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quinta-feira, agosto 18, 2022

7 sinais de genuína inteligência que não se conseguem fingir

[E a forma bizarra como Madonna se apresenta nos seus 64 aninhos]



Já fiquei mais descansada. Em alguns dos mais banalizados testes de QI aparecem aquelas figuras de triângulos dentro de quadrados, em que a disposição dos triângulos brancos e pretos vai evoluindo e é preciso descobrir qual a sequência que se segue. Outras vezes são sequências numéricas ou outras. Não sei porquê o meu cérebro rejeita tudo isso de forma tão liminar que se recusa a olhar e a pensar. Sou tentada a responder ao calhas. É que poderia esforçar-me e falhar em toda a linha. Mas não, é pior que isso, é rejeição absoluta. Por algum motivo, acho aquilo tão absurdo para provar o que quer que seja que a pachorra se me evapora instantaneamente ainda antes de começar. E, por esta séria lacuna, sempre pensei que a minha inteligência tinha certamente uma falha fatal.

Agora, ao ver o vídeo que abaixo partilho, não concluo que não tem mas concluo que a falha não se deve, forçosamente, à incapacidade em resolver aqueles irritantes testes.

Felizmente nunca tive que fazer um teste daqueles para arranjar emprego senão não tinha passado da porta de entrada. 

Fiquei também confortada ao ver confirmada uma opinião que tenho sempre que ouço alguém, muito satisfeito consigo próprio, tantas vezes referindo-se a uma decisão questionável que, em tempos, tomou, dizer qualquer coisa como isto: 'A prova que na altura tomei a decisão correcta é que, se fosse hoje, tomá-la-ia outra vez, exactamente igual '. É que até pode ser mas, caraças, o que é que aquilo prova a não ser que quem o diz é uma pessoa algo limitada? Que raio de raciocínio é aquele? As circunstâncias mudam, nós mudamos, os outros mudam. Então porque é que é axiomaticamente acertado tomar exactamente a mesma decisão tempos depois? 

Em minha opinião, os sinais de inteligência de uma pessoa são vários e eu, já aqui o confessei tantas vezes, tenho grande admiração por pessoas inteligentes. A meus olhos, uma pessoa inteligente cintila. 

Em contrapartida, a burrice encanita-me cá de uma maneira... 

Mesmo aqui na blogosfera, não consigo deixar de rosnar entredentes quando vejo coisas que tresandam a burrice. Eu a ler coisas que quem escreveu acha, certamente, o máximo e eu, cá para mim, 'Ca ganda burra. Chiça penico...!'.

Tem razão o Mestre com quem tenho trocado umas ideias ao alertar para os perigos que a inteligência por vezes acarreta. E, concordo, é bem verdade que alguns seres inegavelmente inteligentes foram (ou são) uns estupores encartados. Mas, por outro lado,  se conseguirmos despir-lhes a identidade, o que fica da sua inteligência ilumina a nossa existência.

Claro que, se com a inteligência, vier a bondade, a tolerância, a afectuosidade, a graça e todas essas características que deveriam ser intrínsecas a todos os seres humanos, melhor, mil vezes melhor. Senão, a gente tem cuidado, guarda distância e fica só com o produto que nasce do estafermo, seja palavras, pintura, música -- o que for.

Agora que escrevo isto penso num colega que tive. Sempre que tinha algum trabalho complicado em mãos, algum relatório mais cabeludo para concluir, algum projecto mais crítico para lançar, era de fugirmos dele. Intratável. Rude, cafajeste. Outras vezes, na reuniões, saía-se com coisas que deixavam toda a gente gelada, incomodada. Era de uma franqueza desabrida. Creio que lhe faltava inteligência emocional. Mal o stress passava, era de uma pessoa se deliciar com as piadas, com a ironia oportuna e implacável. Tinha ainda uma particularidade: tinha uma colecção infinita de música. LPs e CDs, milhares. De cada obra tinha todas as derivações que conseguia descobrir: maestros, intérpretes, gravações em estúdio e ao vivo. Para gerir a colecção tinha uma base de dados que mantinha actualizada e que permitia pesquisar por cada um dos parâmetros que, para ele, fazia a diferença. Tinha quse tnto orgulho n bse de ddos quanto na colecção. Agora que os suportes físicos estão a cair em desuso não sei como estará a completar o seu tesouro. Sendo uma pessoa com competências reconhecidas na sua área de trabalho, tinha depois esse seu lado de melómano que o fazia virar outro quando disso falava. Eu gostava imenso de conversar com ele. Tinha sempre uma perspectiva diferente e interessante das coisas e eu aprendia sempre com ele. 

Contudo, sempre que eu falava dele, quase toda a gente se torcia e fazia um esgar de desagrado: 'Esse traste' ou 'Um mal-educado' ou 'Um tipo perigoso'. 
Aqueles ataques de franqueza desassombrada de que por vezes parecia possuído causaram problemas a muito boa gente. Diziam que desferia golpes baixos quando menos se esperava. Nunca me pareceu que o fizesse premeditadamente ou para ajustar contas com alguém. Sempre me pareceu que era simplesmente desligado das conveniências sociais ou de preocupações em relação aos outros.

Outras vezes, quando se queriam referir a ele, diziam-me: 'O seu amigo' pois, de facto, acho que eu era a única pessoa que o suportava. E, ainda por cima, gostava dele. Desculpava-lhe os maus humores.


Mas isto para dizer que, vendo que o Psych2Go me caiu no goto, o menino algoritmo do youtube saiu-se com mais um vídeo daqueles em que se dizem coisas com piada e bem pensadas (textos de Max Gustavo) com uns bonequinhos fofos (feitos por Rose Lam), ditos por uma menina que tem uma vozinha soft e que fala das coisas num tom convincente e empático (Amanda Silvera de seu nome). 

Desta vez, o tema é a inteligência e sinais impossíveis de forjar e que evidenciam que ela está presente.

7 Genuine Signs of Intelligence You Can't Fake

Are you truly intelligent? Intelligence is a coveted thing, and we’re encouraged to “fake it til we make it” with things. But some things in life can’t be faked and real intelligence is one of them.

Here is a short list of the subtle signs of genuine intelligence. See if you can identify these traits in yourself. 

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A propósito de inteligência ou se calhar não tendo nada a ver, já que estamos na silly season, apetece-me agora mostrar a forma estranha como a Madonna está a ganhar idade (e digo assim e não a envelhecer pois a palavra envelhecer parece-me engelhada, mal amanhada). Fez 64 anos e, de facto, não tem rugas nem flacidez no rosto. Mas está inchada, desfigurada e, agora, tem tanta tralha na boca que nem sei o que me parece. E que ande a festejar os seus verdes anos dando beijos de língua a quem se senta ao seu lado só me faz sentir afortunada por nunca me ter acontecido tal golpe de pouca sorte.

Madonna Shows Off Her Custom Birthday Grillz and Reveals What Almost Killed Her Career



Madonna TONGUE KISSES Friends During Italian Birthday Celebration



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Pinturas de Jean-Paul Riopelle na companhia de Sheku Kanneh-Mason, Isata Kanneh-Mason que interpretam Song without Words, Op. 109 de  Mendelssohn

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Desejo-vos uma boa quinta-feira
Saúde. Boa disposição. Paz.

domingo, fevereiro 09, 2014

Por causa da morte de Lady Sybill fiquei sem vontade de vos falar d' A Casinha dos Prazeres






São quase duas da manhã, Lady Sybill acabou de dar à luz uma menina e, logo agora que eu queria saber se está tudo bem com a jovem mãe, fizeram intervalo. Publicidade, publicidade.

Aproveitei para ligar o computador. Eu deveria hoje nem pegar nisto que não são horas decentes. 

Há bocado, depois de ter chegado a casa bem tarde e, de seguida, ter jantado um iogurte com nozes, um queijo fresco com mel e um diospiro (gosto de alimentação crudívora; já o meu almoço tinha sido suchi e sachimi), deitei-me no sofá a ler o Expresso e ainda consegui ler o tocante texto de Clara Ferreira Alves sobre uma mulher de aspecto digno que pedia esmola à porta da ópera, depois o do José Tolentino de Mendonça e as suas saborosas massas e, a seguir, fiquei incomodada com a tendência que o Pedro Mexia tem para se rever nos solitários, tristes, desalentados e desafortunados personagens que a vida e a literatura vai deixando na nossa memória. Pessoas talentosas deveriam saber dar-se mais valor e aprender a viver mais felizes. Mas as pessoas são como são e eu pouco mais posso fazer em relação a isso do que ficar um bocado triste. Gosto de saber as pessoas felizes e, em especial, gosto de saber felizes as pessoas que admiro. Mas parece que as pessoas muito talentosas têm mais consciência das suas limitações e finitude e isso parece tirar-lhes a alegria de viver (que, se calhar, é própria dos simples de espírito). Enfim.

Depois ainda me aventurei por outras páginas mas caí num sono profundo. O dia foi bem preenchido e o corpo, quando tem oportunidade para se apagar, apaga-se mesmo. Foi um sono breve mas retemperador. Acordei já a meio de O Fim de uma Época mas ainda vi o suficiente para me deliciar. 

E a seguir ainda vi o Eixo do Mal e agora já vou no 2º episódio de hoje de Downton Abbey e só mesmo o meu gosto por partilhar dois dedos de conversa convosco me traz aqui.

Acabo agora de ver aqui, em cima de uma destas pilhas de livros que me acompanha na mesa em que escrevo, uma caixa de bolachinhas para crianças, Figurines Assortment. São bolachinhas em forma de árvores de natal, renas, pais natal e são revestidas a chocolate de leite. Sobraram do Natal. Os meus pequenos gulosos trouxeram-na para aqui e nem dei por isso.

Downton Abbey recomeçou.

Meu Deus.


Lady Sybill sempre estava com eclampsia e acaba de morrer, que horror. 


A família está devastada e eu também estou chocada, não estava psicologicamente preparada para isto. 

Sou assim, impressiono-me facilmente. E gosto desta família, estou envolvida com estas pessoas, que hei-de eu fazer?



Ia falar-vos de um livro muito bonito, capa de veludo carmim. Gosto de livros bonitos. Passo a mão pela capa e sinto a sua macieza. Tem uma mulher na capa. 

O livro é A Casinha dos Prazeres de Jean-François de Bastide com desenhos de Álvaro Siza Vieira, tradução e apresentação de António Mega Ferreira, revisão de Dóris Graça Dias, da editora ABySMO.


Tinha ideia de transcrever uns excertos, intercalá-los com os desenhos de Siza e até, antes de abrir o blogue, tinha estado a ver se escolhia uma música a condizer, andava pelo burlesco, mas agora, a sério, acho que já não me apetece. Ficará para outro dia.

Daqui a nada são três da manhã, não tarda tenho que estar a pé que outro dia preenchido me espera, e fiquei desconsolada com o que aconteceu à bela Sybill e com o peso da culpa que vai atormentar os pais por não terem dado ouvidos ao médico de família que percebeu o que se estava a passar e tinha querido levá-la para o hospital.

Até fui procurar uma outra música. Não fazia sentido manter aqui uma cena de burlesco. Optei, pois, por F. Mendelssohn com Song Without Words - Gondellieder.

Já não vou poder responder aos comentários e bem gostosos eles são, que pano para mangas dariam. Mas é tarde e eu tenho que me recolher aos meus aposentos. Vou contagiada pela tristeza da família (na qual incluo os empregados) de Downton Abbey.

Sei que grande parte das pessoas acompanhou a série pela Fox e já sabiam disto há que séculos. Mas eu acompanho na SIC (até porque quando estou in heaven só tenho os quatro canais e ver a série na SIC assegura continuidade) e nunca quero que me contem o que aconteceu ou vai acontecer. 


Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom domingo. 
Parece que vai estar um tempo desabalado e só espero que não faça muitos estragos. 

domingo, março 25, 2012

Uma noite tranquila em casa de Eva


Música, por favor

Mendelssohn - Barenboim interpreta Songs without Words


E então chegou a casa. Pousou a carteira, as chaves do carro.

Foi à casa de banho, desmaquilhou-se.

Depois foi à cozinha e encheu um copo de sumo.

Com o copo na mão, foi até ao quarto, escolheu uma música (sem palavras). A hora era tardia, a noite estava amena, quase parecia verão, abriu a janela que dá para a varanda. Ao longe, no silêncio nocturno, um vago marear que, sem aragem, não podia ser o som da ondulação dos cedros, era, só podia ser, o som do mar.

Olhou-se no espelho, o sorriso tinha-se recolhido, estava um pouco cansada.

Com lentidão, puxou uma ponta da echarpe de rede, sentiu-a a deslizar devagar pelo pescoço até que ficou toda na sua mão, pousou-a depois sobre o busto negro; a seguir, com lentidão, despiu o casaquinho. Olhou-se no espelho. Talvez um ou dois quilos a mais. Terá que caminhar com mais intensidade, terá que emagrecer um pouco.

Depois deixou descair uma alça e arqueou ligeiramente os ombros para a frente, para favorecer a descida, depois, com a mão, aliviou a pressão da outra alça, arqueou de novo os ombros, deu um jeito e o vestido iniciou a trajectória descendente, descaiu todo ele, deixando os seios a descoberto e ficando retido nas ancas.


Olhou-se assim no espelho. A barriguinha lá estava e, com o vestido assim descaído, preso nas ancas, quase parecia a Vénus de Milo.

Vénus de Milo

Ou, então, Rubens. Uma das saudáveis mulheres de Rubens.

Rubens- The Union between Earth and Water


Sorriu da auto-condescendência. 

Alivou a pressão do vestido, puxou-o um pouco para baixo e ele caíu, pesado, nos pés.

Levantou um pé, depois outro, apanhou-o, pendurou-o num cabide, organizada.

Olhou-se no espelho. Meias de seda, de cor neutra, ligas de renda, saltos altos. Pensou no príncipe árabe a dizer poesia.

A seguir retirou os brincos, depois a pulseira, e só então se sentiu quase despida.

Apeteceu-lhe ir até à varanda, descansar um pouco antes de se deitar.

Pegou no telemóvel, no copo, mas, ao chegar à porta, sentiu que a aragem estava fresca. Voltou atrás e pegou na écharpe de renda transparente. Envolveu-se nela e, tal como estava, foi então até à varanda.

O som remoto de um carro que passava lá em baixo na estrada, o vago som do mar, de dentro o som da música – um quase silêncio, portanto. 

Sentou-se na cadeira que está no recanto mais abrigado e ali, descansada, ouvindo a música, pensou no suave e morno roçar da mão do príncipe. Malandreco.

E pensou também num certo sorrisinho alarve, parvo, insuportável.

Fez então uma chamada. Quando atenderam, disse secamente: ‘Não quero saber que ele seja dos nossos, estou-me nas tintas, o tipo é execrável, estaria bem na república das bananas, não aqui, que isto, parecendo que não, ainda passa por ser um país civilizado. Além disso, já disse não sei quantas vezes que não o reconheço como sendo dos nossos’.  Do outro lado alguém devia estar a protestar mas ela interrompeu, ríspida: ‘Não quero saber. E a esta hora não tenho paciência para ouvir argumentos que me maçam. Faça como quiser mas tenha em consideração aquilo que eu quero’.  Desligou, vagamente irritada.

Encostou-se para trás, bebeu o resto do sumo, olhou a noite, respirou fundo. Que paz, afinal.

Deixou-se estar assim, tranquila. A seguir fez nova chamada e a voz agora era quente, ciciada, sorridente: ‘Por onde andas?...  A dormir? … A uma hora destas? … E não te ocorreu que eu poderia precisar de resolver umas quantas coisas contigo?’ e riu-se com a resposta que veio do outro lado e a gargalhada espontânea era agora de menina marota.

‘Não sejas preguiçoso. Ainda se fosse para atravessares a cidade…’ e ria, alguém a fazia de rir de gosto.

‘Vá lá…. Ainda se fosse para atravessar a rua…’ e depois voltava a rir.

Depois concluíu, mas a voz era doce: ‘A esta hora não tenho paciência para pedir. Ok. Quem quer vai, não é? Está bem, vou eu’.

Quando ia desligar, lembrou-se: 'Espera, não desligues, como é que entro? Qual é o santo e senha?' e sorria, era uma menina marota. 'Quem? Deixa cá ver....' e pensava, 'Pode ser o Eugénio'.

Do lado de lá ouviu dizer num sussurro, um sussurro cheio de silêncios, 'Então fixa:


                                                               Vê como o verão
                                                               subitamente
                                                               se faz água no teu peito,

                                                               e a noite se faz barco,

                                                               e a minha mão marinheiro.'


Eva fechou os olhos, encantada. E respondeu: 'A senha, então, será:


                                                                         Tenho o nome de uma flor
                                                                         quando me chamas.
                                                                         Quando me tocas,
                                                                         nem eu sei
                                                                         se sou água, rapariga,
                                                                         ou algum pomar que atravessei.'


E sorria. Olhou-se ao espelho, depois hesitou, deveria levar a écharpe?, talvez não, afinal não ia atravessar nenhum pomar, apenas o corredor.

Mas quando ia bater à porta, hesitou. Determinada, voltou para trás. Foi buscar a écharpe. Ensaiou ao espelho a melhor forma de a passar pelos ombros, deixando uma das pontas mais comprida, e sorriu, pensando: 'Afinal, qualquer Eva usa parra..'*

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Os poemas são de Eugénio de Andrade e têm o título, respectivamente de 'Arte de navegar' e [tenho o nome de uma flor...] 


NB: Todos os episódios desta história estão agrupados no separador 'Eva - a mulher dos olhos verdes', à direita, lá mais para baixo

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E tenham, meus Caros, um belo domingo!
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* - Os créditos e os agradecimentos à Mary (vide comentário abaixo)