Mostrar mensagens com a etiqueta Yuja Wang. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Yuja Wang. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, junho 20, 2025

Podem desmentir-me se quiserem

 

Isto é uma catedral

Gosto agora muito de me sentar no jardim ou no campo, em especial à tardinha, a olhar para o ar, para o céu, para as árvores. 

No jardim há agora um perfume novo, creio que a mistura de várias flores. É um perfume floral, isso sem dúvida, mas, ao mesmo tempo, doce e íntimo. Os pássaros também gostam. Descem e vêm passear perto de mim, entretendo-se a debicar o que encontram na terra. 

Se estou sob as árvores gosto de as admirar, vendo-as de baixo. Não existiam e foram-se tornando a maravilha que são. E gosto de ver as flores através da luz. Ou a luz através das flores. Parece o mesmo mas não é. 

As nuvens também me cativam. São efémeras como uma aragem. Não têm a noção do tempo nem do espaço, são livres como uma partícula elementar, como uma palavra solta ao vento, como espíritos vogando por aí.

Isto é um deus, e creio que daqueles que não são particularmente santos
(honi soit qui mal y pense).

Muitas vezes tenho um livro comigo mas, se o livro não tem nada que me impressione (e impressionar no sentido em que a luz impressiona a película, nela gravando imagens, sombras, movimentos), fecho-o e deixo-me estar.

Isto é um milagre. Inexplicável. Fruto da inspiração de uma inexistente divindade

Tenho saudades de fotografar com as minhas máquinas fotográficas. Foram-se estragando e, depois, para quê continuar?, já tinha milhares de fotografias. Faz sentido continuar a acumular fotografias? Não vou voltar a vê-las. O que gosto é do momento em que capto a imagem. A partir daí já não me interessam. Agora uso o telemóvel. E vou apagando pois estou sempre a precisar de mais espaço.

Isto é uma obra de arte. Fortuita. Com a vantagem de não ser um Miró 

________________________________________________________________

Já contei muitas vezes que, quando fazemos as nossas caminhadas nestes dias de calor, mal transpomos e entrada do nosso jardim, sentimos a frescura que nele se acolhe. A temperatura está uns graus abaixo da temperatura fora dele. São as árvores, as trepadeiras, as flores, é o carinho que retêm.

In heaven a mesma coisa. Vou andar lá em baixo e, no meio das árvores, é outra a geografia. 

Em qualquer dos casos, o tempo suspende-se. 

Hoje estava sentada no meio das flores, o cão deitado, os passarinhos a cantar. Pensei que poderia ficar assim saecula saeculorum. Talvez bastasse não me mexer. O mundo à minha volta a girar e eu ali, parte do tempo, imóvel como o tempo, uma partícula imaterial suspensa na infinitude do espaço.

____________________________________________________

E para que não protestem com o teor da conversa, para quem prefere temas mais concretos, aqui está um vídeo que poderia muito bem servir de inspiração a quem tem a responsabilidade de melhorar os espaços públicos.

THE MINI FOREST - Rewilding using the Miyawaki Method

Terrell Wong is about to plant 100 trees in her small Toronto backyard, a dense mini forest based on the Miyawaki Method. What at first seems like a simple act soon evolves into a complex story about dirt, lawns, fungus, wildlife, native species, and finally the human brain. An anti-lawn anthem from director David Hartman, The Mini Forest explores this innovative form of afforestation and the importance of restoring the native woodlands that once covered so much of Canada and the World.


Uma boa sexta-feira

quarta-feira, abril 20, 2022

A sensualidade delas

 

Devo dizer que na outra noite dormi muito mal. Acordei a meio da noite e só voltei a adormecer quando amanhecia. E logo a seguir tocou-me o telemóvel. A inclemência começou cedo. E o dia foi em contínuo, sempre a bombar. Só comecei a fazer o jantar depois das nove da noite. Acabámos de jantar por volta das dez e meia. 

Como é bom de ver, mal aqui me apanhei sentada, logo me deu o sono. Estava com o computador nas pernas, tentando informar-me sobre os sucedidos do dia. Ouvi o meu marido a avisar-me que o computador ainda ia parar ao chão. Mas não consegui mexer-me. Segundos depois, um barulho. Tinha mesmo ido parar ao chão. Apanhei-o, pousei-o na mesinha aqui ao meu lado e adormeci a sério.

Acordei agora, e passa da meia-noite, enquanto na SIC N o Nuno Rogeiro e o José Milhazes comentam os irreparáveis e imperdoáveis crimes de guerra na Ucrânia. Tudo demasiado tenebroso. O que ali se passa é acima de criminoso. 

Mas, a esta hora, sinto necessidade de desligar. Melhor: de deixar o oxigénio e a música entrarem na minha mente. Tenho sorte: sinto necessidade disso e posso satisfazê-la. Não vivo numa cave, num abrigo, sob escombros. Vivo com conforto e posso fazer o que me apetece. Não passam mísseis sobre mim, não tocam as sirenes, não ouço estrondos. 

Apetece-me música. Mas, em situações assim, gosto de fazer ondas. Música, sim, mas em versão hot. Ao passar os olhos pelos jornais, vi um artigo sobre as vestimentas de algumas pianistas clássicas. E fiquei com vontade de ir buscar essas mulheres que ousam e que transportam a sua exuberante carnalidade para as interpretações.

Khatia Buniatishvili, nascida em 1988, é talvez uma das mais conhecidas neste capítulo. Curvilínea e de carnadura generosa, é intensa, sorridente, extremamente sensual. Os seus vestidos são toda uma festa.

Yuja Wang, 35 anos, compete de perto com Khatia. É irreverente, jovial, desfila como uma gata e, por vezes, ao fazê-lo, tão curtas são as saias que a aparição das cuecas (se é que as usa) é daqueles milagres que todos esperam.

Alice Sara Ott, 33 anos, é de um outro género. Nela não é o decote ou a escassez dos vestidos que ajudam a deixar as audiências ao rubro. Nela são sobretudo as expressões. Há nela qualquer coisa de Teresa de Ávila. Parece estar em estado de êxtase e se não foi Nosso Senhor que passou por ali só pode ser que esteja à beira do orgasmo.

Claro que têm mais qualquer coisa em comum: o talento. E a alegria e o prazer de sentir a música a percorrer cada centímetro da sua pele.


Sobre Yuja, uma brincadeira


Mas, para que não se pense que não há em mim gota de recato, permitam, então, que partilhe a Élégie de Massenet. Aqui Alice Sara Ott está contida e não é a única a captar a atenção. As suas companheiras Camille Thomas e Fatma Said dividem com ela o palco e muito bem.


Saúde. Alegria. Paz.

domingo, julho 11, 2021

Um feliz dia de calor entre brincadeiras, sorrisos e monetizações.
E uma breve referência a Azeredo Lopes.
E o testemunho de um improvável optimista

 


Na parte da manhã, fizemos uma grande caminhada. Estava muito calor mas, sempre conversando e bebendo água, não custou nada. Queríamos ver onde era o colégio de que temos ouvido falar. Por nada, mesmo só por curiosidade. Afinal já tínhamos passado lá muito perto e nunca tínhamos entrado naquela rua. Bonito e muito bonitas também as casas lá ao pé. Gosto de casas. Gosto muito de ir passeando e vendo as casas dos outros. Há gostos para tudo e eu gosto de apreciar o gosto dos outros, em especial os jardins. E gosto quando vejo os proprietários a regar, a desbastar arbustos ou a apanhar ervinhas. Há qualquer coisa de muito pessoal nesses momentos. Olho com discrição e algum pudor. Como estou a caminhar, estou de passagem e, por isso, é sempre um olhar fugaz.

O que nos custou foi a espera, na fila, no exterior do supermercado, a seguir. O meu marido tem sempre a ideia de que a hora boa é por volta da hora do almoço mas acho que toda a gente deve pensar o mesmo. Muita gente, muito calor. A temperatura alta,um calor espesso.

O meu marido tinha perguntado: de que é que temos falta? Eu tinha dito: pouca coisa, salada, coisas para a sopa.

Contudo, o meu ex-lado consumista reaparece quando vejo as oportunidades da semana. Tenho que me forçar a responder à sacrossanta pergunta: preciso disto? Sempre que hesito ou que tento resvalar para uma resposta dúbia, forço-me a mão dura sobre mim própria. Mas, se penso que os meninos vão gostar, aí a minha razão amolece. 

Resultado: entre o que faz mesmo falta, o que vai dar jeito e aquilo de que as crianças devem gostar, viemos carregados. 

A seguir fiz almoço, arrumámos as coisas e, quando almoçámos, já eram para aí uma duas e meia.

Com a canseira pré-almoço e com o almoço que foi cabeça de pescada com batata, brócolos, feijão-verde, cenoura, batata doce e normal, cebola e ovo, a seguir deu-nos uma valente pancada.

Deitámo-nos sobre a cama e, tiro e queda, adormecemos.

Quando a minha filha chegou com os miúdos estávamos naquela boa e santa sesta das tardes de verão. O estore corrido mas a deixar entrar luz, os vidros abertos, os pássaros a cantarem. Um sono solto e descansado.

Fomos para o jardim. O calor estava quase opressivo mas à sombra estava-se bem.

Os miúdos brincaram com pistolas de água, molharam-se, jogaram à bola, lancharam, perseguiram-se, mangueiraram-se. Nós, à sombra, descansando, conversando, preguiçando.

Depois o mais novo andou a cortar a relva com o avô. E eu disse que estava a pensar numa coisa para quando o blog chegar aos cinco milhões e que gostava de contar com o apoio do mais velho. E aí o seu lado empreendedor, geneticamente igual ao do tio homónimo, começou a tintilar. Eu com uma ideia simples e ele já a falar-me em 'monetizar' o blog, já a querer que eu insira publicidade, já a mostrar-me o que ganham influencers de renome. E já era um canal de vídeo e o blog, tudo a ganhar dinheiro a valer. Sugeriu que eu o deixe gerir o tema e lhe pague 5% do que eu ganhar. 

Disse-lhe que não quero que o blog me sirva para ganhar dinheiro, que é apenas para eu escrever umas larachas, mas ele, num entusiasmo, tentava aliciar-me, que há modalidades distintas de inserir publicidade, que há algumas que são inócuas, pouco invasivas. E já me falava também em merchandising. E eu a querer que ele se focasse no meu pedidozinho simples, uma coisinha inocente só para marcar os cinco milhões e ele que sim, está bem, mas, ó Tá, quando é que podemos pensar em começar a monetizar o blog?

Chegámos a um compromisso. Quando me reformar, faço um blog de jardinagem, culinária, decoração. [A minha filha diz-me: lifestyle]. E, nessa altura, então pode ser. Tratas do assunto, monetizas o que quiseres. Fazes vídeos, editas vídeos, tratas da publicidade. 

Ficou entusiasmado. Passado um bocado, foi o mais novo: se quiseres, posso ser o teu assistente pessoal. Achei bem. Acrescentou: um euro à hora.

E contou-me que tem já uma boa quantia no mealheiro. Eu disse: boa, assim podes ser tu a comprar o que quiseres. Respondeu: Não, é uma poupança para o futuro que é o melhor que posso fazer. Fiquei admirada e dei-lhe razão.

Estivemos cá fora, no jardim, até perto das nove. Estava-se muito bem. Quando estavam a ter o segundo lanche, apareceu uma abelha que desestabilizou um bocado. Toda a gente a fugir, eu a tentar afastá-la e ela, gulosa, só a querer ver o que podia ciscar. Tenho que ver se há maneira de afastar abelhas ou moscas quando estamos a comer. Deve haver. Não há tomadas ali pelo que terá que ser qualquer coisa que funcione por si. 

E, pronto, foi isto. Na televisão, por todo o lado, Vieira, Vieira, Vieira. Não há pachorra. Parece que o país foi sugado por este tema. Parece não haver mais nada que interesse. Nada no Vieira me interessa, nunca me interessou. Todo este carnaval me enfada. Investigam durante anos, fazem dossiers enormes que levam anos a ler, há fugas de informação para tudo o que é canto e esquina, depois virão recursos e contra-recursos, anos e anos, a vida das pessoas em suspenso durante anos e anos e anos. Uma pouca  vergonha. Não há pachorra. Haver corrupção e compadrio é um problema em Portugal, haver muita gente que só acorda e só pensa nas coisas que lhes põem debaixo do nariz é outro problema, e termos uma Justiça relapsa, prepotente, burocrática, lenta, ineficiente, que despreza os direitos e a dignidade das pessoas é capaz de ser um problema ainda maior.

Não sei se alguns dos canalhas que, antes, difamaram e andaram a pedir a demissão do ministro Azeredo Lopes e que enchiam a boca e inundavam as televisões com inflamadas acusações a um homem que nitidamente é um homem honrado, vieram agora fazer o mea culpa por terem humilhado aquele de quem agora os mesmos que o acusaram vieram pedir a ilibação. Não sei pois pouca televisão tenho visto. Às vezes penso que sempre que está para sair uma notícia que envergonha o Ministério Público, os artistas do dito Ministério Público, se saem com uma cena que nitidamente vai anular o impacto da barracada. Acredito que, se não tivesse arrancado o Cartão Vermelho, alguém teria tempo para pensar e se arrependesse do mal feito a Azeredo Lopes. Assim, acredito que a malta se marimbou pois já nem se lembram desse 'caso'. A comunicação social e as redes sociais são um antro de maledicência e falta de carácter. Destroem o bom nome de uma pessoa por dá cá esta palha, na maior das ligeirezas, seguem em frente, sempre a ver de quem podem dizer mal a seguir.

Mas, enfim, nada a fazer. Vou antes ver se vou espreitar o que há para ver na Netflix. O meu filho instalou isto e ainda não fui desbravar. O meu marido já se foi deitar há um bom bocado. Levantar-se-á quando eu ainda estiver no meu primeiro sono. Hoje, quando me levantei, já ele tinha ido e vindo do seu desporto matinal (muito matinal), já tinha pintado uma mesa, um suporte de vaso, já tinha andado a aparar a sebe e mais não sei o quê. 

Os opostos dão-se sempre bem: uma noctívaga e um diurno. Há sempre um desfasamento horário entre nós. E funciona bem assim. Por vezes pode parecer que não... mas os números falam por si: mais de dois terços da nossa vida foram vividos em conjunto. Um eterno desafio.

_________________________________________

Já agora, deixem que partilhe convosco um vídeo que gostei de ver

Um indefectível optimista


________________________________

Desejo-vos um feliz dia de domingo

segunda-feira, setembro 21, 2020

Uma mulher poderosa encanta-me no dobrar de mais um dia em que tentei (mas não consegui) esfolar um rabo que está pendente e que não se compadece com as minhas beautiful flowers

 




Tenho cada vez mais para mim que se todos nós, colectivamente, fizermos um esforço para não perdermos tempo com tretas como as lágrimas do populista-achegado ou com outros pseudo-eventos ou com outras pseudo-pessoas-importantes mais depressa essa gentinha perderia protagonismo e melhor saúde mental todos teríamos. 

Cheguei aqui, agora, e todas as notícias internas me parecem treta. Pura treta. Não estou nem aí.

Mas, reconheço, também pode ser porque dias como o de hoje me deixam a deitar por fora.


Apesar de não ser nada de novo ou interessante, conto porque é que o meu dia me foi tão sobrecarregado: as idas à outra casa (eu para separar roupas para dar, outras para o lixo, outras para trazer, o meu marido com selecção de papeladas, projectos de arquitectura transactos, dossiers e dossiers de trabalhos em versões anteriores à definitiva, coisas assim) esgotam-me. Horas. Sacos e sacos e sacos. O meu marido também exausto. Tudo o que é trabalho pesado sobra para ele: carrega com sacalhões pesadíssimos, uns para os contentores da rua, outros para o carro. 

Mas, enfim, pelo menos já trouxe os meus casacos de malha, os meus blasers, as minhas calças. É que a prioridade tinham sido louças, coisas de cozinha, livros, bibelots, candeeiros, móveis essenciais. De roupa tinha trazido sobretudo a de verão, que era o que fazia falta. Mas o outono já aí está e eu já andava sem saber bem o que vestir. Mesmo aqui em casa, quando anoitece e esfria, eu olhava para o guarda-roupa sem saber bem a que deitar mão. E esta semana tenho compromissos presenciais que me exigem que as minhas toilettes anteriores saiam à cena. 

E depois há alguns fatos completos de que, embora já me estejam à justa, não quero desistir assim tão facilmente. Aquele elegantésimo e superlativo fato Armani que foi presente do meu marido, que conseguiu acertar com o meu tamanho e que, ousando à grande, sem que eu tivesse minimamente suspeitado de tal ousadia, conseguiu que me assentasse como uma luva -- esse tive que trazer, claro. Ou aqueloutro que comprei em Madrid depois de ter percorrido os costureiros da Serrano e de me ter posto nas mãos de uma bicha fantastique que adivinhava todos os meus gostos -- que conjunto mais lindo, aquele - quando fui a um casamento de sonho em Seteais, esse também teve que vir. Peças assim, intemporais. Não gosto de coisas tchanan...!, gaiteiras, espaventosas, datadas. Prefiro peças que não passam de moda. Ou seja, dessas, apesar de já me caberem à justa, não ia desfazer-me. E quem sabe, um dia destes, alguma das meninas da família não precisa de alguma destas fatiotas para uma ocasião especial?

No fim, quando já não aguentávamos mais -- cansados, desidratados, saturados -- e enquanto o meu marido andava abaixo e acima, ainda varri, passei com a esfregona, garanti que as casas de banho estavam impecáveis, que as luzes estavam apagadas. Fechei a porta e vim. Aquela casa, que era a minha casa de sonho até há pouco tempo, agora já pouco me diz. Quando viro as costas e fecho a porta, o que fica para trás é passado. Apesar de gostar de visitar as minhas memórias, a verdade é que parece que sou toda feita de futuro.

Como já era tarde, encomendámos uma pizza e, a caminho da casa nova, fomos buscá-la, a pizzaria já a fechar. 

Depois foi aquela frustração: o hall e o corredor da casa nova uma vez mais atafulhados de sacos, mais coisas para arrumar, eu já sem saber como distribuir as coisas. Na cozinha, algumas peças sem caberem onde faria mais sentido e, claro, a impaciência a ir ganhando terreno. Cansaço e fome à mistura é do pior que há.

Enquanto a pizza foi apanhar um aperto no forno, nós fomos tomar banho. E, com isto tudo, acabámos a almoçar às cinco da tarde. 

Não vejo a hora de esvaziar os armários todos, de trazer tudo e deixar a outra casa finalmente vazia para poder usufruir de tempos livres sem ter a necessidade de os anular, sempre a tratar de tudo o que há sempre para tratar. Até porque, quando for vendida, não pode lá ficar nada. O meu filho que, quando saíu de casa, não tece paciência para levar nada nem escolher o que era de guardar ou deitar fora, continua sem paciência para se atirar a isso. Dossiers da faculdade, livros, coisas de computador, sei lá o que para lá ainda há. Hoje, ao abrir gavetas do quarto da minha filha, dei com roupa interior dela. Não a deitou fora e eu não gosto de deitar fora coisas que não são minhas. Hoje aproveitei algumas peças. O resto, que estava ainda em bom estado, pus num saco também para dar. 

Na verdade a casa parece quase vazia mas, na verdade também, ainda com coisas que não acabam.

Bem.

Ah, e fiz o jantar em dose XL para dar para o almoço também de amanhã. 

E, finalmente, quando o sol estava de fugida, ainda fui para a espreguiçadeira ler mais um pouco. Uma bênção. Uma meia hora de descanso e bem-aventurança. 

Depois fiz telefonemas enquanto passeava para trás e para a frente no jardim, fotografando as flores que me trazem apaixonada. Tão lindas, tão perfeitas. Divindades silenciosas.

Mas tudo o que é bom não pode ser em grandes doses pelo que, de seguida, tive que entrar em casa para passar a ferro e sei lá mais o quê.

Portanto, como é óbvio, com este programa de festas, não quero cá saber de minudências e banalidades. E, assim sendo, para aqui tenho estado a ouvir música. Música poderosa, intérpretes poderosos. Em especial uma mulher poderosa. Poderosa em todos os sentidos. A destemida Yuja Wang mostra como se atira a tudo com uma energia que contagia. Mulheres poderosas e, ainda por elegantes e femininas, são uma graça. E um perigo.


___________________________________________________

E nada mais a declarar. 

Quando voltei ao jardim já a noite vinha descendo. Lá em cima, entre o piar discreto das aves nocturnas, uma nesga de lua. Fotografei-a. Ainda não tinha reparado na lua desde que aqui vivo. Gostei. É uma boa companhia, boa como todas as companhias que são cheias de subtilezas.


Desejo-vos uma boa semana, com muitos momentos bons, com boas notícias. 
E que a saúde e a boa sorte vos acompanhem.

segunda-feira, julho 13, 2020

Da paixão ao êxtase: três mulheres pianistas.
E uma forte determinação neste dia em que começa o resto da minha vida.



Já contei, não contei? Uma vez escrevi um livro. Duzentas e tal páginas, se bem me lembro. Depois estragou-se o computador. Mas não fez mal, aquilo estava numa disquette. Depois mudou-se o programa em que aquilo tinha sido escrito. Depois perdi a disquette. E, portanto, perdi o livro. Tenho uma certa curiosidade. Pena, não. O que lá vai, lá vai. Não quero manter vivo o passado. Mas tenho curiosidade: como é que eu escrevia, quando escrevia? Melhor: quando me entretinha a escrevinhar. 

Agora de uma coisa eu me lembro: ele era um pianista. Ela... ela já não me lembro. Se calhar era eu. Ou a fingir que era eu. Já não faço ideia. 

A ideia de um pianista intriga-me, fascina-me. Há a inspiração, a procura pelo virtuosismo, pela compreensão e interpretação da obra, a persistência, a solidão, o prazer da leveza conquistada. Tenho ideia que muito do livro assentava nisso. Lembro-me de estar a escrever noite adentro e quase sentir a dança dos dedos do pianista sobre as teclas. Lembro-me do local em que ele ensaiava. Parecia que o via e que via o pianista lá dentro. O prazer que eu sentia ao escrever, disso lembro-me.


No meu imaginário, os pianistas são homens. Não me importava de escrever outra história em que entrasse um pianista. Não sei porquê não sinto vontade de me aventurar pela personalidade de uma pianista mulher. 

E, no entanto, na actualidade, há mulheres que se destacam: são vulcões, são máquinas, são bombas, são aviões. Vê-se-lhes paixão e entrega quando se sentam ao piano. Não sou entendida pelo que não me afoito a dizer se são boas pianistas, se são exibicionistas, se são pianistas-populistas, se são simplesmente fantásticas. Nestas coisas mais complexas o máximo que consigo é dizer se gosto ou se não gosto. Diz o vídeo que aqui partilho que estas aqui abaixo são hot e, vendo as imagens, talvez seja verdade, talvez sejam mesmo as mais hot da actualidade. O corpo delas, a vibração que as percorre, as expressões faciais - tudo é extraordinário

[Será que, vendo bem as coisas, uma mulher assim daria uma boa personagem de um livro?]


__________________________________

Ah, o meu dia? Bom. Passeio junto à praia, o mar bonito, lanche em família baseado em pastéis de nata e gelados, a alegria da boa companhia e dos verdadeiros afectos, telefonemas de amigos de longa data, conversas postas em dia, depois passeio no campo, com vagar e prazer, fotografias, estas que aqui têm, seguido de descanso ao ar livre antes da noite cair, quando as cigarras se aquietaram. Foi, pois, um dia sereno que nada conseguiu poluir. 
Quando se tem a consciência em paz, quando se tem a convicção de que se faz é o que pensamos ser certo, quando o nosso coração e a nossa cabeça andam de mãos dadas, mesmo que enfrentemos incompreensões e cegueiras nada abalará a nossa convicção e tranquilidade. 

Não sou dada a balanços, mas sou dada a determinações. De vez em quando há uma força que vem não sei de onde que me leva a tomar decisões que me levam, inabalavelmente, para outros caminhos ou a tomar irrevogavelmente certas decisões. Já lá vai o tempo em que, por tibieza ou por acreditar que há coisas que se compõem com o tempo, eu aceitava conviver com situações que não me agradavam. Fazia fretes, fazia de conta que estava tudo bem, temia ferir susceptibilidades, temia enfrentar situações desconfortáveis, consumia-me por dentro. Agora já não. A vida é curta e nós vamos vendo como ela se vai encurtando. Não podemos desperdiçá-la com o que não interessa.


Talvez esteja a atingir aquele fantástico patamar em que impera a mais absoluta franqueza. Com a sabedoria que têm, com a impaciência de quem sabe que a vida não vai durar para sempre, os velhos dizem o que pensam. Sempre admirei isso. Na volta é lá que estou quase a chegar. E, no dia de hoje e para os que se seguirão, foi esse o propósito que me animou. Lutar pelo que penso ser o melhor para mim e, sobretudo, sobretudo, para os que amo. E seguir. Por um caminho que, a cada dia, se vai encurtando, vou em frente. Chegará o dia em que talvez faça, então, o balanço final mas, se me der para isso, espero que a conclusão seja qualquer coisa como isto: 
A companhia está boa, 'tá-se bem mas está na hora de ir pregar para outra freguesia. Fui.
Tirando isso, o que tenho a dizer é que -- alegria!, alegria! -- tenho um livro novo e estou cheia de vontade de o desbravar. E o tempo vai quente, so, so hot, apetece a gente mergulhar na noite, ir em busca da frescura que vem da terra, procurar o abrigo das grutas e a companhia dos bichos, dos bichos que adivinho serem brothers in nature. 

Tá-se, minha gente. Tá-se.


Uma boa semana. Sejam felizes.

segunda-feira, julho 09, 2018

Não querer saber de pântanos.
Preferir o mar, as flores, a música, o sol.







Tenho cá para mim que a democracia ideal é a que se vive em paz e liberdade, em que a defesa de ideias diferentes se faz com tranquilidade, sem o estigma de que a procura de consenso é prática malsã, em que se aceita que é preciso saber esperar pelo tempo certo para que as ideias de uns se provem e a dos outros se exponham para que, no tempo certo, quem deve escolher o faça em consciência.

Depois de décadas de falta de liberdade, de atraso e de provincianismo, veio a reviravolta, veio a longa madrugada pela qual todos esperavam. E, a seguir, vieram os excessos, os ajustes de contas, e, aos poucos, o gradual caminho pelos novos caminhos da democracia e da liberdade. Leva tempo essa aprendizagem. A cada tropeço, vêm os receios de ressurgimento de erros passados, vem a tentação de provocar diferentos agudos, a apetência por crises, quase como se quem não quer roturas e dramas fosse inimigo do bem do país.

É um caminho que leva tempo.

Talvez daqui por mais anos saibamos concentrar a nossa energia não na questiúncula fútil, nos falsos problemas, nas invejas e tricas bairristas que apenas nos fazem marcar passo mas no que verdadeiramente interessa. 

Em vez de andarmos sistematicamente a fomentar clivagens, presos a falsas questões que nada acrescentam, empolando problemas e forçando resoluções precipitadas, melhor faríamos se olhássemos para o futuro e para o que de bom temos hoje.

Somos perecíveis mas, no entanto, agimos como se fossemos eternos e como se todos fossemos juízes e polícias, moralistas e evangelistas -- e imperecíveis.  

Se olhássemos para o muito que há para descobrir na ciência, na tecnologia, no conhecimento em geral, se nos deleitássemos com a beleza que nos rodeia, se soubéssemos ter os olhos abertos para a arte, se conseguíssemos ser generosos, tolerantes e curiosos, talvez não andássemos a toda a hora a inventar crises, a ver pântanos onde apenas há acalmia, a imaginar tempestades onde apenas há aragens.

Vociferamos contra tudo e contra nada como se fossemos os melhores de todos e não percebemos que, ao andarmos apenas presos às insignificâncias que nos põem à frente do nariz, andamos, na verdade, cegos. Põem-nos palas ou véus nos olhos - e aceitamos. Não queremos ver o que de bom existe no mundo porque parece que apenas nos comprazemos a olhar as nossas próprias limitações.

Não gosto disso. Não contem comigo para isso.

Podem a melancolia ou a nostalgia serem literariamente mais interessantes ou o criticismo militante e o tom militantemente censório serem mais politicamente apelativos. Estou-me nas tintas. Digo o que penso. Critico quando acho que alguma coisa é digna de registo, passo à frente do que me parece fútil. Também muitas vezes não comento o que é humanamente dramático porque acho que há temas que merecem recato ou grandeza de alma na forma como se expressam e temo não estar á altura.

Mas, de forma geral, prefiro mesmo olhar para o que é bom ou que abre caminho a uma vida melhor.

É que tento sempre lembrar-me de que a vida é breve. E irrepetível.


quarta-feira, abril 05, 2017

Receita boa, saudável e económica para preguiçosos que não têm paciência senão para fazer torradas, coisa que é incompleta, monótona e que, ainda por cima, engorda





No outro dia falaram-me que se podem fazer refeições equilibradas, agradáveis, baratas, que alimentam sem engordarem, que se fica bem durante horas. Coisas simples. As chamadas receitas de caneca feitas no micro-ondas. Boas, por exemplo, para um pequeno-almoço ou para um jantar leve, depois de uma sopa, por exemplo.


Então, pensando nessa conversa, cheguei a casa com uma em mente. Fui direitinha à cozinha (isto depois de me descalçar, tirar colar, relógio, aliança e anel e, claro está, lavar as mãos) e fiz assim:

. Uma maça grandalhona, bem lavada, 2 minutos num prato de ir ao micro-ondas.

. Quando apitou, tirei-a de lá, já a tender para a maçã assada, abri-a ao meio para ter tirar os pequenos caroços, coloquei as duas metades com casca e tudo num copo misturador, juntei 2 ovos crus (obviously sem casca), talvez o equivalente a 1 colher de sopa de flocos de aveia e um bocado de leite magro (talvez um meio copo). Tudo a olho pelo que agora não sei dizer bem as quantidades. Com a varinha mágica misturei tudo bem.

. Coloquei a mistura, líquida, numa tigela de sopa de ir ao micro-ondas. Para aí uns 2 minutos ou 2' 20'', não sei bem, a olho.

. Retirei. Tinha solidificado e até podia ter desenformado.

. Se estivesse gulosa, teria colocado um bocado de chocolate preto em cima que, como aquilo estava quente, teria derretido. Ou podia ter posto um pouco de mel. Mas não estava gulosa, não pus nada.

. Coloquei apenas a tigela em água fria para arrefecer.

Digo-vos: gostei. Comi a seguir a uma sopa e a uma salada. Comi metade da tigelada.


O meu marido provou e disse que estava uma c-----. Mas comeu aquilo depois de ter jantado, já sem fome, e devia ir à espera de uma sobremesa doce. De qualquer maneira, até é um bocado doce já que a maçã assada lhe dá um toque doce. 

Mas ele é ele e eu sou eu. Eu gostei e recomendo. Mil vezes melhor, sob todos os pontos de vista, do que comer torradas ou coisa do género.

Hei-de fazer variantes com pera em vez de maçã, ou juntar amêndoa ou noz picadas. Ou, no fim, juntar uma lasca de queijo de cabra e talvez regar com mel e com um fio de vinho do Porto. Mas isto sou eu já danadinha para me pôr a improvisar, fazendo variações sobre o tema.

____________


______________

As ilustrações são de Robert McGinnis.
Uma jovem de nome Tiffany interpreta Hallelujah cantando para um poço. 

Encerra Yuja Wang

(E, se calhar, nada disto tem a ver com a receita mas, ora bolas, alguém esperaria que tivesse?)

___________