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segunda-feira, dezembro 12, 2022

Paula Rego recordada por Lila Nunes

 



Conheci a Paula Rego em 1985 – vim de Portugal como au pair para ajudar o marido dela [o artista Victor Willing] que tinha esclerose múltipla. Os seus filhos estavam crescidos pelo que eu não precisava de cuidar deles. Foi um ótimo tempo. Dei-me bem com a Paula desde o início. Vi-a pela primeira vez quando ela estava prestes a sair para o teatro - ela era muito glamorosa. Ela disse "Olá" brevemente e acrescentou que sentia muito por se ir embora e disse-me que me veria mais tarde naquela noite ou no dia seguinte. Saí e, quando voltei, a Paula estava a tomar uma taça de champanhe com uma de suas filhas, a Vicky, e convidaram-me para tomar uma – claro, tomei várias – e foi uma ótima noite.

A Paula tinha o dom de deixar as pessoas à vontade. Era uma boa ouvinte, interessada no que dizíamos, dedicava tempo às pessoas, não fazia julgamentos. Falávamos sempre em português. Não sei se ela sentia saudades de Portugal, mas conversávamos muito sobre isso: o comportamento dos portugueses, a política, a culpa e a vergonha associadas ao catolicismo, e falávamos sobre ser mulher.

As minhas funções eram ajudar o Vic com as suas pinturas e transferi-lo de sua cama para uma cadeira de rodas. Paula mostrou-me como esticar uma tela. Não falávamos sobre como esse momento era difícil para ela – ela seguia em frente. Ela preparava o café da manhã para o Vic, partia para o estúdio e, na maioria dos dias, voltava a tempo de preparar o jantar dele. Tenho a certeza que foi por eu fazer parte do cenário doméstico que Paula e eu nos aproximámos tanto. As nossas conversas eram principalmente sobre trabalho porque era através do trabalho dela que tudo acontecia. Quando o Vic era vivo, ela trazia trabalho para casa, pendurava-o na parede e ele comentava, dava conselhos. Depois de ele ter morrido, ela dizia sempre que sentia falta dele e que era muito difícil sem ele. Ela teve que fazer tudo sozinha e isso foi muito difícil.

Pensando bem, acredito que ela estava a lidar com uma depressão há muito tempo. Aprendeu que a maneira de lidar com isso era continuar a trabalhar. Num domingo, ela disse: “Posso fazer um desenho seu?” Eu nunca tinha servido de modelo antes. Não pensei nisso, só estava a tentar ajudar – simplesmente aconteceu. Lembro da Vicky a dizer: “Não podia acreditar, fui lá em casa e lá estava você, como a coisa mais natural, posando para a Paula...”

Paula e eu mantivemos contato e, em 1994, ela ligou para perguntar:
Poderia ir ao estúdio? Então, no meu dia de folga – eu trabalhava como enfermeira – eu vim e foi aí que [o quadro] Mulher Cão começou. Às vezes, Paula contava-me a história em que estava a pensar. Noutras ocasiões, ela tentava uma pose para mostrar o que estava a procurar. Assim que eu me posicionava, ela dizia: “Muda esse braço, muda o pescoço”. Outras vezes dizia: “Sim! É isso." Ela fazia muitos desenhos para encontrar o que procurava… Uma das poses mais difíceis foi em 1995 – a pintura de uma mulher onde não fica claro se ela está a puxar as cuecas para cima ou para baixo. Todo o meu corpo tinha que estar rígido. Foi muito difícil – os meus joelhos dobravam-se – tive que ficar parada por horas.

A Paula gostava de rotina. Trabalhávamos das 10h às 19h. A primeira coisa, tomávamos café e conversávamos, e isso podia durar 10 minutos ou duas horas, dependendo de como fosse a conversa. Eu dizia: “Escute, estamos a conversar, a conversar – temos que trabalhar”. E ela dizia: “Tudo isso faz parte do trabalho”. Desenvolvi um modo zen, distanciei-me da pose. Eu não iria olhar para o que ela estava a fazer. Ouvíamos ópera pela manhã – bem alto. A Paula tinha um sentido de humor maravilhoso. A estranheza de outras pessoas fazia-a rir, como as pessoas reagiam – a comédia da linguagem corporal. Costumávamos chamá-lo de “aquela coisa”.

A Paula uma vez disse sobre mim: “Ela é realmente eu mesma”, e o que ela quis dizer, eu acho, é que ela podia ver através de mim e revelar o que quer que estivesse na sua mente. Não é a mim que me vejo nas pinturas, é principalmente a ela – à sua vida interior – e às vezes não é nenhuma de nós. Nunca penso: aquela ali sou eu. Penso: lembro-me daquela pose, como era difícil.

A saúde da Paula começou a piorar por volta de 2009 e ela disse: por que não passa a trabalha para mim a tempo inteiro? E assim fiz. Ela continuou a trabalhar todos os dias até quase ao fim. E quando ela estava muito doente para ir ao atelier, ia eu a casa dela e passávamos o dia a desenhar com pastéis. Ela continuou, não desistiu.

Mesmo agora depois da sua morte – pensarei sempre nela e verei coisas que seriam boas para o seu estúdio. Eu costumava comprar os adereços. Sempre que eu saía para fora, voltava com coisas: bonecas brasileiras, roupas de criança, um sombrero de Monterey. Certa vez, a Paula pediu-me para encontrar um papagaio de cerâmica numa viagem a Brighton. “Precisamos de um papagaio”, disse ela. Não consegui ver muitos papagaios em Brighton, mas encontrei um.

A sua morte deixou uma lacuna na minha vida. Agora encontro-me num limbo. Sem saber o que fazer. Sinto muita falta dela. Ela era muito generosa, mas a sua confiança em si mesma era facilmente derrubada: uma crítica negativa poderia fazer isso. Ela trabalhava e trabalhava, mas precisava de alguém que lhe dissesse que o trabalho era bom. Quando começámos aqui, quase ninguém vinha ver o trabalho até que estivesse pronto. Ela não atendia o telefone, as pessoas deixavam mensagens. Talvez a dúvida fosse necessária para o trabalho. Lembro-me dela a dizer: “Não, não, não…” antes de fazer uma qualquer mudança numa pintura. Eu pensava: “Ai meu Deus... mas estava tão bom...” Só depois de  ela fazer a alteração é que eu percebia.

Não sei se, mesmo no final da vida, ela sabia o quanto era amada e respeitada como artista. “Lila, imagine, a Tate vai fazer uma retrospectiva”, disse-me. E eu disse: “Pelo amor de Deus, já deveria ter sido feita há muito tempo.” A visibilidade do ano passado deu-lhe um impulso maravilhoso – ela foi à abertura e foi fantástico. Quando fui, senti... vi o fim.

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Cometi a ousadia de aqui ter o artigo na íntegra uma vez que o jornal é de leitura aberta (embora apele à generosidade dos Leitores). A tradução foi feita a meias entre mim e o tradutor da Google a partir do artigo Paula Rego remembered by Lila Nunes no The Guardian integrado na série The Observer's obituaries of 2022

A fotografia lá em cima mostra Paula Rego no seu estúdio em 2018 e é da autoria de Phil Fisk/The Observer. A segunda, propriedade de Lila Nunes, mostra-a com Paula Rego em 2018.

A pintura é Dog Woman, 1994, de Paula Rego (com Lila Nunes como modelo). Fotografia: Copyright Paula Rego, Cortesia Marlborough Fine Art’

A música, "Un bel dì vedremo (Madama Butterfly)" de Puccini por Renata Tebaldi, é uma escolha minha

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Paula Rego viveu entre 26 de janeiro de 1935 e 8 de junho de 2022

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

Saúde. Compreensão. Paz.

segunda-feira, junho 27, 2022

Portugal, Portugal

 


Gosto muito do meu país. Gosto dos lugares, das paisagens. Acho que o meu país tem sítios lindíssimos. Gosto dos portugueses. Claro que, como em todo o lado, há gente de toda a espécie. Há os miseráveis e os ignorantes. Há os corruptos e os arrogantes. Os palermas e os parvos. Mas há muito boa gente, gente tolerante, gente generosa, gente talentosa, interessante. E há a língua portuguesa, tão bonita, tão rica. 

Em muitos lugares do país há agora muita gente de fora. Se, por exemplo, estivermos na linha de praia, há uma multidão de jovens que falam outras línguas, muitos surfistas, muita gente descontraída que fica à beira mar a conversar até a noite chegar. Se estivermos na linha de restaurantes e esplanadas, estão cheias. Ouvem-se todas as línguas, as pessoas estão já um pouco bronzeadas e geralmente sorriem, de bem com a vida. E por todo o lado se ouve a língua portuguesa nas suas múltiplas variantes, dos brasis, das áfricas. Uma riqueza extraordinária. O país agora é aberto, alegre, inclusivo, luminoso.

Já lá vai o tempo em que os portugueses eram gente ensimesmada, gente que vivia fechada em casa espreitando atrás do cortinado, gente sempre pronta para a censura castradora, sempre pronta para a maledicência, pronta para rejeitar a diferença.

Ainda há alguns assim. Os que são dessa raça podem correr mundo e assentar arraiais noutras paragens que continuarão a ser assim, soturnos, fatalistas, maledicentes, sempre prontos para cortar na casaca dos outros. Gente maldosa, cinzenta.

Mas são uma minoria. Agora, por onde se passa, já se vê gente aberta à vida, aos dias que passam, à música e à claridade, já se vê gente que aparenta alguma confiança nos dias futuros.

Há ainda gente com rendimentos muito baixos, é verdade, e que, com certeza, não pode ter acesso ao que de bom a vida tem para oferecer. Mas onde não há? Em lado nenhum. Imaginar que há é querer viver dentro de uma utopia. Para além disso, em Portugal há apoios sociais e há a educação e há uma atenção crescente à necessidade de não deixar ninguém para trás. Haveremos de ser ainda melhores. E não é com palavras de ordem e parangonas que as coisas se mudam. É com acções concretas e uma forte consciência social.

Pode dizer-se mal de tudo, claro. Há quem o faça. Os populistas são assim. Ouça-se o líder do Chega e comprove-se: segundo ele, Portugal é uma desgraça, os portugueses uns desgraçados. E eu olho para ele e acho que desgraça é haver portugueses assim, como ele.

Há ainda muito a fazer, muito. Alguém diz que não? Alguém de bom senso acredita que Portugal é perfeito? Claro que não. O que é preciso é que ninguém baixe os braços, que ninguém de bem vire as costas aos que ficam. A partirem, que partam apenas os que não sabem honrar a história, a língua e a garra dos portugueses de gema.

O que temos pela frente é um percurso. Ainda não há cinquenta anos que vivemos em democracia. Durante décadas o país viveu tolhido, amarrado à força à pobreza, à ignorância. Éramos um país fechado sobre si próprio. E isso deixas marcas profundas.

Leva tempo a construir mentalidades novas, a abrir as mentes de forma colectiva, a abrir-se ao mundo. 

Eu estudei em Portugal, perto de casa. Não me ocorreu ir para longe quando podia estar perto. Mas uma prima mais nova já foi estudar para uma universidade a centenas de quilómetros de casa. E a filha de uma outra prima já foi estudar para um outro país, um país longínquo. Os meus pais nunca me deixaram fazer o interrail porque eu queria ir com um namorado e eles acharam que nem pensar ir por aí, à aventura, com um namorado. E casei-me aos vinte porque não me passou pela cabeça ir viver com ele sem me casar. Com os meus filhos foi tudo diferente. Viveram juntos sem se casarem, passearam, fizeram o que quiseram. Não sei como será com os meus netos. Da minha parte, quero que sejam felizes, que realizem os seus sonhos -- mas que amem sempre, de paixão, o nosso país, que sejam sempre solidários com os seus concidadãos, que sintam sempre orgulho em serem portugueses.

Não é um sentimento abstracto. É bem concreto, bem real. É um amor verdadeiro, completo que, em cada pequeno acto, deve ser materializado. É daqueles amores que se quer físico, demonstrado. Quem ama o seu país sente-se também amado. É como com as pessoas. Amor verdadeiro é amor partilhado, é amor tolerante, é amor que se quer construir e para o qual se quer que depois de um dia venha o outro dia. Quando assim não é, então não é amor. 

Há pouco apareceu-me um vídeo que mostra o meu País pelo olhar de um não-português, muitas vezes em imagens aéreas que, obviamente, não são alcançadas por quem anda com os pés no chão. Conheço aqueles lugares mas sob uma outra perspectiva. Gostei de ver. Que país tão bonito.

A seguir, com alguma edição, vi como um casal também não-português vê o nosso país. Vi muitos lugares que conheço e percebo o encantamento de quem os vê pela primeira vez. País mais lindo, o meu querido Portugal.

Partilho-os convosco. Mostram o país visual. Claro que há depois o país vivido, o país do dia a dia, tantas vezes tão difícil. Mas esse não é agora o tema. Só espero é que gostem tanto do nosso país como eu. 

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Os melhores locais para visitar em Portugal segundo Ryan Shirley

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Portugal - The Europe We Didn’t Know Existed!

Portugal has been on every "top travel destination" blog for years. Over a 2-week road trip we explored the beautiful castles, incredible history, and rugged coastline, from Lisbon to Sintra down to the world-renowned Algarve beaches and caves, and then all the way up to the rolling vineyards of the Douro Valley wine region in this fascinating slice of Europe. 

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Mário Cesariny :: Queria de ti um país 

Música de Rodrigo Leão & Gabriel Gomes / Vídeo Cine Povero


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Pinturas respectivamente de Vieira da Silva, Paulo Ossião, Guilherme Parente, 2x Graça Morais, Noronha da Costa, Paula Rego, Cargaleiro.

Carlos Paredes com Luísa Amaro interpreta Canto do Amanhecer

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

Saúde. Boa sorte. Compreensão. Paz. 

quinta-feira, junho 09, 2022

Paula
-- ser, recordar, brincar, desenhar, encenar, pintar

 



Não foi desde sempre que gostei da Paula Rêgo. Lembro-me de um dia me cruzar com uma prima, dada às artes, que ia a entrar para o CCB e eu a sair. Eu tinha vindo de um daqueles eventos em que se comia muito bem e, ao sair, ia apressada para não sei onde. Ela disse-me que ia ver a exposição da Paula Rêgo. Eu disse que não achava muito piada e ela ficou muito admirada, acharia que eu gostaria bastante. Mas eu que não, nem por isso. Tudo meio estranho, devo ter dito.

Fiquei a pensar naquilo. 

Quando a gente não está predisposta a encarar a diferença ou está sem disponibilidade para ver com olhos de ver o que não é vulgar, acontece isto. Achamos que as coisas não nos dizem nada e seguimos adiante. Mas não são as coisas que não dizem nada, a gente é que não pára para as ouvir.

Algum tempo depois, tive ocasião de ir ao lançamento de um livrinho maravilhoso com ilustrações dela sobre texto de Tabucchi. Foi no Palácio Fronteira e tudo ali era maravilhoso: a luz, o ambiente, os sorrisos, a afabilidade que circulava entre todos. O sorriso da Paula Rêgo e a forma como olhou para mim quando lhe disse o meu nome. Não me esqueço. A simpatia doce, inocente, a surpresa. Fez-me sentir ainda mais que o meu nome era inseparável de mim.

Por essa altura já eu tinha despertado para a beleza insólita dos seus desenhos, para a forma impactante como as suas figuras chegavam até nós, para os pormenores desconcertantes, para os franzidos das saias e para as sombras nas rugas dos tecidos, para a pele imperfeita das mulheres, para a rudeza e para a má sorte, para a carnalidade, para a perversidade de alguns personagens.

Aos poucos fui ficando incondicional. Cada pequeno detalhe, uns olhos muito abertos, um corpo abandonado, um movimento atrevido, a ruralidade assombrada, o abandono dos corpos à sua sorte, a força, a destreza, a ousadia das mulheres. O sangue, o olhar, as pernas grossas, o cabelo apanhado das mulheres e a sua manha, a malícia das crianças, a fragilidade de alguns homens.

Nessa altura já me era difícil compreender os que diziam não gostar da sua obra. Esquecida da minha anterior cegueira, não percebia a cegueira dos outros.

Agora continuo a não perceber. Mas já aceito. Há vários tipos de cegueira. A da ignorância, a do desdém, a da indisponibilidade para ver, a da superficialidade. Mas é a vida: uma mescla de tudo. E tudo é relativo e tudo é passageiro.

E, para além da obra, há a autora. As suas entrevistas, o documentário que o filho fez sobre ela, a  aproximação de Agustina* -- tudo foi construindo, em mim, a imagem de uma mulher admirável, meio louca, meio menina, meio diaba, meio de outro mundo, meio desbocada, meio dramática, meio divertida, meio sofrida, meio desabrida, muito vivida.


Mesmos os deuses não são eternos. Chegaria o dia em que Paula Rego partiria. Mas parte o invólucro que, como em todos nós, era perecível. Fica a sua vasta obra -- e isso é uma dádiva sua para connosco que nunca poderemos agradecer como deveríamos pois é uma dádiva demasiado grande -- e ficam as suas palavras nas entrevistas que podem ser lidas e vistas em vídeo. 

A sua obra, intemporal, imoral, amoral, moral, imensa, tem ainda uma característica especial: é intrinsecamente portuguesa. 


E, por isso, por sentir essa proximidade com estas mulheres que saíram da imaginação, da memória e das mãos de Paula Rêgo, a admiração que me desperta é ainda maior.


Maravilhosa e eterna Paula Rêgo. 





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Mas As Meninas não são crianças. Estão sempre alerta, sabem coisas proibidas, em volta delas as mulheres conspiram, inspeccionando a sua roupa de baixo. As Meninas são profundamente perigosas. Não devem andar pela cozinha nem pelos lugares desertos da casa. Sabe Deus que coisas podem fazer…

[Palavras de Agustina em as Meninas

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Desejo-vos um dia bom

Saudade. Agradecimento. Saúde. Paz.

sexta-feira, dezembro 10, 2021

Eram novos e não sabiam.
[Se bem que agora ainda estejam bastante benzinho*]

 


Eu tinha um gira-discos só meu. Era um aparelho praticamente portátil. Não era uma aparelhagem como a que os meus pais tinham na sala, com colunas em separado, amplificador em separado. O meu fechava-se com uma tampa e tinha uma pega. Estava no meu quarto. A mobília do meu quarto era clara, de linhas direitas, moderna para a época. Foi feita a feitio numa marcenaria, certamente desenho do meu pai com mão da minha mãe. Havia uma superfície em L que ocupava uma parede e meia. Na meia parede estava também a minha cama. A zona da secretária era ampla. Não havia computador. Tudo era analógico. Livros, cadernos. E, ao lado, o gira-discos. 

A bridge over troubled waters tocava muito por essa altura. Era daquelas baladas que enlevava a alma da menina que eu ainda era e se iniciava na adolescência. 

Depois havias as festas de anos. Éramos um grupo de miúdos muito unidos que, em conjunto, descobriam a ternura da aproximaçao da atracção sexual. Tinha treze, depois catorze, depois quinze, depois dezasseis anos. Nuns casos, as festas eram no quarto ou na sala do aniversariante. Outras vezes em garagens que eram transformadas em discotecas dançantes. Os adultos mal se viam. Deixavam o espaço para os jovens. 

Nesse grupo havia dois rapazes que viriam a entrar para o Técnico e tornar-se engenheiros electrotécnicos. Na altura eram apenas miúdos habilidosos. Montavam amplificadores, levavam colunas, montavam luzes que piscavam e perdiam vigor, quase se apagavam. 

Havia muitos discos. Vários do nosso grupo tinham muitos irmãos, alguns irmãos mais velhos. Entre todos, apareciam discos e discos com grupos ou cantores que eu ia conhecendo e aprendendo a 'curtir'. 

Um de que eu também gostava muito era o Cat Stevens. Morning has broken. Por exemplo.

Gostava de dançar, ora juntinha ora gingando abraçadinha. Podia ser ao som do Morning has broken ou de qualquer outra música. 

Os anos foram avançando e eu acompanhando o Simons and Garfunkel, o Cat Stevens, a Janis Joplin e tantos outros. 

Até que hoje o meu amigo algoritmo do Youtube me propõe um vídeo. Art Garfunkel. 

Estavam dois homens desconhecidos, um tocando, outro cantando. A voz, agora mais trémula, parecia, de facto, a de Art. Mas onde os caracóis, onde o homem da testa alta e cabelo arruivado e hirsuto? Pensei: não pode ser. 

Fiquei a ouvir. Agora é um homem quase velho... e não dava tempo a ele, de repente, se ter tornado assim quase tão velho. Ná. 

Olhei melhor. O nariz parece, a voz parece. Mas poderia alguém ficar assim tão velho de um momento para o outro? Não, nem pensar.

Fui googlar. Vi fotografias actuais. É ele, de facto. É ele. Não sei como mas é. Revi o vídeo. O sorriso é jovem. A atitude é jovial. Fui ver a idade. 80 anos. Revi. Oitenta anos. Oitenta? Como? Mas depois pus-me a fazer contas de cabeça e a racionalizar. Qual de repente...? Onde é que eu tenho andado com a cabeça para não ter percebido que já passaram estes anos todos...?

E, então, lembrei-me de ir ver como está agora o Yusuf, ex-Cat Stevens. Apesar de tudo parece que não está tão diferente. Fui ver a idade. 73. Já setenta e três. Já? 

Até me lembrei de um amigo que encontrei há pouco tempo. Conheço bem a mulher com quem vive, embora continue casado com a primeira. Perguntei-lhe por ela. A rir, respondeu-me: 'Vai ser operada às cataratas. Imagine... Fui eu deixar a minha mulher para arranjar uma velha...'. Desatámos os dois a rir. 

A gente ri, ri, mas a verdade é que é assim mesmo: se nos formos mantendo vivos, os anos vão passando por nós e, quando damos por ela, os que conhecemos jovens aparecem-nos já velhos e nós mesmos um dia vamos olhar para o espelho e também vamos perceber que, se deixarmos de ser condescendentes para com a imagem que observamos, também não fomos poupados. 

Mas isso não é grave. Grave é quando começam a morrer os da nossa idade ou mais novos que nós. Isso faz-me muita impressão.

Estou a ler o 'Para quê tudo isto?', a biografia de Manuel António Pina escrita por Álvaro Magalhães. Era um autor que muito admirava (e admiro). Quer através da sua poesia quer das suas crónicas, eu acompanhava a forma elegante e inspirada como cerzia as palavras. Fez-me impressão quando partiu. Se me tivessem perguntado teria dito que para aí há uns quatro ou cinco anos. Pois. 

Não ando a medir bem o tempo. Já há nove. Também não percebo. O que fiz durante estes seus nove anos de ausência? Não sei. Não percebo.

Com este livro, comecei como tantas vezes faço: a ler do fim para o princípio. Não sei porque é que, num caso assim, o faço. Já sei como é que acaba. Só se involuntariamente quero poupar-me já que, ao caminhar ao contrário da linha do tempo, irei conhecendo os seus anos de boa saúde, de motivação e descoberta, os tempos em que não havia fim à vista nem dores nas costas nem internamentos.

E aqui estão os que, em tempos, foram jovens. Não que hoje estejam fisicamente piores. Estão é fisicamente alterados pelas areias do tempo. Bonitos como sempre. Bastante benzinho, até.



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Pinturas da Paula Rêgo.

(* o asterisco na palavra benzinho no título, naquele contexto, não é acidental)

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Desejo-vos um dia bem feliz

terça-feira, janeiro 05, 2021

Como se vive com demência? Como se vive com uma pessoa com demência? É possível combatê-la?

 


A primeira vez que soube de alguém concreto com demência foi com a mãe de um colega. Ele era daqueles solteirões ingénuos, desejosos de arranjar namorada, mas tão explícito nessa vontade que se tornava alvo fácil de chacota. As mulheres gostam de perceber que os homens têm uma certa malandrice e que já tiveram alguma vida. Ora, aparecer-lhes um homem com cerca de quarenta anos e que, pela sofreguidão que demonstrava, mais parecia um adolescente virgem é coisa que uma mulher dificilmente pode levar a sério.

Na altura eu tinha uma colega, a quem tinha levado para lá para me substituir durante a baixa de parto. Tinha-a conhecido na faculdade e tínhamos ficado amigas. Muito bonita, muito independente, muito maliciosa, ultra moderna, super gozona. Provocava-o só para se divertir com os inocentes entusiasmos dele. Eu casada, na altura já com a minha filha, pedia-lhe que não exagerasse pois ele não percebia, caía em todas as esparrelas, estava como se estivesse apaixonado, sem perceber que uma mulher como ela jamais -- em tempo algum  --poderia interessar-se por um inocente carente e totó como ele.

Vivia com a mãe, ele, uma senhora viúva, professora reformada, tinha sido uma mãe tardia. Falava dela sempre com cuidado e ternura e percebia-se que a mãe deveria querer que o filho se casasse e percebia-se que, até para dar esse gosto à mãe, ele não apenas tinha vontade de namorar como queria que fosse coisa 'a sério' para dar essa alegria à mãe.

Mais tarde, o namorado de longa data dela, um homem divorciado, mais velho que ela, com filhos adolescentes, com quem nunca vi qualquer afinidade nem grande interesse mútuo, saiu da hesitação em que andava há uns dois anos e propôs que namorassem mais a sério e casassem. Nunca consegui perceber qual o verdadeiro sentimento dela em relação a ele. Contava-me que andavam com advogados a discutir acordos pré-nupciais. Eu, que me tinha casado, miúda ainda, na desportiva, sem pensar em nada disso, aliás sem sequer saber que coisas dessas existiam, pasmava com tanta discussão para delimitar com o que cada um ficaria se se separassem. Ela tinha um apartamento dela mas ele morava numa grande casa numa zona nobre da cidade para além de que tinha uma outra casa na praia. E devia haver dinheiros, já não me lembro.

No meio disto, destas discussões entre eles, desentendimentos, geralmente aborrecidos um com o outro por estes motivos, entrou um jovem economista, alto, giraço todos os dias, uma simpatia. Arranjava sempre maneira de vir falar connosco: éramos os mais jovens e gostávamos de conversar e de rir. O outro pobre coitado andava pelos cantos a morrer de ciúmes, completamente descartado. Claro está que não tardou que, saindo eu para ir buscar a criança, dar-lhe de mamar e ir tratar da vida doméstica, ela e o jovem colega saíssem dali para beber um copo, depois beber um copo e ir jantar, depois beber um copo, jantar e ir dançar. Ela ia-me contando isso com sorrisos maliciosos, que o colega beijava bem que só visto, que dançava bem que só experimentando. O namorado dela devia andar muito ocupado com advogados e com os filhos adolescentes e a muito bem sucedida vida profissional que o levava a viajar muito, e ela andava naquilo, ocupada a gozar a vida.

Um dia, de manhã, apareceu com ar pesado, quase choroso. 'Então, o que foi?'. Nem precisava de ouvir a resposta mas ela confirmou: 'Aconteceu'. Fiquei admirada com aquele ar tão pesaroso quando estava na cara que tinha que acontecer. Disse-me que não, que não era suposto acontecer e que se sentia muito mal, que não sabia se havia de contar ao namorado. Respondi-lhe que ela parecia querer arranjar pretexto para se afastar do namorado e que aparentemente não gostava dele, que, se calhar, mais valia, simplesmente, dizer-lhe que afinal não gostava dele o suficiente. Desatou a chorar, que gostava, que não sabia porque tinha feito aquilo. Fiquei estupefacta, disse-lhe que me parecia que ela estava a enganar-se. Disse-me que não, que gostava mesmo. Achei extraordinário. Mas desde cedo aprendi que não se deve fazer juízos de valor.

Mais estupefacto ficou o bonitão com ela a cortar relações com ele, sem perceber o que tinha acontecido, que tinha sido uma noite fantástica, não entendia tal reacção. 

O outro ingénuo, percebendo que a costa estava livre, voltou a aproximar-se mas só recebeu da parte dela uma grande frieza.

Passado pouco tempo, a minha bela colega demitiu-se. E pouco tempo depois casou-se. E, como expectável, uns quatro ou cinco anos depois, período durante o qual andou a iludir-se relatando viagens, festas e feitos enamorados de ambos e louvando as grandes qualidades dele como se estivesse apaixonada, divorciou-se. Quando me contou, face à minha indiferença, perguntou-me: 'Não dizes nada?'. Só consegui dizer-lhe que não, e mudei de assunto. Desde o início era claro que n,ão eram um para o outro. Não sei como aquele pseudo-romance tinha durado aquele tempo todo pelo que a surpresa era essa, não que tivessem acabado.

Entretanto, tinha entrado uma outra colega, uma mulher grande, gorda, despudorada, desbocada, sempre pronta para uma conversa apimentada, palavrão de criar bicho de permeio. Também pelos quarenta, divorciada, mulher livre, sem receio do que dissessem ou pensassem. Os homens gostavam de provocá-la para verem até onde ela ia e ela nunca desiludia. O outro inocente, sempre a ver se conseguia namorada, não percebia que aquela não era também a mulher certa para ele. Mas o que ela se divertia com o pobre coitado. Ele, uma vez mais, caidinho por ela, autêntico babaca, toda a gente a gozar com ele e ele sem perceber. Ainda me lembro quando ela fez anos, ele a mandar entregar-lhe um ramo de rosas, ela levemente comovida -- mas toda a gente a gozar com ele e ela também, para não desiludir a plateia, e ele, tão tonto, apesar de tudo, a julgar que tinha encontrado a mulher certa. Durante muito tempo ela dizia-me que das poucas coisas que se arrependia na sua vida de excessos era de ter gozado com ele quando ele lhe tinha oferecido as rosas.

Até ao dia em que ele recebeu um telefonema da polícia: a mãe tinha saído de casa, tinha-se perdido, tinham-na levado para uma esquadra porque ela não se lembrava da morada, tinham encontrado na carteira dela o cartão de visita do filho. Ficou espantado, preocupado, saiu a correr.

Nessa tarde, voltou ao trabalho, disse que a mãe tinha ficado em casa, estava bem, não percebia o que se tinha passado. Tenho ideia que não se preocupou muito. Desvalorizou. Achou que toda a gente de vez em quando pode ter um lapso.

Continuava aquela paródia de flirt tardo-adolescente, ela tinha um carro meio velho e ele um desportivo e, volta e meia, um dos carros ficava lá durante a noite -- e nada de mais. Até que um dia, de tarde, ele chegou bem mais tarde. Não morando muito longe do trabalho, ao passo que todos nós almoçávamos uns com os outros nos restaurantes das redondezas, ele ia almoçar a casa com a mãe. Nessa tarde, vinha atordoado. A mãe não tinha feito o almoço e tinha deixado o gás ligado, sem colocar o tacho em cima e, aparentemente, não tinha dado por isso. Não tinha havido almoço e a mãe, que toda a vida tinha tratado escrupulosamente, do seu menino, aparentemente não estava nem aí. 

Na altura tenho ideia que pouco ou nada se falava em Alzeihmer. Eu também ficava espantada com aquilo, dizia-lhe que alguma coisa não estava bem. Ele dizia que ela conversava bem, estava bem, de boa saúde, cuidava da casa, que não percebia o que tinha sido aquilo, talvez tivesse adormecido, talvez nada de mais.

Mas, progressivamente, as coisas estranhas iam-se sucedendo. Um dia, quando ele ia a chegar a casa, viu uns sacos de plástico com roupas à porta de casa. Espreitou e pareceu-lhe perceber serem lençóis normais. Quando perguntou à mãe que sacos eram aqueles, ela disse que não sabia mas ele viu as gavetas da cómoda desarranjadas, meio esvaziadas.

A partir daí foi em crescendo. Coisas inexplicáveis, esquecimentos, alheamento. A tristeza dele era comovente. Ajudámos muito, nós, com os nossos conselhos, ouvindo-o, apoiando-o. Mas apoiou-o, sobretudo, ela, a maria-doida. Foi uma irmã para ele. Por fim, saíam juntos para ela ir ajudá-lo no que fosse preciso, e cada vez era preciso mais. Passou a ter que fechar a mãe pois fugia e perdia-se, deitava tudo fora, tinha que deixar a torneira do gás desligada. Andava sempre em pânico. As coisas que ele contava enchiam-no de estranheza e a nós também. Acabou por contratar uma senhora para ficar com a mãe durante o dia. Frequentemente, confundia o filho com o marido, depois com o pai. Por fim, já nada dizia que fizesse qualquer sentido. Já não tinha força nem qualquer autonomia. O declínio foi rápido. 

Na altura falava-se de demência. Quando ele falou em Alzeihmer ficámos a saber que havia uma doença com esse nome.

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A prescrição de Sanjay Gupta para combater a demência

The neurosurgeon, CNN commentator and author of "Keep Sharp: Build a Better Brain at Any Age" has long studied the brain and the onset of Alzheimer's. He talks with CBS News chief medical correspondent Dr. Jon LaPook about the recommended steps to a healthier brain, from diet and exercise to the value of sleep and social interaction.

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Pinturas de Paula Rêgo ao som de Spiral · Ólafur Arnalds
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Desejo-vos dias felizes

quarta-feira, outubro 09, 2019

A noite num não-lugar





Estávamos varados de fome e o meu marido tinha lido que o McDonalds estava aberto 24 horas por dia. Dirigimo-nos para lá. Dá, pois, para perceber o tamanho da fome. Eu hamburger não me estava a ver a comer àquelas lindas horas mas, em contrapartida, já só pensava numa coisa frita com puré de maçã por dentro que eles lá tinham e que eu só pensava que tomara que ainda tivessem. Afinal, estava fechado, já passava da meia noite. O que estava aberto as tais 24 horas por dia era o McDrive. Mas ir para uma fila, que estava de bom tamanho, e trazer um saco para casa ou ficar a comer ali no carro, isso não. Portanto, desandámos.

Vínhamos no carro e só falávamos no que haveríamos de comer. Eu disse: noutros tempos eu pensaria numa tosta com queijo a derreter lá dentro, fiozinhos de queijo cheiroso a derreter-se-me na boca. Mas, então, ao entrar em casa, ocorreu-me: temos ainda um bocado de pão de espelta, temos um resto do frango que assei no domingo, temos alface. Oh pá, que belo pitéu em perspectiva. E assim foi. Deliciosa. Uma sandes para cada um. Depois uvas brancas fresquinhas e, a rematar, um quadrado de chocolate preto e dois cubos de gengibre cristalizado (passados por água para tirar o açúcar). Um jantar e pêras. Agora passa da uma e meia e estou bem, confortada.

À vinda do trabalho, vinha a pensar que tinha que falar aqui da múmia que saíu da marquise para vir louvar a Marilú dos Swaps, aquela que falhou todos os orçamentos, que corporizou a austeridade para além da troika. Saíu da marquise para mostrar que não aprendeu nada, a múmia, o marido da cavaca. E pensei também que tinha que falar naquele da IL, o liberal que também gagueja e que tem cara de maluco, mais ainda que o emplastro com quem tem perigosas parecenças.

E tinha ainda um tema privado para dele aqui desfiar uns fiozinhos e vinha a pensar como haveria de disfarçá-lo para que dele não sobrasse aparência reconhecível. 

Mas, isto, a gente nunca sabe. Aparecem imprevistos e nem sempre agradáveis.

Acontece. Portanto, lá fomos.

E o que tenho a dizer, porque só gosto de falar do que não me faz mossa, é que há lugares que são não-lugares. Lugares de não-permanência. Lugares de despojamento. Por vezes de solidão.

E em lugares assim a gente percebe que há momentos em que somos todos iguais: novos e velhos, homens e mulheres, ricos e pobres. Olha-se à volta e nada no comportamento os distingue.

Por exemplo, poderia falar da mulher que não percebi se era nova ou assim-assim e que talvez fosse drogada ou alcoólica e a quem faltavam dentes, a pele escurecida, muito magra. Estava com alguém que talvez fosse amiga. Mandavam sms uma para a outra, olhavam para o que tinha chegado, teclavam com rapidez, quase de olhos fechados. Ou podia falar do homem bonito, alto, bem constituído, de calções de ganga, blusa de algodão com decote em bico, cabelo grisalho curto, e que tossia como se lhe doessem as costas, como se quisesse conter a tosse para evitar a dor, que mal conseguia abrir os olhos, como se estivesse cheio de febre ou sedado e que, de vez em quando, com muito esforço, se levantava e ia lá fora fumar. Estava sozinho e eu pensei que, naquele estado, deveria sentir-se triste por não ter ninguém ali consigo. Ou a senhora que falava muito, contava coisas, revelava grande auto-estima, relatava a forma assertiva como tinha resolvido situações, mas eu olhava e via e pensava que aquilo não era assertividade, era  exibicionismo. Em frente, duas outras, muito atentas e deslumbradas. E então disse que tinha 66 anos e as outras não queriam acreditar, quiseram que ela repetisse, e ela repetia e as outras quase se derretiam a gabá-la 'está óptima!' e ela sorria, superior, jovem forever. E não percebi se alguma delas estava doente ou se estavam a acompanhar doentes por quem não se importassem nem um bocadinho. Podia, talvez, falar da jovem esbelta, altíssima, de quem a minha mãe disse que podia ser modelo. E eu olhei e pensei que sim, que tinha uma altura e uma elegância incomuns. E também não percebi se estava doente. Em contrapartida, numa fiada de cadeiras, um rapaz gordo dormia ferradamente. Tinha uma fita amarela. Também estava sozinho. Um segurança foi tentar acordá-lo, levantou-o, tentou perguntar-lhe qualquer coisa mas o rapaz nem abriu os olhos, voltou a deitar-se. Ou poderia falar das ciganas gordas, do casal de namorados, do casal que não abriu a boca, como se não se conhecessem. E outros.


Podia um dia pedir autorização para fotografar estas pessoas, estas ou as que se vão sucedendo, todas parecidas. Gostava mesmo.

Mas não tirei. E agora já são quase três da manhã. Pelo meio disto tenho parado sem querer, estou cansada, com sono.

Fico-me, pois, por aqui.

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Sade canta Kiss of Live e a Paula Rêgo faz-me companhia.

Não consigo responder a comentários os mails. As minhas desculpas, A ver se consigo durante o dia.

E sorte, saúde e felicidade para todos.

segunda-feira, dezembro 03, 2018

Paula Rego


Uma vez, numa tarde dourada, ao fim do dia, no Palácio Fronteira, uma festa, um conjunto de pessoas circulando no belo jardim, conversando, visitando os recantos, vendo os azulejos. Já em tempos falei neste dia especial: era o dia do lançamento de um livro muito bonito. Antonio Tabucchi escreveu a história e Paula Rego ilustrou. Tão, tão bonito. 'Fogo'. Um livro ímpar que para sempre associarei àquela tarde tão agradável.

Estavam lá, eles. Tão simpáticos. Autografaram o meu livro. Sorriu, ele, e o sorriso era envolvente. E Paula Rego olhou para mim a sorrir, gostou do meu nome, disse-o. Depois, passado um bocado, Paula Rego disse que estava com o rabo frio, estava sentada num banco de pedra, que nem sabia se tinha o rabo molhado, se tinha feito xixi. Mas claro que não tinha, a pedra do banco é era fria. E toda a gente se riu com a sua genuinidade.

Estive a ler a entrevista no The Guardian. Paula Rego: It isn’t nice in my mind'
Visceral and unsettling, Paula Rego’s art has challenged us for decades. Now, at 83, she talks about cruel fables and the medicinal joy of champagne.
Gosto tanto das suas pinturas, gosto tanto da sua loucura, da sua mente aberta, da sua forma, autêntica e quase infantil, de ser. E gosto dos adereços que ela arranja para compor as suas personagens e os ambientes em que elas se enquadram. Gosto de tudo. Há quem ache horrível, quem não veja ali beleza. E eu vejo beleza de mais, vejo a transcrição de pessoas reais, de pernas e troncos grossos, feições rudes, gente sofredora, revoltada, desafiadora, vejo irreverência, descaramento, gozo, puro gozo.


The only thing that helps is the work’: Paula Rego. Photograph: Phil Fisk for the Observer

Adereços do atelier de Paula Rego que têm entrado nas suas pinturas

‘I like the idea of the man having the baby and his gut bursting – serves him right’: a shot from the 1960s with Rego, her son Nick Willing (left), two daughters, and late husband, Victor (right).
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E até já.

quinta-feira, janeiro 11, 2018

'Os porcos estão inquietos?', desafiam algumas.
'Os homens têm o direito a importunar', afirma Catherine Deneuve (e outras).

Os assediadores. As feministas. As vítimas. As pseudo-vítimas.

E a virilidade, a feminilidade, a sedução. E a graça de viver.





Da mesma forma como -- e já aqui falei disso -- mais facilmente me punha ao lado das prostitutas do que das 'mães de Bragança', também agora, intuitivamente, me sinto mais próxima da Catherine Deneuve e outras do que das Oprahs Winfreys desta vida.

E, no entanto, não apenas não li qualquer dos manifestos como nem reflecti muito sobre o tema. É mesmo uma questão de intuição (ou genética, coisa cá da minha maneira de ser). Aliás, acho que nem é bem uma coisa nem outra, nem intuição nem genética, mas está a faltar-me a palavra certa. Mas é qualquer coisa nesta base.

Sobre este tema, várias vezes tenho pensado: trabalhando desde menina e moça em empresas maioritariamente masculinas, alguma vez fui assediada? Que me lembre não. E na rua? Que me lembre também não.

No outro dia, o meu marido, a propósito de uma que na televisão se insurgia sobre o facto de em Portugal nenhuma mulher se ter chegado à frente a acusar alguém, dizia, na brincadeira: 'A ela, de certeza, nenhum homem assediava, até para não ficar mal visto perante os outros homens'. Afirmação politicamente incorrecta, nos tempos que correm. E, no entanto, eu ri-me.


Penso nos piropos e graças que ouvi ao longo da minha vida e não tenho dúvida de que alegraram e apimentaram os meus dias. Desde os mais inteligentes e sofisticados até aos mais brejeiros, não me lembro de alguma vez me ter sentido verdadeiramente incomodada. Lembro-me, sim, de, em tempos idos, em autocarros apinhados, ter sentido homens parvos encostarem-se ou apalparem-me e eu me virar para eles e dizer: 'Agradeço que se afaste porque me está a incomodar', deixando-os aparvalhados, envergonhados. Lembro-me que um, uma vez, se armou em ordinário e desatou a ripostar, tendo-lhe eu dito que se calasse e tivesse vergonha. Portanto, quando saía do autocarro vinha até satisfeita com a sensação de ter posto na ordem um parvalhão.

Lembro-me também de, ao passar na rua, ouvir indecências e de fazer de conta que não ouvia ou, pelo contrário, olhar com ar interrogador, deixando os cobardolas atrapalhados.

Mas assédio, por exemplo, no trabalho, nunca. Nem nunca nada de parecido se proporcionou. Desde sempre a única mulher a chegar a um cargo de direcção, e tinha apenas trinta e um anos quando isso aconteceu, sempre me senti respeitada e nunca a nenhum passou pela cabeça ousar pisar o risco. 


Lembro-me de uma colega que, insegura e psicologicamente algo frágil (embora aparentando o contrário), confidenciava que um qualquer lhe fazia convites ousados, dizendo ela que cedia pois percebia que, se não aceitasse, ficaria prejudicada. Sempre achei isso uma ficção da parte dela pois assistia à atitude a priori permissiva da parte dela e à forma até cautelosa como ele se aventurava. 

E já aqui contei algumas vezes. Tempos houve, trabalhando eu uma grande empresa, em que havia em permanência casos e mais casos. Uma festa. A minha secretária tinha um caso com o meu melhor amigo, outro meu amigo tinha um caso com uma estagiária, um colaborador meu tinha um caso com a secretária do presidente, outro colega tinha casos com umas atrás de outras (e, como contei há pouco tempo, foi apanhado em pleno acto em cima da mesa de reuniões do gabinete um dia em que ficou até mais tarde), o vice-presidente tinha um caso com a contabilista. Etc., etc. Tantos casos que nem dá para acreditar. Alguns destes casos acabaram, outros deram em casório ou união de facto. Antes de serem casos, havia a fase da sedução. Assédio? Não direi. Melhor: nunca vi vestígios disso. Sedução, isso sim. Assisti de perto a muitos destes casos. A minha secretária, por exemplo, que andava de brincadeirinha com o meu colega (casadíssimo) e ele com ela, queixava-se-me uma vez: 'Muita conversa, muita conversa... mas passar à acção está quieto...'. Até que um dia, na sequência de um jantar de despedida de outro colega, a coisa se deu. No dia seguinte, descreveu-me ela como finalmente lá o tinha conseguido levar para casa. E eu parva com aquilo, ele tão apenas brincalhão e tão amigo da mulher, e ela, contrarando-me: 'Sim, sim... Pois olhe que não... Muito bem, lhe digo eu'. E um ar aprovador sobre a performance dele.


Ou seja, no meio daquele forrobodó (e estou a falar de uma grande empresa, moderna, produtiva, rentável), nunca vi nada que se parecesse com assédio ou sexo forçado ou moléstia de algum tipo. 

E falo no passado mas poderia falar no presente. Mas menos, muito menos. Não sei porquê mas parece que há menos hormonas em circulação. Casos assim, às claras, no puro descaramento, já vejo muito menos. Piropos malandros ou divertidos também muito menos. Os homens parece que estão a desabituar-se da arte do galanteio. A malandrice com graça pode não ser minimamente ofensiva e trazer divertimento aos dias. Mas parece que é coisa que está a sair de circulação.

Já aqui contei uma que a mim me divertiu imenso e que ainda me faz rir. Por isso, desculpme se me repito. Tinha um colega, muito engraçado e onde a malícia, ainda que inocente, era permanente. Uma vez a minha filha foi visitar-me e levou o que na altura era o seu único filho. Então, uma colega minha foi lá vê-los e, para minha surpresa, disse-me: 'Já ali estive com o avô'. E eu, admiradíssima: 'Com o avô? Mas ela veio sozinha..'. Esclarece, então, ela: 'Estou a falar do Dr. M'. Ri-me mas quase me ofendi: 'Ah, olha o disparate...'. Ao fim do dia, aparece-me ele no gabinete, todo lampeiro. Digo-lhe, toda cheia de repreensão: 'Olha lá... mas estás parvo ou quê...? Então andas a dizer que és o avô da criança...?'. E ele, ar de santinho: 'Mas não disse de quem é que sou pai...'. O que eu me ri a imaginá-lo pai do meu genro... ou seja, a ter um caso com a sogra da minha filha... 

Enfim. 

Claro que há casos e casos e o que não faltarão serão sabujos e badalhocos que se aproveitam da fragilidade de algumas mulheres vulneráveis. Sei que sim. Por exemplo, estou a lembrar-me que tive um colega, mais velho que eu, que foi criado na Casa Pia pois a mãe, trabalhando como empregada doméstica e tendo engravidado do patrão, não pode ficar com ele nem o pai o perfilhou. Só muito mais tarde, já ele a trabalhar, pode libertar a mãe da sua condição de quase escrava da casa onde trabalhava como interna. Quantos casos destes. Casos e casos. Casos tantas vezes vividos em silêncio, acobertados pelos mais pios usos e costumes, tantas vezes sob o beneplácito da igreja.


Mas aí, mais do que assédio, o que há é abuso sexual ou franco abuso de posição dominante (digamos assim) -- o que nada tem a ver com situações em que, por vezes, as mulheres falam como se fossem umas virgens ofendidas, umas tadinhas que fazem sexo oral contrariadas, umas beatas que ficam melindradas porque ouviram brejeirices e que agora, ao fim de vinte anos, vêm falar disso como se tivessem andado todo esse tempo com o piropo atravessado ou como se nunca tivessem contribuído para a situação em que se envolveram. Menorizam-se as mulheres que se fazem de indefesas e frágeis quando, tantas vezes, aceitaram, interesseiramente, favorecer esse tipo de situações.


Saibam as mulheres, antes, ver-se como iguais em direitos e poderes em relação aos homens, saibam afirmar as suas vontades sem se inferiorizarem, saibam as mulheres gostar de ser mulheres, nomeadamente prezando a sua natural feminilidade, saibam as mulheres apreciar a virilidade masculina e dar valor aos naturais jogos de sedução, saibamos todos apreciar a vida em tudo o que ela tem de bom. E não tentemos moralizar e beatificar tudo, incluindo os sentidos, o humor, a alegria, a malícia, a sedução. 


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E eu por mim fico de bom gosto a apanhar a almofada que o malandro do David Gandy está a atirar. Mas, para os meus Leitores mais moralistas que não gostam de ver homens mal comportados, então recomendo que desçam até ao post seguinte para lerem sobre a orelha encarnada do Santana Lopes.

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