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segunda-feira, setembro 07, 2026

Como é a casa de uma feminista?

 

Durante muito tempo não quis pensar em mim como sendo feminista. Parecia-me redundante. Claro que era, sempre fui, ferozmente defensora da igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, da igualdade de direitos. Mas sempre senti aversão a clubes do bolinha. Lugares só para mulheres, tal como lugares só para homens, é coisa que me parece absurda. Nunca fui capaz de frequentar 'retiros' só de mulheres, causam-me urticárias clubes de leitura só de mulheres, projectos só de ou para mulheres. Ou só para homens. O mundo é plural e as suas múltiplas derivações também o devem ser.

E sempre me pareceu evidente que o mundo caminharia para a rejeição de privilégios (de classe, de género, de 'raça'), para uma rejeição da homofobia, da xenofobia, para uma rejeição de coisas canhestras e ridículas como a defesa de que o papel da mulher é em casa, a tratar de tudo para que a vida do marido seja mais feliz. Tudo isso me pareciam coisas do passado e que já nem valia apena andar a repisar coisas que tinham passado à história.

Só que não, não passaram à história.

Começam a reaparecer saudosismos, ignorâncias, regressões culturais e civilizacionais. Parece-me impossível que isto esteja a acontecer, mas está. Como se uma coisa que se considerava morta e enterrada, começasse a reaparecer de debaixo das pedras, uma coisa com ar meio decomposto, meio infecto.

Quando andei no liceu, havia disciplinas extra curriculares, para quem o quisesse. Como sempre quis tudo, a minha curiosidade era ilimitade e a minha disponibilidade para me entusiasmar era insaciável, inscrevia-me em tudo e mais alguma coisa. Uma em que me inscrevi, porque me disseram que a professora era fixe, foi Lavores Femininos. Supostamente seria para ensinar as raparigas a serem boas donas de casa e boas mães de família, mas disseram-me que não e, por isso, fiquei ansiosa por frequentar. Aprofessora, por sinal casada com um conhecido general, tinha mente arejada. As aulas eram momentos de animada conversa. Foi a ela que ouvi pela primeira vez que o Hitler tinha um único testículo e que, por se sentir complexado, se terá desforrado e exercido tão gratuita e inenarrável violência. Falávamos de tudo, alargávamos horizontes. Portanto, já nessa altura, e há tanto tempo que isso foi, a ideia que havia é que nós, raparigas, podíamos fazer o que quiséssemos. Eu, pelo menos, sempre assim pensei.

Pensar que aos dias de hoje há anormais, perfeitas anormais, que vêm defender o contrário é quase incompreensível, coisa de gente ignorante e burra.

Há dias ouvi uma dessas descerebradas, certamente também psicologicamente perturbada, descrever as feministas como mulheres que viviam para agradar ao patrão, desprezando a vida familiar. Felizmente nunca estive frente a frente com uma dessas anormais, senão haveria de ter muita dificuldade em controlar-me. No mínimo, levantar-me-ia e virar-lhe-ia costas pois com gente estúpida não vale a pena perder tempo a explicar-lhes que tudo o que dizem é mentira, é pura estupidez.

Morreu há dias uma das feministas mais conhecidas, Gloria Steinem. Sempre que falava sorria. Muito longe de quezílias ou discussões estéreis, limitava-se a falar do que importava. Não perdia tempo a rebater A ou B ou a deixar-se submergir pela espuma dos dias: a sua causa era a da defesa dos direitos das mulheres e era nisso que se concentrava. Mulher de cultura mas também de sociedade, elegante, com um savoir faire que ilustra bem que ser feminista não é ser 'radical' ou 'pouco feminina'. Elegante, sempre bem vestida e bem penteada, Gloria Steinmen tem, neste vídeo um colar que eu não me importaria nada de ter igual. E a pulseira também é bonita.

Aqui, ela mostra a sua casa, um apartamento que começou por ser de um piso, depois comprou o piso de baixo e uniu-os por uma escada interior. E tem um jardinzinho, por sinal com a vedação pintada numa cor de que gosto muito. Se um dia repintar a minha casa, esta é uma das cores fortemente candidatas, talvez um pouco mais clara do que a dela.

É uma casa incrível, com muito bom gosto, com muito conforto, com peças interessantíssimas. Claro que já sabem que o meu lado prático me faz sempre pensar no trabalho que dará limpar o pó daquilo tudo. E numa outra coisa: eu adoro tapetes, almofadas, mantas, cortinas. Mas acumulam pó. Tem que se aspirar muito bem, sacudir, lavar com frequência. Senão podem causar alergias. Vou ser muito sincera e temo que me considerem também muito estúpida mas, ao ver a casa, pensei: não é a casa mais saudável e segura para uma pessoa com mais de noventa anos. É certo que tem o jardinzinho, mas ela diz que pouco o frequentava. E vê-se, ao lado dela, uma bengala, por sinal bem engraçada, e isso significa que já tinha alguns problemas de mobilidade. Ora tanto tapete...

Mas o que eu penso ou deixo de pensar não interessa, o que interessa é a diversidade e beleza de tantos objectos que ela tem, é o conforto daqueles sofás, são os tecidos e as cores, são as pinturas, são as soluções engenhosas (como a do quarto extrra). 

Para quem não atina bem com a língua inglesa, relembra que dá para pôr legendas em tradução automática para português.

Por dentro da casa histórica de Gloria Steinem em Nova Iorque | Architectural Digest

A AD tem o prazer de receber Gloria Steinem para uma visita guiada à sua casa em Nova Iorque, onde vive há muitos anos. O ícone feminista mudou-se para o seu duplex num edifício de tijolos do século XIX em 1968, após o estrondoso sucesso da sua reportagem de 1963, "A Bunny's Tale", que expôs o caso do Playboy Club e impulsionou a sua carreira jornalística para novos patamares. Nos 58 anos em que Steinem viveu na sua casa, esta tornou-se a base perfeita para fazer e testemunhar a história. Foi em 1971 que a sua sala de estar recebeu mulheres dos media e da política, e onde nasceu a revista Ms. A casa de Steinem é profundamente pessoal, repleta de memórias fascinantes da sua incansável carreira e ativismo – um espaço luxuoso e colorido, onde é fácil sentir-se acolhida e instantaneamente em casa. Steinem não pretende deixar de receber mulheres influentes tão cedo.


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Desejo-vos uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira

sábado, março 28, 2026

Mulheres palestinianas e israelitas descalças, de mão dada, pedindo a paz -- para que os seus filhos não matem nem sejam mortos
E que este sábado, 28 de Março, as ruas americanas transbordem de millions and millions a protestar contra Trump

 

Todos os países que desencadeiam guerras são governados por homens. Não que todos os homens sejam belicistas, claro, claro que não. Muito menos se pode inferir que todos os homens têm tendências imperialistas, que são insensíveis ao sofrimento, que são assassinos. Nem pensar. Tenho a certeza que, felizmente, são uma minoria. Mas, nos que pertencem a essa minoria, há com certeza alguma correlação entre terem esses traços e a testosterona. Putin, Netanyahu, Trump -- são disso exemplo, e só para referir casos recentes, cujos actos bélicos estão a desestabilizar o mundo.

No meio deste ambiente frenético em que os mísseis e os drones cruzam os céus, com tanta gente a morrer e tantas cidades a serem destruídas, com a economia alterada e o futuro ameaçado, quase nos esquecemos que a maioria da população é feminina. 

E, enquanto ainda dura a chacina que se verifica em Gaza (e que não vai acabar enquanto Israel não dispuser do território limpo para poder começar a construir a Riviera idealizada por Trump, Jared Kushner e amigos, e, com tudo devidamente higienizado e produtivo, anexado a Israel), eis que mulheres da Palestina e de Israel se juntam em Roma e, descalças, marcham e cantam pela paz.


Seria bom que em todo o mundo -- em todo o mundo, repito -- houvesse manifestação de mulheres pela paz. As mulheres todas na rua, marchando pela paz. Milhões de mulheres. Para que os nossos filhos não matem nem sejam mortos. Sem bandeiras, sem símbolos territoriais ou religiosos. Apenas as mulheres, com vestes simples, com uma echarpe que simbolize a harmonia e a união entre os povos. 

Não sei quem pode convocar manifestações assim mas penso que seria importante que alguém conseguisse fazê-lo. Aqui fica o meu humilde apelo. Contra o belicismo de uns e a cobardia de outros, que as mulheres descessem à rua e fizessem ouvir a sua voz.

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Mães israelitas e palestinianas marcham descalças por Roma num apelo conjunto à paz

As mães israelitas e palestinianas caminharam lado a lado por Roma, na terça-feira, num poderoso apelo conjunto à paz, liderado pelas nomeadas para o Prémio Nobel da Paz, Yael Admi e Reem Al-Hajajreh. Centenas de pessoas juntaram-se à marcha descalça, atravessando o centro da cidade, desde o Ara Pacis até ao Terraço do Pincio.

A "Caminhada Descalça: Apelo das Mães pela Paz" contou com o apoio da administração da cidade de Roma, com uma apresentação coral realizada na Piazza del Popolo. Admi disse que as mães de Israel, Palestina, Líbano e Irão partilham uma exigência: que os seus filhos não morram nem matem.

As duas activistas deverão reunir-se com o Papa Leão XIII na quarta-feira, no âmbito da sua visita a Roma, acrescentando uma importante dimensão diplomática à sua missão de paz.


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Já agora:

Desejo também que, nos Estados Unidos, este sábado seja marcado por uma enchente nunca vista, muitos milhões de pessoas nas ruas de todas as cidades (mais que os 7 milhões da última manif), na manifestação NO KINGS


E cá está o Boss, Bruce Springsteen, a fazer o apelo. E com que intensidade o faz. Vejam até ao fim, ok? 


E vejam também o grande Robert de Niro, o respeitabilíssimo Robert de Niro, a fazer o mesmo apelo

Robert De Niro convoca o maior protesto da história americana para 28 de março: "NO KINGS"


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Um bom sábado

Saúde. Paz.

terça-feira, março 10, 2026

Embora hoje já não seja Dia da Mulher, aqui fica uma análise muito inteligente feito por uma mulher inteligente a propósito de duas mulheres, uma inteligente e outra que talvez também seja

 

Não dou uma casca de caracol furada pelo chamado Dia da Mulher. Não faz sentido haver um dia da mulher. Dizer vacuidades ou verdades requentadas ou repisar no que já toda a gente sabe não acrescenta um pelinho ao assunto. E em vez de pelinho ficava bem era outra palavra menos mimosa mas, como este é um lugar que se quer bem frequentado, vou manter o vocabulário devidamente decantado.

Por exemplo, ao ver como Teresa Morais tentou pôr os arruaceiros do Chega na ordem, pensei que fez mais sobre os direitos e a força das mulheres do que muitos discursos ou manifestações apregoando palavras regurgitadas e mil vezes remastigadas. Mostrou, na prática, quão mais destemidas e frontais e capazes são muitas mulheres do que muitos cacafónicos homens. 

Tinha pensado o mesmo quando, o ano passado ouvi o discurso do 10 de junho da Lídia Jorge. 

Uma mulher de fibra é sempre um monumento. Há vários exemplos disso. Por exemplo, nos Estados Unidos várias mulheres se têm levantado, corajosamente, para defender as suas ideias, a sua interpretação do que é a democracia e a lei e a ordem contra a ignorância e a malvadez dos esbirros de Trump. Liz Oyer é uma delas. 

Mas hoje trago aqui um vídeo em que Joanna Coles, a cujas conversas gosto sempre de assistir, fala de duas mulheres: Melania Trump e Hillary Clinton. Uma análise interessante, um vocabulário inteligente, sobre duas mulheres muito diferentes mas que, na realidade, partilham qualquer coisa de desconfortável. 

A coisa devastadora que Hillary Clinton e Melania Trump têm em comum | Vídeo de Opinião

Numa semana surreal de teatro político, Melania Trump subiu ao palco das Nações Unidas para proferir um discurso sobre paz, crianças e a promessa da inteligência artificial, apenas alguns dias depois de Donald Trump ter ordenado um ataque contra o Irão. Entretanto, Hillary Clinton compareceu perante a Comissão de Supervisão da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, negando com firmeza qualquer ligação a Jeffrey Epstein, mesmo enquanto a longa sombra das ligações de Bill Clinton a Epstein continua a pairar. O resultado pareceu um erro de guião: Clinton, defensora ao longo da vida dos direitos das mulheres, a responder a perguntas sobre Epstein, enquanto Melania, que circulava no mesmo mundo social de elite que Epstein cultivava, dava lições de paz a líderes mundiais. Por baixo do espetáculo encontra-se uma verdade familiar da vida política: ambas as mulheres, de formas muito diferentes, continuam a encontrar-se em palco a encobrir os seus maridos


sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Será que só as mulheres conseguem pintar magníficos nus femininos...?

 

Uma mulher despe-se e mostra-se apenas para ser desejada pelos homens que a olham?

Se uma mulher se ajeitar numa posição que seja esteticamente atraente está forçosamente a querer despertar a lubricidade em quem a contempla? 

E o que dizer se o fizer para que outra mulher a fotografe ou a retrate numa tela?

E, claro, se for homossexual, fá-lo para despertar o desejo noutras mulheres?

Talvez haja quem pense que sim. Mas não forçosamente. 

O corpo de uma mulher é uma obra de arte e tão mais extraordinário quanto parece ser coisa do acaso, coisa transcendente. Duas células que se juntam, se desdobram, se multiplicam. E tudo se vai juntando de uma forma mágica e, no fim, sai um corpo funcional que, ainda por cima, parece habitado por uma alma que ninguém sabe bem o que é. E claro que isto se aplica a um corpo de homem ou de mulher. Mas aqui foco-me no corpo da mulher. Aí a magia é ainda mais extraordinária: os seios que se desenvolvem, os seios que se enchem de leite para alimentar a criança que sai do seu corpo, quando o corpo gerou uma outra vida que começa por ser alimentada no ventre, um ventre que se atapeta e dilata. Tudo milagroso. Retratar o corpo da mulher em qualquer dessas fases é quase um dever. Há muita beleza nisso. 

Tal como é belo o corpo de uma mulher quando as ancas alargam, as carnes se expandem. Ou quando os seios perdem o viço. Ou quando as rugas desenham sulcos e escrevem histórias.

A beleza está na disponibilidade para a beleza. 

Já contei muitas vezes que uma das esculturas que mais me impressionou e na qual penso muitas vezes é uma pequena figura de Rodin, uma mulher de idade, corpo quebrado, pele enrugada. Em tempos uma bela mulher. Em tempos conhecida pela sua beleza. Celle qui fut la belle heaulmière. Uma obra tocante. 

Há tempos, ao ver uma fotografia minha de quando tinha uns vinte e tal ou trinta anos, não sei, surpreendi-me comigo mesma. Disse: 'Era bonita, não era?'. O meu marido respondeu: 'Ainda és.'. Foi simpático. E talvez tenha sido sincero. Eu, que me apaixonei por ele sem o conhecer, apenas porque o achei um pedaço de mau caminho (identicamente ao que aconteceu com ele em relação a mim), ainda o acho bonito, ainda acho que, se fosse hoje, voltaria a encantar-me com ele. Não tem o cabelo comprido como tinha naquela altura, aliás quase não tem cabelo, não tem o corpo tão ginasticado como tinha naquela altura em que praticava desporto federado, tem rugas. E é natural. Mal seria se com a idade que tem ainda se apresentasse de cabelo bem preto, pele esticada e todo bombado. Detestaria, não posso com gente artificial, com gente que não aceita com orgulho a idade que tem.

Com a inundação, as telas que estão na cave e que estavam no chão encostadas à parede foram colocadas em cima da mesa de ping-pong. Outras, felizmente, já estavam num lugar alto. Muitas têm mulheres, muitas delas nuas. Mulheres jovens, sonhadoras, com corações sobre os seios, um coração no ventre, mulheres grávidas, ventres redondos, seios pesados, mulheres guerreiras, caminhando sobre os edifícios, mulheres corajosas, desafiadoras. Por vezes, quando o motivo era mais caliente, apareciam aos pares, pequeninas, num canto, vestidas de freiras, de joelhos a rezar. Mal se viam. Mas estavam lá.

Também pintei corpos de homem. Mas menos. Parecia-me que, para que a pintura fosse interessante, teria que ser pornográfica. Como sou muito ajuizada, evitei-o. Para não ferir susceptibilidades, limitava-me a pintar falos a aparecer onde não eram chamados. A minha filha gozava: 'onde está o wally...?', e frequentemente ele lá estava, muitas vezes disfarçado, quase escondido.

Mas, enfim, vejo agora que me distraí e estou para aqui a escrever um bocado à toa. 

Está a chover imenso, mas mesmo imenso, caraças, e, de vez em quando, vou ali espreitar a ouvir se a bomba que está a funcionar na caleira junto ao portão da garagem continua a funcionar. Mas chove tão torrencialmente que só ouço mesmo a força da chuva a cair. 

Hoje entrou ar na bomba, e funcionava mas a água não era chupada. Felizmente o chatgpt explicou o que deveríamos fazer para lhe tirar o ar. E resultou.

Tentámos pô-la no poço do esgoto das águas pluviais mas não conseguimos levantar a tampa da caixa. É de cimento, pesadíssima, nem mexe. O meu filho diz que só com picareta a servir de alavanca, que vem cá no fim de semana e traz uma picareta. Por isso, por enquanto não há alternativa: temos que tentar extrair toda água que se junta na caleira lá de baixo, a ver se não volta a entrar na garagem e na cave. 

Já conseguimos tirar a água quase toda da inundação mas agora aparece de debaixo dos móveis. E o chão continua molhado. Já não tem altura de água, só que não seca. E já cheira a bafio, vem um cheiro a mofo e a bafio de lá que não se aguenta. Era preciso que parasse de chover para abrir o portão da garagem e para abrir as janelas da casa para o ar circular como deve ser. Agora a chover sem parar não dá. Abrimos de tarde, enquanto não choveu, mas de pouco ou nada serviu.

Mas isto não é nada. O drama que vai pelo país é que é de partir o coração. Meio país debaixo de água.

Ainda hoje, por várias vezes fiquei a chorar ao ver as pessoas em risco de perder as casas ou outras que têm tudo enlameado e estragado. Comovo-me tanto, tanto. Quase tenho que fechar os olhos de tanta pena que sinto, tanta, tanta. E comovo-me quando vejo pessoas corajosas que, perante a desgraça que se abateu sobre elas, conseguem sorrir, dizer que estão vivas e que isso é o mais importante, que o resto se haverá de resolver. Têm esperança em melhores dias. E eu fico toda em lágrimas.

Bem. Adiante.

Comecei com a conversa lá de cima, dos corpos nus das mulheres, influenciada pelo interessante artigo do Guardian. ‘Not for ogling’: forget Titian, Botticelli and the male fantasists – only women can paint great female nudes, da autoria de Rhiannon Lucy Cosslett

Transcrevo um pouco:

(...) Quando Gwen John estava no seu quarto, em 1909, a desenhar-se nua, com o reflexo do seu corpo no espelho do guarda-roupa, o que lhe passava pela cabeça? Na altura, vivia um intenso e infeliz caso amoroso com Auguste Rodin, para quem posava frequentemente. Posar para si mesma, porém, era diferente, para não dizer ousado. John lutava para ser a sua própria musa, em vez de Rodin, mas esta imagem mostra-a livre do olhar masculino.

(...) Durante grande parte da história da arte ocidental, as mulheres não tinham acesso a modelos nus e, se fossem suficientemente corajosas, tinham de confiar no seu próprio corpo. O trabalho que produziam era frequentemente recebido com indignação, desprezo, troça ou indiferença. 

Artigo que vem ao arrepio da espuma dos dias. Gostei de ler.

E, como não me apetece ir agora à cave fotografar as minhas bonecadas, até porque estou apenas de meias e, se fosse assim, ficaria com elas molhadas, pedi ao Sora que me gerasse algumas imagens. Claro que descrevi o que pretendia a nível do 'modelo', do 'estilo' da pintura, do ambiente, juntei umas dicas, etc. -- e claro que algumas saíram tão pirosas que não as ponho aqui. Mas outras aprovei. 

Partilho algumas que, se eu fosse tão habilidosa quanto a Inteligência Artificial -- e não sou nem de longe nem de perto -- e tivesse aqui o material, talvez tentasse aventurar-me a fazer por mim qualquer coisa que se parecesse. 


E vivam as mulheres, e viva a beleza das mulheres em toda a sua nudez
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Desejo-vos um dia feliz
(E tomara que não aconteçam por aí mais desgraças... Se chover em todo o lado tanto como por aqui, temo o pior)

quinta-feira, outubro 23, 2025

Serão os homens uns trogloditas? Uma ameaça para as mulheres?

 

Nunca gosto muito de falar em cima do acontecimento. Não sou repórter. Prefiro falar em abstrato, sobre situações genéricas, indefinidas. 

Além disso, neste caso, estivam presentes pessoas conhecidas. Não quero ser indelicada ou inconveniente.

Em geral, posso até dizer que até gostei de lá estar. Gosto sempre de estar em lugares. Aproveito sempre nem que seja numa perspectiva de observação. Aquilo ali era bem uma amostra de uma certa sociedade. Não direi jet set, até porque estas pessoas não gostam de pertencer a esse género tão mal afamado. Direi antes bcbg (bon hic bon genre). A beautiful people da linha (Estoril-Cascais) ou os agro-betos (os que gostam de se afastar para o campo). As mulheres são globalmente iguais entre si. Fisicamente e na maneira de vestir. Os homens igualmente iguais entre si, identicamente no aspecto e no trajar. As vozes também iguais.

Tenho a certeza que eu não sou igual e que a minha voz é o oposto (quem me acompanha no Instagram, sabe bem que não tenho voz grossa nem o meu registo é histriónico). Mas não que faça para ser diferente: simplesmente, não conseguiria, mesmo que quisesse, ser assim. E não que tenha algo contra estas pessoas. Não. Simplesmente, quando num grupo assim, sinto-me totalmente a ovelha que não encaixa naquele rebanho.

Mas não vou entrar em questões objectivas. Mais depressa, daqui por uns tempos, repescarei alguns episódios desirmanados como o da jovem companheira de um conhecido actor que se descalçou e se sentou sobre as pernas cruzadas ou o incrível bronze de uma comentadora da nossa televisão. Mas mais tarde, agora não.

Hoje quero apenas trazer aqui o meu desconforto sobre o que lá foi dito. Não referirei alguns aspetos mais pitorescos -- realmente insólitos e divertidos --, mas, sobretudo, o tema que foi lançado: no fundo o da guerra dos sexos.

Referiram as oradoras, em especial a principal, que, desde pequenas, as mulheres são ensinadas a tomar cautelas com os homens pois são animal predador. Ia dizer que, segundo ela, são também animal insensível mas a tese dela é que não são insensíveis de todo pois há um tema ao qual são bastantes sensíveis: ao sexo. Segundo ela, salvo disfunções eréteis, estão sempre prontos para o sexo. Mais: diz ela que são relativamente indiferentes a outros atributos (nem ligam muito à beleza ou ao companheirismo ou ao que for) desde que se lhes proporcione a possibilidade de ter sexo.

E toda a dissertação, até a do senhor que também falou, andaram à volta disto: os homens são violentos, os homens fazem coisas que molestam as mulheres, e, por outro lado, as mulheres aprendem desde sempre a sujeitar-se à vontade dos homens, ou, se vão na rua, a temer os homens. E, mesmo em casa, a ter cuidado com o olhar do pai.

E depois afirmava ela que mulher que diga que não tenha tido estas experiências é porque não é mulher, é porque não tem vivido.

Portanto, tendo ouvido dizer isto, fiquei a pensar que, de acordo com esta afirmação dita com tamanha assertividade, não sou mulher. Ou, então, não tenho vivido.

Ora, posso estar enganada mas tenho-me em conta de ser mulher, muito mulher, e ter tido até aqui e ainda ter uma vida bem vivida.

E, no entanto, o meu testemunho é o oposto. Nunca, nunca, em tempo algum, senti qualquer olhar estranho por parte do meu pai, dos meus tios, do meu avô. Nunca, nunca, nenhum colega ou chefe se afoitou a ser inconveniente comigo. Nunca, nunca, nenhum amigo se aproximou ou se insinuou ou tentou o que quer que seja de impróprio comigo.

Poder-se-ia dizer: pudera, feia como uma bruxa, antipática como um animal do mato, como poderia ser diferente? Mas sei que não sou nem tão feia nem tão antipática assim. 

Talvez tenha tido sorte. Mas se todos os homens fossem as bestas quadradas, os trogloditas de que ali se falou, alguns já me teriam calhado na rifa. E não. Nunca.

Mais: constatei ao longo de toda a minha vida que mais 'atiradiças' são as mulheres, mais ousadas, mais destemidas ao darem um passo em frente sem saberem se são bem sucedidas.

Claro que há homens estúpidos, tarados, doentes, atrasados, perturbados e, nesse caso, dado terem fisicamente mais força do que as mulheres, podem ser perigosos. Mas não são todos. São uma minoria.

Os homens, na sua maioria, são boas pessoas, sabem estar, sabem viver civilizadamente, conseguem ter relacionamentos saudáveis. E merecem respeito e carinho. São pessoas de corpo inteiro. Pelo menos, é este o meu testemunho.

domingo, dezembro 22, 2024

Temos que esperar pelo menos uma hora para abusar dela -- disse o marido aos abusadores

 

Hesitei em escrever sobre isto. Nem é o ser chocante. É mesmo a impressão que me faz, uma impressão física. O que sinto é difícil de descrever. Parece que o meu corpo se retrai, se anula. 

É que nem é só o tarado do marido que drogava a mulher e aliciava outros homens para abusarem da mulher, é também os homens, 49 homens que acharam aceitável abusarem de uma mulher inconsciente e que alegaram que tinham o consentimento do marido. Estes 49 homens mais 1, o marido, acharam normal servir-se do corpo de uma mulher inconsciente, sentiram prazer nisso e, pelos vistos, não pensaram que estivessem a fazer nada de mal já que era o marido a convidá-los a servirem-se. 

Há qualquer coisa de demasiado sórdido, de abaixo de humano, de inqualificável à luz da normalidade. E, pelos vistos, eram homens normais, com vidas normais.

Nem vale a pena pregar a dizer que a sociedade está doente. Se calhar é mesmo assim, se calhar uma parte das pessoas têm em si uns genes de sordidez, de imunda e perversa animalidade e é só é preciso que apareça a oportunidade para que ela se manifeste.

Pelo que aqui se vê, há outros sites do mesmo género. Não haverá um único Pelicot. Se calhar, a coberto de uma normalidade que os protege, há mais pelicots estão entre nós.

 Ao não querer um julgamento à porta fechada, ao mostrar o seu rosto ao mundo, Gisele Pelicot teve a coragem de trazer a cobardia e a imundície do marido e dos anormais que a violaram para a luz do dia.

‘We have to wait at least one hour to abuse her’: CNN reveals shocking evidence in mass rape case

In a case that’s horrified France and shocked the world, 49 men are accused of raping Gisele Pelicot after her husband, Dominique Pelicot, allegedly drugged her repeatedly and left her unconscious. The abuse took place over nearly 10 years. CNN has gained exclusive access to a police report containing thousands of messages exchanged by Pelicot and the accused in chatrooms, on Skype and over text, revealing how the alleged crimes could have happened. While the website that Pelicot used to allegedly organize the abuse has been shut down, a CNN investigation has uncovered new forums where rape and sexual abuse are still actively discussed


quarta-feira, outubro 02, 2024

A solidão (e a força) de uma mulher madura

 

O mundo inteiro deita-se a adivinhar se o Irão vai conseguir atirar algum foguete que consiga furar o chapéu de chuva de ferro que cobre Israel ou quem vai agora fazer o próximo movimento. Num artigo do NYT especulava-se sobre que mistério é este de o Irão estar tão sossegado a ver Israel dar cabo, um por um, dos líderes dos movimentos que são a sua força avançada fora de portas. Afinal hoje retaliou mas ainda não percebi se foi para ser a sério ou só um aviso.

Estas coisas são multi-facetadas e não vou nem ousar comentar o que quer que seja. Posso apenas dizer coisas vulgares como que repudio em absoluto movimentos terroristas, radicais, terroristas, retrógrados, cavernícolas, que atentam contra os direitos humanos, em particular os das mulheres. Em abstracto e em geral sou a favor da paz (desde que seja uma paz livremente aceite, não a que resulte da rendição de um povo injustamente agredido). Em absoluto condeno a invasão de um país que não respeite os limites territoriais internacionalmente aceites de outros países. Em geral e em abstracto parece-me uma aberração haver países que têm a sua base matricial não na história, não na língua, mas na religião, não aceitando pacificamente a convivência e a coabitação com pessoas de outras religiões. Em geral e em abstracto condeno em absoluto que se marginalizem ou ataquem pessoas só porque são de outra raça ou professam outra religião. Identicamente condeno em absoluto que se usem crianças como alvos ou meios de guerra. Generalidades.

No caso vertente, e mesmo à laia de aparte, espanta-me a capacidade de Israel a nível de serviços secretos e a nível militar e espanta-me o extraordinário domínio da ciência e da tecnologia que revelam. Os avanços tecnológicos e científicos que daí advêm para todo o mundo são sempre notáveis.

Claro que não confundo Netanyahu, a sua má índole e o seu condenável comportamento, os seus inclementes e brutais excessos, a sua atitude perante a política, a sua insana cruzada que parece ter como principal móbil o salvar a própria pele, com o direito de Israel a defender-se que esse creio ser inquestionável. 

Mas sinto que falar sobre estes temas requer um recuo para o qual não estou agora motivada e um arcaboiço que não tenho. Além disso, estou outonal, suave, toda eu serenidade, contemplativa -- ou seja, incapaz de escalar o discurso para os níveis que o momento provavelmente requer.

Também não me apetece falar da disparatada encenação promovida por Montenegro e pelos seus desclassificados ajudantes apadrinhada pelo desestabilizador-mor. Mas, para falar verdade, também não percebo porque é que, face a esta cambada e à estúpida maneira como se comportam, não percebo porque é que Pedro Nuno Santos para aí anda a expor-se a falatórios e não diz simplesmente: apresentem o raio do orçamento que o analisaremos e depois logo nos pronunciamos.

Mas, portanto, enquanto vou acompanhando (um pouco à vol d'oiseau) o que por aí anda voando em nossa volta, vou vendo alguns vídeos que me parecem interessantes.

Este aqui abaixo, com a Marília Gabriela, é muito interessante. Dá que pensar. Não sei se ela ainda vive em Lisboa. Mas, independentemente disso, até porque nada tem a ver, faz-me um pouco impressão que uma mulher como ela diga que o telemóvel está silencioso, que está sempre sozinha. Mas compreendo muito bem o que ela diz. Quando se tem uma vida profissional muito activa, tendo que conviver diariamente com muita gente, é natural que se chegue ao fim do dia com vontade de ir para casa descansar e não de sair para ir para os copos...

Uma entrevista a ver.

Marília Gabriela e o sexo, a idade e a solidão! | Admiráveis Conselheiras | GNT


Dias felizes

domingo, maio 12, 2024

Pode uma octogenária seduzir um jovem?
E essa coisa do beijo técnico... existe mesmo ou é cascata?

 

Dias tranquilos, bons. Podei árvores, reguei, dispus umas suculentas num canteiros onde nada medra, apanhei nêsperas, arrumei coisas, cozinhei (inclusivamente entrecosto guisado com favas e temperado com coentros), andei a caminhar de biquini para apanhar sol, li, escrevi.

Podia abrir um parêntesis para dizer como faço o entrecosto com favas, de que gostamos bastante, mas vou antes dizer que estou a livro a que resisti mas de que estou a gozar muito. Muito. Por muitos motivos e até pelos emotivos. Mas também porque já aprendi várias palavras que desconhecia. E fico na dúvida: terá sido o Gabo, quando a mente já começava a dar sinais de que estava a ir para um caminho sem retorno, a rebuscar palavras pouco usuais ou terá sido o tradutor que resolveu caprichar? Por acaso gostava mesmo de saber. Gosto de livros assim. Vemo-nos em Agosto. Um livro belo, povoado por garças azuis.

E agora ao ir espreitar o youtube dei com o fantástico Bial a entrevistar a fantástica Susana Vieira. Só a forma como se cumprimentam já é uma graça. Mas tudo o que ela diz é uma graça. Olho para ela e não consigo acreditar que já tem 81 anos. De facto, os tempos já não são o que eram. Pensava-se numa mulher com mais de oitenta anos e imaginava-se uma velhinha. Pois, no caso dela e de cada vez mais mulheres acima dos oitenta, velhinha uma ova. 

Susana Vieira fala sobre sua parceria com José Wilker e mais | Conversa com Bial | GNT


quarta-feira, novembro 29, 2023

No balneário das mulheres

 


A ginástica na piscina é, para mim, um dos pontos altos dos meus dias, ultimamente tão cheios de 'baixos'. 

Já quando andei a fazer hidroterapia depois da artroscopia aos joelhos eu tinha adorado. Tinha que conduzir um bom bocado à hora de almoço, agravado pelo facto de ter que usar uma das vias, à época, mais congestionadas e acidentadas do país, a Segunda Circular. Aconteceu-me falhar a sessão por ficar presa no engarrafamento. Praticamente não almoçava mas, ainda assim, fazia todos os esforços para chegar uns minutos antes da hora para poder ter a piscina só para mim e nadar um bocado. Era uma pequena piscina, sempre com pé, mas era um prazer. Espantava-me ao ouvir, no balneário, algumas parceiras a contar as sessões que faltavam para 'se verem livres' daquilo. E eu só queria era que não acabassem. O único senão é que não podia atrasar-me pois dali voltava directamente para o trabalho, geralmente comendo qualquer coisa enquanto conduzia. Sempre à pressa de um lado para o outro.

Depois disso voltei a fazer hidroginástica mas era perto de casa, à noite. E era um stress pois nunca consegui ter horas para sair, havia sempre alguém que me aparecia no gabinete quando eu estava para dar de frosques, depois era o trânsito, um trânsito sempre ensarilhado. Só para sair do parque onde se situava o edifício onde trabalhava era um pesadelo. Um nervoso desgraçado, sempre com receio de chegar muito depois da hora. Não dá para entrar numa piscina a meio de uma sessão. 

Agora é diferente. Chego a horas, não tenho pressa para sair e, maravilha das maravilhas, é uma piscina funda com dois metros e tal de altura de água e, portanto, toda a sessão decorre sem pé, sempre em suspensão. De vez em quando aquilo cansa a valer. Tenho que fazer um esforço para respirar fundo para oxigenar o organismo pois, quando em esforço, a tendência é fazer respirações curtas. 

Quando acaba, o professor diz que podemos relaxar à vontade. Geralmente, aproveito para nadar. Gosto mesmo. Ainda por cima a água é morninha. Um prazer.

Há agora muita gente, muito mais do que antes das férias. Não sei se irão desistindo ao longo do ano ou se este ano as pessoas acordaram para o bom que é fazer exercícios dentro de água. A maioria frequenta a hidroginástica tradicional, com pé. Na classe da ginástica em suspensão somos poucos. 

Dali vamos para o balneário.

Antes das férias de verão, como não éramos muitas no balneário feminino, eu ficava sempre no mesmo canto. Agora, como é muita gente, quando chego, por vezes o 'meu' canto está ocupado e tenho que ir para onde há uma aberta. Hoje calhou ficar ao pé de uma senhora obesa. Íssima. Na maior das descontracções, toda nua, conversando, rindo, dizendo piadas. Antes, teve uma outra que ajudá-la a despir-se. Estava sentada, a rir e a galhofar, e outra a despi-la. Não estão na minha classe pelo que não imagino se consegue fazer os exercícios como deve ser. Sei é que voltei a vê-la, depois das aulas, nos chuveiros. Eu, pudica, de fato-de-banho, só a passar-me por água, ela, na risota, toda nua. Lava-se com gel de banho e faz uma ginástica dos diabos para chegar ao rabo. Mas enquanto se contorce, continua a falar e a rir. 

Despachei-me o mais à pressa possível com medo que ainda me pedisse para eu a vestir. Com uma descontração como nunca vi, parece que nada a atrapalha ou de nada se intimida. Felizmente chegou a que a tinha ajudado a despir.

Em situações assim constato como as pessoas são diferentes umas das outras. 

Hoje também fiquei surpreendida com uma coisa. Uma senhora que deve ter uns quantos anos a mais que eu, também nua nos chuveiros, tinha a pele tisnada das férias. E vi que usa apenas uma tanga minúscula pois tem a respectiva ínfima marquinha branca que se destaca no corpo ainda bronzeado. Também fiquei admirada. 

Poderia fazer-se uma reportagem sobre as vidas das mulheres que frequentam uma coisa assim. 

Claro que os homens também devem ter as suas idiossincrasias mas dentro da piscina não dá para conversar e nos balneários, como é bom de ver, não há 'misturas'. Por isso, só posso falar pelo que observo no balneário feminino.

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Um dia feliz

Saúde. Tranquilidade. Paz.

quarta-feira, setembro 13, 2023

Lee e Kate

 

Quando se pensa na falta de abertura que o mundo reservava às mulheres há cem anos pensamos, e bem, que que tomara que isso tivesse acabado. E, no entanto, por racionalmente estranho que possa parecer, ainda não acabou. Não apenas há países retrógrados como, mesmo nas sociedades mais avançadas, ainda há resquícios dessa mentalidade.

E, como se fossem os únicos, não vale a pena pensarmos de imediato em países árabes ou africanos em que a cultura assenta em regimes pouco ou nada democráticos, regimes misóginos, trogloditas. Não é preciso ir tão longe. Claro que por lá é a regra e por cá felizmente já serão ilhas -- mas basta passearmos pelas terras do interior para vermos como é frequente os cafés estarem cheios de homens e como as mulheres ainda têm medo de ser faladas se ousarem sair sozinhas, ir para uma esplanada, andarem a fumar em público ou se concorrerem a trabalhos tipicamente masculinos.

Contudo, foi no século passado, daqui a nada há cem anos, que a bela Lee Miller passou de modelo da Vogue e musa de fotógrafos a fotógrafa de moda e, depois, a corajosa fotógrafa de guerra. A sua vida é extraordinária. 

Afortunadamente, no meio das ortodoxias há sempre quem não se aquiete, quem queira ser o dono do seu destino, do seu corpo -- digam o que disserem.

Lee Miller era linda mas era sobretudo uma inspiração pela sua força, pelo seu querer, pela sua entrega ao prazer do que fazia por gosto.

Capturing Lee Miller (2020) I Official Clip I MetFilm Sales

Vogue model, artist’s muse, fearless war photographer: Lee Miller had many lives. Built on images of Lee and by Lee, CAPTURING LEE MILLER explores a pioneering female artist who broke taboos and defied expectations.

E está prestes a estrear o filme produzido e interpretado por Kate Winslet (a talentosa actriz que recusa o papel de estrela, de diva, de eternamente jovem): Lee. 

É das melhores actrizes da actualidade e, apesar disso, a sua simplicidade é fantástica.

A entrevista que concede à Vogue e que abaixo partilho mostra bem quem é Kate Winslet.

[Nota: Quem não se entenda com a língua inglesa, poderá colocar na opção da autotradução de inglês -> português. Não será um português escorreito mas sempre poderá ser uma ajuda.]

Kate Winslet Talks Ice Baths, Raising Chickens, and Her New Film | Vogue

Lee Miller’s photographs “are amongst some of the most significant historical images ever taken, and people don’t really know that,” says Kate Winslet of the inspiring subject of her forthcoming film, “Lee.” The October Vogue cover star also discusses ice baths, antique tables, and acting in some of the toughest scenes she's ever filmed.


terça-feira, julho 18, 2023

Cuecas de reserva e cebolas no saco de mão, entre outros apetrechos extraordinários, só para se perceber a pinta de Miriam Margolyes, capa da Vogue Britânica.
Mas quando ela se senta a ler, por exemplo uma troca de cartas entre Henry Miller e Anaïs Nin, a gente faz silêncio para não perder pitada

 

Aos poucos, os conceitos de beleza vão-se abrindo à normalidade. É que o normal, nas pessoas, não é a perfeição. Mulheres extremamente belas, extremamente elegantes, eternamente jovens, é daquelas coisas que, já toda a gente sabe, só se consegue com muita artificialidade e sacrifício à mistura.

A Vogue, que desde sempre, promoveu a elegância, o requinte, a perfeição, a harmonia inequívoca, aos poucos vai abrindo as portas ao mundo. Há algum tempo não passava pela cabeça de ninguém ver um vídeo Vogue com uma mulher de 82 anos, gorda, lésbica, desbocada.

E, no entanto, hoje, ao abrir o youtube, cá estava Miriam Margolyes. 

Não apenas foi capa da Vogue Britânica como agora nos mostra o que tem dentro da sua carteira. Tudo um pouco inusitado mas, talvez por isso, bem divertido. Na sessão fotográfica mostrou-se como não passava pela cabeça de ninguém e, no vídeo da bolsa, saca de lá de tudo um pouco, desde umas cuecas de tipo gola alta, uma cebola crua para dar umas dentadas de vez em quando, e outras bizarrias.

E que não se pense que Miriam é apenas uma gorda excêntrica, sem papas na língua. Pode ser tudo isso mas é também uma maravilhosa diseur. Ou melhor, diseuse. A sua dicção, os seus compassos de silêncio, o ambiente que a voz traz às palavras que lê, tudo a torna especial. 

Lá mais abaixo um vídeo delicioso em que ela e Clarke Peters lêem uma troca de cartas entre Henry Miller e Anaïs Nin. Cartas de amor são cartas de amor, é certo. Mas quando ao amor se junta o desejo e quando ao amor e desejo se junta o descaramento e quando a tudo isso se junta o gosto pelas palavras aí a mistura fica maravilhosamente explosiva. E a malícia que transpira não apenas das palavras mas também das expressões de ambos tornam o vídeo um momento de rara suculência.

Longa vida a Miriam Margolyes e a todos os que têm prazer na vida.





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Um dia bom

Saúde. Boa disposição. Paz. 

quinta-feira, abril 06, 2023

Aconteceu aquilo que, até aqui, só tinha acontecido nos meus piores pesadelos

 

Já o confessei: parece que ando meio aluada. Muita mudança em simultâneo, alguma perturbação na rotina, algumas preocupações, alguma falta de energia. Tudo junto dá este cocktail em que parece que não ando completamente com os pés na terra. E é que, em simultâneo com isto, tenho sempre muita coisa para tratar -- as que andaram a acumular-se durante tanto tempo à espera destes dias mais as que, de repente, me caíram em cima.

Levanto-me (e, por incrível que possa parecer, sempre cheia de sono e a sentir-me a modos que meio desorientada), tentando organizar-me face ao programa de festas do dia e do que lá terei que encaixar.

Claro que, depois das abluções matinais e antes do pequeno almoço, costumo vestir-me normalmente.

E, nos dias em que tenho a hidroginástica, logicamente antes de ir, visto o fato de banho e preparo o saco, guardando a roupa interior, a toalha, a touca, os chinelos, a bolsa onde guardo o telemóvel e as chaves. 

Pois bem. 

Neste último dia, vendo que estava bom tempo resolvi vestir logo o fato de banho e ir assim tomar o pequeno almoço lá fora, ao sol. E não é pelo bronze, é mais pela vitamina D. 

E até aqui, tudo tranquilo.

Antes de ir para a piscina, arrumei o saco, verifiquei se tinha o cartão de acesso. Menina organizada.

Lá chegada, despi a roupa de fora, calças brancas e túnica fininha, guardei tudo no cacifo, coloquei a touca, calcei as chinelitas e ala moça, piscina com ela. Tudo jóia.

A aula voltou a ser puxada. Ora trabalham os abdominais, ora os ombros, ora se fortalecem os braços, ora as pernas ou, o pior de tudo, a coordenação e a concentração. A última que me deixa de cabeça à nora é saltar a abrir e fechar as pernas em tesoura, para o lado e juntar, abre para o lado, fecha e junta, e, ao mesmo tempo, os braços, não a acompanharem esse movimento mas, para a frente e para trás, desencontrados. Uma coisa terrível. E se estão para aí a rir, experimentem. Vão ver como é difícil... Mal dou por mim, estou com os braços a fazer o mesmo que com as pernas. E quando finalmente consigo atinar, lá vem o 'E troca!', ou seja, os braços a abrir e fechar ao lado do corpo e as pernas uma para a frente e outra para trás, e salta e salta e salta. E troca. Caraças.

Bem. 

No fim, para fazer o gostinho ao meu lado nadador, fui dar umas braçadas. Já aguento um pouco mais.

Portanto, quando saí da piscina já os meus companheiros e companheiras estavam nos respectivos balneários.

Quando lá cheguei para o meu duche só de água com o fato de banho vestido, já as minhas parceiras estavam quase no fim do seu duche, naked way, com gel e shampoo ou, outras, a vestirem-se. Cada um é como cada qual e eu sou pudica. Fazer o quê?

Dirigi-me, então, para a zona dos cacifos para me vestir.

Tirei o saco, a roupa, coloquei tudo no banco. Retirei a touca, abanei a cabeça para soltar bem o cabelo, e, com a toalha pelas costas, discreta e pudica, retirei o fato de banho. Só que, quando fui à procura do saco de plástico que costumo levar para pôr o fato de banho encharcado, a touca e os chinelos, onde estava ele...? Vi que me tinha esquecido. Portanto, tudo encharcado para dentro do saco.

Mas o pior... muito pior... estava para vir. 

Quando fui à procura das cuecas e do soutien... que é deles...? Espreitei. Nada.

Por um instante, nua debaixo da toalha, fiquei paralisada. Percebi que me tinha esquecido.

O que fazer? 

Para vestir, só as calças brancas, por sinal com o fecho meio estragado. Fecho-o mas, ao mínimo movimento, abre-se. Com uma blusa mais comprida ou uma túnica, não há problema, não se vê.

Mas sem cuecas...? Ui...

E por vezes não visto soutien mas, nesse caso, visto um top para evitar o efeito das transparências das blusas. Mas que é também do top...?

Sem soutien e só uma túnica fininha...?

Palavra...

Ainda hesitei, seria de voltar a vestir o fato de banho encharcado...? 

Não. Não ia passar pelo incompreensível vexame de voltar a vestir um fato de banho ensopado. E não me ia vestir por cima de um fato de banho carregado de água.

Então, foi o que teve que ser. 

Ali, ao pé das minhas parceiras desinibidas, eu, a pudica da turma, vesti as calças sem cuecas por baixo, e a túnica também sem soutien por baixo. 

Calcei os ténis, desejei boa páscoa e zarpei a todo o gás dali para fora. Na volta ficaram a comentar que, no fim de contas, o que sou é um espírito livre, nem cuecas uso...

Quando cheguei ao pé do meu marido vinha a rir à gargalhada. Quando lhe contei, ele nem queria acreditar. 'Ao fim de duas semanas de piscina já de lá vens sem cuecas...'

Expliquei-me: foi aquilo de ter vestido logo o fato de banho. Nos outros dias, quando visto o fato de banho, dispo as cuecas e o top e guardo-os. Assim... varreu-se-me... Ele, gozão: 'Sim, sim. Desculpa-te.'

Ainda por cima as calças com o fecho aberto. 

Espectácuuulo....!

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Levitating - Dua Lipa (1920s Style Cover) ft. Sweet Megg


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Um dia bom
Saúde. Espírito livre. Paz.

segunda-feira, fevereiro 27, 2023

Do êxtase ao wifi

Hedy Lamarr

 

Ao desafio abaixo lançado -- Qual a cientista mais bela e mais improvável de sempre? -- apenas o João respondeu e, honra lhe seja feita, foi uma entrada directa para bingo.

Temos todos em nós vários preconceitos. Ninguém lhes escapa.

Um deles é que uma mulher bonita dificilmente é muito inteligente. Dá ideia que a malta pensa que, no momento da criação, há um número limitado de atributos positivos para distribuir. Ou bem que vão para a beleza física ou bem que vão para os neurónios.

Simetricamente, há o preconceito de que as inteligentes pouco devem à beleza. 

Claro que isto se aplica a ambos os sexos mas, reconheçamos, maioritariamente às mulheres.

Inclusivamente a coisa refina a nível de vocações. Não sou de ciúmes mas devo referir que, quando andei tomada de amores por um candidato a engenheiro, não me preocupava nem um bocadinho com os retiros em trabalhos de grupo com as colegas de quem ele era muito amigo pois tinha a ideia que as engenheiras eram, por definição, feias, mal jeitosas, pouco femininas. 

Mesmo a nível profissional voltei a encontrar esse absurdo preconceito: para os meus colegas homens as engenheiras eram o que se sabia. Giras, giras, para eles, eram as advogadas. 

Disparates.

Nem beleza nem inteligência são cartão de identidade ou cartão de visita nem esses ou quaisquer outros atributos são exclusivos de grupos pois são características individuais não passíveis de generalizações.

Mas se estes preconceitos subsistem até aos dias de hoje, imagine-se há quase um século.

Se era bela, voluptuosa, sensual, então jamais poderia ser cientista, inventora.

De Hedy Lamarr disse o realizador Max Reinhardt, em 1930, que era a mais bela mulher do mundo. 

Diz-se que as suas feições perfeitas, a tez de veludo, os olhos grandes e claros e os lábios bem definidos serviram de inspiração para a Branca de Neve e para a Cat Woman. 

Não cantava nem dançava mas isso não a impediu de deslumbrar no cinema, claro. 

Hedy Lamarr no primeiro nu integral do cinema 


Hedy Lamarr na primeira cena de orgasmo em cinema, também no filme Êxtase

Presos à sua beleza, à sua desinibição e ao erotismo que se desprendia dos seus movimentos e expressões,  ninguém prestou muita atenção à sua invulgar inteligência, um QI próximo do de Einstein.

Quando chegava a casa, a sua mente, que fervilhava, dedicava-se a encontrar soluções tecnológicas para alguns dos maiores problemas da altura: os que se relacionavam com a guerra que atormentava o mundo.

Traduzo (às três pancadas, com o google translator como acelerador): 

Dos estúdios de Hollywood à invenção do wifi, o destino incomum da estrela Hedy Lamarr

Quando os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial após o ataque a Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941, a atriz resolveu que haveria de inventar uma arma capaz de fazer vencer a guerra ao seu país adotivo. Ela lembrava-se das conversas do ex-marido. Sabe que os mísseis da Marinha dos EUA são facilmente rastreados pelos U-Booote alemães porque eles comunicam-se com o expedidor por meio de uma onda de rádio. Com a ajuda de seu amigo, o compositor vanguardista George Antheil, Hedy imaginou mísseis equipados com outro sistema de transmissão de dados, onde apenas o míssil e seu remetente saberiam a série de frequências utilizadas. Para os U-boote, essas mudanças pareceriam aleatórias, tornando-se-lhes impossível acompanharem o progresso das máquinas americanas. Hedy Lamarr e George Antheil conceptualizam assim um princípio de transmissão fundamental em telecomunicações: a dispersão de espectro por salto de frequência.

O exército aceita receber a dupla de acrobatas, mas não os leva a sério... Bem, pelo menos não antes da crise dos mísseis cubanos em 1962! A partir da década de 1980, a sua invenção permitiu o desenvolvimento do GPS, Wi-Fi e Bluetooth. Quando Antheil morreu em 1959, Hedy Lamarr permaneceu sozinha, cercada pelo prestígio de sua criação. Em 1997, aos 83 anos, recebeu o prémio Electronic Frontier Foundation. Hoje, a encarnação da venenosa Dalila no inesquecível filme de Cecil B. DeMille tornou-se a madona fatal dos geeks. E a santa mãe do wi-fi.

Em vídeo em francês 


Em vídeo, em língua inglesa:


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quinta-feira, fevereiro 09, 2023

O corpo de Eva a Eva pertence.
[O de Chiara também a Chiara pertence]

 




Continuam a morrer mulheres às mãos dos homens que com elas vivem. São frequentemente pais das crianças cuja mãe agridem, estrangulam, esfaqueiam. Por vezes acontece que o fazem com as crianças a dormir no quarto ao lado, quando não à vista delas. Cegam. Pode ser sob o efeito do álcool, de outras drogas ou por obsessão, psicopatia, tara. E fazem-no, na maior parte das vezes, depois de anos de pressão psicológica, de crises de ciúmes, de ameaça, coação, chantagem emocional, de pedidos de perdão, de juras de amor. 

Fazem-no sempre em nome do que pensam ser afecto e as mulheres, por carência, por medo, por quererem acreditar que são amadas, pelos filhos, para não preocuparem a família, por vergonha perante amigos e colegas, aguentam em silêncio, fingindo que está tudo bem.

Por cada mulher que é assassinada deve haver mais de cem ou mais de mil que vivem um vida de infelicidade e pavor.

Há muito a fazer para prevenir isto, para ensinar o que é o verdadeiro amor, para conduzir à procura de apoio os agressores, os assediadores, para fazer vencer a barreira da discrição da vizinhança que ainda acha que entre marido e mulher ninguém deve meter a colher, para explicar como as vítimas podem pedir apoio em segurança.

Há muito a fazer para que as mulheres se sintam com direito à sua vontade e para que os homens aprendam que a sua vontade não impera sobre a das mulheres. Há muito a fazer para que a sociedade o assimile na sua totalidade.

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Não foi exactamente por isso que Chiara Ferragni, com uma poderosa presença e intervenção no Festival de Sanremo, se vestiu e falou como as imagens e os vídeos mostram. Pretendeu, sobretudo, alertar para o direito das mulheres a fazerem o que quiserem com o próprio corpo, a serem como são sem terem que ser vítimas de pressão social,  a terem o direito a uma voz independente e forte, o direito a terem os mesmos direitos que os homens, o direito a não serem vistas como as pecadoras que merecem punição.

Ser mulher não é uma limitação.




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E outra Eva foi pintada por Lucas Cranach the Elder e vem na companhia de Melody Gardot e Philippe Powell com This Foolish Heart Could Love You

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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Respeito. Paz.

sábado, fevereiro 04, 2023

A bichectomia e outras faces do minimalismo estético

 

Depois da moda dos implantes para ficar com o rabo alçado, dos implantes para ficar com tetas de vaca leiteira, dos implantes nas bochechas para ficar com maçãs mais redondas e saudáveis que as saloias, dos implantes ou injecções nos lábios para ficar com uma carnuda boca de pato... eis que a moda deu meia volta e arranjou maneira de não faltar trabalho às clínicas de intervenção estética.

Como se sabe isto não chega de imediato às bases. Pode acontecer que a última camada ainda ande a fazer economias e pesquisas para ver onde insuflar a bom preço e a prestações e já ande a camada de topo, aquela para quem o dinheiro não é tema, a retirar tudo o que pode. Maminhas e rabinho andróginos, cara ossuda, lábios finos.

Quem as viu todas carnudas e generosas e agora todas minimalistas... 

A última aprendi-a agora: a bichectomia, isto é, retirar as bolas de Bichat. Nem sabia que as tínhamos. Pois, as bolas de carne que, com o peso da gravidade, descaem deixando a malta com ar de quem está a deslassar. Carne ou gordura? Respondo: nem carne nem bolas. Mais concretamente: pequenas bolsas de gorduras localizadas na região da bochecha, as glândulas de Bichat.

Supostamente, retirando as ditas coisinhas de nome bichano é como se houvesse um lifting instantâneo. 

Agora olha-se e estranha-se mas, um dia destes, é um novo standard. Quando nos olharmos ao espelho até vamos pôr as bicholas para dentro dos dentes para ver se ficamos mais nos conformes, com este moderno ar levemente esfomeado.

Contudo, nada de decisões precipitadas. Transcrevo: 

A decisão merece consideração. "Primeiro, porque é irreversível: se retirarmos as bolas de Bichat, elas voltarão ao sítio'", adverte o doutor Bergeret-Galley. E depois porque a operação é desconfortável e dolorosa; sem esquecer os riscos que isso acarreta. “Além de pequenos sangramentos, pode haver especialmente paresia. De facto, há um pequeno ramo do nervo facial que fica logo à frente da bola de Bichat, e pode-se sentir um entorpecimento nesse nível durante um certo tempo. Por fim, o médico salienta que o resultado nunca será perfeitamente simétrico e que pode acentuar a diferença de espessura das duas bochechas."

Ele há coisas. 

sábado, janeiro 21, 2023

As anjinhas da Victoria's Secret antecipam o Dia de S. Valentim
-- quem as viu e quem as vê...

 

Bem sei que a Jacinda Arden teve um gesto insólito e louvável e que merece todos os louvores. E também sei que felizmente a dessalinização em Portugal começa a ser encarada a sério, como um investimento essencial e crítico. E também sei que o Pedro Nunes Santos afinal deu o ok ao meio milhão da Alex Louboutin, outras das ex-tapianas de boca aberta, e que o deu, en passant por whatsapp, tão em passant que a coisa até já se lhe tinha varrido, isto apesar da badalação.

E tantas mais coisas.

Só que tenho que me rebalancear, aprender novos ritmos, costurar novos hábitos. E adquirir doses de paciência para conseguir decantar os excessos, filtrar, esperar que assente, não gastar prosa com o que acabará por se dissipar.

Por isso, lamento, estou outra vez numa lateral.







Estando a aproximar-se essa data extraordinária que tem tudo a ver com a nossa história e a nossa cultura, por via das dúvidas, não vá algum de vós esquecer-se de que é altura de pensar nos preparativos, aqui estão umas fotografias e um vídeo que contém sugestões interessantes. Para todas as idades, para todas as silhuetas. Basta gostar de brincadeira.

Desejo-vos um bom sábado

Saúde. Bom apetite. Paz.