Mostrar mensagens com a etiqueta Susan Sarandon. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Susan Sarandon. Mostrar todas as mensagens

domingo, fevereiro 14, 2021

Não muito mas com sol

 



Levantei-me cedo. Ainda antes de me vestir, abri a janela, os estores e os vidros. Ouvi logo  os passarinhos. Têm andado tão arredados. Regressaram com o sol, animados e cantadores. 

Sol e eu já de blusinha colorida e fresca. E calças brancas, claro. Depois, na rua, percebi que ainda havia fresco no ar. Por cima, vesti uma túnica de jersey quentinho. Fiquei melhor. Brincos brancos para ter uma luzinha de cada lado e da mesma cor que as calças. Sou assim, tento sempre que haja alguma liaison entre as coisas.

O pequeno almoço foi igual ao de sempre. Não sou capaz de torradas, café com leite, coisas assim. Sou de frutas frescas, kefir e frutos secos. 

Quando fui à horta, estava tudo ainda envolto em alvura, uma névoa muito leve, o frio da noite ainda presente. 

[Não tinha a máquina, não registei a maravilha que presenciei. As fotografias que aqui estão são as que fiz à tarde.]

Logo depois chegou o casal que veio cá ver o jardim e de quem esperamos ideias iluminadas. Olharam, mediram, conversaram, observaram. Gostei que tivessem ouvido os chilreios. No fim, oferecemos-lhes laranjas, tangerinas, louro, alecrim. Falam com a língua adoçada de quem à língua portuguesa soube juntar o afecto sorridente, a mestiçagem e a proximidade dos corpos que o calor sempre induz.

Quando estávamos no jardim a despedir-nos deles, ouvimos um sonoro e alegre 'olá, bom dia'. Eram os anteriores proprietários. Estavam de bicicleta, ela de mangas curtas, ele de calções. É sempre conversa animada e solta. 

Ficaram contentes por ver as magnólias. E admirados com a força da trepadeira, toda florida. Contaram coisas. Os quatro de máscara, claro, mas, ainda assim, conversando ao sol. Quase parecia que estávamos a ver um tempo normal. Vivem agora numa casa que a anterior proprietária construiu tal como eu vivo na casa que eles construíram. Ela que adora jardinagem e que pôs tanto de si no jardim que agora é meu, tem agora a seu cargo o jardim que outra que não ela escolheu. A vida avança assim, nem sempre com uma lógica facilmente perceptível.

Simpatizo com eles. Há neles qualquer coisa de parecido connosco.

Só depois fomos fazer a nossa caminhada. Já não era cedo. A bom ritmo, a aproveitar o piso não estar molhado, não haver vento, chuva, frio. Caminhar ao sol é muito bom.

Quando comecei a fazer o almoço já eram quase duas da tarde. Tinha deixado maruca a descongelar. Fiz, pois, uma das minhas refeições preferidas: peixe cozido com batata normal e batata doce, cenoura, feijão verde, ovo. Temperei com azeite e sumo de um limão que fui apanhar. 

Voltei a lembrar-me de quando estava na faculdade e só ia a casa ao fim de semana. Só me apetecia peixe cozido. Pedia à minha mãe que tentasse ter pescada de anzol, peixinho fresco. E batatas cozidas temperadas com azeite. Curiosamente é também o prato preferido da minha menininha linda: peixe cozido com batatas. Um questão genética, pelos vistos.

Depois de almoço, fui para o cadeirão de relax que está na sala de cima, ao sol. Estive a ler um livro de poemas manuscritos e, mais do que a ler os poemas em si, estive a ver a caligrafia dos poetas. É sempre com surpresa que vejo a letra das pessoas. Pessoas que penso terem personalidade forte aparecem com letrinha miudinha, atormentada, por vezes infantil. Outros, que escrevem poemas duros, crus, aparecem com letra de menina, desenhadinha, como se ainda se esforçassem por não desiludirem a mestre-escola. Outras, que pensava serem mulheres desempoeiradas, mostram uma letra atravessada por quebras, olhares desconfiados, receios. Uma com uma letra agressiva, talvez deprimida, uma letra pequenina, apertada, sem espaços, uma letra angustiada. Sempre que vi uma caligrafia a saber respirar, com um andamento fluido e sereno, até respirei de alívio. Curiosamente a letra de que mais gostei, não que seja bonita ou cuidadosamente desenhada, mas porque mostra alguém que tem prazer nas palavras e, certamente, na vida, é um poeta que bastante aprecio (e que já aqui esteve de visita várias vezes).

Não sei se adormeci, estou em crer que, quanto muito, apenas me deixei estar de olhos fechados. Pensei: vou tentar meditar. Respirar. E creio que imediatamente desliguei. Mas creio que por breves instantes. Não sei bem. 

Estive também a ver um diário de Susan Sontag, mas não muito. Pensei que, com um dia tão bonito, era um erro estar dentro de casa.

Voltei para o jardim. Da casa dos vizinhos misteriosos vinha conversa animada, conversa de rapaziada, não percebo o que dizem mas percebo que brincam uns com os outros. Há risos, às tantas um deles a cantar. 

Uma rola passeava. Aproximei-me. Olhou para mim e deixou-se estar. Fiquei muito admirada. Apenas quando passei a linha vermelha invisível, que apenas ela sabe onde está, levantou voo, devagar. 

Depois andei de cabeça no ar, como tanto gosto. Na rua, ouvi vozes. Acerquei-me. Um jovem casal seguia com um bebé num carrinho, um mais crescidinho de bicicleta com rodinhas e uma pequenina de triciclo. Os cães da casa do lado ladraram à passagem daquela turminha. Não me viram. Andava em silêncio a fotografar flores, pássaros, observei as sombras a ocuparem progressivamente todo o jardim.  

Começou a esfriar. Voltei para casa.

Fizemos duas videoconferência com a família. O mais crescido está com o cabelo mais comprido, mais ondulado. O mano contou sobre as suas boas notas. Depois quiseram mostrar o seu abraço que mais não é que um golpe de judo em que acabam os dois a cair. A bisavó espanta-se com a robustez do sofá. A menininha linda prega-me partidas, tira-me o som, manda mensagens, mostra os joelhos esfolados, o mano do meio conversa com a bisavó, pergunta pelo seu antepassado presidente, o mais novo mostra-nos que está sem paciência para tanta conversa. Tenho vontade de abraçá-los. 

Mas já estamos a meio do mês de Fevereiro. O tempo quase desaparece, tão rapidamente corre. Não tarda tê-los-ei aqui a correr e a espantar as rolas.

A minha filha perguntou se tínhamos ido à praia. Não. Creio que não se pode ir. Não sei. Mas fiquei com saudades do mar. Tenho estado a escrever e com a cabeça nisso. Será que se pode?

Depois, a minha filha esteve a enviar-nos fotografias de quando os miúdos eram pequenos. Estávamos na casa que o meu filho estava a recuperar, íamos para lá ao fim de semana, uns pintavam muros, outros arranjavam as paredes da cave. As crianças adoravam, sentiam que faziam parte daquela intensa actividade que envolvia os crescidos. As fotografias mostram-nos felizes. Na altura ainda eram apenas quatro. Já não me lembrava há quanto tempo tinha sido, pensei que há menos. Afinal, chegou o esclarecimento: já há seis. Seis anos. Tão depressa. E, no entanto, tantas coisas se passaram nas nossas vidas neste curto espaço de tempo. 

Viver todos os pequenos instantes para que, quando olhamos o passado, não sintamos que os desperdiçámos -- isso é o que sempre pensei. E agora, nestes meses de confinamento, parece que se formam hiatos em que não consigo perceber a dinâmica do tempo. Talvez que, mais do que dinâmica, se deva pensar em inércia. Talvez seja isso.

Agora que escrevo já é domingo. Lembro-me de quando ao domingo de manhã púnhamos a música alto e bom som e cantávamos a plenos pulmões, eu dançando na maior alegria, os miúdos brincando, entretidos. Ou viriam amigos passar o dia a nossa casa ou iríamos nós a cada deles. A ver se amanhã repito a graça. Apetece-me música alto, apetece-me dançar.


________________________________________________________

No entanto, tantos anos já passaram desde esses dias (depois passámos a estar ao fim de semana no campo e os entretenimentos passaram a ser mais bucólicos) que se calhar estou mais para danças menos frenéticas e mais devagar, devagarinho.

Julia Stone - Dance 

com Danny Glover e Susan Sarandon 


_____________________________________

Desejo-vos um belo dia de domingo


segunda-feira, março 04, 2019

Um teste





Se contasse tudo ninguém ia acreditar pelo que apenas direi que trabalhei no duro de manhã à noite e que, sendo já noite, ao cortar arame com uma tesoura, arranquei um bocado de qualquer coisa no dedo que fez com que tenha sangrado abundantente e ainda não esteja bom. Agora pus um algodão com betadine e atei em volta com papel higiénico dobrado. A ver se estanca para não sujar a cama toda. Não tenho cá água oxigenada e tenho que procurar melhor porque não vi pensos e não estou bem a ver como é que sem um penso vou evitar o desastre total. 

Todo o santo dia serrei até mais não poder, andei em cima de muros e de rochas para chegar a ramos mais altos, prendi rede na vedação, apanhei ramos e ramagens e ramalhetes. E o meu marido fez isso tudo e mais uma fogueira que durou horas. Ainda há bocado foi lá fora, de lanterna, ver se já está tudo apagado. Deitou água e água e diz que continua incandescente. Tudo na natureza tem uma força difícil de explicar.


E, assim sendo, ao segundo dia de trabalhos altamente esforçados, à noite, depois de jantarmos, pusemo-nos os dois a ver aquele programa de culinária na 1 e, passado um bocado, já eu estava a dormir. Ele também deve ter estado pois levantou-se agora daqui a dizer que tinha dado um jeito ao pescoço.

Agora estou a rever o Thelma e Louise e estou a gostar. O poder de duas mulheres à solta pode ser letal. Sorry, queria dizer fatal. Gostei bastante na altura e agora contiuo a gostar. O Brad Pitt era um rapazola insolente e com um potencial transbordante e, passado todos estes anos, ainda é. Aquela ligação remota entre o detective desempenhado por Harvey Keitel e Louise (Susan Sarandon) mostra bem como não é preciso a visão do outro ou a presença física para que se estabeleçam laços que dificilmente se explicam. Tudo bom no filme. Até a música.


E estive a ler uma entrevista com Siri Hustvedt e muita coisa ali me interessou. Não foi só aquela urgência de despachar trabalho antes que seja tarde. Percebo-a muito bem. Foi também aquilo das memórias. A recriação das memórias. A observação sobre Karl Ove Knausgaard que escreveu milhares de páginas a reproduzir recordações ao milímetro, diálogos de toda a espécie e feitio. Diz ela: só se fosse um savant.
E eu, que conheço um savant, fiquei a pensar que é das coisas mais extraordinárias e difícil de perceber, a cabeça de um savant. Mas isso é tema complexo, não é coisa para aqui. Ou talvez fique para um dia em que me deixe de pruridos e conte apenas algumas particularidades. (Ou não). 
Este tema de as nossas memórias se calhar ganharem vida própria é um mistério que me atrai.
Readers of Karl Ove Knausgaard’s six volumes of memoir, My Life, with their endless descriptions of routine chores, may take note. “Many successful memoirs have dialogues that goes on for page after page after page, dialogue that nobody could possibly remember, unless you are a savant of some kind,” Hustvedt says. “And that’s extremely rare, so what are we talking about? You can’t possibly believe the memoir writers have that kind of memory.”

No meio da conversa, a propósito de uma coisa que também me desperta sempre muito interesse, o da cegueira não intencional, aquilo de a gente apenas ver parte do que nos é dado ver -- a parte que já esperávamos ver -- refere um vídeo que está no youtube. Como sou bem mandada, fui logo ver e, de facto, tem piada.

Como, ao ver o vídeo, fruto do que a Siri tinha dito, já sabia ao que ia, passei o primeiro teste, muito admirada por cerca de metade dos incautos não passarem. E, de seguida, estatelei-me no segundo. Uma vez mais, só vi aquilo que já sabia que ia ver. Sou uma ceguinha, é o que é. Mas, acho que não sou só eu.

Convido-vos a ver atentamente o vídeo. Estejam atentos ao desafio, tentem acertar. Exige-se apenas uma coisa: concentração.


Depois me dirão se não é verdade isto de sermos ceguinhos. E pensem comigo: se o que vemos é apenas uma ínfima parte do que há para ver, como seria caleidoscópico o mundo se conseguíssemos ver tudo ou, vá, quase tudo. Na volta, era mas é insuportável.



E então? Ceguinhos...? Ou... apenas míopes? 

..........................................................................

E estamos a entrar no carnaval. Os meninos mascaram-se, fazem desfiles, brincam. Em algumas cidades e vilas de Portugal algumas mulheres esquecem o clima e vestem-se de baianas e, noutras,  os homens soltam a Mariete que há em si e mascaram-se de matrafonas.

As imagens que aqui partilhei estão no The Guardian e não são forçosamente de carnaval, embora algumas o sejam. A primeira, aquela lá em cima, é espetacular: Mardis Gras avant la lettre. Mas, por exemplo, esta aqui abaixo mostra um jogo popular inglês que consiste em provas nas quais os cavalheiros vão com as mulheres às costas, presas pelas pernas. Amanhã vou ver se o meu marido consegue segurar-me assim e depois, como certamente há-de conseguir, vou sugerir que vá serrar ramos comigo assim. Vou levar a máquina fotográfica para fazer a reportagem do mundo visto segundo uma perspectiva nova.


Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

quarta-feira, janeiro 31, 2018

Apanha-me





Não sei o que fizeste para merecer isto mas pronto, faço-te a vontade. E depois não venhas dizer que sou má. Não sou... Não sou nada... Sou boazinha... Tens é que fazer por merecer. E nunca fazes... Pronto, está bem. Às vezes fazes. Mas menos do que devias. Confessa. Menos do que devias. 

Mas vá lá, hoje estou naqueles dias em que o meu coração tudo agradece, até o facto de bater. Por isso, aproveita. Não consigo oferecer resistência. Mas olha, não abuses. É que, se abusares, quando eu voltar a estar má, vou vingar-me. E olha lá... Sabes bem que quando quero ser má... Ui... Cuidado comigo... Mazona, mazona, mazona.

Não rias. Estou a falar a sério. Maldades mesmo. Físicas, psicológicas. Fazer sofrer, por exemplo. Fazer parecer que sim e, afinal, não. Ou ainda não. Ou... só se... Não te rias. Estou a falar a sério.

Olha, se queres, estás à espera de quê? Não me tens aqui, à tua disposição...? Vá, ousa.

De frente, de lado, de costas, por baixo, por cima. Como queiras. Aqui me tens. 

Vá. Dispara... Aqui me tens. Disponível. Não acreditas...? Acredita... Estou por tua conta. Soft, softzinha.

E como me queres? Imóvel? De olhos fechados? A olhar para ti? Séria? Sorridente? Diz. Faço todas as tuas vontades. Não rias... Todas. Não me ouves? Todas.

Olha, escolhe. Diz. Só tens que dizer. Queres que me volte, que me mexa, que simule? Ou queres só a verdade? A verdade que tanto oculto... queres?

Diz. Só tens que dizer. Como preferes?

Olha. Já sei. Espera. Queres-me com cabelinho curto? Espera.

Vês? Ainda está molhado. Cheira bem, cheira a violeta. Cheira. Cheira-me. Gostas?

Vês como eu estou hoje...? Faço tudo por ti, já te disse.

Olha para mim. Olha-me nos olhos. Descobre o que estou a pensar. Descobre o que quero. Vem. Estás a ver-me? Apanha-me. Apanha-me se fores capaz.

Se calhar não és. Não há muito quem. Só os muito bons. Não sei se tens competência para isso. Tens...? Não sei...

Se tens, prova. Prova lá. Vá... Prova...

E olha... não dizes nada...? Eu a pôr-me bonita para ti e tu nada...? Fico triste, ouviste? Por exemplo, gostas da blusa? Ou cobre-me demais? Se calhar estou muito tapada. Não gosto de me ver tão tapada. O que achas?

Não dizes nada. Fico zangada. Olha, só para te chatear, vou tirar a blusa. E não te queixes. A culpa é tua.

O que achas? Preferes assim...? Ah gostas... ? Mas, olha, não deixo que me vejas de frente. Isso querias tu... Não senhor, agoras estás de castigo. Só queres ver-me a alma? Ah... E queres que eu acredite...?

Chato. O que é isso...? Mas querem lá ver...? Nem penses.

Mantém as distâncias, vá... vá lá...


Filma-me. Fotografa-me. Apanha-me.

Mas, faz favor, sê profissional... 

(Chega-te para lá. Não espreites.... Isso não vale... Ouviste? Ai!)

[Ris. Ris, meu malandro. Mas olha lá, oh meu patife, cuidado com o assédio, vê lá se queres que te denuncie, ouviste?]

.............................................................................

Texto inspirado na canção Filme moi de Alice et Moi.
Susan Sarandon dá corpo à coisa.

.............................................................................

quinta-feira, maio 18, 2017

Quando as estrelas da passadeira vermelha de Cannes são as mamas da Susan



Confesso: gosto imenso dela, da Susan. Inveja não, não sinto. Nem aquilo que agora, numa de lavagem de conceitos, se chama 'inveja branca'. Não sei de nada disso: ou é inveja ou não é. No meu caso não é. Ponto.

Agora que ela é uma giraça, sensualona, com uma graça natural e uma segurança que derruba qualquer galarucho é um facto -- e eu olho para ela sempre com admiração e, ok, confesso, alguma curiosidade a ver se lhe detecto algum traço de imperfeição. Mas nada. Bola. Zero defeitos. Os mais dados à religião talvez, olhando-a, digam: uma deusa. Eu não. Não sou dada a isso. Deusa não. Talvez um mulherão. 

Consta (consta - porque, de factos comprovados, não sei) que já se retocou aqui e ali, já fez uns alisamentos a laser, um ou outro subtil preenchimento. Detalhes. Não interessa.

O que interessa mesmo é a beleza natural, o desenho do sorriso, o charme do olhar, a forma como fala e como se movimenta, a música que transpira do ondular do corpo.

Desfilou na passadeira vermelha de Cannes com um elegantésimo vestido de veludo em azul ultramarino. Naturalmente, com ela levou as suas big boobs e as câmaras e os camera men estacaram de espanto, incapazes de pestanejar, presos à beleza daqueles seios impudicos, assertivos. Não viram mais nada. Nem sequer o corte do modelo e a qualidade do veludo. Nada. Só as big boobs.

Tem 70 anos mas isso é outro pormenor que não interessa para nada. A verdade é que ninguém conseguiu parar de olhar, estarrecido -- mas estarrecido no bom sentido -- para a beleza da mulher que, desta maneira, deixou toda a gente paralisada com a força estética dos seus extraordinários seios.

E notem: não sou lésbica nem invejosa. Juro. Sou apenas realista: coisa assim não está ao alcance de qualquer uma. 
A seguir vou ali ver-me ao espelho a ver se haverá alguma ténue possibilidade de, daqui por uns anitos, usar um vestido assim, com aquele desplante. Dressed to impress, despenteada comme il fault, sorriso que não deixe margem para dúvidas. Será que vou, algum dia, conseguir...? Daqui por dez anos - quero eu dizer. Ou, mesmo, agora. 


Mas pronto. Calo-me já. Por todo o lado se podem ver noticias do decote de Susan Sarandon e de como ses poitrines sequestraram o glamour da Croisette, mas fico-me pela Harpaar's Bazaar.


Transcrevo:

SUSAN SARANDON’S BOOBS ARE THE REAL STARS AT CANNES

We can't stop staring.



Tonight as I fall asleep, I am going to say a little prayer. It will go something like this: "Oh please, generous God, make my boobs look half as good as Susan Sarandon's when I, too, am 70 years-old. Thanks. You rock."  (....)

Já agora para quem queira ousar: o vestido é Alberta Ferretti. Não sei se fazem saldos ou se vendem no eBay.

____

Até já.

............

domingo, abril 09, 2017

Um mail muito estranho


O endereço continha nome próprio, apelido e um número que, naquele contexto, deveria ser o ano de nascimento. Nunca tinha recebido nenhum mail daquele endereço, pelo menos que me lembrasse.




Tinha chegado a casa pouco antes, vinda de um dia no campo. Tranquila. Longe de notícias. Mais do que a fotografar, a ser fotografada. Passei as fotografias para o computador. Numa delas vi uma imagem que não percebi, talvez um vulto. Ampliei. Sem definição, o vulto esbateu-se mais. Talvez apenas uma sombra de árvore. Esqueci.

Escolhi uma música, pus-me a ouvir. Fechei os olhos, deixei-me ir por uns momentos. 


Depois, quando a música acabou e fui escolher outra, lembrei-me de ver os mails pois tinha a ideia que um amigo me tinha recomendado de uma forma quase convincente uma cantora cujo nome não fixei. É a que talvez estejam a ouvir agora.

Foi então que vi aquele mail.

Ao ver o endereço, quase uma certidão de nascimento, pensei: só falta pôr a fotografia. Mas não faltava. Quando abri, lá estava, de facto, a fotografia. Antes de ler o que ele tinha escrito, pus-me a observar a imagem daquele homem que assim se me mostrava de nome completo, idade e fotografia. Fiz as contas. Cinquenta e sete anos. O ângulo não deixava ver bem o rosto pois tinha um livro em frente, como se estivesse a lê-lo quase à altura do rosto

O texto, contudo, era misterioso. Li-o, ao princípio, com surpresa, depois com alguma inquietação.
Estimada Amiga,  
Todos os dias me levanto quase a correr para ler o que escreveu durante a noite. As minhas manhãs são sempre felizes porque acordo com as suas palavras. A sua alegria contagia-me, o seu humor diverte-me, a sua energia renova-me. Sabe disso. Se as suas palavras me parecem mais soturnas, logo me preocupo, tenho vontade de a procurar de imediato para saber se está bem. Na segunda-feira ver-nos-emos e teremos que fingir desinteresse. Se soubesse o que me custa. Se soubesse...?, pergunto. Mas sabe, sabe certamente. Assim como sabe que eu mal sobrevivo às suas conversas animadas com outros, em especial com aquele que bem sabe que não tolero. Mas é assim a nossa história, bem sei que pouco ou nada podemos fazer de diferente, e também bem sei que não quer que eu insista. Aos poucos, espero aprender a viver com o que sinto, e manter esse sentimento bem fechado dentro de mim. Talvez nessa altura eu consiga olhá-la sem que se zangue comigo, dizendo-me que olhá-la assim a faz sentir nua. Estimada Amiga. Arranje maneira de pousar em mim o seu doce olhar. Peço-lhe. Arranje maneira de me sorrir. Morro quando vejo que derrama sorrisos sobre os outros e nunca sobre mim. Na segunda-feira passarei perto si, aspirarei o seu perfume, ouvirei as suas palavras e farei de conta que o nosso amor não existe. E sofrerei porque queria cair a seus pés. Receba o meu amor e os meus beijos que serão sempre seus.
E assinava.

A seguir, num post scriptum, escrevia 'Tarde demais' e juntava o link para um vídeo. Este que aqui vos mostro.


Fiquei atónita. Quem era?

Fui ao google. Ainda mais atónita fiquei. Fiquei sem saber o que fazer.

Que sentido o daquelas palavras? Que loucura aquela...?

Como responder? Ou não responder? Mostrar-me indiferente a tão bela declaração de amor? Temer o significado de tudo aquilo?


Abri o mail de resposta vezes sem conta. Escrevia e apagava. Nada me parecia no tom adequado. Por fim, foi isto que seguiu:
Meu Caro Senhor, 
Li com atenção o que escreveu mas lamento informá-lo que, para além de agradáveis de ler, as suas palavras são, para mim, desprovidas de sentido. Por isso, queira considerar a hipótese de não voltar a escrever-me.  
Cumprimentos, UJM
Espero que não me responda. Tenho medo de situações estranhas. Medo e, ao mesmo tempo, uma inconfessável atracção. Contudo, uma atracção mais literária, digamos assim, do que real.

.....

E agora, antes de aqui vos relatar o sucedido, também hesitei, aquele mail parece referir-se a sentimentos tão íntimos... Mas achei isto tão extraordinário que acho que seria uma pena se o asssunto ficasse só comigo. E, de resto, não revelando o nome do meu admirador secreto que, pelos vistos, me conhece na vida real, também não estou a cometer nenhuma inconfidência de maior. 

Além disso, quem vos diz, meus Caros Leitores, de que isto que escrevi é verdade?


___________

[Caso queiram saber como é a primavera in heaven, as glicínias escandalosamente floridas, queiram, por favor descer até ao post que se segue]

_____