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quarta-feira, junho 16, 2021

Mea culpa...?

 


Hoje foi um dia quase normal, com reuniões e tudo. Contudo, bem mais moderado do que era antes. E teve trabalho de mails, de despachos, de apresentações, telefonemas. Mas tudo melhor doseado.

Junto à hora de almoço, o meu marido pegou numa cadeira e num pequeno sacho e eu peguei numa taça e fomos apanhar nêsperas. O meu marido subiu da cadeira para o muro e, lá em cima, com o sacho fazia vergar as pernadas da nespereira. E ou ele ou eu apanhávamos as nêsperas. Estão gordas e doces e temos ali uma bela quantidadezinha. Adoro nêsperas. 

Ao vê-lo empoleirado, pensei que, se os netos o vissem, talvez tivessem orgulho nele tal como eu sentia ao ver o meu avô andar em cima da nespereira para me dar as nêsperas a mim.

Ao fim da tarde, fui varrer uma parte do quintal. 

Quando fui despejar o balde das rodas ao monte da compostagem, passei pela horta e apanhei (e comi) framboesas. Depois fiquei a recear que não fossem framboesas mas outro fruto não comestível. Mas já tinha comido. Agora, já passaram umas boas horas e ainda estou viva. Portanto, eram inocentes framboesas. 

Claro que não falei na minha dúvida ao meu marido para que não ficasse a achar que não pode confiar em mim.

Ontem aconteceu uma coisa que só serviu para lhe dar razão.  Conto-vos.

Geralmente não tomo medicamentos. Há uns anos, receitaram-me glucosamina e disseram que era melhor tomar todos os dias. A minha prima médica já antes me tinha dito que com os antecedentes da nossa avó, que padecia de dores nas articulações, mais valia prevenirmo-nos e tomarmos glucosamina. Mas esqueço-me e passam-se temporadas sem tomar nada. Contudo, ultimamente andava a tentar não me esquecer pondo o frasco em cima da mesa onde tomamos as refeições. Se o tirava de lá, certo e sabido que, até me lembrar, passavam semanas ou meses de esquecimento.

Contudo, face ao que recentemente me aconteceu, até se perceber de que exactamente se trata, prescreveram-me um comprimido todos os dias de manhã. Foi para cima da mesa para não correr o risco de me esquecer. 

Acresce que tive que fazer, entre outros, um exame que requer a tomada de contraste por via endovenosa. Como o contraste é à base de um produto que existe num alimento a que sou alérgica, foi-me prescrita a toma prudencial de um corticoide de manhã e um anti-histamínico à noite com quatro dias de antecedência. E que, no dia do exame, não apenas tomasse de manhã o corticoide como, ao almoço, o anti-histamínico. 

E aí veio o receio de me esquecer: se da glucosamina era o que se sabia, faria agora como mais três. Então, para ter a coisa bem controlada, passei a fazer assim: à noite punha os quatro medicamentos directamente na mesa. E, à medida que tomasse cada um, punha a embalagem dentro de uma bandeja. Portanto, não tinha que enganar: fora da bandeja, significaria medicamento não tomado.

Pois bem. De manhã, ontem, dia do exame, corticoide tomado, caixa para a bandeja. Quando, à hora de almoço, fui tomar o anti-histamínico, vi que já havia cinco comprimidos tomados. Fiquei baralhada. O que ia tomar era o quinto. Como... já cinco tomados?

Será que o tinha tomado de manhã, distraída, e sem colocar a caixa na bandeja? Ou num outro dia, em vez de um, tinha tomado dois?

Puxei pela cabeça. Nada. O que quer que fiz, fiz distraidamente, sem dar por ela.

Ou seja, no dia em que tinha mesmo que tomar os medicamentos para prevenir reacções alérgicas, não sabia se tinha tomado o comprimido. Fiquei sem saber o que fazer: ou arriscar-me a não tomar ou arriscar-me a tomar o dobro da dosagem...?

O meu marido passado comigo: como é possível? como é possível que não prestes atenção a estas coisas?

Mas, pronto, fazer o quê? Mea culpa, mea maxima culpa. Pelos vistos não tomei mesmo a devida atenção. E quando lá cheguei tive que fazer a figurinha triste de dizer que não sabia se tinha ou não tomado o anti-histamínico. Disseram-me para não tomar que eles iam estar atentos a alguma reacção e a postos para actuarem. E, no fim, tive que ficar à espera a ver se não aparecia a reacção.

Cá para mim, tomei foi no sábado dois em vez de um pois no sábado andei ainda mais espapaçada que nos outros dias. 

Portanto, reconheço: é um facto, sou capaz de dar conta de coisas complicadas, muitas ao mesmo tempo, maçadas de toda a espécie. Mas ponham-me coisas simples à frente que vou inevitavelmente baralhar-me. 

Por isso, o meu marido tem a ideia que, se não verificar minimamente o que faço, é mais do que certo que irei despistar-me. Mas como também não tenho pachorra para prestar contas e muito menos para ser controlada, quando troco mesmo as mãos, ele não tem como ajudar-me... e fica todo irritado.

Isto contado assim deve parecer coisa de marretas. E, na volta, é o que é. Mas a verdade é que é assim agora e desde sempre, desde o tempo em que éramos praticamente adolescentes: ele muito compenetrado das suas tarefas e  responsabilidades e eu desvalorizando o que considero minudências. No entanto, dou-lhe razão: o meu conceito de minudências é muito alargado pois, sem querer, encaixo nas minudências coisas como a toma de medicamentos críticos, em momentos críticos. 

Por isso, por eu ser como sou, se me acontece alguma, mesmo que coisas pelas quais não sou responsável, há sempre a tendência de acharem que, de alguma forma, a responsabilidade deve ter sido minha.

A minha mãe é a mesma coisa. Hoje dizia, quase como se implorasse: e, por favor, deixa de comer tantas nozes, tantos cajus..!. Já lhe disse que primeiro vamos ver o que se conclui dos exames mas que uma coisa é sabida. colesterol alto não tenho. As minhas análises, do que se viu e até ver, estão bem e que nada do que se passou tem a ver com frutos secos. Mas... e ela ouvir-me....? Diz que sou dada a excessos, recorda-me episódios que, em sua opinião, provam que sou desmedida e, sem que haja ainda conhecimento médico da situação, já quer, à viva força, que prometa que não vou voltar a comer tantos frutos secos. Por mais que lhe diga que não tem nada a ver, que os médicos não descartam que seja algum efeito da vacina, ela quer, porque quer, que eu espie pecados que não cometi. O meu marido tende a alinhar pela mesma bitola e, volta e meia, diz-me: a tua mãe é que te conhece bem. 

Ou seja, na cabeça deles de alguma coisa eu hei-de ser sempre culpada. O que me vale é que esse conceito do pecado e da culpa não faz lá muito o meu género.

Tirando isso, tivemos visitas ao fim da tarde: o meu filho e a sua trupe. Dantes, quando alguém chegava, beijávamo-nos. Agora não. Qualquer dia esquecemo-nos desses hábitos de afecto e proximidade. Tenho, em especial, muita vontade de abraçar, beijar e ter sentados ao meu colo os meus pequeninos. Um dia destes, estão do meu tamanho e ficará absurdo querer que se sentem ao meu colo. 

Meus meninos mais queridos. 

E é isto. Por hoje, nada mais a acrescentar. Daqui a nada estamos no verão mas, por cá, ao fim do dia outonou. E agora estou aqui e até tenho um poncho vestido. Certo que é de linha, aos buracos, mas aconchega-me. Está fresco.

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As pinturas sã da autoria de Manuel Mendive enquanto Rhiannon Giddens interpreta Round about the mountain

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E umas palavras para melhorar o dia

"Toda limitação é estimulante" 

| Guimarães Rosa e Maria Bethânia


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Desejo-vos um dia feliz
E obrigada pelas palavras amigas que recebi, quer aqui quer por mail.
Saúde.

domingo, agosto 20, 2017

Fotografar
-- desenhar com luz e contraste --





Este sábado foi, então, Dia da Fotografia. Não sabia que havia tal dia mas, afinal, porque não haveria de haver se há um dia para cada coisa?


Não sei se as rádios e as televisões deram a notícia. Se deram, certamente ficaremos  a saber que, para além de metade da população ser diabética, dois terços terem problemas mentais, três quartos padecerem de alergias, setenta por cento terem problemas de pele, e etc (tudo coisas que ficamos a saber nos respectivos dias), também oito nonos da população se dedica à prática da fotografia. Ou seja, há forte probabilidade de que algumas pessoas sejam simultaneamente asmáticas, diabéticas, depressivas, autistas, canhotas, carecas... e fotógrafas. Não é, felizmente e tanto quanto sei, o meu caso. Acho que não sou nada disto. Contudo, gosto muito de fotografar.

O meu primeiro contacto com a fotografia foi através de uma máquina que o meu pai tinha. Uma Kodak, um dos tais casos citados quando se refere o caso de marcas que têm tal relevância que passam a dar o nome ao produto. Fazia muitas fotografias, ele. Gosto especialmente de ver as fotografias de quando eram jovens, um grande grupo de amigos que passeavam juntos. Tinham um ar moderno e elegante. Depois, quando nasci, passou a fotografar-me e a ideia que tenho é que passou a ser esse o seu único foco de atenção a nível de fotografias. Provavelmente também porque, tendo quase todos eles arranjado família, deixaram de passear tanto em conjunto e desapareceu a ocasião para aquelas fotografias. Não sei. 

Assim que tive voto na matéria quis eu ter uma máquina.

Quando íamos de excursão, já era eu que levava máquina e fotografava os meus colegas. Estou a lembrar-me de nós na Serra da Estrela. O meu namoradinho da altura fotografou-me. Ele era o mais maluco e talvez por isso eu gostasse tanto dele. Eu tinha uma camisola encarnada tricotada pela minha mãe e um gorro igual e os cabelos compridos espalhavam-se pelos ombros e pareciam iluminados por luz que só ali se via já que o resto da paisagem era branca. E os meus colegas, que fotografei, aparecem abraçados, a rir, uns a fazerem cair os outros. Andávamos em pequenos trenós, brincávamos a escorregar, caíamos, ríamos. É engraçado como se vê pelos rostos que fixei no tempo quem haveria de vir a transformar-se em adulto sisudo e quem haveria de permanecer divertido e jovial.

Gostava de ter fotografias de quando fomos ao Gerês mas, nessa altura, já era namoro mais a sério, não me sobrou motivação para fazer reportagens. Só tinha olhos para um mas estava a ser disputada por outro e, portanto, foi uma excursão emocionalmente intensa. À chegada, franca como sempre fui, contei aos meus pais algumas dessas peripécias e o meu pai ia-se passando comigo e com a minha mãe, já que tinha sido uma guerra para me deixar ir, ele querendo preservar-me dessas 'cenas' e a minha mãe não querendo causar-me o desgosto de me impedir de ir. Nem uma fotografia desse passeio tão bonito e tão marcante.

Mais tarde, já casada, um dia o meu sogro apareceu-nos com uma máquina extraordinária. Tinha ido lá ao escritório alguém com uma máquina russa e ele lembrou-se de a comprar para nós. Já não me lembro exactamente das circunstâncias. Ele trabalhava na Baixa e a ideia que tenho é que, volta e meia, gente dos navios que ali atracavam vendia coisas do género. Mas a esta distância já não sei dizer mais que isto. Era uma Zenit. Tinha uns truques e fazia umas belas fotos. Pesava que se fartava. Foi uma descoberta. Passei a não poder passar sem fotografar.

Quando nasceram os meus filhos, foi uma festa. Fotografias, diapositivos (agora que escrevi diapositivos não me lembro se era este o nome) aos milhares. Mas não os fotografava apenas a eles. Na realidade, o fascínio pela atenção aos pormenores ou a uma forma diferente de ver foi alargando os meus interesses. Para onde quer que fossemos, eu ia impreterivelmente com a máquina. Nessa altura ainda a fotografia não era digital. Tínhamos que comprar rolos, escolher a velocidade, a definição. Depois tínhamos que os mandar revelar.

Depois vieram outras máquinas, as lentes compradas à parte, criteriosamente escolhidas pelo meu marido. Havia uma loja em Alvalade, íamos lá muito. Tenho ideia que ele conhecia o dono, discutiam modelos, mandavam vir de fora. E era lá que deixávamos os slides para revelar -- iam para a Agfa na Alemanha e depois recebíamo-los em casa, por correio.

Mais tarde passámos a revelá-las em casa. Equipamento específico que ainda está no móvel da despensa. Líquidos reveladores, fixadores. Papel próprio para isso. Pinças com pontas de borracha. A câmara escura pela noite adentro. Esperávamos que os miúdos adormecessem. Havia uma lâmpada encarnada que não danificava o nosso trabalho. Era um fascínio ainda maior. O cheiro dos líquidos, a magia das imagens a aparecerem no papel dentro dos tabuleiros, com o líquido revelador.

Eu gostava e gosto de fotografar o mundo, o meu marido gosta de me fotografar a mim. A diferença é que o mundo está sempre dsponível para se deixar fotografar enquanto eu nem sempre o estou e, portanto, eu nunca tenho razão de queixa enquanto ele tem. Mas, enfim, a conversa agora é sobre mim enquanto agente fotografador e não enquanto objecto fotografado.

O que gosto mais de fotografar é gente. Gosto mesmo muito. Mas, porque a legislação não me é clara e porque, para ser objectivamente permitido, deveria ter a autorização expressa e, como é bom de ver, nem sempre faz sentido pedir autorização porque o momento se perderia e porque, sobretudo, as pessoas haveriam de me mandar uma grande volta, opto por não divulgar fotografias em que apareçam pessoas que possam ser facilmente identificadas.

Já tive um blog de fotografia de rua. Chamava-se Street Photo & Co., nome dado pelo meu marido. Ainda cheguei a publicar cerca de 300 posts com outras tantas fotografias e fazia-o sempre com grande prazer; mas depois temi ainda arranjar sarilhos e retirei-o do ar. Estive agora a revê-lo e devo aqui confessar que tenho pena de o ter escondido pois acho que é uma galeria do dia a dia português com alguma piada e, na verdade, gostaria de partilhá-lo convosco. Mas paciência. Nem sempre se pode fazer aquilo de que se gosta.



Assim, limito-me a mostrar-vos motivos mais inócuos. Recantos da minha casa in heaven, o livro que estou a ler, o brinquedo que os meninos deixaram sobre a mesa de azulejos, ou a natureza que tenta dominar-nos, ou as vicejantes uvas que estão a ficar maduras, o escultural tronco das árvores, a folhagem seca e a caruma que fazem uma manta que me encanta. Coisas assim, simples.

Ou os veleiros, o Tejo, Lisboa a bela, o deslizar da luz sobre a cidade, as águas picadas que dão ainda mais vida ao magnífico rio.


Ou o vulto da mulher que, em vez de contemplar passivamente a beleza do entardecer que dourava as casas, os barcos e o céu, se fotografava a si própria nas mais sugestivas poses, sorrindo, arqueando-se ou esticando-se, uma coreografia ridente para se fixar a ela própria na bela paisagem.


Ou a quietude azul do mar ao fim do dia quando, na sexta-feira, para lá fomos depois do trabalho encontrando o nosso grupinho de alegres veraneantes, todos ainda com o sal nos cabelos e leveza bem disposta nas vestimentos e nos gestos.


Ou a alegria do cão que entrava e saía da água, brincando, alegre como uma criança, sem saber que, lá em cima uma mulher o olhava com alguma inveja.


Ou a queda do sol no horizonte, pronto a mergulhar no fundo do mar, e a gaivota em largas danças num vasto plateau com um pano de cena tão espectacular.


Ou o voo suave das gaivotas quando o sol se tinha já posto e o forte do Bugio e o lado de lá eram apenas uma vaga sugestão, a noite quase a tombar sobre a praia.


_______________Fotografar______________


11 Artistas falam de fotografia



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Da Wikipedia:

Fotografia (do grego φως [fós] ("luz"), e γραφις [grafis] ("estilo", "pincel") ou γραφη grafê, e significa "desenhar com luz e contraste").


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E tenham, meus Caros Leitores, um feliz dia de domingo.

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segunda-feira, julho 10, 2017

Uma mulher difícil





Não quero saber de ti. Não mesmo. Não te compreendo. Não sei o que queres. Talvez queiras amor de verdade. Talvez saibas soletrar o amor em todas as línguas, talvez saibas o seu significado na perspectiva histórica, na filosófica, na física, na química, talvez não queiras saber nada sobre a psicológica mas na literária também hás-de saber, talvez queiras que eu invente uma forma diferente de entender o amor para se ajustar a ti, talvez me queiras à medida dos teus sonhos, das tuas ninfas, das tuas heroínas, das tuas deusas, talvez queiras que eu te receba em amor venhas tu como vieres, faminto, inquieto, sofredor, fora de ti, carente, rendido, talvez queiras que eu te acolha nos meus braços, no meu colo, no meu coração, no meu ventre, talvez queiras que eu derrame lágrimas agradecidas por te ter a meus pés, talvez me queiras no teu colo, docemente encostada na curva do teu ombro, deitada sobre o teu peito que achas que foi feito para me acolher, talvez queiras sentir a minha ternura que é tão palpável, talvez me queiras guerreira, pronta para mil guerras e nenhuma contigo, talvez me queiras sem palavras, sem queixas, sem revoltas, talvez me queiras para sempre, para todos os dias, ou só para quando estiveres afim, talvez queiras tomar as minhas mãos e beijá-las, talvez queiras saber dos meus segredos, ouvir todas as palavras que guardei para ti, talvez queiras mergulhar no líquido que alaga o meu olhar quando penso em ti, talvez queiras cheirar o meu cabelo, a minha nuca, o que se esconde por dentro da blusa que gostas de espreitar, talvez queiras que a aragem levante a minha saia e que eu deixe estar para que, malicioso, espreites a ver o que descobres, talvez queiras que eu ouça as tuas preces, talvez queiras que eu escute os teus lamentos, talvez queiras que eu passe as minhas mãos pelos teus braços, que eu intercale os meus dedos nos teus, talvez queiras que eu pouse os meus lábios nas tuas pálpebras que pedirei que feches, depois que sussurre indecências ao teu ouvido até sentir que um arrepio percorre todo o teu corpo, e que desça até à nuca, que passe a língua, que morda ao de leve, que procure os teus lábios, a tua língua, que me abrace a ti, que deixe que me abraces, com força, e diga não com tanta força, não, não queiras entrar em mim pelo corpo todo, talvez queiras que eu te queira imoderado, insolente, que eu te aceite assim, em amor, com amor, talvez queiras que eu cave um abismo para nele me deixar tombar contigo, que ateie uma fogueira para nela ardermos em paixão, talvez queiras que eu me deixe levar por ti por labirintos infinitos, que, por ti, entre em jardins proibidos ou em atraentes grutas onde poderemos ser só nós no mundo, que suba todas as montanhas até que o ar se rarefaça para poder gritar o teu nome, que desça ao fundo de todos os mares para deles trazer o tesouro mais precioso para te provar que o meu amor é louco e sem limites, que me perca a procurar por ti em desconhecidas cidades, que me deixe ir a voar por sobre os mares só para poder chorar sem que ninguém o veja, talvez queiras que eu me deixe envolver em silêncio para que possas ouvir como o meu coração chama por ti, talvez queiras que eu me entregue sem condições, talvez queiras ter-me na tua cama, de noite, de manhã, todos os dias da tua vida. Talvez. Que sei eu...?


Mas não me terás. Estou aqui apenas para me divertir. Dirás, talvez, que adivinhas em mim alguma tristeza. Hesitarás. Acrescentarás, talvez, saudade. Dir-me-ás: não digas que não sentes saudade e tristeza, não digas. Dirás. E eu rir-me-ei. Balançarei o corpo, dançarei, sorrirei. Tentar-te-ei. E não saberás nunca o que guardo só para mim. Saberás só que estou aqui apenas para me divertir.




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Texto inspirado por este vídeo já aqui acima, Woman of Constant Sorrow, na interpretação de Rhiannon Giddens -- vídeo que o YouTube fez o favor de me sugerir depois de eu ter ouvido o Wayfaring Stranger, lá em cima, fazendo-me, então, desviar dos bons caminhos pelos quais me preparava para seguir, já que o Stranger ia inspirar-me um texto diametralmente oposto ao que acabou por sair, a pingar santidade, em vez deste que transpira nem sei o quê.

As fotografias foram feitas este domingo in heaven

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Caso estas rêveries não sejam bem a vossa praia, permito-me recomendar a sensaboria dos bilhetes da Galp e a saída dos Secretários de Estado e outras pepineiras do género, como corrupção a sério e coisas assim. Gostos não se discutem, ora essa.

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