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terça-feira, junho 23, 2026

Susie e Bella, duas amigas

 

Um dia atarefado com coisas cá minhas, mas incomodada com o calorão abafado que a mim me pesa e tira o fôlego. Em dias assim, as coisas custam-me. No domingo, ao fim do dia, reguei alguns vasos e tinha pensado deixar para esta segunda-feira os vasos dos terraços e as buganvílias; mas não consegui. Não sei se a pressão atmosférica faz baixar a minha tensão arterial ou se é outra coisa, o que sei é que a minha energia parece ficar tolhida.

Ainda assim, fui ao ginásio. Muita gente que nunca vi antes. Algumas pessoas vão com personal trainers e sujeitam-se a verdadeiras torturas. Outros sujeitam-se às torturas por si mesmos. Hoje um homem, com uns gémeos de uma grossura irreal, dobrava-se ao meio, as pernas presas, e elevava e baixava o tronco pegando numa grande bola que parecia pesar uma tonelada. Ao vê-lo naquele esforço insano, dei por mim a pensar: 'Só espero que nunca morra nenhum enquanto eu aqui estou'. Um outro, bem mais velho, com idade para ser pai do outro, estava deitado, um altere em cada mão, abria os braços e depois fechava-os sobre o peito. E eu pensei: 'Se lhe falha a força e uma daquelas coisas lhe cai em cima, esborracha-o'. E não sei se já falei de uma a quem eu e o meu marido nos referimos por cavalona: deve medir um metro e oitenta ou mais, é escultural, usa uns trajes que lhe salientam os glúeos, um top curto, soutien na realidade, e atira-se às máquinas com um afinco que me deixa de boca aberta. Usa um rabo de cavalo ao alto e desloca-se entre as máquinas com passada larga e uma pressa carregada de violência que parece ser apenas vontade de que ninguém lhe ocupe o lugar. Há também rapazes e raparigas, praticamente das mesmas idades, que, em vez de olharem uns para os outros, de flirtarem ou, pelo menos, tentarem perceber se há ali alguma potencial afinidade, não senhor, no intervalo de cada exercício enfiam os rostos nos telemóveis, por vezes sorriem com o que veem, escrevem mensagens mas, sobretudo, deslizam o dedo nos ecrãs. 

Se eu tivesse lata, pedia licença para fotografar ou filmar todos esses meus parceiros, e gostava de lhes fazer perguntas. Mas não tenho. Fico calada, a olhar de soslaio.

Faços os meus exercícios modestos e lembro-me de uma coisa que li no livro da Siri Hustvedt: não é possível escrever sobre o que vai passar-se a seguir. Por isso, eu sei o que fazia e como era quando tinha a idade deles. Eles não sabem como serão e o que farão quando tiverem a minha idade.

Bem. Filosofia à parte.

O que sei é que, com este calor e a preguiça que desce em mim, agora à noite apeteceu-me uma coisa soft, light, tranquila. E nada como as conversas simpáticas, afáveis, com tempo, de Bella Freud com os seus convidados. Desta vez, a conversa é com uma amiga de longa data, a serena Susie Cave que eu apenas conhecia de ser mulher de Nick Cave. 

Aqui, Susie, impecavelmente vestida, calçada e penteada, conversa sobre o amor que bateu forte logo que os olhares dela e de Nick se cruzaram, fala de como começou a sua carreira de modelo, fala sobre o desgosto que quase a devorou quando um dos filhos morreu, fala do seu trabalho como designer de moda e como isso foi a mão que a salvou do abismo. É uma conversa pausada que condiz com o belo rosto de Susie e com o olhar carinhoso de Bella. Sabe bem ouvi-las.

Susie Cave fala sobre Steven Meisel e o seu encontro com Nick Cave | Fashion Neurosis com Bella Freud

Susie Cave é uma modelo e estilista britânica. A sua carreira começou quando foi descoberta durante umas férias em Nova Iorque pela famosa agente de modelos Bethann Hardison, que a encaminhou imediatamente para Steven Meisel, aconselhando-a a regressar à escola, uma vez que tinha apenas 14 anos. A sua beleza marcante e presença etérea rapidamente lhe valeram um lugar em campanhas de alta costura e capas de revistas, incluindo, mais recentemente, uma campanha de perfumes da Gucci e a capa da revista Another Magazine em 2020. Em 2015, Susie lançou a sua marca de moda, The Vampire's Wife, que ficou conhecida pela sua mistura de estética gótica e romântica. A Vogue descreveu o seu inconfundível vestido como o "vestido do momento", e a The Vampire's Wife rapidamente conquistou um público fiel, atraindo celebridades como Florence Welch, Cate Blanchett e Kate, Princesa de Gales, entre as suas clientes. Os designs de Susie são um reflexo do seu estilo pessoal — romântico, misterioso e profundamente artístico — consolidando-a como uma voz singular na indústria da moda. É casada com Nick Cave, vocalista da banda The Bad Seeds. Neste episódio de Fashion Neurosis, Susie Cave e Bella Freud conversam sobre como foi descoberta pela lendária Bethann Hardison e o seu encontro com Steven Meisel aos 14 anos; a primeira vez que viu o seu futuro marido, Nick Cave, num dos desfiles de Bella; e como o luto pode ser canalizado através da criatividade.


Desejo-vos um belo dia

terça-feira, março 24, 2026

Mostra-me a tua casa, dir-te-ei quem és

 

Se no post abaixo abaixo falo da natureza, tão múltipla, tão vibrante, tão divinamente perfeita, e da tocante afinidade que Sir David Attenborough reconhece na expressão de sentimentos entre os macacos, aqui falo de algo muito distante, bem mais comezinho: os objectos que uma pessoa tem na sua casa e que, de certa forma, revelam a sua natureza.

Já falei muitas vezes no assunto. Para mim, estar em casa de alguém pode ser uma experiência simpática mas também pode ser muito hostil. 

Casas escuras em que o pavimento é escuro, as portas escuras, os móveis e os sofás escuros, os azulejos das cozinhas cor de café com leite ou com motivos escuros, tudo é escuro (excepto a casa de banho que é cor de rosa ou verde reluzente), deixam-me atrofiada. Ou casas em que as paredes são maioritariamente vazias e depois, a meio, geralmente mais acima do que devia, está um quadro, por vezes pequeno, por vezes (a meu ver) de mau gosto, ali perdido, deixam-me desconfortável. Ou casas com colchas com folhos e cortinados de cetim, tudo às cores, com almofadas de cetim, também com folhos, em cima da cama, deixam-me incomodada. Nem falo no terror que é ter uma boneca em cima da cama, mas isso, felizmente, ao vivo nunca presenciei. Não consigo conceber como se consegue viver numa casa assim, imagino que isso torne as pessoas infelizes. Ou, então, é porque são infelizes que têm a casa assim. Não sei.

Nem consigo imaginar como se consegue viver numa casa cheia de tralha, carradas de objectos, uma casa impossível de manter arrumada ou limpa. 

Uma vez contei aqui que tinha ido a casa de uma pessoa, um familiar que tinha mudado de casa, tinha mudado de mulher, tinha mudado de vida. A casa foi desenhada por ele, enorme, com múltiplas divisões, algumas ocupadas com os seus objectos de colecção. E vim de lá perdida. Nessa noite quase não dormi, tal o pesadelo. Por todo o lado coisas. Imaginem (e vou dar um exemplo): colecção de relógios. Uma sala enorme, mas mesmo enorme, com relógios de toda a espécie e feitio: de pé, de parede, de móvel, de bolso, de pulso. Muitos, de vários estilos, de várias épocas, de várias marcas. Expositores, vitrinas, tudo cheio. Até relógios de estações de caminho de ferro. Uma coisa inimaginável. Ele feliz da vida. E eu a pensar: mas como é que se limpa isto? Não limpa, é impossível. Ou, lá está, um daqueles pensamentos peregrinos e escusados: um dia que morra, como é que os filhos dão conta de tudo isto? Não dão. Impossível. E, contíguo a esse espaço, havia um ainda maior com outra colecção, peças vindas de todo o mundo, uma coisa que mais parecia um museu. E não vou aqui entrar em detalhes e falar de todas as colecções e de toda a vastidão que é aquele espólio porque, enfim, é um familiar, pessoa estimável, e há sempre o risco de alguém o identificar e achar que estou a ser injusta. Se calhar estou. O dinheiro ali investido nem dá para imaginar e, até por isso, há que valorizar. Mas eu gosto de espaço, de ar que circule, de oxigénio, de luz. Sentir-me-ia apavorada se tivesse que viver ali ou, pior, se estivesse incumbida de manter aquilo limpo. Eu que detesto limpar o pé porque quando limpo é peça a peça, tudo tirado para fora, para limpar por trás e por baixo, não saía dali com vida. No entanto, nitidamente isso não era tema de preocupação nem para ele nem para a mulher. Dá ideia que quem tem muita tralha, colecções infinitas, só pensa em descobrir a peça alemã (é um exemplo), tecnologia xpto, feita no ano de mil novecentos e troca o passo, modelo raro, e vai fazer de tudo para a arranjar, custe o que custar. Não pensa que não precisa dela, que já não tem onde pôr tanta coisa especial, que qualquer dia haverá zonas em que não vai conseguir-se meter um pé e que nem vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, dariam para limpar tudo como deve ser.

Mas isto para dizer que sou muito sensível a uma decoração equilibrada, com apontamentos alegres, talvez inesperados, pontos de cor, espaço para circular, espaço para descansar, espaço para ler.

De manhã, abro as minhas janelas, deixo que a luz entre, deixo que o ar circule. O meu marido, no inverno, zanga-se: 'Queres que a casa fique gelada?' e vai fechar os vidros. Mas as persianas ficam até acima. E todos os móveis estão dispostos de modo a que não haja obstáculos: o ar, a luz, as pessoas e o cão -- tudo pode deslocar-se à vontade. E há cor e, espero eu, beleza.

Bella, pintada pelo pai, Lucien Freud, em 1987
[Note-se que agora, tantos anos depois, parece mais jovem e mais leve do que quando o pai a pintou]


A casa de Bella Freud, que o algoritmo do Youtube hoje me mostra, é, sem surpresa, uma casa muito agradável. Espaçosa, bonita, com elementos que têm uma história, com contornos de boa disposição. Gostei de ver e espero que também seja do vosso agrado.

Por dentro da casa eclética desta designer em Londres, repleta de objetos sentimentais | Vogue

A residência da estilista de culto Bella Freud, no oeste de Londres, está repleta de detalhes divertidos que refletem o seu círculo eclético de amigos e colaboradores. Enquanto nos guia pela casa, Bella fala sobre o seu falecido pai, o seu bisavô (o lendário Sigmund Freud), exibe uma miniatura dourada da mão de Nick Cave e muito mais
.


E queiram descer um pouco mais caso queiram conhecer a história do Pablo

segunda-feira, março 23, 2026

Ouço uma conversa assim, pessoal, íntima, entre um homem e uma mulher, e penso que seria provável que acabassem apaixonados

 

O meu dia foi, tal como o anterior, muito bom e muito tranquilo. Fomos lanchar/jantar a casa do meu filho, e estivemos na casinha de vidro que têm no jardim, que é um lugar muito agradável. Como o dia esteve primaveril, o ambiente fica ainda mais acolhedor. Os lugares em que estou com os meus é sempre um lugar de felicidade. 

Antes de irmos para lá, estive ao sol que não estava muito quente mas que, apesar de tudo, me aqueceu levemente a pele. Ouvia os pássaros e os sinos e pensei o que penso muitas vezes: mesmo que fosse só por um momento assim já valeu a pena. 

Já aqui contei mas, como penso nisso muitas vezes, vou repetir. A primeira vez que me encontrei com um colega depois do confinamento, contei-lhe que tinha mudado de casa. Descrevi-a, disse onde era, e ele ficou pensativo e disse que, quando sabe que algum amigo mora numa casa assim, pensa sempre: 'e quando um dos dois morrer, a casa não fica grande demais só para um?'. Já não me lembro se me ri e lhe disse que estava mórbido demais para o meu gosto ou se fiquei contagiada, melancólica. Só sei que lhe disse que não tínhamos pensado nisso mas que, quando isso acontecer, logo se verá, mas que, até lá, valerá sempre a pena. E tem valido. No verão fará seis anos que aqui vivemos. E cada dia vale a pena. Mas penso no que ele me disse. A lei das probabilidades não esconde que talvez um dia um de nós dois vá antes do outro. Espero que seja daqui por muitos e bons anos. Mas, quando acontecer, será um problema, claro, em especial se, nessa altura, já for, como desejo que seja, bem velhinho. Um velhinho ou velhinha numa casa grande, sozinho/a, longe do centro da cidade, será sempre complicado. Mas os problemas existem para serem resolvidos e, em princípio, a sua resolução requer sempre uma avaliação concreta das circunstâncias. Portanto, como não se sabe quais as circunstâncias desse dia futuro, não vale a pena estar agora a pré-ocupar-me com isso. 

O que vale a pena é pensar: estou aqui, agora, estou bem, gosto de aqui estar, tenho a sorte e a felicidade de aqui viver e de poder sentir o sol, ouvir os pássaros e a música dos sinos, ver as árvores e as flores, andar descalça, pôr as mãos na terra, estender roupa ao sol.

Mas, portanto, ponho-me ali nestas divagações e nem me apetece pegar num livro, estou simplesmente ali, a existir. Também poderia pegar no computador, ver as notícias, circular pelo youtube, não deixar tudo para as tantas da noite. Mas não. Há isto de que já falei um milhão de vezes: tenho que viver o lado funcional durante o dia, cozinhar, jardinar, fazer compras, arrumar coisas, etc, e depois aproveitar um bocado para estar sem fazer nada, a pensar, a dormitar, a olhar em volta. Não quero deixar que esse tempo seja invadido pelo silêncio de que preciso à noite. 

Por isso aqui estou agora. Comecei por me informar sobre esta guerra perigosa -- mas hoje não estou com disposição para me deixar atormentar. Por isso, desviei-me, escolhi outra rota: estive a ouvir a lenta, gostosa, conversa entre a Bella Freud, designer de moda e filha e neta de dois ilustres Freud, Lucian e Sigmund,  e o escritor Karl Ove Knausgaard.

Já no outro dia aqui partilhei um vídeo de uma outra destas conversas. Há vagar, há espaço, não há interrupções nem confrontações. Ouve-se, partilha-se, está-se disponível. É bom de ouvir, são momentos de calma.

Desta vez o convidado é improvável. Mas o engraçado é que a coisa funcionou muito bem. Há uma empatia entre eles, talvez até mais que isso. Gostam de ouvir o que o outro diz, entregam-se à escuta do outro. A conversa vai para áreas sensíveis. Não que ele já não tenha escrito sobre isso: o alcoolismo do pai, o sofrimento que isso lhe causou, o impacto que teve na sua vida. Mas escrever, no silêncio, é uma coisa: não há ninguém a ver, não há ninguém a ouvir, não há ninguém a questionar. Outra, muito diferente, é falar sobre assuntos íntimos e difíceis com alguém. Mas, aqui, a conversa flui.

E sente-se que, um momento assim, tão íntimo, tão exposto, tão sincero, pode dar lugar a um belo romance de amor. Não sei como foi quando ele se levantou do sofá, podem apenas ter-se despedido, gostei muito, thanks e até um dia destes -- mas a mim parecer-me-ia natural que se abraçassem, e, quando falo em abraço, falo em abraço a sério, apertado, demorado. Parecer-me-ia também natural que, depois do abraço, se olhassem nos olhos. E um olhar prolongado nos olhos um do outro, um deep dive, já se sabe ao que leva. Ou seja, parecer-me-ia natural que se beijassem. E, já que o sofá está ali à mão de semear e já que não são umas crianças e que, naturalmente, não têm muito tempo a perder, que testassem logo ali mesmo ver se os corpos também se entendiam entre si.

Mas isto sou eu a ficcionar. Gosto de histórias de amor.

Karl Ove Knausgaard sobre o Poder dos Pais | Podcast Fashion Neurosis com Bella Freud | Vídeo

Karl Ove Knausgaard é um escritor norueguês. O seu romance autobiográfico "A Minha Luta", lançado em seis volumes, foi aclamado como uma obra-prima em todo o mundo. Exerce um grande fascínio tanto sobre os intelectuais como sobre os jovens que refletem sobre o propósito existencial da vida.

O autor Karl Ove Knausgård junta-se a Bella Freud para uma conversa intimista que explora o poder dos pais e as complexidades da identidade. A discussão aprofunda as experiências pessoais com a vergonha e o significado inesperado das escolhas de vestuário. Prepare-se para reflexões perspicazes sobre relacionamentos, arte e a busca universal do eu. 


Desejo-vos um dia feliz

quinta-feira, março 19, 2026

Conversar, ouvir

 

Quando estou com alguma das minhas amigas mais antigas, mal nos vemos desatamos a conversar como se não tivesse havido tempo de permeio. Aquelas com quem mais gostava de estar em miúda continuam a ser aquelas de quem ainda mais gosto. Não são iguais a mim. Cada uma delas tem coisas que vão quase em sentido oposto ao que eu sigo. Mas, ainda assim, nas nossas diferenças, entendemo-nos. Gostamos de ouvir as opiniões umas das outras. Para quem não tem problemas de maior, conversar assim deve ser tão bom e tão válido como fazer terapia. Tudo o que alguma de nós diz não encontra espanto ou censura nas outras, encontra aceitação, vontade de compreender. Não há vergonha nem inibição.

Nunca fiz terapia, nunca senti necessidade. Pelo contrário, gosto é de ouvir as outras pessoas. Já contei muitas vezes este fenómeno: sem que me conheçam, as pessoas desatam a falar-me da sua vida. Sempre assim foi. Mesmo agora no ginásio isso acontece. Uma companheira, digamos assim, com quem lá me cruzo com alguma frequência, quando estamos as duas ao lado uma da outra, conta-me tudo e mais alguma coisa sobre a sua vida. No fim, já despachado, o meu marido fica à minha espera no sofá, a ver televisão, pois a conversa costuma demorar. Nem sei o nome dela nem ela o meu, e no entanto sei como se chamam o marido e os ex-maridos, sei porque se separou dos ex, sei o que a encanta no actual, sei dos desaires da filha, sei de muita coisa. E a sensação que tenho é que mal abro a boca. O meu marido costuma dizer, ao ver como as pessoas se abeiram de mim e desatam a falar: 'se não desses conversa, a ver se a conversa durava tanto...' Mas a conversa que ele diz que dou não é nenhuma, limito-me a ouvir com atenção, eventualmente faço uma ou outra observação. 

Quando no fim do outono passado almoçámos passámos a tarde com uns amigos, alguns com quem já não estava há bastante tempo, para o fim, um que é muito conversador desatou a contar-me coisas. O meu marido sentou-se num banco, incapaz de acompanhar. Mas um outro que estava também sentado nesse banco, levantou-se e veio mostrar-me umas fotografias, de certa forma interrompendo a conversa do outro. E eram fotografias de uma mulher muito bonita, que ele mostrava embevecido. Eu não a conhecia. Disse-me depois que era a mulher, que tinha morrido há uns dois ou três anos, salvo erro e que eu nunca tinha conhecido. Vi que continuava apaixonado por ela. Ora ele estava lá, naquele dia, com a namorada, namorada essa que, quando me tinha apanhado sozinha, também me tinha estado a contar toda a sua vida e como, agora, com este namorado, continuava a morar cada um em sua casa, tanto mais quanto, em casa dele, havia fotografias da mulher por todo o lado. Então, quando ele estava a mostrar-me as fotografias da mulher, linda, eu estava a modos que meio desconcertada por ver como, se calhar, ele ainda não estava preparado para estar a viver um namoro quando ainda se derretia todo a mostrar fotografias da mulher. Claro que não disse nada, não apenas porque o meu outro amigo, que este tinha interrompido, estava à espera que ele acabasse para retomar a conversa, como o meu marido não parava de me fazer sinais para nos irmos embora.

Quando chegámos ao carro, queixou-se do que se queixa sempre, que me deixo ficar a ouvir as pessoas, que não percebo que, se não as interromper, as pessoas não se calam. E eu, de certa forma, até concordo: as pessoas começam a falar comigo e não param de falar, e, por isso, custa-me desligar-lhes o botão. Pergunta porque é que não faço como ele. Respondo que não faço porque não sou capaz. Ele desliga. Ora como posso fazer isso com as pessoas a confidenciarem-me sobre as suas vidas?

Disse lá em cima que nunca fiz terapia, e é verdade. Mas, quando a minha mãe estava internada, nos Cuidados Paliativos, as médicas disseram à psicóloga que achavam que eu precisava de apoio e, então, ela procurou-me. Falei com ela, não me recordo se duas ou três vezes e foi muito útil, gostei bastante, ajudou-me. E, naquela altura em que eu estava meio perdida, desorientada, quase sem saber interpretar o que estava a acontecer e a querer que tratassem a minha mãe em vez de tentarem convencer-me que já não havia nada a fazer, foi bom ter alguém a fazer-me perguntas, a ouvir-me, a ajudar-me a interpretar. Lembro-me que desatava a chorar e que ela me dizia que era natural que eu estivesse assim, e continuava a falar como se, de facto, a minha reacção fosse normal, dizia que era normal eu estar até quase revoltada por a minha mãe ter escondido tudo e estar, até ao fim, a fazer de conta que não sabia o que tinha, deixando-me sem saber como agir.

Estávamos sentadas ao mesmo nível, ela num sofá, eu num outro, perto uma da outra. 

Não sei se funcionaria se eu estivesse deitada num sofá e ela sentada, num nível mais elevado. Não sei. Não sei se uma pessoa deitada, se abandona, se se expõe mais facilmente. Não sei.

Aqui à noite, sem televisão ligada, vou vendo o que o algoritmo do Youtube tem para me mostrar. E tenho gostado de ver as conversas de algumas pessoas interessantes, deitadas no sofá, com a anfitriã, sentada num outro plano. Com uma câmara apontada ao rosto, sabendo que a conversa está a ser gravada, não sei se conseguiria desinibir-me e conversar sobre tudo. E, mesmo pondo-me no papel de quem ouve o que outra pessoa fala sobre a sua vida, não creio que me sentisse confortável estando o outro ali deitado no sofá. Mas, se calhar, funciona. Pelo menos, aqui, como abaixo poderão constatar, funciona.

Neste caso a conversa é com Helena Bonham Carter, que admiro bastante, é uma excelente diseur e uma excelente actriz. E quem conduz a conversa é Bella Freud, filha do pintor Lucian Freud e bisneta de Sigmund Freud. E divertem-se imenso, a conversa é gostosa. E falam com vagar, o que é muito bom. Conversar requer tempo, disponibilidade.

Helena Bonham Carter fala sobre traseiros proeminentes, androginia e a Princesa Margarida | Fashion Neurosis

Helena Bonham Carter é uma atriz inglesa. Conhecida pelas suas interpretações de mulheres interessantes e singulares, alcançou a fama ao interpretar Lucy Honeychurch em Um Quarto com Vista, em 1985, e a personagem-título em Lady Jane, em 1986. Em 1999, Bonham Carter rompeu com a imagem de "rosa inglesa" ao interpretar a mulher fatal Marla Singer em Fight Club. Interpretou a malévola bruxa Bellatrix Lestrange na franquia Harry Potter e, mais recentemente, a Princesa Margarida em The Crown, papel pelo qual foi nomeada para vários prémios. Helena vai protagonizar uma nova adaptação de Os Sete Relógios, de Agatha Christie, para a Netflix em janeiro de 2026.

Helena Bonham Carter tem dois filhos com o realizador Tim Burton. Conheceram-se em 2001 no set de O Planeta dos Macacos, e o casal colaborou em sete filmes, incluindo A Noiva Cadáver e Alice no País das Maravilhas, até à separação em 2014.

Conhecida pelo seu amor por calças abalonadas, saias compridas e estilo vitoriano, Bonham Carter lançou a sua linha de moda, The Pantaloonies, em 2006. Protagonizou campanhas para Marc Jacobs e Prada, e citou Vivienne Westwood e Maria Antonieta como as suas inspirações de estilo.

Bonham Carter recebeu um prémio BAFTA, um Critics' Choice Movie Award, um Emmy Internacional e três prémios do Screen Actors Guild, além de ter sido nomeada para dois Óscares, nove Globos de Ouro e cinco Primetime Emmy Awards. Foi nomeada Comandante da Ordem do Império Britânico (CBE) na lista de Honras de Ano Novo de 2012 pelos serviços prestados ao teatro.

Neste episódio de Fashion Neurosis, Bella Freud e Helena Bonham Carter discutem sobre roupas andróginas, rabos proeminentes e a palavra "vagina" como o novo elogio.

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Boas conversas

Dias felizes