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quinta-feira, maio 01, 2025

Mamã-gata e os seus cinco gatinhos-bebés

 

Na casa 'urbana', dá para isolar a zona do nosso quarto de forma a que o cão não consiga para lá ir. Mas a casa, in heaven, é diferente. É uma casa, a todos os títulos, especial. Um dia conto-vos. Entre outras particularidades, tem aquela que eu sempre desejei: passa-se de divisão em divisão de forma contínua, sem portas. Mas tudo tem o reverso. Não é fácil isolarmo-nos. Poderíamos fazer mais do que fazemos mas não é fácil até porque não queremos deixar de ouvir o que se passa na outra ponta da casa. Encostamos a porta do corredor que dá acesso à zona dos quartos mas não fechamos a porta do quarto. E o que acontece é que, a meio da noite, o espertalhão do dog empurra a porta do corredor e vem deitar-se sobre a cama, aos pés. Como sou mais pequena que o meu marido, é aos meus pés que ele encontra mais espaço. A partir daí, fico com menos margem para me acomodar a meu gosto. Bem posso dar-lhe pontapés que ele não se torce nem se amolga. Ao fim de algum tempo acaba por sair e ir deitar-se no tapete aos pés da cama. Mas, até sair, tenho eu que me Não sei se é por isso mas acordei com uma dor nas costas. E, ao longo do dia, a dor foi mordendo com mais força.

Por isso, não apenas não dormi muito bem de noite como, de dia, não andei especialmente famosa.

Face a isso, quando me reclinei aqui no sofá para ver o debate, começou a dar-me o sono e... adormeci mesmo. O meu marido, de vez em do, perguntava-me: 'Mas... estás a dormir...?'. Tentava acordar mas debalde.

Por isso, não consigo pronunciar-me. Se calhar, ainda que involuntariamente, poupei-me.

O que posso dizer, e amanhã a ver se até publico um vídeo no Instagram, é que aconteceu uma coisa. O meu marido contou-me que, quando foi buscar um podão ao recanto bagunçado ao pé do forno de lenha onde costuma amontoar ferramentas desse tipo, redes, oleados e nem sei bem o quê, saltou de lá um gato bonito, pintalgado. 

Quando fui para aqueles lados, o cão ladrava furiosamente lá ao pé, a olhar fixamente para lá. O meu marido disse: 'Este também já percebeu que o gato se esconde aqui'. 

Às tantas lembrei-me: 'Não haverá para aqui gatinhos?'. É que estranhei o olhar fixo e o ladrar transtornado da nossa fera. E fui espreitar. Então, para minha alegre surpresa, vi a coisinha mais fofa, mais fofa, um gatinho bebé, também pintalgado, fundo branco e manchinhas pretas e manchinhas amarelas, narizinho esborratado. Uma ternurinha fofa.

E, ao longe, a gata a espreitar.

O meu marido, então, foi buscar rede e conseguiu isolar minimamente a passagem para aquela zona, senão a coisa corria sérios riscos de acabar mal. 

Passado um bocado, puxei a rede para o lado e, pé ante pé, fui-me aproximando. Já não vi o gatinho, já não estava no sítio em que o tinha fotografado. Subi, então, para cima de um banco... e vi a cena mais ternurenta, mais linda, mais maravilhosa. Do outro lado, no meio daquela inqualificável bagunça, ao fundo, a gata rodeada de gatinhos. Cinco. Cinco gatinhos fofos, lindos, um amarelinho, um pareceu-me escurinho, outro branquinho, um malhadinho e outro de que só vi a cabecinha e que me pareceu clarinho. Fofos, fofos, um milagre da natureza. Mais um milagre. Se calhar nasceram ali. 

Não sei de que se alimentam. Não sei se deveria fazer alguma coisa por eles. Admito que o melhor é não fazer nada. Mas a minha vontade é pegar neles, adoptá-los, fazer com que fiquem por aqui. Mas, claro está, tudo isto é platónico, pois, com o medo que tenho de gatos, não sou capaz de me aproximar e deitar a mão a nenhum deles. Imagino que a mãe-gata, se eu ousasse a fazer isso, me saltaria em cima e me arranharia furiosamente. Desconfio dos gatos, tenho medo deles. Estou melhor a respeitá-los de longe.

Mas não imaginam como fico feliz com isto. Se eu conseguisse ter por aqui, convivendo alegremente, gatos, esquilos, uma possível raposa, o nosso cão, passarada, ficaria ainda mais feliz. Os javalis não, podem ficar longe.

Só espero que, de manhã, a família gatinha ainda lá esteja e que eu consiga fotografá-los para vos mostrar. Hoje mostro o possível, apenas o primeiro que vi.

E mostro um pouco de como está o campo por aqui. Lindo.

O meu marido diz: 'erva e mais erva, isto está a pedir ser tudo cortado'. E, claro, eu acho o contrário. Acho tudo lindo, lindo, verdinho, viçoso, inacreditavelmente perfeito, milagrosamente perfeito.






Feliz Dia do Trabalhador.

sábado, maio 02, 2020

Porque é que se trabalha?





Não me posso queixar. Pelo contrário. Mas a gente às vezes queixa-se não porque tenha ponderosas razões de queixa mas porque faz parte da nossa natureza de gente. A gente queixa-se. Às vezes por razões grandes, outras por razões pequenas, outras por razões permanentes, outras por razões ocasionais.

Outra coisa: não se trabalha apenas porque disso dependa a nossa sobrevivência. Trabalha-se porque trabalhar faz parte da nossa natureza.

Pelo menos da minha faz. Comecei a trabalhar cedo e sempre trabalhei muito: estava a dar aulas em horário completo e, ao mesmo tempo, a fazer uma licenciatura que só não me punha a cabeça em água porque eu relevava os pesadelos que quase se abatiam sobre mim. Daí passei para um lugar onde trabalhava sem horários, sob orientação de um super especialista que vinha dos States para me guiar, e, ao mesmo tempo, andava em transportes, grávida até ao fim da gravidez, uma barriga de impor respeito. Depois o segundo filho, a primeira ainda pequenina, o trabalho a levar-me por todo o país. O meu marido também sobreocupado, muitas vezes fora. Toda a vida, com muito trabalho, a garantir a presença e a atenção junto dos meus filhos, razão primeira de tudo. Faz parte de mim ser assim.

Há quem trabalhe pouco, se arraste, se queixe de tédio. Nunca me passou pela cabeça ser apenas dona de casa ou viver à custa de alguém. Até a mesada dos meus pais eu tinha dificuldade em aceitar. Sou independente por natureza, trabalhadora por natureza.

Não digo que seja virtude. Na volta é mais inteligente trabalhar pouco e viver à conta. Mas, na volta, a inteligência nunca foi o meu forte.

Uma vez, o Mourinho saíu de um clube qualquer com uma indemnização de milhões. Nesse dia eu estava a almoçar com um dos homens mais ricos do país. Mas desse homem, se a gente se distrair, ninguém percebe a dimensão da sua riqueza porque também trabalha que se farta. Havia uma televisão no bar onde se esperava e ficámos ali enquanto não chegavam outros dois. Vi então alguém a perguntar ao José Mourinho onde é que ele ia trabalhar a seguir e ele a dizer que ainda não sabia. Aquilo fez-me impressão. Então, ao almoço, ainda conversando sobre isso, distraída, eu disse: 'Como é que uma pessoa que, de repente, recebe assim uns milhões ainda precisa de trabalhar?' Então, ele, aquele que estava à minha frente, encolheu os ombros e sorriu. Insisti: 'Mas não acha?'. Ele, ainda sorrindo, quase como se confessasse uma fraqueza: 'Sabe, trabalha-se porque sim, porque não se sabe fazer outra coisa, porque é como uma pessoa se realiza, porque se gosta do que se faz, porque não se sabe estar sem trabalhar'. E eu olhei para ele sem saber o que dizer, de repente recordada da sua grande fortuna. Sorri também porque ele estava a falar dele próprio e porque sei bem como ele estava a falar verdade. 
Fiz caldeirada de asa de raia para o almoço. Com abundante cebola, tomate bem maduro, batata normal e batata doce, salsa, azeite e um pouco de sal. Sobrou um bocado. Então, para o jantar, retirei o peixe, tirei as espinhas (ou melhor, aquela cartilagem fina que, por acaso até gosto de trincar). Juntei um pouco de água, um fio de azeite e moí tudo bem. No fim juntei o peixe, um pouco de coentros e uma folhinha de hortelã. Tinha cozido ovos. então, em cada tigela de sopa, juntei um ovo picado. Estava uma maravilha. E ainda sobrou um pouco.
Também andei a varrer lã fora. Debaixo do telheiro, debaixo dos bancos, o jardim, a zona das árvores de fruta perto da casa, o caminho desde o portão. Apanhei carros de folhas secas e terra que fui despejar ao fundo, na zona dos pinheiros. Agora tenho as mão doridas e secas.
Este sábado irei fazer uma ou duas máquinas de roupa, fazer limpeza ao estúdio, pôr roupas a arejar. Não sei ainda o que vou fazer para o almoço. Não sei se favas guisadas com entrecosto se frango no forno.
Não posso dizer que trabalhe muito pois sei que há quem trabalhe muito mais, em condições muito mais duras, debaixo de aflições, se calhar sem gostar do que faz, se calhar com medo de, ainda assim, perder o trabalho que tem.


Mas não se pode pensar assim pois há sempre quem esteja pior. Pode é ser-se sincero. E, por isso, falo com sinceridade quando me queixo do que me incomoda ou quando me confesso cansada. 

Podia, é certo, deixar de trabalhar. Mas deixarei alguma vez de trabalhar? Faria o quê se deixasse de trabalhar? Varria e lavava o chão sem parar, cavava, podava árvores, cozinhava, escrevia, sei lá.

Lembro-me agora de um outro amigo, alguém com quem gostava muito de conversar e com quem tinha longas e saborosas conversas, e de quem, pelas circunstâncias da vida, acabei por me distanciar um pouco. Uma vez -- tinha ele feito cinquenta anos e, para o festejar, tinha ido jantar a Paris -- disse-me: 'Sempre pensei que só trabalharia até aos cinquenta anos. Agora que aqui cheguei, acho que vou mudar de ideias'. Com quatro filhos em idade escolar, dois a estudarem no estrangeiro, cada um em seu país, outra a mudar de curso pela segunda vez e sempre desorientada e uma outra a passar um ano a levantar a nota para tentar entrar no curso que queria, perguntei: 'Mas com as despesas que tem... E não consegue reformar-se tão cedo. Como faria? Desempregava-se? Vivia de quê' E ele: 'Tenho com o que viver bem até morrer'. Disse-me que não apenas tinha  uma verba considerável aplicada como muitas casas e garagens arrendadas. Acrescentou: 'Não preciso de trabalhar para nada, apenas para me manter ocupado. E faço o que gosto.'. Uma vez eu estava a falar de um restaurante muito bom, sempre cheio, disse-me ele: 'Mas sabe que esse restaurante é meu...?'. Não sabia, não fazia ideia. Ele pensava que sim, que já tínhamos sobre isso. Mas não. Era apenas mais um dos seus investimentos. Um dia disse-me que estava todo contente porque tinha satisfeito um capricho. Perguntei: 'Uma mota?'. Riu e disse que não. 'Um barco?'. Não. Acabou por me contar que era um Porsche. No dia seguinte apareceu numa mota, uma mota brutal. Era isso, a mota já ele a tinha. No entanto, trabalhava como um normal assalariado. E ainda trabalha. 

O trabalho não é apenas uma fonte de rendimento: é uma forma de se viver, é uma fonte de dignidade, é um motivo de realização.


Pelo menos, assim o penso. Mas isso, claro, cada um sabe de si e cada um que pense pela sua própria cabeça.

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É como escrever.
Escrever para quê? Porque que é que se escreve? Para quem se escreve?


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Pinturas de Diego Rivera e música de Ennio Morricone, banda sonora de Novecento.

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Um bom sábado. Saúde.


quarta-feira, maio 02, 2018

As mulheres no mundo do trabalho





Não sinto que tenha sido prejudicada, a nível profissional, por ser mulher, mas talvez eu seja uma excepção. Não sei, se quisesse ter funções de maior responsabilidade do que as que tenho, se as poderia ter mas nunca tirarei isso a limpo porque não tenciono querê-las. Há um ponto em que o aumento de responsabilidade tem a óbvia consequência de uma redução na qualidade de vida. Sem me dar conta, de forma natural e progressiva, fui-me tornando muito dependente das responsabilidades que fui assumindo. Muita da minha paz de espírito ou tempo de descanso têm sido consumidos por eu, simplesmente, não poder virar as costas às minhas responsabilidades. Mas mais do que isto não. Sempre estabeleci uma fronteira muito clara: nunca o trabalho poderia afectar a minha disponibilidade para os meus filhos (em especial até serem adultos e agora também, sempre que necessário, para os filhos dos meus filhos), para o meu marido e, agora também, para os meus pais. Equilibrar o tempo para a família e para o trabalho sempre foi árdua ginástica mas tem resultado. E penso que é aqui que se estabelece parte da diferença entre homens e mulheres a nível profissional. Os homens facilmente dão o passo que desequilibra a sua presença na família em favor da presença no trabalho. Mas isto advém de um outro aspecto que, em si, é causa e consequência da preponderância masculina em alguns cargos ou profissões: o excesso de horas de trabalho fora de horas. Há este mito de que, para desempenhar algumas funções, tem que se estar sempre disponível, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Engano.
Quantas famílias se desfizeram ou não chegaram, sequer, a fazer-se para alimentar este estúpido mito?
Voltando a mim. Também não creio que ganhe menos por ser mulher mas também não tenciono tirar isso a limpo. Sou desprovida de sentimentos de inveja ou despeito. Por onde tenho passado nunca os ordenados foram tabelados. Cada um ganha o seu ordenado. Também, anualmente, em função dos resultados das empresas e das avaliações, recebemos um prémio. Nunca quis saber se o que recebo é maior, menor ou igual ao dos outros. Não quero saber. Recebo o que me pagam sem questionar. Acho que o que ganho chega e sobra para as minhas necessidades e, como não me comparo com ninguém, também nunca arranjo pretextos para me aborrecer.

Contudo, grande parte dos meus colegas ou subordinados não é como eu. E, ao longo dos anos, tem-me sido dado percepcionar como a maior razão de descontentamento das pessoas se prende com o sentimento de injustiça. Nem sempre têm razão. Aliás, na maior parte dos casos, em minha opinião não a têm. Isso resulta de quase toda a gente se achar melhor do que é. É natural e, por isso, todos devemos ter isso presente e, por conseguinte, dar o desconto quando achamos que deveríamos merecer mais do que o que recebemos (seja dinheiro, reconhecimento ou afecto).
A forma como os outros nos vêem não é a mesma que a nossa. Nós tendemos a ser generosos e tolerantes connosco e implacáveis justiceiros para com os outros e isso distorce a percepção de justiça relativa.
Mas, a propósito disto de ser mulher num mundo profissional em que a maioria dos cargos de poder são ocupados por homens, devo dizer que o que acima disse em relação a mim, não significa que ache que sou um bom exemplo do que se passa, em geral. Tenho tido a sorte de trabalhar em empresas civilizadas e, portanto, não posso vitimizar-me. Contudo, a análise estatística das remunerações por género mostra bem como há um caminho a percorrer.

A desigualdade é ainda uma realidade.

Como já o referi algumas vezes, tendo eu partido de uma posição convicta contra as quotas, hoje estou certa de que, se não se for lá à força, através de quotas que imponham a presença feminina em cargos tradaicionalmente reservados a homens, não se vai lá.

Só quando as mulheres passarem a estar nas direcções das empresas, nos governos e em todos os lugares de decisão podermos ter equilíbrio e justiça pelas estruturas organizativas abaixo. Com mulheres nos órgãos de decisão, certamente muitos paradigmas se alterariam. Trabalhar em excesso, trabalhar como se não fosse essencial equilibrar o tempo de trabalho, o tempo de lazer e o tempo de descanso, como se a família e os amigos não fossem um esteio indispensável no equilíbrio emocional de qualquer pessoa, impor condições rígidas de trabalho quando as pessoas moram longe, não têm com quem deixar os filhos ou os pais e não têm dinheiro para arranjar apoios -- é qualquer coisa que uma sociedade evoluída e socialmente responsável não deveria admitir. E, estou em crer, as mulheres, porque sempre foram mais sacrificadas, são mais sensíveis aos problemas advenientes pelo que, mais facilmente, se tiverem poder, quererão mudar o estado das coisas.

Volto a mim num aspecto que é marginal mas, nem por isso, despiciente: apesar de não me sentir discriminada, sei bem como, por vezes, a presença de uma mulher em lugares de direcção é um factor de desconforto ou de desestabilização. Quando mais de uma dúzia de homens estão juntos, em ambiente informal, o espírito de equipa coeso e forte, e a conversa avança, naturalmente, para futebol, para anedotas brejeiras, para marcas de carros e para coisas do género, naqueles momentos em que não consigo alimentar grande conversa em torno desses temas, volta e meia dou por mim a pensar que eles prefeririam que eu não estivesse ali a perturbar o ambiente, a fazê-los ter algum cuidado ou a terem que puxar um bocadinho pela cabeça para arranjar assunto para fazer sala comigo. Irrelevâncias, é certo. Mas quantas vezes, na hora de escolherem mais um elemento para o seu inner circle, os homens -- pela facilidade de não terem que fazer concessões, para poderem estar à vontade ou, simplesmente, para não serem pressionados para mudar algumas coisas -- não optam por escolher um homem e não uma mulher? Portanto, pelas pequenas razões e pelas razões de fundo, desejo que as quotas de género sejam obrigatórias e que haja danos reputacionais para as empresas ou instituições em geral que não as levem a sério.

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A mulher na primeira fotografia é Jacinda Ardern, primeira-ministra da Neo Zelândia (que, por acaso, está grávida). A pintura, que pretende traçar um não paralelismo dos tempos, é de William Henry Margetson: At The Cottage Door, c.1900.

terça-feira, maio 01, 2018

Diferentes e sozinhos, sob o chasco e o insulto da canalha
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O discurso do Grande Ditador






Assim, muitas vezes, o que nos parece a loucura dos outros não é mais que a nossa própria incompreensão. 

Como sabem os estudantes, como sabe quem quer que seja, se o orgulho desmedido do dr. Raul Leal não é ilegítimo hoje só para ter sido sempre legítimo amanhã? Acham excessivo, mesmo como doença , o aspecto desse orgulho? Acham sofística a demonstração de que não é louco quem diz que quer fundar uma nova religião, "o terceiro reino divino"?

Por muitos que sejam os sintomas de desequilíbrio que uma psiquiatria justa possa encontrar no dr. Raul Leal, não são tantos quantos os sintomas de loucura, de degeneração, de perversão intelectual e moral que um psiquitra eminente, o dr. Binet-Sanglé, encontrou na pessoa de Jesus Cristo, o qual, contudo, fundou uma religião, como mesmo os estudantes de Lisboa devem saber.

Os três volumes intitulados La folie de Jesus constituem, sem dúvida, um exemplo de probidade clínica e de exposição psiquiátrica. Neles podem os estudantes aprender, lendo, como se demonstra um caso de loucura. Fechados eles, porém, podem aprender, reflectindo, que é a loucura que dirige o mundo. Loucos são os heróis, loucos os santos, loucos os génios, sem os quais a humanidade é uma mera espécie animal, cadáveres adiados que procriam.

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O grande ditador

Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade!


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O texto lá em cima bem como a primeira parte do título deste post são excertos de "Sobre um manifesto de estudantes" de Fernando Pessoa

O vídeo acima mostra um excerto do filme 'O grande ditador' de e com Charlie Chaplin

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As anedotas e o apelo a sério vêm já a seguir

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sexta-feira, setembro 29, 2017

Teresa Leal ao Coelho deu-lhe hoje o tiro de misericórdia.
Tentou colar o Marcelo à extrema unção mas o Presidente logo a mandou ir dar banho ao cão.
Ora, como é bom de ver, não vou juntar-me ao cortejo fúnebre.
Por isso, com vossa licença: Great Gardens: Glin Castle


Ao fim do dia, íamos para a praia quando ouvimos, na rádio, a surpreendente notícia: Marcelo tinha ido ter com a tiazona do PSD para lhe dar uma palavra de apoio. Ficámos estupefactos. Ambos: 'Passou-se?! O Marcelo foi apoiar a Teresa Leal Coelho?! Como é que é possível?!?!'. Mas, acto contínuo, caímos em nós: 'O Marcelo não é parvo, não ia cair nesta'. Os jornalistas continuavam a noticiar e nós: 'Não, o Marcelo não ia espalhar-se ao comprido desta boa maneira... A história está mal contada.'


Chegados a casa e eu ao meu sofá de estimação, ligo o computador e cá estava o desmentido de Belém, um valente tabefe na Leal ao Coelho: Qual apoio? Estava Marcelo no trânsito, passa a Tia Leal ao Coelho que vendo-o, atravessou a rua para ir cumprimentá-lo. Apoio isso? Qual apoio? Zero apoio.


E pimbas. Como se o caldo não estivesse já entornado, eis que a pouco inteligente criatura, julgando que a malta tem um QI alinhado pelo do láparo, se sai com uma esperteza saloia. Como a malta não é assim tão burra, o que aconteceu é que olhou para ela e o que viu foi a fina criatura a dar mais um tiro no pé. Só que, com a falta de discernimento que tão bem se lhe conhece, o resultado foi que a madama falhou a pontaria e acertou, de vez, no já defunto político que por aí anda exibindo a sua proverbial burrice e o seu igualmente famoso ressabiamento. 'O tiro foi bem na testa, não matará mais criancinhas nos caminhos da floresta', consta que logo concluíram os caciques laranjas, satisfeitos por o enterro do seu fraco líder estar próximo.

No domingo todos encomendarão a sua alma ao seu amigo diabo e o aparelho haverá de se preparar para saltar a pés juntos em cima da tumba (metaforicamente falando, claro está).

E eu, que não faço nem nunca fiz parte da família nem gosto de nada que tenha que ver com cenas mórbidas, com vossa licença não vou participar no velório do láparo.

Assim, tenho andado por aqui a passarinhar, flanado sobre danças e artes, e, nessa divagação, dei com um vídeo supimpa. Partilho-o convosco. Maravilha.

Great Gardens: Glin Castle



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Até já.

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segunda-feira, maio 01, 2017

Trabalhar




Desde menina que tive muito claro que queria ter uma profissão e que tinha que garantir, eu por mim, a minha independência. Comecei a trabalhar mal fiz vinte anos. Certo é que há quem comece muito mais cedo mas, na minha geração, já era relativamente normal que quem estudava na universidade apenas entrasse no mundo do trabalho depois de acabar o curso. 

Eu não esperei. Embora a minha família não tivesse dificuldades económicas e não tenha ideia de que algum dos meus (escassos) pedidos tivesse sido alguma vez regateado, havia em mim como que um orgulho que fazia com que me fosse penoso aceitar a mesada.

Assim, contra a opinião dos meus pais, em especial do meu pai que temia que eu me dispersasse e acabasse por não concluir a licenciatura (que, na altura, era de cinco anos), comecei a dar aulas mal acabei o chamado bacharelato (três anos de curso).

Soube-me muito bem começar a ter o meu ordenado, apesar de, por vezes me ser algo difícil conciliar horário completo como professora, aulas como aluna e, logo de seguida, também a lida da casa como 'mulher casada'. 


Sempre gostei de trabalhar. Como é normal, tenho atravessado fases de alguma descrença ou desconforto ou desmotivação. Mas sempre consegui superá-las pois a força das minhas convições (especialmente as que se referem à necessidade de olhar para o lado bom da vida) sempre me ajudou a ter paciência e esperar pelos momentos de maior entusiasmo.

Tenho tido sorte -- e, no fio condutor da vida, atribuo à sorte um papel importante. Mas também sempre encarei o trabalho não apenas como uma necessidade mas também como uma forma de valorização pessoal e isso, acho eu, sempre me ajudou nas opções que tomei e na forma como tenho encarado a vida profissional.

Ao contrário de algumas pessoas que encaram o trabalho como um frete e que usam todos os estratagemas para trabalhar o mínimo possível (e tenho no meu círculo de amigos e familiares algumas pessoas que o fazem), eu sempre encarei o trabalho como uma componente indispensável da minha vida.

Mesmo em casa, gosto de trabalhar, de limpar, de arranjar, de fazer coisas. Trabalhar para mim é manter o motor da vida a funcionar.


Tenho tido a sorte de passar incólume pelas muitas reestruturações que levam a rescisões e tenho acompanhado de perto a angústia de quem teme perder o trabalho e baixar o seu nível de vida. Não têm conta as pessoas que de mim já se despediram, frequentemente em lágrimas, por terem aceitado uma rescisão amigável, com indemnização, ou por se terem reformado, algumas delas antecipadamente.

Algumas vão confiantes ou porque já trabalharam o suficiente e vão descansar ou porque se preparam para começar uma nova vida. Mas outras vão angustiadas, sentindo-se injustiçadas e muito tementes quanto ao futuro. Por elas, sempre sinto um aperto no coração.

Tenho contactado também com pessoas que trabalham em empresas de trabalho temporário e, de cada vez que trabalho com alguma, a minha vontade é poder continuar com elas pois penso que a insegurança de não voltar a ter um trabalho tão cedo deve ser terrível.

Apesar de algumas pessoas que conheço e que, por opção e rendimentos próprios, não trabalham me olharem como uma excêntrica por gostar de trabalhar, não me sinto como tal; mas também não olho com superioridade moral quem não trabalha por decisão própria, nomeadamente mulheres que, em tempo, optaram por ser, a tempo inteiro, mães de família e donas de casa. É uma opção que, face à minha maneira de ser, me custa a perceber mas que respeito até porque essa opção pode ter resultado de condicionalismos alheios à vontade ou de acasos que, de alguma forma, se conjugaram. E, de resto, trabalhar em casa, a tempo inteiro é certamente bastante desgastante.


O que penso, e isso penso com convicção, é que um país só pode ser bom se tiver condições de ser inclusivo para todos, para os que podem viver bem e para os que precisam de apoios. E, para que isso aconteça, o país tem que ter uma economia saudável, que gere riqueza. E, portanto, mais do que defender o trabalho por razões meramente morais, defendo-o por razões objectivas. É o trabalho, físico ou intelectual, que permitirá, antes de mais, manter em movimento a máquina do desenvolvimento.

Claro que o capital também é indispensável mas nunca o capital acima de tudo, e nunca o capital como princípio e fim de todas as coisas.

Nunca foram os trabalhadores que causaram malefícios ao país e a história recente, para os de memória curta, aí está para o provar. Opções políticas erradas, governantes impreparados, preponderância da ganância de uns poucos em detrimento do desenvolvimento económico, social e humano, isso sim, deu, por vezes, cabo da vida de muita gente.

Hoje, 1º de Maio, é o Dia do Trabalhador e eu fico feliz por sentir que agora, no meu país, os trabalhadores não são vistos como os bodes expiatórios de uma crise (que, ainda por cima, nasceu noutras paragens e teve origem na especulação financeira), ou uns oportunistas a quem é necessário restringir direitos. Hoje, de maneira geral, sente-se que há uma consciência que valoriza o trabalho, que respeita os trabalhadores e começa de novo a perceber-se que o futuro será um lugar bom para se viver se a dignidade de quem o constrói for sagrada,


Um dia feliz a todos os que trabalham, seja onde ou em quê, ou que já trabalharam ou que gostariam de voltar a trabalhar ou ainda os que gostavam de começar a trabalhar.

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