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sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Será que só as mulheres conseguem pintar magníficos nus femininos...?

 

Uma mulher despe-se e mostra-se apenas para ser desejada pelos homens que a olham?

Se uma mulher se ajeitar numa posição que seja esteticamente atraente está forçosamente a querer despertar a lubricidade em quem a contempla? 

E o que dizer se o fizer para que outra mulher a fotografe ou a retrate numa tela?

E, claro, se for homossexual, fá-lo para despertar o desejo noutras mulheres?

Talvez haja quem pense que sim. Mas não forçosamente. 

O corpo de uma mulher é uma obra de arte e tão mais extraordinário quanto parece ser coisa do acaso, coisa transcendente. Duas células que se juntam, se desdobram, se multiplicam. E tudo se vai juntando de uma forma mágica e, no fim, sai um corpo funcional que, ainda por cima, parece habitado por uma alma que ninguém sabe bem o que é. E claro que isto se aplica a um corpo de homem ou de mulher. Mas aqui foco-me no corpo da mulher. Aí a magia é ainda mais extraordinária: os seios que se desenvolvem, os seios que se enchem de leite para alimentar a criança que sai do seu corpo, quando o corpo gerou uma outra vida que começa por ser alimentada no ventre, um ventre que se atapeta e dilata. Tudo milagroso. Retratar o corpo da mulher em qualquer dessas fases é quase um dever. Há muita beleza nisso. 

Tal como é belo o corpo de uma mulher quando as ancas alargam, as carnes se expandem. Ou quando os seios perdem o viço. Ou quando as rugas desenham sulcos e escrevem histórias.

A beleza está na disponibilidade para a beleza. 

Já contei muitas vezes que uma das esculturas que mais me impressionou e na qual penso muitas vezes é uma pequena figura de Rodin, uma mulher de idade, corpo quebrado, pele enrugada. Em tempos uma bela mulher. Em tempos conhecida pela sua beleza. Celle qui fut la belle heaulmière. Uma obra tocante. 

Há tempos, ao ver uma fotografia minha de quando tinha uns vinte e tal ou trinta anos, não sei, surpreendi-me comigo mesma. Disse: 'Era bonita, não era?'. O meu marido respondeu: 'Ainda és.'. Foi simpático. E talvez tenha sido sincero. Eu, que me apaixonei por ele sem o conhecer, apenas porque o achei um pedaço de mau caminho (identicamente ao que aconteceu com ele em relação a mim), ainda o acho bonito, ainda acho que, se fosse hoje, voltaria a encantar-me com ele. Não tem o cabelo comprido como tinha naquela altura, aliás quase não tem cabelo, não tem o corpo tão ginasticado como tinha naquela altura em que praticava desporto federado, tem rugas. E é natural. Mal seria se com a idade que tem ainda se apresentasse de cabelo bem preto, pele esticada e todo bombado. Detestaria, não posso com gente artificial, com gente que não aceita com orgulho a idade que tem.

Com a inundação, as telas que estão na cave e que estavam no chão encostadas à parede foram colocadas em cima da mesa de ping-pong. Outras, felizmente, já estavam num lugar alto. Muitas têm mulheres, muitas delas nuas. Mulheres jovens, sonhadoras, com corações sobre os seios, um coração no ventre, mulheres grávidas, ventres redondos, seios pesados, mulheres guerreiras, caminhando sobre os edifícios, mulheres corajosas, desafiadoras. Por vezes, quando o motivo era mais caliente, apareciam aos pares, pequeninas, num canto, vestidas de freiras, de joelhos a rezar. Mal se viam. Mas estavam lá.

Também pintei corpos de homem. Mas menos. Parecia-me que, para que a pintura fosse interessante, teria que ser pornográfica. Como sou muito ajuizada, evitei-o. Para não ferir susceptibilidades, limitava-me a pintar falos a aparecer onde não eram chamados. A minha filha gozava: 'onde está o wally...?', e frequentemente ele lá estava, muitas vezes disfarçado, quase escondido.

Mas, enfim, vejo agora que me distraí e estou para aqui a escrever um bocado à toa. 

Está a chover imenso, mas mesmo imenso, caraças, e, de vez em quando, vou ali espreitar a ouvir se a bomba que está a funcionar na caleira junto ao portão da garagem continua a funcionar. Mas chove tão torrencialmente que só ouço mesmo a força da chuva a cair. 

Hoje entrou ar na bomba, e funcionava mas a água não era chupada. Felizmente o chatgpt explicou o que deveríamos fazer para lhe tirar o ar. E resultou.

Tentámos pô-la no poço do esgoto das águas pluviais mas não conseguimos levantar a tampa da caixa. É de cimento, pesadíssima, nem mexe. O meu filho diz que só com picareta a servir de alavanca, que vem cá no fim de semana e traz uma picareta. Por isso, por enquanto não há alternativa: temos que tentar extrair toda água que se junta na caleira lá de baixo, a ver se não volta a entrar na garagem e na cave. 

Já conseguimos tirar a água quase toda da inundação mas agora aparece de debaixo dos móveis. E o chão continua molhado. Já não tem altura de água, só que não seca. E já cheira a bafio, vem um cheiro a mofo e a bafio de lá que não se aguenta. Era preciso que parasse de chover para abrir o portão da garagem e para abrir as janelas da casa para o ar circular como deve ser. Agora a chover sem parar não dá. Abrimos de tarde, enquanto não choveu, mas de pouco ou nada serviu.

Mas isto não é nada. O drama que vai pelo país é que é de partir o coração. Meio país debaixo de água.

Ainda hoje, por várias vezes fiquei a chorar ao ver as pessoas em risco de perder as casas ou outras que têm tudo enlameado e estragado. Comovo-me tanto, tanto. Quase tenho que fechar os olhos de tanta pena que sinto, tanta, tanta. E comovo-me quando vejo pessoas corajosas que, perante a desgraça que se abateu sobre elas, conseguem sorrir, dizer que estão vivas e que isso é o mais importante, que o resto se haverá de resolver. Têm esperança em melhores dias. E eu fico toda em lágrimas.

Bem. Adiante.

Comecei com a conversa lá de cima, dos corpos nus das mulheres, influenciada pelo interessante artigo do Guardian. ‘Not for ogling’: forget Titian, Botticelli and the male fantasists – only women can paint great female nudes, da autoria de Rhiannon Lucy Cosslett

Transcrevo um pouco:

(...) Quando Gwen John estava no seu quarto, em 1909, a desenhar-se nua, com o reflexo do seu corpo no espelho do guarda-roupa, o que lhe passava pela cabeça? Na altura, vivia um intenso e infeliz caso amoroso com Auguste Rodin, para quem posava frequentemente. Posar para si mesma, porém, era diferente, para não dizer ousado. John lutava para ser a sua própria musa, em vez de Rodin, mas esta imagem mostra-a livre do olhar masculino.

(...) Durante grande parte da história da arte ocidental, as mulheres não tinham acesso a modelos nus e, se fossem suficientemente corajosas, tinham de confiar no seu próprio corpo. O trabalho que produziam era frequentemente recebido com indignação, desprezo, troça ou indiferença. 

Artigo que vem ao arrepio da espuma dos dias. Gostei de ler.

E, como não me apetece ir agora à cave fotografar as minhas bonecadas, até porque estou apenas de meias e, se fosse assim, ficaria com elas molhadas, pedi ao Sora que me gerasse algumas imagens. Claro que descrevi o que pretendia a nível do 'modelo', do 'estilo' da pintura, do ambiente, juntei umas dicas, etc. -- e claro que algumas saíram tão pirosas que não as ponho aqui. Mas outras aprovei. 

Partilho algumas que, se eu fosse tão habilidosa quanto a Inteligência Artificial -- e não sou nem de longe nem de perto -- e tivesse aqui o material, talvez tentasse aventurar-me a fazer por mim qualquer coisa que se parecesse. 


E vivam as mulheres, e viva a beleza das mulheres em toda a sua nudez
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Desejo-vos um dia feliz
(E tomara que não aconteçam por aí mais desgraças... Se chover em todo o lado tanto como por aqui, temo o pior)

quinta-feira, fevereiro 09, 2023

O corpo de Eva a Eva pertence.
[O de Chiara também a Chiara pertence]

 




Continuam a morrer mulheres às mãos dos homens que com elas vivem. São frequentemente pais das crianças cuja mãe agridem, estrangulam, esfaqueiam. Por vezes acontece que o fazem com as crianças a dormir no quarto ao lado, quando não à vista delas. Cegam. Pode ser sob o efeito do álcool, de outras drogas ou por obsessão, psicopatia, tara. E fazem-no, na maior parte das vezes, depois de anos de pressão psicológica, de crises de ciúmes, de ameaça, coação, chantagem emocional, de pedidos de perdão, de juras de amor. 

Fazem-no sempre em nome do que pensam ser afecto e as mulheres, por carência, por medo, por quererem acreditar que são amadas, pelos filhos, para não preocuparem a família, por vergonha perante amigos e colegas, aguentam em silêncio, fingindo que está tudo bem.

Por cada mulher que é assassinada deve haver mais de cem ou mais de mil que vivem um vida de infelicidade e pavor.

Há muito a fazer para prevenir isto, para ensinar o que é o verdadeiro amor, para conduzir à procura de apoio os agressores, os assediadores, para fazer vencer a barreira da discrição da vizinhança que ainda acha que entre marido e mulher ninguém deve meter a colher, para explicar como as vítimas podem pedir apoio em segurança.

Há muito a fazer para que as mulheres se sintam com direito à sua vontade e para que os homens aprendam que a sua vontade não impera sobre a das mulheres. Há muito a fazer para que a sociedade o assimile na sua totalidade.

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Não foi exactamente por isso que Chiara Ferragni, com uma poderosa presença e intervenção no Festival de Sanremo, se vestiu e falou como as imagens e os vídeos mostram. Pretendeu, sobretudo, alertar para o direito das mulheres a fazerem o que quiserem com o próprio corpo, a serem como são sem terem que ser vítimas de pressão social,  a terem o direito a uma voz independente e forte, o direito a terem os mesmos direitos que os homens, o direito a não serem vistas como as pecadoras que merecem punição.

Ser mulher não é uma limitação.




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E outra Eva foi pintada por Lucas Cranach the Elder e vem na companhia de Melody Gardot e Philippe Powell com This Foolish Heart Could Love You

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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Respeito. Paz.

sexta-feira, agosto 12, 2022

Só há uma pergunta a fazer quando se pensa em casar

 



A pergunta refere-se a casar mas quem diz casar diz juntar os trapinhos ou namorar. Para o efeito, vai tudo dar ao mesmo.

E a pergunta quem vai dizer qual é não sou eu, é o Rubem Alves aqui abaixo, que, através dele, a coisa soará mais inquestionável do que se for eu a botar prosa.

O que posso dizer, e digo com os ensinamentos que um casamento de mil anos já me proporcionou, é que, a meu ver, as questões críticas são as seguintes: 

    • entendemo-nos? 
    • estamos bem um para o outro? 
    • vivemos no mesmo mundo? 
    • orgulhamo-nos um do outro? 
    • estaremos sempre cá um para o outro? 

É que é tudo muito bonito mas se um fala de alhos e outro de bugalhos, se um gosta de natureza e outro de estar fechado em casa, se um vive na terra e outro (pensa que) vive na lua, se um até treme com os disparates que o outro a qualquer momento pode dizer ou se um está sempre disponível para o que for preciso e o outro nunca está nem aí, então... então, adeus minhas encomendas.

Pode a gente achar que o outro até é lindinho ou que, volta e meia, faz umas flores ou, quem sabe, pode iludir-se e sonhar que o outro pode vir a modificar-se e melhorar... mas se, lá no fundo, aquilo que acima referi é uma sombra que a gente pressente que existe (embora querendo fazer de conta que não tem importância), então, é para esquecer. Pode a coisa aguentar-se algum tempo, podem agarrar-se à probabilidade de a coisa vir a melhorar... mas é tempo perdido, oh lá se é.

Claro que há mais factores relevantes para a coisa dar certo. Por exemplo, há o lado físico. Fundamental. Do mais fundamental que há. A gente pode armar-se em platónica, em lírica, em anjinha, mas, vamos ser claros, se a gente não sente uma atração, uma afinidade de pele, um prazer em estar junto, em olhar de perto, em olhar de longe, em olhar para dentro, em sentir o cheiro, o toque, o calor, se a gente não gosta do tom de voz, se a gente acha que aquelas mãozinhas não sabem agarrar, que aquela boca não sabe causar um arrepiozinho bom.. então é a mesma coisa: para esquecer. Não vai dar. Mais vale saltar fora.

E outra: se são almas gémeas, iguaizinhas, se o que um pensa é tal e qual o que o outro pensa, se gostam exactamente ds mesmas coisas, se estão sempre de acordo... então, bye bye maria ivone. Não dá. Uma seca. Ao fim de algum tempo, se ainda não tiverem morrido de tédio, já estarão a pular a cerca cada um para seu lado. 

Hoje, ao fim da tarde, antes de resolvermos ir passear para a praia, espreitei a netflix. Apareceu-me a casamenteira indiana. Deixei-me ficar durante um bocado. Há mundos paralelos. Uma pessoa nem sonha que, aos dias de hoje, ainda existem casamenteiras. Os que querem arranjar noivo enumeram os requisitos para que a casamenteira saiba o que procurar. As mulheres que salteadamente vi, querem homens da mesma idade ou um pouco mais velhos, mais altos, bem sucedidos, pessoas de família. Coisas assim. A casamenteira acha que, se houver um mínimo de afinidades, com o convívio e a vontade de dar certo, a coisa acabará mesmo por vingar. Não sei. Se calhar, quando não dá certo, toleram-se, resignam-se. Mas isso não é a minha cena. Se é para ser, tem que ser mesmo, de verdade, amor a sério.

Amor que é amor e que perdura como amor tem que ser coisa de boa cepa, sentimento forte, elástico, flexível, resiliente, auto-regenerativo.

Mas, enfim, isto sou eu a falar e, na volta, sou exigente para lá da conta. No entanto, a sensação com que estou é que, apesar do que já disse, devo ter-me esquecido de mais um montão de coisas importantes. 

Ah, sim, agora lembrei-me de uma que é fundamental: tem que ter sentido de humor. Humor é oxigénio. Eu morreria à míngua se tivesse que viver com alguém que não soubesse fazer-me rir.

E tem que ser generoso. Gente má, mesquinha, invejosa, complicada, implicante, tem que estar longe. Gente assim infecta. Não pode. Distância. Xô!

Ah, sim, outra que é fundamental. Podem crer: fundamental. A gente tem que olhar e ter a certeza que o outro vai ter sempre a capacidade de nos tirar o tapete, de nos tirar o chão, de nos tirar a respiração. E de nos tirar do sério

E há mais. De certeza que há.

Mas agora passo a palavra a um mestre que acha que nada disso, que tudo se resume a uma questão:

Rubem Alves • Só existe uma pergunta a ser feita quando se pretende casar


Transcrevo o texto que acompanha o vídeo no Youtube:
Depois de muito meditar sobre o assunto, concluí que os casamentos são de dois tipos: tênis e frescobol. Casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e costumam ter vida longa. Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente: “Ao pensar sobre a possibilidade do casamento, cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Você seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a velhice?’. Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar”.

Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme “O império dos sentidos”. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar “mil e uma noites”. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre depois de morrer.

Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: “Eu te amo, eu te amo…”. Barthes advertia: “Passada a primeira confissão, ‘eu te amo’ não quer dizer mais nada”. É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: “Erótica é a alma”.

O tênis é um jogo feroz. Seu objetivo é derrotar o adversário. E a derrota se revela no erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir. E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo.

A bola são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá… Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão. O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde. Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem, cresce o amor… Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim.
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As fotografias são de Man Ray e Melody Gardot interpreta If you love me

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Desejo-vos uma boa sexta-feira
Saúde. Boas descobertas. Bons amores. Paz.

terça-feira, julho 12, 2022

Stranger things, estranhas pessoas.
Post com auto-retratos (via Art Selfie)

 



Se uma coisa cai no goto de meio mundo e toda a gente fala disso, eu, vá lá saber-se de quê, mantenho-me ao largo. Livros que toda a gente leu, eu não li. O alquimista, As 50 sombras de grey, o Equador, esses. Já para não falar do Não há coincidências sobre o qual assisti a confissões de identificação surpreendentes. E muitos outros. Com filmes ou músicas a mesma coisa. Ou com pessoas. Sou mais atraída pelo que é marginal. Se uma pessoa é estrela em ascensão e é convidada para todo o sítio ou elogiada por toda a gente eu fico logo de pé atrás. No meu íntimo penso que deve ser algum tangas. 

Por exemplo, numa empresa em que trabalhei, houve, em tempos, uma grande contratação. Tínhamo-la visto antes como partner de uma empresa de consultoria. Toda prosa, toda vapor, toda auto-confiança, logo íntima dos que identificou como decisores. Ao almoço já era a estrela sentada à direita de deus-pai-todo-poderoso. Algum tempo depois, por uma soma calada estava lá, tinha sido contratada. Era a maior. Elogiada dentro e fora. Sempre íntima de quem importava. Algum tempo depois já estava a ser convidada para coisa ainda maior. E eu sempre a pensar: uma tangas. Pouco tempo depois, saiu. Tinha sido convidada para cargo ainda mais importante numa grande e mediática empresa. Pensei: não vai aquecer o lugar. O que a move é ser a maior, é ser elogiada e requisitada por alguma empresa ou alguma pessoa que ela ache que é ainda mais importante. Bem dito, bem feito. Está agora, num grande cargo, numa das maiores e mais ricas empresas do país. Imagino que esteja a fazer o mesmo que sempre a vi fazer: a espalhar charme e pouco mais. Mas isto se calhar sou eu que acho que gente assim, muito consensual, muito sorridente, muito famosa, é do tipo em que se espreme e não deita nada. Posso estar errada. E os que têm a fama e o proveito é que, na volta, estão certos.

Autores: dos que se vendem mais, não devo conhecer um único. Não sei se é coisa de que me gabe mas é o que é. Por exemplo, o Valter Hugo Mãe. Comigo não dá. Tanta gente importante a gostar das fofuras melosas que brotam daquela boquinha santa e daqueles dedinhos inspirados e eu a achar que o homem é uma treta. Fico sempre admirada quando alguém que julgo ser gente informada e exigente se confessa rendida aos encantos dele. No meu íntimo, admito a possibilidade de andar desfasada do que é bom. Quem garante que não sou eu que ando com o passo trocado? Quem garante que um dia o bom do Marcelo não inventa um Nobel à moda de Belém e o entrega ao Valtinho? Depois de chamar o João Miguel Tavares para presidir a um 10 de Junho que ficará para a história como o supra-sumo do absurdo, já não digo nada. 

Por exemplo, sei que agora na Netflix Stranger things é o que está a dar. Meio mundo vê, meio mundo comenta, a música que lá passa fica a bombar, há certamente merchandising para todos os gostos, há todo um mundo a gravitar em torno disto. Pois não vi, não tenciono ver e não sinto qualquer falta. Posso estar a perder grandes momentos da minha vida mas, fazer o quê?, passo.

Em contrapartida, vídeos como os que abaixo partilho são para mim um pitéu. Por alguns, os seus intervenientes serão considerados loucos, génios marados, ou, na melhor das hipóteses, irreverentes ou 'metidos a besta'. Mas eu gosto. Gosto de ouvi-los, gosto de conhecer as suas ideias, acho-lhes graça. Partilho-os e que cada um ajuíze por si.

Louis-Ferdinand Céline (1894 - 1961) por ele mesmo numa entrevista com Louis Pauwels



Aqui é Jack Kerouac (1922 – 1969) sobre "the greatest writer in the world"



E aqui é Michel Houllebecq ((1956 -- ) que também fala de Céline


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Agora, enquanto aqui escrevo, cara obviamente completamente lavada, cabelo obviamente despenteado, pronta para marchar daqui para a cama, fiz três selfies (e, como nunca as faço, não sei como melhor me posicionar) e inseri-as no Art Selfie. As figuras com que a inteligência artificial da app me identificaram estão aqui acima. De Emanuel Phillips Fox - Nasturtiums, 1912, Profile Portrait of a Young Lady, 1465, atribuido a Antonio del Pollaiuolo e Portret van Wilhelmina van Pruisen, 1904, de Fr. Bruckmann 1904. A ver se amanhã me penteio e arranjo a preceito e se estudo melhor a pose para ver no que dá.

Melody Gardot interpreta Morning sun

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Desejo-vos um dia feliz
Saúde. Vida longa e feliz. Paz

sábado, maio 07, 2022

Maio. Dia sete.

 



Fomos andar à beira de água ao fim do dia. Estava calor e cheirava a maresia. Quando o disse o meu marido disse: Cheira é a ganza. E, de facto. Não sei que é isto mas agora, ao andarmos por ali, cheira que se farta. Não sei se liberalizou, se virou moda, se é por motivos terapêuticos. Se for, não sei a que é que faz bem, talvez à ansiedade. A malta está numa boa, a sentir as boas vibes do mar, a inalar uns ansiolíticos em estado gasoso. Digo eu.

Por volta das sete e muito da tarde, perto das oito, talvez mesmo oito, a praia estava cheia. Muita gente de outras paragens o que dá aquele ar eclético que me agrada. Línguas que reconheço, línguas que não. Gente a tocar, musiquinha com arzinho de mar e de sunset. Gente de skate, gente de bicicleta, gente a correr, gente a coxear. Eu não, que o brufen de ontem à noite me deixou fina. Sempre gostei de ser turista acidental no meio de outros turistas acidentais. 

E muita gente a tomar banho. Não sei se a água estava boa, se há muita gente corajosa. Devia ter levado a máquina para fotografar. Mas não levei. Quando saí de casa estava exaurida, com vontade de me pôr a milhas. 

Há muita gente a passear cães e é engraçado que a nossa fera se marimba para todos. Os pequeninos passam-se da vida com ele. Ladram-lhe, querem-se-lhe atirar. Hoje uma lulu peluda e bem penteada, branquinha, fez-lhe um cerco e, do nada, tentou morder-lhe. Assustei-me e até soltei um pequeno grito. O meu marido quase o içou, para o salvar da garina afobada. E ele, estranhamente, nem aí. Continuou a andar na maior indiferença. 

No outro dia, na praia, um outro pôs-se a brincar, ele a brincar, os dois de roda um do outro, a cheirarem-se, a correr, a saltar. Amigos. Mas, de repente, começámos a perceber que o urso felpudo estava como que a querer colocar-se numa posição algo estranha. Assustámo-nos. Os miúdos apreensivos. Eu a não querer que aquilo avançasse. Todos a pensar que o big bear, na volta, seria gay, como que a querer saltar para a espinha do outro (por assim dizer). Mas não. O meu marido limitou-se a lamentar a nossa ignorância, disse que não tinha a ver com sexo, que era a forma dele demonstrar ao outro a sua posição dominante.

Pois não sei. 

Mas, na verdade, também estou naquela: quero é que ele seja feliz. E, de resto, daqui por uns meses, se calhar, fazemos o que a veterinária aconselhou: a castrar a fera. Não se depois fica a ladrar fininho ou se a coisa não afecta. Mas também não interessa.

Bem. Adiante.

Dizia que o que sei é que não se enerva com os outros cães. 

O que o enerva verdadeiramente é quando o 'seu' rebanho dispersa. Por exemplo, se eu me afasto para entrar numa loja ele fica possuído, dá saltos no ar, quase piruetas, puxa, quer ir atrás, quer soltar-se da trela, fica num estado de nervos. E, quando me reaproximo, põe-se de pé, abraça-me, emocionado pelo reencontro. E isto acontece quando os miúdos se afastam, quando qualquer um de nós se afasta. O seu instinto de pastor fica bem patente quando alguma ovelha parece tresmalhar-se.

Resumindo.

Voltámos para casa tarde, oito e tal, se calhar quase nove. Já não uso relógio, não sei. Nada de mal pois o jantar estava feito: restos. Souberam bem, souberam a sexta-feira, a não ter que fazer o jantar. 

A semana foi complexa, o trabalho com algumas coisas ensarilhadas, o dia embrulhado desde muito cedo até ao fim do dia. E tinha eu pensado que a semana ia ser tranquila. Fiz mal. Não se deve pensar isso. Devemos deixar rolar.

Felizmente já estamos no sábado. Um fim de semana a começar e calorzinho e canto de passarinhos e a primavera toda atrevida a dar-se ares de verão. Coisa boa.

E é quase dia 9 e vamos ver o que aí vem. Muito preocupada com tudo. Não é só a brutalidade. É também a hipocrisia. O desrespeito. 

Mas não vou falar disso. 

Tenho que descobrir um mantra para mim. Como poderá ser? Como é um mantra? Palavras de agradecimento e de alegria? Palavras que transportam flores no seu regaço? Não sei. Não sei mesmo.

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As flores foram fotografadas pelo talentoso Cho Gi-Seok e fazem-se acompanhar por Melody Gardot e Philippe Powell que interpretam This Foolish Heart Could Love You

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Um bom sábado
Peace and love

segunda-feira, janeiro 24, 2022

Passear em Lisboa, ao Chiado
[Com reportagem fotográfica]

E dúvidas sobre como funciona e a quem ataca este Omicron

 



Dormi que me fartei. Quando acordei e vi as horas nem queria acreditar. 

Para não acordar com notificações, tinha retirado os dados do telemóvel. Ao repô-los, uma boa notícia. Em casa da minha filha, todos negativos, excepto o menino que desde a outra semana tinha sido diagnosticado com covid. 

Em simultâneo com o alívio pelas boas notícias, o espanto. O menino, durante essa semana, antes de saber que estava infectado, tinha-se queixado com dores nas costas. Nada de mais. A mãe pensou que seria da mochila pesada. Depois, levemente constipado. Normal. Enquanto isso, sempre na brincadeira e às lutas, ele e o irmão inseparáveis, sempre em cima um do outro. Para além disso, dormem no mesmo quarto, em beliche. E, também para além disso, é super chegado à mãe, andam sempre abraçados e no mimo.  

Porque na turma do menino um dos professores tinha testado positivo, na quinta-feira fez o teste. Na sexta-feira, o menino já estava constipado mas nada de mais. E ele e o irmão em cima um do outro no sofá. No sábado veio o veredicto: positivo. 

Toda a gente pensou que lá em casa seria inevitável que estivessem todos infectados. 

Entretanto, o menino ficou apanhado, com dores de cabeça, muito constipado. Ficou no quarto e o irmão acampou na sala. No dia seguinte, o campista também já estava apanhadíssimo. Espirrava, assoava-se em contínuo. Murcho, enrolado em mantas no sofá, atacado. Lenços e lenços molhados. Não estranhámos. O contrário é que seria de espantar. 

Contudo, ao fazerem testes, os coabitantes, incluindo este outro que já estava doente, a surpresa: negativos. Pensou-se: ainda não estavam com carga viral suficiente. 

Repetiram ao 7º dia. Este resultado que chegou agora: negativos.

No entanto, o menino que comprovadamente teve, continua positivo. Os outros, incluindo o irmão que tão apanhado esteve, nada. Não se percebe. 

Quais os mecanismos de contágio? Sendo esta variante tão contagiosa, como não contagiou quem estava ao lado, em cima, a respirar o mesmo ar?

E o que significa isto: se não foram contagiados, significa isso que são imunes? Podem andar à vontade? Ou o quê?

Se alguém aí desse lado consegue explicar estes fenómenos, muito agradeceria que me explicasse.

Entretanto, do lado do meu filho, os primeiros testes também deram todos negativos (excepto o menino que está positivo). Irão repetir o teste dentro de dias mas, a manterem-se, repetir-se-á o espanto pois os irmãos também andam permanentemente em cima e agarrados uns aos outros. Aliás, os dois rapazes também dormem no mesmo quarto. 

Obviamente fico satisfeita (e descansada) mas, ao mesmo tempo, fico intrigada. 

O que eu gostava mesmo era que se pudesse concluir que, quando em circunstâncias de absoluto contacto, as pessoas não ficam infectadas é porque geneticamente têm características que as tornam imunes. Ou, então, que já tiveram covid sem o saberem e ficaram fortemente imunizados.


Covid à parte, como só por volta das sete iríamos deixar umas coisas a casa do meu filho, nomeadamente um empadão para o jantar deles, ao início da tarde resolvemos rumar ao centro da cidade, mais concretamente ao local em que Lisboa é mais Lisboa: a zona do Chiado, a zona a que sempre me apetece voltar.

Deixámos o carro na 24 de Julho e fomos a pé. Subimos a Rua do Alecrim, descemos a Garrett, fui à Fnac, fui à Bertrand, fotografei, cirandei.


Gosto muito de ver e fotografar pessoas. Tal como acontece em todas as grandes cidades, há várias Lisboas. Mas é desta Lisboa urbana, cosmopolita, aberta e inclusiva que eu mais gosto.

Quando, há mil anos, comecei a andar sozinha em Lisboa, era por aqui que eu gostava de andar: pelas livrarias, pelos alfarrabistas, entre estrangeiros. 

Acontecia, por vezes, dirigirem-se-me em inglês ou francês, convencidos que eu própria era estrangeira. E é sempre assim que aqui me sinto: estrangeira, turista, viajante de primeira viagem, deslumbrada com tudo o que vejo, integrada no apetecível desconhecido.


A luz, o movimento, as cores, a decoração das montras, o vidro das montras que funciona como espelho, as casas e as pessoas que aí se reflectem e a música de quem canta na rua -- tudo me agrada.


As minhas memórias tão presentes, o rio lá em baixo e o casario, os candeeiros, os passeios, as árvores, as vozes de quem passa conversando -- tudo me encanta. Por mil vezes que por aqui passe, sempre me encantarei.


Como tantas me acontece, apeteceu-me fazer a reportagem completa: fotografar, entrevistar quem passa -- quem são, onde vivem, o que fazem, o que pensam, o que as preocupa, o que as anima, de que gostam, o que gostariam de me contar. 

Será que um dia vou ter coragem para fazê-lo? 

Como reagiriam as pessoas se me abeirasse delas e lhes pedisse autorização para as filmar enquanto conversasse com elas...? Seriam compreensivas, achariam piada?


Poderia ter um blog assim, apenas com reportagens, apontamentos, a voz dos outros em discurso directo. Tentaria arranjar algumas perguntas que os deixassem desarmados, disponíveis para conversar. Tentaria que eles próprios me dessem ideias para novas perguntas, para novas reportagens. Pedir-lhes-ia conselhos. Ouvi-los-ia.


Este domingo fiz, pois, muitas fotografias. Agora ao escolher algumas, deixei muitas de lado. Por exemplo, tinha pensado fazer um post só com montras e, por isso, fotografei muitas. Há uma elegância muito lisboeta, muito bcbg nestas montras. Mas ficarão para outro post. 

Contudo, houve uma das que deixei de lado que não tem a ver com montras e que me deixou com pena por não a usar. Tinha visto um casal bonito, elegante, numa posição de proximidade que me pareceu sugestiva: fotografei-os pensando que iria ser uma boa fotografia.

Contudo, agora ao tê-las passado para o computador e ao vê-la fiquei com a sensação de que se trata de um casal clandestino. Há ali qualquer coisa de misterioso, de cúmplice e, ao mesmo tempo, de fugaz. Mais: olhando melhor, fico com a sensação que o homem está, na verdade, a desculpar-se ou a tentar convencer a mulher -- e que ela resiste. Fiz zoom e parece-me perceber nela alguma mágoa, algum cepticismo.

Por tudo isto, essa fotografia não está aqui. Mas, em torno dessa fotografia, eu gostaria de contar uma história.

Mostro outras. Em algumas veem-se os rostos. Como sempre, se algumas das pessoas aqui retratadas não quiser aqui estar, bastará que mo diga que logo retirarei a respectiva fotografia.


Entretanto, o nosso cão-pastor, nascido num monte do Alentejo profundo, gostou do passeio pelo Chiado. Entre tantas pessoas e carros e um movimento e ruído a que aqui ou no campo não está habituado, portou-se às mil maravilhas. 

O mesmo não posso dizer do seu dono que se queixa das minhas paragens e do muito tempo em que fico perdida dentro das livrarias. Desculpa-se com o urso cabeludo, diz que é ele que fica inquieto quando eu fico para trás ou quando entro numa loja e não reapareço de seguida. Mas não é: é ele que não tem paciência para andar devagar ou para ficar parado a olhar coisas que, segundo ele, já vi e fotografei mil vezes. 

Mas é assim mesmo: nem ele nem eu vamos mudar... E enquanto houver estrada para andar a gente vai continuar.

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Desejo-vos uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira

Alegria. Bons ares. Bons passeios. Boa disposição. Coragem para ir em frente.

quinta-feira, janeiro 13, 2022

As preferências da UJM
(Enfim, algumas)

 

Livro: Stoner e mais uma porção deles

Programa de televisão: Master Chef Australia

Música: já disse vezes de mais, não me apetece repetir

Uma cantora e uma canção entre tantas: Melody Gardot a interpretar La vie en rose

Flor: todas

Político de todos os tempos: sei lá

Político com o penteado mais original: Boris Johnson

Pior político português vivo: por ordem decrescente de relevância - Cavaco, Passos Coelho, Relvas

Prato: pescada de anzol cozida, com batatas, feijão verde, cenoura, ovo, tudo temperado com azeite e sumo de limão

Sopa: de tomate

Bolo: torta de Azeitão; doces de ovos de Aveiro; fofos de Belas; pão-de-ló de Alfazeirão; dom rodrigo de Lagos; paistéis de Belém; etc

Pessoa que aparece na televisão portuguesa com uma carinha mais laroca: Miguel Monjardino, aka, Mr. Big Eyes

Melhor imitação: Herman José a imitar o Nuno Azinheira na Passadeira (aka Arrastadeira) Vermelha

Azeiteiro/a mais azeiteiro/a: Cristina Ferreira

Entrevistadora com a maneira mais enervante de fazer perguntas: Fátima Campos Ferreira

Pessoa mais bizarra a apresentar um programa de televisão: José Navarro de Andrade

Supermercado preferido: Lidl

Ténis preferidos: Skechers

Blogger mais absolutamente critativo/a: Gina Geia

Blogger com quem quase sempre concordo e que escreve como eu gostava de escrever: Valupi

Blogger mais encantadoramente romântico: Xilre

Blogger mais esdrúxulo, bissexto e desconcertante: O anão gigante

Blogger mais inclemente, mais castigador: Plúvio

Cidade mais linda do mundo: Lisboa

Lugar de onde se tem a melhor vista de Lisboa: Ginjal

Lugar do mundo onde a vida é mais pura e onde eu sou mais eu: heaven

Amiguinho mais recente e mais fofo: o ursinho felpudo, aka a big fera

Cidade não portuguesa onde deve ser bom viver: San Sebastien, aka Donostia

Livraria bem organizada, elegante e boa pinta, bem situada, com bons livros: Livraria da Travessa

Livraria mais livraria, mais boa onda, mais acolhedora, mais arca dos mil tesouros: Livraria Escriba

Jornal que mais vale a pena: The Guardian

Pintor genial: vários mas, para aqui colocar uma pintura que considero que fica a matar nesta minha casa, Picasso

Cómico não português: Mel Brooks, por exemplo

Quem melhor descreveu como se assobia: Lauren Bacall

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Desejo-vos um belo dia
😎
E toca a ir passear, apanhar ar, apanhar sol.
Saúde e alegria

sexta-feira, setembro 03, 2021

Os bons conselhos que o seu signo tem para si

 


Em minha defesa alego que  tenho a companhia de outros que, ninguém diria, também prestam ou prestaram alguma atenção ao alinhamento dos astros. Poderia referir alguns mas não quero que pensem que me passa pela cabeça que chego aos calcanhares deles. Por isso, fico caladinha mas consolada pensando que eles, que a gente acha inteligentes, se interessaram... porque não também eu...? Ora.

Claro que a minha costela pragmática, dada às ciências e com aversão ao esoterismo, me diz que só pode ser treta. Mas depois há aquilo de uma pessoa ler o que eles, os astros, dizem e parecer que tem mesmo tudo a ver connosco. E aí a gente acha que, por muito racional e pragmática que seja, também é filha de deus e com direito a uns momentos de maluqueira, abstração, crença à toa e alienação qb.

Portanto.

Sou caranguejo, inequivocamente caranguejo, ascendente caranguejo, e acho que a descrição astrológica dos caranguejos me assenta que nem uma luva. E se a coisa me parece bater certo na função principal a partir daí já vou de olhos fechados, indo na cantiga de todas as derivadas que alguém se lembre de engendrar. Seja qual o bolo mais apreciado pelos caranguejos, seja o perfil sexual dos ditos, seja a bebida mais indicada, seja a prática desportiva, seja o que for. Se vejo artigo que verta tese sobre o tema, aí estou caída. E nunca tem que enganar: acerta sempre. Mesmo que me surpreenda, depois de reflectir um pouco, logo percebo que estão certos os astros.

Andando preguiçosamente a flanar pelos onlines e incapaz de me fixar em coisa que se aproveite, é nas frioleiras que me detenho. Ou é da saison ou é de moi-même mas, confesso, quanto mais fútil mais me atrai.

Hoje foi a Vogue francesa que tinha para recomendar as práticas desportivas mais adequadas a cada signo. E lido em francês ainda mais adequada me parece.

 CANCER (du 22/06 au 22/07) - Signe d’eau

Planète : La Lune, les émotions

Véritable éponge émotionnelle, vous êtes plutôt d’une nature créative et artistique que sportive. Le sport est pour vous une manière de libérer vos émotions et d’écouter votre corps. Pas d’agressions, vous suivez le ressenti et les besoins de votre être. Vous avez besoin de vous sentir en contact avec la nature. Signe d’eau, la mer est un besoin vital, une seconde nature. 

Sports conseillés : natation, yoga, course à pied, paddle, aquagym, danse.

Dos que me recomendam, concordo na íntegra com a natação e com a caminhada. Pratico com a regularidade possível. Hidroterapia já fiz e também gostei. E há o ioga que venho adiando apesar de saber que não conseguirei fugir-lhe. Mas há uma falha: paddle no way. Talvez se tivesse menos duzentos anos. Paddle...? Não atinjo. Dança. Sim, dança, sim. Quem sabe um dia não me inscreverei em aulas de tango... ? Caraças, good idea. Como não me lembrei antes? 

Para os malucos que, tal como eu, gostam de espreitar para estas cenas, aqui vai à laia de conselho para a rentrée: Rentrée : quel sport choisir selon son signe astrologique ?

E depois há outra: o cocktail indicado para cada signo. Útil. Como sabê-lo sem me informar devidamente? De que é que um caranguejo gosta quando lhe apetece um copo? Ora bem. Vejamos.

Le cocktail pour les natifs du Cancer : le punch

De nature réservée mais créative, les Cancer vont quant à eux opter pour l’un des cocktails les plus classiques du monde : le punch. Mélange de jus de fruits, de fruits tout court et de rhum : son goût sucré à ce petit je-ne-sais-quoi qui rappelle les boums de fin de lycée et les premiers amours.

Acho que nunca bebi um punch. Sangria sim. Mas sangria não é feita com rum. Rum apenas conheço do gelado, rum com passas, e gosto que me farto. Portanto, terei que experimentar já que sumos de fruta é do melhor que há e com rum à mistura deve ser uma maravilha.

E para quem não seja carangueja e não saiba o que pedir quando for beber um copo, cá vai. Quel cocktail en fonction de votre signe astro ?

E para acompanhar o copo: na hora de uma gulodice, que bolo escolher?

Muito bem: os astros recomendam-me um bolo que desconheço. Pelas fotografias quase parece uma bola de berlim e aí no way. Mas também pode ser um fofo de belas e aí, oh my dog, será na mouche. Love, love, love fofos de belas. E, se for para partilhar, melhor e mais doce ainda.

La pâtisserie pour les natifs du Cancer : la tarte Tropézienne 

Voilà l’été, voilà l’été… Et pour célébrer son arrivée et par là même l’entrée dans le mois des natifs du Cancer, pourquoi pas déguster une Tropézienne. Une pâtisserie à la fois douce, créative, et généreuse, que l’on peut partager avec ses proches. Bref, une option parfaite pour les natifs du Cancer et leur sens de l’accueil. 

E aqui fica o link para quem esteja a salivar por um bolinho e não saiba qual: Quelle pâtisserie correspond à votre signe astro ?

E, para o fim, la pièce de résistence. O perfil sexual segundo os astros. Poderia fazer uma introspecção e reproduzir os meus mais profundos feelings sobre o tema. Mas não. Caranguejo que é caranguejo também é dado às pequenas brincadeirinhas. Portanto, que falem os astros que eu cá não me meto nisso.

Cancer

La femme Cancer ne peut s'épanouir sur le plan physique, que si celle-ci est en accord émotionnel avec son partenaire, et qu’elle se sent aimée. Elle a besoin d’être l'objet d'attentions et de tendresse. Son attachement à l'image paternelle est si fort qu'elle recherche toujours, plus ou moins inconsciemment, une épaule solide, un bras protecteur. Elle n’est pas très constante dans ses envies. Elle peut être un jour passionnée, puis le lendemain vaguement indifférente, selon les variations de ses humeurs. Sensible aux ambiances, la femme Cancer peut facilement se livrer sans retenue lorsqu'elle est en confiance, mais se bloquer complètement dès que quelque chose cloche ou la dérange. Il faut beaucoup de délicatesse pour parvenir à la libérer de sa retenue. Mais la femme Cancer a une imagination débordante. Ses fantasmes sont parmi les plus fous et n’ont rien d’ennuyeux. Ils n’ont toutefois rien de pervers; elle a seulement cette grande capacité de se sentir femme jusqu'au bout des ongles lorsqu'elle est en parfaite confiance avec un partenaire.

Tirando aquilo da imagem paternal que, no que me toca, não me parece que se aplique, no demais tem graça. E caso queiram descobrir se o vosso também tem graça, aqui está:  Votre profil sexuel


E, no demais, tudo é um bom pretexto se for inócuo e tiver graça. E, além disso, ainda estamos no verão e, no verão, corações ao largo e bora mas é curtir.

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As fotografias foram feitas in heaven e, Francisco, espero que dê para ver com o que me tenho andado a entreter. 
Melody Gardot interpreta Sunset In The Blue
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Desejo-vos um dia muito bom

sexta-feira, junho 04, 2021

O segredo das rosas

 


Dia feriado e, só por isso, bom. Os meus dias já não são exactamente o que eram. Agora com qualquer coisa já acho que está bem assim. De manhã fomos ao supermercado. Dantes odiava. Agora gosto. Para além das utilidades, sucumbi às flores. Três. Duas cristas-de-galo, uma em fúcsia intenso e outra em amarelo, e uma begónia. Escuso dizer que o meu marido tenta impedir-me, diz que não temos onde pô-las. Nem respondo. Como não temos? Claro que temos. É como para mais um sorriso ou um bombom de chocolate: há sempre lugar. A minha mãe diria: o coração das mulheres é muito grande, há sempre lugar para mais um. Neste caso, uma.

Vim para casa feliz da vida.

De tarde, fomos ao Leroy. O tema era puxadores de porta. Mas trouxe três vasinhos brancos para as flores novas e uns suportes. A ideia de ter vasos suspensos anda a agradar-me muito. Queria um que lá estava que tem uma pega para pendurar mas estava numa prateleira a que não chegávamos. Tirei senha para pedir a um empregado mas nunca mais chegava a minha vez. Tanta gente... Vi lá uma outra flor linda mas sem o vasinho com a pega fiquei sem saber bem onde a poria. O meu marido fica em transe quando vê muita gente e me vê a querer trazer coisas que ele acha inúteis. 

Fui também ver de uma coisa da qual andava atrás há algum tempo: uma escarificadora manual. Têm estado esgotadas. Ainda não descobri uma como aquela máquina que aqui me foi recomendada em tempos, de nos montarmos em cima dela, ideal para os meninos fazerem exercício. Esta é das simples,. Quando vi uma fiquei toda contente. Mas a alegria não foi consensual. Por pouco, ele não acabou ali mesmo com o casamento. Que eu não pensasse que ele ia andar com aquilo. Eu disse que eu é que ia andar. Não acredita, diz que não tenho disciplina nem paciência para aquilo, que quero é que ele faça as coisas mas que tire isso da cabeça. Tive que lhe dizer que estava em público, que controlasse o mau feitio. Como não consegui ver o preço, disse que ia levar até à caixa e, se fosse cara, não trazíamos. Trouxemos. Estou desejando de ter tempo e de estar melhor do joelho (já marquei consulta) para me ir pôr a escarificar a relva. Não sei se o conceito se aplica à relva ou à terra mas, seja a escarificar a planta ou o leito em que se deita, tanto faz. Hei-de escarificar tudo. Só o verbo já é interessante e, quer-me a mim parecer, há-de prestar-se a boas metáforas. . 

Quando chegámos a casa, estive a transplantar as florzinhas novas para os vasos. O meu marido no outro dia trouxe uma ponta para a mangueira que tem várias posições. Gosto muito de usar a posição de chuveiro para regar os vasinhos que estão pendurados no gradeamento que separa o terraço da cozinha do jardim. A água escorre de uns para outros. Está tudo viçoso e quando rego ao pôr-do-sol, em contraluz, fica tudo muito bonito.

As taças de suculentas no pequeno terraço junto à outra porta estão a ficar muito bonitas. Estão ao pé daquela maravilhosa Brugmansia suaveolens que afinal tem tanto de tóxico quanto de bonita

Quem diria que uma planta com aquela beleza pode ser tão perigosa? E a magana que, pela tarde, se perfuma como uma tentadora allumeuse...? Um perfume... Só visto (e cheirado). É o perigo das sedutoras: mais vale que os incautos se mantenham longe. Caso contrário, os que se se afoitam demais logo caem nos seus encantos e ficam fatalmente agarrados.

As nêsperas também estão uma tentação: carnudas de boas. Como-as imoderadamente e, pior, sem sentimento de culpa. É o que dá não ter ligado muito à catequese. Peco sem querer saber se estar a pecar, ignorando a culpa.

Tenho ainda a dizer que ontem li um artigo que me deixou alegre e vitoriosa. Fiz até questão de o ler em voz alta ao meu marido. Aquilo pelo qual tanto tenho batalhado afinal ali, em letra de forma, no Guardian: The brilliance of brown lawns: why your grass shouldn’t always be greener. Ainda no outro dia o meu filho dizia que a relva não estava grande coisa. Eu achava que estava óptima. O meu marido cantou de galo, sentindo apoio na sua luta. Em algumas zonas a relva estava maior e eu gostava de a ver assim. Não tem que estar rapada. E se houver uma ou outra zona em que está mais seca, acho que é uma questão de escarificar e ir regando.  Não gosto de ver o jardim como se fosse uma coisinha muito bem comportada. O meu marido e o meu filho acham que relva, por definição, é relva aparada e regular. Neste particular não nos entendemos, portanto.

Pois bem. Relvas pipis, aqui sentenciado e sacramentado pelo Guardian, são relvas que anulam a biodiversidade. Deixá-la crescer um pouco, deixar que algumas florzinhas se aventurem, tudo isso me parece saudável e bonito -- e é. Atrai insectos, atrai pássaros, estimula a reprodução selvagem (e afins). Ou seja, aquilo pelo qual tenho sido tão contestada, afinal, não apenas não é ideia assim tão disparatada como é o melhor para a natureza. Pimbas.

Hoje, quando íamos a sair para o supermercado, ele apontou para o chão e disse: olha um malmequer. Fiquei contente. A reacção dele já foi resultado da leitura de ontem. Senão teria dito: é no que as tuas teorias dão, até já flores nascem no meio da relva, se não se trata rapidamente, não tarda isto está uma m...

Debrucei-me. Era mesmo. Uma florzinha linda, pequenina e atrevida. Talvez uma mini-margarida. Não a arrancámos, como é óbvio. O que leio no artigo é que há florzinhas que se podem aparar como a relva, que não morrem. O meu marido não convive bem com esta minha abertura de espírito, tenta restabelecer a ordem. Diz: não lhe podes é chamar relva, é outra coisa.

Esteve cá a anterior dona da casa. É sempre uma lufada de boa disposição. Olha em volta, vê as flores. Ficou espantada com a abundância de rosas. Cachos de rosinhas encarnadas. Mostrei-lhe aquelas que, ainda há pouco, eram grandes, amarelas, cor-de-salmão, brancas e disse: veja, estão outra vez pequeninas, encarnadas. Ela fez um ar desconcertado. Sempre foram assim como estão agora, pequeninas, encarnadas. Nunca tive rosas amarelas... Pois, que é misterioso é. Por isso ainda mais gosto delas, mutantes, inexplicáveis.

Apanhei um pequeno cacho e coloquei na jarrinha pequenina que coloquei no parapeito da janela que está junto à mesa onde tomamos as refeições.

E andei a fotografá-las. Little red roses. Tão, tão bonitas, tão, tão difíceis de justificar. 

Não sei se, aí onde estão, sentem a vibração da sua cor e a beleza do seu perfume. Gostava que sim.


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Andei à procura de uma canção com rosas vermelhas, sem desgostos ou frescuras. Não encontrei. Optei pela La vie en rose na voz da Melody Gardot, e optei apenas porque sim. Depois, para compensar, apeteceu-me ter rosas em palavras ditas. Mas também não tive paciência para grandes pesquisas. Partilho convosco: A red red rose por Robert Burns (lido por Tom O'Bedlam) e o Soneto 130 de Shakespeare (lido por Alan Rickman)
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Desejo-vos um dia feliz