Mostrar mensagens com a etiqueta Jacques Brel. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jacques Brel. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, julho 01, 2021

A imparável valsa

 


Ontem, depois de ter publicado o post da noite, fui espreitar. E fui apenas porque sim. Porque sim, aliás, não. Estava na data limite e já estava intrigada por ainda não o ter. Mas tinha: já lá estava o relatório do último exame. Li em diagonal e, na minha ignorância, percebi que o cenário não era negro. Uma ou outra coisa confirmada e outra coisa que requeria google. Googlei e fiquei sem perceber bem. Entretanto, os médicos próximos já me descansaram e esta quinta-feira, com todos os exames feitos, vou à consulta da especialidade. Espero que a conclusão seja tão leve quanto o desejo. 

Há bocado, ao falar com o meu filho, dizia-lhe que queria perceber o que me tinha acontecido. Tenho uma questão que é muito minha, muito matricial: perceber tudo. Enquanto não percebo, parece que fico agarrada ao assunto, com necessidade de investigar e aprofundar. O meu marido diz que isto é um defeito meu e passa a vida a dizer-me: esquece. O meu filho diz que eu deveria era estar contente por aparentemente não haver problema de maior em vez de estar a querer perceber o que se calhar não tem grande explicação. Por vezes, as coisas acontecem porque sim e não porque haja uma causa bem identificada. Pode até acontecer que parte das explicações resida numa coisa muito simples: já não tenho vinte anos.

Se as coisas forem tão tranquilas quanto o espero, logo conto. Não gosto de contar coisas quando estou preocupada e, muito menos, contar coisas que possam preocupar alguém.

Por isso, por me parecer que as conclusões do último relatório não são más de todo (capaz de até serem razoáveis) hoje andei ligeirinha, bem disposta, toda cheia de provocações, quase a fazer a cabeça do meu marido em água. Ainda há pouco, quando eu estava a gozar com ele, queixava-se que estava tramado, que tenho andado tão bem comportada... e que, agora, parece que me tiraram a tampa de cima, e já não há quem tenha mão em mim.

Ao fim da tarde, lembrei-me de ir até à praia e ele alinhou. Foi bom. Mas a maré estava cheia, com pouco areal plano e rijo para caminhar e, além disso, estava um bocado ventoso e fresco. Por isso, não deu para lá estar muito tempo. Mas foi bom. 

Vou aprendendo -- ou melhor, forço-me a aprender -- a dosear melhor as horas e o esforço dedicado ao trabalho. 

Mesmo agora, antes de ter começado a escrever este post, estive a ler e a responder a mails e, em alguns casos, estava a escrever e a sentir que estava a stressar. Irritam-me as pessoas irresponsáveis ou os aluados que não percebem o que se lhes diz, plantando-se no meio da organização só para empatar. Então, quando recebo mails daqueles, não consigo evitar aquela vibração negativa que me faz sentir irritada. Mas logo respiro fundo e tento dosear também aquela má emoção que não faz nenhum bem à saúde.

E depois há outra coisa... entrámos em Julho. Começo a sentir o apelo das férias. 

O ano passado, apesar de altamente desafiante, foi um ano tão pesado e tão complexo para mim -- tantas coisas a acontecerem na minha vida, todas ao mesmo tempo, sem conseguir colocá-las em compartimentos que se fossem fechando -- que parece que fiquei a modos que meio esgotada. 

E este ano, apesar de mais sereno -- muito mais, sem comparação -- tem sido também demasiadamente preenchido. Preciso de férias, de um intervalo, de uma interrupção nas minhas rotinas e nas minhas constantes responsabilidades, preciso de conseguir sentir uma coisa que pode parecer básica mas que há séculos que não consigo sentir: que não tenho nada com que me preocupar.

No entanto, esta droga deste coroninha da treta também não ajuda nada.

Devia sentir-me confiante para ir ao cabeleireiro e vir de lá outra, deveria sentir-me confiante para ir para férias, para ir para o Algarve, para um hotel, para ir levar belas massagens com óleos e pedras quentes, deveria  para ir dar um passeio pelo país e sentir-me confiante para ir aos bons restaurantes. Mas ainda não me sinto confiante para isso. Tudo o que sejam espaços fechados me parecem ratoeiras em que, ou estamos sempre de máscara, ou é uma questão de sorte. E custa-me estar sempre de máscara.

Como ando nesta, quando cheguei da praia, peguei na tesoura e cortei um bom bocado o cabelo. Precisei de me agarrar para não ir por aí fora... e fazer um corte 'a garçon'. Mas tenho tanto cabelo que, apesar do lavatório ter ficado cheio dele, ainda mantenho aquela juba que, só de olhar, já me dá vontade de lhe meter a tesoura.

Depois enfiei-me na banheira e tomei um rico banho. 

Havia restos de ontem, não tive que fazer o jantar. Portanto, menos mal. Mas persiste a ideia: tenho que arranjar maneira de descansar mais a sério, de interromper esta sucessão de dias em que há sempre chatices para resolver. Claro que este susto agora também não ajudou nada, foi mais um stress no meio do stress. Mas, enfim, desde que acabe bem, estará bem.

E, de resto, sei bem: sou uma sortuda, na verdade não tenho de que me queixar. 

Portanto, adiante.

[Não tenho paciência para reler este relambório mas receio que esteja num tom de queixume ou lamúria. Não quero isso. Logo, logo, vou lembrar-me de alguma que me empolgue e descanse a cabeça. E logo, logo, hei-de vir para aqui rir e dizer disparates, para espantar estes estados de espírito que não levam a lado nenhum.]

Rir é que é bom. Olhar para a frente é que faz sentido. Nesta valsa a mille temps, o resto -- o tempo em que se olha para dentro ou para trás ou se está a carpir -- é perda de tempo, entretenimento de mau gosto. E essa é que é essa.


And Joy is Everywhere;
It is in the Earth’s green covering of grass;
In the blue serenity of the Sky;
In the reckless exuberance of Spring;
In the severe abstinence of gray Winter;
In the Living flesh that animates our bodily frame;
In the perfect poise of the Human figure, noble and upright;
In Living;
In the exercise of all our powers;
In the acquisition of Knowledge;
in fighting evils…
Joy is there
Everywhere.


– Rabindranath Tagore, Joy
Nobel Laureate

_________________________________________________________

As fotografias e este poema pertencem ao post Ode to Joy do blog de Steve McCurry.
Jacques Brel interpreta La Valse a Mille Temps

__________________________________________________________

Desejo-vos um dia feliz com saúde, alegria e boas notícias

sexta-feira, outubro 26, 2018

Paixão






Ficávamos no quarto até anoitecer, ao conseguirmos
situar num mesmo poema o coração e a pele quase podíamos
erguer entre eles uma parede e abrir
depois caminho à água.

Quem pelo seu sorriso então se aventurasse achar-se-ia
de súbito em profundas minas, a memória
das suas mais longínquas galerias
extrai aquilo de que é feito o coração

Ficávamos no quarto, onde por vezes
o mar vinha irromper. É sem dúvida em dias de maior
paixão que pelo coração se chega à pele.
Não há então entre eles nenhum desnível.


[de Luís Miguel Nava em Do corpo: outras habitações, organização e apresentação de Ana Luísa Amaral e Marinela Freitas
Pintura Os amantes de Picasso com Jacques Brel a interpretar La chanson des vieux amants]

quarta-feira, outubro 19, 2016

Cartas para Anne
- 1218 cartas de um grande amor (clandestino)
François Mitterrand, o louco amante de Anne Pingeot


Chegarão cá e eu, que gosto tanto de cartas, lê-las-ei.

Para já, vou sabendo que a escrita culta, de sumptuosa gramática, transbordante de paixão e toda ela revelando cumplicidade e amor, mostram um François Miterrant completamente enamorado por uma outra mulher. A outra. Não Danielle, a sorridente legítima, mas a outra, a que todos desconheciam. Depois a que todos fingiam desconhecer. Anne Pingeot.




Na inauguração do Musée d'Orsay,
Anne é a cicerone vestida de branco,
com uma flor branca no cabelo e capa vermelha,
que acompanha a visita à área de escultura
com Miterrand e outros

Casado com Danielle, François, então com 47 anos, caíu de amores por uma jovem de 20. Era bela, culta, filha de uma família conservadora, gostava de arte. Ele o seu tutor, ansioso por ensiná-la. Ela a jovem cativa.

O amor durou até François morrer e encontra-se expresso nas imensas cartas que escreveu a Anne, sua namorada, sua amante clandestina. 


Formada em História de Arte, foi à escultura que Anne, a mulher-sombra, se dedicou, trabalhando no  Louvre e no Musée d'Orsay.


Vimo-la com um véu, tristíssima, no dia em que o mundo a conheceu, no dia em que o seu amor foi a enterrar. Era ela, a mulher que trouxe preso o coração de um dos homens mais importantes da Europa recente, a mãe de uma filha nascida fora do casamento oficial de François. Vimo-la, então, consolando a filha de ambos, a menina de seu pai, a jovem Mazarine. Muito perto, aceitando a situação, Danielle, a legítima com os filhos.

Então como depois, as fotografias mostram que Anne é uma mulher bela, uma estatura elegante, uma beleza serena e distinta. 

Discreta durante a vida do seu amor e discreta depois do seu amor se ir, Anne não deu entrevistas, não procurou o perdão da sociedade mais conservadora que tanto censurou o adultério de Miterrand, não procurou a luz da ribalta.

Até que agora cedeu ao pedido e mostrou que, aos olhos do seu enamorado, ela não era sombria mas luminosa. Anne aceitou agora revelar a imensa paixão que François nutriu por ela ao longo de tantos anos. Não sabe se fez bem ou mal ao fazê-lo. Esperou que Danielle também se fosse, não quis dar-lhe mais esse desgosto. Esperou. 

E, lendo excertos de algumas cartas das cartas de amor de Miterrand, enterneço-me.

No amor, no amor grande, todas as pessoas são iguais.
Frágeis, carentes, inseguras, ternas, exageradas, infantis, generosas, delicadas, arrebatadas -- assim são sempre as pessoas que muito se querem, que desenham caminhos de luz que só elas vêem, que se aproximam em pensamento mesmo quando os corpos estão longe, que se sentem docemente dependentes uma do outra, que anseiam por uma palavra, por um gesto, que vivem para o momento em que, de uma qualquer maneira, conseguem sentir-se próximas.
Transcrevo excertos de cartas que obtive na Elle francesa e no Le Figaro e, porque não saberia traduzir mantendo a intensa toada das palavras de amor tal como foram pensadas, peço-vos desculpa mas deixo-as em francês:

« Vous êtes pour moi la vie, la mort, le sang, l'esprit, l'amitié, la paix, l'espoir, la joie, la peine. Tout cela cogne, fait mal, ou bien émerveille et purifie »

« J'aime mes mains qui ont caressé ton corps, j'aime mes lèvres qui ont bu en toi, j'aime le goût de ton être mêlé de soleil et de lumière, avant de m'endormir j'ai évité de frotter la journée de mon corps à grande eau comme je fais toujours pour garder ta trace, ton parfum, ta présence vivante sur lui. » 

Ela, a quem ele chama Anne Chantilly, Nannon, Nannour ou Animour, retribui:

« Que j'aime ces merveilles que tu n'écris que pour moi ! » 

« J'aime toutes tes folies, toutes celles qui arrachent d'un gluant quotidien. Avec toi, on ne se laisserait pas faire par ce qu'on ose appeler 'la vie'. Ô mon créateur de joie, je vous aime. » 

Nas últimas cartas, dirigidas a Anne em 1995, um anos antes de morrer, François escreve: « Mon bonheur est de penser à toi et de t'aimer. Tu m'as toujours apporté plus. Tu as été ma chance de vie. Comment ne pas t'aimer davantage ? »

___

Mas são muitas as cartas, muitos os excertos que a imprensa já divulgou:

O olhar cúmplice do amante secreto

«J'ai, moi, dépassé le point du non-retour.»

(…) Mais je veux que tu saches aussi ceci: j'ai, moi, dépassé le point du non-retour. Merci ô mon Anne d'être celle par qui j'atteins le sommet de ma course: jamais plus je ne reviendrai en arrière. Je suis à toi, comme hier, aussi intensément mais par mon âme et non mon corps quand je t'écris ceci: depuis toi je ne puis qu'aller et regarder devant moi.

(Nevers, samedi 25 juillet 1964)


«Je t'aime.»

Anne, mon amour,

Voilà, c'est fait, après de longues méditations, de longues hésitations et maintenant la certitude d'une lourde charge: j'ai fait connaître ce soir, à 6 heures, à l'issue de la conférence de presse du général de Gaulle, que j'étais candidat à la présidence de la République. Les moments d'hier soir et de ce matin ont été intenses, parfois dramatiques. Defferre, Maurice Faure, Mollet, beaucoup d'autres… le Parti socialiste a fait bloc pour me demander de mener ce combat… Bref j'en suis là. (…)

Sais-tu que je pense à toi et que c'est merveilleusement utile qu'il y ait l'amour Anne-François? Je t'adore Anne et je porte en moi la hâte de tes bras, de tes lèvres, de ta tendresse, de ta paix. Anne, mon Anne, à demain.

Je t'aime.


(Jeudi 9 septembre 1965, 17h30)

«Ô mon amour de vie profonde»

C'est une vague de fond, mon amour, elle nous emporte, elle nous sépare, je crie, je crie, tu m'entends au travers du fracas, tu m'aimes, je suis désespérément à toi, mais déjà tu ne me vois plus, je ne sais plus où tu es, tout le malheur du monde est en moi, il faudrait mourir mais la mer fait de nous ce qu'elle veut. Oui, je suis désespéré. Le temps de reprendre souffle et pied? Ô mon amour de vie profonde j'ai pu mesurer un certain ordre des souffrances. Ce sera peut-être le seul mot tranquille de cette lettre: je t'aimerai jusqu'à la fin de moi, et si tu as raison de croire en Dieu, jusqu'à la fin des temps. (…)

(3 juillet 1970)

_________________


A quem se aventure pela língua francesa, recomendo:


ou


_______________________



_________________

sexta-feira, agosto 26, 2016

Paris, mon amour



<

Digo que não gosto de Paris no verão mas estou aqui e só me dá para me lembrar dos seus lugares. Não dos lugares turísticos mas dos jardins, ruas e pracinhas, das esplanadas, das pessoas diferentes com que nos cruzamos, da vista da belíssima cidade a partir de alguns telhados, dos passeios pelos boulevards, das bancas de livros e estampas na beira do rio, das livrarias.

E agora estou a lembrar-me de uma coisa que não sei se já aqui contei. Éramos dois casais e andávamos quase sempre juntos mas um dia fomos cada casal para seu lado, acho que eles iam visitar algum amigo num arredor qualquer. Encontrámo-nos à noite e ele vinha com um blusão de pele novo, giríssimo. Nós admirados, não eram o género de pessoas que fossem às compras de roupa, muito menos ele. Mas estavam pouco convencidos. Então o que tinha sido? Não me lembro já bem de todos os pormenores, tenho ideia que, no comboio, tinha entrado um fulano com um malão. Então o fulano, que tenho ideia que era italiano, tinha dito que tinha estado a expor artigos de pele numa passagem de modelos ou exposição, não me lembro bem, e que tinham sobrado umas peças e que não lhe dava jeito ter que expedir aquilo por avião e que se conseguisse vender tudo, melhor. E que, então, tinha proposto vender um blusão por tuta e meia, não me lembro se uns 20 ou 25 euros. E que eles acharam aquilo muito suspeito e que o fulano ainda tinha feito um desconto. E, a modos que contrariados e desconfiados, ficaram com o blusão.

Ora o blusão era um espanto, bom mesmo, uma boa pele, um bom forro, um bom design. Chegaram ao hotel, reviraram o blusão, apalparam, sacudiram, pensando que tinha droga escondida, qualquer treta. Nada. Nem sabiam se o ele o havia de vestir, pois mais do que certo era material roubado e ainda eram apanhados

Mas então ele lá se afoitou e lá o vestiu. Um espectáculo de blusão. Ainda me zanguei por ele não ter trazido também para nós. Eu, que acho que desencanto pechinchas por onde passo, nunca consegui coisa assim.

Mas, pronto, isto foi uma derivação.

Estou aqui na sala, a escrever deitada no sofá, e a olhar para a estante baixa, funda e comprida, onde tenho livros e tralha e, por cima, a televisão e mil molduras.

Uma vez, o mais pequeno abriu a estante e começou de lá a tirar as figurinhas do presépio, os anjinhos, as caixinhas de porcelana, a caixinha com a bússula, a caixinha de música e outras coisas do género. E então, apressadamente, o mais crescido puxou-o por um braço e disse: 'Não mexas no museu da Tá!' e eu achei um piadão porque vi que eles olham essas minhas pequenas preciosidades como objectos de museu. Mas uma das peças trouxe-a eu de lá, há muitos anos, eram os meus filhos muito pequenos, ainda me lembro do meu marido andar com o meu filho às cavalitas: é um bule muito bonito, estou a olhar para ele, tem umas cores suavíssimas, e tem forma de elefante (se não estivesse cheia de preguiça, ia fotografá-lo para o mostrar). Nessa vez trouxe também uns copinhos pequeninos de vidro pintado à mão, com flores douradas e cor-de-rosa velho. Tinha muito medo que se partisse aquilo no avião, tive mil cuidados, e o meu marido sem querer saber, achava absurdo que eu trouxesse aquilo, se se partisse acho que ele até acharia que era bem feito para eu não ter ideias daquelas. Mas chegou tudo intacto. E não sei como, com mudança de casa pelo meio, com tanta miudagem sempre cá em casa, ainda resiste tudo. Nunca os usei, sempre os mantive a bom recato, porque são umas peças mesmo bonitas. Olho para elas e lembro-me de Paris.


E nessa vez, em Montmartre, os miúdos posaram para serem retratados a carvão. Mesmo bonitos. Quando lá voltámos, já mais crescidinhos, no mesmo sítio, posaram para uma caricatura. As mesmas feições, engraçados. Mas cansavam-se, muito museu, muita caminhada. No entanto, divertiam-se. 

Também acho que já contei. Uma vez fomos jantar para a zona Des Halles, íamos à procura de um certo restaurante. Mas os miúdos estavam estafados e o meu marido impaciente, quando chega a uma rua com restaurantes, por vontade dele entra no primeiro - e, então, vimos um com uma decoração muito bonita, em tons de violeta e preto, com uns castiçais entre o design e o romântico, com umas flores altas muito bonitas. Pronto, ficamos é já aqui.


Pedimos - sempre aquela festa, os miúdos a quererem experimentar tudo - e nem reparámos em nada. Até que, instalados, os amouse-bouche já a sossegar a impaciência, começámos a ver o que se passava à nossa volta. Só homens, alguns muito in love, de mão dada ou aos beijos na boca, outros a darem palmadas no rabo dos empregados, um a beijar na boca um empregado. Nós ali os quatro completamente deslocados. Os miúdos parvos com aquilo, nunca tinham visto por cá nada assim. Depois chegou um todo maquilhado, grandes pestanas, umas calças completamente justas e todo provocante e os outros todos a meterem-se com ele. Os miúdos faziam sinais um para o outro. O meu marido furioso connosco, a não querer que olhássemos ou ríssemos, a dizer que ainda arranjavamos chatice. 

Quando cheguei ao hotel, ao ver os folhetos turísticos, vi que aquele restaurante era um dos mais carismáticos do roteiro gay. Estava explicado.

E a bailarina enorme, completamente gorda, toda Toulouse-Lautrec? De tutu, tules cor de rosa, em pontas, a circular dançando nos Champs Elysées? Ainda hoje a minha filha fala nela.

E quando fomos os dois, romanticamente, em Wagon-Lit? Que viagem tão linda. Gostei tanto.

....

E não vos maço mais com estas recordações, ainda por cima em modo repetex. Isto é falta de férias. Tenho é que lá ir um dia destes.

______

E, para quem não conheça, um vídeo divulgado esta quinta-feira, muito bonito, com Paris num pas de deux com Victoria Dauberville, uma bailarina dos Dot Move.

Transcrevo parte da apresentação:

C’est l’histoire d’une danseuse seule face à son destin, en proie au doute mais déterminée à réaliser son rêve coûte que coûte : danser à l’Opéra de Paris. 

Pour illustrer ce conte moderne, DOT MOVE a relevé le pari de rendre Paris complètement désert pour en faire un terrain de jeu idéal d'une danseuse classique.

Le film est illustré par « Rêve d'Opéra », extrait du conte musical les « Souliers Rouges » écrit par Fabrice Aboulker et Marc Lavoine

RÊVE D'OPÉRA




____

Lá em cima era Jacques Brel interpretando Les prénoms de Paris

As imagens mostram pinturas no museu de que mais gosto e que visito de cada vez que estou em Paris: o Musée d'Orsay.

Os autores são, respectivamente: Jean-Auguste Dominique Ingres, Paul Gauguin, Claude Monet, Auguste Renoir, Toulouse-Lautrec, Gustave Courbet e, finalmente, os jovens gregos são de Jean-Léon Gérôme, 
_____

segunda-feira, abril 13, 2015

Lisboa, a bela - a cidade, as ruas, o rio, a luz, as cores tão doces [1º de 4 posts]


Lisboa é uma cidade de uma beleza inacreditável e muitas mil vezes que a percorra nunca o meu encanto deixará se ser o mesmo, um encanto cheio de surpresas, de deslumbramento. A luz que envolve Lisboa é uma luz limpa, que reflecte o azul do rio, que se adoça com as árvores, as flores, a patine das paredes. Cada vez mais penso que Lisboa é muito bem capaz de ser a cidade mais bela do mundo.

E eu fotografo-a sem parar, cheia de amor por esta cidade que se renova, que acolhe, que abraça. E cada fotografia que aqui partilho é a minha maneira de vos mostrar a forma como eu vejo esta cidade tão feita de tanta gente, e de recantos e de carinhos e de convívios, e de segredos.




Apesar de lá dizer 'fado' enquanto estive no Mirador de S. Pedro de Alcantâra,
este senhor cantou umas belas canções franceses, envolvendo quem o ouvia numa doçura dourada


As ruas que descem para a zona da Lapa, com o Tejo e a rive gauche  em fundo

Lisboa a descer do Castelo, bela, bela


No Príncipe Real, a paz da tarde, com o rio em fundo


Glicínias e jacarandás - o suave colorido de Lisboa, a bela


quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Um homem de mãos vazias


Estava numa festa em vossa casa. Como sabes, não aprecio extraordinariamente este género de coisas mas, uma vez por outra, vá lá..., e gosto imenso da vossa casa, é grande, bonita, bem decorada. Estava muita gente, grande parte da qual eu não conhecia, muitas apresentações e eu logo esquecendo o nome, o rosto, a conversa, porque todas as conversas são de circunstância, e há muitos risos, muita desatenção e, consequentemente, muitas frases cortadas a meio.

Deambulava por ali, de máquina na mão (é uma desculpa para não ter que fazer conversa com ninguém), como sabes sou a fotógrafa do grupo, uns queixam-se, outros agradecem, alguns grupos formam-se para dizer cheese de boca aberta para a posteridade, outros fazem de conta que não querem, com a mão fingem que tapam o rosto mas riem, são os que mais querem, mas querem mais que isso, querem que se implore uma fotografia e eu uns dias faço-lhes a vontade, vá lá, deixa lá, estás óptimo..., outras vezes prego-lhes a partida e vou-me mesmo embora.

Eis senão quando vejo a porta da biblioteca meio fechada e, ao espreitar, vejo-te num cadeirão, não percebi se ensonado, se aborrecido. Às escondidas, fotografei-te. Estavas bonito, como sempre. Lá fora a tua mulher, sofisticada e quase intelectual, a fazer sala e a distribuir jogo e tu aqui, isolado. Intrigante. Mas ela já nos tinha dito que andas cansado, mal dormes, muitas viagens, muito stress, a crise, a bolsa, as imparidades, os accionistas, agora o fecho e apresentação de contas, tantas maçadas.


Depois afastei-me, voltei para a sala, entretive-me por ali. Até que me cansei de vez, estas coisas cansam-me sempre. Não fazer nada e estar sempre a sorrir cansa-me mais do que escrever de seguida durante dez horas ou conduzir reuniões tensas durante um dia inteiro, sem almoço.

Fui então até ao jardim. Fotografei flores, fotografei árvores, fotografei o vento a dar nas árvores, fotografei a minha sombra nas paredes. Ainda se ao menos houvesse crianças por aqui. Mas não, só adultos palradores e sorridentes.

E então reparo que te preparas para sair, és o dono da casa e vais-te embora, provavelmente é uma saída à francesa. Escondo-me e fotografo-te. Óculos escuros, um giraço, versace de alto a baixo (há bocado, na brincadeira, diziam à tua mulher que, vestido assim, até fazias lembrar o Sócrates mas ela, que é doce e conservadora, sorriu, abriu as mãos para esconjurar o mal e disse credo!) - vendo-te assim, quem diria que és um CEO stressado?  

Curiosamente, em cada mão levas uns livros e uns cadernos, coisa estranha. Fotografo-te. Sinto-me até ridícula mas não resisto (Life through a Lenz como a Leibovitz).

Depois metes-te no carro e fazes-te à estrada.



E eu, tomada sei lá por que impulso, meto-me no meu e vou atrás de ti. Conduzo até à Cidade Universitária. 

Intrigada, parei o carro longe do teu. Dirigiste-te à Reitoria e eu a pensar que estavas doido, num sábado, onde irias? Mas não, foste apenas espreitar. E eu de longe a vigiar-te. Depois desceste as escadas. Paravas, olhavas em volta. Fumavas, aspiravas o fumo, deixava-lo sair lentamente, os livros debaixo do braço, cachecol cinzento antracite da cor da camisola, cabelo revolto, a ficar grisalho. De longe via-te: alto, magro, quase etéreo, procuravas alguém, alguma coisa.

Temendo que me visses, eu obervava-te, tentando perceber se esperavas alguém, qual a direcção que, a seguir, tomarias, como faria para te acompanhar de longe, sem ser vista.

Uma mulher chegou ao pé de mim e perguntou-me se eu sabia onde era a Biblioteca. Expliquei, não percebeu, expliquei de novo  – e eu sem te querer perder de vista. E a mulher, chata, a insistir, se virava já, se só duas ruas à frente. Quase fui indelicada mas não queria perder-te de vista.

Com a minha máquina, objectiva de longo alcance, foquei-te de novo. Despenteado (era o vento, era o cabelo comprido). O teu ar preocupado, o teu olhar inquieto estava a deixar-me curiosa. Acendeste novo cigarro, a ponta do pé esmagava  o cigarro acabado de fumar, nervosismo nos movimentos. Olhavas o relógio, ajeitavas o monte de livros debaixo do braço, olhavas em volta, voltaste a subir as escadas, talvez para veres melhor.

De repente um carro aproximou-se, encostou, a condutora abriu a janela do lado do passageiro, debruçou-se e falou na tua direcção. Desceste os degraus a correr, aproximaste-te do carro, a minha objectiva sempre a seguir-te. Quando estavas perto e começavas a esboçar o movimento de espreitar pela janela do carro, desviaste-te como se alguma coisa te pudesse atingir e o carro arrancou em grande velocidade. 

(música, por favor)

Ficaste imóvel a olhar para o carro que se afastava. No chão, aos teus pés uma caixa e papéis que entretanto começavam a voar. Num instante todo tu estavas rodeado de folhas brancas que voavam em todas as direcções. Sentaste-te nos degraus, olhar perdido. Puxaste novo cigarro. As poucas pessoas que passavam olhavam intrigadas, algumas fizeram o gesto de tentar apanhar os papéis que voavam, mas vi que encolhias os ombros e as pessoas seguiam.

Fotografei-te vezes sem conta. Olhavas na direcção que o carro tinha seguido, olhavas absorto. Então reparei que disfarçadamente, como se fosse do vento, ajeitavas o cabelo e, de passagem, com as costas da mão limpavas o rosto. Tirei mais algumas fotografias mas logo parei.


Depois, um bom bocado depois, quando já não havia papéis a voar e quando o sol quase caía, puxaste a caixa para junto a ti. Com cuidado arrumaste nela os livros que tinhas trazido e afastaste-te sem olhar para trás. Ias de mãos vazias.

[][][][]

[As fotografias retratam Patrick Dempsey, actor, e a música é 'Ne me quitte pas' de e por Jacques Brel]

  [][][][]

Uma bela quarta feira para vocês, meus Caros Leitores. Que a vida vos sorria.