Mostrar mensagens com a etiqueta Chiado. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Chiado. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, outubro 01, 2025

Ai Lisboa, Lisboa...

 

Não sei, de fonte segura, há quanto tempo não passeava no Chiado. Lembrei-me de verificar aqui no blog. A última vez em que aqui registei um passeio por lá foi em 2022. Depois dessa data já registei passeios na Avenida da Liberdade, várias vezes em Belém, Parque das Nações, Gulbenkian, Parque Eduardo VII, Avenida da República, etc. E, claro, não registo os lugares que frequento regularmente como é o que caso da Avenida de Roma e adjacências que a isso, muito sinceramente, já não consigo ver motivos para fotografar pois felizmente é um lugar que tem sabido manter-se igual a si próprio. Mas a questão é que não vou falar de Lisboa em geral mas especificamente da zona do Mercado da Ribeira, Cais Sodré, Rua do Alecrim, Chiado, Rua do Carmo, Rossio, Ruas da Baixa. 

Desde tempos imemoriais esta zona sempre foi das que mas gostei em Lisboa e das que mais frequentei. Houve uma altura em que passava por lá diariamente e, mesmo quando a percorria por motivos utilitários, o lado de turista acidental nunca deixou de estar presente. Alfarrabistas, livrarias, moda, pessoas que passam e que tornam o local ideal para fazer fotografia de rua, tudo ali sempre foi muito apelativo para mim.

E se dantes ia bastante assiduamente a verdade é que, nem sei bem porquê, passaram três anos sem me lembrar de lá ir (isto admitindo que a última vez corresponde a quando aqui o documentei).

Ontem acordei a pensar que estava com saudades. Fomos.

E não sei como descrever o que encontrei. Até me fez lembrar aquele sonho que volta e meia tenho em que volto ao meu local de trabalho e mal o reconheço: o espaço diferente, as pessoas todas novas.

Uma quantidade inexplicável de tuk-tuk, uma coisa como não poderia esperar. Grande parte deles estão engrinaldados de flores coloridas, outros parecem carros antigos. Claro que em 2022, na Baixa, já os havia. Mas não era a avalancha que é agora e eram mais simplórios, quase artesanais. Agora é uma estridência colorida, uma coisa que diria mais enquadrada nas Caraíbas ou no México. Mas, sobretudo, a quantidade. 

Claro que se há procura, a oferta adequa-se e, portanto, isso significa que há muito turismo que os procura. Por isso, há que ver a racionalidade económica da coisa. Ando por estas ruas e sinto-me estranha no meio de tantos, tantos, tantos turistas, muitos com aquele stick (agora com um peluche ou outra coisa na ponta) que segura o telemóvel, e de tantos tuk-tuks. Mas é o que é, o dinheiro do turismo é assim que entra.

Mas não é só isso. Praticamente já não há comércio tradicional. Grande parte das lojinhas foi à vida. E não posso dizer mal disso pois se não se aguentavam, se não havia procura que as tornassem viáveis, o que poderiam fazer os donos? Há agora sobretudo as marcas internacionais que estão nos centros comerciais e em todo o lado, Oysho, Ale Hop, Mango, H&M, etc. A Rua do Carmo, então, é uma desolação, a caminho do abandono. Os prédios reconstruídos anularam as lojinhas. Os passeios da Rua do Carmo estão com pouco movimento, a rua parece meio desolada.

E depois os restaurantes da Baixa são todos iguais uns aos outros, iguais aos que se encontram em volta da Marina de Vila Moura e em todos os lados em que o turismo massificado impõe ementas iguais, plastificadas, normalizadas, com as mesmas fotografias dos mesmos pratos. Tínhamos pensado ir àqueles restaurantezinhos beirões das ruas intermédias em que ainda se comia genuína comida portuguesa. Não descobrimos um único. Esplanadas nas ruas, turistas e mais turistas, tudo a comer a mesma coisa, os empregados a dirigirem-se a nós em estrangeiro.

Pensámos depois ir à Pizzaria Lisboa, do Avillez, que apreciávamos. Descobrimos que mudou de sítio, já não é ali ao S. Carlos. Agora está junto com a Taberna e com o Páteo, na Rua Nova do Trindade. Chegámos lá, estava fechada, salvo erro só abre à noite. 

Por essa altura já só nos queríamos pirar de todo este despropósito. 

Voltámos a pé até ao carro que tinha ficado cá em baixo, ao pé da Ribeira, ié Time Out, e rumámos até Belém, um restaurante que é excelente na qualidade da comida, no espaço, na vista, na frequência. Até ficámos ao lado da última ministra da Cultura, um espécime raro e que vem dos tempos em que a civilização era uma coisa concreta. Depois já houve outro, mas era homem. Agora nem homem nem mulher, já não há ministério exclusivo para a Cultura, agora é uma moçoila que tem a cultura tal como tem várias outras coisas e de quem nunca se ouviu que tivesse alguma ideia para o que quer que fosse, provavelmente nem ela sabe bem porque a puseram a tomar conta de coisas que não têm nada a ver umas com as outras. O Montenegro é assim, tem tanta apetência para a Cultura como eu tenho para jogar às cartas.

Claro que, a caminho do restaurante, passámos pela rua dos pastéis de Belém, outra confusão. Tudo o que cheira a típico, está invadido. Bom para o comércio mas, da maneira que é, diria que, a prazo, são tiros nos pés.

Mas, enfim, onde estivemos, estivemos bem, um oásis.

E vim a pensar: como se degradou tanto a qualidade e o ambiente numa das zonas mais nobres de Lisboa? Como foi possível que a Baixa e o Chiado se descaracterizassem desta maneira?

Claro que ainda bem que se têm vindo a reabilitar os prédios devolutos ou a cair de podres. Em tempos, a Baixa, à noite, sem ninguém, chegou a estar aos caídos. E isso também era mau.

Mas estou em crer que, em todo este processo, está a faltar um plano, uma estratégia, uma visão. Provavelmente a Câmara deveria exigir que parte dos edifícios a reabilitar se destinasse a habitação para jovens e para a classe média. Com isso viria mais uma porção de coisas: escolas, pequeno comércio, minimercados, pequenos jardins, pequenos parques infantis. É a habitação para jovens, pequenos apartamentos a renda acessível, e a habitação para classe média, que traz vida aos lugares. É essencial, essencial. Depois também, ok, concordo, licenças para hotéis ou apartamentos de luxo. Mas tudo estaria integrado, haveria lugar para todos, e garantir-se-ia que se mantinha a genuinidade da cidade. Urbanismo, humanismo, qualidade de vida, preparação do futuro -- tudo coisas que parece que desapareceram desta zona de Lisboa.

Não sou saudosista, não sou conservadora, não sou reaccionária. Sou o oposto de tudo isso. Mas hoje vim triste, desgostada com esta parte de Lisboa de que eu tanto gostava e que já mal reconheci. Isto vai pagar-se caro.

Costumava fazer sempre dezenas e dezenas de fotografias. Desta vez nem me apeteceu. Partilho aqui apenas duas. Sempre gostei de fotografar pessoas e montras. Partilho apenas duas montras.

E depois outra coisa: a Avenida 24 de Julho está degradadíssima, muitos prédios num estado desgraçado, a escadaria que vem do Museu de Arte Antiga meio ao abandono, o pequeno jardinzito por baixo a mesma coisa, edifícios devolutos, entaipados. Uma tristeza. Caraças. 

_____________________________

Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, janeiro 24, 2022

Passear em Lisboa, ao Chiado
[Com reportagem fotográfica]

E dúvidas sobre como funciona e a quem ataca este Omicron

 



Dormi que me fartei. Quando acordei e vi as horas nem queria acreditar. 

Para não acordar com notificações, tinha retirado os dados do telemóvel. Ao repô-los, uma boa notícia. Em casa da minha filha, todos negativos, excepto o menino que desde a outra semana tinha sido diagnosticado com covid. 

Em simultâneo com o alívio pelas boas notícias, o espanto. O menino, durante essa semana, antes de saber que estava infectado, tinha-se queixado com dores nas costas. Nada de mais. A mãe pensou que seria da mochila pesada. Depois, levemente constipado. Normal. Enquanto isso, sempre na brincadeira e às lutas, ele e o irmão inseparáveis, sempre em cima um do outro. Para além disso, dormem no mesmo quarto, em beliche. E, também para além disso, é super chegado à mãe, andam sempre abraçados e no mimo.  

Porque na turma do menino um dos professores tinha testado positivo, na quinta-feira fez o teste. Na sexta-feira, o menino já estava constipado mas nada de mais. E ele e o irmão em cima um do outro no sofá. No sábado veio o veredicto: positivo. 

Toda a gente pensou que lá em casa seria inevitável que estivessem todos infectados. 

Entretanto, o menino ficou apanhado, com dores de cabeça, muito constipado. Ficou no quarto e o irmão acampou na sala. No dia seguinte, o campista também já estava apanhadíssimo. Espirrava, assoava-se em contínuo. Murcho, enrolado em mantas no sofá, atacado. Lenços e lenços molhados. Não estranhámos. O contrário é que seria de espantar. 

Contudo, ao fazerem testes, os coabitantes, incluindo este outro que já estava doente, a surpresa: negativos. Pensou-se: ainda não estavam com carga viral suficiente. 

Repetiram ao 7º dia. Este resultado que chegou agora: negativos.

No entanto, o menino que comprovadamente teve, continua positivo. Os outros, incluindo o irmão que tão apanhado esteve, nada. Não se percebe. 

Quais os mecanismos de contágio? Sendo esta variante tão contagiosa, como não contagiou quem estava ao lado, em cima, a respirar o mesmo ar?

E o que significa isto: se não foram contagiados, significa isso que são imunes? Podem andar à vontade? Ou o quê?

Se alguém aí desse lado consegue explicar estes fenómenos, muito agradeceria que me explicasse.

Entretanto, do lado do meu filho, os primeiros testes também deram todos negativos (excepto o menino que está positivo). Irão repetir o teste dentro de dias mas, a manterem-se, repetir-se-á o espanto pois os irmãos também andam permanentemente em cima e agarrados uns aos outros. Aliás, os dois rapazes também dormem no mesmo quarto. 

Obviamente fico satisfeita (e descansada) mas, ao mesmo tempo, fico intrigada. 

O que eu gostava mesmo era que se pudesse concluir que, quando em circunstâncias de absoluto contacto, as pessoas não ficam infectadas é porque geneticamente têm características que as tornam imunes. Ou, então, que já tiveram covid sem o saberem e ficaram fortemente imunizados.


Covid à parte, como só por volta das sete iríamos deixar umas coisas a casa do meu filho, nomeadamente um empadão para o jantar deles, ao início da tarde resolvemos rumar ao centro da cidade, mais concretamente ao local em que Lisboa é mais Lisboa: a zona do Chiado, a zona a que sempre me apetece voltar.

Deixámos o carro na 24 de Julho e fomos a pé. Subimos a Rua do Alecrim, descemos a Garrett, fui à Fnac, fui à Bertrand, fotografei, cirandei.


Gosto muito de ver e fotografar pessoas. Tal como acontece em todas as grandes cidades, há várias Lisboas. Mas é desta Lisboa urbana, cosmopolita, aberta e inclusiva que eu mais gosto.

Quando, há mil anos, comecei a andar sozinha em Lisboa, era por aqui que eu gostava de andar: pelas livrarias, pelos alfarrabistas, entre estrangeiros. 

Acontecia, por vezes, dirigirem-se-me em inglês ou francês, convencidos que eu própria era estrangeira. E é sempre assim que aqui me sinto: estrangeira, turista, viajante de primeira viagem, deslumbrada com tudo o que vejo, integrada no apetecível desconhecido.


A luz, o movimento, as cores, a decoração das montras, o vidro das montras que funciona como espelho, as casas e as pessoas que aí se reflectem e a música de quem canta na rua -- tudo me agrada.


As minhas memórias tão presentes, o rio lá em baixo e o casario, os candeeiros, os passeios, as árvores, as vozes de quem passa conversando -- tudo me encanta. Por mil vezes que por aqui passe, sempre me encantarei.


Como tantas me acontece, apeteceu-me fazer a reportagem completa: fotografar, entrevistar quem passa -- quem são, onde vivem, o que fazem, o que pensam, o que as preocupa, o que as anima, de que gostam, o que gostariam de me contar. 

Será que um dia vou ter coragem para fazê-lo? 

Como reagiriam as pessoas se me abeirasse delas e lhes pedisse autorização para as filmar enquanto conversasse com elas...? Seriam compreensivas, achariam piada?


Poderia ter um blog assim, apenas com reportagens, apontamentos, a voz dos outros em discurso directo. Tentaria arranjar algumas perguntas que os deixassem desarmados, disponíveis para conversar. Tentaria que eles próprios me dessem ideias para novas perguntas, para novas reportagens. Pedir-lhes-ia conselhos. Ouvi-los-ia.


Este domingo fiz, pois, muitas fotografias. Agora ao escolher algumas, deixei muitas de lado. Por exemplo, tinha pensado fazer um post só com montras e, por isso, fotografei muitas. Há uma elegância muito lisboeta, muito bcbg nestas montras. Mas ficarão para outro post. 

Contudo, houve uma das que deixei de lado que não tem a ver com montras e que me deixou com pena por não a usar. Tinha visto um casal bonito, elegante, numa posição de proximidade que me pareceu sugestiva: fotografei-os pensando que iria ser uma boa fotografia.

Contudo, agora ao tê-las passado para o computador e ao vê-la fiquei com a sensação de que se trata de um casal clandestino. Há ali qualquer coisa de misterioso, de cúmplice e, ao mesmo tempo, de fugaz. Mais: olhando melhor, fico com a sensação que o homem está, na verdade, a desculpar-se ou a tentar convencer a mulher -- e que ela resiste. Fiz zoom e parece-me perceber nela alguma mágoa, algum cepticismo.

Por tudo isto, essa fotografia não está aqui. Mas, em torno dessa fotografia, eu gostaria de contar uma história.

Mostro outras. Em algumas veem-se os rostos. Como sempre, se algumas das pessoas aqui retratadas não quiser aqui estar, bastará que mo diga que logo retirarei a respectiva fotografia.


Entretanto, o nosso cão-pastor, nascido num monte do Alentejo profundo, gostou do passeio pelo Chiado. Entre tantas pessoas e carros e um movimento e ruído a que aqui ou no campo não está habituado, portou-se às mil maravilhas. 

O mesmo não posso dizer do seu dono que se queixa das minhas paragens e do muito tempo em que fico perdida dentro das livrarias. Desculpa-se com o urso cabeludo, diz que é ele que fica inquieto quando eu fico para trás ou quando entro numa loja e não reapareço de seguida. Mas não é: é ele que não tem paciência para andar devagar ou para ficar parado a olhar coisas que, segundo ele, já vi e fotografei mil vezes. 

Mas é assim mesmo: nem ele nem eu vamos mudar... E enquanto houver estrada para andar a gente vai continuar.

___________________________

Desejo-vos uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira

Alegria. Bons ares. Bons passeios. Boa disposição. Coragem para ir em frente.

terça-feira, janeiro 14, 2020

Astrologia e ciência. Uma vela que diz que cheira à vagina dela. Um robot vivo feito a partir de células de sapo. E os camelos que bebem água que faz falta às pessoas e que, por isso, já eram.

Hei-nos chegados ao admirável mundo novo.





Alguém fez um estudo usando as Big Data desta vida para estabelecerem correlações entre o que diziam os astros e os desenvolvimentos científicos. Gostei de ler. Há mil anos, nos tempos em que ninguém fazia ideia de que viria a haver dados a potes, já eu andava à volta de algoritmos e de correlações e a ler livros que analisavam as previsões baseadas em astrologias com estatísticas e probabilidades. 

E mais. Só para se ver o desaparafusamento aqui da je: andava eu enredada em modelos que me punham a cabeça em água, tantos os milhares de restrições e condições que se empecilhavam umas nas outras, fui uma vez à Buchholz para espairecer, como tantas vezes ia, e dei lá com uma coisa sobre construção de cartas astrais através de uma aplicação. E o livro trazia uma disquete. Coisas que hoje parecem do além. Aos jovens que nasceram nos tempos modernos talvez isto das disquetes soe e pré-história. Mas sou pré-histórica mesmo. Até cassetes eu tinha gravadas para ouvir música no carro. Tudo coisas assim, palpáveis. Portanto, em casa tinha um computadorzão, com um monitor maior que sei lá o quê, e enfiava lá a disquete. E punha-me a registar data e hora de nascimento, local, e mais não sei o quê. E aquilo dava o retrato da pessoa. E parece que batia sempre cedo. E já não me lembro como mas aquilo também dava para fazer previsões. Mas, às tantas, eu já nem lia os resultados, já dizia por mim. Aquilo dava-me pica. Não sei explicar porquê mas dava. E, portanto, andava por um lado a construir modelos que reproduziam a realidade com um rigor que eu aferia até à quinta casa, modelos que detectavam tendências e calculavam ocorrências futuras, a apresentar as minhas conclusões a gente incrédula, e, em casa, a fazer cartas astrais que, se necessário fosse, como se fosse uma brincadeira, apresentava depois às mesmas incrédulas pessoas. E tudo isto aconteceu mesmo. Parece que foi numa outra encarnação, num outro tempo. Mas era eu que ali estava, disso não tenho dúvida.

E isto era para dizer qualquer coisa que, entretanto, se me varreu.

Só sei é que hoje, entre um dia e outro, aqui chegada, à noite, fui espreitar as notícias e ou é que estou vesga ou está tudo maluco. Ah, já sei o que ia dizer. É que fui em demanda dos astros: é refúgio que conforta. A gente afogada no presente e vem um horóscopo gentil e leva a gente para o futuro. Mas isto é karma, sempre notícia de novos projectos, de trabalhos que se abrem deixando para trás obstáculos de longa data. Até tremo porque até pode ser. Estou entre reuniões e temas que fazem abalar os meus alicerces e eu nem quero pensar no que pode aí vir. Mas se o que os astros têm para me oferecer é projectos e trabalhos do caraças então batatas. Quero outra coisa, rêverie, poesia, coisinha boa. 

O pior é que, na minha demanda, só me aparece pepino, abacaxi, macacada.

Por exemplo: a  Gwyneth Paltrow está a vender uma vela perfumada.

Até aí tudo bem. Se lhe deu para vender cenas é lá com ela. Mas a que é que ela diz que a vela cheira? Se o nome da vela é literal então cheira à senaita dela (agora que aprendi o neologismo, não vou largar). This Smells Like My Vagina - é o nome da vela. Esgotou. Como a malta não tem oportunidade para chegar o nariz à boca do corpo da Gwyneth, então vá de ir a correr comprar a vela. Na literatura que acompanha o produto lê-se que a dita cuja cheira a gerânio, bergamota, cedro e rosa damasco. E só não fico a pensar que deve ser assim que cheiram as perseguidas -- outro bom nome -- das nossas senhoras ou das divas de hollywood porque me palpita que é jogada de marketing. Ademais parece que esta loura anda armada em médica ou paramédica ou paradoida e dali só sai mezinha maluca. Já em tempo tinha vindo com banhos de vapor, coisa capaz de depenar qualquer passarinha, mas agora veio com ovos vaginais de jade. Segundo ela são para ser usados todo o santo dia, apertadinhos, coisa para muscular os interiores da coisa. De tal maneira a recomendação deu brado que foi multada e desmentida pelos médicos que aconselharam as mulheres com dois dedos de testa a não irem na conversa de gente maluca. Agora uma coisa é certa, a vagina da Paltrow inspira-a e é uma fonte de rentabilidade.

E li ainda outra do além: cientistas fizeram um robot vivo a partir de células estaminais de sapo. Li não. Aflorei. Aflorei e fugi a sete pés. Não quero saber. Pode até vir a ser uma grande coisa. Mas os riscos são tantos de que a coisa derrape para o lado cretino da existência que mais valia que estivessem quietos. Qualquer dia esta bicheza inteligente, carregada de inteligência artificial, tem mais poder do que nós, humanos marretas que para aqui andamos.

Agora que os oceanos estão a dar mostras de estar a aquecer mais rapidamente que o previsto e que o aquecimento já está a fazer o que se sabe, os humanos já nem sabem que fazer com animais que se reproduzem mais do que a falta que fazem e que bebem água que é tão preciosa e, vai daí, vão matá-los. Li: 10.000 camelos vão ser mortos. Estorvam. E eu penso: chegará o dia em que os robots, feitos de célula de sapo ou de barata e possuídos por algoritmos, vão matar humanos aos magotes. Os humanos também se reproduzem, também bebem água. Melhor dito: também nos reproduzimos, também bebemos água. Daninhos, raça magana. Bons para abater.

Virei-me para os blogs do lado e sai-me outra. Um comunicado do Livre que é de uma pessoa se atirar para debaixo da mesa. Conta o Linguagista que a desgraça bateu no fundo. Grau zero. Uma moção apresentada por cinco intrépidos militantes reza assim:
Hei-nos chegados a um ponto em que as causas defendidas pelo LIVRE parecem não conseguir sobrepor-se ao ruído constante provocado pelos faits divers mais estapafúrdios; em que o coletivo parece soçobrar numa desmedida exposição mediática do indivíduo; em que o partido se arrisca a ver a sua própria sobrevivência posta em causa. Assim sendo, no caso de a deputada não se dispuser [sic] a renunciar às suas funções, o LIVRE não tem outra alternativa a não ser retirar-lhe a confiança política.
Um desgosto ler uma anormalidade destas. O Livre vai acabar não tarda. Coitado do Rui Tavares, acho que não merecia uma palhaçada destas.

Enfim. Só, só desgraças. Mas desgraças pífias, coisas parvas, abaixo de macacadas. E não me refiro ao fim do Livre que isso, apesar de tudo, é para o lado que durmo melhor, mas à ignorância crescente da malta. Na volta a coisa resolvia-se era com um implante de células de macaco na cabeça deles, daqueles cinco. E dos outros todos também. E por todos quero dizer a humanidade. Contudo, acho que menos de mim que não preciso: já cá tenho os genes todos, obrigada. Dependo de bonobo com muita honra. E, sobretudo, com muito prazer.


Preferia notícias simples e só me sai disto. Vou mas é deslargar-me de ler o que não devo e procurar artigos sobre decoração, culinária, jardinagem. Não há pachorra. Na volta está é na hora de me entregar à escrita de um novo folhetim. Desta vez um erótico. Hot, hot. A fumegar de bom.

---------------------------------------------------------------

Fiz as fotografias no domingo, enquanto passeava por Lisboa e observava as suas belas montras -- ao Príncipe Real, Chiado, Camões -- e as flores da florista da Garrett. Lá em cima, Kate Woolf interpreta Poet's Heart sobre fotografias de Henri Cartier-Bresson.

-----------------------------------------------------------------

Desejo-vos um belo dia.

terça-feira, outubro 15, 2019

O post que vou publicar a seguir




Há posts para os quais é preciso ter-se uma certa predisposição. Ou nem será isso. Talvez coragem. Ou saber-se, a priori, como fazê-lo para que saiam na forma certa. Ter auto-controlo, talvez. Não sei explicar.

O que vou compor a seguir é um desses posts. Talvez de todos os que publiquei até hoje este seja o que mais me tem feito ponderar se devo ou não e, se sim, como dar-lhe corpo.

Obtive, naturalmente, autorização para fazê-lo. Mas, tendo já decidido que o farei, ainda não sei se será o mais simples e sóbrio possível ou se devo juntar alguns apontamentos para densificar o retrato.

Peço que percebam a sensibilidade da situação pois o post será lido por todos vós mas também pela autora da carta que vou transcrever. Tinha pensado escrever antes um post genérico sobre situações idênticas, talvez para contextualizar. Mas, em casos assim, não há situações idênticas. Talvez, a seguir, tente fazê-lo; mas não sei. Não sei ainda como será e, aliás, acho que estou a escrever isto para ganhar coragem para o que se segue.

Acrescento apenas que isto de ter um blog tem sido para mim uma experiência única, especial, gratificante. Até mim têm chegado pessoas extraordinárias que me têm mostrado muitos mais lados da vida do que eu conhecia. Não tenho como retribuir a generosidade de me acompanharem e a confiança ilimitada que em mim depositam apesar de não me conhecerem. A autora da carta que a seguir vou transcrever é uma dessas pessoas e só espero que o respeito e estima que por ela sinto não sejam traídos por inabilidades que eu não consiga ultrapassar ao compor o post que se seguirá a este.


------------------------------------------

As fotografias foram feitas este domingo enquanto andei a passear pelo Chiado e pelo Príncipe Real (... e, claro, a namorar e deixar-me tentar por mais uns quantos livros)

O Spiritus Sanctus Vivificans é obra de Hildegard of Bingen 

------------------------------------------

domingo, janeiro 20, 2019

Lisboa tem livros, objectos, fotografias e memórias, muitas memórias
Lisboa, minha linda.
[Postal nº 1 de 8]






É o que digo: parece que só prestamos atenção ao que já conhecemos. Ou que não reparamos naquilo para que não estamos previamente despertos. 

Tinha para mim que a Sá da Costa ia fechar. Depois, tinha para mim que tinha fechado. Quantas vezes já ali passei depois disso? Nem sei. 

Só sei que, desta vez, a montra me chamou a atenção. Aproximei-me. Olha, afinal não fechou!, admirada. Mas não tinha fechado? Os dois espantados. Se calhar, não. Pensei: será que, afinal, se salvou? Entrei. Intrigada. Assim de repente até me pareceu maior, aberta até lá mais atrás. Se calhar, confusão minha. 


Admiradíssima, fui andando. O meu marido deu uma vista de olhos panorâmica e disse: São usados. Livros antigos. Ainda pensei: Restos? Fundos? Olhei em volta, a ver onde estavam os livros novos. Não. Comecei a ver melhor. Se calhar. Livros e outros objectos, todos antigos.

Perguntei: Mas, então, agora é um alfarrabista? A resposta óbvia: Mas não estás a ver que sim?

Curiosa, fui folheando. Primeiras edições. Livros com dedicatória. Primeira edição dedicada a. vários de Urbano. Seria a sua biblioteca? Mas muitos, diversos. Salas e salinhas lá dentro. Recantos. Vitrines com livros ainda mais antigos, peças especiais.


Eu estava sem conseguir perceber o que é que tinha acontecido. Googlei logo ali e obtive o esclarecimento: de facto, a Sá da Costa tinha estado insolvente mas felizmente houve um aproveitamento do espaço, uma nova vida. Agora, ali, apenas o local e o nome são Sá da Costa. Pertence agora à Livraria Castro e Silva e dedica-se, como se estava a ver, ao alfarrabismo. 

Um fascínio. Tanta coisa, tão bem exposto. Coisa para se estar ali durante horas. Como é possível ter passado tantas vezes ali e, convencida que tinha fechado, nem ter reparado que estava aberta com tais tesouros lá dentro?


É que não são apenas livros: há restos de livros, sebentas, cadernos, restinhos de azulejos, molduras, quadrinhos, objectos decorativos, coisas que não sei o que são ou para que servem. Um mundo.

Fiz muitas fotografias. Não as ponho aqui todas pois talvez fosse fastidioso. Mas, acreditem, é daqueles lugares onde se pode estar uma tarde. Ou um dia. Ou muitos dias ao longo de semanas. Ou de meses. Vai fazer parte do meu roteiro. 

O meu marido que é muito sensível a pós e cheiros, foi lá para fora. Mas foi mais porque não é de estar a observar detalhadamente ou mexer nestas coisas pois o espaço não tem aquele cheiro empoeirado e abafado que muitas vezes torna quase irrespirável o ar dos alfarrabistas escusos, escuros, encafuados. Não, este espaço é arejado, luminoso. Muito agradável.


Gostei de tudo. Mas onde me perdi mesmo foi nos caixotinhos que, à direita de quem sai, se perfilam ao lado uns dos outros com folhas soltas, postais, fotografias.

Uma coisa fascinante mas, ao mesmo tempo, um bocado triste. Objectos pessoais, recordações de família ali à venda.

Mas sobra-me algum pragmatismo: quando alguém herda uma casa cheia de objectos, gavetas cheias de cartas, papelinhos, retratos de amigos e familiares e não tem onde guardar toda esses restos de uma vida -- de facto, montes de tralha -- mais vale que o entregue para que se encontre quem os estime.

Também eu tenho um leque maravilhoso com mais de cem anos, com dedicatórias, uma caixinha de cartas, um espelho de toucador, uma cadeira, um candeeiro, tudo comprado num antiquário. E também eu passei pela situação, já aqui referida algumas vezes, de, ao fim de vários fins de semana a 'desmanchar' uma casa, acabar por assistir passivamente a ver despejar gavetas cheias para sacos grandes do lixo. Já não havia disponibilidade mental e emocional para continuar a ver coisa a coisa, para resover para quem ia isto, aquilo e aqueloutro, para ali estarmos confinados durante o fim de semana a ver coisas velhas. Trouxe muitas coisas, algumas nem sei para quê. Daqui por uns anos alguém andará a pegar em tudo isto que aqui tenho também sem saber bem o que fazer a cada coisa.


Tirei algumas fotografias das caixas. Vi as dedicatórias. Por exemplo, esta que aqui vos mostro. Há cerca de sessenta anos, alguém ofereceu a fotografia desta menina aos seus padrinhos. Se calhar, a menina, hoje uma mulher talvez já com netos, não saiba que a sua fotografia está a venda, muito menos aqui no meu blog, atravessando o vasto espaço que liga o mundo. Talvez alguém se enterneça como eu me enterneci, talvez alguém sem família venha a comprar a fotografia, talvez a emoldure e reconstrua uma memória que não é sua. Sabe-se lá.


É esta a magia dos alfarrabistas, dos antiquários. Um mundo que se desdobra desde o passado até ao presente, transportando memórias, vestígios de outras vidas, vislumbres de outros tempos. 

-----------------------------------

E aqui termina a reportagem fotográfica pela Lisboa bela e eterna. Por aí abaixo há mais sete posts que contêm apontamentos colhidos no domingo passado. O último foi o que fiz dedicado a montras. dele poderão ir saltando para os anteriores.

E porque Chiado e livros nos fazem evocar o nosso Eça, despeço-me com ele.


Até já

segunda-feira, janeiro 14, 2019

Lisboa tem homens muito fashion.
Lisboa, minha linda.
[Postal nº 7 de 8]




Já vos contei muitas vezes: gostava muito de andar na rua a fotografar pessoas. De tudo -- flores, árvores, paisagens naturais, a arquitectura das cidades, tudo -- aquilo que mais gosto de fotografar são as pessoas. Mas gosto de as fotografar à traição. Não gosto de avisar ou pedir que olhem para mim, que riam, que façam macacadas. Aquela coisa do cheeeeeeese ou da ba-ta-ta comigo não dá. Mas depois, ao fotografar as pessoas sem as avisar, não obtenho o seu consentimento e, portanto, se as publico aqui, fico sempre com algum receio de que não gostem de aqui se ver e me peçam para eu me deixar de ser abusadora e as retirar.


Mas, pronto, de vez em quando arrisco. Aqui foi o caso. Vi muita gente muito interessante porque Lisboa é caleidoscópica e há pessoas para todos os gostos. Mas optei por me focar em três homens com indumentárias muito díspares mas qualquer deles com muita pinta. A elegância tem várias formas e fica bem em qualquer idade.

Seja o dandy da beira rio, seja o camuflado do Chiado ou o blasé da Brasileira à conversa com Fernando Pessoa, qualquer deles é bom de ver. Mas, claro, se algum deles aqui se descobrir e não quiser cá estar, bastará que mo diga quer através de comentário, quer de mail. Lamentarei porque gosto de estar rodeada de homens interessantes mas obedecerei sem pestanejar.


E queiram descer para verem os pontos cardeais de Lisboa.


domingo, abril 22, 2018

Elegância e beleza no sobe-e-desce do Chiado




Pronto. Desvendei. De resto, presumo que também já tivessem adivinhado onde eram as montras que mostrei no post abaixo. Chiado.

As ruas mais turísticas estão pejadas de gente. Muitos grupos em filinha de pirilau por aqueles passeios estreitinhos seguindo um guia que vai à frente com o braço ao alto e uma tabuleta com um número. Vários grupos de gente asiática, muitos americanos, brasileiros all over, franceses, o que queiram.  Todas as línguas do mundo. Uma torre de Babel. E muita gente jovem. Muitos casalinhos, jovens e não jovens, a puxarem a sua maleta com rodinhas. Gente, gente, gente. 

Eu -- que gosto tanto de gente diferente e que acho que gente de origens díspares só enriquece os lugares, que sou fervorosa adepta da miscigenação -- vendo tamanha avalanche (e isto num dia de Abril, meio chuvoso), comecei a pensar que lá mais para o verão a coisa pode mesmo ser excessiva.


Para fugirmos aos passeios pejados de gente, deslocámo-nos para as ruelas, escadarias e recantos menos badalados e, aí, ainda se conseguiu aquele recato bom daqueles lugarzinhos que são dos mais bonitos de Lisboa.

Fotografei também gentes. E o Chiado tem isto: mulheres elegantes que, como que aparecidas do nada, atravessam as ruas, atravessam as multidões, e caminham sedutoramente. Podem ser belas toilettes, pode ser beleza natural, pode ser a graça do conjunto, mas há sempre um desfile interessante de observar por aqui. Agora coloquei apenas a fotografia lá de cima pois prefiro não mostrar o rosto mas, não fora esse meu cuidado, muito mais pessoas poderia mostrar. Pela Rua do Carmo, pelo Largo de S. Carlos, pelo Camões, por todos essas ruas e largos, há gente que dá gosto contemplar.

Mas, pronto, fico-me pelos candeeiros, pelo Tejo que se avista ao fundo com os seus veleiros e veleirinhos, pequenos pontos brancos num rio amansado, fico-me pelos céus onde se desenham os arabescos dos cabos que alimentam os 'eléctricos'.


E tuc-tucs. Omnipresentes. De todos os tamanhos, cores e decorações. Mas agora, para vos mostrar, escolhi esta fotografia aqui abaixo com os GoCars. São muito engraçados estes carrinhos e, não sei exactamente porquê, as pessoas que vão neles (de capacete) vão sempre a rir, ar feliz da vida.

Parece que os carrinhos assobiam, contam anedotas e mais não sei o quê. Na volta é isso que faz rir os seus condutores.


Como é bom de ver -- e como os meus Leitores já estão fartos de saber -- ando sempre de máquina fotográfica em punho e por todo o lado vejo coisas ou pessoas que despertam a minha atenção ou que me encantam.

Quando chego a casa e revejo o que os meus olhos viram, penso sempre que estou a acumular milhares de fotografias que ninguém vai alguma vez ver e que eu própria, que gosto é de fotografar e não de ver fotografias, também jamais me darei ao trabalho de rever. Há qualquer coisa de irracionalidade nisto mas, enfim, fazer o quê? Pertenço ao sub-gupo dos humanos irracionais e está tudo dito.

E mesmo, quando quero escolher algumas para aqui, à laia de diário, ilustrar o andamento dos meus dias, tenho tantas por onde escolher que a coisa não é fácil. Por vezes, uma verdadeira seca, tantas elas são. 

E não quero pô-las a eito, tento encontrar uma linha comum entre algumas para que haja alguma coerência no post. No de baixo, escolhi as que tinham a ver com montras. Aqui resolvi escolher as que evidenciam a orografia de Lisboa: ruas inclinadas, escadinhas a unir as ruas, o rio lá em baixo. E juntei uma mulher para mostrar a elegância desta cidade que amo de coração. Mas, acreditem, podia ter inventado muitas outras combinações. O Chiado é lindo demais seja qual for a perspectiva pela qual o olhemos.


....................

E queiram, meus Caros Leitores, continuar a descer porque, já a seguir, há mais Chiado.

E agora é para ver se adivinham por onde andei eu a ver as montras




Não foi propriamente uma passeata mas, mais, uma flanagem. Não saímos cedo. Dormi até tarde. Depois ainda fui à ourivesaria buscar o meu relógio que estava para pôr uma pilha e à sapataria para ir comprar uns sapatos azuis escuros de salto alto. Tenho uns mas são com a parte de cima em rendilhado, esburacadinhos e, com algum frio, não dão muito jeito e os outros, os que uso mais, em camurça em dois tons, estão já um bocado coçados. Não queria nem muito afilados nem com salto muito alto mas, logo por coincidência, os que me ficaram melhor foram justamente assim. Trouxe-os na mesma pois visto-me muito em tons de azul e estava mesmo a precisar.

Depois ainda fui comprar fruta e legumes e pôr tudo a casa. Portanto, já não foi a horas decentes que saímos. Mas foi bom na mesma, deu para o que deu; e chegou.


O meu marido foi pelo caminho do costume mas eu discordei, achei que mais valia ir por outro lado.  Seria mais seguro em termos de trânsito e de estacionamento. E, de facto, não vos digo nada. Por pouco não tive que lhe dizer que, como se provava, eu tinha razão. Mas não disse. Agora uma coisa vos digo: tanta gente, tanta, tanta. Isto vai em crescendo. Aqui, no post, para vos mostrar, tenho essencialmente montras e não propriamente pessoas mas acreditem em mim: magotes. De todas as nacionalidades. 

Comentámos: tomara que não tenham razão os que temem um fenómeno de gentrificação por estas bandas.


Mas não andei apenas a ver montras. Na loja acima entrei mesmo. Tenho várias peças daqui e, se passo perto, não resisto a espreitar as novidades.

Desta vez trouxe uma menina cheia de flores. Uma graça. Se o meu marido já tivesse espetado um prego resistente para a pendurar, fotografava-a para vos mostrar. Mas ainda não. A ver se não vai andar a encanar a perna à rã, a fazer-se esquisito ou a inventar desculpas para não tratar do assunto. Se fosse um prego normal eu ainda me arriscava. Mas acho que é melhor com bucha, tem que ser com berbequim e, com isso, não me ajeito. Por isso, agora está deitada ao lado do Stº António, à espera -- e, claro, não vou fotografá-la assim nestas intimidados com um santo.


Depois fomos almoçar a um dos magníficos restaurantes do Avillez. Sempre bom. Boa comida, bom serviço, bom ambiente.

Ao nosso lado, duas brasileiras. O que elas conversaram, o que elas se auto-fotografaram, o que elas comeram e beberam, a graça do que diziam, tudo aquilo era razão mais do que suficiente para me apetecer ficar ali a vê-las e ouvi-las. Uma vive cá, a outra está de férias. Meninas com alto poder de compra, pelo que me foi dado perceber. O meu marido, volta e meia, alertava-me para não me pôr a observá-las tão descaradamente. Mas elas estavam tão focadas uma na outra e na conversa e nas fotografias que tiravam que nem deram por mim. Oh língua gostosa este nosso português enfeitado de cor, perfume e sabor do Brasil. Quando nos viémos embora ainda elas iam a meio do almoço, tão vagarosas estavam a ser, tantas as vezes que paravam para se fotografarem, para escreverem no telemóvel, para mostrarem fotografias uma à outra, para conversarem. Só me apetecia filmá-las. Uma novela, aquelas duas.


Depois fomos para onde vos mostrei abaixo e que espero bem que tenham adivinhado onde é

Para a Gulbenkian, of course. Patos, patinhos, um ovinho no meio das folhas debaixo de umas árvores, os meninos sempre contentes naquele espaço. Mas também exposições, um lanchinho dos bons, livros (ofereci 'O Leopardo' à minha filha, embora não seja a mesma tradução e a mesma versão que o meu amigo me ofereceu), conversa em dia, boa disposição, convívio bom daqueles que aconchega o coração de uma carangueja com ascendente de caranguejo (conversámos de signos, com os meninos a quererem perceber o que é isso dos signos e com um deles a dizer que o dele não é carneiro nem leão nem nada disso, é dragão. Como é bom dever, agora deu em dizer que é adepto do Porto. Lá lhe explicámos que os signos não têm nada a ver com isso, que não há dragão nenhum nos signos. Não pareceu muito convencido.)


E a ver se ainda cá volto que tenho mais para vos mostrar

..........................

segunda-feira, março 06, 2017

De trajes menores no Chiado


Já abaixo, a propósito do livreiro que deixou um recado a dizer que ia pescar bruxas, eu dizia que a gente, à medida que a idade avança, se vai habituando a tudo. 
[Bem, a tudo, tudo, não. 

Por exemplo, vi há pouco aquele troglodita que dá pelo nome de Bruno de Carvalho a pseudo-cantar, com um cachecol ao alto, uma canção indescritível e, noutro momento, a inventar que o tio-avô Almirante Pinheiro de Azevedo tinha dito bardamerda para os que não são sportinguistas e confesso que, para momentos destes, a minha pobre alma ainda não está preparada. Também não estou preparada para que mais de oitenta por cento dos sportinguistas tenham votado nele. Pensava eu que era um clube maioritariamente frequentado por gente racional e com os cinco alqueires bem medidos. Afinal, constatei com consternação que algumas pessoas que tinha por boas da cabeça o apoiaram. Por isso, pensando bem, acho que ainda tenho que viver mais mil anos para conseguir encaixar tamanhas imparidades sociais no meu limitado intelecto. 

(E não façam uma leitura literal do que escrevo pois, em especial quando estou transtornada, uso palavras de forma algo disfuncional.)]

Mas, portanto -- peripécias envolvendo o conselho de arbitragem à parte (que não sei que peripécias sejam mas que acontecem a torto e a direito, que bem vejo as televisões sempre debruçadas sobre tão relevante problemática) e Madeira Rodrigues versus Bruno de Carvalho também à parte -- dizia eu que uma pessoa, tanto vive e tanto vê, que já está quase por tudo. Indo Rua da Misericórdia, acima a caminho do Príncipe Real, dou com o curioso casal que abaixo vos mostro.


Ela ajeitando a liga, sapatos de salto alto encarnados, seios desnudos e ele olhando, mãos nos bolsos, alguma displicência.


Não sei a que propósito estava ali aquele par de jarras, metido naquela montra, nem sei porque é que a mulher está tão focada naquela tarefa e o homem tão desinteressado. Ou será que a expressão do homem não revela desinteresse mas, sim, impaciência? Ou uma mal disfarçada curiosidade?


E depois, já lá mais para baixo, já descendo o Chiado, uma outra mulher em roupa interior. Mas, esta mulher, bem comportada, com uma lingerie boa para meninas pudicas e casadoiras ou para senhoras bem comportadas. Recomendo a algumas das minhas leitoras, especialmente àquelas a quem a idade mental já pesa. Seja como for, saiba-se que há ainda pior. Por exemplo... 
(ai o que eu agora dizer, de quem eu ia agora falar... -- felizmente, a minha censura interna puxou-me os freios a tempo).

Já na Rua do Alecrim, uma bela mulher à porta de uma loja. Alva carnadura, encalorada, vestes ligeiras, seios miúdos. toda ela graciosidade, meia desnuda. 


Antes, tinha passado pela Hèrmes e ali estava não uma mulher de corpo inteiro mas uma mulher de costas, um lenço turbanteando a sua bela cabeça, e apenas e pouco mais que a cabeça, a nuca, o início das costas. E está, certamente, desnuda porque uma mulher elegante veste-se com a sua graciosidade e qualquer amparo para os seios é desnecessário e qualquer vestido ou capa é futilidade sem propósito.


____________


_______

E não deixem de descer até ao post seguinte, caso queiram ver o recado do pescador de bruxas.

___

Ele diz que foi pescar bruxas


Ele há de tudo e a gente que já cá anda há mais de mil anos já não se admira com nada. Hoje, turistando again, Rua do Alecrim acima, dei com esta:

[E, para as leitoras que tanto se afadigam a tentar descobrir a minha idade e se tenho cunhados, cunhadas, sobrinhos e namoradas de sobrinhos, madrinhas e compadres, genros e noras, vizinhos e primas de vizinhas, periquitos ou caniches amestrados, ali deixei à mostra, na fotografia, a minha mão para que a escalpelizem, lhe desarrinquem o adn, lhe tracem a árvore genealógica e tudo isso que, certamente, permitirá apreciar muito melhor tudo aquilo que aqui escrevo.]
Quanto àquilo de ir à pesca de bruxas -- e, claro está, nada a ver com aquilo das leitoras-investigadoras -- só espero que a pescaria tenha sido bem sucedida ao simpático senhor livreiro-alfarrabista-pescador .

No entanto, uma coisa será pescá-las. Mas, a seguir... comer uma bruxa...? Não sei não... Eu nem um bruxo, quanto mais uma bruxa...


__________________