Mostrar mensagens com a etiqueta Alexander Roslin. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alexander Roslin. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, agosto 19, 2022

6 hábitos sedutores que deixam os outros doidos

 


Quando fiz 17 anos e fui para a universidade, meti na cabeça que não podia continuar em casa. Ao contrário de todos os meus colegas, a mim pareceu-me imprescindível emancipar-me. A rua onde morávamos, em que toda a gente se conhecia, era ambiente claustrofóbico demais para mim. As regras que os meus pais me impunham eram um sacrifício que eu também já não conseguia suportar.

Os meus pais não entendiam que eu, de repente, precisasse de estar ao lado da faculdade e que quase fizesse depender disso o meu sucesso escolar. Não lhes parecia razoável isso. Sobretudo, conhecendo a peça, temiam que eu andasse demasiado à solta, em especial tendo eu um namorado que era perdido por mim. Provavelmente, temiam que eu me perdesse. Foi uma luta, árdua, cheia de cenas gagas, mas consegui. Depois de ir conversar com uma das minhas professoras e de ficar convencida de que o lugar para onde ia era uma casa de estudo e respeito a minha mãe conferenciou com o meu pai e lá fui.

Detestei. Ao contrário do que eu imaginava e precisava, aquilo tinha muitas regras. Pior: as minhas companheiras eram obedientes. Ninguém protestava ou subvertia. Felizmente durou pouco. Mas, enquanto lá estive, tive que me submeter a alguns rituais. Um deles era o julgamento das caloiras. Toda a gente estava sentada no chão e, num dos cantos da sala, uma secretária em que estavam duas veteranas e a directora da residência.

Depois de um interrogatório duro e intimidante, havia as penas. Umas tinham que cantar, outras tinham que fazer habilidades que lhes fossem conhecidas, coisas assim.

A mim o que calhou foi dar uma aula de sedução pois fui acusada de ter demasiados pretendentes. 

Não sei porquê pois, se fosse um ou dois anos depois, poderiam apontar-me o namorar dois ao mesmo tempo ou ter alguns outros em volta de mim. Mas naquela altura eu queixava-me era da penúria de homens interessantes. No meu curso era tudo gente marrona e esquisita. Para passeatas, idas ao cinema ou tertúlias, via-me aflita para arranjar companhia. Por isso, não sei onde foram buscar aquilo. Não me lembro bem do que disse, só me lembro de ter sido apanhada de surpresa e de ter tido que falar de improviso sobre matéria que, para mim, era mais de intuição do que se razão. Mas lembro-me de estar de pé a falar para uma sala cheia de raparigas sentadas no chão que me ouviam com muita atenção.

Na altura, também tinha pouca experiência nessas coisas mas lembro-me de que, por vezes, constatava a tremenda falta de jeito que algumas das minhas amigas tinham. Dava-me muito com uma que era uma simpatia, éramos muito amigas. Nunca tinha namorado, ela. Tinha muitos amigos, volta e meia apaixonava-se perdidamente mas nunca conseguia que a coisa se desse. Eu fazia de tudo para ajudar, armava-me em casamenteira. Ela esforçava-se mas havia alguma coisa na sua forma de actuar que não funcionava. Depois, quando ela desconsoladamente se lamuriava, eu enumerava as coisas que ela fazia que não eram cativantes. Sobretudo lembro-me de achar que ela era pouco subtil, penso que a excessiva simpatia e a franqueza bem como a forma algo primária como se expunha eliminavam o charme que, creio, são fundamentais nestes negócios da sedução. E era desprovida de malícia. E, quando eu lhe falava nisso e ela queria corrigir, colocando alguma malícia na conversa, a coisa saía-lhe desprovida de graça, sem aquele toque de subentendido que apimenta a imaginação. 

Havia uma outra que andava caidinha por um colega e que se arranjava para lhe agradar. Achava que era por aí. Quando sabia que dava para almoçarem juntos na cantina, caprichava na toilette. Mas arranjava-se de uma forma cafona, quase parecia uma matrona presumida, uma coisa forçada que não tinha a ver com ela nem com nada. Tentava despenteá-la, desabotoá-la, mas as minhas tentativas não resultavam, era velha antes de tempo. Uma vez consegui arrastá-la até aos Porfírios para ver se lhe dava um banho de ligeireza e de novos tempos. Debalde. Não quis nada, tudo aquilo lhe parecia de má qualidade. Tanta coisa que lá comprei e nunca me ocorreu analisar a qualidade do tecido ou a perfeição da confecção. Pois ela, queixando-se da luz e da música, pôs-se a dissecar as roupas, desdenhando de tudo. 

Há coisas que nascem com a gente. Mas há outras que se aprendem, há outras que se experimentam, outras que se praticam. 

O tema interessa-me. A sedução é das coisas boas desta vida. É desafio, é conquista, é chamego, é doçura, é coisa boa.

__________________________________________________

6 Sexy Habits To Drive Someone Wild

Have you ever wondered which little habits or behaviors you could implement to attract people your way? There are some subtle behaviors that are often seen as sexy, some of which, you can make a habit of. You may be wondering what these are. Well, here are a few sexy habits that drive others wild with attraction.


______________________________________________________________________

Pinturas respectivamente de Alexander Roslin, Palma Vecchio, Pedro Américo, Guido Reni e Antonio Xavier Trindate na companhia de Chris Isaak que, como não podia deixar de ser, interpreta Can´t Help Falling In Love
__________________________________________

Desejo-vos um dia à maneira
Saúde. Sedução. Brincadeiras a condizer. Paz.

quinta-feira, abril 23, 2020

Carta de amor





Todas as cartas de amor são ridículas? Talvez para quem está de fora. Talvez também para quem está dentro e não queira ver.

         Ofelinha, amorzinho. 

         Bombonzinho. Passarinho. 

Conversinhas pirosas, nicknames que não lembram ao careca, réplicas apatetadas, criancices absurdas. 

Não gosto de ler cartas de amor alheias. Parece-me devassa. Sinto-me a entrar em território estrangeiro, lugar em que apenas os amorosos se sentem em casa, conhecedores de uma língua própria. Não gosto.

Apenas suporto quando a coisa tem um toque de drama ou de graça, de encenação, quando vira teatro ou prosa declamada, quando é outra forma de ser poesia, quando ganha vida própria, eterna, longe da vida demasiado humana que lhes esteve na génese.

Cartas de amor, declaração de amor, confissão sofrida de um amor nunca antes visto, desabafo insensato, coisa assim isso também já não me vejo a escrever. Parece que ganhei aquela dose de vida que já só se compadece com cara a cara.
Talvez agora pudesse ser por videocoisa. Mas a videocoisa já é igual a olho no olho. Tempos novos requerem abertura a novas coisas.
Mas, quero eu dizer, que neste momento já apenas me vejo a verbalizar sentimentos a valer. Escrever: amor do meu coração, não sei viver sem ti, és a minha paixão, a minha razão de viver, coisas assim já não me parece que façam sentido que sejam traduzidas em escrita. Em escrita só se for mais subliminar, mais metafórico, mais virado do avesso, mais como se fosse outra coisa, mais disfarçado de indiferença, de quero lá eu saber.

Mesmo dito não me dá jeito dizer: amo-te. Só se for em momento de brincadeira. Amo-te é muita sílaba muda. Momento a sério não requer tradução em palavra gasta. Muito menos pergunto: amas-me? Não soa bem. Os lábios nem descolam. A-mas-me. É palavra pasmada, sem graça, sem vida. Não corresponde ao que é suposto. Não uso.

E a mesma coisa com receber carta de amor. Se aquele que o meu coração ama me escrevesse uma carta, mail que fosse, com uma conversinha deste género, amada minha, coração da minha alma, o que seria eu sem ti? alimento-me do teu amor, diz que também vives e dormes a pensar em mim, diz que sou o teu amorzinho, diz, minha eterna gatinha, diz, miau, eu ia deitar fora e dizer o tipo é mas é maluco, foge. 

Para mim, carta de amor para tocar o meu coração tinha que vir envolta em coisa rara, em loucura, em desvario, em coisa acima de tudo, em inteligência rara, em requinte intemporal, temperada com apontamentos de ternura, de entrega, de rendição. E tinha que vir escrita de uma maneira que me deixasse louca de espanto. E não deveria ter a palavra amor. Isso eu é que teria que adivinhar. Ora isso talvez já não haja. Portanto, tiro daí a ideia.


Mas, neste canal, eu gosto de ouvir ler carta de amor. Lá está: não sei quem são as pessoas. Poderiam não ter existido ou ser coisa de escritor e sua musa. Poderia ser tudo inventado. Virtual. Um amor virtual mas vintage.

Não conheço Edith Bowman, muito menos sei quem foram os seus avós. Mas gosto de a ver na sua casa a ler uma carta do avô para a avó. Se calhar é porque é dita em inglês e me soa a coisa de novela da BBC, coisa, também ela, vintage e de bom gosto.


__________________________________________________________

E a carta que aqui vinha partilhar era outra, a de uma pessoa muito triste. Mas de repente pensei que pessoa alegre se calhar não quer ver coisa triste e pessoa triste se calhar também não. Por isso, à última hora desisti. Fiz a agulha. Mas não sei. A gente sabe lá como tocar o coração dos outros. Se calhar a gente toca mesmo sem querer e sem dar por isso ou, outras vezes, quer lá chegar e fica é à porta. Ou ao portão, com os cães a ladrar. Sabemos lá. Eu, pelo menos, não sei.

Sei é que tive um dia excessivamente longo e, até passar da uma da manhã, estava a pensar que não vinha aqui escrever nada. Estava sem nada que dizer. Cansada. E estava à espera de um mail que não chegou. Não seria de amor, seria um mail diferente. E continuo à espera que chegue.

_______________________________________________________________

As pinturas são de Alexander Roslin e parecem-me que fazem um bom pendant com a Love Letter que Nick Cave canta. 
Mas isso, claro, é subjectivo. E tudo o mais também.
______________________________________________________________

Uma boa quinta-feira. 
Saúde. E força.

sexta-feira, dezembro 29, 2017

Quando uma mulher ama um homem





É um facto. Nisto da igualdade dos géneros convém não generalizar. Uma coisa é o direito à igualdade de oportunidades e outra, muito diferente, é fazer tábua rasa das diferenças evidentes entre homem e mulher. E nem estou a referir-me ao óbvio. Isso cada um sabe de si. As mulheres têm maminhas e os homens não? Bem. Não é sempre verdade. Há mulheres que não las têm e há homens que deviam usar under bra. Assim como pode haver homens que têm pirilau mas não o usam e mulheres que não o têm e munem-se de um. Portanto, adiante que nisto de minudências há excepções para todos os gostos e não pretendo aventurar-me por aí.

Refiro-me aqui apenas a coisas muito mais simples: à maneira de ser tipicamente feminina e à maneira de ser muito macho man.


Claro que também aqui poderia embrenhar-me pelas variantes e excepções: homens sensíveis e fofos e mulheres todas duronas e marialvas -- que pode não ser politicamente correcto falar assim deles e delas pero que los hay, los hay.
Exemplifico. Ontem estava atolada no meio do trânsito. Não mexia. E eu sossegadinha a ouvir música. Nisto, o carro da frente andou dois palmos e eu, em piloto automático, avancei o mesmo. E, nessa altura, ouvi ao meu lado uma barulheira de música aos berros e uma flausona, cara de rapper, cabelo curto platinado, toda machona, a gritar na minha direcção: 'Ó madama, és muita mázona. Atão não me queres deixar meter, ó madama? Já tou cheia de medo de ti!'. Eu atónita, tentando perceber a razão de tal desconchavo. Percebi que a dita vinha de lado e que estava a querer meter-se à minha frente. Tinha um carro pequeno, janela aberta e o braço de fora, a gesticular, e a boca escancarada a berrar sobre uma música igualmente escancarada. Ri-me e fiz-lhe sinal para se meter à vontade. Continuou: 'Tens a mania que és boa, ó madama!'. Quando o carro da frente andou mais meio metro, voltei a fazer-lhe sinal, convidando-a a enfiar-se à má fila à minha frente. Com cara de vingadora, não quis. Passado um bocado, ouvi-a a pôr o motor a fazer aceleradelas e a tentar fazer outra chicuelina a outro pacífico condutor. Aquela, notoriamente tinha a testosterona a fervilhar.
Mas eu estava era a referir-me à maneira que as mulheres (as mulheres em geral, dentro da média) têm de gostar dos homens. É uma maneira cheia de subtilezas. As mulheres gostam de ser adivinhadas, convencidas, surpreendidas. Não gostam de ter que ser explícitas. Quando uma mulher tem que ser explícita para o homem a perceber, aí desinteressa-se dele. É um totó, um destituído. No entanto, também não se aguenta um homem melga ou armado em engraçadinho, sempre a querer fazer surpresas bobinhas ou a dizer piadas secas.

Mais: o homem tem que ser uma boa ajuda em casa, claro que sim!, mas também não pode ser mais arrumadinho que a madrinha rezingona que não suporta um grão de pó no móvel ou que vai aos arames com uma toalha torta no toalheiro. E não deve ser um copinho de leite, que essas mariazinhas são de se fugir delas a sete pés, tal como não deve ser um copofónico que isso, credo, é de terror.  Deve, sim, saber apreciar um bom vinho, tal como deve saber pegar no copo e deve saber ser didáctico a propósito do tema mas só até ao ponto em que não pareça ser um deslumbrado ou um petulante a precisar de uma belinha.

E tem que gostar de ler mas não ser um maçador cheio de citações. Homem que só fala de livros ou que só sabe falar de música, tal como se só souber falar de futebol, é para esquecer. Pode suportar-se durante um hiato mas ponham hiato nisso. Logo, logo receberá ordem de marcha. Homens mono-interesses são uma seca de primeira. Interessezinhos diversificados, tudo bem temperado de erudição, humor e desconstrução, isso sim.

E quem diz isto, diz muito mais que isto.

Por exemplo. Só se for perfeito sem parecer perfeito, ou elegante sem ser uma maria dondoca, e empático sem ser uma amélia lamechas é que a mulher poderá dar-lhe a hipótese de ser escolhido.

E etc, etc, etc.

E ponham mesmo muitos etcs nisso que a lista de to dos e not to dos é extensa. Eu é não pretendo ser exaustiva.

Mas uma coisa tem que ficar clara: quem escolhe é a mulher mesmo que possa parecer que não. E deve ser como e quando ela quiser (mesmo que faça de conta que não quer ou que tanto lhe dá). E o homem deve ter plena consciência disso embora deva disfarçar, tentando conquistá-la como se acreditasse que tem um poder que obviamente não tem.

.....................................................................................................

E isto tudo para introduzir um poema que me agrada:

When a woman loves a man de David Lehman


Capisce?

__________________________________________________

Ok, ok, ok.

Eu sei que muitos leitores (homens, sobretudo) não acham graça nenhuma a poesia. Acharão que poesia é coisa para almas sensíveis e eles, qual quê, são empedernidos, mas empedernidos encartados, de papel passado, com um calhau no meio do peito - um calhau palpitante, é certo, mas isso é só porque tem que bombar o sangue -- e nada de palavrinhas nheco-nheco, só palavras que sirvam para andar à traulitada. 

Por isso, esta agora é para eles: um vídeo que devem ouvir com atenção. Ok?

Poema para pessoas compreensivelmente demasiado ocupadas para lerem poesia

de Stephen Dunn


.........................

Enjoy

.................................