No acelerar dos dias, entre toda a espuma da infinita torrente informativa que nos submerge, grande parte do que é importante passa desapercebido. Por experiência própria, agora que tenho conta de instagram, sei que se queremos acompanhar tudo o que o algoritmo tem para nos mostrar, não paramos de escorregar o dedo pelo ecran para ver a notícia seguinte e a outra e a outra e a outra. E tantas vezes, aquilo que não compreendemos bem acaba por se esvair entre tudo o que é sugado pela máquina trituradora do que já foi visto.
No outro dia li uma notícia. E como me tem acontecido com alguma frequência, sempre que é uma aberração, a minha reacção é a de pensar que talvez não seja credível. Faço mal. O inteligente seria ir investigar. Mas continuo a deslizar, penso que depois logo vejo se é mesmo verdade, e o que acontece é que nunca mais me lembro.
E, tal como tem acontecido com todas as aberrações, venho a verificar, depois, que, afinal, era mesmo verdade.
Quando um assunto é nebuloso, fora do nosso controlo, coisa complexa, há quem tenda a não querer saber. Uma reacção do tipo 'entrega para deus'. Só que, neste caso, não é bem a deus que se entrega. É à Open Ai, à Anthropic, à Gemini, sabe-se lá a quem.
"(...) A OpenAI afirmou que o que aconteceu foi um incidente "sem precedentes" e está a conduzir uma investigação em conjunto com a Hugging Face, cujo diretor, Clement Delangue, afirmou numa publicação no X que é "impressionante que tudo isto aconteceu de forma autónoma".
Só que não é apenas impressionante: é a prova provada dos reais riscos que todos corremos com a corrida desenfreada nos domínios da Inteligência Artificial. O mercado bolsista pressiona mais e mais ganhos e as empresas são pressionadas a entregar mais e mais, a chegar mais e mais longe.
Enquanto houver quem descubra o que vai acontecendo ou enquanto houver quem vá denunciado as linhas vermelhas que, aos poucos, vão sendo pisadas, talvez os riscos vão sendo amortecidos. Mas pode acontecer que um dia algo de muito mau aconteça sem que ninguém vá a tempo de travar.
Não é alarmismo. É a realidade. Os riscos começam a apertar o cerco. Como será da próxima vez?
_____________________________________
Ao acordar e ao dar uma vista de olhos pelas notícias vi o que também não queria ver: Luís Represas saiu de cena. Não devia. A sua voz parecia eterna. A sua voz mobilizava e emocionava multidões. Ficam os vídeos, os discos. É certo. E é também certo que ninguém cá fica. Mas ele foi cedo demais.
Como sempre acontece, quando sei destas notícias, tento compreender. Tento ver nas imagens que agora nos vão aparecendo se já havia indícios. Em Março esteve no concerto e, que se tivesse percebido, parecia bem, não parecia debilitado, cantava, não arfava nem tossia.
Dois familiares muito próximos morreram com cancro no pulmão. Foram anos de sofrimento com tratamentos horríveis. E tinham tosse, falta de ar, custava-lhes a respirar, tudo lhes doía. Um calvário. Mas, no caso da minha mãe, não foi assim. Não soubémos de nada até que já estava às portas da morte. Será que com o Luís Represas foi também assim? Saberia ele, no concerto de Março, que estava a escassos três ou quatro meses de se despedir deste mundo? Faz-me isso muita impressão. Ao ver agora as suas imagens, penso que estava mal encarado. Aliás, já o tinha achado envelhecido, enrugado. Na altura pensava apenas que a idade não perdoa, que era normal que, quase aos 70, não tivesse a mesma carinha de menino que sempre teve. Mas, agora que sei, penso que, se calhar, era já a morte, inclemente, a galope dentro dele. Se calhar é mórbido eu querer perceber o que talvez não tenha nada que perceber. Mas faz-me isto muita impressão. Ele e o João Gil e os outros ali em palco, todos reunidos. Saberiam que o fim dele estava para breve? Fico triste. Nem todas as perdas são assim, mas esta é. A morte não deveria ter levado já o Luís Represas.
Desde sempre ouvi dizer que é preciso lutar ou que, se a cabeça quer, o corpo obedece, ou que é preciso ter calma. Mas, leiga que sou, sei lá se há fundamentação científica paa o que mais parecem lugares comuns.
O vídeo que abaixo partilho impressionou-me bastante, pela honestidade e pela vulnerabilidade do testemunho. Talvez também pela humildade. A vida é frágil. E essa é a nossa condição.
Qualquer um de nós estremece perante a possibilidade de uma doença, em especial se vier com veredicto associado, e o veredicto for assustador. Mas, creio eu, para um médico ainda talvez seja pior. Lembro-me de uma grande amiga que, quando jovem, com duas crianças muito pequenas, se viu perante um problema gigante. O marido, médico, hiperactivo, divertidíssimo, sempre cheio de ideias e de genica, um dia, do nada, caiu para o lado. Um aneurisma. Não morreu logo mas ficou sem se mexer, e foi uma coisa mesmo dramática, impensável. E muito triste. Ainda viveu algum tempo, tempos muito difíceis. A minha amiga dizia: Não vale a pena tentarmos animá-lo porque ele sabe o que tem, sabe o que o espera. Fecha os olhos, não quer ouvir, não quer que tentemos consolá-lo. Ele sabe que não vai viver muito mais.
Um neurocientista que tem um cancro raro e agressivo e uma curta expectativa de vida sofre como qualquer pessoa, ou talvez mais porque tem a objectividade da ciência a formatar-lhe as ideias. Mas David Linden diz que a sua atitude sempre foi a de um nerd, a de querer perceber tudo, querer entender a biologia daquelas células que, dentro dele, cresciam descontroladamente.
Primeiro veio a revolta, depois a gratidão pelo que já tinha vivido e pelo apoio que sentia. Mas, sempre, a vontade de estudar, de compreender.
E uma coisa de que ele fala é como, de facto, cientificamente provado, a mente pode influenciar a sobrevida, e a qualidade da sobrevida. Não morreu ao fim dos seis a oito meses. Já passaram cerca de cinco anos e, pelo que diz e pelo que parece, está bem, o cancro ainda está lá, mas aparentemente controlado. E atribui sobretudo ao amor da mulher por ele e ao apoio dos filhos e dos amigos o prolongamento da sua vida.
Mas não o diz como homem de fé. Não tem fé, diz. Fala numa perspectiva científica. Estudos humanos e ensaios em animais demonstram como o exercício, a tranquilidade, um bom enquadramento social, haver uma rede de afecto, influenciam a sobrevida dos doentes cardiológicos ou com cancro.
Ainda estão a estudar quais as reacções biológicas que se operam para que tal aconteça. E dessa compreensão estão a nascer novos tratamentos que complementam os existentes.
O vídeo é longo e, por vezes, a terminologia é técnica. Mas é muito interessante. Não é só o lado humano, é também a esperança que estes novos caminhos da mente --- a mente como um centro não apenas reactivo mas de elaboração de previsões e de activação de recursos para lidar com essas previsões -- traz a quem enfrenta situações de susto e sofrimento.
[Relembro que dá para activar as legendas automáticas em português (do Brasil ou de Portugal)]
Os fenómenos bizarros que a medicina se esforça por explicar | David Linden: Entrevista completa
O neurocientista David Linden esclarece a biologia por detrás de fenómenos que a medicina há muito luta por explicar, desde as mortes associadas ao vudu e a síndrome do coração partido até ao efeito placebo, e porque é que o luto aparece nos resultados das autópsias.
Quando olho para trás admiro-me com a minha indiferença face a possíveis preocupações. Ainda no outro dia, em conversa, recordei que ia sozinha ao dentista ainda era bem miúda. Lembro-me de não apenas ir arranjar dentes como até de tirar um dente. Andava no liceu, não sei em que ano, talvez no actual 9º. Sei que estava a ler 'Por quem os sinos dobram' e que, por pensar que poderia ficar algum tempo à espera, levei o livro. E recordo isso porque fiquei surpreendida com a surpresa do médico. Uma criança pequena aparece ali sozinha para arrancar um dente e leva consigo um livro que não se esperaria ver nas mãos de alguém daquela idade. E lembro-me de ele também estar surpreendido por eu estar sozinha. A minha mãe dava aulas e logicamente nunca queria faltar. E nem a ela nem a mim ocorreu que pudesse acontecer alguma coisa que requeresse a presença de um adulto. E a verdade é que eu ia sem medo. Nunca fui com medo para o dentista.
Também ia sem qualquer receio fazer os exames para a inspecção médica que, na altura, era ultra detalhada.
Só comecei a fazer exames ginecológicos regulares ou mamografias razoavelmente tarde. Não me lembrava de tal coisa. Quando tinha algum problema de saúde, por exemplo gripe, ia ao médico de trabalho, nas instalações da empresa, e tudo se resolvia. Mas, uma vez, uma colega da minha idade apanhou um susto com um 'alto' que tinha sentido numa mama, teve que fazer exames, 'aquilo' teve que ser analisado e ela andava atrapalhada e dizia que deveríamos ter cuidado, fazer exames, e espantava-se por eu nunca ter feito nenhum, recomendava que eu não me 'desleixasse'.
Então, acabei por lá ir a um ginecologista (e não ia a um desde que o meu filho tinha nascido) e ele observou-me e prescreveu-me mamografia, eco mamária e eco pélvica. Fui fazer esses exames na maior descontração. Não me ocorreu ter receio ou preocupação.
Por isso, quando o médico que ia fazer a eco mamária se pôs a olhar com muita atenção para as imagens da mamografia que eu tinha acabado de fazer e desatou a fazer-me perguntas que não acabavam, comecei a desconfiar. Depois perguntou se eu não sentia os altos pela palpação... e eu nunca tinha feito palpação. Quando lhe perguntei o que se passava, mostrou-me as imagens e apontou para as bolinhas. Aí assustei-me e acho que até deixei de ouvir. Só voltei a sintonizar-me quando ele, percebendo o meu pânico, me disse: 'Falei em quistos, não em tumores'.
Tinha entrado na desportiva e saí amedrontada. Na eco pélvica, também tinham aparecido uns quistos.
A partir daí, logicamente tive que passar a vigiar.
Como não estava longe da menopausa, o que se veio a verificar é que os ditos quistos foram desaparecendo. Subsiste um numa das mamas que até já me pregou um susto valente, tendo sido 'picado' (leia-se, objecto de biopsia).
Mas para a biopsia também fui sozinha, apesar de, nesse caso, já nada descontraída. Felizmente, até ver (noc-noc-noc, três vezes na madeira), tudo bem.
Com os joelhos, também sempre fui descontraída. Inflamavam, doíam à brava, e ia trabalhar, conduzia. Cheguei a ir tirar líquido, uma tigela cheia, dores lancinantes, tudo a sangue frio, e sozinha, e ia a conduzir para a clínica e, depois daquilo, voltava a ir a conduzir, sempre com naturalidade, sem me ocorrer que poderia pedir ajuda ou poderia precisar de ser acompanhada. Depois, quando fui objecto de uma polémica artroscopia dupla (polémica porque quase todos os médicos que me viram a posteriori acharam que era escusada, desnecessária e, até, contraproducente) também avancei sem pensar, sem ouvir segunda opinião e sem me ocorrer que intervir nos dois joelhos ao mesmo tempo era capaz de não ser grande ideia. E não foi, não tinha uma perna boa em que me apoiar. Foi dureza.
E quando foi a cena do coração, aquele susto em que pensavam que eu estava a ter um enfarte agudo de miocárdio e me enfiaram numa ambulância e depois na sala de reanimação, também verdadeiramente não me assustei. Pensei que era estranho se calhar estar prestes a morrer e não sentir nada de mais. Mas, no meu íntimo, não sentia pânico, parece que tinha esperança que fosse um equívoco. E, felizmente, era.
E nem falo de quando tive os meus filhos que aí foi a dureza maior: parto induzido, dores e mais dores, dores terríveis durante horas, as crianças sem descerem, depois puxadas a fórceps, e tudo a sangue firo, recusando anestesias e dando indicação que cesariana só em último caso. Mas tudo na maior descontração e, mal acabando o parto, já pronta para outra.
Mas se isto é comigo, já a coisa fia mais fino se há algum problema com filhos e netos. Aí tenho que me controlar muito para não deixar transparecer a minha preocupação. Pode a coisa ser insignificante que eu só descanso quando os sei completamente bem. Quando eram pequenos, ao menor problema, o meu coração sobressaltava-se, aterrorizada que o assunto não fosse debelado, apavorada não fosse a coisa piorar. Uma irracionalidade completa. Salvava-me a calma do meu marido.
Mas agora o mesmo se passa comigo, a mesma preocupação exagerada, em relação a ele. Felizmente tem corrido tudo bem (noc noc noc -- outra vez três vezes na madeira). Mas, no outro dia, aquele jovem médico do SNS, nosso médico de família, sobre um conjunto de sintomas que o meu marido lhe referiu, disse: 'Estou convencido que não é cancro mas só o saberemos se virmos lá por dentro'. Quando o meu marido chegou a casa e me contou fiquei inquieta. Mas escondi, tentei fazer de conta que nem tinha ligado muito. Não quis transmitir preocupação. E, para falar verdade, racionalmente pensei que não, não devia mesmo ser cancro. Mas percebi o ponto de vista dele, pelos sintomas mais valia investigar. Aliás, tinha sido eu a dizer ao meu marido que marcasse consulta. Para além do exame principal, mandou também que se fizessem outros exames, nomeadamente análises. Fiquei numa preocupação, que escondi, até virem os resultados das ditas análises. Mas, felizmente, por aí, tudo bem. Fui ao chatgpt e perguntei se, estando as análises bem, se poderia excluir a hipótese do cancro. Disse que não. Refreei o optimismo que momentaneamente tinha sentido.
Enfim, lá foi fazer o dito exame. Eu estava uma pilha de nervos mas escondi. Nem falei na preocupação aos meus filhos, fiz de conta que era um exame banal. Parece que se falasse nisso estaria a assumir que o pior poderia ser acontecer, e não estava psicologicamente preparada para tal. Curiosamente, foi um dos meus netos, com quem fui a uma consulta por os pais não poderem, a quem eu disse que no dia seguinte o avô ia fazer o exame, que mostrou preocupação e me perguntou: 'Mas é um exame de rotina...?'. Disse-lhe que sim.
Mas, caraças, estava preocupada.
Pre-ocupada. A mente desnecessariamente 'ocupada' por antecipação.
Felizmente está tudo bem. Respirei de alívio. Fiquei mesmo contente. Acho que nunca estive tão preocupada com alguma coisa minha como fiquei agora com isto.
Pensava nos sustos, nas aflições por que passei com os meus pais. Parece que uma espada estava sempre prestes a abater-se sobre as cabeças deles e isso trazia-me sempre no fio da navalha. Mas o que se passou com eles foi numa idade já mais avançada e parece que uma pessoa está de certa forma conformada com a ideia de que, com a idade, começarão a aparecer os problemas. E, talvez absurdamente, parece que ainda não sinto que eu e o meu marido estejamos na idade em que as maleitas começarão a aparecer. Portanto, pensar na possibilidade de o exame nos trazer uma má notícia e pensar no que poderia vir a seguir, tem-me trazido bem preocupada. Mas fiz questão de não deixar transparecer pois também não queria preocupar mais o meu marido. E, depois, também me lembrava que, nos meus últimos anos de trabalho, a pessoa com quem trabalhei mais directamente teve um cancro, foi operado, fez radioterapia, depois, no exame de controlo, perceberam que tinha voltado e se tinha espalhado, uma situação grave, e foi mais radioterapia, depois mais quimioterapia, e vi bem como passa a haver um pânico latente, um pânico a corroer os dias, e um sofrimento físico e psíquico que torna a vida muito diferente do que era antes.
Mas isto para dizer que agora que descomprimi, parece que me saiu um peso enorme de cima. Uffff. Mil vezes uffff. Uffff, uffff, uffffff.
Só que, na véspera, praticamente não dormi. E, por pouca sorte, ontem também não pois o cãobeludo também tem andado com um problema, uma ferida que infectou, e, de noite, não descansou, inquieto, incomodado, e fez um barulho danado. Ou seja, hoje de tarde é que, finalmente, dormi, e foi a sono solto, e agora, de noite, aqui no sofá, também estive para a dormitar. Acordei para escrever este lençol e agora vou dormir para onde deve ser, para vale de lençóis.
Desejo-vos tudo de bom: saúde, sorte, boa disposição e dias felizes.
Até chuva de granizo tivemos. Este tempo não nos dá tréguas. Chuva, chuva, chuva. Frio, frio, frio.
A terra está coberta de musgo, as flores irrompem em toda a sua audácia, os campos mostram vigor. E as rochas estão lustrosas de tão lavadas que têm sido.
Estava a almoçar, uma chamada.
Interrompi o almoço.
As conversas costumam ser demoradas, vim cá para fora. Costumam ser notícias de conhecidos, pequenas intrigas, coisas divertidas. Mas desta vez a voz estava fechada. Depois de ouvir a conversa habitual, comentei: 'Está constipada? Está com uma voz...'. Ouvi, então, o que jamais poderia esperar: 'Não estou nada bem. Acho que estou com uma depressão.'. Fiquei quase sem saber o que dizer. Era a última pessoa a quem poderia esperar ouvir tal coisa. Pessoa mais prática, mais despachada, mais habituada a levar a vida com uma perna às costas, tudo sempre levado para a brincadeira. Só consegui pronunciar um 'Então...?'.
E então veio a explicação: 'O meu filho está com um cancro.'. Fiquei para morrer. Um rapaz novo. Tem trabalhado fora, de vez em quando vem e depois vai. Agora está cá. Perdeu 40 kg. De homem jovem e forte passou, em pouco tempo, para uma pessoa que, diz ela, está quase irreconhecível. Magro, os olhos a saltarem do rosto, sem cabelo. Diz que não sabe como não caiu ao vê-lo, como não desatou a chorar. Aguentou-se para ele não a ver a ir-se abaixo. Mas, depois, ficou com a cabeça a rebentar, nem sabia onde tinha a cabeça. Diz que não consegue pensar em nada, não consegue saber o que fazer. Sentiu-se mal, foi ao hospital. Receitaram-lhe ansiolíticos e recomendaram que passe a ter acompanhamento psicológico.
Tentei animar: 'Não operam? Pode ser que a operação resulte... A taxa de mortalidade já não é o que era, já há tratamentos eficazes.'. Quase sem voz disse-me que a médica explicou que não dá para operar, que é de um tipo que pode aparecer em todo o lado. Estava enervadíssima, não se explicou bem nem eu quis aprofundar. Dor maior. O sofrimentos dos filhos é muitas mil vezes mais esmagador que o nosso próprio sofrimento, é uma angústia, uma impotência. Quando se supõe que é um sofrimento sem esperança, pior, muitas mil vezes pior, uma dor infinita e trituradora.
Despedi-me, 'Força'. Ela disse: 'Bem preciso dela'. Depois, disse-lhe 'Um beijinho'. Com uma voz sumida, sumida, agradeceu.
Voltei a casa, o meu marido já tinha acabado de almoçar, já estava a ver televisão. Contei-lhe. Só disse: 'Coitada...'. Vi que estava consternado.
Acabei de almoçar, já sem vontade nenhuma.
Depois fui dar uma volta.
Reparei que na figueira começam a despontar as primeiras folhinhas.
Pensei que a natureza é sábia. Mesmo quando a árvore parece morta, a vida reaparece.
Quando penso nos meus filhos e nos meus netos claro que a primeira coisa que me ocorre é que o que mais desejo é que tenham vidas longas e felizes. Mas também que se sintam sempre motivados. Motivados seja para o que for, projectos pessoais, profissionais, sociais, o que for. E que, além disso, se sintam realizados.
Uma pessoa doente é terrível mas, admitindo que tem saúde (física), penso que não será feliz se não se sentir motivada, se andar encalhada, a arrastar-se, entediada, sem ter vontade de se fazer à vida. Também não será feliz, acho eu, se fizer coisas que não a realizem, se se sentir frustrada a fazer coisas que a deixam indiferente, vazia, contrariada.
Por isso, quando vejo uma pessoa motivada, realizada, feliz, e quando, ainda por cima, há o efeito surpresa associado ao que faz, fico até comovida.
O menino aqui abaixo, com poucos recursos mas com imaginação, motivação, sentido prático e uma noção clara de como é importante unir esforços e ousar, foi escolhido pela Time como o puto do ano para 2024. E parece-me bem. Todos os contributos para se tratar o cancro de pele são bem vindos.
Heman Bekele Is TIME’s 2024 Kid of the Year
Meet the 15-year-old scientist who could change how we treat skin cancer.
Heman Bekele spent the last year developing a bar of soap that could treat skin cancer. It was the winning entry at the annual 3M Young Scientist Challenge, considered one of the top science and engineering competitions for fifth through eighth graders
Não me perguntem porquê mas estive todo o dia super-ocupada.
Fiz as minhas caminhadas, é certo, e bem boas foram -- os campos todos verdinhos e floridos, as casas, à noite, iluminadas, os vizinhos, como sempre, sem quererem saber que a gente os veja tranquilamente nas suas casas, tudo certo.
Mas, tirando isso e o tempo para cozinhar, todo o resto do tempo estive ocupada.
Só um parêntesis de que agora, ao escrever aquilo das casas iluminadas de janela aberta e a gente a ver o que lá dentro se passa, me lembrei. Ontem, passávamos junto a um hotel, igualmente ao lusco-fusco, eis que calhou reparar que num dos quartos alguém se movia. Olhei, claro. Um homem, na verdade um belo corpo de homem, movia-se. Estava de cuecas. Olhei melhor. Isto da miopia é uma chatice. Uma pessoa, para ver melhor, tem que focar a visão, não é coisa que se faça num relance, desapercebidamente. Mas, com a discrição possível, consegui ver melhor. Lá dentro, sentado num banco, outro homem. Não tão corporalmente perfeito como o outro mas, ainda assim, razoável. Também de cuecas. Só isso, nada de mais. Fim de parêntesis.
Agora à noite, para descansar a cabeça, vi televisão: não apenas o interessante programa do José Pedro Vasconcelos, 'Alguém tem de o fazer' como o superdivertido Task Master.
Mas, para aqui partilhar convosco, não havendo outra matéria já que, de política, não me apetece prosear e de fofocas ando à míngua, trago um vídeo de que gostei. É assunto que me interessa e que está, infelizmente, cada vez mais na ordem do dia. É importante, acho eu, que estejamos informados pois abre uma janela de esperança para quem anda há mil anos a ouvir dizer que estamos cada vez mais próximos da cura do cancro. E estamos (mas nem sempre). E isto de que aqui se fala parece-me (a mim, leiga, leiga, mil vezes leiga) muito promissor.
Cancer-busting vaccines are coming: here's how they work
As vacinas contra o cancro estão a chegar: é assim que funcionam
A maioria das vacinas funciona ensinando o sistema imunológico a reconhecer vírus ou bactérias prejudiciais antes que uma pessoa seja infectada e adoeça. Algumas vacinas contra o câncer também fazem isso. Por exemplo, é dada uma vacina aos jovens como protecção contra o papilomavírus humano que pode causar cancro do colo do útero.
Mas os cientistas também estão a desenvolver vacinas contra o cancro que poderão ser utilizadas como tratamento, depois de o cancro ser descoberto.
Estas vacinas funcionam ensinando o sistema imunitário do corpo a distinguir entre células saudáveis e células cancerígenas anormais. Para fazer isso, os pesquisadores precisam identificar proteínas produzidas pelas células cancerígenas, mas não pelas células saudáveis. Essas proteínas podem ser usadas como um código de barras. A vacina ensina as células imunológicas do corpo a “ler” o código de barras, como forma de identificar o cancro. Este vídeo explica como essas vacinas são feitas e os prós e contras dos vários tipos de vacina contra o cancro.
Desejo-vos um feliz dia de domingo
Que a saúde, a alegria, a esperança, a beleza e tudo o que é bom renasça nas vossas vidas
Há uns anos a minha mãe andava cansada. O meu pai, que mal andava, tinha partido uma perna e tinha sido operado tendo, depois, sido internado numa clínica de reabilitação. Era verão, estava um calor dos diabos, e a minha mãe ia vê-lo todos os dias. Ao fim de semana e uma ou duas vezes durante a semana eu ia buscá-la a casa e íamos as duas vê-lo. Nos outros dias, ela ia de autocarro cuja paragem ainda era um pouco longe. Com temperaturas muito acima dos trintas e tais, era natural que se sentisse cansada. Por isso, não me preocupei assim muito com o cansaço, aconselhei-a foi a não ir todos os dias ou a ir de taxi. Como sempre, não me dava ouvidos e eu aborrecia-me pois temia que se desidratasse, que se esgotasse, não percebia porque, pelo menos, não ia de taxi. Pedia-lhe também que fosse ao médico para ter a certeza que estava tudo bem. E ela protelava.
Mas um dia ela achou que o cansaço não era normal. Foi ao médico, um médico mais velho que ela e de quem era amiga de há muito -- as consultas demoravam para cima de uma hora, creio que chegaram a duas, ele chegou a cantar (e os outros doentes à seca na sala de espera...) --, e ele mandou-a fazer análises. Não vou entrar em pormenores mas, intuitivo e experiente, de análise em análise, teve uma suspeita e mandou-a fazer uma colonoscopia. Não sei porquê, talvez porque andássemos tão focados no estado complicado do meu pai ou porque não nos ocorreu que alguma coisa muito grave pudesse acontecer com a minha mãe, a verdade é que ela achou que não era preciso eu ir, que ia com a sua vizinha e amiga, sempre presente e disponível. Eu trabalhava nessa altura e tinha querido ir mas a ideia que tenho é que não estava à espera que dali pudesse sair algo de dramático.
Contudo, quando, no dia em que foi fazer o exame, ela me ligou, nervosíssima, a dizer que era melhor eu ir já lá a casa pois tínhamos coisas a resolver, fiquei em choque. Não me quis adiantar mais nada mas percebi imediatamente o que se passava.
Quando lá cheguei, estava lá a amiga que já tinha sido operada umas quantas vezes a cancros e que já tinha várias peças a menos. Um exemplo vivo de que o cancro já não é sentença de morte. A minha mãe estava nervosíssima, preocupadíssima, mas não em pânico. Além disso, o cancro estava em estadio inicial, era o menos grave dentro do que era, e, portanto, as perspectivas eram animadoras, digamos assim.
Imediatamente, a família -- que, como tenho revelado, tem ligações ao mundo da medicina -- pôs em marcha os contactos e quase imediatamente uma cirurgia começou a ser planeada num hospital privado. Felizmente a minha mãe tinha não apenas ADSE como um bom seguro de saúde e, portanto, todo o processo foi muito ágil e sem restrições financeiras.
Mas se a minha mãe estava muito apreensiva, eu, por dentro, sentia-me deveras aflita. O meu pai que, entretanto, teve alta da clínica e estava em casa, acamado, muito dependente, e a minha mãe, que eu julgava saudável, estava com cancro. Contudo, esforçava-me, ao máximo, por não demonstrá-lo para ver se transmitia alguma tranquilidade já que a minha mãe estava igualmente preocupada por ter que deixar o meu pai em casa sem o seu cuidado. Não foi fácil, de facto, toda a logística que teve que ser montada para que o meu pai ficasse bem, acompanhado. Eu ia lá levar todas as compras, transmitir-lhe boas notícias da minha mãe, descansá-lo.
Mas esse esforço, para mim, era o menos. Lembro-me, sobretudo, do medo que senti quando ela foi fazer uma ressonância magnética para ver se o cancro não estava espalhado ou quando fui com ela à consulta com o anestesista ou quando fui levá-la ao hospital para a cirurgia ou quando fui à consulta para saber se havia células cancerosas no tecido linfático que tinha sido retirado juntamente com parte do cólon. Sentia-me em pânico.
Mas o médico tranquilizou-nos, que estava tudo bem, que tinham retirado tudo e que não havia receios. Disse-lhe, sorridente: 'Disto não vai morrer'.
De facto, ficou bem. Os anos passaram, fazia exames, e estava tudo bem.
Mas a mim custou-me a ultrapassar o medo que trazia dentro de mim desde a surpresa do diagnóstico de cancro da minha mãe.
Quando, há pouco tempo, se percebeu que se calhar algo de grave estava, outra vez, a acontecer com ela e quando a TAC o confirmou, senti-me esmagada. Andava há cerca de um ano e picos convencida que ela padecia de uma hipocondria extrema e queria que ela se tratasse da ansiedade que isso lhe causava. Na verdade, apesar de ter noventa anos, eu estava convencida que ela ainda teria vários anos de vida pela frente.
Quando tivemos a certeza de que estava outra vez com cancro e que este estava tão avançado que já não teria muito tempo de vida, já ela estava muito mal, já sem andar, quase sem conseguir falar, sem forças. Portanto, não lhe chegou a ser dito a ela o que tinha pois, apavorada que andava sobretudo com os tratamentos, achando que todos os seus males resultavam dos comprimidos que tomava para o coração, achámos que não deveríamos atormentá-la com este diagnóstico. Contudo, logo depois, por mero acaso, soubemos que, afinal, há cerca do tal ano e picos ela tinha sido insistentemente alertada para o que muito provavelmente tinha e que deveria fazer mais exames e tratar-se, o que não fez e ocultou de todos.
A partir daí viveu pouco mais que um mês. E foi um tormento, um declínio agudo, galopante, rápido, doloroso. Ela sabia o que tinha embora, inicialmente, nesta fase final, continuasse a parecer ignorá-lo. No fim, já falava do assunto, embora nunca tivesse verbalizado a palavra cancro, e mostrava-se aterrorizada com a perspectiva de ir morrer. E isso a mim devastava-me.
Cada pessoa lida com a finitude à sua maneira.
A equipa médica e a psicóloga aconselharam-nos sobre a forma de lidarmos com a situação mas devo dizer que foi um período tão intenso e assustador que, apesar de breve, ainda hoje ando a processar.
A minha família e amigos e mesmo a equipa médica tentavam fazer-me ver que, sendo certo que ninguém é imortal, longa vida já a minha mãe tinha tido e que, apesar de tudo, a sua decisão tinha sido inteligente pois, na idade dela e já com algumas limitações cardíacas, certamente não iria poder suportar terapêuticas agressivas. Assim, viveu autónoma e razoavelmente bem até pouco antes de morrer.
Mas saber que ela tinha um cancro que avançava exuberantemente e que não havia nada a fazer e que cada dia podia ser o último foi uma coisa horrível para todos os que lidaram de perto com a situação e, para mim, talvez ainda mais.
Pouco tempo antes um amigo e colega tinha sabido que um cancro que ele julgava resolvido tinha reaparecido com agressividade, obrigando-o a radioterapia que, como não resultasse, obrigou, de seguida, a passar para a quimioterapia. Isso fez-me muita impressão. Conversava com ele muito abertamente sobre isso, ele falava dos seus medos e de como ficava abalado e doente depois das sessões. E eu, tão solidária e triste com a doença do meu amigo (e, por via disso, a sentir que tinha a obrigação moral de continuar a trabalhar para lá do que queria pois não ia abandoná-lo nem à empresa numa altura em que ele estava tão fragilizado), não fazendo a mínima ideia de que a minha mãe tinha um cancro dentro dela, comentava isso com ela. E ela nada deixava transparecer. Perguntava-me muitas vezes por ele mas eu pensava que o interesse dela era sobretudo por saber que eu queria deixar de trabalhar mas tinha decidido esperar até que isso fosse possível. Se soubesse o que se passava com o seu estado de saúde, jamais teria conversado com ela sobre isso pois imagino que ficava cheia de medo e, ao mesmo tempo, deveria fazer um grande esforço para eu não perceber.
Faz hoje dois meses que morreu.
Continuo a não encaixar a sua ausência num horizonte temporal coerente. Por vezes parece-me coisa muito recente. Acontece-me pensar que está na hora de lhe ligar ou ter muito presentes algumas observações suas e até me parece quase mentira que já cá não esteja. Mas, noutras vezes, parece-me que a minha mãe viveu numa outra dimensão da minha vida, uma dimensão que já não existe.
_____________________________________
Imagino o susto e a aflição que igualmente Kate Middleton, jovem mãe de três filhos pequenos, tem atravessado. Vê-la magra, branca, enervada, a falar da sua situação fez-me relembrar os meus medos, os medos da minha mãe. Ou as aflições de uma amiga a cuja mãe foi diagnosticado um cancro também terminal, tinha a senhora cinquenta e tal anos. Ou o susto e ansiedade de uma outra pessoa da minha família. Ou o que se passou com os meus tios. Ou com o meu sogro. Ou com uma tia do meu marido. Ou, há dias, uma amiga a quem foi extraído um nódulo canceroso, supostamente não tendo ficado nada lá que dê preocupação. Ou tantos outros casos. Uns felizmente foram interceptados a tempo e as pessoas ficaram com uma história com um final bem sucedido para contar. Mas é sempre um susto, uma agonia.
Espero que Kate e todas as outras pessoas que estão a atravessar este período de luta em que ainda não se sabe quem vai levar a melhor, se as células benignas, se as células malignas, tenham boa sorte e voltem a respirar de alívio e a viver serenamente.
A vida é curta, bem o sabemos. Mas não precisa de ser curta demais nem de envolver sofrimento.
Para além dos comentários aqui e dos mails de Leitores a quem muito agradeço, tenho recebido muitas mensagens de amigos, palavras de conforto e solidariedade.
Nos últimos tempos (na verdade, nos últimos dias -- foi tudo tão rápido que quase perco a noção do tempo), como a minha mãe quase não tinha voz nem coordenação motora suficiente para atender chamadas, pediu-me para eu trazer o seu telemóvel para casa. Aqui tem estado. Enervadíssima como andava, tirei-lhe logo o som pois sei que me faria impressão ouvir o seu telemóvel a tocar. Mas, de vez em quando, ao longo do dia, ia vendo se havia chamadas não atendidas ou mensagens. E ia respondendo ou devolvendo chamadas, tendo sempre o cuidado de dizer logo de início que não era a minha mãe mas a filha e explicando a razão de ser. Mas, por via disso, fui falando com várias das suas amigas.
Hoje recebi, no meu telemóvel, uma chamada de um número que não faz parte dos meus contactos. Nada de mais pois não apenas o ano passado deixei de ter o telemóvel da empresa como tive que trocar o aparelho em si, por avaria, e, com estas mudanças, não sei como -- ou melhor, sei: certamente por nabice --, perdi inúmeros contactos. Quando atendi a chamada, do outro lado uma foz sumida, entrecortada, falta de rede, quase não se percebia. Deu apenas para entender que, muito ao longe, era uma voz de uma idosa e consegui distinguir o nome da minha mãe. Quando tentei perceber quem falava, a chamada foi entrecortada, posta em espera, e depois caiu. Quando contei isto aos meus filhos, ao chegar a este ponto, ambos me perguntaram se eu tinha pensado que estava a receber uma chamada do além. Não, não pensei. Pensei que poderia ser uma das suas amigas embora isso fosse pouco provável pois tinha-me comunicado com elas através do telemóvel da minha mãe e não do meu.
Devolvi a chamada e tive outra vez muita dificuldade em perceber. A pessoa estava num local com pouca rede ou não devia estar a pegar bem no telemóvel. Até que, ao fim de algum tempo, lá consegui perceber que era a minha tia cujo nome é o mesmo do da minha mãe. É casada com o irmão do meu pai. São os meus dois últimos tios vivos.
Esta minha tia está muito debilitada, com muitas dificuldades entre as quais a da fala. Não foi ao velório nem ao serviço fúnebre pois tem grandes limitações, entre as quais a nível locomotor.
Aliás, na pequena cerimónia antes da cremação, um dos momentos em que quebrei foi quando chegou a minha prima com o meu tio pelo braço, já um pouco trôpego, muito abatido e muito triste. Não tinha ido ao velório na véspera porque estava frio e para a minha tia não ficar sozinha à noite. Veio ter comigo e abraçou-me, muito comovido, e vi-o a balbuciar, certamente queria dizer-me algumas palavras, mas não conseguiu dizer nada. Ele e a minha mãe conheciam-se desde sempre, sempre foram amigos e sempre cuidaram do jardim um do outro quando algum deles se ausentava. Tinha-me a minha prima dito que os pais nem queriam acreditar que a minha mãe tivesse morrido pois a minha mãe era, para eles, o exemplo a seguir, a pessoa cheia de dinamismo, com uma vida activa, a estudar, a caminhar, a conviver. Ver o meu tio, já tão velhinho, tão comovido, tão sem palavras, partiu-me o coração.
E a minha tia deve ter estado a ganhar coragem para me telefonar pois estava também muito emocionada, muito triste. É inevitável que pensem que, do grupo de familiares daquela idade, já só resistem eles. Custou-me muito falar com a minha tia, a voz muito apagada, estava a evitar chorar, muito triste. Às tantas, depois de falar das suas maleitas, disse-lhe que ela, se calhar, devia ir mais para o jardim, apanhar algum sol. Faz-me impressão que esteja o dia todo dentro de casa. Mas mal consegue andar e tem medo de cair. E eu percebo-a. A minha prima é incansável. Não sei como, dada a sua muito absorvente vida profissional, consegue ir a casa dos pais todos os dias. Mas, claro, só o consegue ao fim do dia. E os meus tios também só aceitam uma pessoa para ajudar na lida da casa três manhãs por semana, pois o meu tio sempre foi muito activo e quer manter alguma actividade e, além disso, querem manter a ideia da sua independência e a sua privacidade. Portanto, no resto do tempo, estão por sua conta. Ora, face a isso e consciente das suas fragilidades, tentam limitar os riscos. Mas é muito triste pois sentem-se diminuídos nas suas capacidades e, de certa forma, isso retira-lhes muita da sua alegria de viver.
Uma das minhas dúvidas, e sobre a qual não cheguei a falar com a psicóloga e ser-me-ia muito útil, tem a ver com eu não saber bem o que dizer para animar uma pessoa que está prestes a morrer, como era o caso da minha mãe, ou que, pela idade e pela sua condição física, já não tem esperança de recuperar a sua anterior mobilidade ou agilidade ou, por consequência, a sua independência. Acho que não se deve mentir mas também me parece cruel pedir à pessoa que aceite com naturalidade a sua condição ou a finitude da vida. Tenho que me informar, pedir conselho, pedir ajuda.
A minha tia ligou para me tentar confortar mas, na verdade, eu é que queria confortá-la a ela. Falei-lhe na filha, sempre tão dedicada e amiga, nos netos, na bebé bisneta, tão linda, disse para ela pensar nos momentos bons. Mas ela, já tão cheia de limitações, sentindo-se tão triste por já praticamente nada poder fazer em casa, naturalmente não se anima com conversas destas.
Por isso, fiquei bastante triste com este telefonema. Disse-lhe que quando agora for à casa da minha mãe, vou a casa dela dar-lhe um beijinho. Até lá tenho que resolver aquela minha dúvida pois agora que a minha mãe morreu, ainda mais desanimados e tristes eles estão.
Acontece que desde o dia da cremação fiquei aflita com dores, primeiro numa anca, depois num dos joelhos. Não sei se foi por estar muitas horas de pé, se foi do frio, se foi pelo stress, parece que fiquei tolhida. Ontem fomos buscar as coisas da minha mãe mas quem foi ao quarto buscar as malas foi o meu marido. Eu não saí do carro não apenas porque me custaria demais mas também porque estava quase sem conseguir dar passo. De noite tomei um comprimido para as dores. Dormi imenso. E acordei melhor. E hoje estive de repouso, nem fiz as caminhadas do costume nem nada.
Portanto, aproveitei para ler. E fui ler o segundo livro da autobiografia da Rita Lee. Chama-se 'outra autobiografia'. Estava na dúvida dado que foi o que ela escreveu no período que decorreu entre o diagnóstico de cancro e a sua morte. Mas, por algum motivo, foi justamente esse o livro que quis ler.
Acabei-o há pouco. Divertido como o anterior, leve, alto astral, uma escrita colorida, vibrante, bem temperada.
Descreve como descobriu a doença, os exames, depois a a radioterapia, a quimioterapia, os efeitos secundários, a fragilidade, as metástases que iam aparecendo, o tumor externo que apareceu e a que apelidou de Jair e como queriam ver se acabavam com ele, os ataques de pânico, a casa transformada para a acolher, a enfermeira lá em casa, as idas e vindas ao hospital. Tudo descrito sem meias palavras, sem falsos pudores, sem tabus. Não me impressionou nada. Não é um livro triste, depressivo. Não. É apenas a descrição do que se passou, uma descrição que se lê com curiosidade e, por vezes, aliás, muitas vezes, com um sorriso.
E fez-me muito bem. Ainda com mais certeza fiquei de que a minha mãe tomou a decisão correcta.
Note-se que não estou a dizer que é a decisão correcta em geral. O cancro hoje não é a fatalidade que era há uns anos. Há cada vez mais casos de cura e há cada vez mais casos em que o cancro se torna uma doença crónica, algo com que se vive quase como se não existisse. Mas, no caso da minha mãe, com uma insuficiência cardíaca que afinal também já era terminal, já não suportaria tratamentos agressivos. Portanto, para quê a angústia de exames complicados, para quê a angústia de tratamentos que, mesmo que sobretudo de contenção, menos agressivos como a radioterapia, poderiam ter implicações que, se calhar, a deixariam ainda mais debilitada?
Assim, guardou o assunto apenas para si própria. E, desde que o corpo fraquejou até ao fim, foi rápido. Sofreu bastante, sobretudo, porque assistiu, em toda a sua lucidez, ao avançar galopante da doença, mas foi rápido, menos de dois meses.
No caso da Rita Lee é natural que tenha feito de tudo para tentar travar a doença pois tinha apenas setenta e cinco anos e há combinações terapêuticas cujas taxas de sucesso são encorajadoras.
Mas o caso dela é daqueles casos em que, como diria o meu filho referindo-se a um familiar próximo, se pode dizer que se esforçou bastante para ter aquele cancro. Conta ela que sempre fumou muito, cerca de dois maços por dia, e que, durante a pandemia, já ia em três maços e meio por dia. Claro que o tabaco não é a única causa mas quando se fuma tanto como ela fumava as probabilidades aumentam.
Eu, que fui fumadora, sei bem que a gente só pára quando tem mesmo vontade de parar, uma vontade nossa, que vem de dentro. Não é a conversa dos outros que nos leva a essa decisão. Toda a gente sabe que fumar faz mal. Mas quando vejo tanta gente que ainda fuma, em particular parece que agora até são mais as mulheres que fumam, fico com pena que não tenham vontade de deixar de fumar.
Mas, enfim, não tenho espírito de missionária pelo que as missões antitabagistas têm que ficar para quem tenha vocação para tal.
Pela parte que me toca tenho agora que apanhar ar, apanhar sol, começar a ocupar a cabeça com pensamentos alegres. Claro que tenho pela frente tarefas que, por antecipação, me atormentam um bocado, ou melhor, muito: as papeladas, as malas que tenho na cave, a casa... Mas, enfim, uma coisa de cada vez. Para já tenho que respirar.
________________________________________
Rita Lee - Ôrra meu
[Gravado em casa, com o marido e um dos filhos, durante a pandemia, antes de lhe ter sido diagnosticado o 'troço', como ela, por vezes, se refere ao cancro]
Um assunto que, no contexto da finitude da vida, sempre me perturba um bocado não é tanto o de aceitar que somos seres efémeros, passageiros numa viagem que não é infinita, mas o de que muitas vezes se está prestes a chegar ao fim sem que disso sequer se suspeite.
A primeira vez que essa ideia me assolou, e já falei disso aqui, foi quando uma tia do meu marido, uma tia queridíssima, muito bem disposta, sempre a levar tudo para a brincadeira, senhora de um recortado e fino humor, num certo dia em que o gato ia ficando entalado na porta, tendo-se assustado, deixou de falar. Toda a gente pensou que, sendo o afecto dela pelo gato tão grande, o susto tinha sido tão intenso que se tinha produzido ali um estranho efeito psicológico. Mas os dias passavam e a ela não recuperava a fala. E estava estranha, como se tivesse ficado um bocado debilitada. A família toda intrigada com tão bizarra reacção. Sobretudo intrigados, chamaram o médico a casa. O médico mandou fazer exames. E os exames não poderiam ter deixado a família mais perturbada: um tumor no cérebro. Não voltou a recuperar a fala e morreu pouco tempo depois. E, no entanto, antes do episódio do gato, nem ela nem ninguém suspeitaria que o seu fim estava bem próximo.
Com o meu tio aconteceu a mesma coisa e também já o contei. Forte, cheio de vitalidade, cores de pessoa com saúde para dar e vender. voz franca e forte, grande e bom conversador, amante de história e de política, sempre com vontade de relacionar assuntos do antigamente com a actualidade. E com um bom humor imbatível. Ria enquanto falava, ria de gosto. Quando o meu pai teve o AVC foi o grande apoio da minha mãe, sua irmã. Transportava-os às consultas, ajudava o meu pai nas escadas e a andar e a entrar e sair do carro. Estava sempre disponível, sempre bem disposto. Ele e a minha tia, um casal do mais bacano que há. Até que inesperadamente se descobriu que ele estava com um cancro avançado. Sem sintomas, dores, nada. Ao olhar as fotografias dessa altura, ele sempre na boa, sempre com aquele seu ar de homem saudável, nem ele nem ninguém desconfiava que não seria por muito tempo.
A seguir foi a minha tia que recebeu o mesmo veredicto. E foi a mesma surpresa. Num instante desapareceram. O casal a que não se conheciam doenças de relevo, sempre felizes, com uma vida saudável, foi-se sem que antes qualquer um tivesse percebido que o fim estava para breve.
Claro que, perante situações assim, duas atitudes podem ser assumidas: a pessimista, a de que não sabemos como estamos por dentro e de qual a nossa sina pelo que não vale a pena entusiasmar-nos com coisa alguma pois pode ser sol de pouca dura, ou fazer de conta de que nunca pensamos nestas coisas e viver a vida na boa, felizes por estarmos bem e não deixar que receios, porventura infundados, se aproximem de nós. Tendo a achar que a segunda é a melhor.
Nos sítios por onde tenho andado não posso ignorar que tenho estado muito perto de quem está a caminho do fim da linha, com as angústias que isso sempre traz aos próprios e aos próximos. Para me distrair, penso que todos estamos a caminho do fim da linha. Desde que nascemos que o estamos. Uns mais depressa, outros mais rapidamente, uns com maior outros com menor sofrimento. Que dizer de uma menina que na escola é perfurada por um estilhaço do vidro da porta em que embateu? Ou de jovens que, talvez pela animação do álcool, se envolvem em brigas das quais nasce a morte de um deles?
No outro dia morreu um familiar próximo de um amigo. Morte inesperada, prematura, deixando toda a gente consternada. E, no entanto, quando soube como foi, pensei que foi uma morte feliz e que a família deveria encará-la assim. Morreu sem o prever, sem sofrimento, de súbito, no local em que mais gostava de estar.
Os meus filhos vão achar que este post é deprimente e que eu deveria procurar a psicóloga. O meu marido, se os ouvir dizer isso, vai insistir no mesmo. Estranham ver-me assim e eu compreendo-os. Mas não sei se não é normal que eu pense nisto e se não é até racional que, com a serenidade possível, eu reflicta nestas coisas.
Uma amiga há pouco enviou-me uma mensagem a lamentar eu não ir a um almoço de grupo e a dizer para eu ligar a combinar alguma coisa. Mas, ao mesmo tempo, face às minhas actuais circunstâncias, a compreender que eu esteja sem grande disposição para participar em encontros em que toda a gente quer é estar animada e feliz e não a falar em preocupações ou com reflexões sobre a finitude da vida. Claro que toda a gente sabe que é finita mas, caraças, isso tem que ser dito em voz alta...? Acho que não. Por isso, reservo a minha participação para quando estiver a milhas de pensamentos destes.
Tirando isso, posso acrescentar que fui comprar uns pijamas para a minha mãe pois no fim da semana foi transferida para um local onde vai continuar a ser cuidada e, dos pijamas que tem, uns acho que são talvez quentes demais e outros talvez frescos de mais pelo que, apesar de ela não se queixar, arranjei-lhe uns bonitos que não são quentes nem frios. E, porque precisava desvairadamente de me alienar e estava tudo em saldos, apesar de não precisar de nem mais uma só peça de roupa até ao fim da minha vida (mesmo que viva até aos cento e cinquenta anos), marimbei-me para isso e cedi à tentação: uma blusa, uma camisa e um poncho. Quero lá saber. Até uns brincos e um colar mega hiper coloridos eu comprei. Apetece-me ter vontade de me revestir de todas as cores.
E quando fui ao supermercado comprar peixe, legumes, kefir e etc, resolvi fazer um desvio até à cosmética e, vendo um creme transparente que diz conter ácido hialurónico, não quis cá saber de coisas e comprei-o também. Pode não preencher ou reafirmar mas mal não deve fazer e imagino que seja uma sensação fabulosa colocar na cara um creme transparente como água.
Quando cheguei a casa, como tinha andado a provar roupas, antes de trocar de roupa tomei banho e usei aquele gel que se transforma em espuma e que supostamente tem poderes de relaxamento que recebi de presente de natal. Deve ter feito um bom efeito pois mal me sentei no cadeirão adormeci profundamente.
E acordei com vontade de voltar a escrever com aquela motivação aguda que me causa um frisson miúdo nas entranhas. E, caraças, quero mesmo acreditar que um dia vou conseguir descobrir uma editora que acredite que o que eu escrevo tem público e resolva apostar em mim.
Um dia há-de acontecer. Tenho esperança.
______________________________
E porque não quero que fiquem a olhar para isto e a achar que estou é a ficar deprimida ou mais lelé da cuca do que era costume ou que só tenho pensamentos que não interessam nem ao menino jesus, termino com umas fotografias que mostram Julia Fox num evento da Sotheby em Nova Iorque na semana passada. E, tal como tive o cuidado de informar no título da mensagem, o vestido não é de noiva nem consta que ela tenha namorado. Igualmente encantadora é a carteirinha de mão que a sua acompanhante levava. Não que me passe pela cabeça pôr-me nestes preparos mas, ainda assim, acho que aqui devo deixar registo de tamanha ousadia (ou maluquice).
_________________________________________________
Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
À medida que a esperança de vida vai aumentando maiores as probabilidades de que algum desenvolvimento celular descarrile.
Provavelmente toda a gente tem na família alguém que tem ou teve cancro ou em que o próprio o tem ou já teve.
Na hidroginástica, uma das minhas companheiras teve cancro na mama e ostenta com orgulho a sua mama amputada que, entretanto, sofreu uma intervenção plástica. Dizia ela no outro dia, no balneário, que acha que quase toda a gente que vive até tarde tem grandes probabilidades de ter cancro mesmo que muitos o tenham sem o saberem. Claro que, quando ela disse isso, todas ficámos em silêncio. Eu senti-me encolher por dentro. Tive vontade de dizer: "Porra, vire essa boca para lá...". Mão não disse nada até porque provavelmente está certa.
No meu caso, já tive dois familiares próximos do lado do meu marido que morreram de cancro, sendo que num dos casos a grande quantidade de tabaco que consumiu durante toda a vida o pré-anunciaria. Do meu lado, tive um tio directo que também morreu do mesmo, embora nunca tivesse sido fumador, a minha tia por afinidade, mulher dele, também morreu de cancro, noutro sítio do corpo. E a minha mãe também o teve embora (noc-noc-noc, três vezes na madeira) tenha ficado bem. Na minha família alargada, a que veio pelo lado conjugal dos meus filhos, mais dois casos, um felizmente ultrapassado (noc-noc-noc, outra vez na madeira) e outro controlado. E a pessoa com quem mais directamente trabalhei nos últimos anos está a passar pelo calvário dos tratamentos depois de uma recidiva e de uma metastização.
Ninguém pode, pois, achar que é uma realidade que lhe é distante.
No outro dia, quando fui a uma consulta de rotina, estive numa sala de espera ao pé da ala de oncologia. Como estive bastante tempo à espera de ser chamada, ia vendo as pessoas que entravam ou que saíam. Todas as idades.
Embora cada vez mais os cancros sejam tratáveis, saber que se tem um continua a ser uma daquelas notícias que ninguém quer receber pois, numa primeira reacção, é como se fosse uma sentença de morte.
Desde que me lembro de ser gente que tenho ideia que, de vez em quando, surgia uma notícia de que uma nova investigação parecia ser promissora no tratamento do cancro. Mas embora os progressos sejam notáveis, parece que o milagre ainda não aconteceu.
Contudo, de forma muito consistente, têm agora vindo a lume notícias muito animadoras. Dá ideia que não são apenas ideias e projectos mas já realidades. E, quando começa a haver experiência e historial clínico, penso que é caso para nos animarmos.
Tomara. Tomara. Tomara. E que a investigação receba sempre todos os apoios possíveis.
A breakthrough in eradicating cancer | Eric Tran | TEDxPortland
-- Com legendagem em português --
O Dr. Eric Tran e sua incrível equipe são pioneiros na imunoterapia contra o cancro - uma "primeira vez global" nos esforços de redução de tumores. O trabalho que está sendo feito usa uma infusão de 16 bilhões de células T reprogramadas para atingir as células cancerígenas e removê-las do corpo. Isso mostra que o nosso sistema imunológico é capaz de curar o cancro avançado. Embora o cancro seja formidável, nós também somos. Você achará esta palestra inspiradora e esclarecedora, pois encorajamos nossos esforços para erradicar esta doença.
Eric fez parte de uma experiência histórica de mais de 7.000 participantes numa experiência a 10 anos.
Desde que me lembro, ouço falar em investigações, em ensaios promissores, em avanços significativos, em descobertas animadoras.
E, de facto, muito se tem avançado. Há imensos casos de cura completa e definitiva, há outros casos em que já se trata como uma doença crónica.
Contudo, os tratamentos, em muitos casos, são incómodos, quase incapacitantes, e os exames são um sofrimento sobretudo pelo receio de más notícias que, tantas vezes, são sentidas como sentenças.
Ainda há dias soube que uma pessoa que conheci pujante, todo ele seguro de si, morreu em pouco tempo. Uma outra pessoa que me é muito próxima, depois de pensar que o pior tinha sido ultrapassado descobriu que, afinal, não foi e está agora a passar pelos tormentos da quimioterapia. E a angústia não é apenas o mal-estar dos tratamentos mas, sobretudo, o receio de tudo o que ainda pode estar por vir.
Quando um dos meus tios esteve doente eu li, li, tentei perceber quais as perspectivas para o caso dele, se havia ensaios em algum país. Na altura, li sobre tratamentos promissores em Cuba. Ele não se entusiasmou, achou que já não iria a tempo e que, além disso, que já não tinha capacidade física para viajar até lá. Cheguei a andar a informar-me na Embaixada, o meu primo falou com o médico dele que ficou também de se informar. Infelizmente o meu tio tinha razão. Morreu poucos dias depois com uma embolia.
Mas mantenho a curiosidade. De cada vez que passo por notícias vou espreitando. Sou leiga, leiga, leiga. Leio como uma leiga. Não percebo muito do que leio. Mas interesso-me.
E, do que tenho visto recentemente, o que me parece mais animador é isto que aqui hoje partilho.
O sucesso dos medicamentos baseados em mRNA no combate ao coronavírus está a inspirar cientistas a criar vacinas semelhantes para melanoma e outros tumores.
Em dezembro de 2022, a empresa de biotecnologia americana Moderna, uma empresa que emergiu de uma relativa obscuridade para se tornar um nome familiar durante a pandemia, publicou os resultados de um ensaio clínico que repercutiu no mundo da pesquisa do cancro.
Conduzido em parceria com a empresa farmacêutica MSD, demonstrou que uma vacina contra o cancro de RNA mensageiro (mRNA), usada em combinação com imunoterapia, poderia oferecer benefícios significativos a pacientes com melanoma avançado que receberam cirurgia para remover seus tumores. Após um ano de tratamento, o estudo de fase IIb descobriu que a combinação reduziu o risco de recorrência do cancro ou morte em 44%.
(...)
E abaixo em vídeo.
Não está traduzido, infelizmente, mas ainda assim acho que vale a pena aqui deixar esta informação:
Could COVID vaccine technology cure cancer? | DW News
O cancro está entre as principais causas de morte no mundo. Mas agora, graças a uma tecnologia de ponta para a vacina COVID, podemos estar mais perto de parar o cancro. A BioNTech da Alemanha está a lançar neste outono um ensaio no Reino Unido com vacinas personalizadas contra o cancro neste outono.
Tomara. Tomara. Tomara.
_____________________________________________
E, por falar em esperança,
Paz na Ucrânia
Paz. Paz mas a paz que nasce da liberdade, da dignidade, do direito a viver num país independente, autónomo, autodeterminado.
A paz que apenas será possível quando a Rússia tirar as patas e as mãos ensanguentadas da valente e gloriosa Ucrânia.
E que todos os cidadãos decentes, democratas e solidários, se mantenham firmes no apoio à Ucrânia e na condenação da Rússia de Putin.
Continuo a fazer justiça aos bloggers que acompanho e que, por um ou outro motivo, acho que se destacam.
Não quero com isto dizer que os que aqui refiro são forçosamente melhores que os outros de que não falo (até porque tudo isto é tão subjectivo que o que é melhor para um é treta para outro), digo apenas que, pelos motivos que refiro, os acho mais (qualquer coisa) que os outros.
Se os conhecesse a todos pessoalmente poderia aqui trazer o mais fofinho, o mais aluado, o mais zarolho, o dono dos caracolinhos mais lindos, o que anda melhor ao pé-coxinho, o que tem a voz mais sensual, etc. E, volto a dizer, escrevo no masculino mas tudo se aplica a eles e a elas.
Aliás, estou super desactualizada ao escrever, como se apenas houvesse eles ou elas. Em muitas coisas começo a sentir-me à margem dos avanços. As pessoas falam e não sei do que falam. Acontece isto com a gramática portuguesa. Os meus netos falam de coisas que nunca aprendi e que me vejo grega para perceber de que se trata. Pior: não percebo o que é que aquilo acrescenta em relação ao que aprendi, sendo que metade do que aprendi nessa matéria já era a modos que de interesse duvidoso. Isto dos géneros é outra. Ainda não atinei com a categorização assente em terminologias que não há meio de assimilar: não-binários, cisgénero, transgénero, ou pansexual ou poliamoroso. Sei que uns têm a ver com identidade de género, outros com orientações sexuais e outras, tenho ideia, com práticas. Mas, quando ouço no meio da conversa, nunca me lembro onde é que a coisa encaixa e o que é que exactamente significa.
Assim, fico-me pelas categorias que se conseguem depreender a partir do que os -- ou as ou @s -- bloggers escrevem, das músicas ou das imagens que escolhem ou dos temas que lhes despertam interesse.
A mais guerreira. E a minha dúvida, em relação a ela, começa já aqui. Faz sentido chamar guerreira a uma pessoa como ela? Não sei. Mas não me ocorre melhor definição. Antes achava-a quase uma variante da Pipoca mais Doce, talvez por, nessas alturas, gostar de se auto-designar por 'a pessoa'. Raramente a visitava pois, sempre que ia espreitar, apanhava alguma daquelas coisas que me pareciam feitas para ter graça mas a que eu, desmancha-prazeres, não achava. Contudo, há tempos, num outro blog, o da Flor cujafaca não corta o fogo, vi uma referência que me despertou interesse. Fui ver. Era ela. Falava no cancro que lhe tinha sido diagnosticado e do que estava a sentir. Não é inédito: não é a primeira pessoa a quem isso acontece nem a primeira que escreve sobre isso. Mas gostei. Comecei a seguir. Não se armava em vítima nem em heroína. Não se apresentava como uma pobre coitada nem como invulnerável. Não escondia o medo mas também não ficcionava o sucedido. Atravessou a dor de perder o cabelo, atravessou a quimioterapia, está a atravessar a radioterapia, está a passar pela rotina da angústia e da esperança por que passam as pessoas a quem é diagnosticado o cancro, que são operadas, que têm que fazer tratamentos, que têm que seguir em frente esperando que todo o medo e sofrimento não sejam em vão. A minha mãe já passou pelo susto de saber que tinha cancro e pelo medo dos exames e pelo pânico dos veredictos. Correu bem. Ficou sem um bocado e não foi preciso mais nada, ficou bem. Mas isto, de se estar bem, é sempre dito sob reserva, sempre com medo de 'atrair'. O meu sogro passou pelo mesmo. Não foi inesperado. Fumava demais. Tinha bronquites, teve pneumonias, tinha uma respiração que antecipava problemas sérios. Os pulmões anunciavam o que era quase mais que certo. Mesmo quando bastante doente, fumava às escondidas. Fez quimio, fez radioterapia. Penou um bom bocado e, algum tempo depois, o corpo não aguentou mais. Várias outras pessoas próximas têm passado por isto, cada uma à sua maneira. E o que penso é que são situações que põem a coragem das pessoas à prova. E esta blogger de que falo é corajosa. Mas é corajosa de forma realista. De vez em quando com medo, outras vezes com revolta, outras com esperança, frequentemente com um agudo sentido de observação, muitas vezes com um fantástico sentido de humor. Andando metida em guerras, não perde a compostura nem a sua graciosa feminilidade. Não a vou perder de vista pois sei que irá sempre enternecer-me, surpreender-me e/ou fazer-me sorrir.
Chego à sala de espera — que é mais um salão, dadas as suas medidas, talvez uns cem quadrados, dava para um belo bailarico, não fora as circunstâncias — e apercebo-me de que está bastante compostinha. Faço aquela matemática básica, um terço são lugares vagos, metade das gentes podem ser acompanhantes. Mesmo assim, imagino que vou ali passar o resto do dia e uma parte da noite e pergunto à do balcão se está muito demorado, ao que ela me responde a frase que está ex aequo com “só há o que está exposto”, “esse artigo foi descontinuado” e “isso é com a minha colega”: “A senhora tem que esperar a sua vez”, logo a mim, que adoro retóricas. “Claramente, isso não responde à minha pergunta”, “Mas é que eu não sei”, “Acabou a conversa”, e ficámos por aqui. Pena que também só haja o que está exposto nestes lugares, que não descontinuem estas azedas que estão sempre em modo de frete no seu local de trabalho e, efectivamente, tudo deve ser assunto para a colega, que não está à vista porque nem sequer existe.
A Radioterapia é detestável desde que entro até que saio. O pessoal não tem a noção que trata exclusivamente com pessoas com cancro, como acontece na Oncologia. Já lá dentro, em vez de enfermeiras e assistentes, existem técnicas, com a simpatia de um empregado de mesa. Zero empatia, zero humanidade, é um corre-corre de despe, deita, posiciona milimetricamente para que os raios que partam a possibilidade de o cancro voltar funcionem, luzes e máquinas a toda a nossa volta, uma placa redonda, uma placa rectangular, uma outra que parece um ovo de avestruz, as técnicas saem da sala e uma delas transforma-se numa voz, “Dóna Maria, suspenda a respiração”, “Agora tranque”, e a p. da centrifugadora a fazer girar as placas à minha volta até à asfixia, “ai, que morro da cura”, parece que estou numa daquelas competições absurdas que fazíamos em miúdos, de atravessar a piscina debaixo de água até ouvirmos um gemido que nos saía da garganta, a mim só me apetece fugir dali a bater o dente e correr para os braços da minha mãe, que me espera com uma toalha seca e macia, como macio era o abraço dela.
Andava há cinco semanas a fazer penso pós-cirúrgico, uma vez, duas vezes por semana, e esta minha mania de me aconchegar nas rotinas, já estava a ser um programa qualquer, as enfermeiras amorosas, o médico um prato cheio, todos os meus pensos foram uma paródia pegada, cada vez que me lembro que de uma das primeiras idas a enfermeira me disse: “Eu sou a Mónica das mamas” — por ser especialista em amamentação —, e eu, que já conhecia aquele nome e alcunha de outro lugar, escancarei olhos e boca, “O quê? A Mónica das Mamas da Bumba na Fofinha? A mesma que mexeu nas mamas da Bumba está a mexer nas minhas!?”.
Então hoje o cirurgião disse-me que já não era preciso voltar lá, deu-me alta e aquilo pôs-me em baixo. A enfermeira igualmente desolada, “Espero que tudo lhe corra bem, foi das pessoas mais simpáticas que por aqui passaram”, e eu de beiça caída, “E agora, senhor doutor?”, ele de braços abertos para mim, “Agora…”, e abraçámo-nos quase longamente, “Vai tudo correr-lhe bem, é muito querida, gosto muito de si”.
Devia ter saído do hospital aos pulinhos, mas nunca achei graça nenhuma a despedidas. Flutuei até ao carro, embargada, apesar do quase doce sabor de mais uma pequena vitória.
Entrei no gabinete e toda eu era sombras e tempestades: sentei-me sem convicção, os ombros denunciando desalento, um pequeníssimo suspiro imperceptível, ou, melhor dizendo, talvez o mundo inteiro tenha ouvido, pois a médica perguntou-me por que é que estava tão desanimada, se dias antes havíamos falado pelo telefone e eu era a personificação do optimismo. Falei-lhe do tempo, das nuvens, do quão isso influencia o meu estado de espírito, depois, perante a descrença dela, que podiam ser efeitos químicos, por fim ainda tentei a desculpa das hormonas, até que confessei num fio de voz, os olhos pregados no chão por uma culpa e um medo que me esmagavam sem piedade — imerecida —, que, na sala de espera, tinha estado perto de mim uma senhora da minha idade, a barriga enorme semelhante à de uma gestação de seis meses, um gemido baixinho e contínuo, e não fui eu — porque endureci ultimamente — que lhe perguntei se precisava de ajuda, como faria sem hesitar noutros tempos que sei lá se voltam, foi outra senhora que também ali estava e, certamente, feita de massa melhor do que a minha. Ela que não, que a enfermeira já vinha, até que lhe percebi o corpo inteiro a sacudir-se, eram soluços como os de uma criança magoada, Tenho dores, e eu, endurecida, saí dali para fora quando vi chegar duas médicas e a mim me chegavam, cobardes, duas míseras — miseráveis — lágrimas aos olhos, duras como pedras.
Tenho uma comadre que só não é minha irmã porque não nasceu de obra de nenhum dos meus pais. Todos os dias, sem excepção, liga ou manda mensagens, a saber de mim. (Em contrapartida, tenho uma outra que me manda mensagem à segunda-feira a desejar boa semana.)
A minha comadre Madalena — que não podia ter um nome e um coração mais bonitos — baptizou a minha cabeleira (cansei de chamar peruca ao meu novo cabelo) de Natércia. Disse-me: “Arranjámos uma amiga para a vida: a nossa peruca!”. Assim, tal e qual. Eu uso, mas ela é nossa, faz parte deste caminho de pedras pontiagudas que percorremos descalças, de mãos dadas. Não vamos sozinhas, pois está connosco uma pequena multidão disposta a trilhar o túnel comigo, sem permitir que eu caia de todas as vezes que tropeçarei.
~
Nossa Natércia é da melhor qualidade: bati o pé por uma de cabelo natural, pois o nome diz tudo. Faz-me confusão ver as pessoas com cabelo de boneca e temi que me voltasse em forças a vocação para cabeleireira que tive entre os quatro e os sete anos, em que não houve boneca nenhuma — e tive dezenas, filhas de médico são cruel e profusamente brindadas no Natal e em datas aleatórias — que não ficasse escalpada até à “raiz”/implante, julgo que por estar convencida de que aquilo crescia. Mais tarde, apurei a técnica (ou talvez tenha levado três anos a perceber que “aquilo não crescia”), passei a usar rolos ou escova de enrolar e secador, e passei também a queimar/ encolher/ trilhar o cabelo às bonecas. Em suma, a técnica estava toda lá, o material é que era fraco. Por estas e outras razões, decidi deixar um rim na loja das cabeleiras, mas trouxe o cabelo da outra, que agora é meu. “Ah, é porque podes”, dirão as inflamadas da vida. Biafine.
~
Natércia passou a prova de fogo — longe vá o agoiro — numa ida ao hospital. Perguntei ao segurança da oncologia onde é que podia fazer análises clínicas e ele indicou-me um laboratório a cinquenta metros dali, também pertencente ao hospital, porém para outras especialidades. Assim fiz, e só quando a enfermeira me perguntou por que é que estava a fazer análises ali e não no laboratório próprio para oncologia, é que percebi que, para variar, havia batido pela enésima, porém não última vez nesta vida, à porta errada. Já que tinha que voltar ao edifício para ter consulta com o giro, perguntei ao segurança por que é que me tinha mandado para o outro laboratório, sendo que havia um ali mesmo ao lado. Olhos escancarados, “Oncologia?”, “Sim.”, mãos unidas em oração, “Ai, ó minha senhora, desculpe, mas é que não se percebe nada, ninguém diz!”. E eu, tão feliz, peguei numa mechinha de nossa Natércia e disse: “Isto não é meu.”, fazendo aquele gesto de vitória com o punho fechado, baixando o cotovelo, e, melhor que tudo, fazendo com que ele se risse do meu riso.
Gosto sempre mais de me ver despenteada, nem Natércia escapa
Espero que a Linda Blue, a quem desejo uma vida longa e feliz, se um dia se vir aqui, não leve a mal eu ter transcrito estes seus textos tão pessoais nem ter colocado aqui a sua bela fotografia. Se não quiser estar aqui, é só dizer-me que, logo que possível, farei como me disser. Contudo, o seu testemunho é tão íntimo, tão genuíno, tão enternecedor que tenho que aqui lhe agradecer a generosidade da partilha dos seus dias.
Mudança, jogo de turnos, rotação. Assim a vida. De um lado a inspiração, o reconhecimento, o êxito, os festejos, o brilho das luzes que sempre procuram o sucesso. Do outro, as más notícias, o desalento, o medo, o sofrimento, a solidão.
Jon Batiste é daqueles que é sempre muito bem vindo a esta casa. Tem aquela alegria que tantas vezes acompanha a inocência dos grandes talentos. A música nasce-lhe das mãos, da voz, do corpo, do sorriso.
Suleika, a sua companheira, agora sua mulher, pensava ter ultrapassado a leucemia. Escrevia e falava sobre isso, dizia que tinha visto a morte de perto, falava de como é importante valorizar cada momento da vida. Mas o bicho traiçoeiro voltou. Soube disso ao mesmo tempo que Jon tinha razões para sorrir. Quando se soube das 11 nomeações de Jon, estava ela a ter a sua primeira sessão de quimioterapia.
Mas, mesmo antes, aquando do transplante de medula, quando ela tinha que estar isolada, Jon estava com ela através da música que diariamente compunha para a sua bem amada.
Agora, no vídeo abaixo, falam desta nova fase das sias vidas com sorrisos, sem fatalismos, como se soubessem que não será esta rasteira que os fará tombar. Ambos sorriem. Estão juntos e isso faz toda a diferença. São os dois lados da vida. Melhor: são dois dos muitos lados da vida.
Jon Batiste and Suleika Jaouad sharing life beyond cancer
The same day the "Late Show with Stephen Colbert" bandleader received 11 Grammy nominations – the most by any artist this year – the love of his life was beginning chemotherapy treatments for her second battle with cancer. Jon Batiste and bestselling author Suleika Jaouad ("Between Two Kingdoms") talk with correspondent Jim Axelrod about how their world was turned upside-down, and how they met adversity with an act of defiance.
-------------------------------------------------
E, para quem não esteja a ver bem a dimensão do talento do fabuloso Jon Batiste, aqui está ele, uma vez mais