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quinta-feira, junho 12, 2025

Neste nosso tempo em que os cidadãos regrediram à subtil designação de seguidores

 

Até não há muito -- talvez até antes de haver uma concorrência desmedida entre os canais de televisão, nomeadamente os de cabo que têm que manter as emissões em contínuo e deitam a mão a tudo o que é gato-sapato, ou até ao advento das redes sociais que vieram dar a voz a tudo e a todos por mais ignorantes e estúpidos que sejam -- só era dada oportunidade de se pronunciar em público a quem reunia um mínimo de características positivas que os fizessem distinguir do comum dos mortais. Tinha que se ser gente de cultura, com alguma coisa a acrescentar, para se poder chegar a um púlpito e falar para as massas.

Agora não. Veja-se Marcelo que, num dos seus momentos de deriva populista, chamou a discursar no 10 de Junho o João Miguel Tavares. Anedótico. E tal como a Assembleia da República é agora lugar em que um bando de grunhos tem assento, também as televisões se enxameiam com gente desqualificada. Vejam-se os Big Brothers desta vida, os programas de comentário do 'social' e muitos outros. E veja-se a cambada que invade os youtubes. 

Quando os meus netos cá estão, quando se póem a ver televisão, o que eles gostam de ver são youtubers ordinários a comentarem jogos ou parvoíces, a dizerem toda a espécie de disparates. Por mais que se tente impedi-los é por isso que eles se sentem atraídos. E imagino que os tiktoks desta vida estejam também pejados de porcarias idênticas. A mim, no instagram, não me aparece disso porque o algoritmo percebe que gosto de outras coisas e não me mostra grunhices mas, fosse eu de me interessar por maledicência, populices, racismos ou outras desconformidades e, certamente, seria alimentada com milhões de coisas dessas.

Não sei como se poderá parar estas enxurradas de desinformação, de superficialidade, de ordinarice, de aberração. Faz-me lembrar aquelas praias ultra-poluídas, como algumas dos países mais pobres de África, uma desgraça sem limite, as águas carregadas de lixo, as praias inundadas de detritos de toda a espécie e feitio, as pessoas, como animais, a esgravatar no meio da porcaria. Assim a comunicação nos dias de hoje. Lixo, lixo, lixo. E meio mundo a foçar no meio dessa imundície.

As instituições democráticas acabam por soçobrar perante a força da avalancha. Veja-se o que acontece com estes grupos ultra-nacionalistas, gente com aspecto troglodita, gente que nem sabe de que fala, sem conhecimentos de história, certamente gente com alguma perturbação mental, talvez traumas de infância, talvez gente mal-amada, gente que odeia os outros, gente que parece que tem prazer em fazer mal a pessoas indefesas, gente que odeia a decência, a democracia, a cultura, a inclusão, gente incapaz de gestos de bondade, de generosidade. E, no entanto, por aí andam e, estranhamente, conseguem que haja outros tantos que os apoiem. E ouvi que os serviços secretos sabem da existência destes grupos de gente má, de gente que incita e pratica a violência, e, pelos vistos, nada faz. Ouvi que há países em que estes grupos são proibidos. E acho bem. Mas não deve ser possível controlar verdadeiramente a sua existência pois este nosso mundo dispõe de alçapões e labirintos para toda a gente que gosta de se mover no mundo das trevas. A dark web, os chats e outros corredores sombrios permitem a movimentação desta gente maldosa que, em vez de se tratar, anda a espalhar o mal.

Ouço dizer que o populismo, o racismo, a xenofobia, o ultra-nacionalismo e coisas que tais se combatem com uma informação correcta, com educação, com pedagogia. Ajudará mas é lirismo pensar que isso é suficiente. Meio mundo não frequenta a aprendizagem rigorosa, não frequenta o conhecimento, não frequenta a comunicação social séria, não frequenta o mundo dos livros, não frequenta os espaços em que as pessoas falam sobre assuntos sérios e falam com vagar. 

Por isso, por muito que se queira educar os ignorantes, a pedagogia não chega até eles: uns porque trabalham e chegam tarde e cansados a casa, outros porque se desabituaram de ponderar, outros, os mais jovens, porque a realidade das redes sociais, dos whatsapps e dos youtubes é a única que conhecem.

E, no entanto, eis que, no meio disto, surge uma mulher que, vestida de branco, com voz pausada e serena, diz palavras sábias, límpidas, radiosas, inteligentes.

No dia 10 não ouvi o discurso de Lídia Jorge mas mão amiga fez-mo chegar. E, embora esteja a ser amplamente divulgado, faço questão de tê-lo também aqui. Uma maravilha. As escolas deveriam divulgar amplamente estas palavras. As televisões deveriam passá-las de vez em quando. De alguns excertos deveriam ser feitos cartazes para espalhar por todas as terras. 

Os países escolhem datas de referência para celebrarem a sua história, contemplando memórias de batalhas, ações de independência, encontros civilizacionais, momentos importantes em torno dos quais concitam a unidade dos cidadãos e promovem o orgulho patriótico.

Mas, em Portugal, é a data da morte de um poeta que protagoniza o nosso momento cívico de unidade mais relevante.

Muito se tem discorrido sobre o significado desta nossa singularidade e, muitas vezes, é difícil explicar que não se trata de um sinal de melancolia, mas sim do seu oposto.

Há a assunção de que um poeta do século XVI nos legou uma obra tão vigorosa que acabou por ser adotada no seu conjunto como exemplo da vitalidade de um povo e que a própria biografia do seu autor se oferece como exemplo não só de um percurso português, mas se transformou em símbolo universal da nossa peregrinação prometeica sobre a terra.

A fidelidade que Camões manteve em relação à pátria, quando se encontrava em paragens remotas, alimenta a simbologia que lhe é atribuída como exemplo da proximidade que os portugueses que se encontram longe mantêm com a sua cultura de origem.

O país retribui-lhes, reconhecendo, desde há muito, que as comunidades portuguesas são o corpo essencial do nosso ser identitário.

Mas as celebrações deste ano de 2025 têm um cunho muito particular. Em primeiro lugar, porque voltam a ter lugar na cidade de Lagos. No século passado, foi cidade anfitriã em 1996.

Passados 29 anos, esta cidade do Algarve continua a ser democrática, livre, próspera.

O que mudou e o que justifica que, de novo, tenha sido escolhida para ser palco das celebrações foi a nova consciência de que Lagos passou a representar um lugar obrigatório quando se pretende avaliar as relações entre os povos ao longo dos séculos.

É sabido que Lagos, lugar de saída para a África e lugar do comércio prático, tem como símbolo complementar o Promontório de Sagres.

A escassos 40 quilómetros de distância, Sagres e Lagos representam historicamente uma dualidade contrastiva cujo papel se encontra em avaliação.

A comunicação digital que se afirmou a partir dos anos 90 permite agora uma divulgação ampla dos estudos que os arqueólogos, antropólogos e historiadores estão a realizar neste espaço geográfico designado por Terras do Infante.

Era a altura de atribuir a Lagos, de novo, o estatuto de cidade vencedora e de apoiar estas celebrações de importância ou de interesse cultural.

Mas há outro motivo para que, este ano, a celebração deste dia seja particular. Desde há dois anos que estamos a invocar o nascimento de Camões, ocorrido há 500 anos, presume-se que entre 1524 e 1525. Calcula-se que assim tenha sido, mas vale a pena refletir sobre o facto, pois, tal como não sabemos como decorreu a sua infância, nem a sua formação, também desconhecemos o local e o dia em que o poeta nasceu.

Para sermos justos sobre a sua vida inicial, apenas podemos dizer o que um certo maestro célebre disse de Beethoven: Um dia Camões nasceu e nunca mais morreu. Nunca mais morreu.

Provam-no a forma como, passados cinco séculos, tem sido revisitado ao longo destes dois últimos anos. As escolas, a academia, o mundo da edição, os vários campos das artes e das ciências humanísticas em Portugal têm dado rosto a toda uma espécie de comemoração espontânea e informal em torno do nosso poeta maior.

Novos autores têm surgido, atualizando a exegese sobre os seus poemas e o conhecimento acumulado em torno da vida de Camões.

O jovem ensaísta Carlos Maria Bobone pôs recentemente em relevo o papel decisivo que Camões desempenhou ao fixar uma língua nova à altura de um pensamento novo que resultaria definitivamente na Língua Portuguesa moderna que hoje usamos.

Demonstrou como a língua portuguesa, manobrada no seu esplendor, resultou como uma dádiva que devemos ao grande cantor do Oceano, como lhe chamou Baltasar Estaço.

Por sua vez, a biógrafa Isabel Rio Novo, numa visita recente, profusamente documentada que faz à vida de Camões, no final, não deixa de se comover com os testemunhos sobre os últimos dias do poeta, demonstrando que as histórias que correm sobre certos passos da sua vida, afinal, não são lendas, são verdades.

O receio de sermos românticos não nos deveria afastar da realidade testemunhada. E assim, a mim, não me pareceria errado que os adolescentes portugueses conhecessem o comentário que Frei José Índio redigiu na margem de um exemplar d’Os Lusíadas, presumivelmente oferecido pelo próprio autor na hora de partir. Escreveu o frade: Yo lo vi morir en un hospital en Lisboa sem tener uma sábana com que cobrisse, despues de haver navegado 5.500 léguas per mar.

Assim foi, sem um lençol. Terá sido um amigo quem lhe enviaria a sábana, já depois de morto.

Não me parece que daí se devam retirar conceitos patrióticos ou antipatrióticos. Conceitos sobre a vida humana e seu mistério, isso, talvez.

Entretanto, por contraste, sobre a obra que deixou, milhares de páginas de novo têm sido escritas, confirmando a dimensão invulgar do poeta que foi.

Hélder Macedo, um dos seus leitores mais subtis, disse recentemente numa entrevista que, se Camões tivesse continuado a viver, ninguém mais em Portugal teria sido capaz de escrever um verso. Essa hipérbole é linda.

Assim como é reconfortante saber que os professores deste país continuam a ler às crianças epigramas, redondilhas e vilancetes de Camões, como se fossem filos modernos, feitos de palavras, o que mostra que os portugueses continuam vivamente enamorados do seu poeta maior.

Mas se o patrono destas celebrações é o poeta do virtuosismo verbal e do amor conceptual, o amor maneirista, o poeta do questionamento filosófico e teológico, como é em “Sôbolos rios que vão”, e o poeta dos longos versos enfáticos sobre o heroísmo dos viajantes do mar, ao regressarmos a todos esses versos, escritos há quase 500 anos, encontramos coincidências que nos ajudam a compreender que os tempos duros que atravessamos têm conformidade com os tempos em que o próprio viveu.

Camões, tal como nós, conheceu uma época de transição, assistiu ao fim de um ciclo e, sobre a consciência dessa mudança, no conjunto das 1.102 oitavas que compõem Os Lusíadas, 22 delas contêm avisos explícitos sobre a crise que se vivia então.

Aliás, hoje é ponto assente que o poema épico encerra um paradoxo enquanto género, o paradoxo de constituir um elogio sem limites à coragem de um povo que havia resultado da criação do Império e, em sentido oposto, conter a condenação das práticas que, passados 50 anos, impediam a manutenção desse mesmo Império.

E nesse campo pode-se dizer que Os Lusíadas, poema que no fundo justifica que o dia de Portugal seja o dia de Camões, expressa corajosas verdades dirigidas ao rosto dos poderes que elogia.

É bom lembrar que, entre os séculos XVI e XVII, três dos maiores escritores europeus de sempre coincidiram no tempo apenas durante 16 anos e, no entanto, os três desenvolveram obras notáveis de resposta ao momento de viragem de que eram testemunhas.

Foram eles Shakespeare, Cervantes e Camões. De modo diferente, mas em convergência, procederam à anatomia dos dilemas humanos e, entre eles, os mecanismos universais do poder, corpus que continua válido e intacto até aos nossos dias: sobre o poder grandioso, o poder cruel, o poder tirânico, o poder temeroso e o poder laxista.

No caso de Camões, de que se queixa ele quando interrompe o poema das maravilhas da história para lembrar a mesquinha realidade que envenenava o presente de então? Queixava-se da degradação moral, mencionava “o vil interesse e sede imiga/Do dinheiro, que a tudo nos obriga”, e evocava, entre os vários aspetos da degradação, o facto de sucederem aos homens da coragem que tinham enfrentado um mar desconhecido, homens novos, venais, que só pensavam em fazer cultura. Mais do que isso, queixava-se da subversão do pensamento, queixava-se da falta de seriedade intelectual, que resultava depois, na prática, na degradação dos atos do dia a dia.

Escreve o poeta no final do canto oitavo: “Este deprava às vezes as ciências,/ Os juízos cegando e as consciências./ Este interpreta mais que sutilmente/ Os textos; este faz e desfaz leis;/ Este causa os perjúrios entre a gente/E mil vezes tiranos torna os Reis”.

Na verdade, Camões, Cervantes e Shakespeare, de modos diferentes, expuseram os meandros da dominação, envolvidos com o tempo histórico dos impérios que viveram.

Por essa altura, sobre os reis de Portugal, Espanha e Inglaterra, dizia-se que lutavam entre si pelo domínio do globo terrestre. Ou mais concretamente, dizia-se então que os três competiam para ver quem acabaria por pendurar a terra ao pescoço como se fosse um berloque.

Os três autores perceberam bem que, em dado momento, é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência.

Escreveu Shakespeare no ato IV do Rei Lear: “É uma infelicidade da época que os loucos guiem os cegos”.

Enquanto isso, Cervantes criava a figura genial do alucinado Dom Quixote de La Mancha, que até hoje perdura entre nós como o nosso irmão ensandecido.

Por seu lado, Camões, no corpo d’Os Lusíadas, não falou da loucura, mas a vida haveria de lhe demonstrar que as páginas escritas por si mesmo haviam sido proféticas, em resultado dela, da loucura. O desastre de Alcácer-Quibir, ocorrido em 1578, estava assinalado numa das últimas estrofes do Canto X. Era a história, como sempre, a confirmar o pressentimento experimentado pela literatura.

No entanto, o fim do ciclo, que neste caso aqui interessa, não é mais uma transição localizada que diga apenas respeito a três reinos da Europa.

Nos dias que correm, trata-se do surgimento de um novo tempo que está a acontecer à escala global. Porque nós, agora, somos outros.

Deslocamo-nos à velocidade dos meteoros e estamos cercados de fios invisíveis que nos ligam para o espaço.

Mas alguma coisa desse outro fim de século, que se seguiu ao tempo da Renascença malograda, relaciona-se com os dias que estamos a viver. O poder demente, aliado ao triunfalismo tecnológico, faz que a cada dia, a cada manhã, ao irmos ao encontro das notícias da noite, sintamos como a terra redonda é disputada por vários pescoços em competição, como se mais uma vez se tratasse de um berloque.

E os cidadãos são apenas público, que assiste a espetáculos em ecrãs de bolso. Por alguma razão, os cidadãos hoje regrediram à subtil designação de seguidores. E os seus ídolos são fantasmas.

É contra isso e por isso que vale a pena que Portugal e as Comunidades Portuguesas usem o nome de um poeta por patrono. Por isso mesmo, também vale a pena regressar a Lagos.

Sobre estes areais, aconteceram momentos decisivos para o mundo.

No início da Idade Moderna, Lagos e Sagres representaram tanto para Portugal e para a Europa que à sua volta se constituíram mitos que perduram. O Promontório e a silhueta do Infante austero que sonhou com o achamento de ilhas e outros descobrimentos, como parte de uma guerra santa antiga, e tudo realizou a poder de persistência férrea e sagacidade empresarial, transformou-se numa figura de referência como criador de futuros. À sua figura anda associado um sonho que se realizou e depois se entornou pela terra inteira e a lenda coloca-o a meditar em Sagres.

Numa referência um tanto imprecisa, mas que permite a sua evocação, Sophia escreveu: “Ali vimos a veemência do visível/ o aparecer total exposto inteiro/ e aquilo que nem sequer ousáramos sonhar/ era o verdadeiro”.

Esta ideia de que, na mente do Infante, se processou uma epifania, anda-lhe associada enquanto mentor de uma equipa mais ou menos informal que teve a capacidade de motivar e dirigir. Sagres passou, assim, para a história e para a mitologia como lugar simbólico de uma estratégia que mudaria o mundo.

Mas existe uma outra perspetiva, como é sabido, e hoje em dia o discurso público que prevalece é, sem dúvida, sobre o pecado dos Descobrimentos e não sobre a dimensão da sua grandeza transformadora.

É verdade que a deslocação coletiva que permitiu estabelecer a ligação por mar entre os vários continentes e o encontro entre povos obedeceu a uma estratégia de submissão e rapto, cujo inventário é um dos temas dolorosos de discussão na atualidade.

É preciso sempre sublinhar, para não se deturpar a realidade, que a escravatura é um processo de dominação cruel, tão antigo quanto a humanidade.

O que sempre se verificou foi diversidade de procedimentos e diferentes graus de intensidade.

E é indesmentível que os portugueses estiveram envolvidos num novo processo de escravização longo e doloroso.

Lagos, precisamente, oferece às populações atuais, a par do lado mágico dos Descobrimentos, também a imagem do seu lado trágico.

Falo com o sentido justo da reposição da verdade e do remorso pelo facto de que se ter inaugurado o tráfico negreiro intercontinental em larga escala, como polos de abastecimento nas costas de África, e assim se ter oferecido um novo modelo de exploração de seres humanos que iria ser replicado e generalizado por outros países europeus até ao final do século XIX.

Lagos expõe a memória desse remorso. Mostra como, num dia de agosto de calor tórrido de 1444, desembarcaram aqui 235 indivíduos raptados nas costas da Mauritânia e como foram repartidos e por quem.

Alguém que, muito prezamos, encontrava-se em cima de um cavalo e aceitou o seu quinhão de 46 cabeças. Esse cavaleiro era nem mais nem menos do que o próprio Infante D. Henrique.

Lagos não se furta a expor essa verdade histórica.

Lagos também mostra o local onde depois levas sucessivas iriam ser mercadejados os escravos. E mais recentemente relata-se como eram atirados ao lixo quando morriam sem um pano a envolver os corpos. Até agora foram retirados desse monturo de Lagos os restos mortais de 158 indivíduos de etnia Banta.

Lagos mostra esse passado ao mundo para que nunca mais se repita. Talvez por isso estejamos aqui, no dia de hoje.

Aliás, a UNESCO criou a Rota do Escravo e inscreveu Lagos na Rota da Escravatura, para que saibamos como os seres humanos procedem uns com os outros, mesmo quando se fundamentam em religiões fundadas sob os princípios do amor e sob a lei dos direitos humanos.

Lagos mostra esse filme e faz-se parente de quem escreveu na porta de um lugar de extermínio moderno o pedido solene: Homens não se matem uns aos outros.

É verdade que só conhecemos o que sucedeu naquele dia 8 de agosto de 1444 porque o cronista do infante Dom Henrique o narrou. Eanes Gomes de Zurara não conseguiu evitar um sentimento de compaixão e comentou, de forma comovida, como a chegada e a partilha dos escravos era cruel. Felizmente que dispomos dessa página da “Crónica dos Feitos de Guiné” para termos a certeza de que havia quem não achasse justo semelhante degradação e o dissesse.

Aliás, sabemos que sempre houve quem repudiasse por completo a prática e o teorizasse.

O que significa que Lagos, a cidade dos sonhos do Infante de que Sagres é a metáfora, passados todos estes séculos, promove a consciência sobre o que somos capazes de fazer uns aos outros. Esta tornou-se, pois, uma cidade contra a indiferença.

É uma luta nossa, contemporânea.

Em Lagos, hoje em dia, está presente de outro modo a mensagem do cartoon de Simon Kneebone, datado de 2014, que tem corrido mundo.

A cena é nossa contemporânea. Passa-se no mar. Num navio enorme, aparelhado com armas defensivas, no alto da torre, está um tripulante que avista ao longe uma barca frágil, rasa, carregada de migrantes.

O tripulante da grande embarcação pergunta: de onde vêm vocês? Da lancha, apinhada, alguém responde: vimos da terra.

Sugiro que os jovens portugueses, descendentes de cavadores braçais, marujos, marinheiros, netos de emigrantes que partiram descalços à procura de trabalho, imprimam este cartoon nas camisas quando vão ao mar.

Consta que em pleno século XVII, 10% da população portuguesa teria origem africana.

Essa população não nos tinha invadido. Os portugueses os tinham trazido arrastados até aqui. E nos miscigenámos.

O que significa que por aqui ninguém tem sangue puro. A falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma.

Tem sangue do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou. Filhos do pirata e do que foi roubado. Mistura daquele que punia até à morte e do misericordioso que lhe limpava as feridas.

A consciência dessa aventura antropológica talvez mitigue a fúria revisionista que nos assalta pelos extremos nos dias de hoje, um pouco por toda a parte.

Agora que percebemos que estamos no fim de um ciclo e que um outro se está a desenhar, e a incógnita existencial sobre o futuro próximo, ainda desconhecido, nos interpela a cada manhã que acordamos sem sabermos como irá ser o dia seguinte.

A pergunta é esta: quando ficarem em causa os fundamentos institucionais, científicos, éticos, políticos e os pilares de relação de inteligência homem-máquina, entrarem num novo paradigma, que lugar ocuparemos nós como seres humanos? O que passará a ser um humano?

Comecei por dizer que Camões nasceu e nunca mais morreu.

Regresso à sua obra para procurar entender que conceito tinha a poeta sobre o que era um ser humano. Sobre si mesmo, toda a sua obra o revela como vítima da perseguição de todas as potestades conjugadas. A sua obra lírica é uma resposta a esse abandono essencial.

Em conformidade com essa mesma ideia, ao terminar o canto I d’Os Lusíadas, Camões define o ser humano como um ente perseguido pelos elementos: “Onde pode acolher-se um fraco humano,/ Onde terá segura a curta vida/ Que não se arme, e se indigne o Céu sereno/ Contra um bicho da terra tão pequeno”.

Nestes versos, se reconhece o conceito renascentista, o da grande solidão do ser humano e a sua luta estóica contra, centrada na confiança em si mesmo.

Mas, na prática, essa atitude representava uma orfandade orgulhosa que facilmente a fortuna não reconhecia. Curiosamente, no final da vida, o corpo nu de Camões só teve um lençol, o oferecido, a separá-lo da terra. Igual à sorte do seu corpo, essa sorte não difere daquela que mereceram os corpos dos escravos aqui em Lagos.

Mas entretanto, no século XIX, o direito à proteção beneficiada pelo Estado começou a emergir. Criaram-se documentos essenciais tendo em vista o respeito pelos cidadãos. Depois das duas guerras mundiais do século XX, foi redigida e aprovada a Carta dos Direitos Humanos e, durante algumas décadas, foi tentado implantá-los como código de referência um pouco por todo o mundo. Só que ultimamente regride-se a cada dia que passa.

O conceito de representatividade respeitável da figura do Chefe de Estado, oriundo do povo grego, princípio que sustentou a trama purificadora das tragédias clássicas, a que se juntou depois o princípio da exemplaridade colhida dos Evangelhos, essa conduta que fazia com que o rei devesse ser o mais digno entre os dignos, está a ser subvertida.

A cultura digital subverteu a regra da exemplaridade. O escolhido passou a ser o menos exemplar, o menos preparado, o menos moderado, o que mais ofende.

Um Chefe de Estado de uma grande potência, durante um comício, pôde dizer: adoro-vos, adoro os pouco instruídos. E os pouco instruídos aplaudiram.

Pergunto, pois, qual é o conceito hoje em dia de ser humano? Como proteger esse valor que até há pouco funcionava e não funciona mais?

Hoje, dia de Portugal, de Camões e das comunidades, não será legítimo perguntar, sem querer ofender quem quer que seja, perguntar como manteremos a noção de ser humano respeitável, livre, digno, merecedor de ter acesso à verdade dos factos e à expressão da sua liberdade de consciência?

Nós, portugueses, não somos ricos. Somos pobres e injustos. Mas, ainda assim, derrubámos uma longuíssima ditadura e terminámos com a opressão que mantínhamos sobre diversos povos e com eles estabelecemos novas alianças e criámos uma comunidade de países de língua portuguesa. E fomos capazes de instaurar uma democracia e aderir a uma união de países livres e prósperos que desejam a paz.

Assim sendo, por certo que ainda não temos as respostas, mas, perante as incógnitas que nos assaltam, sabemos que temos a força.

Leio Camões, aquele que nunca mais morreu, e comovo-me com o seu destino, porque se alguma coisa tenho em comum com ele, que foi génio, e eu não sou, é a certeza de que partilho da sua ideia, de que um ser humano é um ser de resistência e de combate. É só preciso determinar a causa certa.

Muito obrigada.

 

[Discurso de Lídia Jorge. Lagos, 10.Junho.2025] 

sexta-feira, fevereiro 14, 2025

O Musk a reservar para Trump o papel de avôzinho? O Trump a engolir um sapalhão e a fingir que até gosta?
What?
E que reviravolta mundial é esta a que assistimos? Qual o papel da Europa no meio disto tudo?

 

Ando perplexa com o que está a passar-se. Há um lado pragmático em Trump que, por vezes, me parece que faz algum sentido. Mas, ao desprezar as leis, ao ignorar a história e a geografia, ao desprezar todos os que não são mais fortes que ele, ao demonstrar ser um narcisista intragável, é perigoso.

Em tempos trabalhei com equipas de outras nacionalidades. Já o contei: aqueles com quem mais gostei de trabalhar foi com alemães. Por vezes levavam-me ao desespero ao quererem planear tudo ao mais ínfimo detalhe, ao quererem ter planos de contingência para cada pequeno imprevisto, Antes de começarmos a pôr em prática o que quer que fosse, 'perdíamos' tempos infinitos a arquitectar soluções para tudo o que pudesse acontecer. Mas eram rigorosos simpáticos, leais, e, uma vez tudo equacionado, a execução era eficiente, sem espinhas. Não se trabalhava fora de horas. Tudo rodava sobre rodas.

Também gostei imenso de trabalhar com um holandês. Era divertido, brincalhão, viajado, incorporava histórias hilariantes nas conversas. E era inteligente, bon vivant. Também gostei bastante de trabalhar com ele.

Também trabalhei com espanhóis, franceses, israelitas, australianos, japoneses, italianos.

Mas agora quero falar de um americano. Fisicamente parecia um atleta. Devia medir dois metros, tinha um físico incrível, tinha um cabelo liso de um louro acinzentado, uns olhos azuis acinzentados claros. Andava sempre com uma mochila ao ombro mesmo quando isso ainda não era moda. Também se apresentava muitas vezes de ténis quando isso era heresia. Não gostei muito de trabalhar com ele. Havia qualquer coisa de excessivamente pragmático, de rudimentar, de muito básico. Era inteligente, muito, e desempenhava funções muito relevantes. Mas ignorava constrangimentos, ignorava a resistência humana às mudanças de fundo, ignorava os pequenos impedimentos. A ideia dele era atingir um objectivo e não queria saber de mais nada, Não lhe interessava conhecer o tema ao pormenor, muito menos queria perder tempo em levantamentos. E estava-se nas tintas para interagir com a malta que integrava as equipas. Eu era a interlocutora dele e isso para ele bastava. Temas que, para serem escalpelizados levariam horas, eram para ele coisa para um quarto de hora. Mais do que isso era estarmos a envolver-nos nos problemas em vez de nos focarmos nas soluções.

Eu ficava siderada. Claro que perante um problema há 3 alternativas. A 1ª é não fazermos nada, a 2ª é tentarmos resolvê-lo a bem, com o envolvimento e a compreensão de todos. A 3ª é à bruta.

A abordagem dele era a 3ª. Dizia que estávamos a deixar de ganhar o que devíamos por não termos implementado um conjunto de processos e tecnologias. E que, se quiséssemos resolver à 'moda portuguesa', seriam projectos para cerca de 3 anos. Segundo ele, deveríamos ter toda a mudança implementada no máximo em 6 meses. Se as pessoas estrebuchariam, se haveria despedimentos e chatices, desmotivações e coisas do género era para o lado em que ele dormiria melhor.

E nem tinha paciência para ouvir os meus argumentos. Pelo contrário, dizia que era nessas preocupações que os portugueses desperdiçavam a produtividade.

Repare-se que eu percebia a abordagem dele e, numa perspectiva meramente económica, reconhecia a razão dele. 

Só que a minha abordagem, a abordagem portuguesa (e europeia), incorpora preocupações humanistas, queremos o bem estar daqueles com quem trabalhamos ou com quem nos relacionamos, queremos ter a certeza que estamos a fazer a coisa certa e, por isso, fazemos levantamentos, fazemos estudos, avaliamos alternativas. Falamos com as pessoas, marcamos reuniões -- ou seja, segundo ele, perdemos tempo.

O que vejo no Trump e no Musk e nesta rapaziada é isto. É a cultura empresarial, pragmática, economicista. Indiferente ao resto.

E tal como o belo Mark nos aparecia naqueles escritórios forrados a madeira com belos sofás de veludo com jeans, ténis e mochila ao ombro, assim Musk de boné com o filho às cavalitas, enquanto Trump ali está a assistir ao que se passa na sua 'sala oval', sem piar.

Uma questão cultural? 

O fim dos tempos?

O que está a passar-se? 

Há um lado bom dentro de tudo o que está a passar-se? Ou isto é um filme de terror?

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Lawrence: In Oval Office, Elon Musk shows the world Trump ‘is not the boss of me’

Lawrence O’Donnell details the display of the presidential subservience to Elon Musk in the Oval Office as they made baseless claims of waste, fraud and abuse without any evidence and turned their backs on starving children in Sudan.



segunda-feira, janeiro 06, 2025

Este governo é mau, é muito mau
-- A palavra ao meu marido --


Este governo é mau, é muito mau. Os ministros são incompetentes e, quando falam, revelam a sua falta de qualidade e de aptidão para o cargo. 

O PM anunciou na campanha eleitoral choques fiscais, resolução dos problemas da saúde em 60 dias, resolução imediata, com a simples mudança de governo, dos problemas da educação, solução dos problema da justiça e outras "cenas". 

O governo que chefia só conseguiu agravar os problemas na saúde, na educação, na justiça aos quais acrescentou problemas na emigração e na segurança. 

Um PM que, quando começa a governar desdiz o que prometeu na campanha eleitoral para tentar capturar eleitorado da direita mais reacionária e coloca o tema da segurança na discussão política relacionando-o com as questões da emigração, é assustador. 

Um PM que cedeu à agenda da extrema direita e que, apenas como exemplo, é capaz de depois de elogiar a intervenção da PSP na rua do Bem Formoso afirmar que não gostou "do ponto de vista visual" de ver o que a PSP fez aos emigrantes, revela o carácter,  revela falta de coerência e de ética republicana. Resta perguntar-lhe sob que outros pontos de vista é que, afinal, gostou de ver  atuação da PSP e, sobretudo, se teria alguma reação se não tivessem sido publicadas e comentadas as fotografias que revelam a forma absolutamente condenável com a PSP interveio. Com certeza não teria reagido. Não serve para PM porque não tem coerência e não é confiável.

A situação na Saúde, então, é trágica. E não venha o governo com histórias porque não me esqueci de que prometeram resolver, com um plano de emergência, os problemas na saúde em 60 dias. A situação está muito pior e ocorreram situações com consequências terríveis, como foi o caso do INEM. Os tempos de espera atuais e as condições em que os médicos estão a fazer diagnósticos provavelmente já terão originado complicações em doentes que poderiam ter sido evitadas. 

É óbvio que  a ministra da saúde quer acabar com o SNS e a incompetência da equipa da saúde é tão grande que o vai conseguir rapidamente. 

Por exemplo, o atual  Presidente do INEM, nomeado pela ministra, concorreu para o cargo de presidente do INEM e não foi considerado com capacidade para o desempenhar pelo júri do concurso. Exemplo de como são feitas as nomeações na saúde, apenas pelo cartão partidário sem olhar a competências. Os jornais bem podiam investigar as competências dos nomeados para os diversos conselhos de administração e provavelmente ficariam, ou não, surpreendidos com a falta de aptidão para os cargos. 

Mas, de facto, não se pode esperar nada da ministra da Saúde. Uma governante que relativamente à posição dos médicos sobre a legislação que restringe o direito dos emigrantes a terem acesso ao SNS diz que os médicos estão no seu direito de não cumprirem  a lei aprovada pelo PSD e pelo Chega é porque nem sequer percebe o que é o estado de direito. Isto independentemente da razão que assiste aos médicos. A atual ministra só serve para agravar os problemas do SNS e para passar o mais rapidamente possível o maior número de doentes para os privados.

Este post já vai longo mas quero referir apenas mais duas outras ministras. 

A MAI, cuja lista de disparates já dava uma telenovela, e a da Cultura. É desolador ver a MAI na ponte 25 de Abril, por altura do Natal, a dizer a uma criança com 8 ou 9 anos dentro de um automóvel que não se deve beber álcool quando se conduz. É de facto uma mensagem adequada para um miúdo. Pior é difícil. 

E o que dizer da ministra da Cultura, que tem andado a sanear e a dar cabo do que de bom foi feito na cultura em Portugal, referir ontem que deu um "donativo" a uma Fundação. Os ministérios dão donativos, quiçá, esmolas? Este tipo de afirmações revela bem o pensamento desta ministra e deste governo. Estão cá para dar esmolas! Para mim esta ministra é uma autentica megera.

Só para acabar: o Prof. Marcelo não tem nada  a dizer sobre os problemas criados pelo governo? Nada?

terça-feira, outubro 08, 2024

A Paula Moura Pinheiro já ganhou algum Globo de Ouro?

 

Pergunto porque não sei mesmo. O que sei é que gosto sempre das suas visitas guiadas. Os Globos de Ouro distinguem pessoas escolhidas não sei por quem nem com que critério. E não sei se há outros acontecimentos do género em que se reconheça o mérito artístico ou cultural dos intervenientes no espaço público. Mas, independentemente do meu desconhecimento, penso que Paula Moura Pinheiro pela consistência das suas escolhas, pela forma informada, educada e simpática como fala com convidados que desenvolvem os temas que ela aborda é bem merecedora do nosso reconhecimento. Falo por mim: apesar de, por vezes, achar que os seus trejeitos são excessivamente expressionistas (digamos assim), a verdade é que isso é pormenor, e não apenas nos traz temas diversos, interessantes, sempre bem documentados, como é sempre uma boa companhia.

Talvez por ser uma pessoa tão focada na qualidade do seu trabalho e talvez porque os critérios de alinhamento das televisões privilegiam a parvoíce, o escândalo e a espuma dos dias, mantém-se pela RTP 2 (que é um canal que tem sabido manter-se coerente e interessante) a, por isso, diria eu, até acho que está ali muito bem. Mas merecia maior destaque, maior acompanhamento, maior elogio e agradecimento público.

O programa de hoje agradou-me sobremaneira. Acompanhada por uma pessoa simpatiquíssima, um comunicador tranquilo que adorei escutar, Nuno Soares, um arqueólogo de Arcos de Valdevez, levou-nos a ver as maravilhosas paisagens do Sistelo, do Soajo, os socalcos, os espigueiros, os garranos, as vacas-cabreiras. A cultura é também isto. 

O que aprendi ou relembrei... Que bom. Locais são lindos. Já lá estive mas é daqueles lugares do mundo em que a nossa alma se expande se conseguirmos vê-los como se fossem a primeira vez.

Quantos maravilhosos documentários, talvez para a Netflix ou outras plataformas afins, se poderiam fazer pelo nosso país com a Paula Moura Pinheiro, com o Nuno Soares e com outros comunicadores que, amando o nosso património, sabem como mostrá-lo?

Estou encantada com o que vi.

A quem não viu, sugiro que pesquise na programação de segunda-feira, dia 7 de Outubro, talvez por volta das 22:30, não sei bem, e veja.

E, apesar de presumir que a Paula Moura Pinheiro não seja frequentadora deste meu humilde pasquim, daqui lhe envio os meus parabéns pela longevidade e boa qualidade da sua presença em programas culturais na nossa televisão bem como o meu agradecimento pelo que aprendo e pelo que me delicio a ver o que nos oferece.

domingo, agosto 04, 2024

De onde vêm as fibras mais caras do mundo?

 

Em tempos visitei fábricas em que se produziam fibras sintéticas. Perceber o processo produtivo desde a entrada das matérias primas (derivadas do petróleo) até à saída de fibras macias e coloridas pode ser surpreendente.

Acompanhar o controlo de qualidade e ver o que acontece ao que é rejeitado bem como ver o que acontece aos resíduos líquidos, carregados de químicos, é outra surpresa. Lembro-me de uma grande fábrica fora de Portugal, uma que era considerada um modelo de eficiência e sustentabilidade, e de vir de lá com os cabelos em pé o que me valeu alguns dissabores digamos que diplomáticos.

Outros tempos.

Muitas vezes ignoramos completamente como é feito aquilo que usamos. E, pensando bem, se calhar é melhor assim. Há situações em que a ignorância não nos faz perder nada. Seja como for, é bom que, pelo menos, se saiba que, antes do produto acabado chegar às nossas mãos, muitas vezes há um longo processo produtivo que dá trabalho, e sustento, a muitas famílias.

Mas hoje, aqui, não trago processos industrializados, ou, pelo menos, fortemente automatizados. Trago as origens e o processo seguido desde a origem, seja no mundo animal seja no vegetal, até que algumas das fibras mais caras do mundo cheguem até nós. E se as fibras sintéticas, em que há feroz concorrência, tendem a ter preços baixos, já as fibras naturais podem chegar a preços verdadeiramente exorbitantes apenas ao alcance dos poucos que podem pagar produtos de luxo.

How The World's Most Expensive Fibers Are Made | Insider Art

Communities around the world rely on harvesting some of the rarest known fibers to make a living. But for most, it's not an easy task. Fragile fibers like lotus silk and vicuña wool are so rare that they can cost more than gold. Here's how some of the world's most expensive fabrics — like French Leavers lace, Icelandic eiderdown, and cashmere from Himalayan goats — are made.


Desejo-vos um feliz dia de domingo

sábado, janeiro 13, 2024

A falta que nos faz uma Philomena Cunk...

 

Nos dias em que estou mais cinzenta ou, pior ainda, mais bege, procuro salvação no YouTube. E geralmente encontro-a. 

Uma bacana que gosto sempre de ver é a Philomena Cunk. Imaginem a Paula Moura Pinheiro a fazer programas culturais, geralmente sobre história (mas pode ser também sobre literatura), mas a fazer perguntas completamente desconcertantes. Não que a Paula Moura Pinheiro não seja óptima e não faça programas que são um balão de oxigénio nas nossas experiências televisivas. Poderia era haver uma Paula Moura Pinheiro II, clone da I, que fizesse uma série paralela em que desse cabo dos entrevistados, mas um dar cabo bem disposto, saudavelmente estarola.

Adoro ver o ar sério com que a Philomena faz as perguntas e o ar educadamente desconcertado dos entrevistados que, geralmente, tentam responder não dando parte de fracos e tentando encontrar uma forma inteligente e polida de continuar num registo profissional.

Sinto falta disso na comunicação social. Ou há humoristas escancaradamente humoristas, muitas vezes fazendo tangentes à vulgaridade, ou há aquel@ nov@s humoristas que gostam de se desconstruir e de revelar as suas carências ou taras, tudo condimentado com muito palavrão, uma cena tardo-adolescente para a qual não tenho grande pachorra. 

Mas assim como a Philomena Cunk, que aborda temas culturais mas com uma abordagem geralmente descontextualizada e hilariante mas sem que a sua expressão o demonstre acho que não temos cá ninguém.

Poderia arranjar inúmeros exemplos mas uso o primeiro vídeo que agora me apareceu.

"Moments of Wonder." Philomena Cunk on the Second World War


E um bom fim de semana, ok?


sexta-feira, novembro 17, 2023

E já vão 3 (três!) erros grosseiros e crassos do Ministério Público... Um total fiasco. No entanto, com isto, deitaram abaixo um governo de maioria absoluta.
E... agora Marcelo?
Não manda arrancar os ramos mortos? Vai deixar que toda a Justiça gangrene? Vai deixar que os populistas tenham terreno fértil para medrar?

[E, para desanuviar o ambiente, Fran Lebowitz]

 

Tive mais um dia muito cansativo. Cheguei tarde a casa e sem vontade de ligar o computador ou ver televisão. No telemóvel, espreitei as notícias. 

E, para minha estupefacção, vi que houve mais um erro do Ministério Público: a tão propalada, censurada e debatida/comentada reunião entre Lacerda Machado e Escária com Afonso Salema, então CEO da Start Campus, na sede do PS, no Largo do Rato, em Lisboa... afinal não existiu. O erro denunciado pelos envolvidos já foi assumido pelo Ministério Público. Mais um erro. 

Depois de terem trocado o Ministro da Economia com o Primeiro Ministro, depois de lançarem atoardas e infâmias sobre o envolvimento dos suspeitos através de advogados a redigir uma certa portaria, que afinal nada tinha a ver com o caso -- duas barracadas, amadorismos, incompetências, leviandades (ou má fé) --, eis que aparece mais um impensável erro.

Já parece demais, não é? É assim que o Ministério Público -- destrambelhadamente, irresponsavelmente -- trabalha? É?!

E é com base nestes despautérios sem pés nem cabeça que alguém decide mandar avançar dezenas de polícias para invadir a casa das pessoas, revistar-lhes as gavetas, prendê-los, pespegar tudo nos jornais -- com base em suspeições/acusações que afinal eram infundadas, erradas?

É com base nisto que se deita abaixo um governo (de maioria absoluta)?

E, de cada vez que o Ministério Público manda estas notícias, afinal fake news, para a comunicação social, logo saltam os comentadeiros e as galinhas sem cabeça da oposição, capitaneadas pelo omnipresente Ventura, tudo a saltar em cima a pés juntos, todos dizendo que não se espantam, que era expectável, que é tudo uma cambada -- e... afinal... era mentira. Aquilo que estes descerebrados zés-ninguéns já sabiam, afinal, não existiu.

E, nessas alturas, depois de se saber que foi cometido mais um erro pelos procuradores, onde estão todos os que cuspiram em cima dos que foram visados pelo Ministério Público? Não os vejo. Calados que nem ratos. Cobardes.

E, mais uma vez, pergunto: onde está o murro na mesa que se impõe a Marcelo? Onde está Marcelo a dizer que os ramos mortos da Justiça, nomeadamente a cadeia hierárquica e as maçãs podres do Ministério Público, têm que saltar fora?

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E quando pessoas lúcidas, informadas e inteligentes como Augusto Santos Silva (ASS) vêm pedir explicações aos que fizeram porcaria (porcaria e porcaria a valer), e celeridade a quem tem que desembaraçar o emaranhado que os fora-de-lei teceram, logo aparecem, uma vez mais, as galinhas acéfalas e aos papagaios descerebrados a pedir a demissão de ASS e a lançar confusão. 

E eu, de novo, pergunto: porque não vem Marcelo dizer o mesmo que ASS ou Vital Moreira, porque não vem dar cobertura aos democratas que se insurgem e batem o pé e levantam a voz para defender a democracia, a liberdade e a justiça (a sério)?

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Mas hoje estou cansada, não me apetece continuar a escrever.

Deixo-vos em boa companhia

Fran Lebowitz's 5 Points of Culture with CpULTURED Magazine


quinta-feira, agosto 25, 2016

"Italianos com 18 anos recebem 500 euros para cultura"
- Isto, sim, é uma medida estruturante que eleva o nível intelectual de um país para um outro patamar







Se há medidas que eu acho que moldam o desenvolvimento de um país, que o tornam mais competitivo, mais rico, mais forte e coeso são as que se relacionam com o ensino, o fomento da capacidade de estudar, de investigar e de ousar inovar, e a defesa intransigente da cultura e de uma visão abrangente e inteligente de tudo o que são valores ou recursos culturais.

Não vejo estas medidas como um custo mas como um investimento. E um investimento de alto e rápido retorno.

Agora -- já aqui aboletada no meu sofá mágico, fresquinho como uma suave barca, apanhando de feição a aragem da noite -- ao folhear os onlines, deparei como uma notícia no DN que instantaneamente me fez ficar rodeada de estrelas. Estrelas virtuais, claro, mas igualmente luminosas e felizes.

Transcrevo, fazendo votos para que Portugal adopte esta ou outra medida semelhante:




Era uma promessa eleitoral de Renzi que, soube-se hoje, começa a tomar forma. 


Foi aprovado o "abono da cultura", isto é, 500 euros que podem ser usados pelos jovens italianos (ou com visto de residência) em atividades e produtos culturais.


Não se trata de um cheque passado em mão a todos os jovens nascidos em 1998, mas de uma aplicação que se descarrega nos telefones móveis, chamada 18app. Uma vez registados, os jovens começa a ter acesso a este plafond. 


O sistema entra em funcionamento no próximo dia 15 de setembro, coincidindo com o regresso às aulas, e é válido até 31 de dezembro de 2017.


Com este fundo de maneio, os jovens poderão aceder a museus, parques arqueológicos, teatros, cinemas, concertos, exposições, mas também livros, segundo o ministério dos Bens Culturais italiano, promotor da iniciativa e, ao mesmo tempo, responsável pela escolha das propostas culturais que farão parte deste pacote.

Dados divulgados pelo ministério da Cultura italiano, a iniciativa deverá abranger 574 593 jovens e corresponde a um investimento de 290 milhões de euros que sairão dos cofres do governo.

O investimento "envia uma mensagem clara: o de uma comunidade que dá as boas-vindas à idade adulta recordando o importante que é o consumo da cultura para o enriquecimento pessoal e para fortalecer o tecido social do país", disse o subsecretário do Conselho de Ministros, Tommaso Nannicini.

No próximo ano, o governo de Matteo Renzi pretende alargar a proposta a todos os professores.


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Ao som do Va pensiero da ópera Nabucco de Verdi (1842), aqui interpretado por Pavarotti e Zucchero, para exemplificar de forma rápida a forma como a cultura abre as mentes para a diversidade e para a aceitação de diferentes visões sobre a mesma realidade, apeteceu-me mostrar o mesmo S. João Baptista respectivamente por:
  • Leonardo da Vinci 1513
  • Caravaggio, 1602
  • Giovanni Francesco Guercino (Barbieri), ~1645
E porque a defesa da cultura nacional não deve ser encarada de forma chauvinista, o mesmo S. João Baptista mas agora segundo um francês
  • Rodin, 1878–1880
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Por isso, alô, alô Tim Tim no Tibete!
Siga o bom exemplo de Renzi e ponha os nossos jovens a apaixonarem-se pela nossa cultura, va bene?

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma saudável, sortuda e alegre quinta-feira.

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segunda-feira, abril 18, 2016

Solar dos Zagalos
- ou a prova de que somos um povo que não se dá ao respeito, uma gente que não sabe valorizar o que tem de bom, um País que, na maior passividade, despreza o que deveria abraçar, um País sem visão estratégica.
Parece que nascemos para sermos pobrezinhos e parvinhos. Que raiva.


Pronto. Antes dos gregos já tinha feito uma máquina de roupa, já tinha feito sopa e arroz de frango e já tinha jantado. Ainda antes disso, tinha andado na passeota (e já conto por onde) depois de ter ido ver o mar e, imaginem, ter ido almoçar ao sol, refastelada numa esplanada perto da praia, onde se comem belos pitéus gregos. Justamente: gregos. Agora, depois dos gregos e das gregas, já arrumei roupas e papéis, já arrumei tralha que parece que muda de sítio sozinha, já escolhi a farpela para amanhã, já pintei as unhas (cor transparente) e, portanto, já estou de volta ao batente.

De qualquer forma, quem não seja dado a acompanhar os meus passeios, pode saltar já daqui para a palavra de dois ilustres Leitores cujas palavras relativas ao tema 'as mulheres de Atenas' abrilhantam o Um Jeito Manso.

Agora vou, então, dar conta do que visitei hoje de tarde. Volta e meia, do nada, ocorre-me ir ver qualquer coisa. Desta vez nem sabia se estava aberto ao público e, a bem dizer, nem sabia bem onde era. Mas a internet no telemóvel e o gps no carro levam-nos a todo o lado.

Lá fomos. Solar dos Zagalos. A única vez que, já lá vão uns bons anos, quisemos visitá-lo estava fechado, não me lembro se encerrado para obras ou se naquele dia não era dia de estar aberto. Hoje tivemos sorte.



Um guarda à porta, e um senhor simpático a tomar conta. Quando chegámos, estava uma jovem com duas crianças. Depois não a vi mais. Penso que nem terá ido ao primeiro andar. Mais ninguém. Um espaço imenso apenas para nós. Um desperdício.

O solar é enorme, muito bonito, e está inserido num espaço amplo e ajardinado, com múltiplos recantos, com desníveis, muros, bancos, um lago, ampla vegetação.


Por dentro, praticamente vazio. Em algumas salas umas cadeiras absurdas, cadeiras baratas com estofo verde, despropositadas naquele contexto. Tenho ideia que em algumas salas até cadeiras de plástico havia. 

Em várias salas há necessidade de manutenção, humidades, salitres. Dá muita pena ver um edifício destes neste estado de quase abandono.

Tem uma exposição de cerâmica e, numa das salas de entrada, uma exposição temporária com uma meia dúzia de peças bonitas. E penso que essas salas são as únicas que estão arranjadas de uma forma coerente e com dignidade. 




Contudo, o resto é quase confrangedor. Dói ver salas com aquela beleza, tectos pintados, azulejos, belos soalhos, uma arquitectura digna, e tudo vazio, com ar decadente, alvo da indiferença do mundo.

Diria eu, que tanta coisa banal tenho visto promovida a coisa valiosa, que um país ou um município que tenha a sorte de ter no seu património um edifício como este, se deveria desdobrar em criatividade para poder ter um espaço destes sempre vivo, pujante de actividades.


Aqui deveriam fervilhar artistas, actividades culturais de toda a espécie -- sessões e workshops de dança, sessões e workshops de música de todos os géneros (jazz, rock, clássica, etc), de teatro, grupos de leitura, exposições de pintura, escultura, fotografia, cerâmica, aqui deveria haver um bar com produtos de qualidade, aqui dever-se-iam fomentar encontros, palestras. 

Não haverá alguém que se proponha explorar aquele espaço numa perspectiva cultural? Não haverá fundos para a reabilitação deste edifício? 


O próprio senhor que lá estava me disse que as verbas são curtas e que as prioridades serão outras. Percebo. Entre intervenções prementes a nível de saneamento básico ou intervenção social, entre apoio escolar ou reparação de vias públicas, talvez que a recuperação e a activação cultural do Solar dos Zagalos seja prioridade quase nula. Contudo, esta é sempre a lógica perversa da mula do inglês a quem se foi cortando a ração, cortando a ração, até que morreu, ficando o seu dono pior do que estava antes.


O investimento na cultura, acredito eu e já o disse aqui tantas vezes que temo ser maçadora, é um investimento virtuoso. Este é o tipo de investimento que, sendo bem planeado e toda a sua exploração bem acompanhada, vai pagar-se e ainda gerar receitas suplementares. O turismo será sempre, e creio que cada vez, mais uma actividade económica fundamental para o país. E refiro-me não apenas a turismo nacional que tenderá a crescer mas, sobretudo, ao turismo internacional que vai encarando Portugal como um destino de qualidade, seguro, civilizado.


O tecto da sala de cima : Leda e o Cisne

O turismo de qualidade centrar-se-á cada vez mais em torno de actividades culturais ou na procura de lugares com história, onde exista oferta de 'produtos' de qualidade e serviços abrangentes (lugares para dormir, lugares para comer, lugares para fazer compras, lugares para passear, transportes).


No caso concreto do Solar dos Zagalos, há todas as condições para ser um pólo de atracção cultural. Está perto de Lisboa, perto das praias, perto de um grande centro comercial, perto de hotéis, junto a uma via rápida que dá acesso a auto-estrada, a comboios, a metro de superfície, a barcos, está perto do Convento dos Capuchos que pode ser encarado como outro importante pólo cultural.

E é tão amplo o espaço que, provavelmente, poderia albergar uma residência para artistas ou até um turismo de habitação.



Parte do tecto da capela acima

Bem mais de metade do que ganho vai para impostos e não me ouvem aqui queixar-me disso. Acho que esta coisa pública tem andado a ser gerida com os pés (ou melhor: com as patas) e os obscuros interesses financeiros têm posto e disposto, e feito de nós --  e de todos quantos se apresentam como uns mansarrões --  autênticos gatos-sapatos. Mas os mais desfavorecidos, os desempregados ou os que, por circunstâncias da vida, mais vulneráveis estão não têm culpa disso e têm direito a uma vida digna e a ter as mesmas oportunidades que os que têm tido mais sorte. Por isso, se tenho que trabalhar mais de metade do ano para nem cheirar o que ganho, pois que seja.

Parte do imenso jardim: tirando nós, apenas um homem sentado num banco.
Uma desolação ver um espaço desde sem vivalma.

Agora uma coisa tenho que confessar: custa-me ver como são míopes e pouco espertos aqueles que, de uma forma geral, estão à frente dos destinos do País, aos mais variados níveis, custa-me ver a forma pouco inteligente como usam o dinheiro dos meus impostos, dos meus e de toda a gente.

Ainda não há muito tempo estive em Óbidos. Contei-vos. As ruas cheias de gente, as lojas abertas e cheias, os hotéis cheios, os restaurantes cheios. Óbidos soube apostar na cultura, nos seus monumentos, nas livrarias, nas feiras. E ganhou a aposta.

Mas casos destes não são frequentes. De forma geral, o poder de decisão está entregue a burocratas, a funcionários, a gente acagaçada ou a yes men -- não a gente com mundo, com motivação, com uma visão de futuro ou, simplesmente, com os ditos no sítio (e aqui, não me refiro apenas a cidadãos mas obviamente também as cidadãs que, de forma geral, até os têm em melhores condições que os seus congéneres masculinos).
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Apesar de tudo, recomendo vivamente uma visita ao Solar dos Zagalos, nem que seja para verem como tenho razão, que é uma pena que aquele espaço não seja revitalizado. Ou para verem se descobrem maneira de pressionar a Câmara de Almada nesse sentido. Ou se têm qualquer outra ideia. E, de qualquer forma, verão que é um lugar muito bonito e com uns jardinas onde se pode estar no maior sossego a descansar, a ler um livro -- ou a não fazer nenhum que também é bom.


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Lá em cima, a música era Elegie for Viola and Piano Op. 30 de Henri Vieuxtemps, numa interpretação de Robert Diaz (viola) e Robert Koenig (piano)
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Aconselho-vos, ainda, a descer até ao post seguinte e a lerem as palavras de quem sabe do assunto. Dou a palavra a dois Leitores que sabem das Mulheres de Atenas mais do que os que estiveram lá para contar. E se, depois de terem lido o que se segue, ainda pensarem que, a partir do que lá se viveu, se poderão fazer comparações para a realidade actual só vos digo que darei carta branca ao Leitor José Neves para vos dizer que não!!!! até ao fim dos vossos dias. Combinado?

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domingo, abril 17, 2016

E, no fim, comi um fradinho


Há pouco contei-vos da inteligência que se percebe no olhar dos animais e mostrei-vos o porte majestoso das aves de rapina de Mafra. Vi-as, altivas, nos claustros do Convento que, este sábado, estive a visitar.



Agora estou em casa do meu filho a tomar conta dos meus fofinhos lindos que já estão a dormir já que os pais foram jantar com amigos. 

Antes estive em casa dos meus pais, o meu pai sempre impaciente, com pressa, pressa de jantar, pressa de se despachar, pressa de ir dormir, pressa que eu me vá embora, pressa de tudo, não se percebe porquê mas, enfim, sempre foi apressado e agora, apesar de não ter motivo para ter pressa, continua na mesma. Uma vez, não sei se aqui já o contei, disse à senhora que o lava, levanta e dá de comer: 'Vá despache-se, depressa, vá que eu hoje vou morrer'. Ela desatou a rir 'Oh senhor, então e está com pressa para ir morrer...? Duma destas é que nunca tinha ouvido falar...'. De vez em quando tem destas maluquices. Mas depois, outras vezes, aliás, a maior parte das vezes, tem boa memória e bom raciocínio. Hoje a senhora estava a conversar com a minha mãe e a dizer que a máquina de lavar roupa tinha dado o berro, que, mal a ligava, desatava a fazer barulho e não trabalhava. Pensavam que ele não estava a prestar atenção. Pois saíu-se com esta 'Isso deve ser a correia, ou soltou-se ou partiu-se'. É aleatório, tanto pode dizer coisas normais e estar bem como, sem motivo aparente, estar impaciente, enervado e a dizer palermices. 

A minha mãe estava com dores nas costas mas sempre com os seus projectos, a ensaiar alternativas para fazer um poncho de crochet em linha crua para a neta, às voltas com o seu smartphone (ainda não lhe falei nisto aqui...) e sempre com ideias. Se lá apareço com o cabelo apanhado, não gosta, prefere ver-me com o cabelo solto. Ora eu, ao fim de semana, não me apetece ter nada a moer-me a paciência, nem sequer o cabelo a ir-me para a cara, especialmente se estiver vento. Mas hoje fiz-lhe a vontade, soltei o cabelo. Diz que rejuvenesço dez anos. No fundo, acho que ela se esquece da idade que tenho, gosta de me ver de uma maneira que a faz esquecer-se disso.

Antes de lá ir visitá-los e levar algumas compras mais pesadas, tínhamos estado a passear entre a Ericeira, a zona mais campestre de Sintra e Mafra. Ontem tinha-me lembrado de ir visitar a biblioteca do Convento de Mafra e aproveitámos para andar a passear pela região.


E ainda andei à procura dos antiquários que tinha ideia de serem em Odrinhas e que, afinal, parece que são em Sta Susana mas o meu marido, sabendo o programa de festas que tínhamos pela frente, não quis andar a perder tempo à procura -- fica para uma próxima. 

A Foz do Lisandro

[Entretanto, já estou em minha casa, já estive a cear (quatro morangos com kefir) e, como é costume, já estou cheia de sono. Por isso, terei que abreviar. Ou seja, vou poupar-vos.]

A primeira vez que visitei o Palácio Nacional de Mafra era pequena. Foi uma tortura, salas e salões, enormes, quase vazios, tectos lá muito em cima, uma coisa interminável. Os meus pais queriam ver a biblioteca e a biblioteca ficava lá no fim de tudo. Ao fim de tantos anos, essa primeira imagem ainda está nítida dentro de mim.
É este e é o de Vila Viçosa. Aliás, na minha cabeça, é frequente misturá-los. 
Por isso, hoje tentei ver se já era possível fazer um atalho, ou seja, comprar bilhete só para a biblioteca; mas a senhora disse-me o óbvio: a biblioteca é no fim, para lá chegar tem que se passar por todo o convento. Ou seja, mantinha-se o que, para mim, seria um suplício.


Contudo a nossa percepção das coisas vai-se alterando e desta vez o Convento, sendo mesmo muito grande, já me pareceu de uma escala mais comportável do que aquela que, até aqui, persistia em manter-se gravada na minha memória.


No entanto, tenho que confessar que há aqui, para mim, uma dimensão excessiva, uma certa aridez decorativa (se é que assim me posso expressar), parece que há uma desmesura naquelas dimensões que faz com que se torne um pouco inóspito. Falta-lhe aquela imagem de conforto dos espaços verdadeiramente habitados. Nunca o terá sido a ponto de haver cunho pessoal de forma vivida.

Gostei de ver, e já não me lembrava, a parte das enfermarias e a parte das celas. O edifício é extenso e uma pessoa retém aquilo a que, na altura é mais sensível. Não tinha ideia nenhuma de já ter visto estas partes.

O dinheiro do Brasil era muito e e a obra quis-se imponente, que ninguém se poupasse a esforços. Tivesse eu a cabeça mais fresca e escolheria para aqui uns excertos do Memorial do Convento que o ilustram mas já não dá, estou a precisar de acabar isto e ir dormir.

Por isso, mostro apenas algumas fotografias. Claro que escolhi algumas das partes de que mais gostei. Há tectos fantásticos, há salas bonitas, há corredores lindíssimos no belo lioz rosa e cinza, há quadros de grandes dimensões, há impressionantes candelabros, espelhos, e cortinados que tornam alguns espaços deveras acolhedores, em especial as zonas mais íntimas.







Sala de Música


Candeeiro da Sala de Caça





E a igreja imponente, bela, de uma dimensão impressionante.
Devia ir haver um casamento porque vi estarem a chegar umas pessoas ultra aperaltadas e, não fora o não me poder dar a esses desfrutes dado ter os afazeres inadiáveis de que acima já falei, e teria lá ficado a fazer a reportagem.

Finalmente, então, a Biblioteca. Decepção: só podemos chegar um pouco para além da entrada. Eu queria circular, cirandar, espreitar as lombadas dos livros. Nada. Perguntei à senhora que lá estava a que se devia isso. Respondeu-me que têm falta de pessoal, que não podem deixar circular. Paciência.


As fotografias foram feitas, pois, a partir do exíguo espaço onde me pude movimentar. Mas a Biblioteca é linda, ampla, luminosa, aquelas cores suaves que resultam da pedra, dos livros, do pavimento, das entradas de luz.






É pena que não haja visitas guiadas ao longo dos corredores, varandins e estantes e que não haja leituras de excertos do Memorial do Convento ou música de câmara na sala de música. Mas, enfim, se há área em que está tudo, ou quase tudo, por fazer é na área da Cultura. Tomara que o País acorde para essa imperiosa necessidade.

Seja como for, obviamente gostei muito de revisitar este espaço.

Depois, deu-me a fome e fomos até a uma pastelaria logo ali em frente -- e, sem pestanejar, atirei-me a um fradinho. Retirei-lhe a envoltura e quando o tive despidinho nas minhas mãos, chamei-lhe um figo. Doces mas não muito, húmidos e bem apaladados, os fradinhos comem-se que é uma maravilha. Claro que, com o meu bom apetite e gulosa como sou, estava capaz de despachar meia dúzia de seguida. Mas, enfim, algum comedimento é necessário e, portanto, fiquei-me só por um. O meu marido, que gosta de me ver feliz, ainda sugeriu que os trouxesse eu para casa. Mas não, resisti. Tentações, sim, mas das que não causam grandes estragos. É que com seis fradinhos não sei não, capaz de passar para o tamanho XXL.

No fim ainda olhei para o alto, esperançada que os sinos tocassem. Mas não. Silenciosos. Pena.

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Lá em cima, cantando, segundo leio no youtube é Myriam Madzalik num Concerto de música de Mozart na Basílica do Convento de Mafra.
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Mas este post não ficaria completo sem qualquer coisa sobre o Memorial do Convento. Aqui está.

José Saramago - Memorial do Convento


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E queiram, por favor, descer até às aves de rapina (e a uma recordação minha, sempre tão sentida,  da minha cadela mais querida).

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