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quinta-feira, dezembro 27, 2018

A ementa do meu almoço do Dia de Natal.
[A autora do Um Jeito Manso conta as receitas do menu do almoço de dia 25 de Dezembro de 2018]





Ora, então, vamos lá.

Para ter como amuse-bouche enquanto se abrem e não abrem os presentes:
  • Pequenas tapas, quadradinhos, de pão de espelta barrados com queijo fresco de cabra sobre o qual se põem numas rolinhos de presunto super-fino e noutras salmão fumado. 
  • Tiropitas, umas de salmão, outras de alheira. Feitas assim:
Desdobra-se um rolo de massa folhada comprada feita e corta-se em dois semi-círculos. Cada uma dessas metades dá uma tiropita. Portanto, tantos rolos quantos se queiram. Ponho ricota, quantidade generosa. Por cima da ricota ponho ou o conteúdo de uma alheira crua ou ripas de salmão fumado. Numas ponho bocados de maçã, noutras de pera. Tudo distribuido ao longo do comprimento. Com jeitinho, enrola-se e, depois do rolo feito, dobram-se as pontas. Depois de ter as várias tiropitas feitas, deito um pouco de azeite para cobrir o papel e rebolo nele as tiropitas. Depois de assim besuntadas, cubro a superfície superior delas com mel e deito-lhes por cima sementes. Desta vez foram de sésamo. Entretanto, já tinha, há uns 10 minutos, o forno no máximo. Depois desta preparação, coloquei o papel vegetal com os rolos sobre a grelha do forno, a meio do forno. O calor deve sair por baixo e por cima. Nessa altura baixo para 180º. Fica mais ou menos uns 40 ou 45 minutos. Vou vendo se ficam com ar douradinho por cima e, cozido, por baixo.
Depois de tiradas do forno, disponho-as numa travessa comprida e corto-as aos bocadinhos. Ficam sempre boas.
  • Tinha também corn-flakes temperados com orégãos, flor de sal, orégãos, e, uma parte, com azeite e, outra, com queijo ralado. Foram ao forno até o queijo se ter derretido e estar tudo com ar estaladiço. Serve de entrada e de acompanhamento, especialmente para os miúdos.

Para prato de peixe principal, bacalhau com quase todos: brócolos, feijão verde, batata, cenoura e ovo cozido (saltei as couves para me poupar à maçada da lavagem das ditas: mesmo à chuveirada é mais trabalhoso do que não as ter). Era para também ter posto grão mas, agora que estou a escrever, é que me lembrei dele. Ou seja, a esta hora ainda reside nas latas.


Para carne tinha duas opções: galo capão e rolo de carne. Passo a explicar cada um deles.
Galo capão recheado
De véspera, à noite, lavei bem o frango. Escolhi a maior panela (panela e não tacho) e coloquei lá o galo. Pus uma cebola grande (descascada!) cortada ao meio dentro do galo. Depois mais duas grandes cebolas aos bocados, um generoso ramo de salsa, folhas de louro, dentes de alho, os miúdos do frango e mais umas quantas moelas, meio chouriço de carne de boa qualidade cortado em bocadinhos miúdos e, claro, sal. Enchi a panela com água até o galo estar coberto. Deixei que fervesse e depois baixei e deixei ficar durante cerca de 45 minutos em 'lume' brando (coloquei entre aspas porque o meu fogão é placa eléctrica, não tem lume). Depois desliguei e ficou toda a noite naquela infusão temperada. Ganha sabor e amacia.

No dia, preparei o recheio. Assim:
Fritei um pouco de carnes picadas (metade vaca, metade porco -- que tinha para o rolo) em azeite, alhos e louro. A seguir misturei um bocado das cebolas cozidas do caldo, uns bocados de pão, um pouco de caldo de cozer o galo, alguma salsa fresca picada, um bom bocado de passas, um pouco de chouriço fresco (mas mesmo pouco). Misturei tudo, para ficar espesso e homogéneo. 
Preparação e confecção do galo:
A seguir, num tabuleiro não muito grande (e já explico porquê), coloquei um pouco de azeite, dentes de alho, folhas de louro. Com jeito tirei o galo da panela e coloquei-o no tabuleiro. Com uma colher, enchi a cavidade com o recheio mas, atenção, não se deve atafulhar porque o ar deve circular para cozinhar o galo por dentro bem como o recheio. A seguir cobri o galo com um pouco de flor de sal, com mais alho, louro, ramos de alecrim e azeite. 
Como sempre, antes o forno esteve ao máximo durante uns 10 minutos mas, quando o galo entrou, desceu para os 180/170º, calor por baixo e por cima, e ficou assim até o bicho ficar com uma bela tonalidade bronzeada. De vez em quando, puxava-o para fora e regava-o com um pouco do caldo da infusão. Ao fim de cerca de 1 hora, baixei para os 150º e depois para menos, e ficou mais uma hora, agora regando com o caldo que estava no fundo do tabuleiro. No final, retirei o alecrim e o louro para a pele dourada e estaladiça ficar à vista  e deixei-o a respirar fora do forno até à hora de ser servido. 

Entretanto, para acompanhamento, num tacho coloquei arroz, o dobro da quantidade de caldo da infusão, os miúdos cortados muito finamente, os bocadinhos de chouriço, a cebola cozida desfeita e uma cenoura grande ralada. Cozinhou no fogão até já não ter muito caldo à vista. Passei-o, então, para um tabuleiro (e para me caberem os dois tabuleiros no forno ao mesmo tempo é que convém não abusar na largura do tabuleiro do galo). Por cima, coloquei ripinhas de bacon (comprei uma embalagem de bacon já aos cubinhos e usei-a toda). Foi então para o forno, até o bacon estar tostadinho.


Entretanto, de véspera fiz um rolo de carne que foi servido frio com molho de tomate quente por cima. O molho de tomate, que fiz pouco antes dos comensais chegarem, é assim:
Numa panelinha, ponho um fio de azeite. Nele frito, ao de leve, duas cebolonas gigantes e uns quantos dentes de alho. Junto, então, um bom bocado de salsa e coentros e uma meia dúzia de tomates bem maduros e de boa qualidade (isto é, nada daqueles que não sabem nem cheiram a nada; tomate que é tomate tem que saber e cheirar a tomate).  E, claro, um niquito de sal. Deixo cozinhar até os tomates estarem quase desfeitos e as cebolas bem macias. Com a varinha mágica, desfaço tudo muito bem, até ficar um molho cremoso e macio. Não fica ácido pois com tomates maduros e com cebola e salsa abundante a coisa fica soft e saborosa.

Bem, então agora conto como fiz o rolo de carne (de véspera) e que, como tudo o resto, foi sem guião e sem medo:
Numa tigela grande, juntei a carne que se manda picar em conjunto -- carne de porco e carne de vaca de boa qualidade, sem gorduras, cerca de 1,5 kg -- com dois ovos crus, a parte de dentro de uma farinheira das boas, uma cebola gigante cortada finamente, duas maçãs grandes cortadas aos quadradinhos, um ramo de salsa finamente picada, flor de sal. Com as mãos mistura-se tudo muito bem para todos os ingredientes ficarem igualmente distribuídos. A seguir, numa folha de alumínio coberta por azeite, coloquei a massa de carne e fiz um rolo com o papel que dobrei nas pontas. Para ficar bem estanque, usei duas folhas de papel de alumínio. Escuso de dizer que, antes, o forno estava bem quente mas que, ao colocar o rolo (coloquei na grelha a meio do forno), baixei para os 170/180º. Primeiro esteve cerca de uma hora e tal e depois baixei para 150º e ficou bem mais umas duas horas.
Depois tirei-o, abri uma das pontas e cortei uma fatia para ver como estava por dentro. Como já estava bom, tirei-o.
No dia, cortei-o às fatias que se comiam assim ou, de preferência, com o molho de tomate quentinho, por cima.


Para acompanhamento verde, fiz ervilhas. Cozi-as. Depois escorri, juntei azeite, uns dentes de alho lascados e uns bocados de hortelã fresca. Ficam perfumadas, agradáveis.


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Devo dizer que sobrou um pouco de rolo (a verdade é que ficou tão grande que tive que o ,transformar em dois rolos para caber bem no forno). O que sobrou foi dividido em doses individuais, cada dose embrulhada em papel de alumínio e colocado em sacos de congelação. Quando quiser usar é só descongelar que a refeição está pronta.

Escuso também de dizer que não fiz doces. Receitas não sou capaz de seguir e a minha intuição não me puxa para a doçaria. A minha filha trouxe gelatina e eu tinha dois bolos da Padaria Portuguesa (desculpe-se-me a publicidade): uma estrela de Natal em pão de ló coberta com glacé de limão e um crumble de maçã. E, claro, fruta. E gelado.

Também tinha bolo rei mas nele só o bebé é que pegou. Adora bolo-rei aquele bebé. Uma pessoa pergunta: alguém quer bolo-rei? E ele levanta o braço e diz naquela sua voz potente: 'Eu!'. Come uma fatia e, passado um bocado, já esta a gritar: 'Mais!'. No outro dia comeu 3 fatias quase de penalti.


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Como sempre, quando ando na cozinha, na labuta, com tanta coisa a fazer ao mesmo tempo, a ver o tempo a passar e a maltinha quase a chegar e eu a querer ainda ir tomar banho e arranjar-me, não me ocorre registar o making of (não me ocorre nem tenho tempo). Nem, quando a malta ataca, consigo registar a coisa antes de ser comida. Portanto, para 'enfeitar' o post, não tenho fotografias dos meus cozinhados. Por isso, tive que recorrer a imagens de outras mesas de Natal para que o post tenha alguma graça.

Parece que já fica aqui deslocada uma canção que apela ao espírito natalício (agora que já parece que o Natal já é passado e mais do que passado) mas, ainda assim, arrisco uma que acho muito bonita: The Cherry Tree Carol, aqui cantada pela Judy Collins.

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E bon apétit.

domingo, novembro 27, 2016

O meu dia 26 de Novembro de 2016


Dia de chuva e tranquilidade. Uma vez mais o meu corpo chegou ao fim da semana a pedir descanso. Na noite de sexta-feira, reclinada no sofá, o computador ao colo, ia escrevendo e adormecendo. Tenho um trabalho para fazer e enquanto pensava que seria preferível fazê-lo logo e tirar daí o sentido, o meu corpo recusava o esforço adicional. Sábado está a chegar ao fim e ainda não lhe peguei.

Queria responder aos comentários e adormecia. Fui para a cama mais cedo do que o habitual e dormi, de seguida, até às nove e tal da manhã. 




Quando acordei fui à janela e vi que chovia a bom chover. Liguei a televisão e vi que tinha morrido El Comandante. Pensei que o Marcelo tinha tido pontaria. Não que o tiro fatal tenha sido disparado por ele mas, enfim, conseguiu, por um triz, apanhá-lo ainda com vida. Pensei que a anciã Isabel II -- a tal que já era rainha quando Marcelo ainda era uma criança -- deve estar a pensar que, graças a deus, ainda está bem de saúde.

Fiz papa de aveia, arrefecia-a, misturei um diospiro aos bocados e um iogurte e comecei o dia em beleza. O bem que isto me sabe só eu sei. Rematei com um cafezinho bem quente e cheiroso.

Entretanto, o meu marido disse que tinha caído um botão da manga do casaco de bombazina castanho. O botão é daqueles redondos, forrados a pele. Tirei outro para servir de amostra.

Fomos os dois dar a nossa caminhada mas, antes, passámos pela retrosaria da rua. Já não existia. Lembrámo-nos, então, de ir ao chinês. Tinha botões (tem tudo o que se possa imaginar) mas nada que se parecesse com o pretendido. Aproveitei para comprar uma embalagem de alfinetes de dama e outra de alfinetes de cabecinha. Volta e meia é preciso fazer bainhas nas calças e já me reareavam os alfinetes para fazer as marcações. O meu marido trouxe também um frasquinho de plástico com óleo lubrificante. Já pôs num fecho de um blusão que estava meio emperrado e agora o fecho já fecha bem e experimentou pôr também numa máquina de aparar a barba que tinha deixado de funcionar e a verdade é que, com o bendito óleo, ela ressuscitou.


Lembrei-me, então, de uma retrosaria atafulhada de tudo e mais alguma coisa que havia num fundo de um pequeno centro comercial. Lá fomos. Ainda lá estava. O dono é um silencioso indiano já de alguma idade. A empregada, portuguesa, talvez da idade dele, pelo contrário, fala pelos cotovelos, ri, mete-se com os clientes e dá ordens no patrão. Mostrei o pequeno botão e de uma parede forrada a caixas de botões, saíu uma caixa de cartão com botões daqueles, de todos os tamanhos. 

Quando saíamos o meu marido disse: O senhor Inesh é amante da empregada e ela é que é, na verdade, a gestora da loja. Achei que talvez fosse verdade.

Depois fomos fazer outras compras, incluindo, claro está, diospiros na loja dos outros indianos. Trouxe dos redondos, rijos, e dos ovais, moles e suculentos. 

Despachadas as obrigações, fomos então às devoções. Andar: uma caminhada de cerca de uma hora. Chuva, frio, as ruas molhadas mas, de quando em vez, alguma luz quase dourada. Fotografar, um dos prazeres maiores. O meu marido retarda o passo, chama-me, queixa-se, 'assim não dá'. Gosta de andar de seguida, a ritmo certo, mas também não quer seguir viagem e deixar-me para trás, deve ter medo que algum mergulhão me envolva nas suas asas negras e mergulhe comigo até ao fundo das águas.


Almoçámos tarde. Durante o almoço, liguei aos meus filhos a perguntar se queriam lanchar cá a casa. Uma semana sem os ver a todos e já me dá umas saudades que só visto. Quiseram. Por isso, depois de almoço, fomos ao supermercado.

A seguir, ainda tive tempo de escrever um post sobre Fidel Castro no qual mostrei um vídeo com um discurso 'poético' que merece ser visto.

Quase logo a seguir chegaram eles. Primeiro fomos a um lugar onde os miúdos gostam de brincar. Depois viemos para cá para casa.

O lanche foi: paezinhos escuros com sementes várias e pão alentejano às fatias levemente torrado. Queijo limiano às fatias, fiambre, queijo fresco de ovelha e queijo fresco de cabra. Para uma tijela cortei, aos bocadinhos pequenos, dois tomates bem maduros, depois desfiz grosseiramente com um garfo e misturei azeite. Bom para colocar sobre fatias de pão torrado. Tinha também manteiga com flor de sal. E iogurtes líquidos, sumo de laranjas algarvias e bongos. 

Como acompanhamento, muito conversa. Depois do lanche fomos para a sala e os três rapazinhos andaram a brincar uns com os outros, a maior parte do tempo às lutas. A menina, sentou-se num cantinho e disse que ali era a sua casa e começou a brincar às comidinhas. Ela e um dos primos andam agora com um dentinho a menos. Estão todos crescidos, sempre muito bem dispostos: uma alegria pegada. E um desatino quando estão juntos num espaço confinado. No fim, foram para o quarto do meu filho, o mais pequeno pegou na guitarra do pai, que ficou cá em casa, sentou-se na cama, os outros à sua volta, e tocou e cantou com energia e boa voz. Os mais crescidos ficaram de pé a assistir ao espectáculo.


Quando se foram embora, fomos os dois a casa dos meus pais. O meu pai, como sempre, muito queixoso por ter estado no cadeirão. Diz que na cama é que está bem, que não suporta a tortura de passar a tarde no cadeirão. Digo que é o médico que quer, que é bom para a circulação, para a respiração, para não perder completamente a massa muscular. Fica todo zangado, diz que não é verdade. Recordo a pneumonia que teve o ano passado, que esteve internado, que os médicos disseram que devia estar levantado para as secreções não se acumularem nos pulmões. Diz que me cale, que não é verdade, que não teve pneumonia nenhuma, que não esteve no hospital, que estou a inventar. A minha mãe diz que não vale a pena. De tarde, refila horas a fio, zanga-se com ela, dá-lhe cabo da cabeça. De vez em quando, vai-se um bocado abaixo, ela. Não quer sair para se ir distrair porque lhe custa deixá-lo em casa, se calhar aflito, a chamar por ela, mas, por outro lado, está saturada, muitas vezes com os nervos à flor da pele. Mas como é como eu (ie, eu é que sou como ela), tem uma facilidade enorme em pôr os problemas para trás das costas e, por isso, logo depois já estava a queixar-se que não conseguia ir à internet no telemóvel. Estava com os dados desligados. Nunca sabe o que faz para desactivar aquilo mas, volta e meia, as coisas estão desactivadas. Liguei. E estive, outra vez, a ver com ela como fazer pesquisas ou ver imagens via google (decoração de bolos, mantas de lã, etc). Também estive a mostrar-lhe como enviar fotografias tiradas no telemóvel por sms. Para exemplificar tirei-lhe fotografias a ela e à senhora que trata da higiene do meu pai que, entretanto, tinha chegado. Ficaram as duas todas divertidas a verem-se nas fotografias.


Depois, à vinda, pelo caminho, como tantas vezes acontece, resolvemos encomendar uma piza grande, metade com alcachofras e presunto e a outra metade vegetariana com queijo feta.

Passámos a buscá-la e quando chegámos, já um bocado para o tarde, estivemos a jantar. Não estava com fome pelo que comi pouco e acompanhei com um chá de erva cidreira.

Agora estou de regresso ao meu sofá aconchegante. Claro que já está a dar-me o sono. Tenho que fazer algum esforço para me manter de olhos abertos. Se os fechar, tenho a certeza que adormeço instantaneamente. Eu estou num sofá e o meu marido está deitado noutro e temos um aquecedor a óleo ao pé de nós. Ouço a chuva, sinto o calorzinho bom, estou a escrever. E sinto aquela paz tão boa que me faz sentir agradecida.


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As fotografias foram feitas de manhã.

Lá em cima, é Judy Collins e Graham Nash interpretando - "I Think It's Going To Rain, Today"

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E ainda não é hoje que vou responder aos comentários (que agradeço!) nem aos mails pois vou agora começar a fazer o meu TPC.

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terça-feira, novembro 15, 2016

Dar à luz


Os homens que me perdoem. E as mulheres que não puderam ou que não quiseram também. Mas não há nada no mundo que se possa comparar à experiência milagrosa de ter uma outra pessoa dentro de nós. Nada, nada, nada.



Qualquer homem se ache superior a outra pessoa, por mais argumentos que elenque -- que sabe as declinações de cor e salteado, que fala cinquenta línguas, que sabe dizer de cor a Odisseia, a Ilíada, os Lusíadas, o D. Quixote de la Mancha, o Ulisses de Joyce ou, até, sei lá, o Código da Vinci, que sabe toda a teoria da física, da química, da matemática e que é pro em nanotecnologia e filosofia aplicada, que sabe montar móveis do Ikea sem instruções, que consegue fazer a maratona ao pé-coxinho, que sabe tocar ao violino e sem partitura todos os nocturnos de Chopin ou que faz voluntariado 24 horas por dia, sete dias por semana -- nunca, mas nunca, vai estar perto de chegar aos calcanhares de uma mulher.

Mesmo as que nunca passaram pela experiência da gravidez ou do parto sabem que a possibilidade de passarem por isso esteve lá e só isso já é uma maravilha.

Já falei várias vezes de quando estive grávida. Era quase uma miúda mas estava desejando, desejando. Queria tanto ser mãe. Quando soube que estava à espera de bebé foi uma alegria imensa. E a alegria não foi menos imensa e intensa da segunda vez. Uma alegria tão absoluta. Uma felicidade suprema, na altura achava que era a maior de todas. Anos mais tarde, para minha surpresa, descobri que podia haver uma felicidade ainda maior.

Quando engravidei da segunda vez e tive disso a confirmação calhou o meu pai dar uma queda de um lugar muito alto, na empresa, e partir não me lembro se uma, se mais costelas. Estava eu no trabalho, ligou-me. Disse que me ligava ele para eu ver que ele estava bem. Contou-me que tinha caído de uma altura grande, que tinha acontecido aquilo das costelas, que tinha ido ao hospital mas que já estava em casa. Estava de pé quando atendi o telefone e não sei se foi do susto ou de estar grávida, senti uma fraqueza, parecia que ia desmaiar, tive que me sentar. Ele percebeu que eu estava a desfalecer, perguntou se não estava eu a ver que ele estava bem. Sempre tive a pressão arterial muito baixa, talvez também fosse isso.

Fui lá a casa vê-lo: estava de cama, com dores. A minha mãe aborrecida, que ele não tinha cuidado, que podia ter morrido. E, então, achei que devia dar a boa notícia. Não estava nada à espera daquela reacção, eu tão contente e diz o meu pai assim, num tom de repreensão: 'isto está mesmo bom para isso...'. Fiquei siderada. A minha mãe também. Vinte e poucos anos eu, já mãe de uma menina então com dois anos, e eu feliz, feliz da vida e sai-se o meu pai com aquele inesperado remoque. Havia, naquela altura, desemprego, ordenados em atraso, uma crise profunda no país. Mas queria lá eu saber da crise, nem me passaria pela cabeça achar que isso poderia ensombrar a alegria de ir ser mãe outra vez. A minha mãe desculpou-o pelas dores. 

Mas foi a única vez. Logo depois já estava contente e foi, para ele, uma alegria ter um neto rapaz, depois de uma neta menina.

Mas desviei-me da conversa. Estava a falar da minha felicidade. Não havia representações 3D do pequeno ser que crescia dentro do meu corpo nem se faziam ecografias a torto e a direito. Era sobretudo magia. 

Adorava sentir a minha barriga cada vez maior, os movimentos lá dentro, tentava perceber onde estava o rabinho, os joelhinhos, os pezinhos do bebé. De vez em quando um altinho: um pezinho, um pontapé. Gostava tanto de os sentir. E falava com eles, fazia festinhas na minha barriga que se agigantava. Quando estava lua cheia, ia para a varanda e mostrava a barriga à lua, para que o luar agraciasse os meus bebés.

Ao mesmo tempo os meus seios também cresciam, os mamilos maiores -- todo o meu corpo se preparava para o milagre da criação.

Sempre gostei muito de música e punha música para que eles a ouvissem. Imaginava-os quentinhos, a banharem-se dentro de mim, felizes por se sentirem tão queridos, por poderem ouvir música, por sentirem as festinhas que eu lhes fazia.

As minhas barrigas cresciam desmesuradamente e eu não me inibia de nada. O médico dizia que eu estava bem e, se me sentia bem, não fazia mal nenhum aquelas barrigas que pareciam transportar duas crianças de cada vez.


Porque já antes aqui falei disso, não vou repetir com pormenor o que foi o parto, idêntico nos dois casos, vou abreviar. Nasceram no limite do tempo e teve que ser parto provocado. Porque pedi encarecidamente que cesariana só em último caso -- queria ter os meus filhos pelas vias normais, sem anestesia, completamente ao natural -- acabei por suar as estopinhas. Quando a minha filha nasceu ainda eu acreditava que, se fizesse as respirações, não ia doer nada. Na verdade, o que aconteceu foi que pensei que morria de dores. Teve que ser puxada a ferros e tive dores dilacerantes. Podia ter aprendido a lição. Não aprendi. Quando foi a vez do meu filho, a minha vontade foi a mesma. Pensei que o caminho estava desbravado, pôr a criança cá fora haveria de ser canja. Nada. Pior ainda. Pesava mais de quatro quilos, tinha a cabeça grande. Não saía nem por mais uma. Ferros, puxar, puxar, e eu a achar que não ia resistir, tantas as dores, a cama alagada em transpiração. E, depois de se romperem as águas, as dores eram mais secas, mais profundas, mais violentas, a cama encharcada, a barriga retesada de contracções e, de cada vez que vinham novas contracções, eu rasgava-me por dentro, como se um ser poderoso estivesse a despedaçar-me. Estava a soro, o parto induzido e sem anestesia é de loucos, mas eu quis assim, queria estar bem acordada e que nenhuns químicos pudessem alguma vez molestar os meus bebés. 

Mas, mal saíam, era um alívio instantâneo, tudo passava, tudo. Tê-los em cima de mim, tê-los depois os meus braços, amamentá-los, sentir o seu calorzinho bom, sentir como se aninhavam no meu colo, compensava o suplício que quase tinha cabado comigo. Nem mais me lembrava disso.

Sensações únicas e inesquecíveis.

Depois disso, não têm conta as vezes em que tive vontade de voltar a engravidar. Saudades de sentir um serzinho a crescer dentro de mim.
A vida longe do apoio familiar, as dificuldades em viver e trabalhar em lugares de muito trânsito, a aflição para conseguir chegar a horas aos colégios com o trânsito congestionado e não ter a quem pedir ajuda. Éramos só os dois, a trabalhar longe um do outro, com trabalhos exigentes, a querermos que eles sentissem que estavamos sempre próximos e a querermos conciliar tudo -- não foi fácil. Mais que dois filhos parecia-nos ingerível. Tivesse eu tido os meus pais perto de mim e teria ido à meia dúzia. É que não é apenas a felicidade de os ter: para mim é também aquela sensação muito animal de sentir no corpo o milagre da reprodução.
Vem isto a propósito de um vídeo fantástico que estive a ver e que aqui partilho convosco: desde a explosão orgásmica até que umas sementes caudaludas e destravadas vêm por aqui adentro, a querer atingir o santo graal e, mal o vêem, forçam a entrada com a cabeça e, depois, o milagre, o milagre de as células se irem juntando, harmoniosamente, e os órgãos se irem formando, e, depois, já todos formadinhos, já com as feições a definirem-se, já a sentirem vontade de descobrir o mundo, o milagre da vinda ao mundo. Uma pessoazinha pronta para vingar em meio tão adverso. Nós.


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  • Lá em cima Josefa de Castilla Portugal y van Asbrock de Garcini, grávida, é pintada por Goya
  • Pregnant Therese é uma pintura de Helene Knoop
  • Judy Collins interpreta Amazing Grace que não tem a ver com o tema mas cuja sonoridade e cujo título me agradam para aqui estar
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segunda-feira, outubro 10, 2016

A voz interior


Tal como contei no post abaixo, em que falei de mulheres que gostam de mar, tenho estado a ler A voz interior, excertos do diário de Hein Semke. Gosto de ler diários.


Leio-os com curiosidade, estranheza, alguma inquietação.





Quando vejo uma obra de arte, não quero saber da vida do seu autor. Não quero saber nada. E se acontece ler o diário de um escritor, pintor, músico é, como no outro dia já o referi, porque me interessa perceber de que universo de aleatoriedade nasce a obra, porque quero perceber se há génese e logo abandono ou se há carpintaria cuidada, ou se a ideia nasce de outra ideia ou se não há ideia nenhuma. Tal como há pedras parideiras, gosto de pensar que as palavras também o podem ser ou que acordes podem gerar acordes ou traços gerar formas. Ou serão factos que geram arte? É para questões deste tipo que gosto de procurar respostas. Como Miró que salpicava as telas com os pintéis que tinha deixado de molho e que se deixava guiar pelo desenho que assim se formava. Isto já para não falar de Pollack que construía camadas de acasos, num frenesim, como se uma pulsão o conduzisse na direcção de um desconhecido caos. Ou Picasso que, com uma fenomenal energia, copiava dos outros, inventava, distraía-se, divertia-se e, por vezes, apurava-se. 

Eu, apesar de aqui escrever todos os dias como se não houvesse amanhã, poucas vezes me deixo levar pelo lado diarístico. Posso contar um ou outra coisa, por vezes a posteriori falo de alguns acontecimentos mas, em cima do acontecimento, relatar factos puramente pessoais como, por exemplo: Hoje estou cheia de dores, custa-me andar. Vou fazer uma ressonância magnética. Estou preocupada, ou: Tenho um problema com o meu chefe, já não sei o que fazer para me entender com ele ou: Aborreci o meu marido ao falar desabridamente do primo dele e agora não sei como me reaproximar dele sem dar o dito por não dito -- ou outras coisas do género -- isso a mim não me tenta.

No entanto, encontro palavras nesse registo nos diários que leio. E leio-os muitas vezes com uma pena enorme, acompanhando as suas angústias, sofrendo com eles. Sei que não faz sentido mas é o que me acontece. É quase como se tivesse preferido não saber do seu lado humano, dos seus problemas pequenos e vulgares, quase como se tivesse preferido que deles apenas houvesse o lado de criadores.

Hein Semke, que teve uma vida longa, viveu, pelo menos durante parte do tempo percorrido por este diáro, com dificuldades económicas que o atormentavam. E tantas vezes quase sucumbia aos problemas que daí advinham. E preocupava-se por viver com uma mulher com cerca de metade da sua idade, mulher essa que por vezes garantia o sustento da casa. E vivia com a angústia de não comprarem o seu trabalho, de quase ninguém aparecer nas suas exposições. E eu leio essas aflições que causaram sofrimento a alguém há décadas e inquieto-me pela injustiça que todos cometemos para com tantos e tantos artistas, com tantas e tantas pessoas. Não sabemos nem queremos saber o que vai no coração das pessoas nem as dificuldades por que passam.
[Por exemplo, assusta-me pensar que sou lida por pessoas que têm a generosidade de me ler enquanto eu ignoro as dificuldades por que passam. Custa-me pensar que não têm dinheiro para passear ou para ir a restaurantes ou comprar livros e que, em silêncio e alguma tristeza, lêem a minha alegria ao falar do mar, das árvores, dos meus constantes arroubos. Ou por pessoas solitárias que não têm a quem dar um abraço ou em quem nenhuma mão pousa num afago amigo. Como posso eu chegar até essas pessoas? Ignoramos sempre o que é invisível e não sabemos como ver para além da camada superficial. Não sabemos chegar a quem, apesar de estar próximo de nós, se mantém invisível e em silêncio.]
Hein Semke, A dor, 1934
Nos jardins da Gulbenkian
O diário de Hein Semke não fala só dos seus problemas quotidianos. Fala das suas ideias, dos seus projectos, das suas esperanças, expectativas, entusiasmos. A vida das pessoas faz-se de uma sucessão de pequenos factos. Mesmo quando há grandeza na sua obra ou na sua vida, essa grandeza não é um somatório de apenas grandes factos. É, a maior parte das vezes, uma sucessão de pequenos nadas, desencontros, desentendimentos, equívocos, breves gestos de ternura, raros momentos de genuíno reconhecimento, e febres, desconfortos, e alegrias e zangas e recomeços. 

Como de uma vida normal ou onde pontuam depressões podem nascer magníficas obras é o que não percebo. Se eu vir um deus, desligado de mundanidades e acima de minudências, com um intangível corpo, alimentando-se de brisas e acordes divinos, eu, vendo obras de arte que nasçam de si,  percebo. Agora de pessoas tão irremediavelmente normais a mim custa-me perceber que tenham, algures, escondido dentro da sua aviltante normalidade, o dom da criação.

E tudo isto me vai inquietando enquanto leio um diário como este. Vou levada pela mão da escrita, dia após dia partilhando o quotidiano de Hein Semke. E, de vez em quando, tento imaginá-lo a construir a maravilhosa escultura A dor'' que tantas e tantas vezes vejo sem me ocorrer pensar que quem a concebeu viveu uma vida tão humana.

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Hein Semke, Autorretrato, 1934-35

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Uma vez mais, talvez não tenha nada a ver com nada disto mas deixem que partilhe convosco:

Leonard Cohen diz Since You Asked de Judy Collins


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E, caso estejam com vontade de ver mulheres que gostam de mar, queiram, por favor, descer até ao post já aqui abaixo.

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