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domingo, dezembro 12, 2021

Novas do pequeno urso peludo

 


Ora bem. Falemos, então, do pequeno urso peludo. Está maior, claro, mas maior está também a exuberante vivacidade e a irreprimível teimosia. 

A literatura diz que são cães excepcionalmente inteligentes e, de facto, este assim é. Aprende tudo num instante. Pergunta-se: queres um biscoitinho? Ou: queres um ossinho? E ele, de imediato, dando ao rabinho, vem de onde estiver para a cozinha, para junto do móvel onde estão os pacotinhos de guloseimas. Ou: onde está a bolinha? E ele de imediato vai à procura e aparece com ela. Ou: onde é que está o pau? E aí vai ele à procura do pau. Dizer-lhe: Anda, vem e ele vir já nos parece normal. Ou: escuta... será o dono? E aí vai ele para junto da porta da rua. Senta, dá a patinha -- isso é de caras.

Quando começa a pôr-se de pé, agarrado a mim, quase me impedindo de andar, ou a saltar para o sofá onde estou para se pôr de pé agarrado a mim e tentar arrancar-me o elástico do cabelo -- e, pelo meio, arranhar-me toda ou dar-me cabo da roupa (dado que tem umas unhas afiadas) --, por vezes obedece à ordem: 'Chão!'; mas, se está endiabrado, vai para o chão e, acto contínuo, salta e repete as maluquices. Mas, se me levanto ou me viro com alguma brusquidão e digo: 'Mas tu queres ver...?!', ele aí percebe que a coisa pode ser a sério e põe-se logo sossegado. (Mas pode ser sol de pouca dura.)

A minha roupa de malha está cheia de pegões. As minhas meias estão cheias de buraquinhos pois, volta e meia, dá-lhe daquelas raivinhas malucas que o levam a querer arrancar-me as meias.

Na cozinha, volta e meia, quando estou a servir os pratos ou a preparar a comida, põe-se de pé, as patinhas da frente sobre a bancada. A nossa querida boxer nunca fez nada disto. Nunca, nunca. Este anda assim, de pé, de um lado para o outro, entusiasmado com os cheiros. Se tento tirá-lo com a mão, rosna, mostra-me os dentes. O que faço é sair da cozinha e fechar-lhe a porta ou, se for à noite, faço o mesmo e apago a luz. A seguir, entro e já está no chão, deitado ao comprido, ar infeliz. 

Aprendi que agressividade desencadeia mais agressividade. Procurar comida ou ser territorial, aprendi, faz parte do instinto básico dos cães. Temos que saber lidar com eles, mostrando-lhe que não temos medo e que aquelas atitudes não levam a lado nenhum. Indiferença ou um castigo que os deixe tristes, é o que parece resultar melhor.

Quando, lá fora, enfio na mão a alça com a escova e lhe digo: Põe as patinhas aqui, vamos pentear, ele põe-se de pé, patinhas no assento de uma cadeira, de costas para mim. Penteio-o nas calmas, todo em volta, como quero, e ele ali fica, de gosto. De vez em quando é tranquilo, sossegado, obediente.

Mas desencanta o que calha -- vasinhos pequenos, restos de esfregão que sobraram de umas obras, parafusos, plásticos ou papéis seja do que for -- e leva para onde possa estar a brincar ou a comer.

No outro dia comeu um bocado de cogumelo e hoje repetiu a proeza. Parece que percebe que não queremos que vá para ali e, teimoso como uma mula, é mesmo para ali que quer ir. No primeiro dia em que isso aconteceu, foi no campo, era um cogumelo redondo, castanho, quase parecia uma batata. Hoje foi um daqueles cogumelos brancos grandes. Fico passada, preocupada. No outro dia, liguei logo para a veterinária. Disse-me que a reacção, se houvesse, ocorreria no prazo de meia a uma hora e ficaria prostrado, a babar-se muito ou com vómitos. Se acontecesse, teríamos que ir de imediato para o veterinário mais próximo. Felizmente, nem no outro dia nem hoje houve problema. Mas, quando anda lá fora, anda sempre a comer coisas, nem nós sabemos o quê. Nas ocasiões em que desenterra ou descobre uma porcaria para comer, se tentamos tirar-lha da boca, rosna e tenta morder. Tem que ser na calminha e tentando desviar-lhe a atenção. Se não for assim, não apenas ensaia de ficar agressivo como engole, rapidamente, o que tem na boca.

Adora que, lá fora, brinquemos com ele. Por exemplo, atiro o pau e digo: 'Busca, busca'. Quando o apanha, digo: 'Ai, ai, ai... vou-te apanhar'. E ele desata a correr a uma velocidade maluca, em círculo. Parece um cão-flecha. E eu finjo que quero apanhá-lo. Tentamos fazer isso uma ou duas vezes por dia, no mínimo um quarto de hora intenso de cada vez, para ver se se cansa um pouco pois também aprendemos que cão cansado é cão feliz. Pelo menos, esperamos que, quando tem o pico de energia à noite, não roa fios eléctricos, não lamba tomadas, não tente tirar todas as almofadas de cima dos sofás, não tente roer os cantos dos sofás, não nos salte mil vezes para cima, não nos desafie descaradamente. Pelo menos, não durante muito tempo...

Quando estou com ele no jardim e quero regressar a casa, vem a correr e agarra-se a mim para me impedir de andar, ou vai a correr ainda mais depressa e fica à porta a tentar barrar-me a passagem.

Por vezes, vejo-me grega para conseguir distrai-lo e conseguir entrar em casa. Esperto como é, quando percebe que quero acabar com a brincadeira e voltar para casa, já não se deixa enganar de maneira nenhuma.

Quando íamos no carro, eu ia no banco de trás para impedi-lo de cair e de tentar que fosse para o banco da frente. No outro dia, quando fomos a casa da minha mãe, pusemos a caminha dele no porta-bagagens e ele que, por acaso, estava com sono deixou-se ficar e a coisa correu bem. Ficámos todos contentes. Finalmente eu poderia regressar ao banco da frente.

Mas foram foguetes atirados antes de tempo.

No dia seguinte, repetimos convencidos que já já era um dado assumido que passaria a andar no porta-bagagens. Passado um bocado, estava de pé no porta-bagagens a espreitar por cima do banco. Nós, do banco da frente, íamo-nos zangando. Está bem, abelha. Passado um bocado estava a tentar saltar. Instantes depois, tinha mergulhado e já estava de pé, entre os bancos da frente. Estávamos na autoestrada pelo que eu pouco podia fazer. Por fim, estava ao colo do meu marido. Imagine-se o perigo.

Lembrei-me, então, que havia uma rede para se pôr entre o porta-bagagem e o banco de trás, para suster carga e evitar que os animais se evadissem. O meu marido lá andou a ver como é que aquilo se montava. Portanto, na terça-feira passada, ao irmos à hora de almoço até ao campo, lá foi no porta-bagagens, isolado da comunidade humana pela dita rede. Parecia a solução ideal.

Uma vez mais, estávamos a animar-nos antes de tempo.

Pouco depois, já ele estava de pé, no porta-bagagens, a espreitar pelo canto da rede. O carro é abaulado dos lados pelo que a rede não vai completamente até aos extremos. Contudo, parecia-nos impossível que conseguisse passar por ali ou ganhar balanço para trepar e enfiar-se pela alta e estreitíssima abertura. Mas, pela persistência do bicho, começámos logo a prever o pior. Passado um bocado, estava no ar, na prática entalado num dos cantos, entre a extremidade do carro e a rede. Tínhamos o banco de trás atafulhado com rolos de rede para o meu marido colocar no gradeamento para evitar que se escapulisse por entre as grades. O espaço  é estreito mas se os cães do vizinho conseguem lá entrar, também ele conseguiria sair. Bom. O que sei é que no momento seguinte estava a surfar os rolos de rede, todo desequilibrado, até que veio pôr-se, outra vez de pé, entre os bancos da frente. Resultado: o meu marido parou na estação de serviço, os rolos de rede foram, a custo, para o porta-bagagem e eu regressei ao banco de trás. 

A diferença é que agora vai de trela para eu o puxar de cada vez que quer ir para o colo do dono, certamente para também ir a conduzir. Vamos ver se arranjamos um apetrecho para o prender ao cinto de segurança.

Lá, no campo, quando o meu marido estava do lado de fora da vedação, na estrada, a pôr a rede pois, por dentro, com os arbustos, era difícil, quando olhou para o lado, já lá estava ele, na estrada. Tinha-se escapado por entre o gradeamento. Em quase treze anos nunca a nossa boxer tinha feito aquilo. Nem aquilo nem nada que se parecesse.

E, no entanto, é, ao mesmo tempo a coisa mais querida, a melhor companhia, a coisa mais fofa. Ainda este sábado passeámos na Expo, andou pela trela conduzido pelos meninos, esteve sentado com eles, eles abraçados e fazendo-lhe tudo e mais alguma coisa e ele o maior paz de alma. Obediente, calmíssimo, uma doçura. 

Portanto, é ele que vai crescendo e adaptando a sua personalidade independente e campestre à nossa e somos nós que nos vamos adaptando ao seu temperamento vivo, amigo da liberdade e, não fosse ele um cão-pastor, sempre com vontade de ser ele a conduzir-nos. Um processo de aprendizagem mútua.


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E é isto. Não vos maço mais. Poderia ainda falar das franjas dos meus tapetes que ele faz de tudo para tentar arrancar ou podia falar do tapete de uma das casas de banho que volta e meia aparece na sala, do chinelo de quarto do meu marido que aparece no jardim, das bases para copos que apareceram debaixo da mesa, de como adora a bolinha colorida com um guizo no interior, presente da menininha mais linda a quem ele obedece quando ela se impõe e com quem fica dócil como um cachorrinho fofo quando ela se senta ao seu lado... ou de tantas outras coisas. 

Tem agora quatro meses e meio e há cerca de dois meses e meio que vive connosco, vindo, pele e osso, de um monte do Alto Alentejo. Espera-se que, à medida que cresce, ganhe juízo e aprenda a comportar-se e a acatar docilmente os limites que queremos impor-lhe. Mas, apesar de tantas vezes nos tirar do sério, uma coisa é certa: já é um membro querido da nossa família.

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Desejo-vos um feliz dia de domingo

quarta-feira, março 24, 2021

As cartas estão de volta?
Quem me dera que sim... Gosto tanto de cartas

 


Ao fim do dia, tivemos que ir à cidade. Havia comida feita para o jantar. Contudo, o meu marido lembrou-se que os meninos adoram pizza e sugeriu que encomendássemos duas para, no regresso, as irmos buscar. São feitas em forno de lenha, óptimas. Pedimos duas das familiares, gigantes: uma à base de salmão, outra de frango. Mas não lhes dissemos nada. Chegámos e caladinhos. Foram tomar banho e nós nada. O mais novo já lavado, o mais velho ainda a banhos, e as pizzas a serem aquecidas no forno. E, então, deu-lhe o cheiro. Entrou na cozinha, viu o forno aceso, espreitou e... nem queria acreditar, ficou sem palavras. Quando assimilou que eram mesmo pizzas, saiu a correr, entrou na casa de banho e gritou: 'Pizzas!'. O irmão passou-se, não gosta de ser visto em pelota. O mais novo regressou dando pinotes, doido de alegria. Passado um bocado chegou o outro, para confirmar. Parecia que tinham ganho a lotaria.

E foi a alegria: comeram, comeram, comeram. Deliciados. E nós deliciados por vermos a alegria que a surpresa lhes causou. Não é preciso muito para uma criança se sentir feliz. Nem é preciso muito para nos sentirmos felizes: basta sentirmos que estamos a fazer as crianças felizes.

Continuo com muito trabalho pelo que não consigo estar com eles muito tempo. Mas o mais crescido também ainda está com aulas, também não tem muito tempo e o que tem é para estudar pois está com testes. Mas o tempo que estou com eles é uma bênção.

A nível pessoal vão surgindo situações que têm que ser equacionadas e decididas e isso, por vezes, cansa. Sinto, por vezes, que me apetecia que não houvesse nada a resolver, que a vida fosse mais simples. A nível profissional também é sempre a mesma agitação, a mesma canseira. Também me apetecia que, por vezes, não me pusessem problemas para resolver nem que não me caíssem em cima situações das quais não posso fugir. Mas a vida é assim mesmo. As coisas vêm ter connosco e não podemos virar as costas a tudo: algumas vezes temos mesmo que enfrentá-las de frente. Pior ainda quando nos desafiam com carácter de urgência. Eu a querer desviar a cabeça para temas mais interessantes ou para resolver assuntos pessoais e as coisas a aparecerem para ontem. No meio disto apareceu o mapa das férias. Todos temos que marcar as nossas férias. Sei lá quando posso ter férias. O meu marido também. Lá preenchemos aquilo. Mas as férias, agora, parecem coisa hipotética. Sabe-se lá como estão as coisas nessa altura, sabe-se lá que espécie de férias vamos poder ter. 

No meio disto, uma vez mais afastada de notícias, sem saber se o sol ainda é uma bolinha remota cheia de pisca-pisca amarelos e se a terra é um pequeno ponto azul perdido no universo, leio que as cartas estão de volta. Cartas em papel, quero eu dizer. E se eu gosto de cartas. Como gostaria de receber cartas. Claro que bom seria recebê-las em papel, folhas dobradas dentro de um envelope entregue pelo Carteiro. Mas já não vou tão longe: já me derreteria se a recebesse por mail. Cartas de desconhecidos, cartas de alguém que nos fala da sua vida e a quem nós depois respondemos, amizade límpida, transparente, confiança total. Não sei se isso é possível na net. Gostava que fosse. É tão bom a gente fazer o que gosta sem ter medo de ser enganada ou de se desiludir.

A quem tiver disponibilidade e se ajeite com a língua (metaforicamente falando, claro) recomendo a leitura: 

'A letter tells someone they still matter': the sudden, surprising return of the pen pal 

[In the pandemic, many have rediscovered the sheer pleasure of writing to strangers, with new schemes spreading hope and connection around the world (...)]

As fotografias provêm da selecção das melhores da Tokyo International Foto Awards e aparecem na companhia de James Taylor & Yo-Yo Ma que interpretam Here Comes the Sun

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E porque receio que achem que o post não mereceu a visita e me venham pedir de volta o dinheiro do bilhete, aqui vos deixo um vídeo que é uma graça. Melhor: um vídeo com um senhor que é uma graça. 70 anos. E se ele consegue fazer isto porque não haveriam vocês também de conseguir? Não me dizem?

70多岁大爷和美女组合跳鬼步舞,舞步动感灵活不输年轻人


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Um dia feliz

terça-feira, fevereiro 09, 2021

Ele todo na levezinha e ela nas profundidades. E eu aqui.

 



Devo dizer que o dia de hoje foi mais simpático. 

No entanto, acordei cedo demais. O meu marido, que é madrugador, acordou antes de tempo e, desta vez, sem querer (acho eu que foi sem querer...) acordou-me. Tentei adormecer mas comecei a pensar no que tinha que fazer durante o dia. Fui ficando mais desperta. Depois ouvi uma chuvada das valentes. Era de tal ordem que tive dúvidas de que fosse mesmo chuva. Nessa altura já o meu marido tinha saído para a sua caminhada pré-matinal. Quando estava a tentar adormecer, uma mensagem. Não é normal receber mensagens tão cedo. Era uma mensagem de voz no whatsapp. Uma voz simpática, num tom saltitante, dava-me conta de que tinha o trabalho quase feito e que contava enviar-me entre hoje e amanhã. Fiquei estupefacta. Pela cabeça de quem é que passa acordar uma pessoa àquela hora para dizer uma coisa que poderia ser dita uma ou duas horas depois? Voltei-me para o lado a pensar que há gente que parece que vive noutro fuso horário. Mas, pronto, a voz simpática atenuou a contrariedade. Penso que até devo ter sorrido.

Com isto, decidi levantar-me. Mas pensei que ia andar o dia todo cheia de sono. Afinal, por acaso, não. Estive na boa. O tempo levantou um pouco. Quando fomos fazer a nossa caminhada da hora de almoço até o sol espreitava. E ver o sol traz-me ânimo novo. Despi o casaco e subi as mangas da blusa. Gostei, parece que tinha avistado um mundo novo.

Ao fim da tarde, antes que ficasse noite, convenci-o a vir dar uma volta pelo lado de lá, por fora, pela orla das hortas. Não queria, que era tarde, que não tinha grande jeito andar por ali àquela hora, que esta mania minha de me meter pela penumbra adentro.... Claro que não disse assim, penumbra adentro. É muito pão-pão, queijo-queijo, ele. Linguagem a atirar para o poético não é com ele. Mas estava mesmo a apetecer-me apanhar ar, respirar o tempo que está para chegar. 

Como é óbvio, a grande maioria dos vizinhos não tem horta coisa nenhuma. Mas, surpreendentemente, surpreendentemente mesmo, vimos uma capoeira. Galinhas, galos. Parecia que estava no campo. Uma coisa do além... Chamei o meu marido. Não se empolgou. Eu sim. Quase não estava a acreditar no que estava a ver. Parece que ainda nem estou bem em mim. Qualquer dia, ainda acordo com um galo a cantar. Seria a maravilha das maravilhas.

Entretanto, recebi uma chamada. E, enquanto estava concentrada ao telefone, ouvi um sonoro, 'Boa tarde!'. Espantada, olhei. Era uma vizinha na sua varanda, lá ao longe, acenando com o braço. O meu marido retribuiu também sonoramente. Quando acabei a chamada perguntei quem era, se conhecia. Que não, claro, que aqui é isto, se ainda não aprendi que aqui as pessoas cumprimentam-se sempre. E é. Volta e meia, distraída como sou, quando me cruzo com alguém e ouço um bom dia, olho admirada pensando ser alguém conhecido. Mas não, desconhecido. Também há uma coisa: como sou míope, nunca vejo bem as pessoas. Não vejo ou não presto atenção, não sei. No outro dia, ao passarmos por uma casa, o meu marido disse que era ali que morava aquele casal com que às vezes nos cruzamos. Não sei de quem fala. Ele diz que não se admira, que ando sempre noutra. 

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Tenho ainda a dizer que, entretanto, enquanto estava aqui a escrever, recebi um mail de uma pessoa que me dizia que tinha urgência em falar comigo. Obviamente, atendi a urgência. E foi um longo telefonema do qual se pode dizer que de um arco emocional se tratou. Começou por me falar de uma pessoa que morreu, meia idade, saudável, em duas semanas foi-se. O abalo, a tristeza, o espanto. Como foi possível? Estava positivo mas pensava que estava bem, uma febre apenas, nada de mais. Afinal estava sem oxigénio e sem dar por nada. Ou seja, afinal estava quase a morrer. Daí, do desconcerto do que é esta maldita covid, passou para as hostilidades com um colega, a ponto de quase terem andado à pancada. Descreveu as zangas, as deslealdades, a arrogância do outro. Essa a verdadeira razão da urgência. Depois passou para a sua vida, para as suas dúvidas, para as suas convicções. Depois, nem sei como, para a risota. Por fim, acabámos combinando uma estratégia. 

Quando acabei, escrevi um mail como tínhamos combinado pois o desenrolar da estratégia requer mais um a bordo.

Agora cá estou, de novo. 

E só para verem como eu sou, uma maria desmiolada, ouçam agora esta. Tinha visto dois vídeos e tinha pensado partilhá-los convosco. Gosto de entrevistas, ao vivo, em vídeo ou por escrito. Desta vez, duas pessoas tão diferentes uma da outra. Tom Jobim, boa onda, leve, leveza, alegria e suavidade. E Clarice Lispector, toda coisa de dentro, insondável, espanto, intensidade contida, uma vida para além do compreensível. Estou em crer que o da Clarice Lispector já aqui o partilhei uma vez. Mas acho-o tão fantástico que me apetece aqui tê-lo de novo. É bom escutar o que pessoas assim têm para dizer mesmo que não seja nada de mais, mesmo que seja apenas o que, naquele instante, lhes ocorreu ou apeteceu dizer.

E a minha ideia era falar sobre o que eles dizem e ir intercalando com as fotografias que fiz enquanto olhava a lareira que me aqueceu a tarde. Mas agora já não faz sentido. Fico-me por aqui mas vocês podem ficar com eles. Está bem?


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Fotografias de Paolo Roversi da série Birds na companhia de Yo-Yo Ma e James Taylor

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E tenham, V.Exas, um dia feliz

quinta-feira, fevereiro 14, 2019

Sobre não sei bem o quê




Num inquérito a que me foi pedido para responder sobre uma outra pessoa (volta e meia é isto, passamos a vida a avaliar-nos uns aos outros ou a nós próprios, não há pachorra), a primeira pergunta indispôs-me logo: como é que a pessoa em apreço comparava com outras com quem eu tenha já trabalhado. E vá de classificá-lo. Desisti logo ali e participei que não ia responder. Aqui d'el rei. Tem que ser senão vai dar que falar, especular-se-á porque não o faz, pode até prejudicar a pessoa em causa. Informei que não gosto destes inquéritos, prefiro dizer o que tenho a dizer cara a cara. Mas pensa assim tão mal?, perguntou-me a pessoa em causa. Disse que já trabalhei com pessoas extraordinárias. Ele percebeu que não o acho extraordinário. Acrescentei que também com gente imprestável. Talvez tenha ficado mais aliviado.

Amanhã vou esforçar-me. Também não quero criar um caso nem quero prejudicá-lo. No outro dia, pessoa que muito prezo, uma das pessoas mais francas, intelectualmente honestas e sãs que conheço disse-me dele: é um tipo decente. Concordo. É decente. Se calhar eu é que sou muito exigente. Ou se calhar tive foi o privilégio de conhecer e trabalhar de perto com pessoas ímpares.


Pelo caminho, vim a recordar-me das três pessoas com quem mais aprendi, que considero como dos melhores profissionais, dos mais inteligentes que conheci, verdadeiras mentes brilhantes. Todos eles eram carismáticos, imperfeitos, longe de serem consensuais. Há já algum tempo que não me cruzo profissionalmente com pessoas de tal craveira. Gosto de pasmar perante provas de inteligência alheia, rasgos de coragem, jogadas de risco e, infelizmente, não me acontece faz tempo. É que não eram apenas pessoas com que dava gosto trabalhar: eram também pessoas com quem dava gosto conversar.

Vinha no carro a pensar neles, nesses três homens, tão diferentes entre si mas tão marcantes. Como apanhei muito trânsito pude recordar muitas situações. Tudo tem um lado bom: levar mais de uma hora a fazer um percurso que se faz nas calmas em metade do tempo dá para puxar pela memória, o que pode ser uma coisa boa.


Comecei o dia a ir para um sítio, a meio da manhã fui para outro, antes da hora de almoço para outro, depois de almoço para outro, a meio da tarde para outro e à noite regressei a casa. Nesta brincadeira devo ter feito para cima de uns cento e cinquenta quilómetros. E tanto que tive que fazer pelo meio. Agora estou com vontade de dormir. Praticamente não consegui usar ainda o computador. Estava a descarregar e depois a instalar actualizações, não mexia. Agora, depois de ter passado por todos os passos, quando reiniciou, apareceu-me a dizer que tinha mais actualizações. Perdido por cem, perdido por mil. Disse que sim. Está de novo a pisar ovos, a descarregar cenas. É que, com isto, não consigo fazer nada. Ia tentar responder aos comentários mas, de cada vez que carregava num, punha-se branco, a andar à roda. Desisti. Agora vou folheando os dois livros que tenho aqui ao meu lado, lutando para não adormecer, e ele nisto, a descarregar, a instalar, a meditar.


À hora de almoço, no meio do louco rodopio que foi o meu dia, cheia de pressa, deu-me para uma desopilinha, que é como quem diz uma desopilada rapidinha. Entrei na livraria e jurei que era mesmo só para ver livros e ganhar fôlego para o que vinha a seguir, de tarde. Entrei, pois, com aquela superioridade moral tão típica dos não-pecadores. Estava sozinha pelo que não fazia sentido fazer aquele sorrisinho arrogante com que os seres superiores manifestam o seu desdém perante as tentações que vergam os seres inferiores. Não sorri mas avancei de nariz erguido. Só para ver. Vi um com interesse, folheei, pensei: querias..., e segui em frente; mais à frente, um outro -- mas não é qualquer um que verga as minhas boas intenções. Segui. Ia pensando: noutros tempos, ia buscar uma cestinha e era como se fosse aos figos. Mas agora não. Mais um pouco e iria com um rosário nas mãos e punha-me a rezar o terço. E a seguir outro livro. Tão bom. Mas... vade retro. Por pouco não me benzi para puxar a mim os bons espíritos e esconjurar o apelo da tentação.


Até que vi um livro amarelinho, uma tamanhinho jeitosinho, uma capa bonitinha. Chamou por mim, o malandro. Fui ver: 'Escritor fracassado e outros contos'. Gostei. Autor: Roberto Arlt. Nunca tinha ouvido falar em tal pessoa. Tradutor identificado na capa (coisa digna de reparo): Miguel Filipe Mochila. Colecção Pedante. Espreitei e li que a Colecção Pedante nasce de muitas horas de conversas, troca de livros e ideias entre a Livraria Snob e a editora Pé de Mosca. Pareceu-me interessante. A seguir abri do outro lado e li que Roberto Arlt, 'O grande indigno da literatura argentina', nasceu em 1900 em Buenos Aires e morreu em 1942. Li também que o estilo de Arlt é furioso, mesclado, um motor aquecido com os detritos de uma sociedade urbana à beira da ruptura e que [obviamente] foi mal recebido pela crítica. Achei ainda melhor. Peguei nele e achei que até seria falta de educação deixá-lo lá. Condescendi: só este.

De seguida, segui com a mesma indiferença, superior. Vi mais uns quantos com vontade de ceder mas resistindo. A Santa UJM é santa, sempre santa, mesmo rodeada das maiores tentações.

Até que apareceram os 'Gatos Comunicantes'. Pimbas. Capa bonita, um belo tom azul. Correspondência entre Vieira da Silva e Mário Cesariny. Folheei. Gravuras, bilhetinhos, fotografias. E as cartas. Pensei: se calhar já tenho. Mas noutra edição. Será? Não sei. Pensei outra vez: apesar de tudo, há que manter o decoro, um mínimo de boa educação. E trouxe-o. Tal como o amarelinho também este, azulinho, está aqui comigo.


E com isto o tempo vai passando, daqui a nada são duas da matina. Não faz sentido. Vou desligar, vou dormir. Não vou agradecer os comentários -- não vou dizer a todos que me poderia dar para pior; não vou dizer à Luísa B. que fico mesmo contente por sabê-la junto dos seus meninos; nem à Isabel que não se zangue, que isto não tem nada a ver, é tudo na boa; nem vou dizer à Gina que Desavergonhada e Cara-Alegre são os meus nomes do meio pelo que nada a fazer, é mesmo um caso perdido; não vou dizer à Lucília que vinha no carro quando li o comentário e que dei uma boa gargalhada; não vou dizer à Luísa que aquelas florzinhas desenhadas e pintadas são mesmo bonitas e que se habilite ela a fazer parecido que certamente ficarão também mimosas; não vou dizer à Bea que está bem, pronto, se a peça é só utilitária e, de resto, sem graça que mereça prosa, pois, está bem, não falamos mais nisso; nem vou dizer à Janita que espero que o penteado estivesse a preceito quando se viu ao espelho; nem sequer vou dizer ao Francisco que é um valente por ter a coragem de se abeirar de um tal jardim pejado de flores de perdição. Nem vou dizer à JV, essa gloriosa evangelizadora, que, com esse tão grande amor, um dia ainda corro o risco de a ver a fazer parte da direcção ao lado do Vieira...

E como não vou dizer nada disso porque senão não durmo e a noite já não é uma criança e, ainda por cima, vai ser curta porque o dia vai ser longo, fico-me por aqui. E desculpem lá qualquer coisinha.


[O pintor é Carlos Jacanamijoy e o cantor James Taylor e eu desejo-vos um dia feliz]

segunda-feira, abril 13, 2015

Lisboa, a bela - Entre Tanto, no Príncipe Real, e outras lojas na zona do Chiado [3º de 4 posts]




O Príncipe Real para além do seu encantador pequeno jardim, com a magnífica árvore das mil sombras, o relvado em volta do reservatório e as as suas esplanadas, tem belos edifícios magnificamente reabilitados, lojas engraçadas e um ambiente moderno.




Começámos pelo Entretanto e fomos andando por aí abaixo, Bairro Alto, Chiado. Imensa gente, um sol dourado, aquele ambiente buliçoso que me encanta. Este é um percurso que faço desde há muito. Gosto de descer até ao fim da Rua do Alecrim, Cais Sodré, e abeirar-me do rio mas hoje ficámo-nos pelo Chiado, veraneando pelo Largo de S. Carlos, pelas ruazinhas por ali, cheias, cheias de várias línguas, de sol, de vida, de mil mundos.






no Entre Tanto

no Entre Tanto

no Entre Tanto


no Entre Tanto

A Cevicheria

Vista Alegre


Bairro Arte


República das Flores


sexta-feira, novembro 15, 2013

Quem, se eu gritar, me ouvirá entre as legiões de anjos?


Manhã difícil hoje. Há sons que custam ouvir e eu tento afastar-me porque não sou nada forte. O momento em que fecham o caixão é terrível, é o fecho de um ciclo, é o momento em que se encerra o que sobrou do que foi uma vida inteira. É um som seco, madeira contra madeira. Não vejo. Nunca vi. Tento não ouvir. Mas hoje não consegui afastar-me o suficiente pelo que não consegui deixar de ouvir. E fiquei ali, no meio das pessoas, e fui vendo como, tal como a mim, as lágrimas corriam nos rostos à medida que aquele som se ouvia. 

É tudo muito triste. Não quero falar mais nisto.

Depois, de tarde, fui trabalhar e agora aqui estou a tentar abstrair-me e a ver se escrevo coisas animadas. 

Mas, antes, quero agradecer as vossas palavras, quer aqui nos comentários, quer através de mail. As demonstrações de afecto sabem-me sempre muito bem. Gosto de as receber tanto quanto de as oferecer.

Não agradeço individualmente a cada um de vós mas, a todos, meus queridos Leitores, vizinhos da minha rua, aqui deixo o meu muito sincero agradecimento.

Escolhi imagens, palavras, uma música, um momento de dança, tudo para tentar retribuir a generosidade dos vossos abraços e, ao mesmo tempo, retribuir também, um pouco, muito pouco, de todo o imenso carinho que sempre recebi da minha tia.


Tanta terra,
tantas palavras sob tantas palavras.
Regressa como um corpo o coração
à apenas existência,

lembrança de
alguma coisa lida:
o rosto da mãe, a trepadeira do jardim.
Mãe, afastei-me de mais, perdi-me



no meio de palavras minhas e palavras alheias,
quem, se eu gritar, me ouvirá entre as legiões de anjos?
E nem isto me pertence,

a tua ausência e o meu medo;
nem estou na minha ausência,
fui como um vaso e quebrei-me ou qualquer coisa assim.


































..
























The secret of life is enjoying the passage of time

Isn't it a lovely ride
Sliding down
Gliding down
Try not to try too hard
It's just a lovely ride

Now the thing about time is that time
Isn't really real
It's just your point of view
How does it feel for you

**

  • O poema é Tanta Terra de Manuel António Pina in 'Nenhuma palavra e nenhuma lembrança'.
  • O bailado é Romeu e Julieta numa interpretação de Sylvie Guillem numa coreografia de Sir Kenneth MacMillan, sobre música de Sergei Prokofiev
  • A música é 'The Secret of Life' interpretada por JamesTaylor


**

Afinal hoje não escrevo mais. 
Fico-me, pois, por aqui não sem antes vos desejar, meus Caros Leitores, uma boa sexta feira 
(tanto mais que as sextas feiras têm tudo para ser um bom dia)

sexta-feira, setembro 27, 2013

Se eu gosto que pessoas que não conheço ou que mal conheço me tratem por tu...? Eu respondo. E, de caminho, conto algumas coisas a meu respeito. E, para o texto não ficar chato para além da conta, intercalo umas fotografias de Helmut Newton. E acompanho com 'You've got a friend'. Talvez percebam onde é que eu quero chegar com o cocktail que aqui vos deixo.


You've got a friend
(a sério)




Num dos posts anteriores desencadeou-se uma polémica entre Leitores a propósito de me tratarem ou não por tu.

Vou falar disso mas começo por dizer que não vale a pena zangarem-se uns com os outros, muito menos por um motivo destes. Muito gostaria de saber que por aqui, no Um Jeito Manso, toda a gente está numa boa.

Se um dia me saísse o euromilhões gostaria de ter um espaço amplo, luminoso (tendo contudo algumas zonas de sombra para momentos de cumplicidade), quiçá pudesse ser no Ginjal para ter uma maravilhosa vista sobre Lisboa, sobre o Tejo, talvez de onde se vissem também árvores, espaço esse onde se expusessem obras de arte, onde houvesse gente a tocar, a cantar, a dizer poesia, a dançar, onde as pessoas se juntassem para falar de livros, de política, do que lhes apetecesse. Também para provarem iguarias raras, petiscos, simples sandochas. Um espaço de tertúlia e descontracção, onde a beleza e a serenidade habitassem.


Não é exactamente assim que imagino o meu espaço de tertúlia e artes e bem-comer mas, enfim, assim também não seria mau de todo.

As pessoas poderiam exaltar-se, os temas interessantes ou a arte por vezes levam à exaltação. Mas a exaltação não é o mesmo que zanga. Muito gostaria que por lá as pessoas respeitassem sempre as diferenças, que fossem generosas, que soubessem demonstrar estima umas pelas outras.

Enfim, é um sonho que tenho. Mas, enquanto não me sai o euromilhões, espero que este espaço, o Um Jeito Manso, embora virtual, seja um bom sucedâneo.

Mas agora o tema é o do tratamento por tu.

Começo por dizer: ao contrário do que por aqui, ao escrever tanto, poderá até parecer não sou daquelas pessoas tagarelas que falam pelos cotovelos, que metem conversa com toda a gente e, que, ao falar, põem a mão no braços das outras pessoas, coisas assim.


Pelo contrário. Aliás não gosto nem um bocadinho de pessoas dadas a familiaridades, a proximidade física imediata.

As pessoas que me conhecem mal acham que guardo distâncias, dizem depois que se sentiam intimidadas por mim.

De facto, não sou de dar confiança à toa. Trabalho num grupo empresarial onde trabalha muita gente, sempre trabalhei em ambientes assim. E, no entanto, em todo este tempo, apenas tratei por tu duas pessoas. São dois colegas folgazões que tratam por tu toda a gente e de tal forma descontraídos que se marimbaram para as minhas distâncias e começaram a tratar-me por tu, sem me darem hipótese a armar-me em esquisita.

De resto, a toda, toda a gente, mesmo a grandes amigos, trato por você. Aliás no meio em que me movimento habitualmente toda a gente se trata por você.

No entanto, trato os meus filhos por tu e eles também a mim, porque foi assim que começou e assim ficou.

Também há outro aspecto: se começo a tratar uma pessoa de uma determinada maneira dificilmente altero. Não me sai. Não é por nada, é apenas porque parece que essa forma de tratamento fixou fixa na minha cabeça. Por exemplo, se comecei a tratar alguém por Dr. Não-sei-quantos dificilmente deixarei cair o Dr. Tenho imensos casos desses: ao principio havia alguma reverência e o título precedia o nome e depois, apesar de a reverência caído, o título não caíu nem por mais uma.


Geralmente também, no trabalho, quase toda a gente, ao dirigir-se-me, precede o meu nome pelo título. Não sou nada de galões, nada, nada, mas acho que aquele prefixo me dá a segurança de uma barreira. Não sei. O certo é que tenho que reconhecer que se me aparece algum daqueles putos consultores ou auditores que gostam de se armar em íntimos de toda a gente e me tratam só pelo nome, fico incomodada, tão incomodada como se me estivessem a pôr a mão na perna. Não me perguntem porquê porque sei que é ridículo. Mas é a pura verdade.

Recebo, no trabalho, com frequência mails de pessoas que obtiveram o meu contacto e me escrevem mails a apresentar-se e, geralmente, a pedir alguma reunião. Se têm a pouca sorte de se me dirigirem num registo que me parece informal, tratando-me directamente pelo meu nome próprio sem mais nada, fico logo de pé atrás e dificilmente respondo favoravelmente (até para não ter, depois, a experiência desagradável de os ouvir depois tratarem-me como se me conhecessem de há longa data).

Antiquada, elitista, sei lá o quê? Talvez, não discuto. Mas é assim. Involuntariamente, mas é.

Já uma vez aqui o contei: quando os meus filhos eram miúdos fomos uma vez com eles a uma Festa do Avante. Tenho ideia que foi no último ano em que foi na Ajuda. Tinha ouvido falar em artesanato, ar livre, etc, e achei por bem que devia ser uma coisa engraçada para passarmos um bocado do dia. Pensámos em ir por volta da hora do almoço e ficar para a tarde.


A experiência não podia ter sido pior. Estava um calor abrasador. Os miúdos queriam cá saber de artesanato, não achavam graça nenhuma àquilo, o tempo todo a querem ir-se embora, que era uma seca, nada para fazer, e todos encarnados, transpirados, aborrecidos. A nível de artesanato aquilo também era fraquito pelo que eu própria também não estava entusiasmada.

Mas o pior foi para almoçar. Na minha inexperiência eu ia a imaginar uma coisa de tipo restaurantes da Feira Popular, tipo esplanadas com mesas, pratos a sério, copos de vidro, onde a gente se sentasse e fosse servida, podendo comer com algum conforto. Mas não: eram pequenas tasquinhas em que serviam em prato de plástico e íamos com a comida na mão à procura de mesa.

Desconfortável especialmente quando se vai com miúdos cheios de calor e contrariados. O meu marido, por seu lado, abomina confusões, lojinhas de artesanato (coisas que ele acha que são uma treta, que não servem para nada, só para andar por cima dos móveis a atrapalhar), detesta tasquinhas em que há barafundas e comida em prato de plástico, odeia andar devagarinho de poiso em poiso a ver coisas que, segundo ele não têm nada para ver. De modo que era eu pouco convencida, ele enfastiado, os miúdos furiosos e cansados, e todos cheios de calor.

Mas o pior era outra coisa: é que, para agravar ao clima, toda a gente em todo o lado me tratava por tu, senão mesmo por camarada. A comichão que aquilo me fazia... 'O que é que vai ser, camarada?', 'quantos copos é que queres?' - tudo nesta base. Até me encolhia toda por dentro.

E é que nem é tanto que me tratem por tu.

O pior é que eu não consigo tratar por tu pessoas que não conheço, de quem não sou íntima, a quem não me habituei a tratar por tu desde o primeiro minuto em que os conheci. Não consigo. Não é uma questão de vontade, é mesmo uma impossibilidade.

Mas então ficaria uma situação desconfortável, os outros a tratarem-me na maior familiaridade e eu a tratá-los por você, com uma certa distância. Iria parecer chazada da minha parte e também não é. Só que ficaria estranho. Prefiro evitar.

Fiquei traumatizada. Nunca mais lá pus os pés. Apenas há um ano ou dois voltei a ir e mais para ver se estava melhor e para fotografar.

E voltei a não ficar convencida. Tem um certo lado pictórico mas, tirando isso, não acho piada.

Claro que talvez, se fosse para os espectáculos, já gostaria mais, mas nunca calhou. Depois, claro, não me identifico com palavras de ordem de punho no ar, com palavras de ordem contra o patronato e outras mistificações que talvez tenham feito sentido noutra era, noutras circunstâncias, não agora.

(Punho no ar sim mas no momento certo, onde faça sentido, não no meio de uma festa, à soalheira, onde não há inimigos nenhuns por perto)

Mas voltando ao tu para aqui, tu para ali. 

Aqui, quando algum leitor me trata por tu, alguém que não conheço pessoalmente, não fico incomodada. Percebo que é um registo normal para quem usa essa forma de tratamento – e quem o faz, pode continuar a fazê-lo. Na boa. Fico é desconfortável a responder, faço uma ginástica do caraças para usar uma forma indefinida, de modo a fugir ao tu mas de modo a que o Leitor não o perceba.


Nestas coisas bem mais fácil é a língua inglesa. Tenho que falar frequentemente em inglês, quer com ingleses quer com pessoas de outras nacionalidades. Ainda recentemente tenho tido reuniões com alemães e, como não pesco nada de alemão, nem eu nem os outros participantes portugueses, falamos em inglês. Pois bem, sejam quem forem, presidentes de empresas ou jovens assessores, são todos you, nada cá de etiquetas ou pruridos.

Já com os espanhóis é o oposto: é tu com toda a gente, mas tão generalizadamente o é, que com eles não há outro remédio senão tratá-los também por tu.

O drama na nossa língua, o português de Portugal, é que tem este lado de cheio de nove horas que se presta a esta segregação.

De qualquer maneira, que não vos fique a ideia de que, lá por isso, sou uma nariz empinado, arrogante, armada ao pingarelho. Não, nada.

E, depois, há uma coisa surpreendente. Apesar de eu ser assim, nada de familiaridades, confidências, intimidades, as pessoas vêm ter comigo e desatam a contar-me a vida toda. Não sei porquê. Se comento isto em casa, perguntam-me ‘Mas a que propósito te contam isso tudo?’. Respondo que não sou eu que pergunto. Geralmente não faço perguntas. ‘Então começam a contar-te assim, do nada?’. É, geralmente é mesmo assim: do nada.

Ainda não há muito tempo estava à espera de vez para comprar peixe no supermercado.  O meu marido tinha ido dar uma volta por outro lado, talvez comprar pão ou vinho ou azeite que são coisas que ele gosta de escolher. Fiquei ali na minha. Ao meu lado estava uma senhora um pouco mais velha que eu, muito bom ar, o marido um bocado afastado, ali ao pé das bancadas do bacalhau. Então a senhora disse-me que ia comprar peixe espada, que lhe parecia bom. Devo ter esboçado um sorriso e dito que sim. Depois disse-me que o filho ia a casa dela e que sempre tinha gostado muito de peixe espada, que ela, quando ele lá ia, tentava sempre fazer qualquer coisa de que ele gostava. Daí, nem sei como, começou a falar-me dos problemas do filho, da separação, da guarda dos filhos, a ex-mulher uma mulher complicada, e ele, por causa de tudo, já com problemas de não conseguir dormir, e preocupações também no trabalho e que ela sempre ajudaria o filho e já me contava situações concretas, já de lágrima ao canto do olho.

Quando chegou a minha vez de ser atendida e depois me despedi, a senhora pôs-me o mão no braço e desculpou-se e depois agradeceu-me. O meu marido, entretanto, tinha-se despachado da sua ronda e observava ao largo. Quando cheguei ao pé dele, perguntou-me 'Mas o que era aquilo? Quem é?'. Disse-lhe que não fazia ideia. E contei-lhe. Só não se admirou mais porque isto é frequente.

Uma vez estava eu a estacionar o carro num jardinzito relativamente perto da minha casa. Reparei numa senhora vestida de preto, talvez de uns setenta anos, que estava sentada num muro um pouco mais à frente. Qual o meu espanto quando vejo a senhora levantar-se e vir na minha direcção. Sem mais nem ontem, disse-me ‘Morreu o meu filho. Tinha sido internado e foi piorando mas nunca pensei que fosse morrer. Eles começaram a preparar-me mas eu nunca acreditei. Agora vou todos os dias ao cemitério, estou lá muito tempo. Mas depois não consigo estar em casa. Venho para a rua, ando por aí, mas também não consigo andar o dia todo pela rua. Agora sentei-me aqui e fico à espera que se faça de noite’. E chorava. Devo ter estado ali a ouvi-la bem mais de meia hora. Eu estava impressionadíssima, a dor daquela mulher era imensa, uma coisa irreparável. A custo consegui despedir-me. Não me parecia justo ou humano interrompê-la. Quando contei ao meu marido o que se tinha passado ficou um bocado admirado, ‘Mas veio ter contigo e desatou a contar-te isso, sem mais nem menos?’. Justamente.

Por isso, há qualquer coisa de contraditório em mim. Embora eu seja um bocado reservada no convívio, embora as pessoas percebam que não sou de tu cá, tu lá, sou, apesar disso acho que percebem que sou de confiança. E sou mesmo.

Sei a vida pessoal, íntima até, da maior parte dos meus colegas. Não lhes pergunto. Vêm ter comigo e contam-me. Aconselho-os, dou a minha opinião. E nunca divulgo, nunca comento com mais ninguém. É a vida das pessoas e eu respeito-a em absoluto.

Aqui na net é a mesma coisa. Vocês, aqueles que não me escrevem, não imaginam a quantidade de mails que recebo. As pessoas contam-me os seus problemas, conversam comigo. E eu ouço-as, aqui como em todo o lado. Ouço com compreensão, estima, solidariedade. Os meus amigos que têm tido oportunidade de me escrever, sabem que estou a falar verdade. Posso não ter muito tempo e, por isso, não consigo ser tão assídua quanto gostaria. Se tivesse tempo não deixaria passar tanto tempo sem saber dos amigos de quem deixo de ter notícias durante um espaço de tempo - o que tantas vezes me deixa intranquila.

Sou assim, próxima. Mas... não me peçam que vos trate por tu.

Mas, quem assim me trata, continue, por favor. A sério. Numa nice.

*

As fotografias são todas de Helmut Newton. 

sexta-feira, março 22, 2013

Eu, os meus queridos Leitores, os comentários e a minha terrível falta de tempo








Muito agradeço a compreensão e o carinho dos meus Leitores que, através de comentário ou mails, me têm dito que não esteja tão preocupada em responder a cada um e que trate mas é de pôr o sono em dia. Muito obrigada.

Penso que este é o período mais difícil para mim pois não apenas ando com muito trabalho, não conseguindo sair a horas, como as duas sessões de fisioterapia de duas horas e meia cada feitas semanalmente em horário pós-laboral, mais os dias em que passo por cada dos meus filhos, fazem com que chegue a casa tão tarde que não consigo manter o ritmo de alimentar diariamente os dois blogues e, ainda,  responder individualmente a cada comentário. Quem aqui me segue sabe como gosto, mas gosto mesmo, de conversar com cada um dos meus Leitores que faz a gentileza de escrever a sua opinião. Agradecer os roteiro de passeios e dizer que dentro de pouco tempo seguirei todos os conselhos, partilhar o gosto pela natureza e pelas palavras, desejar as melhoras da mãe que está de cama, agradecer muito, muito o poema e dizer que já o coloquei em cima, agradecer o carinho de todas as palavras, agradecer a quem diz que aqui vem todos os dias para ler o que escrevo, agradecer a quem está tão longe, do lado de lá do oceano e, vendo as minhas fotografias, volta a sentir vontade de vir passear em Portugal, agradecer mil vezes, mil vezes a todos - sabem como é, para mim, um prazer a que dificilmente me furto.

Mas não consigo. É certo que, se fosse mais comedida, escreveria menos e o tempo talvez já me desse para tudo. Mas cada um é como é e eu sou assim, imoderada. Começo a escrever e parece que me deixo ir, perco a noção dos limites. E, quando dou por mim, já escrevi um lençol e já são desoras.

Conto acabar a fisioterapia lá para meados de Maio. Devia ter começado logo após a cirurgia mas isto de médicos tem que se lhe diga. O cirurgião achou que corria riscos se esforçasse e que devia era fazer contenção de esforços até estar bem. Mas, como nunca mais estava em condições, fui a outro médico que me disse que o meu problema já estava a ser era de perda de massa muscular pelo que devia era fazer fisioterapia o mais rapidamente possível. E, de facto, comecei a melhorar a olhos vistos com a fisioterapia mas, como comecei alguns meses depois da cirurgia, tarde demais, agora a recuperação é mais lenta. Já estou quase bem (e as caminhadas que já faço comprovam-no) mas ainda não estou bem: pegar em coisas pesadas ainda é complicado, estar sentada muitas horas de seguida também não é fácil e, portanto, ainda tenho para mais um ou dois meses.

Depois, volto a ter um horário normal e aí já vou poder ter tempo para poder conversar de forma mais pessoal com cada um.

Apetece-me continuar aqui a desculpar-me mas acho que já perceberam que o faço contrariada e com muita pena.

Mas leio tudo, leio sempre com atenção e muita estima, isso podem estar descansados, pelo que vou gostar de ler o que têm para partilhar comigo e com os outros Leitores. Que não seja por eu não vos responder que vão deixar de escrever, sim?




Um grande abraço a todos.

sexta-feira, agosto 17, 2012

Sobre um mail que recebi, sobre a confiança, sobre a amizade, sobre a sorte, sobre a vida, sobre a minha vida, sobre as vossas vidas



You've got a friend 


(para, por favor, irem ouvindo, enquanto lêem as minhas palavras)


James Taylor



Pintura de Van Gogh


Hoje já tinha escrito um post (poderão vê-lo já aqui abaixo, um post a propósito da arte, da cor, de Kandinsky) e não tencionava escrever mais pois estou mesmo a acabar o livro de Houellebecq e  quero ver como acaba. Fui às compras agora à noite, cheguei tarde a casa, tencionava ler até adormecer. Mas, como estava à espera de um mail, fui ver o correio e tive uma surpresa. É essa surpresa que me leva, agora, a estar aqui a escrever de novo.

Estive a ler um mail de uma pessoa que me costuma ler aqui no Um Jeito Manso. É um mail longo e que me deixou muito emocionada. Conta-me que regressou agora, depois de uma viagem que fez. Conta-me que tem estado com uma depressão da qual está a recuperar. Conta-me que, antes, quando a tristeza tomou de assalto a sua vida, lia muitas vezes o meu blogue e chegou a sentir como que uma inveja pensando na vida preenchida que eu tenho e na sua vida, que podia ter sido preenchida e que acha que não o foi pelas escolhas, pela maneira de ser, pela sorte, por tudo.

Conta-me que, agora que regressou, passou a tarde a ler o que tenho escrito nos últimos tempos e que lhe fez bem.

E conta-me episódios divertidos, alguns mesmo muito divertidos, conta-me um pouco da sua vida, fala-me de si e fala com o coração nas mãos. E tão preenchida tem, afinal, sido a sua fantástica vida que diz que se eu quiser, lhe posso pôr um gravador à frente que me contará a sua vida, tudo, e que eu, depois, posso contar as suas histórias como eu quiser.

Leio, leio as suas palavras sentidas, sinceras, e fico comovida. Tenho dificuldade em transmitir-vos a emoção que sinto com manifestação de confiança assim, com uma sinceridade assim. 

Não é a primeira vez que fico assim, emocionada. Pudesse eu ser muitas e acorreria ao encontro de cada uma das pessoas que me escreve, que me fala na sua vida, nas suas doenças do corpo e da alma, nos amores e desamores, nas tristezas, nas alegrias, nos infortúnios da vida, nos momentos de incerteza. 



A dança de Matisse


Quando se escreve aqui na internet, não se sabe quem nos lê, como vamos ser interpretados. Por vezes escrevo, no fim, quando me despeço, 'Sejam felizes!' ou 'Tenham um dia feliz!' e, ao fazê-lo, estou apenas a exprimir o que vos desejo. Mas já li noutros blogues algumas pessoas dizerem que acham abominável que alguém dê aos outros ordens para serem felizes. Ora, nunca me ocorreria que, ao formular um desejo tão sincero, alguém pudesse lê-lo como uma ordem. No entanto, agora já sinto alguma inibição ao formular esses votos, não quero que alguém pense que há arrogância da minha parte.

Também sinto agora um certo receio que se tome por ostentação de felicidade aquilo que é afinal uma manifestação sincera da minha maneira de ser.  Não sou arrogante, pretensiosa. Nada disso. Sou uma pessoa muito simples, que me contento com pouco e que, por isso, acho sempre muito o que tenho, sinto-me agradecida (embora não saiba a quem devo agradecer) por tudo o que tenho; e acho sempre que tudo é precário, efémero e, por isso, tem que ser muito bem aproveitado.

Da mesma forma, por vezes, penso que, se alguns dos meus leitores estiverem a atravessar momentos difíceis - se tiverem tido algum desgosto, ou se sentirem que estão insuportavelmente sós, desejando ter uma companhia que não aparece, ou se estiverem desempregados ou em dificuldades, ou se estiverem cativos de alguma situação de que não sabem como sair, ou se estiverem a viver momentos de angústia - podem olhar para o que escrevo e pensar que, estando eu de bem com a vida, sou insensível aos problemas dos outros. Nada de mais errado. Escrevo e a cada momento penso em quem não teve sorte, ou em quem tomou decisões erradas e não sabe como as corrigir, ou em quem está doente ou infeliz. Tomara eu poder escrever as palavras certas para cada um, tomara.



Pintura de Diego Rivera


Não tomem nunca como arrogância as minhas palavras, não pensem nunca que, quem está de bem com a vida, é menos exigente, ou mais tolo ou é melhor ou teve mais sorte que os outros, nem pensem que há um destino a comandar as nossas vidas, nem pensem que a boa sorte é só para alguns.

E, se estiverem a atravessar um momento menos feliz da vossa vida, não pensem que isso vai ser para sempre, nem pensem que são mais infelizes do que os outros e que nunca voltarão a ser felizes.

A vida é uma mistura de acasos e é aquilo que fazemos face aos acasos e é a forma como nos entregamos ao fatalismo ou como, pelo contrário, lutamos para arranjar uma solução para os problemas ou, não os podendo ultrapassar, como aprendemos a contorná-los e a encontrar a felicidade noutro lugar, que faz a diferença. Não há um único caminho à nossa disposição na vida: há muitos. A nós compete escolher e, se escolhemos um e não dá certo, vamos por outro e se, de novo, não dá certo, vamos por outro. Levantamo-nos e vamos. Temos que ir.

Eu tendo a pensar que a minha vida tem sido sempre muito boa. Acho que sim, que tem sido muito boa. E, no entanto, já tive reveses a nível profissional que deitariam (e deitaram!) muito boa gente abaixo. Já me vi metida em lutas e em situações que não vos ocorre. Poderia ter desistido, atirado a toalha ao chão, achado que que tinham dado cabo da minha vida. Nos primeiros momentos, quando o embate aconteceu (e já aconteceram vários pois já passei por fusões, reestruturações,  por muitas dessas situações que, quem trabalha em grupos empresariais, sabe que costumam ser a doer), não pensem que não me senti atordoada. Senti. Mas sempre pensei (e não fiquem desiludidos com a banalidade dos meus pensamentos nos momentos de confusão): há mais marés que marinheirosque se lixe, há vida para além disto;  o primeiro milho é para os pardais, etc, etc, etc - tudo nesta base que em momentos de guerra não se limpam armas e, portanto, não me deito a invocar pensamentos profundos, só me ocorrem coisas destas. E, no momento seguinte, já estou a pensar noutra coisa, já estou a arranjar um sucedâneo emocional para me ajudar a superar o desgosto ou a perda e, dias depois, já ando entusiasmada com outra coisa qualquer e já desvalorizo o que perdi. 

E sabem? Que se lixe o que se perdeu. Que se lixe o que não se tem. Que se lixe o que ficou para trás e não deixou boas recordações. (Até pareço o outro com aquela do que se lixem as eleições - mas eu estou a ser sincera e ele não, e eu não sou primeira-ministra e posso falar assim e ele, a discursar em público, devia ter tento na língua e dizer coisas com nexo. Adiante).

O que importa é o que ainda temos e a força para descobrirmos novas fontes de interesse.

E não pensem que na minha vida familiar não há situações complicadas. Claro que há. Tenho passado (e estou a passar - e, claro, não me estou a referir ao estado pós-cirúrgico que atravesso que esse é chato mas é provisório e, mais dia, menos dia, hei-de ficar boa) por situações dolorosas, complexas, como são sempre dolorosas as situações relativas ao envelhecimento daqueles que amamos. 

Mas o declínio faz parte da vida e há que encarar com naturalidade todas as situações e, com carinho e acompanhamento, ir ajudando a viver com esperança até ao fim, esperança em momentos melhores - e os momentos são melhores se forem vividos com um sorriso, uma presença, uma palavra. E a vida segue. E se há declínio ou fim por uns lados, há nascimentos e crescimentos por outros. E, se, por força das circunstâncias, na vossa família não há nascimentos e crescimentos, apenas declínio, então pensem em sair à procura de actividades que vos animem, voluntariado, visitas a museus, passeios, qualquer coisa. Não fiquem na tristeza. Não fiquem. Há sempre uma saída, sempre, sempre. Não fiquem presos à tristeza, fechados em casa. Falem, procurem ajuda. Há sempre alguém disposto a dar-vos a mão, só têm que o procurar. E, se estão doentes, tenham esperança e lutem com optimismo, lutem, lutem porque vão conseguir, claro que vão.

E se vos ocorre pensar que vão acabar os vossos dias sozinhos ou outros pensamentos tristes, não pensem: vão à luta, abram os olhos e o coração. A companhia pela qual esperam está também à vossa espera.



Pintura de Marc Chagall

Escrevi muito (como de costume) e, uma vez a mais, isto pode parecer auto-ajuda de meia tigela, conversa de treta. Mas fui o mais sincera de que sou capaz; e apeteceu-me escrever isto depois de ter lido o mail tão sincero, tão tocante que recebi - este de hoje em particular mas também tantos outros que tenho recebido. É a minha forma de retribuir o vosso carinho, a vossa confiança, a vossa presença. Muito obrigada do fundo do meu coração.

*
Com toda a sinceridade, vos desejo uma vida muito feliz e que tentem encontrar ou preservar a harmonia e a tranquilidade nas vossas vidas. E desejo que, para começar, o dia de hoje seja um dia muito bom. A sério, desejo mesmo.