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sábado, janeiro 24, 2026

Será este o momento em que o mundo finalmente deixa de correr atrás dos bombeiros, ou será que Trump já está a acender o próximo fósforo?

 

As conversas entre Joanna Coles e Michael Wolff são sempre gostosas, divertidas, com deliciosos apartes. 

Por exemplo, Joanna Coles conta que, quando foi entrevistar Valentino, o costureiro recentemente falecido, os assessores lhe pediram para não lhe falar na guerra do Iraque. Ela pensou que talvez algum familiar lhe tivesse morrido. Contudo, ficou curiosa e quis saber qual a razão. Responderam: 'É que ele não sabe da guerra.'. Isto 3 anos depois da guerra ter começado. Explicaram que ele vivia num ambiente de beleza. Notícias más só iriam perturbá-lo.

Michael Wolff não quis ficar atrás e contou que, numa das vezes em que foi entrevistar Trump para o primeiro livro biográfico sobre ele, o Fire and Fury, estando-se a poucos dias do Brexit, puxou o assunto. Trump ficou admirado: 'Ahnnn?'. Não sabia. Quando Wolff lhe explicou, apenas disse que lhe parecia bem que o Reino Unido saísse da UE. E mudou de assunto. Segundo Wolff, Trump não sabe nada de política internacional. Mesmo do que se passa nos EUA pouco sabe. Não lê um livro, não folheia um dossier, não se informa, não estuda. Aliás, conta que Epstein dizia que Trump tem medo de Putin porque Putin tem em sua posse os seus registos académicos, que parece que são péssimos. 

Outro apontamento com piada teve a ver com a nova gravidez de Usha Vance. Ao enviar-lhe os parabéns, Joanna confessou que gostava de ter tido mais filhos (tem dois)... mas apressou-se a advertir: 'Mas não com o J.D. Vance...'. Claro. Puxa. 

Contudo, claro que o tema principal não são estes pequenos fait divers. E ouvi-los a falar do que se tem passado (Davos, Gronelândia, o absurdo Conselho da Paz que mais parece uma extensão do clube privado de Mar-a-Lago, etc) ajuda a ver os grandes temas sob a perspectiva da petite histoire. Por exemplo, comentam que Trump gosta de ter todas as atenções centradas em si. Ateia o fogo não tanto pelo fogo em si mas, sobretudo, para ver os carros dos bombeiros, as sirenes, as luzes, toda aquela emoção. Quando acaba, antes que se avaliem os danos, já não quer mais saber do assunto, já está focado no próximo fogo que vai pegar.

Mas ouçam-nos que tem piada. 

O verdadeiro motivo pelo qual Trump recuou da Groenlândia: Wolff | Dentro da cabeça de Trump

Michael Wolff junta-se a Joanna Coles para analisar porque é que as últimas manobras teatrais globais de Trump — desde a ameaça de anexação da Gronelândia até ao "conselho de paz" bilionário — nunca deveriam ter acontecido. Recorrendo a Davos, a sondagens desastrosas, à reação negativa a Minneapolis e ao talento infinito de Trump para distrair, Wolff explica como a fanfarronice sem consequências é a essência do Trumpismo: atear fogo, aproveitar-se dos alarmes e depois ir embora antes que as consequências cheguem. A questão que se mantém após o fim da questão da Gronelândia é: será este o momento em que o mundo finalmente deixa de correr atrás dos bombeiros, ou será que Trump já está a acender o próximo fósforo?

E queiram continuar a descer porque, já a seguir, Colbert faz a festa.

quinta-feira, janeiro 22, 2026

Gavin Newsom em Davos
Outra intervenção que deve ser escutada com atenção -- e que seja isto um exemplo

 

É preciso alguma coragem para dizer que o rei vai nu quando o rei domina o país mais poderoso do mundo, manipula todos os órgãos de poder do seu grande país, chefia as forças armadas mais poderosas do mundo e tem o código nuclear. O rei vai nu. Ou: o gigante tem pés de barro e miolo fraco. 

Felizmente há quem tenha coragem. 

“Carney Got in Trump’s Head,” Newsom Hails Carney’s Historic WEF Speech on Global Leadership | AQ1B

O governador da Califórnia, Gavin Newsom, reage ao discurso ousado do primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, no Fórum Económico Mundial, elogiando a sua coragem em denunciar o declínio da liderança global dos EUA. Newsom destaca a mudança permanente na dinâmica do poder internacional, critica as políticas da era Trump e enfatiza a necessidade de autoridade moral e responsabilidade na política americana. 

O notável discurso de Mark Carney, Primeiro-Ministro do Canadá, em Davos

 

Presumo que já toda a gente tenha lido e/ou ouvido o discurso, escrito pelo próprio Mark Carney e que espantou toda a gente -- uma lufada de ar fresco, uma janela aberta para um mundo que pode ser melhor, um murro na mesa (ou na cara de Trump), um pensamento escorreito e uma escrita limpa -- mas, até para memória futura, faço questão de o ter aqui. 

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É um prazer — e um dever — estar convosco neste momento crucial para o Canadá e para o mundo. Hoje, vou falar sobre a rutura na ordem mundial, o fim de uma bela história e o início de uma realidade brutal, na qual as relações entre grandes potências se fazem sem quaisquer limites à sua atuação.

Mas também quero dizer-vos que os outros países, em particular as chamadas potências médias, como o Canadá, não são impotentes. Têm a capacidade de construir uma nova ordem que incorpore os nossos valores, como o respeito pelos direitos humanos, pelo desenvolvimento sustentável, a solidariedade, a soberania e a integridade territorial dos Estados. O poder dos menos poderosos começa com a honestidade.

Todos os dias alguma coisa nos lembra de que vivemos numa era de rivalidade entre grandes potências, que ordem mundial sustentada por regras está a desvanecer-se e que os fortes fazem o que querem, e os fracos sofrem o que têm de sofrer.

Este aforismo de Tucídides é apresentado como inevitável, apenas a lógica natural das relações internacionais a reassumir-se. E, perante esta lógica, há uma forte tendência para os países se acomodarem, de forma a evitarem problemas. Esperam que essa aceitação lhes traga segurança.

Mas não trará. Então, quais são as nossas opções?

Em 1978, o dissidente checo Václav Havel escreveu um ensaio chamado “O Poder dos Impotentes”. Nele, faz uma pergunta simples: como é que o sistema comunista se sustentava?

A resposta começa com um vendedor de hortaliças. Todas as manhãs, este merceeiro coloca um cartaz na sua montra: “Trabalhadores do mundo, uni-vos!” Ele não acredita naquilo. Ninguém acredita. Mas coloca o cartaz na mesma, para evitar problemas, para sinalizar conformidade, para se acomodar. E, porque todos os lojistas em todas as ruas fazem o mesmo, o sistema persiste.

Não apenas através da violência, mas através da participação de pessoas comuns em rituais que sabem, no seu íntimo, serem falsos.

Havel chamou a isto “viver dentro da mentira”. O poder do sistema não vem da sua verdade, mas da disposição de todos a representá-lo como se fosse verdade. E a sua fragilidade vem da mesma fonte: quando uma pessoa, uma pessoa que seja, deixa de representar, quando o vendedor de hortaliças retira o seu cartaz, a ilusão começa a quebrar-se.

Está na altura de empresas, países, retirarem os seus cartazes.

Durante décadas, países como o Canadá prosperaram sob aquilo a que chamávamos ordem internacional baseada em regras. Aderimos às suas instituições, elogiámos os seus princípios e beneficiámos da sua previsibilidade. Pudemos implantar políticas externas sob a proteção destas regras.

Sabíamos que a história desta ordem internacional era parcialmente falsa. Que os mais fortes se eximiriam quando lhes fosse conveniente. Que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E que o direito internacional se aplicava com rigor variado, dependendo da identidade do acusado ou da vítima.

Esta ficção foi útil, e a hegemonia americana, em particular, ajudou-nos a ter acesso a rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva, e apoiou organismos que se ocupariam da resolução de conflitos. E foi por isso que colocámos o cartaz na montra. Participámos nos rituais. E evitámos, em boa parte, apontar as lacunas entre retórica e realidade.

Este acordo já não funciona. Deixem-me ser direto: estamos a meio de uma rutura, não de uma transição. Nas últimas duas décadas, uma série de crises nas finanças, saúde, energia e geopolítica revelou os riscos da integração global.

Mais recentemente, as grandes potências começaram a usar a integração económica como arma: tarifas como vantagem negocial, a infraestrutura financeira como coerção, as cadeias de abastecimento como vulnerabilidades a serem exploradas.

Não se pode “viver dentro da mentira” de benefício mútuo através da integração quando a integração se torna a fonte da vossa subordinação.

As instituições multilaterais de que os poderes médios dependiam — a OMC [Organização Mundial do Comércio], a ONU, a COP [Conferência das Partes] — e a arquitetura de resolução coletiva de problemas estão muito diminuídas.

Como resultado, muitos países estão a tirar as mesmas conclusões, que devem desenvolver maior autonomia estratégica: em energia, alimentação, minerais críticos, nas finanças e cadeias de abastecimento. Este impulso é compreensível. Um país que não pode alimentar-se, abastecer-se ou defender-se a si mesmo tem poucas opções. Quando as regras já não vos protegem, é preciso que se protejam a vocês mesmos.

Mas sejamos realistas sobre o lugar onde isto nos leva: a um mundo de fortalezas, mais pobre, mais frágil e menos sustentável.

E há outra verdade: se as grandes potências abandonarem até a aparência de regras e valores pela busca desimpedida do seu poder e dos seus interesses, os ganhos do “transacionalismo” tornam-se mais difíceis de replicar. As potências hegemónicas não podem retirar lucros eternos das suas relações, e os aliados vão diversificar para se protegerem contra a incerteza: contrair seguros, multiplicar opções. E tudo isto traz de volta a soberania, só que é uma soberania que antes estava ancorada em regras, mas que estará, a partir de agora, cada vez mais ancorada na capacidade de resistir à pressão.

Como disse, esta gestão de risco clássica tem um preço, mas esse custo de autonomia estratégica, de soberania, também pode ser partilhado. Investimentos coletivos em resiliência são mais baratos do que cada a conta de cada um construir a sua própria fortaleza individualmente. Padrões partilhados reduzem a fragmentação, as complementaridades são de soma positiva.

A questão para as potências médias, como o Canadá, não é se devemos adaptar-nos a esta nova realidade. Devemos. A questão é se nos adaptamos simplesmente construindo muros mais altos, ou se podemos fazer algo mais ambicioso. O Canadá esteve entre os primeiros a ouvir o alerta, o que nos levou a modificar fundamentalmente a nossa postura estratégica.

Os canadianos sabem que a antiga e confortável suposição de que a nossa geografia e o nosso sistema de alianças conferiam automaticamente prosperidade e segurança já não é válida.

A nossa nova abordagem assenta no que Alexander Stubb [Presidente da Finlândia] chamou “realismo baseado em valores”, ou, por outras palavras, termos princípios e, ao mesmo tempo, sermos pragmáticos.

Devemos manter o princípio do nosso compromisso com valores fundamentais: soberania e integridade territorial, a proibição do uso da força exceto quando consistente com a Carta da ONU, respeito pelos direitos humanos. E devemos ser pragmáticos ao reconhecermos que o progresso é frequentemente incremental, que os interesses divergem, que nem todos os parceiros partilham os nossos valores. Podemos envolver-nos amplamente, estrategicamente, mas com os olhos abertos. Devemos participar ativamente no mundo com ele é, e não esperar por um mundo como desejamos que seja.

O Canadá está a calibrar as suas relações para que a profundidade das mesmas reflita os seus valores. Estamos a dar mais importância a um envolvimento amplo para maximizar a nossa influência, dada a fluidez da ordem mundial, os riscos que isto representa e o que está em jogo para o que vem a seguir.

Já não estamos dependentes apenas da força dos nossos valores, mas também do valor da nossa força. Estamos a construir essa força em casa.

Desde que o meu Governo tomou posse, cortámos impostos sobre rendimentos, mais-valias e investimento empresarial, removemos todas as barreiras federais ao comércio interprovincial e estamos a acelerar mil milhões de dólares de investimento em energia, inteligência artificial, minerais críticos, novos corredores comerciais e muito mais. Até 2023, vamos duplicar as nossas despesas na Defesa e estamos a fazê-lo de forma a desenvolver as nossas indústrias nacionais.

Estamos também a diversificar no estrangeiro, e recentemente acordámos uma parceria estratégica abrangente com a União Europeia, incluindo a adesão ao SAFE [Ação de Segurança para a Europa], os acordos europeus de aquisição e adjudicação de material de Defesa.

Assinámos outros doze acordos comerciais e de segurança em quatro continentes nos últimos seis meses. Nos últimos dias, concluímos novas parcerias estratégicas com a China e o Catar. Estamos a negociar pactos de comércio livre com a Índia, a ASEAN, a Tailândia, as Filipinas e o Mercosul.

Para ajudar a resolver problemas globais, estamos a prosseguir geometria variável: diferentes coligações para diferentes questões, baseadas em valores e interesses.

Na Ucrânia, somos um membro central da Coligação de Vontades e um dos maiores contribuintes per capita para a defesa e segurança do país.

Sobre a soberania do Ártico, estamos firmemente ao lado da Gronelândia e da Dinamarca e demos pleno apoio ao seu direito de determinar o futuro da Gronelândia. O nosso compromisso com o Artigo 5º é inabalável.

Estamos a trabalhar com os nossos aliados da NATO (incluindo os Nórdicos-Bálticos) para robustecer ainda mais os flancos norte e oeste da aliança, incluindo através dos investimentos sem precedentes em radares de longo alcance, submarinos, aeronaves e tropas no terreno. O Canadá opõe-se fortemente a impostos alfandegários sobre a Gronelândia e apela a conversações focadas em alcançar os nossos objetivos partilhados de segurança e prosperidade para o Ártico.

No comércio plurilateral, estamos a liderar esforços para construir uma ponte entre a Parceria Transpacífica e a União Europeia, criando um novo bloco comercial de 1500 milhões de pessoas.

Nos minerais essenciais, estamos a formar grupos de compradores, ancorados no G7, para que o mundo possa diversificar-se da oferta concentrada.

Na inteligência artificial, estamos a cooperar com democracias para garantir que não seremos forçados a escolher entre empresas hegemónicos e hiperescaladores [fornecedor gere grandes redes de centros de dados, projetados para suportar computação, redes e armazenamento].

Isto não é multilateralismo ingénuo, nem é depender de instituições diminuídas, é construir as coligações que funcionam, questão por questão, com parceiros que partilham terreno comum suficiente para agirem em conjunto. Nalguns casos, será a grande maioria das nações. E é criar um teia densa de ligações através do comércio, investimento, cultura, nas quais nos podemos apoiar para futuros desafios e oportunidades.

As potências médias devem agir em conjunto, porque se não estão à mesa, estão no menu.

As grandes potências podem dar-se ao luxo de agir sozinhas. Têm mercado, capacidade militar, alavancagem para ditar termos. As potências médias não. Mas quando apenas negociamos bilateralmente com uma potência hegemónica, negociamos a partir da fraqueza. Aceitamos o que nos é oferecido. Competimos uns com os outros para sermos os que mais acomodam as suas exigências.

Isto não é soberania. É a representação de soberania enquanto se aceita a subordinação.

Num mundo de rivalidade entre grandes potências, os países no meio têm uma escolha: competir uns com os outros para cair “nas graças” ou unirem-se para criar um terceiro caminho, com impacto.

Não devemos permitir que a ascensão do poder nos cegue para o facto de que o poder da legitimidade, integridade e regras permanecerá forte se escolhermos exercê-lo em conjunto.

O que me traz de volta a Havel.

O que significaria para as potências médias “viver na verdade”?

Significa dizer as coisas como são na realidade. Parem de invocar a “ordem internacional baseada em regras” como se ainda funcionasse conforme anunciado. Chamem ao sistema o que ele é: um período de intensificação de rivalidade entre grandes potências, onde os mais poderosos prosseguem os seus interesses usando a integração económica como arma de coerção.

Significa agir consistentemente. Aplicar os mesmos padrões a aliados e rivais. Quando os poderes médios criticam a intimidação económica quando vem de um lado mas ficam em silêncio quando vem de outro, estamos a manter o cartaz na montra.

Significa construir aquilo em que alegamos acreditar. Em vez de esperar que a velha ordem seja restaurada, criar instituições e acordos que funcionem conforme o que fica escrito.

E significa reduzir a alavancagem que abre espaço à coerção. Construir uma economia doméstica forte deve ser sempre a prioridade de cada governo. A diversificação internacional não é apenas prudência económica; é a fundação material para uma política externa honesta. Os países ganham o direito a posições de princípio ao reduzirem a sua vulnerabilidade a retaliações.

O Canadá tem o que o mundo quer. Somos uma superpotência energética, temos vastas reservas de minerais, temos a população mais instruída do mundo. Os nossos fundos de pensões estão entre os maiores e mais sofisticados investidores do mundo. Temos capital, talento e um Governo com imensa capacidade fiscal para agir decisivamente. E temos os valores aos quais muitos outros aspiram.

O Canadá é uma sociedade plural que funciona, a nossa praça pública é barulhenta, diversa e livre. Os canadianos mantêm-se comprometidos com a sustentabilidade.

Somos um parceiro estável e fiável, num mundo que é tudo menos isso, um parceiro que constrói e valoriza relações a longo prazo.

O Canadá tem algo mais: reconhecemos o que está a acontecer e estamos determinados a agir em conformidade.

Compreendemos que esta rutura exige mais do que adaptação, exige honestidade sobre o mundo como ele é.

Estamos a retirar o cartaz da montra.

A velha ordem não vai voltar. Não devemos lamentá-la. Nostalgia não é uma estratégia. Mas a partir da fratura, podemos construir algo melhor, mais forte e mais justo. Esta é a tarefa dos poderes médios, que têm mais a perder com um mundo de fortalezas e mais a ganhar com um mundo de cooperação genuína.

Os poderosos têm o seu poder. Mas nós também temos algo, a capacidade de parar de fingir, de dizer as coisas como são, de construir a nossa força em nossa casa e de agir em conjunto.

Esse é o caminho do Canadá. Escolhemo-lo aberta e confiantemente.

E é um caminho amplamente aberto a qualquer país disposto a trilhá-lo connosco.

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Abaixo o vídeo. Não é exactamente o discurso integral pois falta a introdução, em francês, mas, enfim, está aqui mesmo quase tudo.

In full: Canadian Prime Minister Mark Carney's speech at the World Economic Forum in Davos

sábado, janeiro 04, 2020

Sobre a importância das férias dos primeiros-ministros na resolução dos incêndios ou das suas consequências.
Sobre a compreensão dos efeitos das alterações climáticas.
Sobre os principais riscos a nível global, segundo o The Global Risks Report 2019 do World Economic Forum


Escrevo aqui há muito tempo e tenho ideia que, excepto na noite em que estive internada na sequência de uma cirurgia e foi porque estava sedada, sempre aqui vim. Umas vezes venho porque tenho alguma coisa para dizer, outras porque me apetece descansar a cabeça e escrever descansa-me, outras venho para me divertir, outras para espairecer, outras, mais esporadicamente, porque me dá para ficcionar e, enquanto ando numa de folhetinar, não sossego enquanto não deixo os personagens usarem da vida própria que adquiriram.

Como é óbvio, no decurso desses anos, já sofri inquietações diversas, algumas por razões colectivas e outras por razões muito pessoais. Tenho passado por situações muito complexas e tristes, tenho perdido familiares muito queridos e amigos próximos.

Mesmo em dias de grande aflição, eu vim aqui e, nesses dias, falei de outras coisas, podendo até ter esparvoado, gozado com palermices. 

Mesmo a nível profissional já passei por situações complicadas, situações de incerteza, situações de grandes alterações que me inquietaram ou de decisões bem difíceis de tomar. E quando aqui vinha escrever não era disso que falava mas de coisas que nada tinham a ver.

Sempre penso que, haja o que houver, a vida continua e que o melhor a fazer é seguir em frente, se possível de cabeça fresca para melhor enfrentar as dificuldades e as angústias.

Mesmo quando acontece uma infelicidade à qual temos que dar todo o nosso apoio e em que contam com a nossa entrega, o melhor é que não nos deixemos afundar na angústia pois isso a ninguém aproveitaria.

No meu trabalho creio que nunca ninguém percebe se tenho preocupações familiares ou outras nem se tenho problemas profissionais que não vêm ao caso. Podem estar a acontecer crises num sector e eu continuo a lidar nos outros como se nada acontecesse. E acho que é assim que deve ser. Bola para a frente. A vida continua e é bom que continue com a normalidade possível.

Mas isso é a minha maneira de ser. E sou eu a pensar. Mas há quem pense o contrário.

Perante uma situação difícil há quem meça os actos dos outros pela exibição do luto continuado, pela ladainha. Mas exibições de luto ou públicas ladaínhas são de pouca utilidade quando o que é preciso é acção e, além disso, cada um reage como é de sua natureza reagir. Mais: se é importante que a pessoa esteja tranquila para que mantenha a cabeça no lugar para todas as outras decisões que tem que tomar no seu dia a dia, então, é mesmo importante que não se deixe enterrar nos problemas.

Diferente é quando a pessoa, perante desgraças que acontecem e por cuja resolução ou mitigação é responsável, em plena crise, por motivos fúteis, se ausente do cenário de horror e, ao regressar, em vez de dar mostras de perceber as causas dos problemas ou de relacionar as consequências com as causas, mostre ignorar que são as suas políticas que propiciam o desencadeamento das dramáticas crises a que se assiste.

À frente de um país não temos que ter super-homens. Não precisamos de quem não necessite de descansar ou de estar com a família de quando em vez. Necessitamos, isso sim, de pessoas inteligentes, que se saibam rodear de gente bem informada, gente com capacidade de decisão e visão de longo prazo. 

Trumps, Bolsonaros, Scott Morrissons ou outros governantes que teimam em negar a gravidade das alterações climáticas ou se recusam a perceber que as suas políticas económicas, que ignoram os efeitos ambientais, são um perigo para a humanidade. Mas quem os apoia e, com o seu apoio, os mantém em funções, está ao mesmo nível. Ou quem não percebe que isso é o mais grave, que isso é que é o verdadeiramente imperdoável e não tanto o terem tirado uns dias de férias com a família ou não os termos vistos aos abraços e beijinhos no meio dos despojos ou dos carros dos bombeiros. 

Transcrevo para se ter uma ideia do que é grave (e, note-se, como também é relevante que se façam sondagens ou estudos de opinião para conhecer o pensamento ou o sentimento da população):
Polls show a large majority of Australians view climate change as an urgent threat and want stronger government action to combat it. The catastrophic fire conditions have put an intense focus on the Australian government’s failure to reduce emissions of carbon dioxide, which traps heat when released into the atmosphere and contributes to global warming. Prime Minister Scott Morrison, a conservative, has made it clear that Australia’s economic prosperity comes first. Even as his country burned, he has said repeatedly that it is not the time to discuss climate policy.
Do mesmo artigo transcrevo ainda mais, uma coisa um bocado do além (sendo certo que são aves que sabem imitar sons):

According to the Guardian, the birds have learned to imitate the fire sirens. (...)


Australia is not a preview. It is not a glimpse of the future. It is not a cautionary tale. Australia is a climate disaster, ongoing and in real time. The future, in Australia, is now. (...)
The nature and scale of this bushfire season in Australia is unprecedented. Scientists have cited the lack of moisture in the landscape – following years of drought – as a key reason the fires have been so severe. Intense heat, dry conditions and strong winds have created conditions where the fire risk is considered extreme or catastrophic. (...)
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Em Davos discutem-se anualmente os temas mais relevantes, os emergentes, os que causarão impacto no mundo. Em Davos percebe-se quais as preocupações do mundo, endereçam-se possíveis soluções  ou redireccionam-se tendências.
The World Economic Forum Annual Meeting in Davos-Klosters convenes world leaders to discuss the global, regional and industry agendas at the beginning of each year. The World Economic Forum's mission is to improve the state of the world, which has driven the design and development of the Annual Meeting objectives.
Participants come together at the Annual Meeting to address the most pressing issues on the global agenda. They do so in an exceptional atmosphere and in the “Spirit of Davos”, featuring interdisciplinary, informal and direct interaction among peers.
Partilho convosco o que, no início de 2019, foi identificado como sendo os riscos mais graves a nível global. O gráfico mostra, no eixo vertical, a gravidade do impacto e, a nível horizontal, a probabilidade de ocorrência. Portanto, no canto superior direito teremos os piores riscos, aqueles que terão o maior impacto e os mais prováveis de acontecer. E o que vemos é que os piores dos piores são as ocorrências extremas a nível climático, os desastres naturais e o nosso falhanço na mitigação ou adaptação às alterações climáticas. A seguir a estes riscos extremos, e sem surpresa, seguem-se os relacionados com a cibersegurança.

A imagem não é a melhor possível mas talvez dê para perceber.



Seguidamente mostro partes de um quadro único que mostra a evolução dos top risks (top em termos de probabilidade de acontecerem e de gravidade de impacto), ao longo dos anos, desde 2009 até agora. Como o quadro, para caber aqui todo, ficaria muito pequenino e mal se veria, coloco apenas os três primeiros anos analisados (2009, 2010 e 2011) e os três últimos (2017, 2018 e 2019).

E o interessante é ver-se como, no decorrer dos anos, mudam os riscos globais, ou seja, os riscos percepcionados para o mundo. Se no início os riscos eram sobretudo de cariz financeiro (estava-se a entrar no pico da crise financeira mundial), agora os grandes riscos têm sobretudo a ver com a severidade dos efeitos das alterações climáticas (fenómenos extremos, desastres naturais, incapacidade em lidar com isso) seguidos dos riscos de roubos e fraudes através de ciberataques.

Os primeiros anos:


E os anos mais recentes:




Deixo aqui o link para o The Global Risks Report 2019, É um documento bastante interessante e, em minha opinião, a comunicação social em vez de dar ênfase a intrigas e coscuvilhices sem qualquer relevância e que distorcem o foco dos assuntos e manipulam as emoções das pessoas, melhor faria em acompanhar temas que, esses sim, pela sua probabilidade de ocorrência, pelo seu impacto ou pela sua real importância na vida das pessoas, deveriam ser discutidos e conhecidos por todos.

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Talvez considerem que o vídeo abaixo não vem muito a propósito mas quem não acha muita piada a gráficos talvez aprecie. Bach. Quem lhes acha graça espero que também.


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As fotografias que usei provêm do The Guardian

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Desejo-vos um bom sábado