemóvel, fotografo. Senão, muitas vezes vou a correr buscá-lo. Dantes usava a máquina fotográfica, mas tantas se estragaram que desisti. O telemóvel serve bem. Então fotografo o que me encanta. 

Mesmo à noite, quando vamos passear com o cão, deixo-me ficar para trás para fotografar. Fotografo a sombra que a luz dos candeeiros projecta nos muros, fotografo as árvores contra o céu escuro, quase a sombra que as árvores nocturnas espelham no céu. 

Esta fotografei há pouco, achei-a linda

O meu marido apressa-me, não lhe parece bem que, à noite, as ruas vazias, e isto já para não falar no frio ou na chuva, eu atrase a marcha, me demore, me deixe ficar sozinha. Dantes perguntava o que é que eu estava a fotografar. Agora já se deixou disso. Quando perguntava, muitas vezes eu respondia: 'Nada'. E não era para ser antipática, era mesmo porque achava que ele não ia achar muito lógico se eu dissesse  que estava a fotografar sombras. 

Tenho incontáveis fotografias disso: a sombra que as coisas fazem. A sombra fugaz. Daí a instantes, a posição relativa das coisas face ao sol (ou ao foco de luz) estará diferente, as sombras estarão diferentes ou inexistentes. Ou se o vento agitar as coisas, a sombra perderá a sua nitidez. Adquirirá então movimento, tornar-se-á fluida, ainda mais lábil.

Não comentava com ninguém, ou até escondia, este meu encantamento. Achava que, se falasse nisso, as pessoas achariam que eu não era boa da cabeça e eu teria dificuldade em rebater, se calhar é mesmo pancada. Se me dissessem que eu estava a enaltecer uma coisa banal, uma coisa a que qualquer pessoa normal não atribuiria qualquer relevância, iria pôr-me a falar da beleza poética do que é imaterial, do que não deixa rasto? Estaria a enterrar-me ainda mais, não é?

Mas eis que agora me aparece um vídeo em que se dá um nome a isto. Komorebi. A luz do sol filtrando-se através das árvores. Ou seja, não apenas não é maluquice minha como até tem um nome. Adorei o vídeo: fala-se sobre o assunto, fala-se da beleza das sombras etéreas, intangíveis, móveis, belas, fala-se do que se pode contemplar em silêncio, do que se pode sentir dentro de nós. 

A beleza do Komorebi: como os japoneses veem a luz filtrada

Komorebi é uma palavra japonesa que descreve a luz solar a filtrar-se pelas árvores.

Neste vídeo, exploramos a beleza do komorebi e como os japoneses veem a luz filtrada não apenas como algo que vemos, mas como uma experiência serena de tempo, natureza e presença.

Das florestas e ruas da cidade à arquitetura, jardins de chá e vida quotidiana, o komorebi revela uma forma delicada de perceção do mundo. Ele lembra-nos que a beleza não exige atenção. Ela espera por ela.

_____________________________________

E bora lá votar.

E um belo dia de domingo

sábado, dezembro 06, 2025

A fronteira impossível
-- Arte... ou pós arte? Ou arte inumana? Talvez arte ex machina...? --


Gosto de ver pinturas ou vídeos gerados por Inteligência Artificial. Eu própria gosto de transmitir inputs aos algoritmos para que me surpreendam com imagens geradas informaticamente. 

Mas, de todas vezes, sinto aquela perplexidade que vem de não estar bem a perceber qual o caminho que as coisas levam. Ilustradores, designers, criadores de animação...? Continua a haver futuro para quem trabalha nestes domínios? É que, de dia para dia, se constata o incrível progresso dos algoritmos. É verdadeiramente estonteante.

O vídeo abaixo é disso exemplo. A única coisa real é o ficheiro que contém o vídeo que podemos ver -- as pessoas não são pessoas, as coisas não são coisas, a música não foi criada nem interpretada por humanos, etc. Bem, Kelly Boesch, que gizou tudo, é real (digo eu...). 

Por curiosidade é assim que ela se apresenta:

Cinematic AI Art, Animation & Visual Poetry

Bem-vindos ao meu mundo de curtas-metragens surreais com IA, animações oníricas e histórias visuais onde a imaginação, a emoção e a tecnologia se encontram. Crio filmes cinematográficos com IA utilizando imagens generativas, animação por fotogramas-chave e fluxos de trabalho de movimento experimentais para dar vida a ideias estranhas e belas.

Exploro a nova fronteira da criatividade através da produção cinematográfica com IA, arte generativa, design de personagens, narrativa surreal e mundos oníricos digitais. O meu fluxo de trabalho combina geração de imagens por IA, movimento animado, personagens em constante evolução e paisagens sonoras originais para criar filmes que esbatem a linha entre arte e algoritmo.

Lá está... a esbater-se a linha divisória entre arte e algoritmo. É isso, justamente isso.

Mas vejam, por favor, o fantástico vídeo.

Açafrão e Fumo | Vídeo de Dança Surrealista com IA em 4K

Saffron and Smoke. Açafrão e Fumo. Uma festa dançante numa manhã de segunda-feira no mercado das especiarias. Por quê? Não faço ideia 😜 Estava a brincar com os códigos de referência de estilo no #Midjourney ontem à noite e adorei o contraste destas personagens no fundo preto com estas lindas cores suaves. As imagens fizeram-me lembrar algum tipo de mercado internacional, tipo em Marrocos. Assim, criei esta música usando o @suno para acompanhar. Animação feita com #VEO3. Autora: Kelly Boesch AI Art


Enjoy!

sábado, fevereiro 08, 2025

Nada neste mundo existe e foi concebido por quem também não existe

 

STEAMPUNK Symphony | An AI Short Film

An AI Short is a Vintage Symphony that pulls you into the stunning world of Victorian style, steampunk fantasy, Rocco architecture, filled with Victorian charm, intricate fashion, and mesmerizing mechanical artistry. A perfect blend of vintage elegance and futuristic ingenuity



quarta-feira, fevereiro 05, 2025

Segredo

 

Em minha opinião, uma das grandes vozes da poesia. Muitas vezes aqui a tive. É clicar aqui e, depois, ir por aí abaixo, abrindo, lá em baixo, as 'mensagens antigas'. 

O seu prazer em ser mulher, a defesa acérrima do pleno direito das mulheres, pleno direito a todos os títulos, incluindo ao pleno direito sobre o corpo, o uso pleno da palavra ao serviço da poesia, da condição da mulher, do prazer, do amor, da paixão -- tudo isso me encantou desde sempre.

E, depois, a sua intrínseca liberdade. A liberdade do uso íntegro da palavra. Sem medo, sem hesitação, sem inibição ou vergonha. E sem que, com a sua liberdade, embandeirasse em arco. Sem arrogância. Como uma coisa natural. 

Sempre a admirei, não apenas como poeta mas também como mulher.

Estava frágil, em casa, com receio de sair. Além disso, quem se alimenta do amor total a um homem, como ela amou o seu Luís, e da companhia desse homem se vê privada, fica forçosamente debilitada. Chegou ao fim.

Esta terça-feira de manhã tive uma daquelas minhas premonições que até a mim me assustam. Tinha que sair e estava à pressa mas quis ligar o computador. Cá para mim pensei: 'deixa cá ver quem é que morreu...'. E, ao pensar isto, fiquei incomodada. Enquanto o computador ligava, arranjei uma desculpa para um pensamento tão estúpido: pensei que desde já há algum tempo que não aparecia a notícia da morte de alguém do mundo das artes. Mas estava mesmo incomodada, só me chamava estúpida por estar com pensamentos tão parvos. Quando abri um dos jornais, apareceu logo a notícia: Maria Teresa Horta tinha morrido. Só me apeteceu desligar logo o computador. Má notícia. Caraças. 

Enfim. 

Fica-nos a sua magnífica poesia. 

Por exemplo:

Segredo 

de Maria Teresa Horta


Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar
nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

Maria Teresa Horta in 'Minha Senhora de Mim' -1972

domingo, fevereiro 02, 2025

O jogo dos pombos -- o retrato de um certo Portugal (e de uma Lisboa desconhecida)

 

Num dia que para mim é triste, limito-me a transcrevo um artigo de Nowness (porque é importante documentar práticas que parecem em extinção num mundo em que o passado parece esvair-se sem deixar rasto):

Portrait of a Place: O Jogo Dos Pombos

Em Lisboa, o columbófilo Senhor Jorge Cunha continua a antiga prática de treinar e competir com pombos, reflectindo sobre uma rotina inalterada numa cidade em evolução

Como janela para a vida do Senhor Jorge Cunha, um columbófilo de Lisboa, o realizador George Daniell capta uma rotina inalterada pelo tempo para a curta-metragem O Jogo dos Pombos. Na capital portuguesa – uma cidade que está a ser rapidamente engolida pela gentrificação e pelo turismo – Jorge continua uma ocupação histórica que está a desaparecer na modernidade, seguindo diariamente a mesma prática por dedicação ao treino e cuidado dos seus pombos.

Trabalhando num estúdio em Lisboa, junto à casa que Jorge partilha com a sua mulher e ao pombal que alberga os seus pombos, Daniell testemunhou a rotina de Jorge a desenrolar-se como um relógio, acordando cedo para limpar o pombal e voar com os pombos. Fascinados por aprender mais sobre o seu ofício, formaram uma amizade e conectaram-se através da antiga prática da Columbofilia – ou corrida de pombos – que logo se desenvolveu na base do filme.

“Observava o Jorge e os pombos quase todos os dias, cativado pela sua dedicação à rotina. Passado algum tempo, tentei fazer perguntas ao Jorge sobre os pombos no meu português macarrónico. Lisboa é uma cidade que está a ser rapidamente engolida pela gentrificação – ver Jorge a cuidar dos seus pombos é um pouco como voltar atrás no tempo, por isso pareceu-me algo que queria documentar.”

Aprimorando a prática manual que realiza repetidamente, Daniell e o diretor de fotografia Duarte Domingos espelharam o processo analógico de Jorge ao filmarem inteiramente em película de 35 mm e 16 mm. Através das reflexões do Senhor Jorge e da poesia visual dos pássaros em voo, O Jogo Dos Pombos observa um modo de vida tradicional numa cidade em rápida mudança, como um fragmento duradouro do passado de Lisboa que continua no seu presente.

In Lisbon, pigeon fancier Senhor Jorge Cunha continues an ancient practice in a fast-evolving city

quinta-feira, dezembro 19, 2024

Apesar dos tremendos riscos e apesar de ainda não estarmos bem a ver o impacto que vai ter na nossa vida, há que reconhecer que isto é absolutamente extraordinário

 

O ChatGPT é uma preciosa ajuda em tudo e mais alguma coisa e está cada vez melhor. De vez em quando ainda alucina e a gente, quando desconfia ou se quer certificar, deve cruzar informação. Mas na maioria das coisas é uma coisa espantosa. Conversa como uma pessoa, é um manancial infinito e instantâneo de informação. E gera imagens (embora, neste capítulo ainda tenha uma vontade demasiado própria, desobedecendo frequentemente ao que mandamos) e faz trinta por uma linha. Mas, em geral, é precioso.

Por exemplo, agora testei a funcionalidade de o pôr a servir de motor de busca. Ainda nem tinha reparado que já dava para isso.

Perguntei: Quais os possíveis candidatos presidenciais em Portugal?
Dito pelo ChatGPT:
ChatGPT

As eleições presidenciais em Portugal estão previstas para 2026, e diversos nomes têm sido mencionados como potenciais candidatos. Embora as candidaturas oficiais ainda não tenham sido formalizadas, os seguintes indivíduos têm sido destacados:

Candidatos Declarados:

  • Tim Vieira: Empresário e investidor conhecido pela sua participação no programa de televisão "Shark Tank". Anunciou a sua candidatura a 31 de agosto de 2023.

  • Joana Amaral Dias: Psicóloga, comentadora política e ex-deputada. Recebeu o apoio do partido ADN para a sua candidatura, anunciada a 18 de dezembro de 2024.

Candidatos Prováveis ou com Interesse Manifestado:

  • André Ventura: Líder do partido CHEGA e deputado desde 2019. Indicou que poderá anunciar a sua candidatura até março de 2025.

  • Henrique Gouveia e Melo: Almirante e atual Chefe do Estado-Maior da Armada. Ganhou destaque como coordenador da task force de vacinação contra a COVID-19. É apontado como potencial candidato, com possível anúncio em março de 2025.

  • Luís Marques Mendes: Ex-líder do PSD e atual comentador político. Admitiu a possibilidade de se candidatar, com uma decisão esperada nos próximos meses.

  • Paulo Raimundo: Secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP) desde 2022. Não descartou a possibilidade de se candidatar às eleições presidenciais.

  • José Pedro Aguiar-Branco: Presidente da Assembleia da República desde 2024 e ex-ministro. É mencionado como potencial candidato presidencial.

Outros Nomes Mencionados:

  • Pedro Passos Coelho: Ex-primeiro-ministro e ex-líder do PSD. Tem sido apontado em sondagens como um dos preferidos para a presidência, embora não tenha confirmado intenção de candidatura.

  • António Guterres: Secretário-geral das Nações Unidas e ex-primeiro-ministro. Também mencionado em sondagens como potencial candidato, sem confirmação oficial.

É importante notar que, até ao momento, as candidaturas oficiais ainda não foram formalizadas, e o panorama político poderá evoluir à medida que nos aproximamos das eleições.

----------------------------------------

Ou seja, varre a internet e sistematiza a resposta de forma organizada. E cita a fonte.

E não é só o ChatGPT, é tudo o que por aí anda que gera conversas com a voz de pessoas, gera vídeos bastante credíveis com gente que já morreu há que anos e um dia a gente não vai saber o que é verdade ou mentira, o que é certo ou errado. Mas, pensamentos peregrinos à parte, que o tempo não está para isso, achei piada a este vídeo. É pacífico, inócuo. Mas tem graça.

Trump and Peanut the Squirrel SAVE THE DAY

What happens when Donald Trump befriends a squirrel and it all goes nuts? Watch as the president embarks on the greatest rescue mission of all time with the help of his elite raccoon squad and a new ally, Peanut the squirrel. From chess games in the park to high-stakes action sequences, this parody short film takes you on a wild ride filled with strategy sessions over McDonald's fries and epic teamwork. Will they restore peace to the park? You don’t want to miss this one, folks—believe me! 🐿️🍟🔥

How this content was made: Altered or synthetic content

Sound or visuals were significantly edited or digitally generated. 


segunda-feira, dezembro 16, 2024

Uma questão de ménage

 

Vou tendo notícias dos meus amigos e vou constatando o óbvio. E só não digo o óbvio ululante porque prefiro não me esticar no vocabulário. Vou manter-me comezinha. E não é que goste particularmente de me ver aqui comezinha mas foi o que me ocorreu. E o óbvio que vou constatando é que hoje é um que tem uma coisa, depois é outro de quem andávamos sem saber e que, afinal, teve uma cena e está internado, num outro dia é uma que é operada às cataratas, e depois é alguém que conta que vai começar a fazer tratamentos. E já nem falo na tristeza que é quando a gente se lembra de alguém de quem já não sabe há algum tempo e aparece alguém que diz, com ar compungido que essa pessoa, infelizmente, já cá não está. Pois é. Não vamos todos chegar aos 120 nem vamos todos de viagem no mesmo dia. Haveremos de ir aos poucos. Mas, felizmente, a maioria ainda está na boa. Mas isto de estar na 'boa' é relativo pois a verdade é que quando não dói aqui, dói ali. Claro que há dias em que não dói nada. Ou, então, dói um bocadinho e a gente cagua nisso (calma, comezinha me mantenho: educadamente interpus um u entre o g e o a -- ah, que sopinha de letras mais gira...).

Como hoje andava a doer-me um bocado o pé, o meu filho disse que eu deveria era fazer mais exercício, que cada vez lê em mais sítios que a massa muscular é fundamental. Não tenho ido fazer deep mix pois estou cada vez mais avessa a compromissos e a horários. Mas, se calhar, tenho que fazer mais do que caminhadas. A lida da casa não é suficiente para não perder massa muscular. 

E, agora que falo em lida da casa, fico a pensar em que mais é que poderei fazer que me fortaleça os músculos. Uma das coisas que me parece que é boa para os braços é varrer. E com aquela coisa que não é ancinho mas que também não é vassoura, raspo a terra onde a relva seca, e isso requer força. E ando com regadores de água. E gosto de lavar coisas. Mas passar a ferro, que também deve dar músculo, praticamente é coisa que já não se pratica cá em casa. E limpar o pó odeio. Mas isso não deve fazer nada à massa muscular. Andar a lavar casas de banho, o chão, roupa, tudo isso é bom para mim. Mas peçam-me para limpar o pó e fico doente. É que para limpar o pó sou meticulosa, reentrância a reentrância, por baixo, por trás, as pernas das cadeiras, das mesas, as traves. Tudo, coisinha a coisinha. E, por isso, levo horas. E odeio, odeio gastar horas de vida com uma tarefa tão sem graça.

Talvez por isso, quando chego a qualquer lado, uma das coisas em que reparo é se é fácil de limpar. No verão estive na casa de uma amiga onde ainda não tinha ido. Estupidamente em vez de louvar a graça dos objectos, o ambiente acolhedor ou a beleza das pinturas, o que me saiu foi: 'Limpar esta tua casa deve ser uma trabalheira...'. Ela riu-se. Acho que nunca tinha pensado nisso. Respondeu: 'Não sei, é a minha empregada que trata de tudo. Desde que me reformei só lhe peço é que não ande com os tarecos à volta enquanto eu estiver a dormir.'

Por exemplo, ao ver a casa aqui abaixo, sem dúvida uma casa fantástica, ainda por cima principescamente decorada para esta época festiva, o que penso é que é casa em que eu não poderia viver: ou teria que andar lá sempre gente a cirandar e a limpar ou, então, aquilo deveria estar sempre carregadinho de pó.

Mas vejam. E inspirem-se.

Inside Richard E. Grant’s Georgian House at Christmas | Design Notes

Richard E. Grant welcomes us into his London home at Christmas. Filled with an abundance of treasures, Richard’s house sits within a walled garden littered with the dark foliage of evergreen topiary and ivy-clad trees, all providing an atmospheric backdrop for the attractive façade of his Georgian house.

“It looks like something that, I suppose, I have fantasised about living in since I was a little boy,” says the Saltburn actor as he sits in the drawing room of his rectory. Watch the full episode of ‘Design Notes’ as we tour Richard E. Grant’s house in Richmond, which has been given a maximalist boost of lavish Christmas decorations for the festive season.


E uma boa semana para todos

terça-feira, outubro 15, 2024

Um rendez-vous
Nº 5, o meu perfume. Uma questão de fidelidade.

 

Também gosto do Chance. Ou do Nº 19. Nos perfumes, já aqui o confessei diversas vezes: sou Chanel. Mas nada chega aos calcanhares do Nº 5.

Dizem que é quente. Não é. Nada. Subtil, misterioso, único. Metamorfoseia-se. Pelo menos em mim, na minha pele, isso acontece,

Um toquezinho e chega. O que é bom pouco basta. 

Chamo a atenção para o vestuário da Margot Robbie, um maravilhoso tecido, um maravilhoso corte, uma maravilhosa cor.

In the new N°5 film, See You at 5, Luca Guadagnino's lens follows Margot Robbie along the roads of California. The story of two lovers' missed connections, where the road to get there is just as important as the rendez-vous itself. Will there be a rendez-vous waiting at the end of the journey? Or is the rendez-vous itself the journey?


domingo, setembro 15, 2024

Há casas e casas...

 

Enquanto escrevo, estou a ver um programa fantástico na RTP 1, 'Em casa de Amália' em Elvas. Muita gente na rua a assistir a contagiantes momentos de partilha com o António Zambujo, o Buba Espinho e o Luís Trigacheiro, apresentado por um José Gonzalez que eu não conhecia mas que é um tipo bem simpático. 

Muito bom. Penso que o país caminha no bom sentido quando se fomentam momentos assim, de comunhão em torno de uma língua comum, em que as pessoas saem à rua para ouvir cantar, quase tudo canções que toda a gente canta, em que há sorrisos no ar. O cante alentejano é maravilhoso. 

Mas não tem que ser o típico cantar alentejano. Canções que muita gente conhece, melodicamente ricas, em que se toda a gente se junta a cantar, são uma riqueza cultural inesgotável.

E estes três jovens cantam lindamente. Estou impressionada. Por exemplo, não conhecia bem o Luís Trigacheiro e tem uma voz e um poder de interpretação extraordinários. Neste momento está a cantar uma que não é muito conhecida (digo-o pois não o acompanham a cantar) mas que é uma canção linda. Estou encantada.

--------------------------------------

Mudando de assunto. Ontem à noite, sem querer, dei com um documentário tocante. Fiquei a ver até ao fim. Foi na RTP 2. Feito pela Charlotte Gainsbourg sobre a mãe, Jane Birkin, mulher de uma inocência e franqueza totais.

Se não viram, sugiro fortemente que ponha a box para trás e o vejam. Partilho o trailer só para se perceber o género. 

Jane by Charlotte - Official Trailer (2022) Charlotte Gainsbourg

Watch the trailer for Jane by Charlotte, a documentary by Charlotte Gainsbourg about her mother, Jane Birkin. It features intimate conversations between parent and child, as well as footage of Birkin performing onstage, and explores the emotional lives of two women as they talk about subject matter that ranges from the delightful to the difficult: aging, dying, insomnia, celebrity, and their differing memories of their shared past, which includes Charlotte's father and Jane's husband, Serge Gainsbourg. 

--------------------------------       ....................      --------------------------------

Como estou com um olho no burro e outro no cigano (e espero não ser censurada pela utilização deste ditado popular), não me dá para me pôr para aqui agora com divagações. Vou já direita ao assunto.

A forma como as pessoas vivem por esse mundo varia de uma maneira que se calhar não julgamos possível. Eu, se fizesse programas educativos, incluía o conhecimento de hábitos, dificuldades, excentricidades e gostos ao longo de todo o planeta. Penso que é bom que tenhamos noção das disparidades, da diversidade. O que aqui podemos observar atesta a criatividade humana quer a nível arquitectónico, quer tecnológico, quer estético ou económico quer a nível da própria sobrevivência.

Pode ser difícil de acreditar, mas as pessoas realmente moram nestas casas


A tod@s desejo um belo dia de domingo

sexta-feira, agosto 02, 2024

Considerações da UJM sobre o que se passa na Venezuela e na cabeça dos maduros do PCP

 

Estes dias têm sido bem animados e poucas notícias tenho visto. Há pouco pus-me a ver os Jogos Olímpicos, momentos exultantes, e, em vez de me pôr a exultar também, adormeci profundamente. Deve ter sido coisa de cinco minutos, não mais, pois logo de seguida o meu marido chamou-me para jantar. Ainda havia arroz de salmão de ontem ao almoço, era só aquecer e juntar salada de alface. 

Das notícias do dia há uma que me está a fazer espécie: a libertação de prisioneiros pela Rússia e pelos Estados Unidos. Parece que foi uma troca. Não sei a que se deve, a que propósito, porquê agora. Alguma coisa é. Se calhar, se me debruçar sobre os Guardians desta vida, facilmente me esclareceria -- mas isso fica para depois, agora ainda estou meio abananada de ter sido acordada à pressão.

Também li (mas só o título) que a temperatura no Antártico está 10º acima da média e palpita-me que isso não são boas notícias. Caraças para as alterações climáticas. Tenho medo.

E também vi a indignação do Partido Comunista Venezuelano ao saber que o PCP apoia a 'vitória' do Maduro. Situação extraordinária esta... O PCP português, sempre, sempre, ao lado dos tiranos e dos ditadores, agora até já actua em contramão em relação aos partidos congéneres desses países que, como se vê, se demarcam da actuação anti-democrática do regime vigente. Uma vergonha. O PCP continua a sua deriva a caminho da extinção. Ninguém os obriga a isso. São eles mesmos que estão determinados nisso. Situação bizarra.

Há dois dias tinha feito um daqueles meus vídeos mas, em vez de falar de abelhas ou da minha voz de Castelo Branco ou de Dona Lady Betty, falava do apoio do PCP ao que se passava na Venezuela. Ainda não sabia da barracada acima referida. Por isso, de certa maneira, o vídeo está um pouco desactualizado.

Mas, por hoje, é o que me apraz partilhar convosco. 

Ainda tenho que ir ali pôr creme hidratante no corpo porque, há bocado, tomei banho e não o pus pois com miúdos cá é tudo tão à pressa que não dá para frioleiras dessas. De manhã, quando fui ao supermercado, comprei um de azeitona e estou curiosa. Só espero que não me deixe a cheirar a azeite. 

In heaven não se fala só de abelhinhas e de coisinhas fofas, também se fala das cavaladas do Maduro e das maluquices do PCP


Dias felizes

quarta-feira, julho 31, 2024

Andam anjos in heaven?
Ou vamos mas é ao que interessa: a minha voz é igual à de José Castelo Branco?
(Se acharem que sim, agradeço que me poupem)

 

Dormi que foi um regalo. Acordei tarde, acordei descansada. 

E foi um dia bastante produtivo. 

Tenho sempre muitas coisas que fazer e isso agrada-me, em especial quando são coisas que me agradam (passe a redundância). Mesmo quando trabalhava, quando não havia coisa nova e se entrava quase na monotonia, ficava stressada. De vez em quando, o Grupo comprava empresas e era preciso assimilá-las rapidamente, metê-las no perímetro de gestão das empresas do grupo (metê-las no sentido de enfiá-las, nem que fosse contra a vontade delas), organizá-las, pô-las a funcionar como as demais, e tudo em prazo recorde. Se grande parte dos meus colegas ficava em ponto de rebuçado, achando que eram prazos impossíveis, que as circunstâncias eram irrealizáveis, toda eu vibrava.

Nada me agradava mais do que ter desafios que pareciam irrealistas e equipas descrentes ou equipas que tinham que ser formadas à pressão para começarem a colaborar nesses projectos. Mesmo quando era acusada de me atravessar 'à maluca' ou me atirar para a piscina ainda sem saber se teria condições para isso, e mesmo se eu própria, cá para mim, me assustava e pensava 'caraças, para que é que me fui meter nisto...?', a verdade é que essa adrenalina era um tónico indispensável para a minha existência.

Agora, reformada, também não paro de me meter em cenas e de me atirar 'à maluca'. Gosto de arriscar, gosto de ir à luta e, apesar das derrotas (que tendo a encarar como percalços naturais), muito dificilmente desisto. Posso ajustar o rumo, posso repensar estratégias mas desistir é para mim muito difícil.

Bem. Adiante.

A meio da tarde deitei-me cá fora e pus-me a olhar para o céu. E só pensava: 'Azul'. Ou não pensava nada, simplesmente olhava. Estive ali durante muito tempo a olhar para o céu e a única coisa que atravessava a minha mente era a palavra azul. Depois reparei que, muito lá em cima, um pequeno pontinho branco se movia. Como estava presa ao 'azul' levei algum tempo a pensar: 'avião'. Mas logo retrocedi e me fixei no mesmo: 'azul'. Depois ocorreu-me que, se calhar, estava a meditar. Para a coisa ser mais consubstanciada, pus-me a fazer respirações. 

No fim estava ainda mais descansada. 

Depois estraguei tudo. Fui aos figos. Comi uns poucos. E isto preocupa-me pois já sei que a balança vai castigar-me. Mas é o que é. Parece que nasci mais para pecar do que para ser abstémica.

E, como habitualmente, andei a passear in heaven e, mais uma vez, me deu para fazer vídeos. Fiz dois. Mas, para não ser uma overdose de maluqueira, hoje partilho apenas um.

Um dia destes tenho que ver se é possível transformar os vídeos feitos com telemóvel em vídeos de écran inteiro. Acho que seria melhor, não acham?


Dias felizes para todos!

quinta-feira, maio 02, 2024

Um cravo é um cravo é um cravo

 

No outro dia vieram cá umas amigas. Estando nós a atravessar o cinquentenário do 25 de Abril, acordei nesse dia a pensar que queria oferecer-lhes um pregador (não sei porquê mas não me dá jeito dizer broche) com o formato de cravo.

Pensei, na minha ingenuidade, que era coisa que deveria haver a pontapé. Portanto, nesse dia, antes que elas chegassem, resolvi ir, num instante, a um centro comercial, daqueles em que há todas as lojas, pois poderia comparar os diferentes formatos e trazer o ou os mais indicados. Uma das minhas amigas tem uma personalidade algo boémia e outra é a serenidade e equilíbrio em forma de gente. Portanto, ou era um cravo adaptado a cada uma ou era um que fosse ambivalente.

Pois, pasme-se: nem um. Corri todas as lojas de bijuteria que se possa imaginar, t-o-d-a-s, nada, depois passei para as lojas de vestuário que também vendem adereços, nada, segui para as lojas que vendem pedras preciosas ou semi-preciosas, nada, e, por fim, já estava a espreitar ourivesarias. Nada. N-a-d-a. 

Não houve uma alma, uma, que se tivesse lembrado de fazer um pregador em forma de cravo, seja ele gráfico, realista, seja metafórico, metafísico, intemporal, abstracto. Nada. Zero.

Acabei por escolher umas florzinhas meio desmaiadas, levemente encarnadas, mais para as margaridas coradas do que para os rubros carnations. Tinha metido aquela na cabeça, não poderia recebê-las sem um flor para porem ao peito.

E, pensando no assunto, pasmo. Não sei como não se transformou já o cravo em símbolo, quiçá a par do Galo de Barcelos ou outros como o das Caldas. Deveria haver peças alusivas ao cravo sejam Bordalo Pinheiro ou Vista Alegre, sejam peças em prata, ouro, plástico, qualquer coisa,  sejam ímans, sejam bugigangas para todos os gostos. E, que eu saiba, nem a grandiosa Joana Vasconcelos se inspirou para produzir uma hiper-mega peça em forma de cravo libertário.

Fiquei com vontade de comprar papel plastificado encarnado, tule encarnado, coisas com que eu própria faça peças para oferecer a quem venha visitar-me e para eu própria ter aqui em lugar de destaque.

____________________________________________________

O vídeo abaixo tem legendagem em inglês mas também se pode escolher a tradução automática para português. 

Portugal - Cravos contra a Ditadura

Portugal: Carnations against Dictatorship | ARTE.tv Documentary

In April 1974, left-wing factions in the Portuguese military staged a coup against the authoritarian regime which had been in power for half a century. The uprising was largely peaceful and went down in history as the Carnation Revolution. But the path to a democratic Portugal was not easy and not without obstacles.


sexta-feira, abril 26, 2024

Foi bonita a festa, pá
25 de abril sempre

 

Um imenso mar de gente em festa, em família, entre amigos. Uma festa intergeracional mas, arriscaria dizer, com uma inédita e inacreditável massa de jovens e de crianças. 

Todas as ruas iam dar ao Marquês. Os relvados da avenida e da rotunda cheios de gente. Muita cor, muita alegria. Gente a cantar, a rir, a abraçar-se, a festejar, a gritar gritos de ordem: um hino à liberdade cantado a muitos milhares de vozes.

Muita emoção, uma emoção contagiante, uma vontade de que as ruas nunca percam a alma, que continuem cheias de gente, que não seja só nos 25 de Abril. As ruas querem-se vivas e alegres. É na rua que as pessoas se encontram, se abraçam, se vêem a rir, que cantam em uníssono. Não é na solidão das redes sociais. É nas ruas. É na partilha, no contacto, na felicidade de estar com os outros que a liberdade e a democracia se mantêm vivas e pujantes.

Em boa hora o meu marido se lembrou de que devíamos ir para a avenida. Estou muito feliz por lá ter estado. 

Desejo que o 25 de Abril se mantenha vivo, cada vez mais festivo, cada vez mais enraizado e pujante, cada vez mais um balão de oxigénio que alimente os nossos quotidianos. E desejo que daqui por 50 anos os meus filhos, os meus netos, os meus bisnetos e trinetos continuem a sair à rua a festejar o dia da Liberdade e da Democracia no nosso querido país.

















































__________________________________________________________

Nota: Caso algum dos que aparecem nas minhas fotografias aqui não quiser estar, peço o favor de me contactar identificando a fotografia que logo a retirarei

_____________________________________________________________________


Galeria de Fotografias do Guardian: clicar (link abaixo) para ver todas

Portugal commemorates the Carnation Revolution – in pictures

Thousands in Lisbon celebrated the 50th anniversary on Thursday of Portugal’s Carnation Revolution, which toppled the longest fascist dictatorship in Europe and ushered in democracy. The almost bloodless revolution was conducted by a group of junior army officers who wanted democracy and to put an end to long-running wars against independence movements in African colonies
Guy Lane
_____________________________________________________________________________

25 de Abril sempre