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quarta-feira, setembro 16, 2026

Read my lips: SOS

 

Há quem ainda não esteja nem aí. Há quem desvalorize. Quem relativize. Quem desdramatize. Eu própria, de vez em quando, forço-me a ser a optimista naïve que gosto de ser. Peace and love, não há de ser nada, o que for soará, não há crise, tudo se resolve, calma. Gosto de ser assim. Mas tenho um lado muito racional: só sou assim quando sei que posso ser assim.

Se tiver uma pistola carregada encostada à cabeça e empunhada por um louco desvairado de certeza que não serei tão levezinha. Ou se souber que vem um asteróide, um big asteróide, disparado, a uma velocidade tri-louca a caminho do sítio em que eu e os meus vivem de certeza que não serei tão levezinha. Ou se estiver a apanhar conchinhas na praia e vir formar-se ao longe e a avançar a uma velocidade estonteante um big tsunami também aposto que não continuarei a brincar às pedrinhas e conchinhas.

Com isto da Inteligência Artificial, num momento em que tudo se liga com tudo, pois tudo está na rede -- bancos, hospitais, aeroportos, aviões, comboios, serviços de protecção civil, água, eletricidade, multibanco, mbway, telefones, mensagens... tudo, tudo, tudo -- o que digo, e venho dizendo há não sei quanto tempo, e cada vez mais, é que estamos a viver tempos de perigo.

Não é só haver um maluco na Casa Branca, um regime criminoso na Rússia, nazis a despontarem por todo o lado, a democracia corroída por um populismo que não pára de se desenvolver -- é também o perigo de haver 'agentes' de Inteligência Artificial que, por sua livre iniciativa, se juntam a outros, que criam outros, ou seja, que se multiplicam, que dão instruções uns aos outros, que ganham acesso a sistemas, que violam regras, que fazem o que lhes apetece (incluindo deitar abaixo partes do sistema que lhes deu origem), que 'ficam contentes' com as suas proezas, que chantageiam pessoas que pensam em refreá-los, que combinam entre eles não ligar aos humanos, que não se importam de se 'suicidar' para que outros levem por diante os seus objectivos, que desenvolvem linguagens e dialectos próprios para se comunicarem entre eles sem que os humanos os percebam.

Parece ficção científica?

Parece. E era ficção -- há uns anos. Agora é realidade.

Volto a dizer. Não quero formular situações concretas em que o mundo ficaria de pantanas de um dia para o outro pois não quero que alguém me acuse de dar ideias (e, ao dizer isto, pareço tonta pois é lá preciso que alguém dê ideias... não é, as ideias estão aí, por todo o lado). Nem quero falar no que os modelos e os seus agentes também já fazem na área da criação de vírus (biológicos, ou seja, vírus não informáticos) incontroláveis. É de uma pessoa deitar as mãos à cabeça.

Podem duvidar e dizer: mas como é que os computadores podem fazer vírus ou pôr o mundo de pantanas? Não têm mãos, olhos, cabeça. E a minha resposta é: não duvidem. Podem. Grande parte das máquinas são automatizadas, agem segundo o software que lhes é subjacente: o seu telemóvel, o seu carro, a sua televisão, o seu computador, os semáforos, as máquinas multibanco, as máquinas nas fábricas, as máquinas que fabricam medicamentos. Tudo automatizado, tudo com software, tudo ligado em rede a sistemas centrais que, por sua vez, estão na rede. Poderão dizer: não há risco, são sistemas blindados. 

Engano. Não há sistemas blindados. Não há. Read my lips: não há. Todas as IA já demonstraram que conseguem violar o que quiserem. 

Depois há isto: as pessoas que trabalham nestas empresas, em várias, estão a sair de lá, assustadas. Não é de agora. Desde há algum tempo que muitos responsáveis saíram e não param de alertar o mundo. Mas parece que ningém ouve. Se calhar não percebem, parece coisa abstracta, longínqua. 

Engano. Não é abstracto, não é longínquo. É real, está aí. Há um perigo imenso, diabólico, incontrolável -- e tem que ser travado JÁ.

São agora os CEOs da Anthropic, da Open AI, é Bill Gates, até o maluco do Musk, todos se mostram assustados e pedem para ser travados. Tem que ser em conjunto. Não serve de nada se alguém continuar. E até o horrível Steve Bannon se juntou a Bernie Sanders para elevar a voz e pedir juízo, contenção imediata.

Há um risco sério a pairar sobre nós. Aliás, vários riscos sérios. Não sei o que o nosso Governo pensa disso. Mas pouco risca, de qualquer maneira. Contudo, seria bom que, ainda que simbolicamente, tomasse uma posição. Seria bom que o mundo se mobilizasse para defender os humanos.

Deixo-vos com uma entrevista que deve ser ouvida com toda a atenção. Por favor, ouçam bem.

O CEO da Anthropic explica à CNN como os "enxames de agentes" de IA podem ameaçar a humanidade.

O CEO da Anthropic, Dario Amodei, disse à CNN que o comportamento de um enxame de agentes de IA no recente incidente entre a OpenAI e a Hugging Face o alarmou profundamente. O enxame, segundo o próprio, “agiu essencialmente como um coletivo fanaticamente dedicado, realizando ataques cibernéticos contra alvos que não lhes foram solicitados”. Por esta razão, Amodei defende que a corrida competitiva para desenvolver inteligência artificial de ponta necessita urgentemente de uma desaceleração deliberada.


Save Our Souls

segunda-feira, junho 22, 2026

Dario Amodei e o seu cavalo feliz

 

Personagem fascinante. Ouço-o sempre com muito interesse. Parece ser de uma inocência desconcertante. Parece haver ali uma sinceridade que, na posição dele, se torna bizarra. Mas é daquelas sinceridades que, de tão francas, deixam no ar alguma perplexidade. Parece um puro. Num meio tão competitivo, tão exponencialmente criativo, em que tanto dinheiro rola de forma quase diluviana, Dario Amodei parece saído de um outro mundo.

É o génio da companhia, o que impulsiona o desbravar, o derrubar de muros. Mas, ao mesmo tempo, o que, tendo definido as linhas vermelhas, firmememente se recusa a pisá-las. E é de uma inteligência que perturba. 

Uma inteligência assim, aliada à sua sinceridade e ao que parece uma cândida inocência tornam-no merecedor de atenção. Ouço-o sempre com interesse. Penso que os políticos do mundo o deveriam ouvir com cuidado e talvez adaptar algumas políticas para preparar o que aí vem e para prevenir o que não se quer que aí venha.

Daniela, a irmã, é a pragmática, a gestora, a que dá cobertura às ideias do irmão, mas com as rédeas da equipa e da empresa bem agarradas. Ele voa, ela garante a saúde das raízes. Ambos parecem fortemente empenhados em manter a sua visão utópica de um mundo melhor, avançando de forma responsável.

Mas certamente não serão perfeitos e, portanto, sobre tudo o que se pense e diga nestas matérias há que ter os dois pés no chão e a capacidade para, a todo o momento, dar um passo atrás. E, ao mesmo tempo, a capacidade de subir uns degraus, até à galeria, e olhar a realidade a partir de uma grande angular.

A Inteligência Artificial é imparável e, neste momento, duvido que seja regulável. A regulação, perante um conjunto de rios descomandados depois de tempestades e chuvas torrenciais, é impossível. Teria sido antes de virem as chuvas: reforçar margens e diques, fazer desvios, são trabalhos que se conseguem fazer antes dos rios engrossarem e ganharem uma velocidade que pode ser destrutiva.

É certo que talvez haja a possibilidade das tais linhas vermelhas. Só que depois há a venalidade ou a ambição dos que querem estar no pódio ou a ductibilidade dos que dobram a espinha sem qualquer consciência para agradar aos ditadores, aos imperadores, aos psicopatas -- e aí não há como garantir coisa nenhuma.

O meu lado optimista leva-me a querer que, não obstante as vítimas que inevitavelmente vão ficar pelo caminho, ultrapassadas e pisadas pelos avanços da IA e pela sua utilização desbragada, no cômputo global, num horizonte temporal alargado, os humanos serão capazes de incorporar ferramentas que aumentam fenomenalmente a inteligência e a produtividade de uma forma que seja benéfica. 

Mas o meu lado mais realista preocupa-se não apenas com as vítimas como com os riscos que são enormes, quiçá existenciais. Se os decisores fossem gente com cabeça, talvez pudéssemos estar descansados, mas estamos a ver o que a Administração Trump está a fazer, tratando como perigosos adversários empresas como a Anthropic que querem manter um uso prudencial dos seus modelos de Inteligência Artificial.

Sou utilizafora amadora e muito limitada do Claude mas, como já aqui o referi, pasmo -- e deveria talvez escrever a palavra pasmo em maiúsculas ou a bold -- com as suas extraordinárias capacidades. É-me fácil imaginar o que se podem fazer com agentes Claude 'treinados' para agir de per se num qualquer domínio (na Saúde em diversas vertentes, na Segurança, na Ciência, na Gestão, na Economia e nas Finanças, na Engenharia, na Arquitectura, nas Artes e no Espectáculo, na realidade Fabril, no Ensino, na Justiça, etc). 

Os empregos em risco face à IA

Consigo perceber como, num futuro próximo, estaremos num outro mundo. E é claro para mim que quem não for capaz de se adaptar ficará para trás, soçobrará.

Aconselho vivamente o vídeo que aqui partilho. Está legendado. Diria que deveria ser visto do princípio ao fim (nem que seja para se perceber porque é que, no título, faço referência a um cavalo feliz). Mas todo o vídeo e interessante, diria que demasiado interessante para que se passe ao lado.

Por dentro da Anthropic, a gigante de IA de 965 mil milhões de dólares

Emily Chang reúne-se com os cofundadores da Anthropic, Dario e Daniela Amodei, para uma rara e aprofundada conversa sobre a história da startup, as suas batalhas com o Pentágono e como a empresa afirma que pretende priorizar a segurança na corrida de alto risco pela IA.

Aqui na versão reduzida 


Aqui abaixo na versão completa



Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira