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terça-feira, janeiro 26, 2016

A arte é uma batata? Ou é a batata que é arte...?
Um milhão de euros...?!?!? Oh my dog...


No post abaixo já falei de não irmos ter Primeira-Dama e, até, mostrei a minha compreensão: Rita Amaral Cabral deve ter mais que fazer que aturar os salamaleques que a função exigiria, deve querer manter a sua profissão e, às tantas, acima de tudo, deve estar melhor assim: o Marcelo na casa dele, a armar aqueles furdunços lá dele, sms, mails, telefonemas, um frisson a duas mãos (não se dizia para aí que escrevia, em simultâneo, com as duas mãos?) e ela, sossegada, na sua própria casa.

Mas, enfim, sobre esse tema tão empolgante, falo no post abaixo.

Aqui, agora, o tema é arte. Há bocado estive a ver o que o autor de um artigo considerava serem As 10 obras de arte mais importantes de todos os tempos.


VÊNUS DE MILO (século II a.C., autor desconhecido)
FONTE (1917), de Duchamp
MONALISA (1503-06), de Leonardo da Vinci


Já tive a sorte de ver parte delas ao vivo. Não sei se concordo com a escolha de J.C. Guimarães, o autor do artigo, uma vez que, de imediato, poderia lembrar-me de outras tantas que me impressionaram tanto ou mais que algumas daquelas. Mas a verdade é que não ousaria pôr-me a fazer uma escolha. Nem saberia escolher 'as mais importantes', nem tão pouco 'aquelas de que mais gosto'.

Se me perguntassem quais os 10 livros da minha vida ou quais as 10 músicas haveria de ser igual batalhação: sei lá. Acho que me ia esquecer dos mais importantes. Não sou de fazer listas nem rankings. Se gosto, não quero deixar num lugar baixo do pódio ou deixar de fora aquilo que merece a minha estima. Gosta-se apesar das diferenças e há lugar para tudo aquilo de que se gosta. É como com pessoas: não é por gostar dos meus filhos que vou deixar de gostar dos meus amigos, não é por gostar do meu marido que vou deixar de gostar dos meus pais. E as crianças: vão chegando e a gente gosta sempre delas como se fossem únicas. O nosso coração é elástico.

Por exemplo, se gosto desta bela e enorme pintura (que ainda há uns dois anos vi no Rijksmuseum),

A RONDA NOTURNA (1642), de Rembrandt

ou deste clássico de Picasso,

SENHORAS DE AVIGNON (1907), de Picasso

a verdade é que logo penso em Caravaggio, em Chagall, em Matisse, em Gauguin, em Van Gogh, em de Chirico, em Rothko, em tantos, tantos - e isto se pensar em pintura.

Canção de Amor -- Chagall

Mas logo me ocorrem as esculturas, Rodin, por exemplo.

La Cathédrale ou Les Mains jointes -- Auguste Rodin
Mas tantos, tantos.

No entanto, e podem chamar-se conservadora ou conceptualmente míope, já tenho problemas em perceber que a provocação de Duchamp com o urinol, chamando-lhe fonte e classificando-o de obra de arte, possa ombrear com as inquestionáveis Vénus ou Mona Lisa. Nunca percebi. Nunca vou perceber. Poderá aquilo ser uma obra de arte?! Como...?! O tanas é que é. Caraças para tanta parvoíce.

E vem isto agora a propósito de uma notícia surpreendente: a fotografia de uma batata foi vendida por um milhão de euros. Li e não queria acreditar.


Fotografia foi tirada em 2010  |  KEVIN ABOSCH
Transcrevo:

 Fotógrafo de celebridades vende imagem de batata por um milhão de euros

Kevin Abosch, um fotógrafo irlandês de 46 anos, celebrizou-se pelos retratos de celebridades, entre as quais se contam Johnny Depp, Yoko Ono, Bob Geldof ou Dustin Hoffman. Os seus clientes de luxo chegam a pagar-lhe 250 mil euros por uma fotografia, mas até hoje nenhum dos seus retratos foi tão rentável quanto a fotografia de uma batata orgânica que tinha colocado nas paredes de sua casa.
Conforme confirmou o próprio Abosch ao The Sunday Times este fim de semana, a imagem do tubérculo, tirada em 2010, foi vendida a um empresário europeu que não quis ser identificado e que o fotógrafo recebera em casa.

Que a fotografia tem a sua graça, é um facto. Mas... 1 milhão de euros?!?! 

É esta loucura que me choca, que me deixa doida. Estou a ver na televisão os refugiados, barcos perdidos no mar, gente cheia de frio e fome. E depois há um maluco que gasta um milhão de euros na fotografia de uma batata. Não dá para entender. Qualquer coisa não vai bem no reino da dinamarca para que estas coisas sejam noticiadas como se fossem normais. O caraças é que são.

...

Mas, enfim, isto é capaz de ser o sono que me está a retirar presciência. Talvez o comprador não seja um simples amante de arte mas um investidor, talvez tenha a visão de longo alcance que me escapa: talvez agora alguns saloios, entre os quais me incluo, não estejam bem a ver o filme mas, daqui por algum tempo, a batata vai é valer mil milhões de euros -- com um bocado de sorte ainda passa a valer tanto como toda a dívida pública portuguesa.

Só visto, é o que eu vos digo. Duvidavam de que a lógica fosse uma batata...? Pois então revejam lá isso.
...

Mas olhem, This too shall pass

OK Go


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E queiram, agora, seguir para o comentador Marcelo que virou Presidente (sem Primeira-Dama e sem ir dormir ao Palácio).
É já aqui abaixo.

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domingo, outubro 28, 2012

Os animados museus de Amesterdão, o Rijksmuseum, o Stedelijk Museum, o Van Gogh Museum - as raízes e o futuro da arte que floresce nesta cidade tão cheia de vida


E, então, os museus. 

Gosto sempre de museus, sempre gostei, gosto do ambiente, gosto de ver objectos expostos, gosto de deslizar pelas salas e ver as outras pessoas que deslizam como eu, gosto de pensar que aqueles objectos foram feitos por pessoas que sobrevivem e nos sobreviverão através da sua obra.

Amesterdão respira arte. 

Visitei apenas três museus, os quatro dias não deram para mais. Queria também ter visto a Casa de Anne Frank e não consegui. Mas não faz mal, quando gosto muito de um sítio gosto de ficar com motivos para lá voltar. 

O primeiro museu que visitámos foi o Rijksmuseum. O site merece visita pois é muito completo e permite ver as obras expostas ouvindo esclarecimentos interessantes, como é o caso da pintura Nightwatch. 




Por isso, mais do que mostrar-vos as obras que podem ser vistas no site, mostro-vos o ambiente, mostro-vos o ambiente tal como eu o senti.

Este é o museu onde se podem ver obras de Rembrandt, Frans Hals, Vermeer e outros. É um museu, tal como os demais, que transborda de vida. Dá gosto estar num museu assim, é o culto vivido em comunhão, é como estar numa missa.




Quando estou perto de obras que conheço de ver em livros ou em filmes fico ainda mais emocionada. Posso ver a técnica, posso perceber como resolveram os contornos, os volumes, deter-me com tempo a ver como conseguiram a luz e como sugeriram a sombra, como trataram os panejamentos, como desenharam as rugas nas mãos, a luz no olhar.

Vermeer é um dos mestres da luz: a forma como a luz incide nos rostos, nos objectos, nos brincos.




A leiteira que eu pensava ser um quadro de maiores dimensões, é, afinal, um pequeno quadro. Mas a perfeição, a perfeição, a perfeição sem tamanho.

Como sou um pouco míope (e não uso óculos senão para conduzir ou ver cinema) tenho que me aproximar para ver bem. Mas aproximo-me e fico tão próximo que só me apetece passar a mão e sentir a rugosidade da tinta sobre a tela.




Reparo agora que as mulheres e os homens retratados pelos pintores holandeses já pareciam felizes naquela altura, talvez seja, desde sempre, um povo feliz.




Rembrandt, que já antes eu tinha visto noutros lugares, está aqui, neste museu, em casa, e a sua obra, vista assim em conjunto, permite uma atenção mais detalhada às suas mais marcantes características, permite ver o cuidado virtuoso que tinha com cada pequeno pormenor e como, apesar do perfeccionismo, retratava com mestria a expressão de cada personagem e o ambiente em que se inseriam.




Como há sempre muitos grupos a visitarem estes museus e como estes grupos costumam trazer guias, deixo-me por vezes ficar por perto e vou ouvindo as explicações. Reparem na mão, reparem no rosto daquele que espreita, reparem na forma como a luz incide na prega do tecido. E ali estava um cão que foi depois apagado.




E eu vou ficando em estado de quase êxtase. Pode ser um pequeno quadro, pequeno mesmo, mas quanta vida naquelas cores, tanta vida naquela mão que toca o livro, tanta luz e tanto calor no veludo daquela capa.




A mão que acaricia o seio apertado pelo espartilho, o pudor da jovem alheia à multidão que a olha. Quanto sentimento nas expressões daqueles que um dia, há muitos anos, o pintor retratou.


Depois Vincent.

O museu Van Gogh está em reparação até Abril do ano que vem. As obras foram transpostas para o Hermitage Amsterdam. Este é um edifício maravilhoso de grandes janelas de onde se vê a rua, os canais, os barcos que passam nos canais.




Foi nesse belo museu que vi, pois, as pinturas de Vincent van Gogh.

Infelizmente aqui as fotografias são interditas. Fotografei a entrada e uma ou outra à revelia, tendo até sido admoestada numa das vezes.

Por isso, também aqui recomendo a visita do site.




Gosto muito, muito, de Van Gogh. As cores vibrantes, as texturas, a simplificação de motivos, o inesperado das perspectivas, tudo me encanta.




Neste museu existe uma outra exposição, a dos Impressionistas. O impressionismo é um dos movimentos que mais me agrada na pintura (e, portanto, delicio-me sempre no Musée d'Orsay em Paris).

Aqui é interessante ver a pintura de Gauguin depois de ver a de Van Gogh, sabendo-se que Gauguin chegou a viver em casa de Van Gogh e que tantas divergências artísticas e tantas discussões tiveram. E é interessante ver como pintores contemporâneos interpretaram o que os rodeava de formas tão distintas.




Mas sobre Van Gogh, Gauguin, Monet, Cézanne e outros, para meu desgosto, não poderei aqui mostrar mais pois as poucas fotografias que tenho ou estão tortas ou mal focadas.


A seguir um outro museu, fantástico, uma construção moderna, arrojada: o Stedelijk. Uma vez mais sugiro que visitem o site. O museu é enorme e merecem visitas quer as exposições temporárias quer, obviamente, a colecção permanente.




O movimento neste museu é incrível, é um entra e sai que só visto, as salas cheias de gente, uma animação extraordinária.




Se me sinto quase em êxtase perante a pintura de Rembrandt ou Vermeer, é, contudo, com a pintura moderna que mais me identifico. E este museu é todo ele moderno. Não são apenas as obras expostas: é também a forma como estão expostas, é a forma como as obras se agrupam e como as pessoas se relacionam com as obras. 

Logo à entrada, uma pintura imprevista (e pouco favorecedora...) da Rainha Juliana prepara-nos para o que vai aparecer-nos daí para a frente.




Sendo um museu tão moderno, surpreende ver o elevado número de pessoas de mais idade. Esta é mesmo uma gente moderna.




Aqui as pessoas param, conversam demoradamente, olham, fotografam as obras expostas. Vivem a arte.




Se vos mostro agora todas estas fotografias (uma pequena parte das que fiz) é para que vejam que não exagero quando vos digo que, talvez como em nenhum outro lugar, eu vi tantas pessoas a conviverem tão de perto, com tanta naturalidade, com a arte. Novos, velhos, inválidos (vi várias pessoas em cadeiras de rodas), toda a gente vibra e dá mais vida às obras expostas.




Na fotografia acima não se percebe que aquela mancha de branco à volta da boca não é tinta branca mas, sim, uma luz que contorna os lábios. Mas reparem na quantidade de pessoas - e isto num dia útil.



Os bilhetes dos museus são caros, ou 15 ou 17.5 €. Mas, para o nível de vida holandês, isso não pesa. Contudo, o que se destaca é a informalidade e a habituação de toda esta gente ao convívio com a arte. E o convívio com a arte, já ontem o relembrei, transmite a sensação da paixão. E, portanto, é ver toda esta gente tão apaixonada, tão feliz...!




E há Chagall, o pintor do sonho, da magia, do amor romântico, várias maravilhosas e oníricas obras de Marc Chagall.




E há Picasso e o humor da sua pintura e dos títulos das suas obras, como esta mulher com chapéu em forma de peixe.




E há os retratos que parecem retratar os que passam e os olham.




E há os retratos que parecem olhar com suspeição os que os olham com suspeição.




E há os inesperados hologramas que se movimentam, que dançam numa coluna de vidro, pequenas figuras quase humanas que se transformam em luz e cor, quase tanta luz e cor como a do enorme quadro ali por trás.




E há os belos homens que fotografam as mulheres misteriosas das pinturas enquanto são fotografados por mulheres curiosas que gostam de observar os que observam.




E há as pinturas nas paredes que envolvem de cor e movimento as pessoas que ousam entrar em tão coloridos espaços.

Poderia ainda mostrar-vos as peças de mobiliário moderno, de design arrojado, ou instalações imprevistas, poderia mostrar-vos tantas coisas mais destes museus maravilhosos - mas sei lá se vocês ainda estão aí... às tantas já estão a dormir ou fartos de tanta conversa e tantas fotografias.

Por isso, fico-me por aqui. Se ainda aí estão, só posso desejar que tenham gostado.

Amanhã talvez vos mostre imagens dos canais, lindos, lindos nesta altura do ano.

**

E não me alongo mais. Tenham, meus Caros, um belo domingo!