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terça-feira, maio 08, 2018

Fernanda Câncio e a tragédia de Sócrates:
ou quando uma mulher usa a sua condição de jornalista para ajustar contas com o ex-namorado


Faz dois anos escrevi aqui sobre os escritos de Fernanda Câncio sobre Sócrates. Dizia, então, que sentia alguma (genuína) pena dela e aconselhava-a a seguir em frente, não ficando enredada nas memórias e nas justificações face ao que sabia ou deixava de saber sobre o ex-namorado.

É certo que Sócrates congrega ódios e paixões pelo que não me custa a imaginar que uma mulher como Fernanda Câncio, toda ela igualmente temperamental, depois da rotura amorosa, possa ter passado da paixão ao ódio. Mas, lembrava-a eu, nessa altura, há sempre mais vida para além da morte de um relacionamento e que o melhor é seguir com a bola para a frente. Ressentimentos e desejos de vingança nunca foram bons conselheiros.

Ainda há dias voltei a ouvir a divulgação pública de telefonemas seus para Sócrates e imagino como se sente ridícula e arrependida daquelas conversas. Todas as brincadeiras, meiguices ou malandrices são permitidas na intimidade de uma conversa a dois mas, quando expostas fora de contexto, facilmente podem ser apenas patéticas. Eu sentir-me-ia humilhada se fossem minhas aquelas palavras.

Mais: tendo namorado com aquele homem poderoso, carismático e de raciocínio ágil, imagino como se sentiu ela ao descobrir que, afinal, pouco sabia daquele homem. Mais ainda: como mulher, imagine-se a perplexidade ao saber como Sócrates não apenas já estava de namorada nova como também ajudava financeiramente outras mulheres. Facilmente uma mulher que se sente enganada se sente furiosa e com vontade de se vingar. Imagine-se, então, uma mulher como Fernanda -- do que lhe tenho visto, facilmente se transformará numa irascível gata em telhado de zinco quente  pelo que dela tudo se poderá esperar.

Imagino-me, eu, no seu lugar. Imagine-se se, ao ligar a televisão, ouvia a minha voz dengosa falando com ele, querendo convencê-lo a comprar uma casa caríssima, ou ouvia alguém a relembrar as minhas férias com ele, referindo que frequentávamos belíssimos restaurantes, e eu, tonta ingénua, na altura, convencida de que ele nadava em dinheiro. Imagino quão ridícula e parva me sentiria agora, ouvindo isso. Eu a querer uma casa cara e ele a chamar-me à razão, eu, ivozinha infantilóide, a dizer 'buraco és tu...'. Ah, quanta raiva. Como teria podido ser tão burra, tão inconsciente a ponto de não ter percebido nada....? Como? E a ouvir a cumplicidade dele para com a mãe dos filhos.... Ah, quantos ciúmes.

Imagino a mágoa, a incredulidade, a vontade de lhe atirar à cara mil impropérios. 
Então, afinal, não eras rico? Então vivias às custas de um amigo...? Mas onde, à superfície da terra, alguém nos dias de hoje vive às costas de alguém...? Filho da mãe que não confiaste em mim, que não me contaste nada! Um pelintra sem ter onde cair morto e, veja-se bem, armado em bom,  a dispensar pagamentos, como se tudo aquilo fosse dinheiro da mãe ou de empréstimos. Falso, falso! E, se foste falso a esse ponto, quem garante que não foste corrupto e que tudo em ti não é um logro? Alguma vez me amaste? Alguma vez me falaste verdade? Como foste capaz? Como deixaste que eu me expusesse, defendendo-te, quando não passas de um vulgar mentiroso? Odeio-te, odeio-te, odeio-te agora e na hora da tua morte. Safado, sacana, filho da mãe! E eu que gostei tanto de ti... Como pudeste fazer-me isto, Zé...?
E Fernanda, sentindo pena de si própria, as lágrimas escorrendo-lhe no rosto, sentindo a raiva a crescer-lhe dos dentes, varada de ódio e ciúme, não podendo deitar as unhas de fora e arranhá-lo de alto a baixo, atira-se ao computador e, com a força das suas palavras, mentalmente chamando-lhe bandido, aldrabão, sacana da pior espécie, e jurando a pés juntos que nunca mais na vida lhe dirige a palavra e que, se se cruzar com ele, virará a cara e fingirá que não o conhece, vai escrevendo:
(...) Urdiu uma teia de enganos. Mentiu, mentiu e tornou a mentir.
Mentiu ao país, ao seu partido, aos correligionários, aos camaradas, aos amigos. E mentiu tanto e tão bem que conseguiu que muita gente séria não só acreditasse nele como o defendesse, em privado e em público, como alguém que consideravam perseguido e alvo de campanhas de notícias falsas, boatos e assassinato de caráter (que, de resto, para ajudar a mentira a ser segura e atingir profundidade, existiram mesmo). (...)
Chocante, porém não surpreendente. De alguém com uma tal ausência de noção do bem e do mal, que instrumentalizou os melhores sentimentos dos seus próximos e dos seus camaradas e fez da mentira forma de vida não se pode esperar vergonha. Novidade e surpresa seria pedir desculpa; reconhecer o mal que fez. Mas a tragédia dele, que fez nossa, é que é de todo incapaz de se ver.
Fernanda é, ao escrever estas palavras, não uma isenta jornalista, mas uma mulher ferida. Uma mulher que usa o púlpito do Diário de Notícias para ferir José Sócrates tanto quanto ele a feriu a ela. 

E eu, no fundo, tenho pena dela e dele. Estão unidos pela mesma tragédia.


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Cecilia Bartoli interpreta "Sposa son disprezzata" de Vivaldi
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terça-feira, novembro 08, 2016

Nem Web Summit nem Trump nem Hillary
O Um Jeito Manso não é mainstream nem social mainstream.
A cena aqui hoje é outra: Second love
Uma aventurinha simples, um flirtezinho gostoso, um romancinho à toa, uma fantasia sexual com nada de mal?
Um chameguinho bom de tão clandestino? Uma dentadinha no fruto proibido...?


- Cuidado! Muito cuidado! Comprove primeiro que a sua cara-metade não é um pinguim.


Nem vou agora entrar em detalhes. Nem interessa se é alguém do trabalho, do café, amigo da prima, casado com a vizinha, leitor dilecto do blog, amigo do facebook, mãe do colega do filho, dono do cão do prédio ao lado, ou se alguém que se encontrou no Second Love, esse curioso site que se anuncia como um site de relacionamentos para homens e mulheres, à procura de um caso, algo extra ou uma aventura.

[Deixem-me os cépticos incluir uma nota breve para atestar as vantagens de aderir a um site destes. Com vossa licença, vou transcrever as referências de alguns clientes. 
     
          Diz a Ana de 43 anos e que é de Coimbra: 
Para ser honesta o meu casamento após 14 anos, esmoreceu. Depois do Second Love o meu casamento teve uma segunda oportunidade.
            Ou a Mariana que tem 32 e é de Lisboa: 
Totalmente incrível, muito obrigada! Fiz uma série de contatos agradáveis ​​e ainda há alguns em seguimento! hahaha .... Fantástico! saudações ! 
ps. segui a recomendação de um amigo ao inscrever-me.]

Mas que seja um segundo amor ou um terceiro ou o que for -- tanto faz. O que importa é, antes de passar aos factos, ter alguns cuidados.

Poderia enunciar uns quantos. Mas penso que já toda a gente os sabe. O que alguns talvez não saibam é que é altamente recomendável confirmar que o seu consorte não é um pinguim. 

É que, meus Caros, um pinguim com ciúmes vira uma fera. Não se aguenta.

Veja-se o caso deste que abaixo vos mostro e que, ao regressar a casa, encontrou a mulher com outro. O espectáculo que ele dá, senhores. Que incivilizado, credo. Em vez de se juntar à festa ou, vá, de sair de fininho para não incomodar o romance, não se senhor. 

Armado em animal das cavernas, arma um cagarim que só visto. Ó animalzinho mais destituído de inteligência emocional. Puxa vida, pouca sorte a da pinguina que se vê com um chato destes à perna.

A falta de feeling para o erotismo do sujeitinho deu numa guerra feia: tareia, sangue e, no fim, uma humilhação escusada. Mas, enfim, cada um sabe de si.

O que vos digo é que é ver para crer. 

Male penguin viciously attacking a love rival after returning home - bloody fight between a penguin's


Watch 'Homewrecker' Penguin Defend His New Abode


National Geographic Penguin Fight. "You was my baby!"



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Quanto às eleições nos Estados Unidos, só desejo que Trump tenha uma derrota humilhante. Mas, palhaço e ordinário como é, não vai estar nem aí. E, de resto, Trumps há muitos. Não é só este animal, o Donald, que tem que ser derrotado: são todos os Trumps desta vida, todos os palermas encartados que, perante as pulhices daquela cavalgadura, ainda se dão ao desplante de atacar Hillary Clinton.

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E, quanto ao Web Summit, só espero é que haja muito negócio a bombar, muita start up a florescer, muita coisa boa a correr, meninos e meninas a saltar, noitadas para não esquecer -- e tudo isso. Tudo de bom e peace and love for all. É o que eu desejo.

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E, ainda no reino do insólito, queiram descer para me dizerem se devo ou não recorrer a um especialista em photoshop.

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terça-feira, janeiro 19, 2016

A beleza num homem. E mulheres bonitas que gostam de homens feios.


Pronto. No post abaixo já falei da menina das unhas grandes que mereceu séria reprimenda do comentador-candidato e da pimpolha de olho gordo que diz que ela é que quer ser presidente da Junta. E falei também do presidente das cagarras que diz que tem mais que fazer do que gastar o seu santo latim com as eleições. E, portanto, com esse post que poderão ler a seguir, já fiz a minha boa acção do dia.

Agora, a propósito de um livrinho que aqui tenho --  Teresa Rita Lopes: Pessoa do meu Desassossego --  e vendo fotografias dela, linda, e do menos bonito António José Saraiva, e tendo estado antes a ler um artigo que Leitor, a quem agradeço, me enviou sobre assunto que me interessa (a beleza é um conceito objectivo?), resolvi alinhar no espírito marcelista e fazer de conta que isto que se está a passar no país é uma casting para um reality show e não uma eleição para a Presidência da República e, portanto, vou falar de tudo menos de política.

Dizia eu que, vendo o livro -- ela com um sorridente rosto bem desenhado, uns olhos claros e luminosos, um corpo jeitoso, e ele sem grande graça, feições acentuadas, só pêlo e cabelo, nariz pronunciado e assimétrico -- fez-me logo lembrar de um casal nosso amigo que, entretanto, tamanhas eram as guerras conjugais, acabou por se separar.

Vou mudar os nomes para evitar chatices mas tudo o resto é verdade: digamos que ela, médica conceituada, se chama Bia, e que ele, director de uma multinacional, se chama Zé.
...

Mas, já agora, se não se importam, vamos com música que vamos melhor. Vamos com a banda sonora de um belo filme, um filme que, ainda por cima, tem dois homens muito bonitos, sendo qu,e dos dois, um faz o meu género e o outro nem por isso. Mas aproximem-se, por favor. 

Closer

......

Continuando.

Agora imaginem-na a ela, à minha amiga: uma mulher bonita, feições perfeitas, corpo elegante, alta, toda ela vistosa e giraça, uma voz requebrada, diria que insinuante: o protótipo da mulher interessante.

E imaginem-no agora a ele: feiinho, carão comprido e assimétrico, mal jeitoso, moreno mas escuro demais (ou então, é por ser tão felpudo que a cor negra do cabelo e do pêlo o escurecem ainda mais), da mesma altura que ela, o que a obrigava a andar de sapatos rasos, ou, então, mais baixo -- quando ela se marimbava e se montava em cima de saltos altos.

Ele um paz de alma, bem disposto e bem humorado, tranquilo, um verdadeiro pachola.

Ela uma stressada, uma ansiosa e, imagine-se, uma ciumenta -- mas ponham ciumenta nisso.

Uma vez mandei-lhe, a ela, um amigo meu que estava precisado de consultar um médico da especialidade dela. Avisei-o: olha que ela é um bocado doida, boa gente, acho que boa médica, inteligente, mas olha, pirada mesmo. No outro dia, aparece-me ele, todo babado: mas olha lá, disseste que ela era uma maluca...? Só tu mesmo para a descreveres assim. Ela o que é é uma brasa, um mulherão, uma mulher interessantíssima. Aí lembrei-me que ele tinha razão mas que eu nem me tinha lembrado disso pois, na minha cabeça, era a doideira dela que sobressaía. 

Pois bem, e de onde vinha a crise permanente em que aquela interessante mulher vivia? Dos ciúmes. Desconfiava dele e de todas as mulheres que se cruzavam com ele, das colegas, de toda a gente. Felizmente nunca embirrou para o meu lado. Quando eu lhe perguntava se não tinha olhos na cara, nem me percebia. Eu explicava-lhe: quanto muito, era caso para ele ter ciúmes, não tu. Não vês que ele não tem gracinha nenhuma? Quem é que olha para ele, ó mulher...? Atina.

Ofendia-se. Que não, que ele era um homem de mão cheia. Eu ria-me, dizia: o amor é mesmo ceguinho, caraças. Mas ela, em voz alta, para que ele a ouvisse, dizia-me que preferia ser casada com um homem feio pois, assim, nenhuma mulher queria saber dele. 
Ao contrário de mim que andava com um pedaço de mau caminho ao lado, que fazia as mulheres ficarem todas a olhar para ele. Eu explicava-lhe: não tinha ciúmes, que olhassem à vontade, que achava compreensível,  mas que olhar não tira pedaço e, assim sendo, com os pedacinhos todos no sítio, tanto me fazia que olhassem para o meu marido como deixassem de olhar.
Geralmente ao fim de semana acabavam cá em casa. Ela não sabia cozinhar e, para além de tudo, andavam sempre de candeias às avessas. Então, iam de tarde para a praia ou para a casa de fim de semana, ela devia estar a moer-lhe a paciência horas a fio, discutiam, odiavam-se e, para evitarem estar no trânsito quase a esganarem-se um ao outro (com a filha pequena a presenciar), vinham asilar cá em casa. O meu marido passava-se. Eu, quando pensava no que havia de ser o jantar, já contava que eles me aparecessem. O meu marido dizia que, a tratá-los daquela maneira, então é que nunca mais deixavam de aparecer, que eu lhes desse conservas. Claro que não ia fazer isso. A verdade é ele não tinha paciência nenhuma para os ter cá aos fins de semana à noite, a discutirem um com o outro ou sem se falarem. Eu não me importava, gostava deles. De facto, também tinha pena dela.

O motivo das zaragatas era sempre ao mesmo: ciúmes doidos dela, uma coisa sem explicação.

O meu marido não disfarçava a impaciência, não descansava enquanto não os via pelas costas (apesar de ser bastante amigo dele, colega de curso). Ela, vendo-o assim, dizia-me: olha lá, ele devia ver isso, anda sempre ansioso. Eu tentava que ele não a ouvisse, senão dizia-lhe directamente que ela era doida varrida.

Por vezes estávamos com outro casal amigo e, aí, o outro dizia abertamente, Olha lá, ó Zé, mas como é que consegues aturar uma maluca destas? Manda-a passear, pá.

Penso que ele a aturou durante tantos anos por causa da filha, receava que ela não fosse boa mãe. E ela não queria separar-se dele nem à lei da bala, uma paixão doida. Mas ele também gostava dela.

Ainda hoje estou para perceber como era possível tal disparate sendo ambos pessoas inteligentes.

Separaram-se, claro, e, durante uns tempos ainda nos íamos encontrando, sobretudo com ele. Conhecemos-lhe não sei quantas namoradas. Íamos lá a casa, percebíamos que já tinham juntado os trapinhos, a coisa parecia séria. Na vez seguinte, já era outra. Intrigada com a saída que uma criatura daquelas tinha, chegava a pensar: na volta a Bia tinha razão, na volta, com este ar de santinho, de porreirão, este Zé ainda nos saíu um valente mulherengo. Não sei, nunca percebi. Ela também foi arranjando namorados. Uma vez estava a almoçar num restaurante, ouvi nas minhas costas uma voz familiar. Para não me virar à descarada, para me certificar, apurei o ouvido. Era uma conversa de engate, uma conversa de treta, mesmo um bocado chunga. Tinha a certeza que era ela mas, dada a situação, não quis que ela me visse, achei que poderia sentir-se envergonhada. Quando estava perto da porta olhei de soslaio mas ela estava tão entretida que não me viu. Continuava bonita, talvez até mais bonita, uma mulher deveras interessante, bem vestida, com muita pinta. Era, então, directora num dos grandes hospitais de Lisboa (não é aquela de que no outro dia falei, do S. José, esta é outra). Em frente dela estava um homem mais velho, baixo, mal jeitoso, feio, nem sei se não teria um capachinho. Pensei, aterrada: Mas como é que é possível? Deve ser tara. Gira daquela boa maneira e numa conversa daquelas com um horroroso e parvalhão daqueles?

Nunca percebi, essa é que é a verdade.

Claro que é o que não falta: mulheres interessantes que gostam de homens feios, sem piadinha nenhuma.

Assim de repente, estou a lembrar-me de um dos casos mais castiços: o de Sartre. Feio todos os dias, tinha as mulheres que quisesse. Parece que se entusiasmavam com o poder de argumentação dele, com a argúcia e acutilância do seu raciocínio.

Um que é outro caso é o Sean Penn. Não é que seja feio mas não é nada que se compare com as mulheres que caem de amores por ele: Madonna, Robin Wright, Charlize Theron (cujas fotografias mostrei lá mais para cima).

Outro, pouco engraçadinho mas que tem tido umas mulheres lindas é o Salman Rushdie. Veja-se a bela Padma Lakshmi. 

Ou Sarkozy e Carla Bruni.

Pois eu, lamento, não sou dessas. Sempre gostei de homens bonitos. Se é mal enfronhadinho, se é pãozinho sem sal, se tem ar de quem não tem punch, se a gente olha para ele e só vê fealdade, se é mais baixo que eu, se tem umas mãos pequeninas, pois, então, paciência e boa viagem. 
Falo assim como se ainda estivesse numa de casting, escolhendo de entre quem se apresenta a concurso. Claro que não. Mas ainda tenho olhinhos na cara e ainda sei apreciar o que me agrada.
E, para mim, a coisa é simples e vai de encontro ao que li nos artigos da Nature, em que David Deutsch disserta sobre o que é a beleza. Diz ele que, na base de tudo, estão razões que têm a ver com a atracção sexual e, isso, claro, por questões de reprodução. A espécie apura-se no sentido de saber identificar os bons reprodutores. Perpetuar a espécie parece ser, afinal, a razão disto tudo. Pois eu, primitiva que sou, ainda afino por esse diapasão: bonito e interessante, para mim, é o homem que eu acho que tem uma boa pegada (na feliz expressão dos brasileiros) e que, pelo rosto, pela forma como olha, pelo corpo, pelas mãos (as mãos são importantes), pela forma como anda, pela forma como se senta, pelo sentido de humor, pela inteligência, pelo bom feitio, pelo bom carácter, por tudo isso (e de que aqui já falei várias vezes nas minhas várias Receitas de Homem), identifico como sendo um potencial bom parceiro, ou seja, elegível. 
E leia-se: bom parceiro ou elegível mesmo que não seja para mim. Acho o Bruno Alves, o Zidane ou o Clive Owen homens bonitos, interessantes e que devem fazer feliz qualquer mulher -- e digo-o, como é mais do que óbvio (e fica até ridículo referi-lo), desinteressadamente. 
Até me dá vontade de rir escrever isto. 
Lembro-me sempre do meu filho se ter escandalizado comigo quando me ouviu dizer que acho o Bruno Alves um giraço de se lhe tirar o chapéu, alguém que me fazia querer ver os jogos de futebol: oh mãe, deves estar a gozar, um sarrafeiro daqueles..! Pois. Mas a verdade é que talvez também por isso. Sempre fui mais de bad boys do que de copinhos de leite. Fazer o quê? 
(Deve ser aquilo da propagação da espécie: um sarrafeiro sempre deve defender melhor a fêmea e as crias --- e eu aqui devia encaixar uns smiles para se perceber que estou no gozo mas não o faço, embirro com smilezinhos)



E já nem sei a que ponto queria eu chegar com esta conversa toda pelo que agora nem me ocorre qual a moral da história.
 .....

E portanto, assim sendo e nada mais tendo a declarar a não ser que estou com sono, fico-me por aqui.
....

Relembro que, para quem prefira alta política, a crónica de mais uma jornada da campanha eleitoral pode ser lida já a seguir.

segunda-feira, outubro 12, 2015

De amore


Nunca sofri nenhum desgosto de amor mas não gosto de o dizer. Há coisas que apenas devem ser faladas depois de uma pessoa ter oitenta ou noventa anos. Nessa altura podem ouvir-se confissões de um certo tipo com alguma ternura ou admiração. Antes disso, corre uma pessoa o risco de ser tomada por convencida ou mentirosa.







Hoje, ao ver um vídeo, o que abaixo vos mostrarei, pensei nisto: já assisti de perto a tantos fins de relacionamentos, às crises que precedem os finais que, tantas vezes, já se antevêem como inevitáveis, às dores de quem ama e se sente rejeitado, à frustração de quem sente que vive uma relação sem chama, em permanente apatia ou contagem decrescente. Mas eu nunca passei por isso. Talvez um dia o sinta (e já apaguei várias vezes o fim desta frase porque sobre as razões que poderão levar-me um dia a sentir isso eu não quero pensar).

Desde que me conheço que tive paixões e que fui objecto de paixões. Eram paixões infantis, as primeiras. 

O Pipas que saía da mesa dele para se vir pôr de joelhos agarrado às minhas pernas, aos beijinhos nos meus joelhos, todo escondido para a educadora não o ver. E o Tó, de que eu tanto gostava e que tanto gostava de mim, e que eu, sedutora avant la lettre, gostava de fazer sofrer causando-lhe ciúmes com outros. Ou o Carlinhos, filho de uma colega da minha mãe, que fazia toda a espécie de maluquices para chamar a  minha atenção e que eu estimulava, mostrando a minha admiração. Depois, aos 12 anos, o primeiro grande amor, o JP do meu coração. Um amor imenso, à rédea solta, ele um rebelde e, quanto mais rebelde, mais eu apaixonada. Os nossos corpos cresceram um com o outro. Descobria no meu corpo o efeito que o corpo dele provocava em mim. E eu nele. Ambos surpreendidos, tão meninos, tão apaixonados. Não falo de pequenas paixonetas que outros diziam sentir por mim, não falo dos bilhetinhos de amor que recebia, presentinhos inocentes. Eram-me indiferentes. Quebra-corações, dizia de mim a Menina Alzira, contínua no Liceu. E vinha dizer-me: o Raul, anda caído por ti e não tem comparação com o maluco do JP. Onde tens tu a cabeça, rapariga? O Raul era mais velho que eu, moreno, olhos verdes cor de mar, alto, lindo. Mas faltava-lhe qualquer coisa, faltava-lhe entregar-se de corpo e alma -- que eu sou assim, tenho que sentir que, sem mim, a vida de quem me ama perde o sentido. Quando jogava futebol o JP rebentava-se todo, ficava esfolado, andava à pancada com os adversários, ficava quase roxo de tão encarnado, a blusa encharcada colada ao corpo, o cabelo escorrendo, todo ele sujo. Quando marcava golo, procurava-me logo com os olhos e eu, nas bancadas ou no terra ao lado do campo, delirante de alegria como se ele tivesse ganho o Nobel. E, no fim, vinha ter comigo, contente, e eu derretia-me por ver que ele tinha feito tudo aquilo para, no fim, ver o meu amor por ele. Fazia tantas coisas loucas, tantas; volta e meia era ameaçado de expulsão do liceu, outras vezes ia passar noites na esquadra e isso tornava-o, aos meus olhos, o meu grande herói, e, depois, vinha ter comigo e era meigo, tinha uns lábios muito quentes, umas mãos macias e ternas. E era muito inteligente, um aluno brilhante -- um provocador de quem quase todos os professores gostavam muito mas que uns dois ou três odiavam.

Mas depois veio o poeta trovador, desestabilizou tudo. Ao contrário dos que escondiam as suas paixonetas porque sabiam que o meu coração tinha dono, este exibia a sua paixão, desafiava o JP, desafiava-me a mim. Foram tempos conturbados. Zangas devastadoras e reconciliações arrebatadas. Todos os dias. Um fogo que não se extinguia.




Mais tarde, zanguei-me com o JP e talvez aí, sim, tenha sofrido qualquer coisa. Mas não era desgosto, era raiva, raiva por ele ter ciúmes, raiva por não me vir implorar que o desculpasse por ser tão parvo, vontade de me vingar, e havia uma máxima a matraquear na minha cabeça: 'rei morto, rei posto', ou 'se é para ter a fama, vou mas é ter o proveito'. E, portanto, contrariada, comecei a namorar o trovador. Nessa altura, talvez tenha voltado a sentir um pouco de mal de amor mas era às escondidas. Via o descaminho que estava a levar a vida do JP e sofria por isso, queria impedi-lo mas o orgulho não mo permitia, queria que ele me puxasse para os seus braços e me beijasse e, em vez de lhe dizer isso, continuava a namorar com o poeta. Acabei por me desligar do JP, a vida separou-nos. Afeiçoei-me ao trovador, ele gostava tanto de mim que eu, sentindo-me tão amada, acabei por confundir o gostar de ser amada com amar.




Mas, por essa altura, já na faculdade, eu gostava de me sentir olhada, desejada. No verão, levemente bronzeada, gostava de vestir um vestido decotado branco e sentir os olhares em mim. E um certo vestido verde, de seda, curto, colado ao corpo. Ou jeans justinhos, blusas justinhas, o cabelo ondulando nas costas. Despertava paixões, sim, e gostava de fingir que as ignorava. E gostava de sentir que aqueles a quem eu atraía sentiam ciúmes uns dos outros e gostava de lhes mostrar que eu não estava nem aí. Enquanto isso, o meu namorado sentia uma paixão cega por mim, idolatrava-me, eu era a sua musa - e nunca percebeu que, mais que sua namorada de corpo e alma, eu era sobretudo a sua allumeuse, era aquela que o inspirava mas, de facto, com o coração inacessível.

Até que surgiu o outro. E aí foi o coup de foudre absoluto de quem já muitas vezes aqui falei. Conto isto porque este outro é o meu marido, ele sabe bem o que se passou. E os meus filhos também sabem.

Acabei por me decidir por ele, causando um brutal desgosto de amor ao trovador, desgosto que durou anos e que se manifestava publicamente. E, que não se pense que sou insensível, porque, claro, que também me custou causar esse sofrimento tão profundo. Mas as pessoas são como são e as circunstâncias também ajudam.

O texto vai longo pelo que acabo já.




Mas quero, antes, ainda dizer mais algumas coisas: não sou ciumenta e acho que isso é uma virtude nisto dos assuntos de amor. Quase toda a gente que vi em crises amorosas, é gente que padece de ciúmes ou vontade de controlar ou ser controlada. Nunca fui ciumenta, nunca controlei ninguém (da mesma forma que também nunca me armei em frágil, querendo que tomassem conta de mim - embora, por vezes, o seja e embora goste de colo, sempre que dele preciso). Tenho para mim que, nisto dos afectos, não quero disputar coisa alguma, muito menos o lugar no coração de alguém. Quem gostar de mim, será pelo que sou, tal qual sou - e não porque eu, a golpes seja do que for, afaste alguém do lugar ou me esforce por alcançá-lo. Não me faço passar por mais nova, por mais bonita, por mais inteligente, por mais culta, por mais simpática. Sou como sou. Se alguma vez tivesse sentido ou se vier a sentir que aquele que o meu coração ama já não gosta tanto de mim como eu quero ser amada, será, na hora: bye bye, há mais marés que marinheiros. Não quero sacrifícios, fretes, favores. E o pensar assim dá-me uma liberdade mental que me impede de ter ciúmes. Tenho também muito claro na minha cabeça que homem que valha a pena entregar-se a gente emocionalmente a ele tem que obedecer a alguns requisitos. Se os não tem, então o bye bye é logo à partida, nem vale a pena qualquer investimento emocional. Se, por exemplo, é vingativo, mesquinho, se faz contabilidade ao tostão sobre quem paga a conta, se é preconceituoso, fútil, armado em engraçado sem ter gracinha nenhuma, ou coisecas do género, então não vale a pena qualquer esforço. Também acho que não vale a pena uma pessoa afobar-se a procurar o outro. A vida, na sua imensa sabedoria, encarrega-se de colocar na nossa frente aquele que, como por magia, aparecerá para encher de amor a nossa vida. Virá com sorrisos, com as mãos cheia de amor, com abraços no olhar, com poemas ainda húmidos, acabados de colher, com irreverências sedutoras, com malícias nos silêncios, com a doçura que nos dobra o orgulho, com a tolerância que nos protegerá de nós próprios, com a teimosia que vencerá as nossas resistências. Só temos que estar disponíveis e deixar que a vida nos aconteça.

Não sei se esta é a receita para não se ter desgostos de amor mas, comigo, é isto que se passa.



.........

E este, aqui abaixo, foi o vídeo que me fez escrever este texto. A coreógrafa Talia Favia conta um rompimento amoroso através da dança, ao som de « Let It Go » interpretado por James Bay. Os bailarinos são Chaz Buzan e Courtney Schwartz.


Let it go - a breakup story


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As fotografias são de Mert and Marcus e as fotografadas, como é bom de ver, não têm nada a ver comigo (se eu fosse assim, era modelo como elas ou uma performer como a incomparável Madonna que figura na primeira fotografia). 

A música lá em cima é I love the way you're breakin' my heart interpretada por Nicki Parrott.

...

Permitam que vos refira que, descendo um pouco mais, entrarão num outro mundo: o do humor e das coisas muito sérias.

..

quinta-feira, junho 11, 2015

Tudo tão efémero






Em tempos eu conheci um homem rico que era um bon vivant. De todos os que tenho conhecido, este talvez fosse o que melhor uso sempre deu ao muito dinheiro que tinha. Um bocado mais velho que eu, era muito alegre, muito divertido, muito sedutor, muito folgazão, sempre disponível para a conversa, para a tertúlia, para uma boa gargalhada. Era também um profissional exemplar, reconhecido, mas, francamente, era o seu lado humano que sobressaía sobre tudo.

Teve uma mulher, uma mulher de forte personalidade de que muito ouvi falar mas que nunca conheci, e depois divorciou-se. Quando o conheci já estava divorciado. Falava-se de namoradas, aventuras, excessos, loucuras. Depois começou de namoro com a secretária, uma mulher interessante, muitos anos mais nova que ele, igualmente extrovertida, algo destemperada, exuberante. Começaram a viver juntos e ela modificou-se: tornou-se uma jovem mulher cuidada, longos cabelos muito bem tratados, sempre elegante, muito bem maquilhada, saltos muito altos, uma mulher que não sendo especialmente bonita, era aparatosa, chamativa. No inverno, volta e meia, aparecia com um vison comprido, até aos pés. Lembro-me bem dela nesses dias: jeans justíssimos, geralmente uma elegante camisa branca, um colar discreto de ouro branco, sapatos muito altos, o casaco escuro de pêlo sedoso e a sua longa cabeleira sobre as costas do casaco. E os lábios muito encarnados. Perfumada, voz rouca, gargalhadas fartas. Uma mulher que, por todos os motivos, dava nas vistas.

Ele continuou a ser como sempre foi: um ar de quem não ligava a mínima ao seu aspecto físico, vagamente amarrotado, pouco cuidado, casaco pendão, sempre carregado com a sua mala a deitar por fora de tanto papel; e continuou a ser malandreco como sempre foi, cativante, e, mesmo, aquilo a que vulgarmente se chama engatatão (mesmo que o fosse apenas pelo prazer imediato de ver o efeito das suas palavras ou actos nas mulheres). Muitas vezes a namorada apercebia-se das investidas do seu homem já que aquela maneira de ser nele era tão intrínseca que ele parecia não se coibir com a sua presença. Ciumenta e primária nas suas reacções, ela fazia cenas de ciúmes igualmente exuberantes, alto e bom som, muitas vezes embaraçosas - coisa que a ele dava vontade de rir e não vontade de se corrigir.

Muitas vezes, toda numa efervescência, ela contava-me peripécias dele, irritada, sentida. Dizia-me que lhe fazia ultimatos mas que ele não tinha emenda -- e, ao contar-me isto, eu via que ela estava de rastos. Lembro-me, por exemplo, de uma vez me ter contado que ele não tirava os olhos de outra no restaurante, e que a outra, que estava acompanhada, à socapa toda se derretia para ele. E que ela não tinha aguentado e se tinha virado para ela e, de mesa para mesa, lhe tinha atirado: 'Olhe lá! Não quer trocar comigo? Já que não liga ao seu marido mas sim ao meu, vou eu para aí e vem você para o pé do meu. Quer? Esteja à vontade!'

No entanto, lembro-me bem dela numa vez em que apareceu emudecida, comovida. Ele tinha-lhe oferecido um Patek Philippe. Eu conhecia a marca sem nunca ter visto um ao vivo. Nem tinha noção dos milhares que um relógio daqueles poderia custar. Custava-me até a acreditar num excesso daqueles. Ela também. E não conseguia ainda assimilar que ele gastasse tal fortuna num relógio daqueles para lhe oferecer. Para ela, mais do que tudo, aquele relógio era a prova do amor dele por ela (coisa de que, por vezes, ela, que o amava ilimitadamente, quase duvidava). E falava extasiada da caixa em que o relógio vinha, uma peça de arte, dizia ela. E os olhos embaciavam-se de comoção, quase acreditando que ele, afinal, gostava mesmo dela porque, se não gostasse, ia gastar tanto dinheiro num relógio?, interrogava-se ela. Eu pouco dizia, também espantada com o exagero: como é que um maluco daqueles ia gastar tal maluquice de dinheiro num relógio para uma maluca daquelas? 
Mas, note-se, ao pensar neles como malucos era com algum carinho e admiração pois todo aquele amor entre aparentemente desiguais (ele de uma família endinheirada, ela de família humilde, ele um gestor reputadíssimo, ela a sua secretária, ele uma homem de meia idade, de aspecto descuidado, e ela uma mulher jovem super-produzida) era um amor carregado de excessos, de zangas extremas, de reconciliações ardentes: mas eram tão genuínos, tão boas pessoas, tão apaixonados que era impossível não simpatizar com eles. 
Pouco tempo depois, sem que alguma coisa o fizesse esperar, um amigo comum chegou ao pé de mim, branco, nervoso, quase sem voz, e disse-me: 'Morreu o C'. Fiquei impressionada com o rosto devastado do meu amigo e, nesse instante, apreensiva e quase bloqueada, passei em revista todos os nossos amigos com aquele nome e não me pareceu possível que algum deles pudesse ter morrido. Perguntei-lhe: 'Quem!?'. Ele quase não conseguia falar. Repetiu o nome e acrescentou 'Fulminante. Não é possível. Está morto'. Tenho ideia de não conseguir dizer nada, não via que isso pudesse ter acontecido a algum dos nossos amigos. Depois ele disse, 'A M. está desfeita'. E então eu percebi que a pessoa que tinha morrido era aquele nosso amigo tão transbordante de vida. Fiquei em choque. Num instante, desapareceu uma vida inteira, aquela vida tão exuberantemente vivida, desapareceu a vida para aquele homem que nos fazia rir a todos, de quem se contavam mil histórias, todas excessivas, todas loucas, todas carregadas de um tremendo amor à vida. E desapareceu também a vida para ela, a vida tal como ela a vivia nos últimos anos, ela que vivia para ele.

Toda a gente que o conhecia ficou muito abalada. Foi como se um silêncio se tivesse abatido sobre todos. Durante muito tempo ninguém falava dele. Penso que ninguém queria falar nele no passado.

Algum tempo depois, conheci a filha dele. Era igual a ele, até fisicamente. Alegre, irreverente, louca, transbordante de paixão. Já divorciada, divertia-se, tinha aventuras, nada temia, arriscava pelo prazer de brincar, de desconcertar os outros. Um dia perguntei-lhe pela M. O seu semblante toldou-se, disse: 'Sobre essa senhora não quero falar'. Na cabeça dela, a M. era a pistoleira por quem o pai tinha perdido a cabeça e que tinha levado ao divórcio entre os pais. Disse-lhe apenas que conhecia a M. e que era boa pessoa e que tinha testemunhado a adoração que tinha pelo pai. Ela encolheu os ombros, disse que era pessoa que não lhe interessava -- e mudou de assunto. Tive pena.




Lembrei-me agora disto ao ler na Obvious um artigo sobre o Grandmaster Chime da Patek Philippe.

Para celebrar os 175 anos da marca, a Patek Philippe projetou o relógio mais complexo da história. O Grandmaster Chime (algo como "Harmonia do Mestre") tem meia dúzia de invenções patenteadas, mais de mil peças no seu interior, e um preço que gira em torno dos 2.5 milhões de dólares - para cada uma das seis unidades postas à venda.
O Grandmaster Chime (algo como "A Harmonia do Mestre", em português) tem 1366 componentes diferentes, seis invenções patenteadas incorporadas ao mecanismo interno, cinco tipos de som, e custa 2,5 milhões de dólares - caso você consiga uma das únicas 6 unidades postas à venda. O corpo do relógio gira em torno do próprio eixo e é todo coberto por ouro 18 quilates.
Enquanto um Apple Watch leva alguns dias para ser manufaturado, o Grandmaster Chime precisou de 7 anos para ser completamente desenhado, e de mais 2 para ser produzido. O vídeo abaixo dá uma ideia da complexidade e beleza do processo.

Patek Philippe 5175R Grandmaster Chime Watch




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Já agora o anúncio da marca onde se pode ver aquilo que é a assinatura da marca:

'You never actually own a Patek Philippe, you merely look after it for the next generation'


E eu cada vez mais me interrogo:
Possuímos, de facto, alguma coisa?
 Efémera como é a vida, qual o significado de se possuir alguma coisa?

Eu sinto que não possuo nada. Nem certezas, quanto mais coisas. Nada.
Cada vez mais, acho que não possuímos nada.




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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quinta-feira.
E que aproveitem bem cada instante da vossa vida: aí reside, em minha opinião, a verdadeira riqueza -- nos instantes bem vividos.

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quinta-feira, dezembro 18, 2014

Valérie, a mulher abandonada que escreveu 'Obrigada por este momento' (o livro que Hollande não queria que ela escrevesse)


No post abaixo já festejei. Andava sem saber que era feito do meu Lombinha dos Briefings e não é que acabei de o ver? Está na mesma, benza-o Deus.

Mais abaixo ainda, fiz-me eco de anedotas, safadices, brejeirices e terapices de casal

Mas isso é a seguir.

Aqui, agora, a  conversa é outra.


L'amour - pela voz de uma ex-Primeira Dama

Carla Bruni, a antecessora



Tenho andado a ler o livro de Valérie Trierweiler, a ex-companheira do galã Hollande que, como é sabido, a trocou pela actriz Julie Gayet.


Andava curiosa por conhecer Valérie, 49 anos, esta mulher com quem a França nunca estabeleceu uma relação empática pois sempre a viu como uma arrivista, aquela que se intrometeu entre François Hollande e Ségolène Royale, a mãe dos seus quatro filhos.

Valérie sempre teve um sorriso que parecia forçado, sempre mostrou uma pose altiva e sempre apareceu aos olhos da opinião pública como uma mulher possessiva (a ponto de a tratarem por Rottweiler) que se tinha colado a um político com ar de homenzinho vulgar que, como por milagre, ascendeu a presidente de França.

Tendo conseguido chegar até ao Palácio Presidencial, Valérie não chegou a aquecer o lugar. Nem dois anos tinham decorrido e já a traição de Hollande com Julie aparecia exposta na capa dos tablóides - ainda por cima, uma coisa ridícula, o Hollande à porta da amante, de capacete para não ser reconhecido. A imprensa do mundo inteiro acompanhou a cena em tempo real: os comprimidos tomados por Valérie, o internamento por esgotamento nervoso, as crises de choro e fúria. 


E, pouco depois, ouviu-se falar do livro, Obrigada por este momento. Parecia daquelas mulherzinhas que, traídas e de cabeça perdida, tudo fazem para dar cabo da vida ao ex e à nova consorte.

Li, na altura, que ela fazia revelações que o deitavam por terra, mostrando-o como uma criaturinha egocêntrica, parva, fútil, mentirosa.

Balançando entre achar que o livro não devia ser coisa que se aproveitasse pois não devia passar de uma vingançazita vulgar, e uma cusquice difícil de controlar, quando vi o livro à venda, folheei-o para ver se me convencia a deixar lá ficá-lo. Mas não. Trouxe-o mesmo.

O livro não está extraordinariamente bem escrito, o que me causa admiração. Valérie tem estudos e é jornalista e, ultimamente, para evitar constrangimentos, tinha deixado de escrever sobre política, área na qual era especializada, para passar a escrever sobre livros. Seria, pois, de esperar uma prosa mais escorreita. Mas também não é horrorosa, note-se. Bem pior é a escrita de José Rodrigues dos Santos, por exemplo.

Mas, para além da forma como escreve, há a linha condutora da narrativa que é um bocado caótica. Ela vai escrevendo à medida que as coisas lhe vão vindo à memória e, portanto, o livro não é sequencial e vê-se que é escrito com a emoção à flor da pele e sem grandes cuidados de revisão e edição.

Ainda assim é um livro que prende, tanto mais que fala sobre factos recentes, fala de um presidente em funções e fala dela própria, revelando-se de uma forma muito genuína.

Quando acabar de ler, contar-vos-ei. Para já, entre muitas outras coisas, fiquei a saber que Valérie provém de uma família extremamente pobre, mas mesmo muito pobre, e que, extraordinariamente, conseguiu sair do círculo de pobreza que geralmente aprisiona os muito pobres e conseguiu estudar, ganhar o gosto por ler, e evoluir, sempre trabalhando, muitas vezes sofrendo. Impressionou-me o episódio que contou relativo ao dia, um primeiro dia de aulas, em que, tendo verificado que os sapatos tinham deixado de lhe caber, teve que levar calçados uns sapatos largos do irmão e que, nos intervalos, ficou sentada, com a mala em cima dos pés, envergonhada, a chorar.

Fiquei também a saber que, a pedido de Hollande, tinha deixado o seu trabalho na televisão, ficando apenas com o trabalho no Paris Match (ou seja, tinha renunciado a dois terços do seu rendimento) e que, ao ser posta fora da vida do presidente, receou pela sua autonomia financeira, tendo este lavado as mãos. Pôs-se então a escrever o livro não tanto para ganhar dinheiro mas como catarse. Pensou que ia vender bem mas nada do que se tem vindo a verificar, nunca imaginou que fosse o best-seller internacional que está a ser. Imagino que fique rica com os proventos deste livro e fico contente por isso. A lembrança dos tempos de extrema pobreza estão ainda muito presentes na memória de Valérie.

Hoje, ao fim do dia, fui a uma feira de livros e, por acaso, dei com um pequeno livro sobre Ségolène Royale.


Lê-lo-ei a seguir. Não que queira compará-las tanto mais que, justamente, essa comparação atormentou a relação entre Valérie e Hollande, mas, depois do que estou a ler, fico também curiosa em relação a essa outra mulher que igualmente se enfeitiçou por aquela figurinha por quem eu não daria um chavo.

Entretanto, descobri uma entrevista muito recente, com menos de um mês, à BBC, na qual Valérie Trierweiller fala abertamente pela crise pela qual passou. Achei interessante e, por isso, aqui a partilho convosco. Imagino que não tarde esteja de volta à televisão pois tem uma presença forte e, por ela e pelos filhos, tomara que isso aconteça.



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NB: Muito gostaria ainda de poder escrever sobre o importante passo no sentido da normalização de relações entre os EUA e Cuba mas já não dá, o tempo não estica. Mas aqui deixo nota da minha alegria.
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Relembro: sobre o Lombinha e o chefe e o regabofe da televisão e sobre cantadas, disputas e outras cenas que requerem uma boa terapia de casal é favor descer até aos dois posts seguintes.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quinta-feira.
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sexta-feira, setembro 05, 2014

François Hollande e as suas belas três mulheres - daqui lanço outra vez o mesmo apelo: alguém me explica qual o segredo do homem? E não me refiro apenas agora à Valérie Rottweiler que, roída de ciúmes, não descansa enquanto não fizer sangue. Não, refiro-me mesmo a elas todas.








Ora bem. Queria falar ontem, não falei, falo hoje. Valérie, 49 anos, mais conhecida por a Rottweiler, fez aquilo que se temia: começou a vingar-se. 

Não sou muito de dar conselhos mas se há um que sempre dou é que há que ter cuidado de uma mulher que seja possessiva e ciumenta. Mulheres assim são um perigo.


Conheço de perto vários casos em que mulheres normais viraram temíveis feras quando se viram trocadas por outra. Temíveis!

Admito que um homem experiente ou com algum savoir faire saiba lidar com a tormenta que pode vir dos lados da mulher enganada mas, mesmo assim, acho melhor não arriscar. Uma mulher que seja focada, que seja de criar dependências emocionais em relação a um homem, torna-se destemidamente perigosa quando se vê abandonada e trocada por outra. Só não fará a vida do homem e da nova mulher num calvário se, pelo meio, se for abaixo.

Valerie Trierweiler é um desses casos. 

Vivia o maravilhoso e irresistível Hollande (agora com 60 anos), ainda com a mãe dos seus quatros filhos, Ségolène Royale (agora também com 60 anos), quando Valérie, jornalista, fazia um trabalho sobre Ségolène. No decurso do seu trabalho conheceu a fera e não resistiu: tamanho era o encanto que ele emanava que a bela Valérie lhe caiu nas malhas. 


França acordou incrédula quando soube que François, o totó Hollande, andava a enganar a bela Ségolène com uma flamboyante femme. 

Perante a espada ao peito de Valérie e perante a opinião pública, François não teve como não assumir o romance. Ségolène passou à historia (com grande dignidade, diga-se) e a nova Primeira Dama francesa, a que viria a ocupar o Eliseu, foi a sexy Valérie.

Controladora, possessiva, apaixonada pela beldade Hollande, Valérie parecia viver em permanente estado de alerta. As mulheres ciumentas são assim, nunca baixam a guarda e, portanto, nunca estão em paz. A opinião pública nunca foi muito à bola com ela. Mas progressivamente a opinião pública já estava era também enjoada de François Hollande. Um banana, um zé ninguém nas mãos de Merkel, uma desilusão para a esquerda, um pequeno e inútil badameco.

Eis então que a França volta a acordar estremunhada, quase em estado de estupor catatónico: Hollande andava de novo a aprontar. Desta vez com uma artista de cinema, Julie Gayet, agora com 42 anos, gira todos os dias, bem mais nova e, qual adolescente disparatado, aparecem fotografias com ele de capacete, a andar de lambreta, e que o segurança ia levar croissants quentinhos aos pombinhos que, pela manhã, ainda estavam no quentinho do seu ninho de amor.

Tal como toda a França, Valérie soube nesse dia, pelas notícias, que o seu Romeu andava a mijar fora do penico. Com os nervos, tenta enfrascar-se em drunfos, o namoradinho impede-a, ela cai de madura, um piripaque, é internada. E, quando sai do hospício, sai também do palácio presidencial. Disse depois que parecia que um comboio lhe tinha passado em cima. Hollande, a fera, tinha voltado a atacar.

Despeitada e amargurada, Valérie foi curar-se para outro lado.

Curar-se...?

Qual quê? Mulheres possuídas pelo ciúme e pela raiva não fazem por curar-se: tentam por todos os meios, isso sim, fazer a vida negra a quem as faz sofrer.

Trezentas e tal páginas de vingança aí estão, Merci por ce moment: que ele a assediava a torto e a direito, entre uma conversa com Obama e outra com Putin enviava-lhe sms de forma desvairada, queria tê-la de volta, só falava em reconquista, enviava-lhe flores. Chegaram a ser 29 sms por dia, um perfeito assédio. 


Andaria, então, com a sua nova namoradinha e a enviar sms apaixonados à ex. E, em suma, que é um parvo, que é uma criatura que não sabe o que quer. Duplamente parvo: não apenas a ser parvo como a ser parvo por escrito, deixando provas. E que, segundo ela conta, trata os pobres por desdentados. E que mais não sei o quê.

Esta quinta feira as imagens mostravam na cimeira um Hollande acabrunhado, enfiado, pequenino, ao telefone. Imagino, nem devia saber onde se meter. Se fosse outro, ainda alguém poderia achá-lo o galã da UE, agora, com ele, só o podemos achar o totó da UE.

De uma só cajadada, Valérie, a Rottweiler, deixa-o mal perante a Julie, que agora não mais poderá confiar no seu belo Apolo, perante os pares dele que, de cada vez que o virem ao telefone, vão pensar que não é nada a ver com assuntos de Estado, que deve ser assunto é de braguilha, e deixa-o mal perante todos os franceses que ficam a saber, preto no branco, que têm à frente do seu País uma anedota.

E tudo isto poderia ser romanesco, ter um toque de trovadoresco, haver nisto qualquer coisa de glamouroso. 

Mas eu olho para isto e só vejo uma série cómica. Um fenómeno, um coiseco perante quem mulheres fascinantes tombam apaixonadas.


E olho para três mulheres belas, de personalidades fortes, e interrogo-me: caraças, mas o que é que o Hollande tem?

É que o pior é que quem convive com ele diz que o tipo não tem préstimo, que não resolve nada, quer agradar mas que nem se percebe o que diz ou pensa porque se especializou em dizer coisas que não o comprometem.

O ministro da Economia que recentemente se demitiu e ia provocando uma crise, Arnaud Montebourg, disse dele as piores coisas. Nada que causasse espanto.

Ora, mesmo que, por absurdo, o segredo da coisa estivesse num inesperado tesouro guardado por trás da braguilha, mulheres inteligentes costumam apreciar homens inteligentes, com carisma, ideias fortes, capacidade de decisão, não apanhados em verde como o Hollande..

Não é estranho? Se fisicamente é o que se vê, se em termos de carácter é o palerma que toda a gente descreve, então, caraças, o que é que estas três mulheres vêem nele? 

A Ségolène continua a defendê-lo, a Valérie por aí anda possuída e a Julie parece que continua apaixonada e namoradinha.


Alguém me explica este fenómeno?


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Hollande, le ridicule



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A música lá em cima é J'ai deux amours numa interpretação de Madeleine Peyroux porque, enfim, assim como assim, admito que, apesar da robustez, Hollande não costume ter mais do que dois amores de cada vez. mas já não digo nada.


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Por vezes sou traída por mim própria: tinha fotografias de casais e de barcos e de uma marinheira de se lhe tirar o chapéu, já para não falar da vida de Sebastião Salgado que anda pendente há dias, mas chegámos tarde do centro, os restaurantes cheios, cheios, com fila para entrar, não dá para acreditar, e depois pus-me a ver a Quadratura do Círculo e atrasei-me, comecei isto muito tarde e, depois, escolher fotografias e vídeos e mais não sei quê para isto que acabaram de ver e agora dou por mim e já passa bem da uma e meia. Ora como a alvorada aqui no quarto é cedo e, logo depois do pequeno almoço, há caminhada a fazer (esta quinta-feira foram 6 km de manhã e depois mais 3 à tarde), não posso apresentar-me na formatura a dormir em pé. Por isso, com vossa licença, hoje fico-me por aqui mesmo.


Claro que fico com pena de também não comentar as boas notícias que nos chegam dos lado do Super-Mario Draghi. Parece ser o único homem que não tem medo de Merkel. No meio de uma Europa conduzida por um cherne sem neurónios nem coluna vertebral, no meio da maior burocratização, no meio de gente com interesses contrários e sem liderança, ele lá vai tentando fazer qualquer coisa. As medidas anunciadas são boas, visam o estímulo económico e tomara que os anormais todos que por aí andam a destruir a Europa e, em particular, alguns países, não venham arranjar maneira de tentar neutralizar o que ele está a tentar fazer. Mas, enfim, isso levar-me-ia para outras profundidades e eu, por estes dias, estou mais dada à superficialidade.

Helder Rosalino, o grande Banqueiro Central


(conforme notícia do Expresso)


Ah é verdade, e queria ainda dizer que agora é que vou, finalmente, ficar mais descansada em relação ao Banco de Portugal. Sabido que é que o Charles da Costa Butterfly não dá uma para a caixa, conforme o seu amigo Aníbal fez questão de reforçar publicamente, e sabido que o Pedro Passos Láparo anda a fazer de conta que a embrulhada da Nova Butterfly é coisa só do pai, o dito Charles, era notória a necessidade de reforçar competências, especialmente alguém muito experiente e com tarimba à altura de Teodora Cardoso que está de saída. Ora bem: problema resolvido. O meu grande amigo três cabelos, o Helder Rosalino, vai agora ser a Rosa Linda que lá faltava. Agora a Butterfly já tem onde pousar. Daqui, pois, me manifesto toda cheiinha de júbilo: viva o Rosalino, banqueiro central, viva!


Mas hoje já não dá. Logo organizo uma partyzinha à altura dele um dia destes.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores uma bela sexta-feira. 
E, por favor, que ninguém me recorde que já é sexta-feira. Não quero...


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terça-feira, abril 01, 2014

O que é o amor? Porque é que uns resultam e outros não? Como pode um casamento durar uma vida e haver amor e felicidade até ao fim? - Não sei. Mas, na minha ignorância, arrisco algumas pistas.


No post a seguir a este já gabei a pinta do novo Primeiro-Ministro francês, Manuel Valls, e tenho cá para mim que é moço para dar que falar. O que eu gostava mesmo é que ele impusesse algum respeito a essa gente ordinária que tem vindo a alastrar pela Europa por não haver quem lhes faça frente. Mas vamos ver. Pinta tem ele. E tem uma mulher também com muita pinta.

Mas isso é mais abaixo.

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Aqui, agora, vou falar de outra coisa.

Vinha com outra ideia, vinha com vontade de pegar em sugestões deixadas ou enviadas por Leitores mas, enquanto escrevia o post anterior, comecei a ver o Prós e Contras que, esta segunda feira, foi dedicado ao amor.


O inusitado do tema despertou-me a atenção mas, sobretudo, despertou-me a atenção o facto de, ao ter passado pela RTP 1, ter visto uma pessoa conhecida a falar. Enviei logo um sms à minha filha, porque é pessoa que ela também conhece, e depois fui deixando ficar.

O meu marido já se foi deitar e, portanto, agora por aqui não se faz zapping, agora posso estar a ver sossegada sem que ele se enjoe. Se aqui estivesse já estaria a bufar: 'é pá, não tenho paciência para estas conversas de chacha'.

Entretanto, já caíu uma chuvada assustadora. Não tenho ideia de uma coisa assim. Um dilúvio. Uma chuva intensa, pegada, nem sei se terá sido granizo, tal o barulho que fazia. Abri a janela para espreitar mas não consegui perceber pois tive que a fechar logo, tal a brutal queda de água, um barulho, um barulho, uma coisa medonha.

Bom. Volto a Fátima Campos Ferreira.
Ainda este domingo a vi no Centro de Arte Moderna. Gosto mais de a ver menos maquilhada do que carregada de pinturas como está quando a vejo na televisão. 
Mas volto a ela não para falar dela mas do tema que ela trouxe ao programa: o amor, como já acima o referi.

Já aqui ouvi muitas teorias - do camião TIR da paixão, das inseguranças, das vulnerabilidades, etc, - e ouvi um casal recém-casado cheio de conversinhas e ilusãozinhas, e ouvi o casal do Solar dos Presuntos, a Graça e o Evaristo, casados há montes de anos e cada vez mais amigos, e estou a ouvir Daniel Sampaio, sempre sensato, e a bela Beatriz Valério, advogada de divórcios, e a ginecologista Maria do Céu Santo que é uma descontraída, e a Catarina Beato mãe solteira de dois filhos de pais diferentes, e mais a autora do blogue dos Saltos Altos, e mais uns quantos cujo nome ou razão de ser de estarem ali não captei. 

E, já que meio mundo opina, opino também eu. Não hei-de dar tiros mais ao lado do que eles.


Hit the Ground, meus Caros





Sou casada há tanto tempo que acho que devo ser capaz de dizer qualquer coisa. Sou casada há mil anos e ainda não consigo passar sem o meu marido. No entanto, nada de falsas ideias: há momentos em que não o posso nem ver, que, se pudesse depois voltar atrás sem pôr em causa a minha imagem, lhe punha as malas à porta. E, se tenho alguma coisa para dizer, é que nem me passa pela cabeça escolher a melhor forma de o dizer ou o momento mais adequado. Não: é logo, na hora, ao rubro. Estrebucho, grito, choro, ameaço, e tudo o que me vem à cabeça. Sempre assim foi. Sou primária até mais não poder. Mas isso tem uma vantagem: como sai tudo na hora e em dose maciça, também passa logo. Estou a lembrar-me da Graça e do Evaristo que dizem que se chegavam um ao outro na cama e faziam logo as pazes. Eu acho que comigo nem é preciso esse truque. Esqueço-me que estava zangada. E acho que o meu marido também. Ou então já se habituou, já sabe que o vendaval passa logo. E com ele a coisa não é muito diferente. Já nos topamos mutuamente.

Provavelmente há pessoas que, à mínima, fazem um drama. Eu não e ele, felizmente, também não.

Eu acho que isto é como tudo na vida. Não há pessoas a quem tudo corre mal e outras a quem tudo corre bem: o que há é pessoas que dão a volta e seguem viagem e outras que extremam os problemas e estragam tudo.

Como não me casei pela igreja, também não frequentei aqueles cursos de aconselhamento matrimonial. Jamais poderia frequentar tal coisa. Há coisas que não se aprendem e esta de um casamento dar certo é uma delas.

Quando me casei também não transformei o casamento num evento preparado ao milímetro.

Hoje vejo algumas 'noivas' que começam a organizar o casamento com um ano ou mais de antecedência, que contratam um coro para a igreja e karaoke e DJ para o copo de água, um fotógrafo e um ajudante, que encomendam convites, cartões para as mesas, mais lembranças para os convidados, que obrigam os ditos convidados a comprarem as coisas de uma lista ou a darem dinheiro para uma viagem para o outro lado do mundo. Uma tal mise en scène que parece que aquilo é mais uma festa de angariação de fundos preparada ao milímetro do que a união de duas pessoas apaixonadas. Tudo isso me é estranho e tudo isso me parece um festival que tem pouco a ver com o genuíno espírito de um casamento a sério. Acho que essas pessoas que encaram o casamento como uma religião ou como uma etapa mediática são as que vão para um relacionamento cheias de ilusões, de cinefilias, de ficções, idealizando perfeições que não existem na vida real.


Mas depois há as outras.

As que não atinam. As que complicam, as que não toleram nada no outro, as que concebem teorias atrás de teorias. Há homens que acham que as mulheres são assim e  assado, tudo tipificado, e que desenvolvem teorias para fazerem aproximações à pista sem se despistarem, ou que se rodeiam de toda a espécie de seguranças para evitarem ser apanhados. E as mulheres idem: desenvolvem também toda a espécie de tácticas para detectarem intenções menos claras, vícios, taras, indícios de infidelidades futuras.

Tudo errado.

Pelo menos, eu acho.






Sou completamente contra todas as teorias de cão de caça. 

Sabido que é melhor (até para a saúde) que uma pessoa tenha companhia no seu percurso de vida e que, melhor ainda, que essa companhia seja boa, que proporcione um ambiente cúmplice, de afecto, de partilha, e podendo eu ser vista como um exemplo, a verdade é que chego a esta altura do campeonato sem conseguir dissertar muito sobre o assunto.

O que leva uma pessoa a ter um relacionamento bom e duradouro? Não sei. Mas é que não sei mesmo.


Vou arriscar mas admito que só vou dizer burrices. 

  • Diria que, em primeiro lugar, tem que haver atracção física. É fundamental. Tem que ter havido algures, no início pelo menos (mas, desejavelmente, ao longo de todo o relacionamento mesmo que, então, de forma mais fugaz ou ligeira), um coup de foudre. Paixão. Perdição. Loucura e borboletas no estômago, no peito, pelas pernas acima.

  • Depois tem que haver afinidade intelectual e complementaridade a nível comportamental - e reparem bem no que eu disse: se a nível intelectual tem que haver equilíbrio e sintonia, já a nível de comportamentos acho que resulta melhor se não forem iguais mas sim complementares.

  • Depois tem que haver admiração mútua. Seja no que for: ou no trabalho, ou a a cozinhar, ou a pregar prateleiras, ou a ser bom pai ou boa mãe, ou a saber poemas de cor, ou a fazer amor - no que for. O desdém é inimigo do amor.

  • E tolerância - a tolerância é fundamental. Mas tolerância no que não for basilar. Se o eu marido fosse um admirador do Henrique Barroso, do Jorge Jesus ou do Passos Coelho ou se se vestisse com fato com risca de giz ou se usasse um aftershave intenso e insuportável, se usasse a unha do dedo mindinho comprida, se usasse pulseira ou anel, se usasse sapato de berloques, ou outras coisas imperdoáveis do género, então é claro que a tolerância teria que ser zero. Mas em coisas acessórias como fazer zapping quando não deve ou querer ouvir comentários desportivos ou nem reparar se eu vestir um blusa nova toda gira ou se nem reparar que cortei o cabelo ou outras insignificâncias do género, aí eu tolero.

  • E tem que haver humor. Os membros de um casal têm que se fazer mutuamente rir. Fundamental isto. Não conseguiria conceber estar com um chato, mal humorado, uma seca, um embirrante. Imagino que um homem também não suporte uma mulher soturna, mal disposta, ensimesmada, desconfiada.

  • E não pode haver ciúmes. Pelo menos ciúmes por tudo e por nada. Ciúmes doentios é do pior que há. É fundamental pôr o coração ao largo.

  • E tem que ser-se capaz de ter uma conversa de igual para igual. Eu não poderia ser casada com um palerma que não percebesse metade do que eu dissesse, que desse pontapés na gramática a torto e a direito, com quem eu nunca aprendesse nada, com quem eu não tivesse afinidades estéticas, intelectuais, morais, políticas. Pode haver diferença nos interesses, nas posturas, nas opiniões mas não pode haver um afastamento sistemático, divergências insanáveis. (Acho que já falei disto lá mais para cima mas é que isto é mesmo importante)

  • E deve haver uma vontade, motivação mesmo, em partilhar um projecto de vida em comum, vontade de caminhar a dois. 

  • E é capaz de haver mais uma série de coisas mas, às tantas, vai tudo dar ao mesmo.

E a ordem dos factores é capaz de não ser bem esta mas isso também é irrelevante pois a importância das coisas vai mudando ao longo da vida.


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As fotografias são de Anja Rubik e Sasha Knezevic para a Vogue Alemanha e de Toni Garrn e Clive Owen para  Vogue Espanha - em ambos os casos, o fotógrafo é Alexi Lubomirski.

A música é Hit the Ground de Lizz Wright.


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Relembro: sobre o malandreco e pintaroludo Manuel Valls que agora é Primeiro-Ministro em França (e que parece que acha que é melhor não se falar em socialismo, vejam bem como ele é), falo no post abaixo.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça feira (apesar deste tempo assustador)


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ETERNIDADES

Foi no teu olhar que encontrei sempre a minha âncora
mesmo quando eras tu a desencadear os vendavais
a minha barca quase se afundava
coberta de ondas, tremia
e depois se alevantava
mais forte mais bela mais segura

e quando fui eu que inventei as tempestades
e fiz tremer o casco dos navios
e nascer a impensável escuridão

de rastos e olhar vadio
atravessei o nevoeiro
perdi a noção do norte e das estrelas
esqueci mesmo o bater do coração à procura do arco íris

e de novo
o TEU OLHAR
a eterna razão que me trazia à tona de água

nadei até ao cais
exausta confusa arrependida
seguindo o único farol que me traz de volta a casa
ilumina o resto do caminho
e continua a dar sentido à minha vida...



[Poema da Leitora 'Era uma Vez', num comentário aqui abaixo]