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sexta-feira, setembro 25, 2026

Envelhecer

 

Das melhores coisas que ouvi sobre o envelhecimento foi que envelhecer é o que acontece quando tudo corre bem.

Concordo plenamente. 

Aparareceu-me, no Instagram, a Bárbara Norton de Matos dizendo mal de umas e outras que não assumem que fazem 'picas' e que tentam fazer crer que estão lisinhas e esticadinhas sem nunca terem ido às 'picas'. Ela, pelo contrário, assumia que ia regularmente e que eram (e são) picas por todo o lado. Dizia que obviamente não tem um pele impecável, sem olheiras e sem rugas, só por si, que é muita pica all over. Não ouvi tudo, há em mim qualquer coisa que, mesmo que surpreendida com o que ouço, rejeita ficar a ouvir. Penso: 'quanta futilidade, credo!', e desando. Mas depois fico a pensar que o mundo é inclusivo, há pessoas de toda a espécie e feitio, e ainda bem que há tanta diversidade. Seria um tédio insuportável se toda a gente fosse como eu. Mas, portanto, retomando: não me informei sobre o que era e eu é que fiquei a perder, agora não sei dizer, tenho ideia, mas não garanto, que são injecções de botox, de ácido hialurónico e de mais qualquer coisa. Isto tendo ela quarenta e tal anos. Dir-se-ia que não precisaria de se injectar toda. Mas aos quarentas e tais pelos vistos quer-se parecer ter vinte. E, pensando bem, qual o mal? Nenhum.

Na volta há aqui um preconceito meu que me leva a compreender que ideia é esta de as pessoas quererem envelhecer parecendo sempre jovens. Mas, dito isto, tenho que confessar que, por vezes, olhando-me ao espelho, penso que, na volta, estou é a ser parva pois, se calhar, com meia dúzia de picadelas ficava com uma aparência mais juvenil. São contradições, bem sei. Felizmente, ocupam um espaço diminuto na minha cabeça. Penso e, mal desvio o olhar do espelho, já se me varreram da ideia.

Não sou de filosofar pelo que não vou pôr-me para aqui a dizer que envelhecer é uma maravilha, só sabedoria. E não digo porque não acredito nisso. Desde que nascemos que não fazemos outra coisa senão envelhecer e, depois, não ganhei sabedoria nenhuma, ganhei foi cada vez mais consciência da minha ignorância. De resto, gosto do que gostava, embirro com o que embirrava, desato-me a rir com o que sempre me fez rir, emociono-me com totozices que não lembram a ninguém e parece que me mantenho calma quando toda a gente está em ebulição.

A nível de saúde, tinha, com alguma frequência, dores inflamatórias em algumas arrticulações, à vez. Por exemplo, às vezes calhava ser um joelho. Mas também aconteceu uma vez num pulso. Sem se perceber bem o que teria desencadeado isso. E isso incomodava-me um bocado pois pensava: será que, quando for mais velha, vou ter isto com alguma frequência e fico impedida de fazer caminhadas, de ir ao ginásio, de nadar? Felizmente comecei a tomar meio comprimido por dia -- metade de um comprimido que é minúsculo (a minha nora deu-me uma caixinha-guilhotina, verdadeiro ovo de colombo, para resolver a dificuldade de partir ao meio um nano-comprimido) -- e não voltei a ter qualquer problema. Uma coisinha ínfima está a resolver um problema que, quando aparecia, me incomodava bastante. Deixa-me cá bater três vezes na madeira que isto de a gente se gabar parece que atrai. Mas isto para dizer que o que era uma chatice, até parece que se evaporou. Na volta, a menos que seja um problema daquelas que a gente se verga de medo, vai havendo solução para tudo, pelo menos para que vamos conseguindo levar a vida na boa. É não desistir, procurar solução. Não pensar: 'ah, isto é natural, é da idade'. Da idade, o escambau. Se é chato, tem é que se resolver.

Penso que já contei que durante muitos anos, muitos mesmo, sempre que encontrava alguém que não via há anos, essa pessoa olhava para mim e dizia com ar admirado que eu estava sempre na mesma. Nunca levei muito a sério pois não podia ser verdade que parecesse ter congelado no tempo. Mas é um facto que creio que a partir da covid me mofifiquei. Não sei por passar tantas horas sentada, ao longo de meses, em teletrabalho, em reuniões ao computador, se alguma vez teria que fisicamente ceder à passagem do tempo. No entanto, creio que continuo a ser a mesma pessoa a nível de descomplicação, de relevar os disparates, os meus e os dos outros (os disparates inofensivos, bem entendido), de seguir adiante e nunca ficar a empreender nas coisas, de gostar de coisas novas, de me perder de encantamento com a arte, com a beleza natural, com os meus. 

E deleito-me com a tranquilidade da imagem de dois patos a deslizarem num lago ao por do sol, com um passeio num caminho ladeado por conjuntos de ciprestes. Coisas simples. Vim do passeio de alma lavada, feliz da vida.

E estivemos, eu e o meu marido, a escolher caixas de arrumação e frascos para diferentes fins, a medir gavetas e prateleiras, a pensar no que lá vamos colocar -- e pode parecer estúpido eu dizer isto, mas é verdade: gostei. Só pensar em como vai ficar tudo tão mais organizado já me dá prazer.

Como se levanta bem mais cedo que eu, quando acordei, o meu marido avisou, no gozo: 'se precisares de ajuda no percurso dentro da cozinha, diz'. Percebi logo que tinha andado, outra vez, a mudar o sítio das coisas. Fui abrir armários e várias coisas desapareceram, outras estão acomodadas noutros lugares. E, misteriosamente, sobra espaço. Como fiquei tão agradada e o vi tão orgulhoso dos seus feitos não quis entrar em pormenores. O que desapareceu? Para onde foi? -- Foram perguntas que não fiz pois as respostas poderiam causar-me frenicoques. Assim, olha, deixa andar. Que está muito melhor, está. E que vai tudo ficar melhor com as caixas, de diferentes tamanhos e materiais, tenho a certeza que sim. 

E faz sentido eu ficar tão bem disposta com uma parvoíce destas? Pois... se calhar não. Mas quem é que disse que tudo tem que fazer sentido?

Hoje ao fim da tarde, ao virmos para casa, o sacrista do carro voltou a acender todos os alertas e a perder força, e estávamos a ver jeito de não chegarmos a casa. Mas chegámos. Não sabemos é se amanhã trabalha ou se tem que ir outra vez de reboque. No sábado tenho uma deslocação imperiosa e não ter carro vai ser uma maçada das antigas. Devo ter que ir e vir de uber o que é chato porque é longe que se farta, não me apetecia nada. Só conseguimos marcar para o concessionário para meados do mês que vem. Deve ser uma avariazeca da treta, um mau contacto elétrico ou coisa do género, pelo menos assim o esperamos. Só que é intermitente e na oficina multimarcas onte vamos não conseguem descobrir. É uma chatice mas, enfim, há coisas piores e não vou estar a apoquentar-me com isso. Mas esta atitude não tem a ver com a idade pois, noutros tempos, eu não conseguiria viver sem carro. Hoje consigo. Mas os tempos são outros, se antes o carro tinha um problema, era problema que não era meu: um motorista enarregava-se de tratar do assunto, de me entregar um carro de subsituição, e eu nem queria cá saber o que é que o carro tinha ou deixava de ter. Agora estamos por nossa conta, essas mordomias acabaram-se. Mas aprendemos a viver sem elas, e tudo bem.

E agora vou mas é dormir que estou com a impressão que este texto andou para aqui aos ziguezagues. Sono, sono, sono. 

As imagens foram geradas, segundo requisitos meus, pelo ChatGPT.

Deixo-vos com o Luís Osório que é menino para uma prosa bem mais burilada do que a minha.

Envelhecer | Postal do Dia | Luís Osório | Antena 1

Envelhecer é tramado e uma oportunidade. Ser velho é tudo e o seu contrário. Mas é o único tempo em que a Sabedoria pode ser alcançada, a capacidade de estarmos para lá do corpo.


Desejo-vos uma boa sexta-feira

segunda-feira, agosto 31, 2026

Breves e soltinhas

 

1º acontecimento

Ontem aconteceu uma coisa que me alegrou bastante. Com sol não consigo andar sem óculos escuros. Não é só o facto de a luminosidade intensa me incomodar, como, sendo eu míope, os óculos são graduados. A minha miopia reduziu-se, é baixa, mas, ainda assim, fico mais confortável usando-os a eles e não uns não graduados. Uso-os há bastante tempo, gosto da armação. São simples, mas sinto que me assentam harmoniosamente. Tenho uns outros, mais fashion, de que também gosto, mas não são tão versáteis e, sobretudo, tenho receio do prejuízo se os perder. Nestas coisas sou muito controlada. Por isso, só os uso quando vou a algum lugar especial. Manias minhas.

Pois bem. Fui ao ginásio, cheguei lá e guardei-os na mochila. Saí de lá, como sempre coloquei-os. Depois do almoço fui sair e não os encontrei. Corri tudo. Nada. No entanto, quando chego a casa, de forma mecânica, descalço-me, pouso o telemóvel, as chaves e os óculos no mesmo sítio. Portanto, não conseguia perceber como poderiam os óculos ter-se evaporado. Mas nada. 

Tive que levar os óculos de reserva. Quando regressei a casa empreendi nova busca: virei e revirei tudo, mesmo os lugares mais improváveis. No dia seguinte continuei à procura, revirando o que já tinha revirado. Já estava a achar que me tinham voado da cara, quando vinha do ginásio.

Pois bem, ontem de tarde pensei: só posso ter feito um movimento não usual e, no acto, impensadamente, pousei-os sem dar por isso. E tendo pensado isto, como se fosse guiada, dirigi-me ao aparador da sala de jantar e levei a mão ao naperon, junto à taça que está a meio. Tal e qual, Teleguiada. E a mão foi pôr-se em cima dos óculos. Fiquei espantada e felicíssima. Ele há coisas, disso não há dúvidas.

Depois, recordei-me: tinha visto que uma bandeja com umas peças que, em vez de estarem no aparador, estavam numa mesinha de apoio. Tinha sido, no almoço de aniversário da minha filha, que, para colocar as bebidas, se tinha retirado parte do que estava no aparador. E, por algum motivo que não atinjo, corrigi o facto quando ainda estava com os óculos. Não consigo perceber pois, sempre, s-e-m-p-r-e, tito os óculos mal entro em casa, tal como pouco as chaves e o telemóvel. Mas não há dúvida: os óculos estavam ali. E encontrei-os, e isso é que interessa.

2º acontecimento

E hoje tive uma fantástica surpresa. Andava a ver como está frondoso o meu diospireiro. Apesar dos calores e de temporadas sem ser regado, está verdejante, farta folhagem. Já por diversas vezes pareceu estar ás portas da morte e o meu marido, como sempre, já o quis cortar não sei quantas vezes o quis cortar dizendo 'não está aqui a fazer nada'. Mas eu não sou fatalista, acredito em milagres. A forma como rejuvenesceu e se revitalizou é um fenómeno. Há uns meses deu uns belos dióspiros, que me consolaram. E estava eu a filmá-lo e ia contar que na última vez que aqui tínhamos estado, me cheirou a dióspiro e vi um no chão e um, todo madurinho, que de imediato comi. Já nessa última vez estavam a nascer fora de época. Mas não cheguei a contar isto porque dei com outro. Ainda verdinho e rijo, ainda pequeno. Ora, que eu saiba, já passou a época deles. E nisto começo a ver outro e mais outro e mais outro. O diospireiro está carregado de dióspiros. Nunca teve tantos. Mas reparem: jáé a terceira vez este ano que isto acontece. Juro, não sei que fenómeno é este.

Só me lembro de uma tia do meu marido, uma muito, muito queridíssima, por vezes lembro-me dela e custa-me a crer que já não exista. Tão alegre e querida que era. Uma vez estava cá e ela viu uma pereira pequena com umas quantas peras grandes. E eu disse: 'quando para cá viémos, estava tão raquítica, parecia que não ia vingar, e agora desatou a dar peras'. E ela riu e disse: 'as árvores percebem quando lhes querem bem'. Nunca mais me esqueci. Quando vejo a forma desabalada como tudo aqui cresce, neste terreno pedregoso, e como tudo fica carregado de fruta, penso nisso. Será que sentem que eu adoro tudo isto, que adoro a natureza, que me encanto com as árvores, com os frutos? Não sei, não tenho como saber. O que sei é o que constato.

A chatice é que ainda estes dióspiros, fruto que está entre os meus preferidos, estão pequenos e verdes. Impossíveis de comer. E quando regressarmos, já terão caído. Tenho que avaliar ainda  qual a melhor opção. Por mim, ficaria aqui a vê-los fazerem-se maduros, bons para virem passear dentro de mim.

3º acontecimento

Devo ainda actualizar a situação do meu cabelo. Os meus dilemas nunca duram muito. Aliás, encaminham-se rapidamente para a resolução mal falo deles. 

No dia seguinte, pensei que só um problema sem solução (se é que é um problema, diga-se). Ou seja, o magno problema do rabo de cavalo não tem que ser incompatível com um encurtanço considerável do tamanho do cabelo. Nada que não se resolva com engenharia. Engenharia capilar, mais propriamente. Então peguei na grande massa de cabelo e prendi-a em cima com uma mola das grandes. Depois puxei os cabelos de baixo, junto à nuca, para fora da mola, Tirei uma boa quantidade deles. Prendi-os, resguardadamente. Ao cabelo sobejante, apanhei num rabo de cavalo alto. Peguei nele e com a tesourona da cosutura, que é grande e corta bem, e pimbas, lá vai disto. Um pedação valente. Voltei a soltar tudo, o cortado e o resguardado. E voltei a fazer um rabo de cavalo. Funcionou, consegui, os cabelos de baixo chegaram até ao elástico lá em cima. O rabo de cabelo agora já está bem mais pequenino, nada que se pareça com o que estava, mas não está mal. Depois soltei o cabelo todo e vi como ficava. Bem. Acertei umas pontas para ficar igual dos dois lados. Como tenho muito cabelo, disfarça tudo. Claro que o meu marido ainda nem reparou. E quando lhe perguntar vai dizer que está igual. Só repararia se eu o rapasse à escovinha. Mas, pelo menos, já não vai achar que o cabelo está anos 80.

4º acontecimento

Não é um, são vários. Várias, melhor dizendo. 

As minhas azinheiras estão cada vez mais lindas. Lembro-me bem de quando eram umas moitinhas informes e eu persistia em podá-las para elas ganharem forma de árvore. Foram crescendo, nós ajeitando, e elas retribuindo o nosso cuidado. Estão gigantes, dão uma sombra maravilhosa. E eu deleito-me a olhar para elas. Sentada num banco de pedra, ao pôr do sol, tudo dourado, uma temperatura amena, uma aragem leve, pensei que poder estar aqui a ver e sentir tanta beleza e tanta paz é um privilégio que não tenho como agradecer.


5º acontecimento

Ontem à noite, lembrei-me de tentar descobrir nas redes sociais uns amigos com quem nos dávamos muito na nossa juventude e com quem acabámos por perder o contacto quando os filhos, adolescentes, já tinham, cada um, programas para seu lado. Ora eram namoros, ora eram provas desportivas, ora tinham teste, ora tinham uma festa -- sempre tanta coisa que era impossível encontrar um dia, ao fim de semana, em que todos estivéssemos disponíveis. Progressivamente a coisa foi-se espaçando até que se espaçou de vez.

Encontrei aquele que era o mais popular. Está igual. Ficámos contentes. O meu marido disse logo: 'Manda-lhe uma mensagem, manda-lhe o número, diz qu enos ligue'. Mas reparámos depois que não mexe naquilo há já uns anos, portanto já nem deve ir ver. Vi, lá, os filhos. A mais crescida, da idade do meu filho, já com filhos e um marido já com cabelos brancos; o puto, que era pequenino, já um homem, parecido com o pai, e a mais nova, a que nasceu quando a minha amiga se julgava na menopausa e já de cinco meses ainda andava preocupada por achar que não andava bem do estômago, já uma mulher. Deles, saltei para uma outra nossa amiga, uma bacana. Também muito parecida com o que era. Mais velha, claro, e loura, jamais a imaginaria loura, mas, apesar disso, parecida, o mesmo sorriso. E estávamos a olhar para ela no meio de um grupo em que não reconhecemos mais ninguém, e a dizer que o tempo passa mas que até a tinha poupado. E nisto, ao mesmo tempo, reparámos melhor no velho ao lado dela. Não saltei porque estava sentada. O meu marido apenas soltou um lamento: 'É pá...', desconsolado de todo. Eu nem queria acreditar. Era mesmo ele?!?!? Sim, vendo bem, era mesmo. O velho era o marido, nosso amigo. Mais gordo, mais velho, outro, irreconhecível. Só pensei: 'será que, aos olhos dos outros, nós dois também estamos assim...?'. 

Caraças. O tempo, às vezes, é uma coisa do caraças, mesmo.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

segunda-feira, junho 15, 2026

Depois de um valente susto, um milagre. Talvez, até, dois milagres.
Talvez até por isso, faça coro com as pessoas do vídeo: há que dar valor às coisas boas da vida

 

Este domingo, um dia tão lindo, apanhei um susto enorme: o meu cãobeludo estava com uma bola enorme, no mínimo do tamanho de um ovo, na 'barbela' ou lá como se chama aquela parte da pele do pescoço, ali naquela zona abaixo do queixo, uma bola grande ali pendurada. Sempre fui maricas com os meus e, desde que tivemos a nossa cãzinha, ela, de certa forma, passou a fazer parte dos meus. E este cão, que nos tem dado tantos trabalhos, também o é. À sua maneira, mas é. Claro que fui logo para a IA e recebi possibilidades, umas assim-assim, outras talvez e outras mais perturbadoras. Uma bola tão grande não era forçosamente muito tranquilizante. É que foi tosquiado no fim da semana (para evitar mais sarilhos com a porcaria das praganas, que ainda há três ou quatro dias saiu de uma infecção numa pata por causa de uma) e, portanto, poderia já a ter e não termos visto, debaixo de todo aquele pelo. Nestas alturas a minha energia esvai-se. Não são só as piores perspectivas que me assustam, é todo o processo, o levá-lo ao veterinário que ele odeia, o ter que fazer tratamentos que ele odeia e não permite, transformando tudo numa complicação, e é, sobretudo o receio do que pode seguir-se. Felizmente, lembrei-me de perguntar ao grupo da família, e no sábado tinham cá estado todos, incluindo a fazer-lhe festas, se tinham reparado. A minha filha respondeu logo que não, e mandou fotografias que lhe tinha tirado: zero bola.

Já tinha marcado consulta, mas a certeza de que todo aquele volume se tinha formado em menos de 24 horas assustou-me. Liguei à veterinária que me disse que provavelmente era uma reacção às vacinas que levou no mesmo dia. Que lhe fizesse massagem circular ao de leve. A verdade é que, depois de ter estado o dia todo sem se mexer, sem comer ou beber água -- o que nos deixou ainda mais apreensivos --, de repente, parece que despertou, bebeu, bebeu, bebeu água como se não houvesse amanhã, comeu, correu, correu e saltou e, aos poucos, com o exercício e as massagens, a bolazona foi ficando mais reduzida.

Portanto, ao fim do dia, comecei a respirar de alívio.

Fui, então, para o jardim, respirei, fotografei, agradeci aos deuses, às flores, às árvores, aos pássaros, aos céus e, no meio do encantamento, descobri um botão de magnólia. Um único. Outro fenómeno.

Quando está com os ramos nus, a magnólia rebenta em mil flores. Depois caem as flores e nascem as folhas. Está agora assim, verde, frondosa. E já não nascem mais flores. Portanto, que milagre é este agora eu não sei. Mas adorei. Fotografei-a de vários ângulos. Há que documentar os milagres.

E o passeio que demos ao fim do dia soube-me que nem ginjas. Antes, quando tínhamos ido andar com o pobrezito, arrastava-se, incomodado, aquela bolazona ali a balouçar, pendurada, e, se calhar, todo ele sob efeito de alguma reacção, sei lá, bem não estava. 

Enfim, parece que o susto já passou. Mas amanhã lá vamos outra vez para a clínica veterinária. Ainda há bocado o meu marido dizia que não sabia como fazem as pessoas de menos posses. No espaço de cerca de uma semana, entre tratamento da infecção da pragana, tosquia, vacinas e a ração que encomendei ontem já lá vão para cima de trezentos e tal euros. E, que eu saiba, não há nenhuma versão económica para tratamentos veterinários no caso de donos de menores recursos. 

Mas adiante. 

Agora, ao sentar-me aqui, vi o vídeo que partilho de um rapaz que faz entrevistas interessantes. Aqui entrevista pessoas de maior idade, ao acaso, e, no fundo, leva-as a reflectir sobre o que fizeram de bem ou de mal na sua vida. Gosto de ouvir. Revejo-me em muito do que ouço, revejo-me no gosto de viver a vida com leveza, no bom que é a gente maravilhar-se com as coisas simples da vida.

Perguntar a pessoas de 70 anos sobre os seus maiores arrependimentos na vida

Neste vídeo, perguntamos a pessoas desconhecidas na casa dos 60, 70 e 80 anos, algumas das pessoas mais velhas e experientes do planeta, sobre os seus maiores erros e arrependimentos na vida, conselhos que dariam a si próprias mais jovens e outros conselhos valiosos que gostariam de ter aprendido mais cedo. Vídeo gravado em Montreal, Canadá.


Desejo-vos uma boa semana a começar por esta segunta-feira

domingo, junho 07, 2026

Ora vamos lá a saber: quanto tempo consegue aguentar-se apoiado/a numa só perna?

 

Hoje a minha filha referiu a importância do equilíbrio numa única perna enquanto indicador da longevidade.

Por acaso, já sabia e até é uma coisa que pratico sempre que vou ao ginásio; e, mesmo em casa, volta e meia gosto de me apoiar numa única perna. Aliás, já o fazia antes de saber disto. Gosto de o fazer.

Então, estive a mostrar-lhes. E ela também esteve a fazer o teste. E um dos rapazes, um verdadeiro pernilongo, também. Mas esse faz toda a espécie de movimentos enquanto, em contínuo e durante um tempo que não acaba, se apoia numa única perna -- só que não conta como termo de comparação pois não apenas ainda só tem quinze anos, recém feitos, como é desportista a sério.

Porque é um tema de interesse geral, para poder partilhar a fundamentação científica, pedi explicações ao Gemini. Para facilitar a leitura, retirei as referências e a explicitação das fontes, nomeadamente os links para os textos científicos.

O Equilíbrio como Biomarcador de Longevidade: O que o Teste da Perna Única Revela em Qualquer Idade
A capacidade de uma pessoa se manter em apoio unípede (numa só perna) deixou de ser vista apenas como um teste de agilidade e passou a ser classificada pela comunidade médica como um biomarcador vital do envelhecimento sistémico. O tempo exato que o corpo consegue sustentar nesta posição serve como um preditor direto da saúde neurológica, cardiovascular e do envelhecimento biológico, aplicando-se desde os jovens adultos até à terceira idade. 
O Declínio Silencioso: Começa aos 30 Anos 
Muitas vezes associa-se a perda de equilíbrio à velhice, mas os dados clínicos mostram o oposto. Investigações da Mayo Clinic publicadas na revista PLOS One comprovaram que, entre a marcha, a força muscular e o equilíbrio, o tempo de suporte na perna não dominante é a variável física que declina mais rapidamente com o envelhecimento .
Este processo inicia-se logo a partir dos 30 anos devido à perda gradual de massa muscular (sarcopenia) e à diminuição da velocidade de condução dos sinais nervosos. O Unipedal Stance Test (UPST) estabelece os tempos normativos (de olhos abertos) esperados para um organismo saudável ao longo da vida, servindo como uma métrica de avaliação da idade biológica:
  • 30 a 49 anos: ~60 segundos
  • 50 a 59 anos: ~45 segundos
  • 60 a 69 anos: ~40 segundos
  • 70 a 79 anos: ~26 segundos
  • Mais de 80 anos: ~10 segundos
Quando um adulto jovem ou de meia-idade falha significativamente estes tempos, o seu corpo está a emitir um sinal de alerta de envelhecimento prematuro.

Isolando o Sistema Neurológico: A Variante de Olhos Fechados
Na prática clínica, os médicos utilizam uma variação avançada deste exame para avaliar a integridade do sistema nervoso de forma pura, eliminando a compensação visual: o Teste de Apoio Unípede com Olhos Fechados.
Ao fechar os olhos, o cérebro deixa de poder utilizar a visão para corrigir a postura. Isto obriga o sistema nervoso central a depender exclusivamente de dois sistemas internos: o sistema vestibular (localizado no ouvido interno) e a proprioceção (os recetores nervosos em músculos e tendões que mapeiam a posição do corpo no espaço).
Por ser um teste de stress neurológico, as médias populacionais normativas de olhos fechados são substancialmente inferiores e revelam falhas de conectividade precoces:
  • 30 a 39 anos: ~26 segundos
  • 40 a 49 anos: ~13 segundos
  • 50 a 59 anos: ~8 segundos
  • 60 a 69 anos: ~4 segundos
  • Mais de 70 anos: ~2 segundos

Mecanismos Biológicos: Por que Razão o Equilíbrio Prevê Doenças Ocultas?
Por requerer uma integração complexa entre o cérebro e a periferia do corpo, a incapacidade de manter a estabilidade unípede (pelo tempo esperado para a idade) serve como um indicador precoce de patologias assintomáticas:
  1. Lesões Cerebrovasculares Subclínicas: Um estudo publicado na revista Stroke da American Heart Association demonstrou que a incapacidade de manter o equilíbrio unípede por mais de 20 segundos (de olhos abertos) está fortemente associada à presença de doença de pequenos vasos cerebrais, micro-hemorragias cerebrais silenciosas e enfartes lacunares assintomáticos, funcionando como um aviso prévio em adultos aparentemente saudáveis.
  2. Declínio Cognitivo Prematuro: Uma redução drástica ou acelerada no tempo de suporte unípede ano após ano serve como um sinal precoce de atrofia cerebral e perda de integridade das vias neurais, antecedendo frequentemente a perda de memória detetável.
  3. Danos Metabólicos e Neuropatia: A dificuldade extrema no teste, especialmente de olhos fechados, indica frequentemente que os recetores periféricos das plantas dos pés estão a perder sensibilidade. Este é um reflexo comum de condições metabólicas crónicas e silenciosas, como a diabetes tipo 2 em fase inicial ou não controlada.

O Impacto na Longevidade a Longo Prazo
Em termos de mortalidade tardia, o estudo clínico longitudinal publicado no British Journal of Sports Medicine determinou que indivíduos de meia-idade e idosos que não conseguem sustentar a posição por apenas 10 segundos (de olhos abertos) apresentam um risco 84% maior de mortalidade por qualquer causa na década seguinte
O equilíbrio não é uma capacidade estática; reflete o nível de atividade física acumulada, a força do core e a eficiência neurológica. Monitorizar e treinar esta competência desde jovem através de exercícios simples do dia a dia é uma das estratégias mais eficazes para preservar a integridade do sistema nervoso e garantir a longevidade funcional.
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Nota

Para fazer o teste em casa, há que ter em atenção o seguinte:

Se quiser testar o seu equilíbrio de forma realista e comparável com os estudos científicos, ignore a imagem do vídeo abaixo (que se destina a mostrar como exercitar o equilíbrio), e siga estas regras:
  • Faça o teste descalço.
  • Cruze os braços no peito.
  • Suba um pé sem deixar que ele toque na outra perna.
  • Acione o cronómetro (e feche os olhos, se for essa a variante que quer testar)
O que INVALIDA o teste (O cronómetro para se):
  • Rodar ou arrastar o pé de apoio: O pé que está assente no chão tem de ficar totalmente fixo. Se o calcanhar ou a planta do pé rodarem, deslizarem ou derem pequenos saltos (saltitar para não cair), o teste termina ali. 
  • Girar ou inclinar muito o tronco: Inclinar o corpo excessivamente para o lado oposto, rodar as ancas ou fazer uma torção acentuada da coluna para contra-atacar o desequilíbrio é considerado uma falha de controlo postural. 
  • Descruzar os braços: Se a pessoa rodar o tronco e, nesse processo, afastar os braços do peito ou das ancas para se agarrar ao ar, o tempo é interrompido. 
O que é PERMITIDO (O cronómetro continua a contar):
  • Micro-oscilações: Pequenos tremores involuntários nos tendões do pé e do tornozelo são aceitáveis. É o sistema somatossensorial a trabalhar em tempo real para manter o eixo.
  • Movimentos da perna elevada: Desde que a perna que está no ar não toque na outra perna, no chão ou em objetos, ela pode mexer-se ligeiramente para ajudar na compensação.
Para garantir a máxima precisão ao realizar o teste em ambiente clínico ou doméstico, o avaliado deve focar-se em manter-se o mais imóvel e "alinhado" possível, funcionando como uma coluna única
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Minuto da Clínica Mayo: 

O que é que estar de pé sobre uma perna só pode dizer sobre a qualidade do envelhecimento de uma pessoa?

Medir a qualidade do envelhecimento de uma pessoa pode ser tão simples como equilibrar-se numa só perna. Pode não ser fácil para todos manter o equilíbrio numa só perna, mas, de acordo com um inquérito da Mayo Clinic, este pode ser um indicador fiável do envelhecimento neuromuscular tanto para homens como para mulheres.
Neste vídeo da Mayo Clinic, o Dr. Kenton Kaufman, professor de investigação musculoesquelética W. Hall Wendel Jr. e responsável pelo estudo, explica as conclusões e porque é que nunca é tarde para melhorar o equilíbrio.

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Portanto, vamos lá todos a treinar, a exercitar. E, caso pretendam atingir a vida eterna, é treinar até conseguir chegar até onde esta bailarina chegou. Mas, e aqui fica um conselho amigo, não o façam em cima dos ombros do vosso marido ou namorado ou companheiro pois ele pode ir-se abaixo nas canetas. 

Ballet nos Ombros: O Impressionante Pas de Deux do Ballet Acrobático Chinês que Encantou Monte Carlo

Um deslumbrante pas de deux acrobático da Trupe Acrobática de Cantão/Cantão, apresentado no estilo frequentemente descrito como "ballet sobre ombros". A performance combina a elegância do ballet clássico com a extraordinária técnica acrobática chinesa, apresentando delicados movimentos de ponta, elevações, equilíbrios e controlo preciso das mãos.

Esta célebre peça está intimamente ligada aos artistas Wu Zhengdan e Wei Baohua, cujo pas de deux de ballet acrobático ganhou o prémio Clown d'Or no Festival Internacional de Circo de Monte-Carlo em 2002. A sua aclamada técnica de "ballet sobre ombros" tornou-se posteriormente uma inspiração fundamental para o ballet acrobático completo O Lago dos Cisnes, coreografado por Zhao Ming e protagonizado por Wu Zhengdan e Wei Baohua.

Um belo exemplo de como a dança e a acrobacia se podem fundir numa performance poética. 

Desejo-vos um belo dia de domingo

domingo, maio 24, 2026

Ainda não faço ideia

 

Sábado animado, a começar com uma ida ao mercado comprar peixe de mar. O meu filho gosta de fazer grelhados, ofereceu-se para tratar do assunto. Com o calor que está, se eu pedisse isso ao meu marido, mandava-me passear ou dizia que fosse eu destilar. Mas o meu filho gosta, e domina a arte do fogo. Sabe atear as brasas, sabe colocar o peixe no momento certo, sabe o momento de retirar. 

E o peixe, que era gigante, estava fresquíssimo, ainda com aquela goma de quem foi apanhado há pouco, cheio de sangue, todo ele feito de mar. Fez-me lembrar quando amanhava o peixe das pescarias do meu avô ou do meu pai, durante o período em que ele resolveu ser pescador (amador, à linha).

Mas, claro, o menino mais novo protestou, quase amuou. E o seguinte também torceu a cara. Preferem carne. Além do mais, lá na praça, pedi para não escamarem para que a pele não se pegasse à grelha, e um deles gosta de comer a pele do peixe. Um outro diz que gostou mas não sei se não estava apenas a querer simpático pois não o vi a repetir e a comer com o mesmo entusiasmo de quando é entrecosto, bolonhesa ou cozido à portuguesa. A menina gostou. E o mais velho não compareceu, foi passar o fim de semana com amigos para festejar um aniversário.

De resto, o tempo anda estranho. Depois da subida a pique das temperaturas, à tarde o céu toldou, estava até húmido. Quente mas húmido.

De manhã o meu marido viu um pássaro quase sem conseguir andar. Conseguiu que ele fosse para o lado da horta, estaria mais a salvo. Mas, quando me contou, pensei que, se calhar, deveria ter dado água ao bichinho. Com estes calores, se calhar desidratam-se. Mas ainda bem que o cão não estava por perto, senão ia haver confusão. Nem quero pensar.

Estas flutuações de tempo parece que não estão a fazer-me muito bem. A noite passada tive uma insónia. Não sei porquê. De vez em quando, talvez uma noite de quinze em quinze dias, não sei, quase não durmo. E, quando quase não durmo, levanto-me com dores musculares. 

Poderia pensar: é a idade, a p... da idade. Mas gosto de ir ao fundo do problema: o que se passa no meu organismo para, de vez em quando, o sono se desregular? E o que se passa no meu corpo para, quase sempre que mal durmo, me levantar com dores no corpo? Já fui à consulta da IA e o ChatGPT e o Gemini são unânimes pelo que já sei que devo tentar que me prescrevam algumas análises para ver se não estou para aqui com magnésio a menos ou ferro a mais. O corpo humano é uma fábrica que requer condução cuidada, cautelosa afinação de parâmetros.

Quero ver se não me deito muito tarde pois a privação de sono notoriamente destrambelha-me para aqui qualquer coisa. Depois de passar uma vida inteira a dormir pouco e a andar sempre nas horas, fresca como uma alface, agora, de vez em quando é isto, um vidrinho.

E estava há pouco a espreitar o youtube quando me apareceu o vídeo abaixo. Parecia-me a Maria João Pires e fui logo ver, com curiosidade. Afinal não é. Mas é uma mulher com piada. Quatro casamentos e nenhum deu certo. E a graça e a objectividade com que fala disso... E fala de outra coisa, essa em que me revejo. Diz que ao fim de muitos anos, organizaram um fim de semana de reencontro de colegas de escola. E que a atenção que agora dedicam umas às outras é muito diferente de quando eram miúdas em que sabiam lá se alguma passava fome ou se tinha problemas em casa. Também comigo acontece não ter a mínima ideia de quem eram aquelas pessoas, quando andávamos na escola. Talvez por ser míope, habituei-me a não me pôr a olhar para as pessoas pois parece até coisa de mau gosto. Portanto, não vejo, passo ao lado. Depois, sou despassarada, distraída, interesso-me por algumas coisas, ignoro as demais. Acresce que, nessa altura, andava sempre apaixonada ou a gerir diferentes paixões. Pouco tempo me sobrava. Tinha o meu grupo de amigas e amigos com quem andava sempre no laré e em festas e idas ao cinema e à praia, e o resto era um vasto grupo de pessoas que por ali andava. Agora tenho curiosidade, sinto simpatia.

Partilho, pois, o vídeo. Dá para escolher legendas em português. (E vejam lá se, assim de repente, não parece a Maria João Pires)

Ainda não faço ideia

Reflections of Life

Passamos grande parte da nossa vida na esperança de que um dia saberemos finalmente exatamente o que estamos a fazer. Que chegaremos a alguma resposta clara e definitiva. Mas talvez parte de ser humano seja aprender a viver com serenidade dentro da incerteza.

Há momentos em que a vida nos pede para olharmos honestamente para nós próprios, para os padrões que repetimos, as histórias que carregamos e os momentos em que nos perdemos demasiado no nosso próprio mundo. Pode ser um trabalho desconfortável, mas também pode abrir as portas a novas perspetivas, em qualquer idade.

Talvez a sabedoria não esteja em ter todas as respostas. Talvez esteja simplesmente em mantermo-nos abertos, prestar atenção e questionar qual a melhor forma de utilizar o tempo que temos. Para nós próprios, uns para os outros e para a pequena parte que cada um desempenha no todo maior.

Com Célia Beaumont. Filmado em Mossel Bay, África do Sul.


Desejo-vos um belo dia de domingo