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sexta-feira, maio 12, 2023

O ranking das melhores canções da Eurovisão. E a Mimicat. E uns chapéus que fico doida de vontade de ter

 

The Guardian classificou as canções que ganharam o Festival da Eurovisão, apresentando-as a todas por ordem crescente da cotação que lhes foi atribuída. All 69 Eurovision song contest winners – ranked!

Consideraram que a melhor de todas, até ver, foi o Waterloo dos Abba. Figura, pois, em nº 1.

Estive a percorrer a lista, sobretudo pela curiosidade em ver em que lugar tinham colocado o nosso Salvador. 

Em 16º.  

Não é mau de todo. 16º em 69. 

Mas sou pouco dada a rankings em temas desta natureza pois aquilo que pode ser fantasticamente cotado para uns pode a mim dizer-me muito pouco.

Fiz um exercício. 

Para cada uma da lista tentei recordar-me dela. E o resultado foi desastroso a todos os níveis. Não sei, até, se não conclua que já estou com aquele sintoma de demência que se traduz em a pessoa lembrar-se de coisas muito remotas e não se lembrar das mais recentes. Abaixo coloquei aquelas de que me lembro, isto é, que consigo cantar agora mesmo. Tudo coisas VCC (Velhas Como o Cara... ças)

Do Waterloo lembro-me, claro. Mas, hoje tal como naquela altura, não me mobiliza. E acho que me lembro pelo muito que tem sido cantado, recantado, visto e revisto. Porque não tenho ideia de os ter visto ganhar a Eurovisão.

Estou longe de ser uma melómana. Longe, longe. Portanto, creio que critérios musicais, da minha parte, não devem ser sequer para aqui chamados.

Não sei dizer porque me lembro de umas e não de outras. Não sei se é porque não vi o Festival e, de facto, não posso lembrar-me do que não conheci, se é porque, lá está, não percebo nada de música, se é porque, na realidade, só prestei atenção à Eurovisão na minha tenra tenra idade ou porque é aquilo da demência. 

Aliás, aliás, pensando agora no assunto, não vi a Eurovisão durante anos e anos. Não sou especialmente fã de Pop e aquilo é tudo muito na base da pop, tudo muito borbulhante, saltitoco, colorido, quase tudo igual de uns para outros, de anos para anos. Só me reconciliei quando um colega me perguntou se eu tinha visto o apuramento e eu não tinha visto e ele me falou numa canção muito bonita do Salvador que eu conhecia de ter visto nos jardins de Oeiras e fazer a primeira parte da Melody Gardot. Por isso, vi o festival nesse ano, para o ver a ele.

Mas depois, por cá, a coisa voltou a descambar. Têm ganho umas criaturas esquisitas, como se o critério fosse esse, o de serem esquisitos. Nem lhes sei o nome nem registei nada do que fizeram.

Mas este ano, acho que, por cá, para o efeito que é, algumas canções tiveram piada. E acho graça à Mimicat. Tem carisma. E o Ai coração tem energia, é dançável, é cantável. 

No outro dia não vi a eliminatória. Não sabia que ia dar. Mas, depois, quando soube, pus para trás de propósito para vê-la. E acho que, ali no meio, esteve muito bem. Na final, gostava que ficasse bem posicionada e ainda mais gostaria se ganhasse. 


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A vida tem mil faces e algumas são assim, feitas de coisas efémeras como estes festivais cheios de extraordinários jogos de luzes, público na maior animação, apresentadoras com vestidos bonitos e muito à vontade. 

Tenho andado com muito que fazer, o tempo anda-me curto para tudo e mais alguma coisa. Por vezes não consigo agradecer os comentários, tenho mails para responder há meses (Por exemplo: não está esquecida, Lurdes! Só que quero responder com tempo e o tempo anda sempre a fugir. Mas, juro, não está esquecida!)

E hoje não vi noticiários, não vi jornais, não vi nada. Não posso falar de comissões que exemplificam bem o que são sucessões infinitas, não posso falar de computadores com assuntos que, se apanhados por quem não deve, podem ser usados contra o País, não posso falar de chornalecas metidos a besta. 


Hoje só estou com cabeça para chapéus e, vá lá, para eurovisões. E, portanto, aqui abaixo as canções da Eurovisão de que me lembro e que sei cantar. O número que aparece é a classificação no ranking do Guardian. Pelas razões que acima arrolei, pulo o Waterloo e vou direita para a Nº 2, uma boa de cantar. Ao contrário do Guardian que vai das menores classificações até à 1ª, aqui vou ao contrário, às arrecuas.

Com vossa licença:

2. France Gall - Poupée De Cire, Poupée De Son (1965)


16. Salvador Sobral – Amar Pelos Dois (Portugal, 2017)



22. Massiel " La, la, la" ( 1968 )


43. Sandie Shaw – Puppet on a String (UK, 1967)


49. Gigliola Cinquetti – No Ho L’età (Italy, 1964)

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Os chapéus lindos e tentadores são de Maor Zabar

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Um dia bom
Saúde. Boa sorte. Bons momentos. Paz.

sábado, outubro 08, 2022

Dúvidas existenciais. Velhos hábitos. Coisas de casais.

 



Comecei o dia a fazer análises. Agora, de vez em quando, para aí uma ou duas vezes por ano, tenho que ser vigiada. O que vale é que não me faz impressão nenhuma que me tirem sangue. Aliás, já fui dadora. Só deixei de ser por mero comodismo. Quando iam lá à empresa, era só descer até ao posto médico. Quando deixaram de ir, perdi a noção de onde ir ou quando. 

Pensei que aproveitaria para ir, a seguir às análises, num instante, tentar descobrir livros da Annie Ernaux. 

Mal me levantei, organizei-me. Tudo arquitectado: arranjei um saquinho de papel da farmácia para levar o frasquinho com a primeira urina da manhã e pus o saquinho à vista para não correr o risco de me esquecer da urina.

Tinha também pensado guardar uma banana e uma maçã lavada para comer enquanto conduzia, a caminho da livraria. Contudo, estava na dúvida: onde guardar a banana e a maçã? A maçã estaria lavada, tinha que ir num saquinho de plástico, daqueles de congelação. Estando num saco, talvez também pudesse ir no saco de papel da farmácia. Mas a banana? Não ia à solta dentro do saco de papel, ao lado do frasquinho da urina. Portanto, por via das dúvidas, coloquei o frasquinho da urina dentro de um saco e dei-lhe um nó. Portanto, seria assim: um saco de plástico com o boiãozinho da urina, um saco de plástico com a maçã. E, à solta no saco de papel, a banana.

Também não podia esquecer-me da prescrição. Fui à procura, guardei-a na carteira. Nem da chave do carro. Fui buscar.

Arranjei-me. Disse ao cãobeludo: 'A dona já vem. Fica a tomar conta da casa que a dona já vem'. Estava enroscado a dormir, levantou uma orelha e deixou-se ficar.

Saí apressada a ver se o tempo me dava para tudo. 

Quando ia a meio do caminho, dei por ela: com tanta dúvida, esqueci-me de guardar a maçã e a banana. Caraças. Detesto andar em jejum. Mas já não dava para voltar a atrás.

Portanto, lá fui. 

Quando me despachei, saí com o carro do parque na dúvida: iria em jejum ou voltaria para casa? Abrandei. Avaliei a situação. Fome, fomeca, a tensão certamente baixa. Sem uma bananinha, sem uma maçã, sem um aconchego. Voltei para casa. 

Tomei o pequeno almoço, trabalhei, telefonei, fiz o que tinha a fazer. À hora de almoço, fui fazer o passeio higiénico com o dog.

Almocei a correr e ala moça, lá vai ela, antes que se fizesse tarde. A caminho do shopping. Quando estacionei, tomei nota do lugar, da cor, do piso e enviei uma mensagem para mim própria. Não quero correr o risco de ficar no mato sem cachorro, sem saber onde deixei o carro e sem ter quem me ajude. Quando frequentava assiduamente estes locais, já tinha lugares mais ou menos orientados. Agora não, agora é onde calha e, por isso, tomo providências.

Encontrei o 'Acontecimento'. 

Lá, para rentabilizar a ida, resolvi entrar numa ou noutra loja. A ideia é a de sempre: 'Não é para levar, é só para ver, não preciso de nada'. Mas, no canto da consciência, a vozinha matreira do costume: 'Só se for uma oportunidade imperdível'. E assim foi. Encontrei duas blusinhas bonitas, tecido com bom cair, padrão bonito e... a cinquenta por cento do preço. Quase black fruday. Negócio irrecusável. Fui provar. Ah, céus, que sensação boa: estar sozinha às compras, num provador... Ainda assim, a santa-madre poupadeira que existe no tal canto sacristeiro da minha mente alertou: 'Mas que falta é que isso faz?'. Respondi de mim para mim: 'Nenhuma'. Beatamente, pendurei-as nos respectivos cabides e fui devolvê-las ao expositor. Mas eis que passa a empregada e me tenta: 'Hoje está com dez por cento adicionais'. Pronto. Varreram-se-me as dúvidas existenciais. Trouxe-as. Baratíssimas. Vou ter aí umas reuniões presenciais, coisa decisiva de ou vai ou racha. E tudo num sítio todo xpto, tudo gente ultra xptosíssima, e agora vou parecer toda elegante com umas calcinhas brancas, saltinho alto e umas blusinhas todas fashion a preço de uva mijona. Ou seja, regressei contente com a vindima.

(E há bocado comecei a ler 'O acontecimento'. Escrita corrida, a gente pela mão da Annie.)

E é isto.

Contar mais o quê? Fomos caminhar para a praia, o entardecer lindo, imensos bichos negros na água a cavalgar as ondas, os areais cheios de gente, tudo na maior boa onda. O sol a mergulhar nas águas e um mundão de gente a curtir a paz do mar e da maresia e da vida ao ar livre.

Enquanto caminhávamos, telefonei à minha mãe que me contou que viu a entrevista à Júlia Pinheiro conduzida pelo marido. Muito amorosos, amigos um do outro, disse-me ela. Há bocado a minha filha enviou mensagem a dizer que tinha posto para trás e estava a ver o mesmo, para eu ver também.

Deu luta. O meu marido não queria alinhar, que era bater no fundo: entrevista de Júlia Pinheiro e marido, tema sentimental, coisa lamechas, era o que faltava pormo-nos a ver coisa mais brega. Não disse brega. Deve ter dito pior. Mas não sou de desistir tão facilmente. Vimos. Gostei de ver. E acho que ele também pois não adormeceu nem se levantou nem dirigiu impropérios nem ao casal ali derretido nem a mim por estar a querer ver aquilo.

No fim, quando se levantou e ia a sair da sala, disse-lhe que ele devia ser como o Rui Pêgo, assim romântico, a dar presentinhos, a ser amoroso e fofo. Ele disse que também não viu a Manuela a mandar vir com o marido. Perguntei: 'A Manuela?'. Já ia no corredor. Voltou atrás: 'Ao que chegámos, a ver uma entrevista ao casal Pinheiro'. E lá foi.

E agora, porque nada melhor que rir, aqui ficam momentos de atrapalhação e risota nas gravações do The good doctor.

The Good Doctor Bloopers

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E porque se não nos levantarmos por algumas coisas, cairemos por coisa nenhuma, o Dude with sign juntou-se-nos uma vez mais.

Maro e Salvador fizeram-nos companhia com We've been loving in silence

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Um bom sábado
Saúde. Boa sorte. Boa disposição. Paz.

quinta-feira, junho 30, 2022

4 programas de televisão. 4 vídeos. 5 pinturas. 1 canção.

 


American Master Chef Junior -- fico espantada, intrigada, comovida. Não percebo como é possível aquelas crianças saberem tantas técnicas, conhecerem tantos ingredientes, instantaneamente terem tantas boas ideias, terem tanta perícia, tanta força, tanta perseverança, tanta rapidez, tanta confiança, tanta generosidade. Pasmo, pasmo, pasmo. E, quando a Eva saiu, chorei. E quando vi o Grayson atrapalhado, atrapalhei-me também. E, quando ele ficou choroso, eu fiquei chorosa também. Outra coisa: depois das minhas barrigas gigantes não tinha visto coisa semelhante até ver a da Daphne. Não sei como não lhe cai a criança aos pés. Tento não perder.

Pantanal -- a vida na natureza. Os grandes espaços. As águas correndo com mansidão. As verdejantes margens do rio. O encantamento mágico. As histórias populares. A música. Os preconceitos postos a nu. A graça da forma como falam, a língua portuguesa adoçada com o tempero das terras perdidas nas lonjuras. As personagens tão cheias de evolução nas suas histórias. A valentia vulnerável dos homens-macho. A sabedoria das mulheres. A irresistível paixão entre Juma, filha de Maria Marruá, e Jove, filho de José Leôncio, o jovem desengonçado de quem a peãozada diz ser flosô, uma paixão que é tão real que fez com que os seus protagonistas, bissexuais assumidos, virassem um apaixonado par amoroso. 


10 anos mais jovem, Reino Unido -- as pessoas chegam derrotadas, a vida passou por cima delas e elas chegam com o rosto amassado, os dentes estragados, a pele gasta, o cabelo velho, o corpo cansado, a vontade esgotada, o sorriso escondido, os gestos envergonhados. E, então, pegam nelas, e refazem tudo o que podem, tatuam os rebordos dos lábios, alisam a pele, florescem as sobrancelhas, cortam, pintam, amaciam e penteiam os cabelos, descobrem a roupa que melhor se adequa, disfarçam e maquilham... e, no fim, as pessoas estão mais novas, mais bonitas, mais confiantes. E sorriem, felizes da vida. 

Original é a Cultura - pessoas que falam com tempo, outros que escutam calados e atentos, observações interessantes, temas vistos sob perspectivas diferentes, apontamentos que se escutam com curiosidade. Carlos Fiolhais, Dulce Maria Cardoso, Rui Vieira Nery sob moderação de Cristina Ovídio. Do melhor a nível de conversas em televisão. Devia passar em horário nobre.

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Dermot Mulroney, além de ser um actor conhecido, é um violoncelista talentoso. Sentou-se para ser pintado por pintores no Paul Schulenburg Studio em Cape Cod Massachusetts, e tocou para eles num intervalo.

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No deserto do Arizona, pode visitar-se uma das casas do famoso arquiteto Frank Lloyd Wright. Mas nos últimos meses, o local também abriga uma instalação do artista de vidro Dale Chihuly. O correspondente especial Mike Cerre analisa como o trabalho desses dois artistas se uniu na paisagem acidentada.

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Um retiro familiar tranquilo numa vila no Vietname


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Pinturas de Alberto Burri na companhia de Maro com We've been loving in silence (com o Salvador para despistar)

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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Motivação. Alegria. Paz.

quarta-feira, novembro 20, 2019

José Mário Branco, aquele que veio de longe




Nestas coisas nunca ninguém pode dizer que foi melhor assim. Eu, pelo menos, sinto-me incapaz de avaliar. Sei lá. Uma partida, ainda por cima quando a pessoa gosta de viver e tem muitas ideias na cabeça e força no corpo, é sempre a amputação de um percurso. De qualquer maneira, quando li que foi um AVC, não pude impedir que me ocorresse que ainda bem que não ficou cá para assistir à sua própria decrepitude, ficando dependente, incapaz de ser senhor da sua vontade. Independente como sempre foi, haveria de sofrer tremendamente se ficasse sem andar, se calhar com problemas na fala, se calhar sem mexer um dos braços, sujeito a ter que ser lavado, alimentado, movimentado por outros. Mas, lá está, isto sou eu a falar e, claro, influenciada pela situação do meu pai.
Mas como posso eu ter um pensamento assim a respeito de José Mário Branco se, a propósito do meu pai, mais velho, com uma dependência avaliada em mais de 90%, todos nos assustamos se ele piora e tudo fazemos para que fique bem? Quando estava mais lúcido e conseguia falar, chorava e dizia que queria morrer. E nós interrompíamos esses lamentos, não queríamos que ele dissesse isso, custávamo-nos muito. Mas a natureza é benevolente e vai retirando a consciência à medida que a dependência aumenta e, por isso, agora já nem do próprio estado em que se encontra ele deve ter perfeita consciência. 
Mas, portanto, sabe-se lá o que é melhor. Melhor teria sido se não tivesse tido o AVC. Mas, mesmo isso, é daquelas coisas. Queremos a vida eterna. Custa-nos aceitar a interrupção da vida, em especial quando é uma vida tão pródiga em talento. Mas ninguém cá fica. Por isso, tenho para mim que mais do que chorar a partida de alguém, devemos é festejar que tenha acontecido o milagre de existir e que tenhamos tido o privilégio de termos sido contemporâneos para testemunharmos as maravilhosas manifestações da sua vida.

A minha memória musical não é grande coisa. Depois de ter sabido da triste notícia, durante todo o dia andei com o Eu vim de longe na cabeça. Ouvi falar na Inquietação e recordei-a. Mas foi sempre o Eu vim de longe que se manteve instalado. Mas agora, em casa, ouvi várias cantadas pelo meu marido. Sabe incontáveis canções de fio a pavio, a letra e música inteiras. Cantou umas atrás de outras. Sempre foi admirador de Zé Mário Branco e temos vários discos e CDs. E eu também gosto muito. 

Nestas coisas tendemos a ser injustos, fixamo-nos numa fase ou numa faceta da vida artística destas pessoas que, em dado período, tiveram grande visibilidade. Mas a vida de Zé Mário Branco foi muito mais do que esse período antes e a seguir ao 25 de Abril: tem sido compositor e produtor e grandes trabalhos saíram das suas mãos. Dizem dele que era genial e eu acredito que sim. Mas, por ser fraca conhecedora, não arrisco encómios.
Não gosto de elogios fúnebres, acho sempre que tudo o que se diga é incompleto, omisso, injusto. Por isso, nem pensar em ousar ir por aí. Mas há quem o faça bem: o país encheu-se de saudade, de recordações e de palavras que procuram o consolo para partidas assim, tão inesperadas.
Por ora, fico-me, pois, por aqui.

E José Mário Branco também ficará, só que para sempre. Enquanto tivermos memória, poderemos sempre encontrá-lo nos muitos e belos trabalhos que nos deixou.

Eu vim de longe....José Mário Branco. 

quarta-feira, dezembro 27, 2017

Por quem sois, claro que isto não é um balanço de 2017




Começo a ver balanços um pouco por todo o lado, está na altura deles. Não que me façam falta ou que me entretenham o desfastio. Mas tenho pena de não ser capaz de fazê-los. Se fosse, se calhar também não os fazia mas, enfim, não fazer era uma coisa voluntária. Assim não, assim é olhar para balanços alheios e pensar: para eu conseguir produzir um teria que fazer uma monda danada, como quando quero oferecer fotografias e tenho que passar em revista as milhares que fiz ao longo do ano. Penso: se calhar a coisa inteligente era, de cada vez que faço uma fotografia engraçada ou que acho algum evento marcante, fazer-lhe logo a devida assinaladela para, no fim do ano, as tarefas estarem praticamente aviadas. 

Acreditem. Os melhores filmes do ano, os melhores livros do ano, as frases mais inteligentes do ano, os actos mais fantásticos, as músicas mais maravilhosas -- assim de repente não me lembro de nada. Ou, então, começo a desbobinar aquilo de que me lembro e sei lá eu se foram os melhores.

Mas, lá está, que interesse tem estar a desenterrar os mortos para os glorificar?
Ok, estupidez, sei que sim. Um livro lido não é um livro morto. Idem para o resto. Foi uma metáfora não apenas sinistra mas também estúpida. Mas é que não quero já saber do que fiz, a única coisa que me interessa é o que vou fazer.

Listas. To do lists. Também nunca fiz. Não gosto de me programar. Gosto de me sentir livre para fazer o que me apetecer.

Lista de boas intenções. Nunca fiz. Não tenho boas intenções, só más.

Acho extraordinário quando aconselham as pessoas a fazerem uma lista de projectos ou de ideias a perseguir no ano que se segue. Eu nem pó. Nunca na vida fiz tal coisa. Sei lá o que é que devo fazer. Em vez disso posso entreter-me a ler horóscopos ou a deitar cartas de tarot. Claro que mal acabo, já me esqueci. Tem uma graça momentânea mas altamente perecível. Por exemplo, fui agora ver à Vogue o que me aguarda em 2018. Como sempre, espera-me: trabalho, desafios, a minha criatividade posta à prova. Coisas assim. Sempre isto. A nível de amor também um ano em grande, paixão transbordante e quem sabe se até um bebé. Pelos vistos, até a menopausa me vai passar. E eu tão descansada que ando que já nem me lembro dessa coisa dos anti-concepcionais. Bolas, bolas, bolas. 

Bem. Adiante. 


Isto para dizer que acho muito bem. Um diz que vai ler a Agustina, outro voa sobre o ano que voou, outra diz que vai ser assim e assado e até a Estrela Serrano distribui medalhas. Gosto de ver. Gente com a cabeça no sítio. Tomara eu.

Eu, que tenho a minha sempre na lua, o mais que consigo dizer é que o Marcelo é incontornável. Até de carrocel já o vi hoje na televisão. Ia de boné e quase podia parecer outro mas juro que era ele. De vez em quando diz uma ou outra com sentido. Mas parece que já quase esgotou o reportório de coisas assisadas. A maior parte das vezes já só o ouço a dizer irrelevâncias, a anunciar cuidados para daqui por um ano, a sugerir remoques contra incertos ou a querer que se façam casas sem projecto, se calhar na candonga, clandestinas, e sem orçamentos, sem nada, tudo na base do sempre a abrir. E quando vê que as casas até já foram efectivaente construídas -- e como deve ser, algumas boas como nunca foram antes e tudo certinho, direitinho -- aparece a dizer que isso não chega, tem que se fazer mais. E o engraçado é que ele diz isto sabendo que o Governo está mesmo a estudar a forma de repovoar o interior, de aí dinamizar a economia. Mas o Marcelo parte do princípio que as pessoas não sabem que o Governo está a trabalhar nisso e aposta em que, quando as coisas aparecerem feitas, a malta pense que foi graças a ele e às bocas que andou a espalhar aos microfones e perante as câmaras. Cansa-me este Marcelo. Não é tanto já me enjoar aquilo de ele andar sempre a escarafunchar no luto alheio e a dar beijinhos a tudo o que mexe, é mesmo a sua necessidade compulsiva de dizer coisas. Não interessa que coisas. Coisas. Sempre a dizer coisas. Sempre na televisão a dizer coisas, sempre metido em cenas a dizer coisas. Um cansaço.


É que eu, assim que me lembre, a quem devemos mesmo tirar o chapéu é a António Costa. Pisando terreno quase sempre minado, com uma oposição desmiolada e desavergonhada, com uma comunicação social acéfala e com uma agenda muito própria em que vale tudo, com uns amigos de geringonça que acham que, para não perderem o pé, devem andar sempre com ralhetes, ameaças e greves pela trela, e com um presidente ciumento e obsessivo-compulsivo relativamente à fama, Costa tem conseguido ultrapassar a barreira de fogo alimentada pelo coro de carpideiras que está sempre à espreita, escudada pela ideologia do neo-afecto, tem resistido ao facilitismo e tem conseguido ir equilibrando as contas, restabelecendo a confiança e restituindo a dignidade aos portugueses. Com a sua forte alavancagem pessoal até conseguiu que Centeno fosse a presidente do Eurogrupo e vamos ver se, uma a uma, as pedras do caminhos europeu não começam a apontar num outro sentido que não o da dispautérica austeridade. Nem tudo tem sido perfeito e alguns maus momentos para sempre pesarão na memória colectiva de 2017 mas António Costa fez o melhor que conseguiu e o que se vê é que não foi pouco.

Tirando isso. Não me apetece falar de um outro incontornável, um outro narcisista. Só que, a nível cultural, esse outro não chega aos calcanhares deste nosso. Nem tem de base uma matriz democrática nem lhe dá para andar a bater perna vinte horas por dia a distribuir afecto e a fazer-se à selfie. Este a que agora me refiro é estúpido, bronco, básico e perigoso. Trump. A anedota do século. 


Nem me apetece falar de algumas outras palhaçadas. Maus passos que a populaça, quando estimulada emocionalmente, volta e meia dá. Por algum motivo (e empresas como a Cambridge Analytica lidam bem com esses 'motivos'), uns resolvem atirar-se para fora da Europa e vão atrás do verbo insuflado de chicos espertos que, à primeira dificuldade, metem o rabo entre as pernas e arrepiam caminho, outros resolvem separar-se do país ao qual sempre pertenceram. Derivas independentistas que a razão desconhece e que, tarde ou cedo, darão com os burrinhos na água.

Também não vou falar dos que partiram -- e não foram poucos. Nos enterros há aquela velha máxima que toda a gente diz, encolhendo os ombros: é a lei da vida. Não sei se é, se não é. É o que é e nada se pode contra isso. Uns vão cedo demais, uns sofrem demais ao partirem, outros deixam um estranho vazio que se sabe que nunca será preenchido. 

Mas há também os que chegam, leves como o futuro inteiro que têm pela frente e a quem desejamos toda a sorte e felicidade do mundo. Transportam em si o tempo por viver e a esperança de melhores dias.


A nível artístico muitos foram os que me proporcionaram bons momentos mas há dois em que estou agora a pensar -- e, lá está, se eu fosse de elaborar raciocínios ponderados, talvez pudesse, em consciência, afirmar a pés juntos que são estes e nenhuns outros; assim, são apenas os que, neste instante, me estão a ocorrer. E são eles:
  • o Salvador Sobral. Menino talentoso, invulgar. O coração que o acompanhou enquanto levou a canção da mana Luísa aos quatro cantos do mundo já não é o que agora lhe bate no peito. E eu desejo, mas desejo muito, que saia desta, que o transplante vingue, que todos os seus órgãos reajam bem e que, cedo, cedo, volte a estar bem, que recupere totalmente e que, um dia destes, já aí o tenhamos de volta, cantando e encantando, irreverente e alegre -- por muitos e bons anos;
  • e Alma Deutscher, essa menina prodigiosa que compõe, improvisa, interpreta. Sonatas, concertos, óperas. Canto. Uma coisa inacreditável. 
Devia agora puxar pela cabeça para tentar falar também de pacifistas, ambientalistas, fotógrafos, bailarinos, escritores, políticos. Devia. Mas não vou fazê-lo. Ia falhar muito. 

Também não vou falar das grandes dores, das grandes vergonhas, de todas as traições feitas ao género humano ou cometidas contra seres vivos, em geral. Iria também falhar em toda a linha. Por cada pequena conquista, várias pesadas derrotas. E se para ilustrar este não-texto escolhi ao acaso algumas imagens que, por algum inconsciente motivo, me agradam, para terminar escolho duas que, por motivos totalmente conscientes, ilustram a barbárie que vive dentro de nós.



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Mas, não obstante a bestialidade cujas demonstrações nos ferem o coração, o mundo é ainda um lugar maravilhoso, múltiplo nas suas magias e encantos.
É bom viver.
Convenhamos: 2017 não foi um ano mau de todo. 



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2017 está, pois, quase a acabar.
E que acabe em beleza que cá estaremos para as despedidas e para receber, com esperança, 2018

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domingo, julho 23, 2017

Nem eu.
Marie Maurice e Salvador Sobral


Sem palavras minhas, que não fazem falta para nada, apenas as imagens de Marie Maurice e a voz de Salvador Sobral que interpreta Dorival Caymmi



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A todos quantos aí estão desse lado desejo um feliz dia de domingo.

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quinta-feira, junho 29, 2017

Conselhos aos novos -- ou nem por isso
(E isto nem tem especialmente a ver com a saída infeliz do Salvador Sobral lá no concerto)



Não gosto de dar conselhos. Opiniões, sim. Sou opinativa. Mas uma opinião é coisa que vale o que vale. Noutras circunstâncias, poderei achar outra coisa e lá vai a opinião ao ar.. Por isso, opino -- mas pouco aconselho. Sei lá o que é que os outros devem fazer? 

Se entra alguém para trabalhar comigo, não tenho paciência para conselhos, prelecções ou grandes enquadramentos. No outro dia tive uma conversa com alguém a quem perguntei se queria ficar a trabalhar comigo, alguém que estava a acabar um estágio. Se tanto, a conversa durou uns cinco minutos. Ele disse que sim, eu disse o que é que esperava dele e a coisa ficou arrumada. E o que eu disse que esperava dele é que fizesse sempre o que, na opinião dele, fosse o melhor possível, que tentasse aprender por ele mas, que, quando não soubesse, não tivesse acanhamento em dizer que não sabia ou que precisava de ajuda, e que tentasse ser, aos olhos dos outros, uma mais valia, alguém que trazia valor, que sabia maneiras diferentes de fazer as coisas. E pronto. 

E, ao fim de um dia, já eu estava a pedir-lhe que fizesse coisas que ele nunca tinha feito e que não sabia se sabia fazer. E hoje já o vi, sorridente, a cirandar e a fazer coisas. 

Não quero cá saber de horários*, de pontualidades*, de querer disponibilidades para além das razoáveis, não me ocorre falar de desafios, de tretas e de mais não sei o quê. Quanto muito, se me lembro, digo que devem ter uma vida equilibrada, que não devem abdicar de ter vida própria, que é bom que tenham gosto por fazer outras coisas. 

(*Porque a função tal não requer. Se fosse trabalhar numa loja ou num lugar de atendimento ao público ou num turno de uma fábrica, aí já a conversa seria outra. Obviamente.)


No outro dia, reuni-me com uma pessoa que trabalha comigo e que tem alguns problemas de relacionamento com um seu subordinado. Apesar de eu estar ali a tentar mediar o conflito, ali amesmo a conversa entre ambos azedou. Já estava, até, a achar graça a tanto ódio. O que lhes pedi foi que aprendessem a conviver com a maneira de ser um do outro e que se lembrassem sempre que devem andar bem dispostos, que não vale a pena aborrecerem-se por ninharias. E digo-lhes sempre que gosto de ver as pessoas que trabalham comigo a rir, gosto que me surpreendam com boas ideias, gosto que formem equipa. Pelo contrário, não suporto dramas.

Uma outra miúda que trabalha agora comigo veio de outra empresa e estava em risco de ficar desempregada. Tive a intuição, nem sei porquê -- já que a tinha visto apenas uma única vez e de raspão -- que era a pessoa que eu estava a precisar para uma determinada função. Foi contactada. Aceitou vir fazer uma coisa que nunca tinha feito na vida, um salto quântico nas suas funções. O lado negativo é que \trabalha um bocado longe de casa. Mas é só ela estar mais estabilizada na função, e vou passar a facilitar que fique a trabalhar em casa sempre que lhe der jeito. Mas anda motivadíssima. Diz: eu digo a toda a gente que a minha vida deu cá uma volta... E deu. E mais dará ainda, que já ando a ver se daqui por uns meses a mando para uma formação que a vai dar deixar com uma outra visão das coisas. E atiro-a para a frente, levo-a a reuniões onde nunca na vida ela pensou participar. Mas não lhe dei um único conselho. Puxo é por ela, empurro-a para a frente, deixo que vença o medo. Volta e meia diz-me que tem medo de não conseguir. Respondo: vai conseguir porque não tem outro remédio. Ela ri-se.

Uma outra a quem ando também a dar idêntico tratamento de choque, dizia a mesma coisa: estou com medo de não conseguir. E eu disse-lhe: tem que conseguir pois dependo de si. Tem que me ajudar e as duas vamos conseguir. Ela riu-se e disse: espero que sim, vou fazer por isso. Claro que vai. 

Mal de mim se não tiver a trabalhar comigo gente audaciosa, corajosa, solidária. Mas que não sejam apertadinhos, tipo marrãozinho, cheios de nove horas. Gosto de gente que ri enquanto fala, gosto de gente que confessa, enquanto ri de forma inocente, que tem medo. Também eu tenho medo. Medo que me falhem quando eu precisar. 


E também não gosto de receber conselhos. 

Tenho um colega que é o meu oposto. Eu nunca tomo apontamentos, não tenho dossiers (físicos) ou pastas (informáticas, digamos assim) -- a minha caixa de correio ou 'os meus documentos' é tudo na base do tudo ao molhe e fé em deus. Quando quero encontrar alguma coisa, faço uma pesquisa por palavras ou emissor ou destinatário. Também nunca arquivo nada. Portanto, qualquer destas cenas (caixa de correio, documentos, etc) tem milhares de coisas sempre à vista. Esse meu colega, pelo contrário, não apenas tem mil pastas, mil sub-divisões, mil caderninhos, como se orgulha do seu poder de arrumação e passa a vida a aconselhar toda a gente a seguir o seu método. Se eu lhe digo que vivo bem no meio do caos, ele olha-me com desconcerto.

Identicamente, raramente presto atenção a conselhos de livros, músicas ou filmes. Pode é acontecer que considere algumas pessoas, raras, como de inquestionável bom gosto e que, aconselhem o que aconselharem, eu siga cegamente. Ou podem algumas pessoas que mal conheço recomendarem alguns livros e, pela forma como se exprimem, me deixarem verdadeiramente curiosa. Já aconteceu isso em relação a livros que leitores (e agora estou a pensar, em concreto, numa leitora) me recomendaram e que, de facto, me agradaram bastante. Mas, tirando esses casos excepcionais, o que me recomendam entra por um ouvido e sai por outro.


Também não gosto especialmente de aconselhar livros ou músicas ou filmes. Não me parece inteligente fazê-lo. Apenas de vez em quanto o faço, e é quando me parecem de qualidade inequívoca e que podem agradar transversalmente. E, no entanto, sei por experiência própria que aquilo que, para mim, está acima de qualquer subjectividade se espeta na parede à primeira tentativa. Por exemplo, gosto mesmo muito do filme O amante de Lady Chatterley e, no entanto, o meu marido acha o filme longo demais e não vê nele nada de trascendente. Portanto, não vale a pena.

Muito menos gosto de me armar em moralista, em beata sempre pronta para a censura, em zeladora de bons costumes, tesoura em punho para cortar qualquer palavra mal dita. Uma coisa é ficar furiosa com a mediocridade de alguns políticos, pagos para serem os nossos representantes e zelarem pelo bem do seu país, e a quem vejo a fazerem burrices, a fazerem com que o país ande para trás ou se enterre. Aí a minha indignação fala mais alto pois acho que o dever de todos é olhar pelo bem de todos, em especial pelos que têm menos voz.

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E vem isto a propósito dos vídeos que vos mostro abaixo. Lydia Davis, escritora, Wim Wenders, cineasta, Norman Foster, arquitecto, Marina Abramovic, performer -- aconselham jovens. Gosto de ouvi-los mas não me imagino a ser capaz de fazer o mesmo. Talvez, quanto muito, dissesse: façam o que vos der na bolha, ousem, inovem, sejam corajosos -- e sejam felizes. Mas, lá está, isso sou eu. 












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As fotografias são da autoria de Lillian Bassman (a 1ª), Sheila Metzner (as duas seguintes) e Stéfanie Renoma (a última).

Lá em cima Agnes Obel interpreta Just so.

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P.S. a propósito de conselhos aos mais novos

Meio mundo anda para aí a dar conselhos ao Salvador Sobral. Eu, pelas razões já acima tão bastamente explanadas, sobre aquela tal palermice dita por ele no concerto de angariação de fundos para as vítimas do incêndio de Pedrógão, pouco tenho a dizer. 


diz que vai mandar um peido

Acho que, em iguais circunstâncias, eu jamais diria tal coisa. Mas eu não sou ele. Também admito que um puto de 27 anos, a passar por exeperiências tão reviravolteantes como aquelas pelas quais o Salvador tem passado nos últimos meses, possa andar um bocado desacertado das ideias, confundindo, no meio do barulho das luzes, um grande espectáculo com uma noite de copos entre amigos. Mas, tirando isso, nada mais a dizer. Não me parece caso para fazer um caso pois saídas infelizes toda a gente as tem e o melhor é seguir em frente e pôr uma pedra sobre o assunto. 


Portanto, conselhos para o Salvador: zero. Ou apenas umas banalidades: não se deixe engolir pelas solicitações, pela agenda, pelo mediatismo -- antes que fique passado da cabeça.

Conselhos para quem aconselha o Salvador: não percam tempo a ligar às palermices que volta e meia lhe saem, valorizem antes o que ele diz de acertado e, sobretudo, ao que ele canta e à forma como canta. O rapaz tem muita pinta. 

E ponto. 

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Um dia muito feliz a todos os que estão aqui comigo.

Espero que se sintam bem na minha companhia. Eu gosto de vos sentir aí. E gosto de pensar que, volta e meia, sorriem com o que eu digo.

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domingo, maio 14, 2017

Portuguese is quite possibly the loveliest language in which to sing soft, good, songs
--- diz o The Guardian --
Eurovision 2017 : Salvador Sobral, le miracle portugais
-- diz o Le Figaro
Salvador Sobral, el chico que odiaba Eurovisión
-- diz o El Pais
La sorella, la malattia al cuore: chi è Salvador Sobral, il vincitore dell’Eurovision Song Contest

-- diz o Corriere della Sera
A Portuguese Ballad Earns Country’s First Eurovision Victory
-- diz o The New York Times



Depois de ter escrito os dois posts abaixo sobre a participação do Salvador Sobral na Eurovisão, e ainda não refeita da surpresa não apenas pela vitória como do meu entusiasmo com isto, dei por mim a espreitar se tinha saído alguma coisa na imprensa estrangeira.



E gostei do que li. Gosto de ler coisas boas sobre o meu país. Longe parecem ir já os tempos em que éramos os pobres coitados geridos por um governo que queria ir além da troika, um país em que o primeiro-ministro, esse Passos Coelho de má memória, mandava os jovens emigrarem, fazia de tudo para vender as melhores empresas a estrangeiros, maltratava os velhos, os trabalhadores e os desempregados e fazia papel de subalterno na Europa, com a sua Marilú a bajular o Schäuble, deixando-nos a todos envergonhados por estarmos a ser representados no exterior por gente com vocação para serviçal. e para nada mais e, ainda assim, serviçais de quinta categoria.


Pois bem. Vivendo tempos bons, orgulhosos do seu mérito e mostrando a força da diferença, não apenas no futebol mas também a nível político (com a sua Geringonça a produzir resultados sociais e económicos dignos de registo) e agora, também, a nível musical, os Portugueses voltam a sentir o apreço da Europa -- por serem bons no que fazem e por serem genuínos e ousados.



Do The Guardian (e, confesso, ler isto quase me trouxe lágrimas aos olhos):

(...) and then, sublimely, Portugal, nicely described by Norton, back on form, as “just a boy in his bedroom singing a song written by his sister”. It was immensely, stoppingly surprising, and reminds us that Portuguese is quite possibly the loveliest language in which to sing soft, good, songs.

«Ma sœur l’a écrite et a pensé que je serais la bonne personne pour la chanter.» Sur scène, simplement positionné derrière le pied de son micro, le crooner portugais a transmis toute son émotion par la voix et la gestuelle, paraissant habité durant toute son interprétation.
Le public comme les jurys des 42 nations engagées cette année à l’Eurovision ont été séduits par cette proposition très singulière, sans fioritures.
Do El Pais:

Ha ganado Eurovisión sin enseñar parte alguna de su cuerpo, y cuando se desvistió fue para mostrar una camiseta de SOS Refugees. Salvador Sobral ha ganado Eurovisión sin confetis ni majorettes, por no necesitar, ni siquiera necesitó cambiarse de sexo.

El portugués que odia los festivales, que nunca en su vida vio una edición de Eurovisión, que ni siquiera enchufa la tele en su casa, ha ganado el festival de festivales con su voz y una canción de su hermana.
Do Corriere della Sera:
Nato a Lisbona, 27 anni, è il primo portoghese a trionfare al Festival. Insieme alla sorella Luisa, che ha scritto la canzone vincitrice e che l’ha sostituito sul palco perché Salvador soffre di problemi cardiaci piuttosto gravi.
Do The New York Times:

Salvador Sobral of Portugal broke one of Eurovision’s longest-running losing streaks on Saturday night, scooping up the country’s first-ever win with the uncharacteristically somber ballad, “Amar Pelos Dois.”

“I want to say that we live in a world of disposable music, fast food music without any content,” Mr. Sobral said as he accepted his award on Saturday night in Kiev, Ukraine. “Music is not fireworks, music is feeling, so let’s try to really change this, and bring music back.”

Salvador Sobral - Amar Pelos Dois (Portugal)

  LIVE at the 2017 Eurovision Song Contest



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E queiram, por favor, continuar a descer.

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Salvador e Portugal ganharam a Eurovisão 2017
Grande Salvador e que bem fez ao defender o valor da boa música.
O caneco de cristal já cá canta!!!
E para o ano a Eurovisão é em Portugal.

E ainda o Marcelo se espanta com o optimismo do Costa...


Luís e Salvador Sobral - a Eurovisão a seus pés


Por cá uns dizem que foi um dia em grande e outros que pena foi aquilo de Benfica. Mas todos orgulhosos nesta nossa participação. 

Portugal ousou romper a onda da música pimba, da música de plástico, romper o mito que há que dar ao povão a música de que o povão gosta, romper com as coreografias ultra-produzidas que não passam daquilo a que Salvador se referiu como 'fogo de artifício'. Portugal ousou apostar na música e nas letras com conteúdo -- e ganhou a aposta.


Vitória do lado dos júris, vitória do lado dos televotos. O pleno das preferências.

Nunca pensei ver-me a falar da Eurovisão.... Mas sobretudo nunca pensei ver-me a festejar a vitória de Portugal na Eurovisão. Inédito para mim e certamente para muita gente.

Boa música, belo arranjo, grande interpretação e, no final, o carinho entre os dois irmãos a partilharem a interpretação da vitória. 

Luísa e Salvador Sobral: muitas parabéns e muitas felicidades aos dois. E os parabéns também à RTP que esteve bem desde a génese até ao fim.



A bem da diversidade, da inclusão, da qualidade.

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PS: E agora estou a ouvi-lo na conferência de imprensa. Uma pessoa informada, que sabe falar, que sabe colocar Portugal numa posição bem interessante. Que orgulho. E que fluência que ele tem apesar de zen e algo desconcertante.

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Claro que estou a torcer para o Salvador ganhar.
Portugal : "Amar pelos Dois": 12 points


Aos anos, aos anos!, que por estas bandas ninguém via a Eurovisão. Mas hoje aqui estamos. Por um lado, porque, como acabei de ouvir: 'nada de zapping que não estou para comer com o Benfica' e, por outro, porque a canção é mesmo bonita e porque o Salvador é um grande intérprete.


O vídeo que aqui ponho não é o da actuação de hoje. Hoje Salvador actuou debaixo de um jogo de luzes que fez um cenário encantatório.

Não sei dizer muito mais do que isto mas, atenção, há quem o saiba. Vejam, por favor, o que o filho da Alice teve a dizer:

Começa assim:
Erguem-se os arcos e num toque suave vibram as cordas em sintonia com o mundo, num tom deslumbrantemente florestal, enraizando as almas apegadas à magia da primeira escala. Os olhos fecham-se para ouvir o vento murmurando as palavras da estória de amor, entre acordes subtis e ricos de paixão, revelando a perfeição sobreposta à dissonância. Em crescendo, o vento solitário sopra para o horizonte infinitamente vazio à visão, em ondas expressivas e frágeis, em rondó de emoções. Uma harmonia misteriosa e nas ramagens cai o silêncio.
Mas cliquem aqui para verem o resto.


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Vá Salvador: força. Bora lá 'Amar pelos Dois'. 

Melhor: amar por todos.

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terça-feira, março 07, 2017

Marcelo Rebelo de Sousa e a estabilidade financeira que Carlos Costa lhe inspira.
A Ítaca de Cavafy lida por Sean Connery.
E a história do azul.
Com o Salvador Sobral e 'nem eu'




Não sei que imagem passo para quem me lê pois tenho a imagem de mim mesma enquanto escrevo -- e essa é a única que me chega. E, ainda assim, chega distorcida.

Hoje. Por exemplo.

Levantei-me muito cedo e, como sempre acontece quando madrugo, na véspera adormeci tarde demais, tive o sono leve e acordei antes da hora. Centenas de quilómetros, horas de reuniões, sem oportunidade para fechar os olhos, para descansar. Chegada a casa, cansada, pouco fiz, um jantar ligeiro. Um pouco mais tarde, aqui no sofá, incapaz de me manter acordada. Leio os comentários que os Leitores deixaram, espreito os mails, gosto de os ler, tenho vontade de lhes responder mas adormeço. Agora comecei a escrever a ver se me mantenho acordada.

Há pouco espreitei as notícias. Marcelo quer estabilidade financeira. Quem a não quer? Mas é difícil tê-la com um ceguinho tartamudo e taralhouco à frente do Banco de Portugal. Nada contra as instituições, genericamente falando. Mas uma pessoa inquieta-se quando sabe que o tesouro está à guarda de uma pessoa que não sente os ladrões a aproximarem-se, não dá por nada enquanto o roubam e, no fim de tudo, vem confessar que a culpa não foi dele, porque não deu por nada. Ora abóbora.



Marcelo quer estabilidade financeira. Também eu. Um colega meu, supostamente parafraseando Marques Mendes na SIC, diz que se critica o polícia ceguinho e permissivo mas não se critica o ladrão manganão. Engano. Ricardo Salgado está a braços com a justiça, com bens arrestados, a vida virada do avesso. A justiça dirá o que se segue (e, sabendo o que é a justiça em Portugal, o mais certo é que tenha calvário até ao fim dos seus dias, provavelmente antes que se apure um juízo final). Mas depois do BES já o Banif foi também ao ar. E com Carlos Costa à frente do BdP já todos sabemos que é o que se quiser. Portanto, se Marcelo quer estabilidade financeira, espero bem que em vez de aquilo com Carlos Costa ter sido uma conversa inclusiva, tenha sido uma airosa conversa de chega para lá. É que duvido que Marcelo embarque -- parvo ele não é. Aquilo lá em Belém, cá para mim, foi mais uma de, enquanto noblesse oblige, "estabilidade" e "instituições", bla, bla bla, olhe lá, meu amigo, não quer ir gozar a vida enquanto tem saúde?


E não me apetece dizer mais nada sobre isto. Aos anos que ando a dizer que aquele lá é uma coisa de faz de conta. Regulador? Está bem, está. Só contaram para o Passos Coelho.


E sigo. Ensonada, percorro as notícias e pouco mais mobiliza a minha atenção. Talvez o Salvador. Não vi o Festival da Canção mas gosto muito do Salvador. No verão vi o concerto dele no EDP Cool Jazz e foi muito bom. Um menino talentoso. Vou agora ouvir a canção com que ganhou, o 'Amar pelos dois'.


E, aqui chegada, talvez fizesse sentido dizer mais qualquer coisa sobre a actualidade; mas não consigo interessar-me. Só me apetece ver ou ouvir coisas que não têm nada a ver. Coisas fora do tempo.

Para ajudar à festa, pensei que deveria aqui colocar algumas das fotografias que fiz no domingo. E, ao escolher, também me apeteceu optar por aquelas que não têm a ver com o texto nem, a bem dizer, com nada. Montras com reflexos, graffitis, uma pintura na porta de uma loja, uma nossa senhora. Também podiam ser fotografias do céu com a elegante caligrafia das linhas eléctricas que alimentam os elétricos. Mas fica para outra vez.


Mas, com isto, não sei que ideia passo para vocês que aí me lêem. Desconcentrada? Desordeira? A mim, volta e meia, aconselham-me : 'Tem que ter algum cuidado. Podem dizê-la desalinhada'. Muito bem. Gosto disso, desalinhada. Mas era bom que objectivassem: desalinhada em relação a quê? A uma linha torta?

Mas, enfim, isso agora não interessa para nada. A verdade é que, de facto, não consigo manter-me alinhada em relação a alguma pretensa imagem (e a qual? alguém me diz?) pois, aqui, nada me obriga a nada. Escrevo ou divulgo apenas o que me dá na bolha -- e o que me influencia no momento em que aqui escrevo é apenas a minha vontade, a minha disposição, o meu estado de espírito ou o facto de estar ou não acordada.

Portanto, com vossa licença, permitam que me esteja nas tintas. E isto das 'tintas' não é metáfora: é literal.

Mas, antes, uma pausa. Deixem que me fique aqui, durante um bocado, com a Ítaca de Cavafy. Quem a lê é Sean Connery. Desta vez não é Tom O'Bedlam que me leva na conversa: é a voz meio enrolada de Sean Connery que me faz sentir transportada para bem longe daqui.


(...)
Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.

Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.
Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.

(Tradução de Jorge de Sena)


E agora, com vossa licença. uma coisa ainda mais descontextualizada: a história do azul. Ainda no outro dia estive a pintar uma grande tela e usei vários tipos de azul. Pode parecer que azul é azul.
O azul é o azul é o azul é o azul é o azul é o azul.
Nada mais errado. Cada azul tem sua personalidade. Consoante o que tenho em mente, vou experimentando. Misturando, arriscando. O azul é um fascínio. Outras cores também. Melhor: todas as outras cores também. Mas o azul. O rio, o mar, o céu, o meu corpo por dentro quando me evado de mim.

Como se faz o azul em que me movo.
Ou melhor: o azul em que me movia antes de eu ser esta que sou hoje,
quando vivia nos tempos em que a alquimia inventava pós mágicos, cores misteriosas.





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E pode ser que ainda cá volte. Agora que parece que estou a acordar, ocorre-me partilhar convosco uma descoberta que fiz a propósito de mim. Coisa hot.

Ou fica para mais logo que a coisa presta-se a aprofundamento, não pode ser sumariamente despachada antes de recolher aos meus aposentos.

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