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quinta-feira, julho 16, 2026

A vida no palácio

 

Tinha pensado escrever mais um post sobre o tema dos exames mas, à última hora, resolvi que não. Sempre tive um problema na minha vida: parece que antecipo os problemas. Ainda eles não aconteceram e já eu estou capaz de dizer, tim-tim por tim-tim, o que vai acontecer. Pode até parecer que estou a agoirar, mas não é, quero apenas tentar que se evite que aconteçam. Mas as pessoas reagem mal, acham que estou a preocupar-me á toa, dizem que há que dar o benefício da dúvida, que pode ser que as coisas corram bem. Mas eu, quando tal acontece, sei que não podem correr bem. Nunca engracei especialmente com grafos mas, caraças, parece que a mecância ficou gravada na minha cabeça. Dou por mim, a percorrer os caminhos críticos, a detectar os caminhos que são dead ends, a ver o que devia estar a ser feito em paralelo, a antecipar a barracada por estar a fazer em série coisas que, com toda a probabilidade, vão dar bode e empancar todo o processo. Mas como verbalizar isto? Não dá. 

Se me dissessem 'vamos digitalizar os exames' eu adoraria fazê-lo e, acto contínuo, começaria a delinear todo o processo. E, de caras, vos digo: seria um processo limpinho, económico, sem falhas. Se em contrapartida me aparecesse um bando de anhucas a propor implementar o processo que está em curso eu mandá-los-ia ir dar banho ao cão e nunca mais perdia um minuto da minha vida a ouvi-los. O que está em curso não é uma modernização, não é uma transformação (no bom sentido): é um aborto. Com todas as letras: um aborto. Mais um dos abortos em que o Governo de Montenegro se especializou. Um aborto. Não tem ponta por onde se lhe pegue. Não é moderno, não é eficiente, não é racional, não é económico, não é coisa nenhuma. É um aborto.

Não preciso de vir a ter conhecimento concreto sobre o que vai passar-se nos próximos dias: já o sei.

E tudo o que ouço ao Fanã Alex, ao Luís, ao Hugo, ou a qualquer desses cromos (incluindo a intragável Ana Paula) só prova que é gente que não sabe o que anda a fazer, gente incompetente e irresponsável.

Já aqui falei disso muitas vezes: um colega e amigo dizia-me muitas vezes: 'ter razão antes de tempo, em termos práticos, é o mesmo que não ter razão'. Por isso, não vou estar para aqui a enumerar as burrices imperdoáveis que toda esta gente anda a cometer. Na sexta-feira ao fim do dia falamos. Se estiver enganada, e muito gostaria de estar, será bom para os alunos e para as famílias e, até pelos meus dois netos que estão envolvidos nesta cegada, eu gostaria que tudo corresse bem.

Mas, portanto, em vez de falar nisto, opto por partilhar um vídeo que é, todo ele, um documento: as relações de poder, de chantagem implícita, a bajulação, a anulação da personalidade, e, ao mesmo tempo, a capacidade de tirar proveito de uma situação que tem a anulação implícita, são um roteiro do que se passa nos corredores do poder da Casa Branca. Não sei se é só na Casa Branca ou se é também em Downing Steet, no Eliseu, em S. Bento -- não sei. Mas é interessante perceber como funcionam as 'fontes', como a informação é veiculada.

Lindsey Graham morreu. O amigo indefectível de Trump morreu. Homofóbico, defensor da perseguição aos gays era, contudo, um gay. Toda a gente sabia disso, inúmeras histórias circulavam, e, no entanto, ele manteve-se até ao fim no armário. E Trump sabia disso. E, portanto, tinha-o na mão. Mais do que um grande amigo e um asqueroso puxa-saco de Trump, Lindsey Graham tinha medo dele.

O vídeo fala disto e de muito mais e é, como sempre, muito interessante. Mais do que tentar encontrar motivações ou estratégias políticas na actuação de Trump, talvez seja mais útil perceber como funciona a cabeça destrambelhada do doido varrido e quais as dinâmicas dos ridículos personagens que por ali gravitam.

Este é o motivo obscuro pelo qual Trump aterrorizou Graham | 

Dentro da mente de Trump

Michael Wolff e Joanna Coles investigam as consequências políticas da morte súbita de Lindsey Graham, revelando o que Trump realmente pensava por detrás das suas homenagens públicas, como são elaboradas as publicações do Truth Social dentro do seu círculo íntimo e porque é que a complexa relação de Graham com o presidente era motivada tanto pelo medo e influência como pela lealdade. Analisam também as crescentes especulações em torno da saúde de Mitch McConnell, o conflito cada vez mais inescapável de Trump no Médio Oriente, apesar da sua promessa de evitar guerras intermináveis, e porque é que Michael acredita que o presidente está preso à sua própria incapacidade de mudar de rumo. Por fim, voltam-se para uma força inesperada que está a remodelar o Partido Democrata, argumentando que Bernie Sanders pode ter tido um impacto muito maior na política norte-americana do que até os seus críticos estão dispostos a admitir.

terça-feira, julho 07, 2026

Ex-mundial com o rabo entre as pernas, futuro ex-ministro dos exames nacionais com o rabo e a cabeça entre as pernas.
E, para fugir ao faduncho, mulheres de outro mundo

 

Estava com parte da família a ver o futebol, mas estava tudo morno. O meu marido, durante parte da segunda parte, foi dar uma volta. Os rapazes estiveram, a maior parte do tempo, em silêncio. Eu ia falando com a minha filha enquanto íamos olhando o ecrã mas parece que não se passava nada. Uma coisa quase sepulcral. Como não consegui prestar atenção, só posso dizer o que me parecia de cada vez que me focava no jogo: era como se houvesse uma suspensão, quase uma slow motion, quase como se toda a gente antecipasse que o caminho estava traçado. No início ainda imaginei que pudesse haver um bom desfecho. Mas, logo que me apercebi da marcha fúnebre, deixei de alvitrar. 

Mal o jogo acabou, os rapazes levantaram-se em silêncio e retiraram-se. O meu marido insultou uns quantos e disse que por ele até é melhor: assim já pode ver o resto do mundial sem se enervar. 

Tive pena mas tive muito mais pena ainda quando Cabo Verde foi eliminado. Os rapazes cabo-verdianos, esses sim, entregaram-se com uma alegria, uma genica, uma capacidade de luta e umas ganas de irem atrás de um sonho que foi tão contagiante que me agarraram e me puseram a vibrar com eles.

Quanto às notícias, o que tenho a dizer é que a cegada da avaliação dos exames é uma coisa sinistra. Como é possível que se lance um novo sistema, uma nova metodologia, sem tudo ser testado sob todos os pontos de vista: do ponto de vista técnico, funcional, de formação de quem vai usar (os professores) e de carga (todos ao mesmo tempo). Uma coisa tão transversal e com tamanho impacto só poderia ser lançada  depois de resistir à lei da bala, não falhando um único ensaio. Aquilo a que se assiste é de um tal amadorismo, de uma tal inexperiência, de uma tal impreparação que até dói.

Tenho um neto à espera dos resultados para saber o que vai ser a sua vida. Ele e todos os outros nas mesmas condições, depois de tanto estudarem e de de saberem que estão num momento charneira das suas vidas, encontram-se neste limbo: 

  • no caso do meu: por um lado a selecção portuguesa -- segue ou não segue? (e, já se viu: não seguiu) 
  • e, por outro, a espera pelas notas: chegam ou não chegam para entrar onde se quer? Os exames vão ser avaliados ou não? E, se não conseguirem levar adiante a avaliação, em tempo útil, o que acontecerá?
E as explicações que se ouvem e o ar espaçado do ministro são de uma tal indigência a todos os níveis que a gente já nem estranha que o dito ministro nos apareça com ar de quem nem tomou banho, o cabelo com ar de estar sujo e mal cheiroso.

Mas não me apetece continuar a escaranfunchar nestes assuntos senão começo também a pensar no body guard do Luís, o trauliteiro que dá pelo nome de Hugo Soares, e isso seria, da minha parte, bater no fundo. E não me apetece.

Vou antes derivar para outras paragens. Mulheres que se situam à margem das marés, que não encaixam no mainstream, que não querem nem saber das últimas modas. Poder-se-ia pensar que as duas de que aqui trago notícia estão nos antípodas. Em termos práticos e objectivos, estão. Subindo um pouco mais, vendo de mais longe, são parecidas. Fascinantes.

A artista que vive na floresta

Há muito tempo que queríamos conhecer Maria, uma artista sueca que vive numa pequena casa de madeira perdida nas florestas da Suécia com o seu companheiro, Johannes.
Juntos, recriaram um mundo mágico, fora da realidade e da lógica, onde vivem e trabalham. Maria recolhe a madeira que a floresta lhe oferece para a transformar em obras de arte, e vive desta atividade há mais de 30 anos.

No entanto, o que pode parecer uma vida de conto de fadas esconde, na verdade, a fragilidade de uma floresta que precisa de ser defendida. Maria e Johannes optaram, à sua maneira, por lutar para a proteger.

Fran Lebowitz não tem smartphone, portátil ou filtro

A nova-iorquina Fran Lebowitz construiu uma carreira satirizando a vida moderna. Numa conversa acutilante e divertida com Benjamin Law, reflete sobre um mundo em turbulência, abordando temas que vão desde Trump às esposas tradicionais.

Desde os seus livros best-sellers a participações em talk shows noturnos e ao filme Pretend It’s a City, de Martin Scorsese, tornou-se uma das vozes mais singulares dos Estados Unidos.

Agora, em 2026, enquanto a democracia estremece e o caos político aumenta, Benjamin Law conversa com Lebowitz para lhe perguntar: como é que ela interpreta o que estamos a testemunhar em tempo real?

Desejo-vos um dia feliz

quinta-feira, junho 25, 2026

Por um lado um tremendo sismo, por outro o Kiko is Hot

 

À minha frente, o caos: prédios em ruína, muita gente na rua, repórteres tentando descrever a confusão a que se assiste, pessoas espreitando os escombros, equipas de resgate.

Na televisão, um comandante diz que é mau haver tanta gente naquele cenário, diz que é indispensável ouvir os sons, interpretá-los, deduzir os riscos, prevenir males maiores. Com tanta gente e tanta confusão, não se consegue prestar atenção aos sons.

Vi o que me parecia ser o aeroporto e muita gente em pânico e nuvens de pó que talvez fossem de paredes a ruir. 

Vejo imagens avulsas, as ruas cheias de gente, edifícios com fissuras, pó, confusão, espaços destruídos e sangue na parede, sangue no chão, e nem compreendo bem o que estou a ver, só percebo que se está na presença de uma force majeure, de um act of god. A natureza, por vezes, dá um coice. E este parece ter sido dos valentes.

Um outro comandante, num outro canal, diz que um dia pode acontecer por cá. Falam nos kits de sobrevivência. Tenho ali na escada uma mochila com o que é suposto, o meu marido nisso não facilita. Mas penso nos meus: será que também têm? Será que, para cada um há uma mochila com os artigos recomendados? É que numa situação como a que estou a ver na televisão, ninguém consegue deslocar-se para ir acudir os que não estão ao nosso lado. Assusta-me isto porque sei que, perante uma calamidade desta dimensão, há muita gente que não tem a sorte de sobreviver e, entre os que sobrevivem, muitos serão os que perderão familiares, a casa ou outros bens. Um drama muito grande.

E só dei por isto certamente já um bom bocado depois de ter começado a ser denunciado pois estava a ver, atentamente, a entrevista da Mafalda Anjos ao Kiko is Hot. O jovem é outro sismo, embora de outra natureza. Sobretudo, não causa danos alheios. Mas ao afirmar-se da forma como se afirma  -- consciente das suas ambiguidades que aceita como parte integrante de si próprio, diferente nos seus contornos exteriores, mas uma pessoa tão pessoa como todas as pessoas e, portanto, com tanto direito a respeito e aceitação como qualquer outra --, acredito que provoque um sismo na consciência débil dos ortodoxos, dos quadrados, dos atrasados mentais, dos trogloditas.

Parece ser uma boa pessoa e ter um agradável sentido de humor. Quando comecei a ter conhecimento de pessoas via Instagram, pessoas que, de outra forma, não chegariam facilmente até mim, já aqui falei dele. Neste mundo das redes sociais -- a que só cheguei o ano passado, pois é uma realidade contagiante que assenta num algoritmo (e num modelo de negócio) que me causa uma certa repulsa -- aparecem-me personalidades curiosas, diferentes das que frequento ou das que normalmente acompanharia no meu dia a dia. E, no entanto, agora que sei da sua existência, gosto de saber delas. E não é só por cá. Por exemplo, gosto imenso de ver as publicações de Coco | Max Norman, acho o máximo.

Contudo, ao ouvir o Kiko is Hot, percebo como atravessou o seu tempo de adolescência e de juventude com agruras que não podem ter sido fáceis de suportar. E se a sociedade em geral rejeitar ou olhar de lado para uma pessoa deve desestabilizar emocionalmente uma vida, imagino o que é quando a incompreensão ou rejeição nasce na própria família. Mentes curtas, apertadas e mal formadas sempre temeram a diferença. É uma pena, mas é verdade. São pessoas limitadas, a sua capacidade de entendimento não dá para mais. E só alguém com um grande cabedal psicológico ultrapassaria isso e chegaria até aqui com um sorriso tão bonito, com um ar tão pachola e querido. 

Só tenho pena é que com a evolução e as descobertas dos novos tempos nem sempre venha, de forma natural, a aceitação pela diferença. Há aspectos em que não evoluímos. O género humano, em parte, está em processo de regressão, como se estivesse a voltar à condição de símio. São os populistas, os racistas, os xenófobos, os misóginos, os homofóbicos, os fascistas, os nazis -- toda essa seita de estupores encartados.

Pela parte que me toca, só tenho a dizer que admiro a Mafalda Anjos por dar voz ao Kiko is Hot e que o admiro a ele por dar voz às pessoas sem voz que, tal como ele, de uma forma ou de outra, são um pouco diferentes do que é habitual.

E só espero que o Kiko seja muito feliz, que vá alcançando tudo o que deseje. Já tem a sua casa, há de ter a sua família, ie, a família que formará, e já tem certamente muitos amigos e muito sucesso profissional. 

E, numa outra escala, numa outra dimensão, espero também que os sismos na Venezuela não sejam tão maus como parecem. Parte-se-me o coração ao ver o que para lá vai.

Kiko is Hot: “Só agora estou a reconhecer que mereço ser feliz” | Inventário Pessoal | RTP Antena 1

Cresceu com insultos, violência psicológica e um pai que foi o seu primeiro bully. Recusou sempre enfiar-se em caixinhas. O comunicador e ativista social trabalha para apanhar os fragmentos do chão e sair da escuridão.


Um dia feliz para todos, pelo menos na medida das possibilidades

sábado, abril 11, 2026

O Tó Zé Seguro, o SNS, o Governo e o Rutta
-- E cá está o meu marido, outra vez, a varrer o terreiro a varapau --

 

Segundo o Expresso, Belém (será que continua a existir a fonte de Belém?) vai preparar um relatório sobre a Presidência aberta do Seguro. Admito que será uma espécie de caderno de encargos para o governo, referindo o que tem que ser feito. Como é relatado pelas populações e autarquias, à verborreia habitual do governo, prometendo ajudas com enorme rapidez, não corresponderam ações efetivas sendo os atrasos na chegada das ajudas mais do que muitos. 

E não são só os atrasos nas ajudas. Pelo que se vem ouvindo, parece que nada foi feito de relevante para mitigar o que aconteceu. Sabermos pelo Seguro que ninguém no governo se tinha preocupado com o enorme problema que é a quantidade de combustível existente nos terrenos. Ora isto só revela uma coisa: a enorme incapacidade do governo para tomar decisões e para actuar com competência. 

Aposto que, quando sair o relatório/caderno de encargos, o Montenegro, engolindo o elefante, vai dizer, com aquele ar de sacana que o caracteriza, que o documento "assenta que nem uma luva na política do governo". 

Já aqui o recordei e vou voltar a isso: ao  SNS. É urgente que o Seguro volte ao assunto porque os indicadores sobre o SNS são cada vez piores, é preciso pôr o dedo na ferida, tentar minimizar as dores e dinamizar soluções. 

Tenho para mim que os principais problemas do SNS são:

  • a ministra e os lobbies que a suportam e que querem privilegiar os privados, 
  • a Ordem dos Médicos com as suas atitudes super corporativistas 
  • e a falta da qualidade dos gestores que estão nos postos chave do SNS. 

As chefias são nomeadas pelo cartão do partido e não pela competência e capacidade de gestão. E esta questão da gestão é tão problemática que o SNS manda para entidades privadas, para frequentarem cursos de gestão que custam milhares de euros, dezenas e dezenas de chefias que, de cada vez que abrem a boca, revelam um completo desconhecimento do que é o b-a-bá da gestão e a única coisa que sabem fazer é queixar-se de não terem autonomia para fazer nada. 

Em resumo, o dinheiro dos contribuintes também é esbanjado na formação de recursos que podem ter jeito para muita coisa mas não têm, seguramente, jeito para gerirem serviços no SNS e só são nomeados pelo cartão partidário. É necessária acabar com este forrobodó. 

Pior que o Rangel a apostar que os americanos cumprem estritamente o tratado das Lajes (provavelmente só ele e Montenegro é que acreditam -- uma vergonha a posição do governo sobre a guerra do Irão) foi o que o Rutta disse ontem sobre a posição do Trump e dos países da NATO na guerra do Irão. Este tipo de parvos bajuladores sem espinha dorsal ainda não perceberam que só consegue vencer o Trump quem lhe faz frente e o que se passa com a guerra no Golfo é um bom exemplo. São estúpidos e covardes. É uma vergonha exercerem as funções que exercem.

Não menos vergonhosa é a posição que a direita tem sobre a tudo o que envolve a identidade de género, nomeadamente a recente polémica sobre as terapias de conversão. As provas científicas contrariam a opção destes gajos e as ordens dos médicos e dos psicólogos são absolutamente contra as opções da direita. Cada vez mais a direita portuguesa (de que o actual PSD não é capaz de se distanciar) se aproxima dos membros do culto MAGA defendendo posições revanchistas, reaccionárias, sem qualquer fundamento científico e estupidamente desrespeitadoras das opções individuais. Provavelmente acham que devem pôr padres abusadores a aconselhar menores sobre as respetivas orientações sexuais. É difícil descer mais baixo. 

Será que ainda existem sociais democratas no PSD e, se existirem, o que pensam sobre este tipo de retrocesso civilizacional?

segunda-feira, julho 14, 2025

Dois Homens com H

 

Foi um domingo calmo, intercalando a leitura e os banhos de sol por períodos de alguma sonolência. Também andei a regar, pois se há coisa que gosto de fazer é de regar, de preferência descalça para sentir os pés molhados.

Não tive que cozinhar: comemos restos e mais um ou outro complemento. 

Ao almoço ligámos a televisão, mas não suportámos as más notícias. Bem sei que nos alienamos se nos afastarmos do que se passa no mundo. Só que se passam milhões de coisas boas mas se, no meio desse milhão, vier uma rajada de vento que levante uma telha, é nisso que os jornalistas se vão focar esquecendo tudo o que de bom aconteceu. O noticiário estava a ser uma sucessão de infelicidades, uma colecção de acontecimentos nefastos -- desistimos. 

Agora à noite, depois da nossa caminhada, o meu marido quis ver o futebol, era uma final, parece que tinha que ser nesta televisão. Fui para a outra sala. Posicionei-me nos Casados à Primeira Vista. E adormeci. Não sou capaz de dizer se vi alguma coisa pois, se vi, varreu-se-me instantaneamente.

De tarde pensei que hoje poderia escrever sobre o livro que estive a ler pois, lendo aquelas crónicas, uma opinião se vai formando sobre o que é a motivação, o móbil de vida de um editor, em particular aquele que ali vai desfiando memórias, Manuel Alberto Valente. Creio que o que dali depreendo explica muita coisa. Mas ando com um espírito que não sei se é vadio, se é veraneante, se é simplesmente preguiçoso... Por isso, deixo essa conversa para outro dia. E talvez seja mesmo melhor adentrar-me mais na leitura para não correr o risco de tirar conclusões precipitadas.

À noite, geralmente depois de escrever aqui, como escrever me obriga a estar de olhos abertos, aproveito para ver alguma coisa antes de ir dormir. Nos últimos dias tenho visto o Homem com H. Dado ser sempre tarde e dado estar com sono, tenho visto pouco de cada vez pelo que ainda me falta um bocado para acabar. Mas tenho estado a gostar de mais. 

Ney Matogrosso é um personagem extraordinário. E quanto mais o tempo passa mais extraordinário o acho. Há uns anos, embora gostasse muito de o ouvir, havia ali qualquer coisa que era tão extravagante que eu não sabia se era totalmente genuíno ou um certo gosto em provocar e essa dúvida levava-me a não aderir a cem por cento. Gostava, ouvíamos bastante, mas parece que ficava sempre ali a pairar a questão: ele é mesmo assim, tão superlativo e tão fora da caixa, ou há ali uma encenação que exagera o que ele é? Mas, quando evoluí, fui percebendo que isso era de somenos e que a dúvida, que era minha, não podia levar-me a olhá-lo com alguma reserva. Tinha era que aceitar sem questionar. 

Ney era um bicho, um bicho extraordinário, cantava maravilhosamente, tinha um reportório também fantástico -- e tudo isso tinha que ser suficiente para gostar dele sem qualquer reserva. 

E escrevi que ele era, escrevi no passado, só mesmo por burrice, pois ele está vivo, bem vivo, em forma, jovem, ninguém diria tratar-se de um octogenário. Aliás, olha-se, ouve-se e não se acredita. Afinal tantos excessos não lhe causaram danos, parece que bem pelo contrário, deram-lhe foi saúde.

Mas o filme, que tenho visto na Netflix, misto de filme e de documentário, não apenas retrata a vida de Ney Matogrosso em todas as suas dimensões, não apenas a artística mas a pessoal -- e, neste domínio, a activa e algo louca vida sexual (como ele diz, marchava tudo) -- como tem um intérprete que é igualmente fabuloso. 

Reproduz o Ney de uma forma perfeita, quase assustadora de tão perfeita. Segundo abaixo se verá, Jesuíta Barbosa perdeu 12 kg para reproduzir os 53 kg que Ney tinha nessa altura, estudou os seus trejeitos, os requebros, a forma de olhar e falar.

E há algo nele que parece estar desenhado para encarnar o espírito e a carnalidade de Ney. 

Ver para crer.

A quem tenha a oportunidade de mergulhar no filme, muito vivamente o recomendo. E, para abrir o apetite, aqui fica a conversa de Bial com ambos, a cópia e o original, dois homens extraordinários. E botem h nisso.

Pedro Bial entrevista Ney Matogrosso com participação de Jesuíta Barbosa | Conversa com Bial

No último Conversa com Bial (24/04/2025), Pedro Bial recebeu o icônico cantor Ney Matogrosso e o talentoso ator Jesuíta Barbosa, protagonista do filme Homem com H, cinebiografia que retrata a trajetória de Ney.

Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

Be happy

quarta-feira, junho 25, 2025

Theodoro, Sincera.mente, Kiko is Hot

 

O Instagram mostra-me coisas e geralmente gosto do que me mostra. Os algoritmos são bem concebidos, lá isso tenho que conceder. Por exemplo, ouço com atenção dicas sobre saúde, sobre alimentação, sobre exercício físico e já partilhei um ou dois vídeos com a família. E gosto muito de ver cortes de cabelo e transformações que quase parecem de personalidade só porque a pessoa mudou completamente de penteado ou de cor de cabelo. Quanto a decoração, jardinagem ou culinária isso nem se fala: vejo de gosto e aprendo sempre. Depois há os DIY (Do It Yourself) que me deixam fascinada mas que são tantos e tão variados que não consigo fixar um décimo do que vejo: truques para melhor dobrar e acondicionar roupa, para pintar, para transformar pequenos espaços em espaços multi-usos, para enfiar linha no buraco da agulha, para regar flores na nossa ausência, etc. E relatos de artistas que mostram como pintam, como incorporam outros materiais nas suas obras ou, simplesmente, que mostram os seus trabalhos. 

Um mundo.

E dá ideia que meio mundo tem coisas a ensinar aos outros: três alimentos maravilhosos, três alimentos péssimos, três cremes fabulosos, três truques fantásticos para disfarçar a barriga, três regras de etiqueta para estar à mesa. 

Vou navegando por ali e, como tenho dito, sem propósito. Não tenho nada para ensinar. Pego no telemóvel e digo a primeira coisa que me vem à cabeça. Digamos que são apontamentos, breves e irrelevantes testemunhos mas testemunhos de pensamentos ou coisas banais. Não sei se faz sentido. Penso nos recursos informáticos necessários para acondicionar, catalogar, tornar disponíveis a todo o mundo que queira ver coisas tão despropositadas. É como isto que aqui escrevo. São registos que ficam armazenados em servidores, que circulam pelas redes. Em qualquer parte do mundo a qualquer hora do dia, qualquer pessoa pode ver o que faço. E, no entanto, o que faço é totalmente irrelevante. Mas, se calhar, a vida é mesmo assim, uma sucessão de eventos, uns dignos de ficarem para a história e outros assim, banais, irrelevantes. 

No meio do que me aparece tenho conhecido personagens cuja existência desconhecia em absoluto e que agora vejo na boa. Destaco três. 

Um, o Theodoro, é um influencier brasileiro com mais de cinco milhões de seguidores, que tem recebido prémios e tem sido capa de revista. Acho-lhe piada. É extrovertido, alegre, bem disposto. Mostra-se com o marido, com os pais, com as tias, pessoas humildes, mostra o cão. Claro que não acrescenta nada de extraordinariamente existencial ao mundo. Mas, sendo um jovem gay e que é tão bem aceite pela família e pela sociedade, julgo que isso é importante, sobretudo para que os mais preconceituosos percebam que a homossexualidade não é uma opção, é uma orientação, e não é uma limitação nem uma menorização. Ninguém tem direito a ser mais ou menos feliz por ser ou deixar de ser hetero ou homossexual.


Outro é o Sincera.mente. Acho-lhe um piadão. É genuíno, é divertido, é boa onda. É drag mas uma drag com muita pinta, com bom gosto, inteligente, rápido na construção de uma boa tirada, com uma intuição e uma imaginação toda ela eivada de bom humor. As suas conversas na rua são um monumento à boa disposição e ao humor a sério.


O terceiro é o Kiko is Hot. Não sei bem definir qual a sua actividade (mas é puro desconhecimento meu). Se calhar é artista de teatro. Ou faz podcasts. Ou será DJ? Não sei. Mas gosto dele. É simpático, é divertido, goza com ele próprio. Também é gay. Vi que diz que, por ele, tanto pode ser do sexo masculino como do feminino. E acho que isso tem que ser respeitado. Acho que deve ser uma boa onda, uma boa companhia, uma graça.


Nestes tempos em que parece que a homofobia está outra vez a caminho de ser legitimada, penso que é importante que figuras públicas que são gays não se escondam, mostrem que são estimadas, amadas pela família, respeitadas. E penso que quem está seguro da sua sexualidade e não tem receio de ser 'contagiado' ou receio de ser olhado de lado deve falar do assunto de forma aberta, simples, sem tabus. Só os cobardes podem achar que quem é homossexual é um ser inferior, que pode ser insultado, humilhado, ameaçado.

Mau é ser mesquinho, hipócrita, manipulador, narcisista, mentiroso, vigarista, burro ignorante e prepotente, agressivo. A homossexualidade não é um traço de caráter pelo que afastar ou repudiar ou pretender isolar socialmente alguém só por isso não faz sequer sentido.

Só por ter conhecido estes três bacanos já acho que o Instagram tem valido a pena. 

E só espero que o Chega, com o PSD a reboque, não apareça por aí um dia destes, qual Trump, a querer proibir espectáculos drag. Desta gente tudo se espera. 

terça-feira, junho 17, 2025

3 postais

 

Postal 1

Quando, à tarde, fazemos caminhadas alargadas, por vezes cruzamo-nos com jovens que vêm de algumas obras e vão apanhar um autocarro lá mais ao fundo. Todos negros, pele absolutamente negra, 

Fico sempre agradada com o seu perfume. Cheiram a banho fresco, a cuidados com o corpo e com o rosto. 

Fico a pensar que devem dormir em bairros clandestinos, se calhar sem casa de banho, em casas frágeis e temporárias, ou em quartos, se calhar vários colchões no chão. Nas obras devem ter possibilidade de tomar banho e de se arranjar. Vêm bonitos, bem arranjados.

Devemos muito a estas pessoas que fazem as nossas casas e arranjam as nossas estradas e jardins e que vivem tão precariamente. Pessoas como nós.


Postal 2

Íamos a caminhar à beira da praia, sempre linda e ainda mais ao entardecer. 

À nossa frente ia um jovem alto e robusto, encorpado, aspecto de jogador de rugby. Vinte e muitos, trintas e poucos anos, pernas grossas, peludas, todo ele robusto e musculado, mas sem ser daquele género de ginásio, mais o género desportista de desporto de equipa. Cabelo curto um pouco despenteado, barba. Vestido casualmente, risonho, bem disposto. 

Ao lado dele, um outro jovem em tudo o oposto. Mal chegava ao ombro do calmeirão, perninhas fininhas, todo ele magrinho, um cabelo fino, algo esvoaçante, óculos brancos, graduados. Para acompanhar a passada firme e larga do grandão, o magrinho parecia uma frágil libelinha quase saltitando em volta. Ao ir atrás deles, pareceu-me reparar que, de vez em quando, as mãos quase se tocavam. Conversavam, riam, de vez em quando abrandavam ligeiramente, parecia-me que o grande lenhador percebia que o outro estava com dificuldade em acompanhar a sua passada ampla. 

Perguntei ao meu marido: 'Não é um casal, pois não?'. O meu marido ia focado no nosso cão e noutros pois há sempre quem deixe os seus sem trela e há que evitar encontros destes, pois facilmente tendem para o confronto. Olhou de relance e foi categórico: 'Não!'. 

Mas, nessa altura, pararam ambos, o mais baixo agarrou a cara do grandalhão, pôs-se em bicos de pés e deu-lhe um beijo na boca. O outro correspondeu. Deve ter sido o primeiro beijo pois desataram a rir como se tivessem dado um grande passo, depois abraçaram-se. Depois, prosseguiram de mão dada, o magrito quase esvoaçava de alegria. O grandão sorria também mas de forma contida, quase como quem não quer a coisa. 

Tomara que não seja apenas um namoro de verão, que seja um amor para a vida.


Postal 3

Passou por nós um homem gordo a andar de bicicleta. Ia de calções e tshirt mas, pela forma como ia sentado e pela sua forma avantajada, ia com o rabo meio de fora. Ao lado dele, correndo, preso por uma trela, um cão. 

Quando me cruzei com ele pensei que estava com ar de ir com os copos. 

Passado um bocado, já mais adiante, um estrondo, um grito. Olhámos. O homem estava no chão, a bicicleta caída, e o cão, solto, muito admirado a olhar para ele. O homem deu outro grito pelo cão, mas o cão estava imóvel., notoriamente assustado com a queda do dono. 

Parámos para vermos se era precisa ajuda. O homem, a custo, tentava levantar-se. Mais uma vez fiquei com a sensação que não estava especialmente sóbrio. O cão aproximou-se, arrastando a trela. Finalmente, o homem conseguiu montar-se outra vez na bicicleta, o rabo ainda mais de fora. E lá prosseguiu, meio aos esses. O cão ao lado, a levar o dono à trela.

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Dias felizes

Be happy

quarta-feira, julho 24, 2024

Veado de Ouro

 

Então toda a gente pode invocar a silly season e eu não? Era o que mais faltava. Silly season é bom e eu gosto.

Estou carecendo de férias e, em plena carência, resolvi levar a cabo um conjunto de coisas de que, com vossa licença, sobre algumas vou guardar segredo. O que posso dizer é o que se tem visto: ou por isto ou por aquilo ou por mil outros motivos ando ocupada e bem ocupada et pour cause tenho-me mantido saudavelmente afastada do massacre constante dos comentários sobre as notícias. Reparem no que eu disse: comentários sobre as notícias. Os omnipresentes comentários que estão a devorar as notícias. Não tenho saco. Muito menos tenho acedido a partilhar o visionamento do Big Brother CPIs. Isso ainda menos. Não há pachorra. Não me assiste.

Só tarde e más horas me sento em frente da televisão e, ainda assim, o que vejo é o que me é dado ver no intervalo dos zappings que o meu marido incessantemente faz. Tem dormido até mais tarde pelo que adormece também mais tarde. Por isso, a esta hora ainda não está a dormir: anda a fugir dos comentadores.

Poderia procurar programas lá mais para a frente, National Geographic ou assim. Mas dá-lhe preguiça e eu compreendo-o porque a mim também me dá preguiça dizer que pare com o zapping. É assim a vida.

Por isso, nestes entretantos, espreito as notícias aqui no computador e, não me interessando o suficiente por nenhuma para me adentrar no seu âmago, esgueiro-me até ao Youtube. E ai, certo e sabido, aparece-me sempre coisa que vai de encontro às minhas motivações ou necessidades, nomeadamente às de me divertir. 

Hoje voltou a trazer o meu amigo Milton Cunha. Só tenho pena que ele viva tão longe. Devia vir morar para a minha rua e tornar-se meu amigo. Devia vir aqui bater um papinho todos os santos dias. E ele devia querer que eu lá fosse, a casa dele, ver as suas toilettes. Acho-o o máximo.

Milton Cunha fala sobre o troféu VEADO de OURO! 

| Avisa Lá Que Eu Vou | GNT

Milton Cunha e Paulo Vieira falam tudo sobre o evento mais PROFANO cultura do CÍRIO de NAZARÉ que é a festa da Chiquita e o prêmio VEADO de OURO


Dias felizes!

terça-feira, setembro 26, 2023

Stefanos Kasselakis --- qual o espanto...?
É simples... está à vista....

 

Parece que há agora um novo líder no Syrisa. E meio mundo ficou de queixo caído por ter aparecido, do nada, um manganão que vivia nos States, empresário, que trabalhou no Goldman Sachs e sei lá que mais. Ou seja, tal como se tivesse sido gerado e alimentado pelo sistema capitalista, apareceu esta ave rara. E muita gente, muito justamente, veio dizer que já não se percebe nada disto: afinal onde é que está a linha que separa a esquerda da direita.

Eu não sei responder a nada disto. Nunca tinha ouvido falar no Stefano. Agora uma coisa eu sei. Tal como é sabido e consabido desde os tempos em que Harry Selfridge organizou os seus armazéns no início do século passado, colocando na entrada o que agradava às mulheres (maquilhagem, moda, chapéus, luvas, etc), quem decide como vai ser são as mulheres.

E as mulheres, santa paciência, simpatizam de caras com o Stefanos. Virão advertir-me que o safado é gay. Pois, bem sei. Mas mesmo que não fosse, o que é que eu e as muitas mulheres que votaram nele íamos fazer com ele..? Nada, certo...? Olhar... Ouvir... Acreditar... Ora, se é para olhar e ouvir e acreditar... que diferença faz que seja gay...?

Portanto, se é para ver e ouvir (coisa forçosamente platónica, digamos assim), não é melhor que seja um giraço com um sorriso lindo, fofo, queridésimo, simpático todos os dias...?

E isto sou eu, hetero, a falar. Agora, se a mulherada se encanta, imagine-se o que não pensarão os homens gays lá do burgo...? Tudo a votar no menino... Ora não.

Mas se acham que isto é conversa da treta -- e claro que é -- deixem que transcreva o que o Guardian diz (tradução às três pancadas do artigo Stefanos Kasselakis: ex-banker who lit up Greek politics to lead Syriza):

Ao meio-dia de segunda-feira, Stefanos Kasselakis, um executivo do setor marítimo e ex-negociador do Goldman Sachs, caminhou pelos corredores do parlamento grego para ser coroado chefe do Syriza, o outrora partido radical de esquerda do país.

Ninguém poderia parecer mais fora de sintonia com uma força política tão mergulhada na turbulência da sangrenta história do pós-guerra da Grécia. Mas Kasselakis, com um sorriso aparentemente permanente nos lábios, desafiou todas as probabilidades. Depois de iluminar os céus da sóbria cena política do país com uma campanha no alto do vigor das redes sociais, o greco-americano de 35 anos não só emergiu como o vencedor da corrida de duas voltas para liderar o Syriza – ganhando 56,69% dos votos – mas provou que é muito mais do que uma estrela cadente.

Há apenas seis meses, Kasselakis era um desconhecido político arrancado da obscuridade pelo líder cessante do Syriza, Aléxis Tsipras, para se apresentar como candidato expatriado nas eleições estaduais do partido nas eleições nacionais de Maio. Desde que deixou a Grécia, ainda adolescente, com uma bolsa de estudos num prestigioso internato de Massachusetts, depois de vencer uma competição de matemática, ele não olhou para trás.

Se os roteiristas tivessem tido a chance de escrever o roteiro, eles poderiam ter tropeçado. E não só porque o antigo “Garoto de Ouro” – apelido dado a Kasselakis pelos colunistas – vem dos EUA com um currículo que nenhum esquerdista que se preze poderia endossar.

Num país mediterrânico mal preparado para eleger uma mulher como primeira-ministra – e muito menos um homem assumidamente gay – ele chegou à Grécia com o seu marido, Tyler McBeth, um enfermeiro norte-americano que conheceu e por quem se apaixonou em Miami.

McBeth, que assim como Kasselakis, começa o dia malhando na academia, apareceu sorrindo ao lado dele desde o início da corrida pela liderança – o casal entrou na união civil há quatro anos. “A minha mãe”, disse recentemente o novo líder do Syriza, “nada mais quer que nós tenhamos filhos e possamos vir ajudar-nos”.

No domingo, Kasselakis fez de tudo para garantir que a sociedade socialmente conservadora da Grécia soubesse exatamente quem era o seu marido, chamando McBeth para se juntar a ele no seu discurso de vitória fora da sede do partido.

Além disso, a ascensão de Kasselakis surgiu do nada.

O escritor de esquerda Dimitris Psarras, evocando a ansiedade que o súbito aparecimento do greco-americano desencadeou entre os quadros do que outrora foi uma aliança de marxistas, ex-comunistas, ecologistas e social-democratas, disse: “É como se a Netflix tivesse entrado, assumido o controle do party e agora está transformando-o em uma série. As pessoas não têm ideia do que se trata a sua política, ou se ele tem algum programa. É claro que eles estão em choque.”

(...)

Em retrospectiva, o anúncio poderia ter sido escrito por psicólogos comportamentais – o recém-chegado político falou publicamente sobre fazer terapia para lidar com a sua sexualidade.

Pesada na história de vida e na verdade, a declaração começa: “O meu nome é Stefano e tenho uma coisa para vos contar. Nasci em Maroussi [um subúrbio de Atenas] em 1988, num país com primeiros-ministros hereditários; numa família com pais que se criaram por conta própria. A minha mãe, dentista, trabalhou dia e noite para sustentar o meu pai enquanto ele abria sua empresa.”

No final do vídeo, Kasselakis falou sobre o colapso económico de sua família, como foi parar aos EUA “sozinho com bolsa integral”, cursou a Universidade da Pensilvânia, conseguiu um emprego no Goldman Sachs, entrou no mundo do transporte marítimo – ganhando uma pequena fortuna no processo – e conheceu “o sopro de liberdade” na sua vida, Tyler.

A sua decisão de aderir à corrida pela liderança do Syriza – permitida a qualquer membro assalariado do partido – nasceu, disse ele, do desejo de “construir o sonho grego”.

“Tenho consciência de que não tenho experiência partidária. A minha experiência é no trabalho e na vida social”, disse Kasselakis aos ouvintes, insistindo que com o seu melhor inglês, melhores competências empresariais e melhores diplomas, poderia não só derrotar o primeiro-ministro grego, Kyriakos Mitsotakis, mas também expulsar o centro-direita do poder. “Para que o sonho grego se torne realidade, temos de derrotar aqueles que beneficiam de uma Grécia que é um campo árido e não da Europa na prática”, disse ele.

Quer quisesse ou não, Kasselakis fez o que nenhuma outra pessoa conseguiu fazer: transformar a política grega num pseudo-reality show televisivo em menos de um mês.

Mas o que ele também mostrou tão acertadamente é que quatro semanas é muito tempo na política, o suficiente para apagar o passado e para “redefinir” um partido.

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 Uma boa terça-feira

Saúde. Boa disposição. Paz.

sexta-feira, julho 14, 2023

Quando a mulher chegou mais cedo, o marido foi apanhado nu mas disfarçou -- mas o pobre do Wellington teve que se atirar para debaixo da cama, ainda por cima vestido de Carla Perez

 

A minha vidinha, no que a certas tropelias diz respeito, é muito pacífica. Nunca fui apanhada pelo meu marido na cama com outro, nunca tive que esconder qualquer amante debaixo da cama ou dentro do roupeiro e, até ver, também nunca o apanhei a ele ou a alguma jeitosa a quem eu tivesse interrompido a farra em situação idêntica.

A bem dizer também não conheço ninguém a quem isso tenha acontecido.

O mais parecido com isso que pessoalmente conheço é uma pessoa da minha família que andava desconfiada com o marido (e nem ela sabia da missa a metade) e que, num dia em que lhe ligou para o emprego e lhe disseram que ele tinha metido um dia de férias, teve uma epifania e lembrou-se de uma tal a quem ele a tinha apresentado tempos antes tendo ela detectado ali um certo desconforto. Puxou pela cabeça, lembrou-se do nome, lembrou-se de ele ter dito onde é que ela trabalhava e, desenfreada, ligou para lá, dizendo-se amiga.

Informaram-na que a dita senhora estava de baixa pois, justamente nesse dia, era operada a não sei o quê (sei mas não vou dizer não vá o diabo tecê-las). Tão convincente deve ter sido que lhe disseram o nome do hospital (que era privado) onde a coisa se tinha dado.

Uma mulher ciumenta e que admite estar a ser traída fica com a inteligência aguçada e todas as barreiras mentais e psicológicas desaparecem. Fica um animal perigoso.

Portanto, completamente desencabrestada, meteu-se no carro, determinadamente avançou por Lisboa, entrou no hospital sem medir consequências, conseguiu saber o número do quarto e, num instante, completamente destemida, estava a abrir estrepitosamente a porta e a dar de caras com o casal de pombinhos, ela combalida e o extremoso namorado de mão dada com ela.

Quando viu a mulher a irromper por ali adentro adentro, o marido apanhou o susto da vida dele. Enquanto estava de boca aberta a tentar inventar uma desculpa, já a mulher estava a sair a correr, a meter-se no carro e, sabe-se lá porquê, a ir recolher os filhos.

Ele saiu a correr atrás dela mas já não a apanhou. Nesse dia toda a família sabia do acontecimento, uns a rirem com o divertido da cena, outros a dizer que estranhavam é que ela tivesse demorado tanto tempo a descobrir, outros a dizerem cobras e lagartos dele.

O caldo entornou-se, claro. Mas, por acaso, nessa altura, apenas temporariamente.

Mas, que me lembre, é o único caso em que alguém meu conhecido foi apanhado quase de calças na mão. Mas deve acontecer com alguma frequência pois é tema assaz referido.

Agora o vídeo aqui abaixo é hilariante. 

Wellington se escondeu embaixo da cama, vestido de Carla Perez! |Que História É Essa, Porchat? | GNT

O sonho de Wellington Pinheiro era ser e dançar como a Carla Perez, mas acabou a noite vestido como sua musa, escondido embaixo da cama de um homem casado! Como assim!? 😳


E tudo de bom
Saúde. Bom humor. Paz.

terça-feira, janeiro 10, 2023

Ninguém sabia que ele era lésbica.
(Mas agora já sabem).

 

Ele há coisas. Em meios pequenos se calhar é mais difícil. Mas quando a malta enche o peito de ar e se assume, é do melhor que há. 

in “Humans Doing Human Things”


Assume-te

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Desejo-vos um dia bom

Saúde. Risadas das boas. Paz.

terça-feira, junho 28, 2022

Sair do armário, sair à rua, brincar e sorrir orgulhosamente

 

Penso que não é propriamente caso para se ter orgulho. Nem ter nem deixar de ter. É o que é e ponto final. Não sinto orgulho por não ser gay. Não sinto nem deixo de sentir. Nasci assim. Fazer o quê? Se tentasse mudar acho que não conseguia. Cada um é como é.

Já o disse aqui muitas vezes: não concebo qualquer tipo de discriminação em função da orientação sexual. Quem a pratica revela ser bronco, retrógrado, preconceituoso, grunho, cavernícola.

O que também me faz muita impressão é ser gay e, por vergonha ou qualquer tipo de condicionamento a que se sinta sujeito, não o assumir, vivendo uma vida de ocultação, de disfarce, de negação. Conheço um caso assim no masculino e outro no feminino. Parecem pessoas felizes mas imagino as barreiras internas a que quotidianamente se submetem e as frustrações que vivem na sua íntima solidão. E se calhar conheço outras pessoas de que nem desconfio.

Que receiam essas pessoas? Serem alvo de chacota? De rejeição? Incapacidade em viver a pleno a sua sexualidade?

Não sei mas, se me puser no seu lugar, imagino que se eu, toda a vida, tivesse forjado uma sexualidade que não era a minha, talvez sentisse receio de assumi-lo perante o meu marido, os meus filhos, os meus netos, os meus amigos e conhecidos. Se calhar recearia o seu olhar, temeria confundir com troça qualquer inofensivo sorriso. É preciso alguma coragem, sim. Por isso é bom que se assuma com naturalidade a sua condição o mais cedo possível.

Por haver ainda tantos tabus penso que é importante que aqueles que já os romperam exibam publicamente a sua condição. E que usem o humor. Talvez a sua alegria e o tom de brincadeira com que se referem à sua condição de gay incentive os que se sentem receosos.

Vi uma selecção de cartazes engraçados usados em manifestações gay e apeteceu-me trazer aqui alguns. 

















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E post do UJM sem música não é post do UJM. Portanto que entre a Menina Lizzo, figura querida dos movimentos LGBTQ+

It's About Damn Time Lizzo Blessed Our BET Awards Stage Again! | BET Awards '22



E viva a vida!

sexta-feira, novembro 26, 2021

Um Pai Natal gay...?

 

E as reticências seguidas de um ponto de interrogação, calma aí, devem-se apenas à minha admiração. 

E devo esclarecer que, num primeiro momento, o significado da palavra admiração foi 'espanto'. 

Depois li a explicação. Os Correios noruegueses, com este postal de Natal, pretendem evocar os 50 anos da despenalização da homossexualidade na Noruega.

Digamos que é um vídeo inesperado. Inusitado. Vivendo eu numa sociedade como a nossa em que a homossexualidade, em muitos meios, ainda é encarada como uma aberração ou uma deformação digna de gozação, um cartão de Natal em que o tema é a atracção entre homens e em que um deles é nada mais, nada menos que o Pai Natal, não escondo que, enquanto via, me interrogava: '... mas a que propósito vem isto...? que coisa disparatada...'

Mas, depois, sabendo qual a inspiração e sabendo que tudo o que se faça é pouco para que todos aceitemos os homossexuais como iguais, o significado da palavra admiração converteu-se em 'respeito'.

Harry, o habitante da casa, deixa um cartão a dizer que «Tudo o que eu quero para o Natal és tu, Santa» e o Pai Natal, já retirado, envia os presentes pelo Correio mas comparece para encontrar o seu amor. E beijam-se. 

Que melhor presente de Natal se pode ter do que a confirmação e a consumação do amor, em especial quando o amor era, antes, clandestino e, por isso, indefinidamente adiado, negado?

Quantos homens, pais de filhos, casados numa relação hetero, vivem uma vida de negação e encenação, recalcando em silêncio a sua atração e amor por outro homem? E, quem diz homem, diz mulher no caso da homossexualidade feminina.

Uma sociedade não será humana, inclusiva, progressista, civilizada, capaz de evoluir de forma saudável enquanto uma parte rejeitar outra parte, mesmo que a parte rejeitada seja uma minoria.

Por isso, que o Pai Natal seja hetero ou gay, real ou inventado, alpinista ou limpa-chaminés, magro ou gordo, barbudo ou cabeludo, sonhador ou comerciante, tanto faz. Que seja o que cada um quiser que ele seja.

E que o Harry e todos os Harrys desta vida encontrem o Pai Natal que desejam. E, se não for este ano, que seja quando puder ser. Mas que seja.


Em tempos tão difíceis, a braços com uma pandemia que não dá tréguas, no meio de incertezas terríveis como as que advêm da emergência climática, com tanta gente a sofrer angústias, ansiedades, medos, tanta gente aprisionada na mais triste solidão... eu desejo que saibamos passar por cima do que nos divide e nos juntemos em torno do que nos une. 

Lirismo, claro, mas, ainda assim, um sincero desejo. 

Lutemos pelos nossos ideais, procuremos o que nos faz felizes, deixemos de lado o que não interessa, afastemo-nos do que e de quem nos faz infelizes, compreendamos o quão efémera é a nossa passagem pela terra e não desperdicemos o tempo que nos coube em sorte com o que não empolga ou enternece o nosso coração. 

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Be happy

quinta-feira, agosto 19, 2021

Perseguições, tiros, esguichos, cartazes, slogans e etc.

 

Foi a minha filha que, no outro dia, in heaven, se lembrou de que ali seria bom para fazerem paintball. Claro que isso desencadeou logo um movimento a favor. E até que a coisa se concretizasse foi um ápice. O meu filho, antes fervoroso praticante, ocupou-se do procurement. 

Hoje juntaram-se todos aqui para jogar na zona da horta. Não há a largueza que há lá no campo mas dá para principiantes. Antes, o meu filho enviou as regras para que todos os guerrilheiros as soubessem de cor e salteado. Enviou também instruções para o dress code (calas de ganga, blusas de manga comprida, ténis).

Portanto, todos vestidos a rigor e na posse da sua arma, com a máscara posta e sabendo já as regras, deu-se início à refrega. O meu marido esteve de árbitro. Num lugar mais elevado zelou para que não houvesse batotas nem lesões desnecessárias. A minha filha ficou a cronometrar os ataques. Eu a fazer a reportagem. Os demais participaram, alinhando-se em equipas adversárias. O mais pequeno, que estava de máscara mas como mero acompanhante do pai, aborreceu-se fortemente, também queria uma arma. Como tal não é possível, desatou a chorar, desgostoso. Melhor: furioso. Felizmente a tia tinha no carro uma arma de água, usada na praia. E assim foi que, no meio daquela guerrilha, o mais pequeno desestabilizou toda a gente, guerrilheiros, árbitro e repórter, encharcando-os a todos. Creio que apenas poupou a tia, vá lá saber-se porquê.

Durante os raids, com disparos, gritos e corridas, o que se ouvia mais eram os gritos contra o jovem aguadeiro.

E, no final, no rescaldo, ninguém se tinha lesionado ou ficado especialmente magoado mas quase toda a gente estava um pinto. 

A maior vítima foi a irmã, jovem guerrilheira que evidenciou ter, sobretudo, espírito pacifista. Ao invés dos demais que se perseguiam, atacavam ou armavam emboscadas, ela ficava escondida, esperando que ninguém desse por ela. De vez em quando disparava umas balas (para quem não saiba, as balas aqui são umas bolinhas biodegradáveis, de gelatina com tinta no meio), sem se perceber qual o objectivo pois, aparentemente, não visava nenhum alvo. Foi, pois, vítima fácil do irmão que a deixou a pingar.

Entretanto, eu tinha encomendado pizas. Por razões que devem ter tido a ver com a elevada procura, apenas chegaram cerca de hora e tal depois, já tudo estava cheio de fome e o meu marido impaciente e, como é seu costume, a atirar-me as culpas, no caso por não as ter encomendado logo às seis da tarde.

Jantámos já noite, de luz acesa -- na rua, claro -- e toda a gente conversou enquanto devorava as ditas. 

Quando aqui cheguei ao sofá pensei que não ia conseguir escrever nada, de tal forma estava cheia de sono. É que hoje, para mal dos meus pecados, a alvorada tinha sido, uma vez mais, com as galinhas. E, também para mal dos meus pecados, não apenas, de véspera, tinha ido para a cama a horas inconfessáveis como tinha ido sem sono. Portanto, foi mais uma noite de descanso insucedido. Enquanto eles cá estão, estou bem, sem sono ou cansaço. A alegria de os ter juntos e alegres na companhia uns dos outros é tanta que qualquer vestígio de cansaço se dissipa na íntegra. Mal viram costas e chego ao sofá, volta em força. Chama-se a isto falta de férias. E, para esse padecimento, só há um tratamento possível: férias.

No meio destas minhas azáfamas e little afazeres ainda nem prestei atenção às autárquicas. Os cartazes já por aí andam mas parece que o espírito da coisa ainda não baixou em mim. Acho que já tenho claro em quem vou votar mas, ainda assim, gostava de conhecer as alternativas. 

Mas há com cada cartaz... Em alguns casos é o mau gosto da pose ou o ridículo excesso de photoshop tirando vinte anos aos visados, noutros é o próprio fácies dos próprios que não ajuda. 

Sei que não o devia revelar pois há coisas que, a priori, se sabe que não são especialmente bem comportadas ou politicamente correctas. Mas ninguém aqui é perfeito nem tenta fazer-se passar por isso. Portanto, vou contar.

É que o máximo de atenção que temos prestado às autárquicas é quando, indo de carro, nos deparamos com os cartazes. De um, o meu marido disse: 'Não deviam ter feito um cartaz com esta gaja. Com uma cara destas, haverá alguém que vá votar nela...?' e eu dou-lhe razão. Há caras que não enganam. Pior foi o comentário quando viu um cartaz com três mulheres. Disse: 'Deixem passar, deixem passar, nós somos fufas e o mundo vamos mudar'.

Parafraseava, como é óbvio, os ditos da célebre manif abaixo reportada e da qual tive conhecimento através de Mestre Plúvio ao partilhar tão preciosa pérola:


E, de facto, olhando aquelas três naquele cartaz, a ideia de participarem numa manif com aquele maravilhoso grito de ordem parece-me muito possível. Não que a orientação sexual dos candidatos tenha alguma coisa  a ver com a orientação política de quem neles vota mas, ainda assim, não sei se aquele cartaz, com aquelas três, com as expressões e, sobretudo, os penteados que têm, faz muito sentido.

Apenas acrescento que o meu marido tem uma característica: pega na letra de uma canção e mantendo a métrica e o tom, troca-lhe as voltas, vira-a do avesso, torna-a absurda ou maliciosa. Felizmente só exercita esse seu dom ao pé de mim pois, geralmente, é altamente inconveniente. Desta vez, trocou parte do slogan e tornou-o absolutamente impróprio para salão. Mas, lá está, manteve a métrica e o sentido. Levou-o foi ainda mais longe. Tanto que obviamente não o posso aqui revelar. Private, private jokes.

E, para já, sobre autárquicas, é o que me apraz dizer. E, sobre qualquer outra coisa, para já, é a mesma coisa: aos costumes digo nada.


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Pinturas de Hsiao Chin ao som de Catrin Finch que interpreta Clear Sky

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Um dia bom.
Saúde. Alegria. Força. Esperança.

domingo, fevereiro 21, 2021

Björn Andrésen não morreu em Veneza

 

Tenho um amigo cinéfilo. Pelo menos, assim se define. Durante anos consumiu compulsivamente filmes. Agora consome séries. E memoriza argumentos, realizadores, intérpretes. Por vezes pergunta se vi isto ou aquilo e, desmiolada como sou, geralmente não me lembro. Só quando dá detalhes, acabo por reconhecer e, muitas vezes, fico aborrecida comigo pois até tinha gostado... e tinha-se-me varrido. 

Uma vez fiz-lhe aquela pergunta que acho absurda e à qual não consigo responder quando ma fazem: qual o seu filme preferido? Pensei que iria dizer que era impossível escolher, que são muitos os muito bons, os preferidos. Mas não. Para meu espanto, convictamente, respondeu: Morte em Veneza. 

E, a seguir, em estado de um deslumbramento quase hipnótico, começou a falar da beleza daquele miúdo, na obsessão do homem mais velho pela juventude sedutora do rapaz. Eu disse: Uma beleza tentadora. Ele confirmou: sim, uma beleza tentadora.


Não me esqueço da forma como ele recordou a cena da praia e outras... e de como o seu olhar quase estava alheado da minha presença ao pensar nessas cenas. 

Contou-me que não sabe quantas vezes já viu o filme. 

Também gostei muito do filme. Não li o livro pelo que não sei avaliar se, em palavras, a rendição do homem é tão absoluta e, por vezes, tão patética ou se beleza tentadora do rapaz é tão cativante -- ou se são as figuras de Dirk Bogarde e Björn Andrésen que tornam a história de Thomas Mann tão erotizada, tão bela, tão intemporal. Claro que Visconti e toda a equipa não terão sido de somenos no sucesso do filme mas, seja como for, o rosto de anjo atrevido e o corpo juvenil e apelativo de Björn Andrésen no papel de Tadzio não serão jamais esquecidos.

No entanto, tendo sido alguém tão marcante não tenho ideia de se ter voltado a falar nele. Ainda será vivo? Será ainda um homem com uma beleza invulgar?

Fui saber. E, como tantas vezes quando um jovem é tão idolatrado pela sua beleza na juventude, parece que lhes fica colada ao corpo uma espécie de maldição. Neste caso até parece que os dramas por que passou não terão tido a ver com a profissão mas com a morte súbita de um filho, bebé. Contudo, a carreira cinematográfica, ao que parece, não evoluiu substancialmente. E a beleza... bem... a beleza obviamente foi perdendo aquele viço que a inocência virginal acentuava. Mas é a vida. Só permanecem para sempre jovens e belos os que cedo se desprendem da vida terrena. 

Björn Andrésen tem 66 anos, é actor e músico, tem uma filha e dois netos.


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Desejo-vos um feliz dia de domingo.
Saúde. Ânimo. Paciência.

quinta-feira, fevereiro 04, 2021

Eles amam-se -- um século de homens apaixonados em imagens

 



Nos tempos que correm pode parecer estranho que a homossexualidade ainda seja tema olhado com algum desconforto. Em meios mais pequenos, a homossexualidade é ainda vista como uma característica desviante, como se um homossexual fosse um ser perverso, defeituoso ou ridículo. Mesmo em meios supostamente mais evoluídos, pelo menos por cá, quem é homossexual ainda receia expor-se à censura ou ao desdém. As pessoas homossexuais que conheço, apesar de pertencerem a meios cosmopolitas, não assumem a sua orientação. Creio que sejam habitados por um permanente receio de que sejam descobertos e que, sendo-o, passem a ser olhados com comiseração ou desconsideração. Uns tentam disfarçar contando muitas anedotas sobre gays, outros falam com displicência como se fosse tema que não lhes dissesse respeito e outros especializaram-se em, inteligentemente, desviar o assunto para outros terrenos. 

Em todos os grupos, sejam grupos do que for, há os que se situam na média, geralmente a grande maioria, e os que se situam nas franjas, geralmente uma minoria. Portanto, que se diga que os homossexuais são uma minoria é apenas uma constatação, não é mal. O que é mal é que isso venha acompanhado por censura ou repúdio.

Claro que se frequentarmos outros meios, por exemplo, se passearmos no Chiado (quando o podíamos fazer), veremos casais homossexuais assumidos que não escondem o seu afecto. Por exemplo, quando, numa outra vida, podia satisfazer o meu gosto por aliar o ambiente da beira do rio e o dos edifícios decadentes, indo passear para um dos lugares mais belos do mundo, o meu saudoso Ginjal, era frequente ver casais de mulheres homossexuais abraçadas, beijando-se. Não sei se fora dali mostrariam o seu afecto com a mesma naturalidade mas ali eram normais casais de pessoas enamoradas. De qualquer forma é ainda uma situação pouco frequente.

Já aqui o disse muitas vezes. Eu percebo que é mais confortável a gente sentir que não destoa da maioria e que, se nos sentirmos destoantes, nos inibamos de exibir a nossa diferença. Mas muito pior será se os outros apontarem a dedo, gozarem, achincalharem os que já, por si, se sentem pouco à vontade com  situação. Mas se eu sou heterossexual porque o sou e não por opção, também os que são homossexuais o são porque são e não porque o queiram ser. E da mesma forma que não me imagino a escamotear a minha orientação sexual para não ser objecto de repúdio social, imagino o que seria o meu sofrimento se fosse homossexual e passasse uma vida inteira e escondê-lo.

Por isso, tudo o que se faça para mostrar que qualquer pessoa deve ser livre de viver a sua sexualidade em paz e sem vergonha é pouco. 

O vídeo que abaixo partilho convosco mostra uma série de fotografias que mostram o amor entre homens.

Transcrevo parte do artigo da Vogue que apenas por preguiça transcrevo sem traduzir, desejando que parte dos meus Leitores consiga entender ou que o tradutor da google não deforme muito o texto.

“Ils s'aiment” : un siècle d'hommes amoureux en images

Cela n'était censé être qu'une simple collection. Depuis des années, Hugh Nini et Neal Treadwell accumulent des photographies vintage d'hommes qui s'embrassent et s'enlacent, des hommes qui s'aiment, tout simplement. Comme une leçon de vie et une manière de faire perdurer ces amours, à l'époque interdites et réfutées, le duo compile pas moins de 350 photographies dans l'ouvrage Ils s'aiment, publié aux éditions Les Arènes et 5 Continents.

Ces clichés, qui datent d'entre 1850 et 1950, ont été pris à une époque où l'homosexualité était complètement maudite, voire jugée comme un délit. Ils s'aiment est plus qu'un simple livre, c'est un manifeste de tout ce qu'il y a de plus pur : l'amour. Dans leur quête, Hugh Nini et Neal Treadwell ont réussi à dénicher des clichés qui proviennent du monde entier, des États-Unis, de France, du Canada, de Bulgarie, du Japon mais aussi de Thaïlande. Ces photographies, plus éclectiques que jamais, immortalisent des hommes provenant de tous les milieux de classes sociales : dandy new-yorkais ou ouvriers de province, riches et moins riches, blancs ou noirs, civils ou militaires…  C'est un authentique hymne à l'amour ponctué de moments tendres et passionnés, enfin dévoilés au grand jour. (...) 


E viva o amor.

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Desejo-vos uma boa quinta-feira