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sexta-feira, janeiro 16, 2026

Um mundo de doidos...
Porque é que o fato de treino usado por Nicolás Maduro fez disparar as vendas da Nike?

 

De repente, parece que há cada vez mais coisas que não fazem sentido. 

Bem, se calhar não foi de repente, se calhar tudo isto era fácil de antever. Vamos fechando os olhos a isto, depois àquilo, depois fartamo-nos de ser tão cépticos e vamos dando o benefício da dúvida, vamos olhando para o lado, fazendo de conta que não vemos, temos mais que fazer... até que um dia damos por nós e estamos metidos num molho de brócolos, o mundo que conhecíamos de pantanas.

No outro dia ouvi uma pessoa dizer que Trump está a destruir em meia dúzia de meses o que a civilização levou para cima de um século a conseguir.

Li o artigo cujo título está lá em cima, a encabeçar este post. Revejo-me nele. Por isso, permito-me transcrever a maior parte dele. 

Nicolás Maduro com calças de fato de treino da Nike no porta-aviões USS Iwo Jima, após a sua captura. Fotografia publicada a 3 de janeiro pelo presidente Donald Trump nas redes sociais. @realDonaldTrump


A foto de Maduro em fato de treino, publicada por Donald Trump e relativa à sua detenção, tornou-se viral, e a peça em questão tornou-se muito desejada. Hilariante? Chocante? Apavorante?

Não sei quanto a vocês, mas nos últimos meses tenho-me sentido como se estivesse a viver num mundo irreal, numa série distópica da Netflix ou num programa de burlesco a solo. O mundo tornou-se confuso, insano; as redes sociais inundam-nos com imagens de um presidente americano a dançar ao som de YMCA, a fazer caretas e a dobrar sketches que provocam tanto risos como consternação. O líder do país mais poderoso do mundo aparece diariamente nos nossos ecrãs através de imagens que são reais ou geradas por inteligência artificial — é difícil de distinguir. Até onde vai este show do Trump?

Um fato de treino cinzento que se tornou viral

Esta surpreendente extravagância invadiu recentemente o mundo da moda. A última alucinação? Ou melhor, o maior espanto? A história de um simples fato de treino cinzento que, através de um "Trumpismo", esgotou após uma fotografia partilhada pelo próprio Donald Trump na sua rede social Truth Social para ilustrar a detenção do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Um breve resumo para aqueles que possam ter adormecido e ainda estejam meio adormecidos desde 3 de janeiro. Nesse dia, o presidente norte-americano publicou uma fotografia de Maduro, algemado, vendado e de auscultadores a bordo do navio de guerra USS Iwo Jima. O homem que seria julgado nos Estados Unidos por conspiração narcoterrorista vestia um fato de treino cinzento da Nike, composto por um casaco e calças da linha Nike Tech Fleece.

Alguns especialistas em canais de televisão protestaram de imediato, condenando a humilhação máxima: certamente que as autoridades americanas poderiam pelo menos ter deixado o ex-presidente venezuelano vestir-se e não se expor ao mundo com um velho fato de treino cinzento fechado. Claramente, não compreenderam o mundo moderno. Porque apenas algumas horas depois da exibição, este momento altamente geopolítico já tinha migrado para outra arena: o mundo da moda. A 4 de janeiro, a imagem espalhou-se como fogo em plataformas para adultos como o TikTok e o Instagram, gerando uma infinidade de memes, fotomontagens e paródias irónicas. Maduro de fato de treino, a nova estrela do TikTok?

Frenesi Comercial

A história podia ter terminado aí. Mas da histeria mediática ao digital e, depois, ao comercial, tudo aconteceu em termos de cliques. Após a explosão de pesquisas no Google por "Nike Tech" e "Nike Tech Fleece", como evidenciado pelos dados do Google Trends, o casaco e as calças desportivas Nike de Maduro esgotaram-se como água em poucos minutos. Vários tamanhos, especialmente os maiores, desapareceram quase instantaneamente do stock online. O preço das ações da Nike também acompanhou este frenesim. As suas ações na Bolsa de Nova Iorque saltaram de 63,33 dólares no fecho do dia 2 de janeiro para quase 65 dólares por volta das 17h00 do dia 5 de janeiro. Será que Trump se vai gabar em breve de ter provocado, graças à sua espetacular intervenção na Venezuela, uma escassez global de ações da Nike? É fácil imaginá-lo a dar alguns passos de dança em frente à câmara enquanto canta "Just Do It" (o famoso slogan da Nike).

(...)

Mas será que não conseguimos encontrar algo mais inspirador para o nosso guarda-roupa atual do que um fato de treino cinzento e sem graça usado por um ditador bigodudo e fotografado por um presidente caricato?

[Transcrição quase integral de Pourquoi le jogging porté par Nicolás Maduro a-t-il fait exploser les ventes de Nike ?, de Marion Dupuis, no Madame le Figaro]

segunda-feira, janeiro 05, 2026

E se aquilo de os Estados Unidos irem 'tomar conta' da Venezuela tiver sido mais uma maluquice do Trump... uma maluquice que lhe ocorreu no decurso da própria conferência de imprensa...?

 

Este domingo mostrou-se afável como há muito não via os dias. Nem vento nem chuva nem frio. Um solzinho algo tímido mas, ainda assim, bem agradável. Consegui andar a varrer as folhas, consegui andar cá fora sem ter que me desviar da chuva nem andar encasacada. Bem bom.

E fizemos umas boas caminhadas. Cruzámo-nos com mais pessoas do que é costume, em especial pais com crianças pequenas a andar ou a aprender a andar de bicicleta. O meu marido disse que devem ser bicicletas recebidas pelo Natal. Também várias pessoas a passearem os cães. Os campos verdes de dar gosto. Daqui por algum tempo o verde será erva alta mas, por enquanto, parece relva e musgo, um tapete fofo por onde apetece andar.

Felizmente comprámos, há semanas, um dispositivo para secar sapatos, umas coisas elétricas que se enfiam dentro dos sapatos. Por isso, quando chego a casa costumo descalçar-me, incluindo as meias, e pôr os sapatos a secar. Andar no meio da erva molhada dá nisto. Claro que poderia usar uns ténis impermeáveis mas prefiro andar com uns muito confortáveis, maleáveis (que são porosos). Comprei há tempos uma espécie de meias de uma espécie de latex que se calçam por cima dos sapatos. E funcionou lindamente, um ovo de colombo. Mas isto de andar no meio da erva e do mato não dá saúde a coisas assim. Sem querer, em especial de noite, piso pedras, paus. Portanto, aquela espécie de botinhas elásticas já não funciona, já estão furadas, já deixam entrar a água. Mas pronto, foram baratas e já cumpriram a sua missão.

Bem. Queria eu dizer que o dia foi tranquilo. 

Ao fim da tarde, como ando incomodada com a tumpalhada da Venezuela, pus-me a ouvir várias opiniões sobre o assunto. Toda a gente converge na ilegalidade, na inconstitucionalidade, na gravidade. Claro.

Mas agora ouvi a opinião de Michael Wolff, que o conhece bem e conhece bem a sua entourage e o staff da Casa Branca, e ri-me com ele e com Joanna Coles. A opinião de Michael Wolff, baseada na sua intuição e em informações recolhidas, é que aquilo de os Estados Unidos irem tomar conta da Venezuela foi uma que lhe saiu ali, no decurso da conferência de imprensa, fruto da sua mania das grandezas e da sua demência. Segundo Michael Wolff, aos poucos todos tentarão ir chutando para canto ou fingindo que estão a fazer alguma coisa nesse sentido mas, na prática, não fazendo nada -- não têm como, não têm pessoas para deslocar para lá com conhecimentos para tomar conta do que quer que seja na Venezuela, não têm autorização do congresso para se meterem em despesas, não têm nada planeado. Ou, igualmente provável, 'tomar conta da Venezuela' na cabeça de Trump não passe de conseguir, ele, a família e os amigos, sacarem de lá o mais que puderem, o mais rapidamente possível, e não o que se poderia interpretar, levando à letra o que ele disse.

Mas, digo eu, sabe-se lá. De um descarado, prepotente, narcisista, sem escrúpulos, ainda por cima demente, o que se pode esperar...? Esperar-se-ia, isso sim, que as instituições funcionassem, que a democracia e o mundo desenvolvido tivessem mecanismos de defesa. Têm mas são tão frágeis que um único maluco pode acabar com tudo em menos de nada. Na prática, a nossa condição é a de indefesos. E isto sou ainda eu a dizer.

Mas convido-vos a ver o vídeo abaixo. Como sempre, a conversa dos velhos amigos, Joanna Coles e Michael Wolff, é bastante interessante. E traz-nos o lado pessoal do que geralmente vemos analisado sob o ponto de vista político. 

E se, mais do que uma bem pensada jogada geo-estratégica, tudo isto deve é ser ser visto como um cocktail de motivações erráticas, mais irracionais do que racionais...? Veja-se: o medo do que aí vem com a revelação de mais ficheiros Epstein em que inevitavelmente virão provas comprometedoras para Trump, o medo do que será a reacção colectiva das pessoas quando virem que o que vão pagar do seguro de saúde vai ser o dobro do que era e, em alguns casos, o triplo; isto a par da pressão das petrolíferas, do real state e das big tech para irem para lá sacar petróleo, terras raras, lítios e etc e irem construir hotéis, casinos, arranha-céus; e mais as provocações de Maduro a dançar e a mostrar que não tem medo dele -- tudo isto deve ter atirado aquele narcisista megalómano e demente para a frente, no que foi secundado por um grupo de palermas. Claro que os militares, que ainda não têm a coragem de não acatar ordens ilegais, executaram as ordens. 

JD Vance, calculista, a preparar-se para se chegar à frente mal surja a oportunidade, e que é um isolacionista, Maga puro e duro, America first e os outros que se lixem, não apareceu na conferência de imprensa. Poderá invocar gripe ou coisa do género mas só os tolos engolirão a desculpa.

Enfim. Um mundo entregue a gente doida. Um perigo temperado pela mais absoluta imprevisibilidade.

No outro dia ouvi um terapeuta que trabalha em lares onde trata de idosos com demência a dizer que acha que Trump só deve ter mais um par de meses em que possa fazer de conta que está funcional pois rapidamente o seu estado se deteriorará a ponto de terem que o retirar de cena. Veremos. 

O vídeo abaixo só começa aos 3'28". Dá para colocar tradução automática.

Michael Wolff & Joanna Coles discutem o tema Trump & Venezuela

Michael Wolff e Joanna Coles discutem a declaração de Trump de que os Estados Unidos vão assumir o controle da Venezuela após a captura do líder autocrático Nicolás Maduro.

Numa conferência de imprensa tumultuada em Mar-a-Lago, Trump também revelou planos para se apoderar das reservas de petróleo do país e alertou que "não temos medo de enviar tropas terrestres" como parte da tomada de poder.


Desejo-vos uma boa semana

sexta-feira, agosto 02, 2024

Considerações da UJM sobre o que se passa na Venezuela e na cabeça dos maduros do PCP

 

Estes dias têm sido bem animados e poucas notícias tenho visto. Há pouco pus-me a ver os Jogos Olímpicos, momentos exultantes, e, em vez de me pôr a exultar também, adormeci profundamente. Deve ter sido coisa de cinco minutos, não mais, pois logo de seguida o meu marido chamou-me para jantar. Ainda havia arroz de salmão de ontem ao almoço, era só aquecer e juntar salada de alface. 

Das notícias do dia há uma que me está a fazer espécie: a libertação de prisioneiros pela Rússia e pelos Estados Unidos. Parece que foi uma troca. Não sei a que se deve, a que propósito, porquê agora. Alguma coisa é. Se calhar, se me debruçar sobre os Guardians desta vida, facilmente me esclareceria -- mas isso fica para depois, agora ainda estou meio abananada de ter sido acordada à pressão.

Também li (mas só o título) que a temperatura no Antártico está 10º acima da média e palpita-me que isso não são boas notícias. Caraças para as alterações climáticas. Tenho medo.

E também vi a indignação do Partido Comunista Venezuelano ao saber que o PCP apoia a 'vitória' do Maduro. Situação extraordinária esta... O PCP português, sempre, sempre, ao lado dos tiranos e dos ditadores, agora até já actua em contramão em relação aos partidos congéneres desses países que, como se vê, se demarcam da actuação anti-democrática do regime vigente. Uma vergonha. O PCP continua a sua deriva a caminho da extinção. Ninguém os obriga a isso. São eles mesmos que estão determinados nisso. Situação bizarra.

Há dois dias tinha feito um daqueles meus vídeos mas, em vez de falar de abelhas ou da minha voz de Castelo Branco ou de Dona Lady Betty, falava do apoio do PCP ao que se passava na Venezuela. Ainda não sabia da barracada acima referida. Por isso, de certa maneira, o vídeo está um pouco desactualizado.

Mas, por hoje, é o que me apraz partilhar convosco. 

Ainda tenho que ir ali pôr creme hidratante no corpo porque, há bocado, tomei banho e não o pus pois com miúdos cá é tudo tão à pressa que não dá para frioleiras dessas. De manhã, quando fui ao supermercado, comprei um de azeitona e estou curiosa. Só espero que não me deixe a cheirar a azeite. 

In heaven não se fala só de abelhinhas e de coisinhas fofas, também se fala das cavaladas do Maduro e das maluquices do PCP


Dias felizes

sexta-feira, maio 26, 2017

O que fazer quando tudo arde?
- Talvez tocar violino --



Já o contei: nem sei onde morreu o meu bisavô, pai do meu avô paterno. Penso que na Venezuela, mas não estou certa. Pode ter sido na Argentina. A ver se não me esqueço de perguntar à minha mãe.

Ninguém na família quis saber dele. Perdeu casas, 'propriedades', cavalos e gado, dinheiro. Era um jogador, é a ideia que tenho do pouco que diziam. Desfez o morgadio e fugiu, deixando para trás, e no desamparo, mulher e três filhos. De uma 'casa' abastada passaram para uma situação complicada. Sobraram ainda alguns terrenos e a casa onde viviam. Mais tarde, o meu avô, já adolescente, espírito aventureiro, pôs-se a caminho, andou por Espanha e por França antes de, com vinte e poucos anos, conhecer uma rapariga sete mais jovem e com ela se casar. Quando sobre mim diziam que era muito nova para me casar, a minha avó uma dessas pessoas, o meu avô disse de forma a que ela o ouvisse, 'Não ligues. Com dezoito anos teve ela o teu pai'.

Mas, então, o meu bisavô era visto pela família como um cobarde. A minha mãe, tenho ideia que achava que não era isso, que era um aventureiro. Do meu pai nunca ouvi uma palavra sobre o avô. Do meu avô também nunca ouvi uma palavra sobre o pai.


Nunca mais ele quis saber da mulher e dos filhos, e eles pagaram-lhe da mesma moeda: caíu sobre ele um desinteresse total. Pelo menos em público era isso que manifestavam.

A minha mãe contou, creio que depois dos meus avós terem morrido, que achava que ele quis reaproximar-se ou regressar e que de cá teve apenas silêncio e desprezo. Tenho ideia que a minha mãe viu uma carta dele, escondida.

Talvez, por lá, por onde andou, tenha tido outra família, mais filhos, talvez por lá andem agora outros bisnetos. Não faço ideia. Nunca ninguém quis saber. Por vezes penso e nisso e faz-me impressão. Talvez devesse ter tentado esclarecer algumas coisas. Contudo, creio que já é tarde para isso. O meu avô está morto e o meu pai já vive num outro comprimento de onda. O meu tio, irmão do meu pai, está bem mas também nunca manifestou qualquer interesse no assunto. Também já o contei: ainda há um terreno no Algarve, um terreno bom, num sítio bom. Calhou, em partilhas, ao meu avô. Provavelmente já alguém lhe chamou um figo. Ninguém, da família, mexeu, até hoje, uma palha para o passar para o nosso nome (presumo que esteja ainda em nome desse desconhecido bisavô).

Mas não é por isso, até porque não estou certa do destino que, há talvez cem anos, esse desconhecido tomou -- mas a Venezuela para mim é um país longínquo, geografica e emocionalmente.

Politicamente também. Nem o Chávez me entusiasmava: tudo distante, tudo a milhas da minha lógica, dos meus afectos, dos meus gostos.

Este agora que por lá anda parece que não sabe (nem nunca soube) o que é ser presidente de um país. Nada contra os motoristas de autocarro, nem contra os motoristas que se fazem sindicalistas. Mas faz-me alguma espécie que daí se passe a ministro e, daí, a presidente de um país. Nicolás Maduro desagrada-me como presidente. Não sei se é populista, se excessivamente nacionalista, se é apenas impreparado para a função.

O que se passa agora na Venezuela é outra desgraça. Maduro mantém-se em funções com a rua descontrolada, com as lojas vazias, as fábricas paradas, a loucura à solta.


No entanto, eis que no meio da maior tensão e violência, entre gente que se apedreja, caminha um jovem tocando violino.

Se no post abaixo mostro como a palavra se elevou para aglutinar as emoções e as catapultar sob a forma de coragem contra o terror anónimo, aqui, agora, é a música.

Chama-se Wuilly Arteaga, tem 23 anos, gosta de se vestir com as cores do país e tem uma coragem que impressiona. Para ele, a música simboliza a paz e a coragem e, por isso, como que protegido por um invisível escudo, ele caminha pela rua, tocando violino.



Infelizmente, a sorte abandonou-o: esta quarta-feira, a polícia motorizada avançou sobre ele, magoou-o e partiu-lhe o violino. É em lágrimas que ele nos aparece, com o violino -- que ele diz ser a sua ferramente a favor da paz -- sem cordas.

Entretanto, já há um grupo a mobilizar-se para arranjar dinheiro para lhe comprarem outro violino.

O vídeo abaixo, publicado esta quinta-feira, mostra-o nas ruas, antes disso, tocando.

E eu vendo isto, volto a uma pergunta semelhante à que, no post abaixo, formulei: para que serve a música? Para que serve a arte?
Pode a arte ser uma arma mais poderosa do que as armas tradicionais?
Quem dela se mune para a luta não tem mais coragem do que os que se escondem atrás de escudos para agredir sem ser agredido?
Não sei responder com certezas absolutas mas admito que sim.

E admito também que a vida, tal como a vamos aceitand.o merece alguma reflexão. Por exemplo: quem são os verdadeiros novos heróis deste estúpido mundo?



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