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sexta-feira, julho 24, 2026

Ela não dava respostas, ela ficava na pergunta

 

Não sei bem qual o primeiro livro dela que eu li. Sei, isso sim, que me agarrou pelas vísceras. É daquelas coisas que, se eu quiser explicar, não sei bem o que dizer. A ideia que tenho é que ela não contava propriamente uma história, contava o que alguém, ou ela mesma, sentia. Mas sentia a um nível muito elementar. Em geral os escritores falam de eventos especiais, marcantes. Quando muito, numa crónica ou num registo mais diarístico, acontece o autor permitir-se falar de pequenos nadas da sua vidinha, insignificantes impressões. Mas abrir-se um livro, romance ou novela, e uma pessoa sentir aquela sensação estranha de que entrou na cabeça ou no corpo de alguém e que experimenta aquelas dúvidas miúdas que geralmente nunca veem a luz do dia ou aqueles medos ou aflições que nunca se verbalizam, aquela maldade de que se sente vergonha apesar de ser inofensiva, isso é muito estranho. Lembro-me de de avançar de página em página e depois recuar, querer ter a certeza de que tinha lido bem, que aquela escrita existia mesmo da forma como eu estava a assimilar. Uma sensação que era de estranheza, sim, mas, ao mesmo tempo, de grande admiração, uma admiração por algo novo, e, também, de vontade de a ter descoberto há mais tempo. E, reconheço agora, uma vontade de também ser capaz de escavar assim, tão impiedosamente, dentro de mim.

Fui comprando os seus livros. 

Quando o mundo deixou de ser analógico e as pessoas, mesmo as desaparecidas, continuavam vivas nos nossos computadores, comecei a ver como ela era, como era a sua voz, como demonstrava tão cruamente o desinteresse pelas aparências, como não disfarçava o seu cansaço. 

Também morreu cedo de mais.

Alguns dos seus livros, para mim não ser para ler de seguida. Não costumo ler missais mas imagino que abra-se em que página se abrir, está sempre certo, faz sempre sentido. E, se não vier a calhar, abre-se ao acaso noutra página e já vai estar bater certo com o que estamos disponíveis para ler. Assim com algumas das suas coisas. É a escrita pela escrita. Mas isto não significa que seja desprovido de sentido. Significa apenas que é uma escrita que não se encaixa nas escalas a que estamos habituados: é uma escrita multidimensional em que as derivadas e os vectores secindários são tão determinantes quanto os eixos principais e os pontos que por entre eles se deslocam.

Há muitos documentários sobre ela e, às tantas, já não há nada de novo a acrescentar. Mas vou sempre ver. Gosto de ver o seu desapego. Era também assim que escrevia, sem querer saber.

Já aqui o referi antes: nestes tempos de mil solicitações, em que a sua atenção fica cativa dos youtubes, dos influencers, das redes sociais, da omnipresença do futebol, não sei como se instila nos jovens o prazer da leitura. A realidade deles já é quase exclusivamente a das notícias que se descrevem em meia dúzia de palavras, dos vídeos cheios de palavrões, dos jogos e das interacções através das muitas plataformas de partilha de toda a espécie de coisas, sobretudo de lixo. 

Como conseguir que um jovem, mesmo um jovem adulto, pegue num livro dela, tão diferente de tudo, e não desista antes de chegar ao fim da primeira página?

Não sei.

Vou dizer o que disse no outro dia: um dos meus netos fez o 12º. Creio que não leu um único dos livros obrigatórios. Sei que gostou dos Lusíadas, mas não sei se o leu todo. Da maioria dos livros que poderiam sair no exame sei que não leu. Disse que não tinha tempo nem paciência, que precisava do tempo para se concentrar na matemática. E, no entanto, nos testes lectivos teve sempre boas notas. Não lhe disse nada para não o enervar, mas temi pelo exame. Mas ainda bem que não disse pois no exame teve uma nota igualmente alta, nem sei se até um pouco superior à lectiva. Como o conseguiu? Youtube, provavelmente trabalhando em conjunto com a IA na caracterização de personagens ou na descrção do enredo. Não sei ao certo. O que sei é que resultou com o tipo de ensino que temos que, como se vê, não consegue estimular o gosto pela leitura. Em casa cresceu entre livros, sempre testemunhou hábitos de leitura, sempre foi incentivado a ler. E lia. Até que cresceu e começou a ter menos tempo livre e até que foi confrontado com a necessidade de ler livros que não lhe dizem nada. Como é inteligente e facilmente apanha do ar, desenvolveu formas de atingir os objectivos escolares. Mas temo que o prazer de desbravar o infinito mundo da literatura se tenha dissipado, pelo menos para já.

Mas, enfim, o inteligente ministro da educação (letras deliberadamente pequenininhas) há-de também te solução para isto.

O enigma de Clarice

Clarice Lispector não escrevia apenas histórias. Neste vídeo, mergulhamos na vida e na mente de uma das figuras mais enigmáticas da literatura mundial. De sua origem Ucraniana ao auge no Brasil, entenda como Clarice transformou a literatura. Se você já se sentiu um "estrangeiro" no próprio mundo, este vídeo é para você.

E já estamos outra vez numa sexta-feira

Que ela seja feliz

quarta-feira, junho 10, 2026

Camões

 

A falta de produtividade dos portugueses tem muitas explicações e, se calhar, a mais razoável terá a ver com a genética. Muito tempo gasto em coisas que não interessam, muita conversa gasta a remoer à toa, muita burocracia, muito enrolamento. Provavelmente tem também a vem com aquilo de que fraco rei faz fraca a forte gente: maus gestores que orientam mal quem deveria ser encaminhado para fazer coisas úteis e, em vez disso, está a perder tempo em renhonhós. E a malta aceita. Genética. Brandos costumes. Delicadeza. Por delicadeza deixamo-nos morrer, dizia o outro. Nós também. Não procriamos, envelhecemos, velhos no meio de velhos.  Deixamo-nos ir.

Não nos valorizamos.

Por exemplo, em qualquer outro lugar em que a malta esteja virada para valorizar a língua, as grandes histórias e as grandes figuras da história, já haveria filmes, séries, telenovelas. E mil documentários. E banda desenhada. E desenhos animados. E tudo e mais um par de botas a falar de Camões. Numa altura em que há tanto camelo a perorar contra os imigrantes, esses pobres que vêm de longe para tentar a sua sorte no nosso país, não seria interessante mostrar como foi quando fomos nós, também metidos em barquinhos, atravessámos mares em busca de um mais promissor futuro? Não se poderia usar a nossa literatura para retratar, de forma apelativa, inteligente, tantos personagens marcantes da nossa história, da nossa literatura?

Mas não fazemos nada disso. Modestos. Ou desfocados. Se passo o comando pelos canais, nos programas generalistas, se é ficção, é só porcaria: intrigas, traições, agressões, chantagens, mas tudo uma coisa rasca, personagens sem substância, tudo inventado por gente sem mundo, sem cultura. Uma patetice pegada.

O meu neto que está a acabar o 12º e que tem que ler os 'obrigatórios', passa-se com o que acha uma coisa sem ponta de interesse. Não sei se foi o Antero de Quental que o tirou do sério, já não me lembro, estava irritado, não percebia como é que um 'gajo' daqueles conseguia gastar tanto tempo a escrever coisas que não interessavam para nada, dizia que o 'gajo' devia ser um parasita para, em vez de trabalhar, estar só a escrever coisas a dizer mal, a carpir. Quando o ouço fico meio desconcertada pois quero argumentar mas, ao mesmo tempo, conheço-o bem: o mundo dele é outro. Se eu, quando estudei ou li estes autores já me cansei, imagine-se o que é, nos tempos de hoje, com as mil solicitações de hoje, continuar com um programa em que os alunos nem percebem porque é que estão a perder tempo com aquilo. Não sei qual a alternativa, estou a falar sem ter uma solução para apresentar. Mas estou em crer que se os alunos tivessem pequenos vídeos bem feitos, biográficos, filmados como ficção, ou alguém a ler, com voz bem posicionada, alguns trechos, talvez se sentissem mais cativados. Ou se os pusessem a eles a ler outros poetas ou prosadores, mais actuais, talvez se sentissem atraídos. Não sei. Não sou entendida na matéria.

Ainda me lembro do desespero do meu filho, provavelmente no seu 12º, deitado no sofá da sala, passado, enervado, a atirar Os Maias para o chão, a achar que não ia conseguir ultrapassar o que lhe parecia uma monstruosidade intransponível. Dizia: 'Já li não sei quantas páginas e não passa da decoração da sala, dos cortinados, e sei lá mais o quê! Não consigo!'. E, tanto o desespero, já nem assimilava o que lia. No outro dia o meu cão levou uma injecção e a veterinária dizia: 'Esta dói muito, o líquido é muito espesso'. Era o caso de Os Mais, assim, na base da injecção.

Curiosamente, este meu neto surpreendeu-me ao dizer que, por acaso, a Os Lusíadas até tinha achado piada. Disse assim. Achou piada. E eu achei piada a ele ter achado piada a Os Lusíadas que sempre foi aquele calvário que os estudantes tiveram que percorrer. Não sei se ainda se dividem orações de estrofe em estrofe, um absurdo quebra-cabeças que nem sei como não me fez odiar a língua portuguesa. Mas deve ter um bom professor pois achou piada a Os Lusíadas.

Esse meu neto teve 19 em interpretação de um livro que não leu. Já tinha tido, salvo erro, um 18 num trabalho ou numa apresentação sobre Os Maias, que identicamente não leu. Mas preparou-se. Quem o ouça, jurará que domina aquilo de trás para a frente. Sabe caracterizar os personagens, disserta sobre o enredo, tudo na mouche. E sem ler os livros. No outro dia, telefonou-me a perguntar-me coisas sobre O Ano da Morte de Ricardo Reis. Não me lembro o suficiente para esclarecer um aluno que vai fazer exame nacional de 12º, pelo que lhe perguntei porque não lia o livro. Respondeu que nem pensar, não tinha tempo, tem muita coisa para estudar, tem que se preparar bem a Matemática e também a Português. Acabei a sugerir que 'trabalhasse' em conjunto com o Claude. De resto, a minha filha diz que o ouve a falar, julga ela que com o Gemini, tu cá, tu lá, ele faz-lhe perguntas, inclusivé de Matemática, e 'ele' responde-lhe. E é assim que ele se prepara. Assim e vendo vídeos. 

Bem lhe falo na maravilha que é ler. Diz que não tem tempo. E não tem: é a escola, é o futebol que pratica, é o ginásio, é a namorada, são os amigos, são as festas, é o futebol a que assiste, são as contratações e as equipas de futebol que conhece ao pormenor, são os concertos, no outro dia foram todos para uma coisa qualquer de wrestling, há de ser a praia quando começarem as férias. Não há tempo para ficar em casa sossegado a ler um romance ou a ler poesia. E não vale a pena estarmos a idealizar que era importante que conhecessem, e bem, o Alexandre Herculano, o Antero de Quental, o João de Deus, o Eça de Queirós, o Saramago, o Pessoa,  pois o mundo perfeito é coisa que não existe. Era importante... era... se eles vivessem num outro mundo ou se esses autores lhes fossem apresentados de uma maneira que encaixasse na vida deles.

No outro dia li uma reitora não me lembro de que escola a dizer que estamos a preparar os jovens para um mundo que já não existe. Concordo. 

Não sei quem é que faz os programas escolares mas, no tempo da Inteligência Artificial, das redes sociais e da informação toda, a toda a hora, em todo o lugar, todo o método e o currículo escolar deveria ser repensado. O saber já não está só nos livros: o saber está em todo o lado e está misturado com toda a espécie de coisas -- com diversão, com manipulação, com 'toca e foge', com invenção, com tudo o que se possa imaginar.

Ainda assim, porque hoje o dia é de Camões e da nossa maravilhosa língua e do nosso querido País, partilho um vídeo. Antigo. Antiguinho. O género de coisa em que os meus netos não pousam os olhos nem por um minuto. Eu gosto de ver, tenho tempo, tenho paciência. Mas porque não se fazem documentários interessantes, com o género de filmagens que prendem os jovens, uma coisa mais picada, repicada, com cor, com alguma provocação, com movimento, mais curtos?

Quem és tu Luís Vaz de Camões?


Desejo-vos um belo dia

domingo, novembro 24, 2024

Já existe o verbo tar?

 

Há uma questão que ainda não sei como ultrapassar. Ou melhor, duas. Isto é, pensando melhor, três.

1ª - Se alguém aqui escreve comentários com erros ortográficos ou gramaticais, devo publicá-los e fazer de conta que não dei por nada?

Eu acho que sim. Chamar a atenção à pessoa, seria envergonhá-la publicamente. Não o faço. Contudo, uma vez uma pessoa que, em tempos, tinha um blog, por sinal professora com livros publicados, criticou-me, dizendo que eu estava a expor a pessoa ao vexame de ficar patente perante o mundo que a pessoa não sabia escrever. Só que não tenho como chamar a atenção em privado. Portanto, publico e paciência. Mas é um tema que não tenho bem resolvido. O que penso é que se foi um lapso, a pessoa, ela própria, dará por isso e fará um novo comentário com uma errata. 

E, de qualquer forma, há que compreender que, mesmo que a pessoa escreva habitualmente bem, um dia, por escrever à pressa, por distração, por erro de digitação ou porque escrever no telemóvel torna tudo mais complicado, os deslizes acontecem. Sou tolerante quanto a isso. Aliás, quantas vezes, quantas mil vezes, já eu aqui tropecei, troquei as mãos, omiti ou juntei vírgulas onde não devia, acrescentei acentos onde eles não eram requeridos... sei lá...?

2º - Se alguém, conversando comigo, dá pontapés na gramática e usa expressões incorrectas (exemplo: usando quaisqueres em vez de quaisquer, dizendo houveram situações desconhecendo que o verbo haver, neste âmbito, não usa plural e que, portanto, se deveria dizer houve situações, dizendo há-des em vez de hás-de, ou há-dem em vez de hão-de, etc), como devo proceder? Uso as expressões correctas deixando a pessoa a pensar que não sei falar? Ou 'ajeito-me' e dou também pontapés na gramática?

Claro que falo sempre bem. Pelo menos, tento. Seria incapaz de dizer quaisqueres ou há-dem. Incapaz. Aliás, gostaria de ter coragem para dizer à pessoa que está a falar mal e explicar-lhe quais as regras. Mas obviamente não o faço. Receio passar por convencida ou inconveniente. Mas, limitando-me a falar bem, fico sempre com receio que os outros achem que eu é que sou a analfabruta do grupo.

3ª Quando nas mensagens, sejam sms ou whatsapps, se recebem frases que incluem tou, tão, tava, tá bem, etc, o que deverei fazer? Deixar estar, achar que é inevitável, ou chamar a atenção?

Se são os meus netos, claro que mando uma correcção de volta. Invariavelmente dizem-me que, nas mensagens, se escreve sempre assim, à pressa, de forma abreviada. Creio que até receariam escrever 'estar' e não 'tar' não fossem os amigos gozar e achar que, escrevendo o 'es' que incorpora a palavra, estivessem a parecer uns bonequinhos, apertadinhos, esquisitinhos, pondo-se a jeito para serem gozados.

Mas é um tema. Aliás, três temas.

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E, um pouco a propósito, sobre o uso da língua portuguesa, aqui vai uma compilação de momentos da Porta dos Fundos

COMPILADO | EH LINDO O IDIOMA PORTUGUÊS

Ah, as bonitezas do idioma português… mas também tem as incongruências, afinal, passamos anos chamando esquetes de “as esquetes” e pelo visto “esquete” é substantivo masculino e agora temos que falar “os esquetes”. É feio, a sonoridade é estranha, nem prazeroso de falar… mas isso foge da nossa ossada. Ops… alçada! 

terça-feira, outubro 29, 2024

O Ministro Sarmento para além de não gostar muito da verdade, de misturar alhos com bugalhos (confunde, por exemplo, gestão de tesouraria com gestão orçamental) e de dizer que as cativações dele não são bem cativações, tem uma outra particularidade: não sabe falar. Por exemplo, diz "póssamos". É abaixo de mau.
Para compensar, peço muita desculpa mas tenho mesmo que invocar Puttin' on the Ritz

 

Foi a minha filha que me chamou a atenção e, como eu não tinha visto, até me enviou um vídeo que fez. Só que, por nabice minha, não consigo aqui incorporá-lo. Mas é uma cena verdadeiramente badalhoca: o Sarmento parece dirigir-se a esse outro que, com o que tem feito e dito, tem evidenciado ser uma nódoa na nossa democracia. Às tantas, com aquele seu arzinho ladino de chico-esperto, Sarmento diz: 'Quando descobrirmos qual o programa eleitoral que o Chega defende, talvez póssamos falar de programas eleitorais'. Ventura ri-se.

E eu só tenho pena de não poder correr com ambos, um do Governo e outro da Assembleia. É que não se aguenta. É mau de mais.

Já houve um tempo em que o Governo era formado por gente culta, inteligente, competente, e em que os deputados eram gente de bem, os melhores representantes da população, gente digna, séria, bem educada, bem formada. Agora é isto. Claro que haverá gente de bem, claro, uns quantos que ainda se aproveitam (felizmente), mas depois há um rebotalho que é isto. 

O que as televisões nos mostram é uma dor de alma: uns são mentirosos, outros mentalmente desonestos, outros broncos, e agora até isto, gente que nem falar sabe. Caraças. E há casos em que a mesma pessoa consegue ser isto tudo ao mesmo tempo. Um desastre.

A democracia, ao contrário da tirania, é benevolente, inclusiva, tolerante, avessa a linhas vermelhas. Portanto, gentilmente fecha os olhos às violações, aos atentados contra os seus mais valiosos princípios, abre as portas a quem tudo faz para a desgastar e, talvez, devorar.

Um dia ainda se fará essa reflexão. 

Esta queixa-crime colectiva contra André Ventura e Pedro Pinto é um bom passo nessa direcção. Não deveríamos deixar passar actuações como as destes dois. Mas muito mais se deveria fazer. 

E deveria haver também uma qualquer acção pública de denúncia contra os crimes contra a língua portuguesa praticados por gente paga com o dinheiro dos nossos impostos e que supostamente nos representa e/ou governa.

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Como fico doente com isto, tenho que respirar outros ares.

Pode ser isto.

Morecambe and Wise - Puttin' On The Ritz (1960s)


sábado, outubro 26, 2024

Há uma coisa que eu não compreendo: quem compra os livros ou lê as crónicas do Gonçalo M. Tavares gosta do que lê? A sério...?
Pergunto.
.

 

Este fim de semana, por uma vez desde há séculos, comprámos o Expresso. Estava curiosa com uma coisa. Muita parra e pouca uva. De facto aquele jornalista, ou lá o que é, é um tretas. Nem vou comentar junto do meu marido pois ele bem me avisou. De facto. Tipo mais tangas.

Contudo não se perdeu tudo pois, de caminho, estive a ler o resto. Deliciei-me com aqueles de quem sempre gostei, de que continuo a gostar e de quem, tenho a certeza, sempre gostarei.

E espantei-me, uma vez mais, com a vacuidade e o disparate pegado do que o Gonçalo M. Tavares escreve. E fiquei, de novo, na dúvida: serei mentecapta? insensível? ceguinha perante a qualidade? 

É que, se há tanta gente que gosta, quem sabe se o problema não é meu...

O que eu gostava mesto é que algum dos admiradores dele viesse aqui e me explicasse. A sério. Gostava mesmo de saber.

segunda-feira, setembro 09, 2024

Quando as mulheres divorciadas soltam a franga

 

Se calhar é porque ainda me sinto a modos que na silly season. Não digo que não. Mas são tantas as cenas. Por exemplo, agora acabei de ouvir o Marques Mendes a confessar que aprendeu uma palavra nova no Campus da Liberdade da IL: genuflexório. Pareceu-me que estava a falar a sério. E não sei se foi com vergonha de parecer menos totó que ele mas a Clara de Sousa disse que também não sabia. Eu que não tenho ideia de alguma vez me ter ajoelhado numa igreja claro que conhecia o nome da coisa. Caraças. Mais vale desistir já da ideia de se candidatar. E não é por ser frouxo a nível de vocabulário, é por ser tão parvinho que ainda vem gabar-se disso. 

Mas o tema de hoje não é o défice vocabular do putativo candidato a PR nem a falta de esperteza dos entrevistadores que não são capazes de perguntar aos directores da polícia, ao director dos guardas e aos próprios guardas porque é que não se lembraram de olhar para as imagens das câmaras (agarram-se àquilo de não haver gente nas torres de vigilância e não percebem que seria mais fácil se estivesse alguém com atenção a olhar para os ecrãs onde passam as imagens captadas pelas câmaras): o tema hoje são as mulheres divorciadas que, mal se apanham solteiras, livres e boas raparigas, soltam as amarras que existiam dentro delas.

Veja-se a Catarina Furtado. Desdobra-se em entrevistas, que a culpa também foi dela, que agora já vai ser melhor namorada e mais não sei o quê. E diz que está numa fase toda xpto, mais picante e tal e coisa. E faz sessões fotográficas em que se mostra mais sexy, nomeadamente nua na banheira, com arzinho de atrevidota e coiso.

Catarina Furtado mostra-se nua na banheira

É como a Jennifer Lopez. Desde que se separou do Ben Affleck que se mostra mais poderosa que nunca. Agora apareceu de uma maneira que toda a gente a abençoou. Um vestido que vai lá, vai. Quase que poderia parecer um aventalinho mas está bem, está. Não sei se nas costas tem um letreiro a dizer: 'desfaz-me os lacinhos, se faz favor' ou se 'ora chupa, ó Ben Totó'

Jennifer Lopez em vestido Tamara Ralph na passadeira encarnada do Festival International du Film de Toronto, no dia 6 setembro 2024. SPUS / SPUS/ABACA

E até poderia recuar aos tempos em que a malograda Lady Di usou o chamado 'vestido da vingança' ao aparecer pela primeira vez em público após o marido ter admitido publicamente ter um caso extra-conjugal.

Uma lição sobre o dress code para enfrentar o mundo depois de um marido anunciar que afinal há mesmo outra

Acho muito bem. 

Mais. Que isto nos sirva de ensinamento. Por exemplo, mero exemplo, se um dia virmos a Santa Isabel Jonet, a ilustre Madama Cavaca ou mesmo a Senhora Dona Esposa de Marques Mendes ou qualquer outra senhora do género aparecerem descascadonas, a anunciarem-se picantezonas, já sabemos: o sagrado matrimónio foi à vida.

Tirando isso, pode falar-se de quê? Não sei. 

Só se for sobre o facto do Montenegro ainda não ter capturado, ele próprio em missão, os 5 foragidos. Mas isso não é notícia. Ninguém estaria à espera de tal proeza. Na volta deve andar a ver se angaria, ele mesmo, professores para preencher as vagas nas escolas. E riam-se, riam-se. Julgam que estou a brincar? Olhem que não, olhem que não... Sei de fonte segura que é menino para se ocupar com coisas do género (embora não necessária ou não exclusivamente com professores -- e não me peçam detalhes pois tenho por hábito proteger as minhas fontes). 

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Uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

quarta-feira, agosto 24, 2022

Dominas o Português ou também cais nestes erros comuns? Testa o que sabes

 



Hoje tivemos festa cá em casa. Não sei se foi o último leão da série se o primeiro virgem. Quiçá é um leão virgem, uma daquelas misturas explosivas. Uma turma chegou da praia e a outra  de fora, directinhos do aeroporto para cá. Tivemos cantoria e até em marroquino se cantaram os parabéns. O bolo, encomendado pela aniversariante e entregue cá em casa, era delicioso e lindo. Quando vejo estes bolos (e já o bolo dos outros leõzinhos tinha sido obra da mesma inspirada boleira), fico sempre tentada a vencer a minha inibição e fazer nova aproximação à arte doceira.

Claro que tivemos também música pimba, 'aperta, aperta com ela', jogo da cabra-cega e um jogo de mímica que nos pôs a todos a rir a bom rir. Bem queremos que também haja bailarico mas os rapazes estão em maioria e preferem maluqueiras de outras naturezas. 

Claro que foi aquela boa disposição de sempre, conversa, risota, chinfrim, o cão maluco ora de roda de um ora de outro, todos felizes da vida. Os anos vão passando e ainda bem que cá estamos a vê-los passar. Venham mais que chegamos bem para eles.

Depois de terem saído, já aqui me fartei de rir com as fotografias e com os vídeos. Grandes malucos. Momentos que ficam na nossa memória.

Agora abranda um pouco a nível de aniversários. Nesta família parece que ninguém se lembrou de procriar nos primeiros meses do ano. E ainda bem. A ver se finalmente consigo começar a fazer um pouco de dieta.

Entretanto, lembrei-me de falar no quiz de português aos que tinham estado fora. Também ficaram surpreendidos com algumas coisas. Também eu. Pensando que ia tirar de letra, zerinho erros, tive que enfiar a viola no saco. Em 14 falhei 2. Aliás, falhei 3 mas uma foi um horrível lapso. Era uma daquelas tão óbvia que eu pensei: 'credo, alguém falhará esta...?' e nisto, sem saber como, carreguei-lhe. Depois pensei que devia recomeçar mas como já tinha falhado uma e já sabia a resposta correcta, seria batota. 

Mas o divertido foi pôr os meninos a fazerem aquilo. Só interjeições de fúria. Falharam para aí metade. O mais velho dizia que ninguém diz aquilo, referindo-se à resposta correcta, que ele nunca ia cair naquela, que, se dissesse aquilo, os amigos iam gozar com ele.

Mas como ficaram picados, passado um bocado estavam com um quiz para mim, para se vingarem. Quando vi, declarei-me logo vencida. Bandeiras. Só sei uma, a de Portugal. Bem, se calhar mais uma meia dúzia mas acho que mesmo essa meia dúzia apenas sei reconhecer. Se, de cabeça, me puser a descrever, falham-me, de certeza, os pormenores. Até aquelas que, vendo-as, não me oferecem quaisquer dúvidas, ao descrevê-las, ai, ai, ai... Brasil, por exemplo. Uma vergonha. Disse: Verde. E tem um círculo branco coma risca azul. Depois vi que faltava o amarelo. Corrigi mas não acertei. Até que um dos meninos me falou no losango do qual nem me lembrava, estava naquela baralhação de onde encaixar o amarelo, o azul e o branco. Ridículo, não é? Mas é. Ou seja, o meu fraco poder de observação bem patente nisto. Por mais que quisesse fugir ao quiz, obrigaram-me a alinhar. Mas desisti ao fim de uma meia dúzia sem conseguir acertar uma. Só países esquisitos. Mas mesmo que fossem banais, não acertava. Ficaram delirantes. Anteviam que seria uma desgraça mas não imaginariam a dimensão da ignorância.

Mas, enfim, é o que é.

Seja como for, para quem não teve oportunidade de ver o Público naquele dia e testar os seus conhecimentos de língua portuguesa, aqui fica:

Dominas o Português ou também cais nestes erros comuns? Testa o que sabes

São erros comuns, daqueles que já foram reproduzidos tantas vezes que grande parte já acha que é mesmo assim que se diz (ou escreve). E tu, cais nessa armadilha ou tens o bom Português na ponta da língua?

Não digo quais as duas que errei (por sinal, as mesmas duas que a minha filha) para não vos influenciar. Espero que tenham melhor sorte que eu. 

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Desejo-vos uma boa quarta-feira

Saúde. Simpatia. Paz.

sexta-feira, maio 01, 2020

Dizer que hoje é o Dia do Trabalhador





Já é dia feriado e ainda bem. Não sei se me aguentaria inteira se tivesse que aguentar mais um dia assim. Aliás, a semana veio em crescendo e esta quinta explodi umas quantas vezes e estive em vias disso outras tantas. Não foi fácil. Cheguei ao fim do dia exausta. Fazem-me muita impressão as situações que não percebo e relativamente às quais, quanto tento que me expliquem, fico na mesma. Por exemplo, envolvi-me tanto num assunto que é crítico, esforcei-me, entreguei-me, expliquei, sensibilizei tanta gente que, quando estava convencida que ia deixá-lo em boas mãos, vejo que não devem ter percebido nada pois o entregam a quem tem zero competências para tal. Custa-me imenso assistir (de perto) a situações incompreensíveis. Apetece-me dar dois pares de coices. Claro que situações estúpidas há em todo o lado e aberrações é o que não falta  -- e uma pessoa vai adquirindo defesas para saber lidar com tudo. Mas pior é quando se trata de uma situação deveras crítica que requereria competências à prova de bala. Não um incompetente, não um desprovido. E a culpa não é dele, a culpa nunca é dos destituídos, a culpa é dos que, sabendo que é destituído, ainda assim o escolhem. Não se compreende. Ficou furiosa. Nem é bem furiosa. É desiludida. Descrente. Desinteressada.


Mas, tirando isso, foi todo o santo dia. Parece que, de repente, tudo entrou em roda livre.

Cansada. Dá ideia que, se uma pessoa se se distrai, é atropelada por uma manada desencabrestada. 

Acontece que, em cima disso, há cada vez aquelas expressões que tudo o que é mente fraca usa e que a mim me deixam em polvorosa. Faço de conta que não ouço. Quem me veja dirá que não reparo. Mas só eu sei. Uma violência. E já nem sei se alguém, para além de mim, fica com brotoeja na alma. A coisa quando pega de estaca desenvolve-se com viço. Rebenta por todo o lado. Erva daninha. Uma pessoa sente-se sozinha, incompreendida, com vontade de hibernar, de recolher ao convento.

Explico-me. Gente que tem mais do que obrigação de saber falar, gente com formação na área das humanidades ou sei lá o quê, gente que andou nas melhores universidades e com toda a espécie de mestrados, mba's, pós-graduações e o escambau e, quando começa a falar, enfatuadamente diz: 'dizer que este período tem sido desafiante para todos' e, a cada pausa e recomeço, iniciam a frase da mesma enervante maneira, 'dizer que estou agradecido', 'expressar o reconhecimento por todos quantos', 'transmitir que o regresso não vai ser ao normal mas, sim, ao novo normal', 'isto não tem a haver com' 'mas tem a haver com'. E, ouvindo isto, eu sinto a crescer dentro de mim aquela impaciência que me faz ficar irrequieta na cadeira pois sei que tenho que aguentar e calar.

Faz-me ainda outra coisa: ter vontade de ganhar o euromilhões. Dou por mim a pensar: se me saísse o euromilhões, viria trabalhar só para sair em beleza. Deixá-los-ia falar e, quando acabassem, diria: 'não é assim que se fala, ó seus papagaios que nem ao menos sabem escolher o que papaguear. Vou-me embora, já dei demais para este peditório, já aguentei demais, e esta maneira de falar é a gota de água, deixá-los-ei com a vossa oca prosápia'. Claro que ficariam a olhar para mim incrédulos e, quando eu virasse costas, haveriam de ficar sem perceber o que se tinha passado, concluindo: 'mulheres...' Ou, então, diriam: 'Mas quem é que ela pensa que é? Nem falar sabe. Em vez de 'deixarei-os falar disse deixá-los-ei. Loura burra''.


Por vezes, quando a reunião é alargada e o tema não me diz directamente respeito ou não me é especialmente interessante, aproveito para ver mails. Sempre me poupa trabalho à noite e sempre desanuvio. Mas, então, estava eu nisto, a ver mails, dou com esta pérola: Se estiver de acordo, podia-mos deixar o outro assunto para depois para nos pudermos concentrar no problema que temos em mãos. 

Fiquei a olhar para aquilo, a sentir-me besta. Quando recebo uma coisa assim, hesito sempre entre fazer de conta que não vejo, responder arranjando maneira de escrever aquelas palavras como deve ser ou responder, assinalando abaixo, a encarnado, os erros. Se fizer de conta que não vejo, fico a sentir-me incoerente, acomodada, acobardada. Se responder usando as palavras bem escritas, corro o risco de os broncos acharem que não sei escrever. Se assinalo os erros, vão dizer que sou mal educada, deselegante, má colega. Portanto, depois de ficar a olhar, resolvi fechar o mail e prestar atenção à reunião. O que me intriga nisto é que juraria que ele, dantes, não escrevia assim. Fiquei a pensar: terá sido o corrector automático que lhe pregou uma partida? ou estará a ficar demente? uma pandemia de bestalhice?

Santa paciência.

Bem. Não digo mais nada. Não estou nas melhores condições. Nem consigo responder aos comentários.

Tenho limpezas grandes para fazer durante este fim de semana alargado mas a ver se neste dia do trabalhador arranjo maneira de poder agradecer e responder a cada um. Não levem a mal.

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Há poetas de que gosto muito. Há poemas de que gosto muito. Há pessoas que dizem poemas de que gosto de uma forma que me agrada muito. Por exemplo. Gosto dos poemas de Michael Ondaatje. Gosto de Tom O'Bedlam. A voz dele e as pausas são preciosas. E gosto deste poema, 'What we lost'.  Partilho-o convosco não apenas porque estou a ouvi-lo mas, também, porque me custaria que aqui tivessem vindo e saíssem com a sensação de tempo perdido. Assim, talvez gostem de ouvir o poema.


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As imagens -- que acho lindas -- são de Christy Lee Rogers

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Um bom Dia do Trabalhador.
Saúde.

sábado, outubro 05, 2019

A mulher do meio largou as vírgulas da mão





A semana foi de tal ordem que ainda nem me parece que a semana esteja a acabar. De tarde caí em mim e pensei que uma sexta-feira tem que ser festejada e que talvez uma boa maneira fosse ir ao cinema. Falei ao meu marido. Vita & Virginia. Que não, que devia ser chato. Sugeri-lhe que podia ir para outra sala, ver outro filme. Perante essa perspectiva, que ele sabia ser impossível pois eu não lhe perdoaria se aceitasse a minha sugestão, acabou por aceder. Mas teríamos que sair a horas decentes para dar tempo a jantar antes. Mas os deuses protegem os corta-baratos pois vimo-nos ambos, cada um em seu lado da cidade, ensarilhados no trânsito. Portanto, ao telefone um com o outro, percebemos que cinema já era. Salvou-se de ver em filme a história que conhecemos dos livros. No entanto, acho que iria gostar. Eu iria. A ver se para a semana. Nisto, manda-me o meu filho uma sms a perguntar se não queríamos ir jantar com eles. Não sabíamos se conseguiríamos chegar a tempo, que avançassem que logo veríamos. Quando lá chegámos já lá estavam e já o bebé tinha virado meio prato de sopa com bocados de pão à mistura. 

Logo de início, o menino que sabe tudo de futebol estava entusiasmado, queria que eu visse uma coisa na televisão. Pensei que era alguma jogada espectacular. Mas não: 'Olha, olha agora, o António Costa a zangar-se com um senhor que disse uma mentira'. E era mesmo.

E eu e o meu marido dissemos que, ao fim de muitos dias de cansaço,  é natural que a uma pessoa lhe salte a tampa ao ver-se acusado de uma mentira. Nada de mais. Alguém quer ter governantes que sejam máquinas, indiferentes a calúnias e a acusações injustas e maledicentes? Eu não quero. E também me parece que uma sociedade de censores em que não se admite uma reacção humana aos políticos não será uma sociedade saudável. 
No carro já tinha ouvido 'o caso', mais um 'caso', bem como as reacções do Rio e da Cristas e de vários comentadores que de imediato tinham sido convocados para opinar. Já vinha saturada. Um homem chateia-se por ser acusado de uma coisa grave que não aconteceu -- e cai o carmo e a trindade. Não indignados com a mentira mas com a reacção. Não se aprende nada nestas alturas. Estas gentinhas que vivem de comentar o que os outros fazem e dizem só me parecem vizinhas coscuvilheiras, só acusações, só parvoíces polvilhadas por polígrafos e papagaiadas. Não há pachorra.
E eu, a esta hora, aqui chegada ao meu sofá acolhedor e silencioso, já não estou nem aí. 

Estou aqui a pensar é noutra coisa. Tenho um colega que é muito culto. Cultíssimo. Culto de uma forma invulgar. Junta a isso o ter uma memória como nunca vi. A meio de uma frase minha pode lembrar-se de um verso de um poema e di-lo na língua original. E se eu, desconfiada, à socapa, depois, for googlar, constato, espantada, que aquele verso existe mesmo, que o autor é mesmo aquele. Uma coisa que descrita parece mentira mas que é estranhamente verdadeira. Tenho alguns livros que ele me tem oferecido e são sempre invulgares e surpreendentes. Pois bem. No melhor pano cai a nódoa. Hoje, num mail que me enviou, mail que, como sempre estava muito bem escrito quer na forma quer no conteúdo, as ideias sempre muito bem sistematizadas e apresentadas, quase no fim, um erro ortográfico. Onde deveria estar 'podemos' estava 'pudemos'. Fiquei ali parada a olhar para aquela letra trocada. Doeu-me como uma nódoa. Pensei devolver-lhe o mail e pedir que o revisse e mo enviasse de novo sem o erro. Por pura ironia e por saber que ele perceberia o meu desconforto. Mas depois pensei. Temi que ficasse a sentir-se mal. Se fosse comigo, eu ficaria doente se enviasse um mail com um erro daqueles. Depois pensei em responder-lhe ao tema em questão e, no fim, como uma notinha insignificante, um alerta para o typing mistake. Mas depois não fiz nada disso. Para quê? Para quê ir aborrecê-lo? Quantas vezes já eu troquei letras, deixei restos de frases alteradas no meio das frases novas, quantas vezes mudei de ideia a meio da frase deixando a vírgula onde antes fazia sentido e depois deixou de fazer? Quantas vezes, ao reler o que escrevi, fico perplexa com os erros que encontro? Quantas vezes me auto-recrimino por publicar coisas sem antes as reler, sem antes as editar? E isto já para não falar no corrector automático que, às vezes, de sua lavra, escreve palavras que não queremos e que, se não damos por elas, seguem viagem mesmo assim.

E, depois, quem me diz que o meu sentido de rigor na escrita não está furado, ultrapassado, gatado?

Tanta preocupação que tenho de pôr as vírgulas no sítio em que a conversa inflecte ou que a respiração precisa de pausa e, afinal, na volta, a conversa pode fluir, refluir, estacar, voltar atrás, dar uma volta, abrir um parêntesis, gargalhar, chorar, tudo, sem precisão alguma de vírgulas. 

E não estou a falar de cor, não. Estou a falar porque constatei. Não foi a primeira vez, claro. Mas desta vez eu estava a ler o livro, a ler, a ler, e não dei por isso. Eu lia fazendo as pausas todas sem dar pela falta das vírgulas. Quando dei, voltei atrás para verificar se a ausência vinha desde a primeira página. E vinha. E não me tinham feito falta nenhuma.

Exemplifico.
38. Tenho desde há muito o hábito de em algumas noites acender uma vela dentro de um pequeno castiçal junto à janela. Penso que se verá da rua. Creio que os anjos de grandes asas pesadas se háo-de abeirar ainda que por pouco tempo do lugar onde eu moro. Sei que nada é mais terrível do que a perfeição de um anjo e por isso os espero assim. Perdidos nas rotas da chuva e com um cansaço quase humano no rasto que deixam.
214. A tristeza tem mil e uma formas de ser dita mas a alegria não tem história. Claro que isto já foi escrito e com mais eficácia mas hoje voltei a comprová-lo. Encontrei uma pessoa que me convidou para um café e pensei oh diabo tenho para umas duas horas. Mas não. Disse-me logo não vou maçá-la está tudo a correr bem não tenho nada para contar. Com efeito em meia hora bebemos um café e conversámos sobre platitudes. E eu pensei nos caprichos do acaso mas nada disse.
Não concordam comigo? Percebem a minha dúvida? Para quê incomodar as vírgulas, andar com elas em preparos, com rodeios e mesuras, em bolandas? Porque não deixá-las em paz? Não viveremos, afinal, bem sem elas?

Tenho que tentar. Mas não me vai ser fácil, ainda estou muito apegada às maganas.


Os excertos em itálico pertencem ao belo diário de Ivone Mendes da Silva, 'A mulher do meio'. 

A bela mulher retratada podia ser a Ivone mas não, é Ida Rubinstein

Abaixo, Alessandra Ferri dança enquanto Sting interpreta Bach, suite 1 para cello


Desejo-lhe um belo sábado. Tudo de bom para si.

sexta-feira, julho 26, 2019

Nota à Introdução





Dizer o quê? Que dos nomes da gramática retive o sujeito, o predicado e o complemento directo? Bem, o indirecto também. Já a voz activa e a passiva não sei se é coisa que encaixe na gramática ou se é outro ramo da matéria. Dividir em orações já nem me lembro do propósito. Lembro, sim, a charada das orações nos Lusíadas. Coisa para ser levada a sério tem que ter lógica, alguma matemática. Agora coisa que mais parece entretém de dondoca desocupada e que não dá para traduzir em teorema que se perceba, não pega. 

Escrever eu escrevia. Chegava à hora da redacção e eu via meia turma de cabeça no ar sem saber como pegar no título para com ele insuflar a página e já eu por ali fora, cheia de ideias, histórias a atropelarem-se para caberem todas na folha. Ler também. Muita leitura. Agora chegada à hora da gramática era uma contrariação. Sem o saber já era avessa a burocracia e aquilo era regrinha frouxa uma a seguir à outra. A minha mãe queria que eu prestasse atenção, não rejeitasse, tentasse dar importância. Qual quê.

Depois, quando os meninos foram para a escola e eu espreitava a matéria já aquilo tinha tudo mudado de nome. Os casos notáveis ou a forma de dar a volta às equações ainda estava tudo na mesma mas a gramática estava travestida, talvez para ver se tinha mais graça. Mas não. Inútil na mesma.

Agora, se calha ouvir os meninos dos meninos a falarem do assunto, é ainda pior: é língua estrangeira. Não se percebe nada mas, ao que me parece, permanece a inutilidade, a burocracia, um banho de desengraçamento em cima da beleza das palavras.

Dir-me-ão: é preciso ser muita bruta para escrever tamanha alarvidade. E estarão certos. Sou bruta mesmo. Primitiva. Podia viver nua nas cavernas, descer até ao rio e apanhar peixe à mão, subir às árvores para apanhar frutos e bagas, deitar-me na terra a ouvir o som dos bichos e ver os desenhos das nuvens. Ou podia viver num mosteiro, descalça, em silêncio, e, à hora da reza, à socapa, fugir para os claustros do mosteiro vizinho para ouvir os cânticos dos monges gregorianos e viris. 

Para quê a agramática? Para quê comezinhar a beleza singela da escrita, arranjar-lhe significados e subentendidos, minimizando-a? Não me entra. Atribuir segundas intenções ao texto, inventar-lhe sub-textos, espreitar as intimidades das palavras parece-me feio, falta de decoro, é não saber respeitar o pudor da frase. Não, comigo não, violão, não contem comigo para nada disso. 

E isto já para não falar do latim ou do grego. Grego nem nunca tentei. Latim aflorei mas não era a minha praia. Para mim, língua morta já era. Pode ser que seja a raiz e que conhecer a raiz, ou, sei lá, a semente ou a linhagem, seja importante. Não digo que não. Digo só que vivo bem sem isso. Podiam as palavras ser de geração espontânea, podia ser como se a fada do dentinho ainda por aqui pairasse e todos os dias me deixasse, debaixo da almofada, um papelinho com palavrinhas novas. Por mim, estava bem. E o grego, aquilo de estar tudo nos gregos, de ser essencial conhecer as tragédias gregas -- filho que mata a mãe, gentinha que esvazia os olhos, pai que se perde no mar mas que afinal se encontra, mulher que fica à espera feita freirinha bordadeira, órfãos incestuosos que se desgraçam a cada passo que dão (e se non è vero que estes são gregos, è ben trovato e honi soit qui mal y pense), ou ninfas, monstros ou bicharada aluada -- que é que isso acrescenta à minha felicidade? Nada.


Se fosse dada a cenas dessas, via as telenovelas portuguesas do horário nobre. E não quero saber que estejam de boca aberta perante tamanha ofensa à cultura matricial, à génese da civilização. Não quero mesmo saber.

Tudo o que seja obrigatório me incomoda. Não gosto de ortodoxias. Latim e grego são fundamentais? Passo.

Fundamental para mim é outra coisa: é não ter que ler documentos escritos por doutores que escrevem 'poder-mos' ou 'á um mês atráz' ou não ter que ouvir outros eloquentíssimos seres a dizer em que nunca foram fortes a matemática para se desculparem por não saberem quanto é dez por cento de quinhentos.

Portanto, é isto.

E também não sei porque é que estou com todo este converseio. Se quero ser casca bruta pois que o seja em privado, que não o alardeie em público. Mas é aquilo de a ignorância ser muito afoita. Perco a prudência e mostro ao que venho. Azarinho.

Tirando isso, com vossa licença, uma 'Nota à Introdução'

Pinar só co'a cabeça
É protérrima noção
Ca Literatura começa
Ter em muita aceitação.

Entrada a tola entra tudo: taco
tórax e veio.
Se não couber no buraco
Racha-se o buraco ao meio.

-- Nem rachar será preciso:
Só rasgar um bocadinho.
Como na árvore, inciso,
O nome do passarinho.



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O poema é de Mário Cesariny in 'O Virgem Negra', as pinturas de Júlio Pomar e o Cry Baby é cantado com as vísceras de Janis Joplin
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😜
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E queiram aceitar o meu convite e apareçam no meu Ginjal para testemunharem que não é Nem no cântico dos seios nem no soluço das pernas, coisa que proveio de David Mourão-Ferreira ao som da Carmen.

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domingo, março 18, 2018

E lá se foi o saloio* Feliciano Barreiras Duarte
... e já vai tarde porque quem escreve como ele escreve merece é levar reguadas naquelas mãos e ser posto de castigo ao canto da sala


A dream team do Rio
(a olho nu via-se bem que a coisa não augurava nada de bom)

Enquanto escrevo, ouço a desanda que o nosso senadorzinho de trazer pela TV está a dar no ex-secretário-geral do PSD e ex-braço direito do PSD. Que é um saloio, que se portou mal, que o que fez é uma bacoquice, que devia era ter vergonha na cara (esta não disse assim mas por outras palavras) e que o Rio devia ter agido há mais tempo em vez de andar a apanhar bonés (sic) e que espera que não estivesse com o rabo preso. E tal e tal.


E eu que ontem já tinha aconselhado o pobre-coitado Fefé BD a dedicar-se a outra coisa -- não a coser meias mas a descacar batatas -- vejo, com agrado, que já anunciou que ia pregar para outra freguesia. Talvez para descacar batatas tenha jeito. Tem ar disso. Eu olho para ele e diria que para presidente de uma junta de freguesia ali numa qualquer aldeia do Bombarral talvez ele também leve algum jeito. Mas mais do que isso já me parece um desafio ao Princípio de Peter.

Mas, de tudo que se conhece -- desde ter enfeitado o CV com pepineiras criativas até ter recebido um subsídio indevido -- nada me parece tão grave como escrever como escreve. 

Transcrevo a conclusão da sua tese de Mestrado: SISTEMA POLÍTICO NACIONAL E SISTEMAS POLÍTICOS COMPARADOS e digam-me se quem escreve coisas destas não merece é um correctivo a preceito.
Em conclusão, a elaboração deste relatório, com os fins e objectivos anteriormente referidos, pretende-se que seja consabido, o relacionamento entre a primeira e a segunda parte do mesmo, com a evidência principal, que de entre a multiplicidade do currículo do seu autor, poderá sobressair e outrossim destacar, o fio condutor de que nas suas múltiplas actividades e intervenções, académicas, profissionais, não profissionais, mas de servidor público, jurista, professor, investigador, conferencista, autor e afins, está sempre presente uma trave mestra – a saber – que é a problemática do sistema jurídico e político português. Com uma incidência especial, na sua axiologia, a sua catalogação jurídico política e sobretudo a sua elasticidade jurídico constitucional. De entre outros temas possíveis e prováveis de serem expendidos pelo autor, a problemática associada a este tema, tem toda a actualidade para quem, tem 21 livros publicados, prefaciou vários trabalhos de investigação, foi conferencista e moderador em 164 conferencias, seminários e afins, publicou cerca de 750 artigos e cronicas em jornais e revistas, e tem variadas intervenções no plano profissional, extraprofissional, publica, política e de outras tipologias. 
Demitiu-se? Face a isto, é pouco. Tem que ser posto de castigo. Tem que fazer cópias, ditados. Deve desfilar com orelhas de burro. Deve levar reguadas. Deve voltar para o 1º ciclo. No mínimo.

Mas poderia dizer-se que, quando escreveu a conclusão já estava cansado, que já não atinava com as vírgulas nem com coisa nenhuma. Mas não. Veja-se, por exemplo, a abrir, a dedicatória --e digam-me se é possível uma coisa destas.
Agradeço à minha família (meu pai, minha mãe, minha mulher, meus três filhos, meu irmão e restante família) e a todos quantos nas últimas quase três décadas, partilharam bons e maus momentos e bons e maus resultados, em toda a minha vida não só familiar, mas acima de tudo, académica e profissional e também em toda a minha vida pública, enquanto servidor da coisa pública e protagonista da vida política, quer ao nível autárquico e parlamentar e também ao nível governativo. Agradeço, sobretudo aqueles, que se mantiveram fieis inabalavelmente à lealdade, competência, diligencia, sacrifício, honradez, sinceridade, amizade e confidencia. 
É muito jogo. É de Mestre. Mestre Fefé BD, o ás das vírgulas e da conversa da treta.

Olha. Bye bye, saloio* Feliciano.

[NB: Isto do saloio foi o Marques Mendes que dixit.]

sábado, dezembro 02, 2017

Cinemas NOS
-- uma antevisão do que seria um mundo governado por porcos.
[O filme 'A montanha no meio de nós' é bom mas ter-me-ia sabido melhor se o tivesse visto numa sala de cinema decente]


De manhã, fiz fotografias que me agradaram fazer mas que ainda não vi. O prazer está em captar o momento, não em revê-lo. A praia muito bonita, o sol banhando de luz a superfície do mar, as pessoas passeando, os vultos em contra-luz ao longe, a alegria do pescador a descer as rochas para ir resgatar o peixe tão grande, as crianças brincando. Podia ir buscá-las à máquina para as passar para o computador, mas não me apetece.

Também fiz muitas fotografias cá em casa, a alegria e confusão do costume. O bebé tão bonito e feliz, os outros rapazes já tão crescidos e sempre tão cheios de vitalidade, a menina sempre linda, muito  feminina e coquette, os crescidos todos na boa, bem dispostos, tranquilos. Mas essas fotografias eu não mostro aqui, ficam para mim e para a família.

Depois de todos saírem, saímos também.

Andava com vontade de ir ao cinema mas sem encontrar filmes que me seduzissem. Mas hoje um chamou-me a atenção e lá consegui arrastar o meu marido para fora de casa quando lhe apetecia era ir estender-se no sofá. Eu própria tive que vencer o apelo do corpo que, ao fim de um dia bem preenchido, pedia também algum descanso. Mas lá fomos.

Na bilheteira, toda a gente com baldes de pipocas e bebidas. Depois, a escada rolante parada, com os degraus pejados de pipocas.

Entrámos. A sala cheia. Quando ia sentar-se, o meu marido viu que o braço da sua cadeira e o chão por debaixo estavam cheios de coca-cola (ou pepsi, sei lá). Ficou furioso. Saíu e regressou com uma jovem de balde, esfregona e pano. Limpezas feitas, lá se sentou. Furioso. 'Nem ao menos fazem a limpeza da sala, entre sessões'. 

Ao lado dele um casal de gordos -- mas ponham gordura em cima deles. Gordos e gigantes. Nem conseguiam sentar-se bem. O gordo segurava num balde de pipocas e comiam-nas freneticamente. Felizmente o casal ao meu lado era silencioso. À nossa frente uma fiada de gordas, gordas, gordas, cada qual com seu balde pipocas. Riam-se e falavam umas com as outras. O meu marido continuava furioso e dizia que não aguentava estar no meio de mandibulantes desenfreados. Eu também estava incomodada mas não dei muita corda não fosse ele resolver levantar-se e desistir do filme. É menino para reacções dessas.

O cinema é da NOS. Antes do filme começar, publicidade com o som numa intensidade insuportável. Um chinfrim que, diria eu, nem deve ser saudável.

Finalmente lá começou o filme.

Um bom filme. Um daqueles filmes bom de ver, uma história de sobrevivência e de amor. 

Para mim, ir ao cinema é também a magia da sala escura, um certo culto que talvez seja já apenas ficção mas que, para mim, teima em persistir -- como se, num ambiente quase mágico, um grupo de pessoas ali estivesse a partilhar emoções. Contudo, ali isso é impossível. As gordas da frente riam alto, em momentos de maior emoção saíam-se com apartes completamente absurdos, descarados ou ridículos. O gordo do lado, saía-se com piadas brejeiras e inconvenientes. A sua parceira gorda partia-se a rir. Mas não eram os únicos. 'Bocas', risos, brejeirices. E o barulho das pipocas. Sempre o barulho das pipocas. E o enjoativo cheiro das pipocas. 

No intervalo, reparei que o corredor central do cinema estava sujo, bocados de pipocas polvilhavam a alcatifa. Cá fora, o chão também sujo e mais gente a abastecer-se de pipocas e de bebidas. Perguntei ao meu marido: 'Mas isto é tudo gente porca e estúpida?'. O meu marido já estava mais tolerante: 'Para estes gajos [referia-se à NOS], o negócio principal parece que é vender pipocas. E enchem os baldes daquela maneira. Transbordam, caem no chão, nas escadas, por todo o lado [referia-se às pipocas]'.  E eu: 'E reparaste que quanto mais gordos, maiores os baldes?' E ele: 'Não deve ser por acaso'

Um nojo.

Acho que tão cedo não voltaremos a um cinema NOS. 

Se quisermos imaginar o que seria o mundo se fosse governado por porcos, acho que poderemos visualizar uma sala de cinema NOS.

Para ajudar à festa, no intervalo vi uma troca de mails profissionais em que fui posta em conhecimento e que acentuou ainda mais a sensação de estar a viver num mundo em que falta de qualificações de toda a ordem começa a imperar. Que mails mais miseráveis. Ideias mal apresentadas, frases mal construídas, pontuação errática e erros ortográficos insuportáveis. Fiquei, uma vez mais, petrificada. A minha vontade foi enviar um mail a pedir que regressem à escola primária, que aprendam a escrever, que arrumem as ideias e que me poupem a lástimas como as que me tinham dado a ler.

Contudo, não fiz nada. Mas fiquei agastada. 

Por delicadeza, deixamo-nos morrer. Neste caso, talvez não morrer mas vencer. Vamo-nos calando e aceitando tudo. Lemos textos que são autênticas alarvidades, estamos em salas de cinema que são pocilgas e em que ao nosso lado se sentam porcos que nem tentam comportar-se como gente civilizada. E tudo aceitamos. 

Não deveria também eu ter-me levantado e pedido, alto e bom som, que parassem de mastigar, de fazer barulho, de ser inconvenientes? Que soubessem respeitar o filme e as pessoas que ali estavam a assistir? Que soubessem portar-se de forma civilizada?

E não deveria eu escrever uma reclamação dirigida à NOS a dizer que me incomoda que não respeitem a arte do cinema e que não garantam o asseio das suas instalações?

Claro que deveria. 

Já passa das duas da manhã e estou com sono e já sei que, mal entre o dia, vou à minha luta e vai faltar-me a paciência e o tempo para me insurgir de forma mais consequente mas, de qualquer forma, aqui fica lavrado o meu protesto.

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As fotografias que usei a despropósito no meio do texto, referem-se ao filme.

A montanha entre nós com Idris Elba e Kate Winslet, aqui ´num trailer legendado em brasileiro



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A si que está aí desse lado desejo um sábado feliz.
Saúde e alegria.

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quinta-feira, abril 20, 2017

João Pereira Coutinho é todo a favor das vácinas,
conforme dissertou ao balcão da Correio da Manhã TV


Fui agora espreitar as estatísticas do blog. Dizem-me que 'agora' estão 83 pessoas a ler o Um Jeito Manso. Mas estão aí desse lado e eu dava-me jeito é que estivessem aqui. Aqui. A beliscar-me. Todos, ao mesmo tempo, a beliscar-me.

Explico porquê e vocês já vão dar-me razão.

Antes de jantar, enquanto decorriam os preparativos, liguei a televisão e fui fazendo zapping. Estava a caminho da Sic Radical para ver se hoje havia o Colbert. Mas, a meio da operação, passei por um canal onde acho que até hoje nunca parei. Até hoje - leram bem. Vi e não acreditei. Parei para confirmar. Podia ser uma visão. Infelizmente não, vi que era real. O João Pereira Coutinho, ele mesmo, o grande intelectual, essa direitola figurética da luso-piolheira, comentando o caso da jovem que morreu com sarampo. Na CMTV.


O grande mestre da teoria política, ex-guru da blogosfera, agora transformado em vulgar profissional da crónica azeiteiro-social. Com uma fita rolante a passar-lhe em cima da cabeça com dizeres relativos ao Ronaldo, ali estava ele, populista, populista, demagogo, demagogo, a dar na cabeça dos pais da jovem. A mim que, claro está, nem me passaria pela cabeça não vacinar os meus filhos, sem conhecer os factos relativos a este caso não vou falar sobre eles, muito menos aos balcões do infecto-contagioso Correio da Manhã. Já li que a miúda tinha tido um episódio grave de alergia a uma vacina e que, por precaução, os pais resolveram não reincidir. Não sei. Não me pronuncio. Dor maior já os pais devem estar a sofrer, escusamos de deitar mais sal por sobre cicatrizes que, certamente, estarão em carne viva.
É certo que é uma boa oportunidade para apelar à racionalidade dos pais que se encontram nalguma deriva metafísica, pondo em risco a vida dos filhos, mas que o seja com contenção e, sobretudo, não ao balcão de uma coisa como a CMTV, no meio de uma conversa desenvolvida em tom fútil e demagógico.

E se eu visse um daqueles comentadores que tanto falam de Passos Coelho, como de uma jogada mal apitada pelo árbitro, como de uma camioneta que tombou na estrada despejando ruidosos bácoros, ainda vá que não vá -- uma pessoa, vai-se habituando a que baixem os padrõezinhos*. Mas, com o caneco... o João Pereira Coutinho...? Já desceu a esse ponto? Comentadeiro no Correio da Manhã...?!?! 


É onde se acolitam agora os ressabiados, os desaguados da democracia, os de má bílis, os moralistas do regime, os enfatuadinhos, os pintarolas encartados? No Correio da Manhã...? Muito me contam.

Mas a minha surpresa não se extinge aí. É que a criatura dizia vá-cinas. O entrevistador perguntava-lhe o que achava de não vacinar crianças e ele, cinquenta mil vezes, vácinas: vácinas para aqui, vácinas para acolá.

Totó como sou, ainda pensei: querem lá ver que eu é que ando com o passo trocado? Então fui validar e o totó é ele. Diz-se vacina com os dois a's fechados pois vacina é, obviamente, uma palavra grave.

Agora, vocês que aí estão sossegados e nem se dão ao trabalho de aqui me vir beliscar para eu ter a certeza que não eu estar a delirar, digam-me: como é que um intelectual destes, com esta carinha de menino inteligente, professorzinho da Católica e tudo, não sabe disto e diz vássinas**...? 
** Que, da maneira como ele diz, acho que até deve escrever escrever vássinas, senão mesmo váccinas como se ainda vivessemos no tempo das bexigas das vacas...
Minha mãe santíssima.

Estou banza, é o que é. Não estava psicologicamente preparada para ver uma coisa daquelas.

Quando a intelectualidade de pacotilha vira comentadeira do Correio da Manhã... o que se vai seguir...? Um dia ainda vou ver ali o Pedro Mexia, a pronunciar-se sobre o roubo por esticão ou sobre a namorada do CR7? E, ainda por cima, a dizer 'námora-da' ou Márcelo? Ou o cardeal Clemente comentador nos programas da Cristina Ferreira a falar do maestro gay que foi corrido pelo pároco de Castanheira de Pêra? A procuradora Mana do Vidal como avençada no programa da Júlia Pinheiro a comentar as aparições da pequena Maddie? O António Lobo Antunes a dar troco ao cacarejante Rangel? What...?


Não sei mas, depois do que presenciei, acho que temos que estar preparados para o pior.

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Fiz as fotografias à televisão e, depois, na segunda apeteceu-me pôr o comentador João pereira Coutinho ainda mais cor-de-rosa, com uma boquinha ainda mais mimosa. A ver se a imagem fica mais consentânea com o absurdo da coisa.

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E, a propósito de não baixar os padrõezinhos, aqui vos deixo o Lopes da Silva, o homem com demasiadas características.




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Um dia feliz a todos.

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