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segunda-feira, março 25, 2024

Estou como a Fran que também não suporta os estúpidos e os ignorantes.
Chama-lhes anarquistas que querem acabar com o regime, destruir a democracia. Concordo.
E, tal como ela, também não posso com homens que pintam o cabelo (e, claro, ainda menos, com os que usam capachinho)

[E, já agora, junto a receita da sopa e do arroz de cabrito que fiz hoje]

 

O ar denso, amarelo. Uma mistura de pólens, nomeadamente o dos pinheiros, e de poeiras do deserto. Isso e o que parece ser humidade. Não gosto. Sinto a garganta ligeiramente arranhada, por vezes uma comichão que me dá tosse. Se calhar é disto. De noite, tenho tido ataques de tosse. Esta noite já não dormimos de janela aberta (ie, vidros abertos) e, por acaso, tossi um pouco menos.

A ver se a chuva que aí vem lava o ar pois isto, certamente, não é lá muito saudável.

Sábado foi dia de família, de alegria, de animação. 

Domingo dia de lazer. Aproveitei para lavagem de roupas e para cozinhar. 

Fiz sopa de legumes e arroz de cabrito. Vou dizer como fiz cada coisa.

Sopa de legumes

Numa panela, coloquei água, duas cebolas, um alho francês, uma fatia de abóbora, uma courgette, um nabo, quatro cenouras médias, sal. Tapei. Depois de levantar fervura, baixei e ficou a cozinhar até ver que os ingredientes estavam quase macios.

Num tacho à parte, com um pouco de água, coloquei o conteúdo quase todo de um pacote de sopa portuguesa embalada (cenoura fatiada, couve ripada, alho francês fatiado) e uma mão cheia de feijão-verde fatiado. Ficou a cozinhar, tapado, até as couves estarem macias.

Quando os legumes da panela ficaram cozinhados, desliguei o fogão, juntei um fio de azeite e triturei. Depois misturei os legumes cozinhados à parte e envolvi.

Arroz de cabrito

Primeiro retirei a gordura dos bocados de cabrito. Não tirei absolutamente toda mas, pelo menos, tudo o que é gordura densa saiu. Lavei bem.

Num tacho coloquei um pouco de azeite. Cortei duas cebolas grandes lá para dentro e foi frigindo. Por cima coloquei os bocados de cabrito. Por cima deles, um pouco de sal, salsa e coentros em quantidade razoável, meio alho francês aos bocados e o resto do conteúdo da embalagem de sopa portuguesa. Juntei água até quase cobrir. Juntei ainda um pouco de pimentão-doce em pó, um pouco, muito pouco, de curcuma e, ainda, um pouco de alho também em pó. Por sugestão do meu marido, juntei um bocadinho (bem pequeno) de chouriço de carne, só para dar alguma graça.

Depois de ferver, baixei, sempre com o tacho tapado. Ficou a cozinhar. Talvez uma hora, não sei bem. Vou espreitando até ver que a carne começa a despegar-se dos ossos. Juntei, então, três cenouras às fatias e uma boa quantidade de feijão-verde, creio que uns dezoito feijões grandes, também aos bocados, desta vez largos. De cada vez que junto alguma coisa, levanto o lume para que o caldo volte a levantar fervura. Nessa altura, baixo de novo.

Pouco depois, juntei três bolas de folhas de espinafres congeladas e duas maçãs de alcobaça cortadas aos cubinhos (isto para cortar um pouco aquele sabor que pode ser intenso do cabrito). Quando se come, fica com um suave doce que corta o que ainda remanesça de sabor gordo a animal que o cabrito parece que sempre tem.

Depois de ferver de novo, juntei um copo de arroz basmati. Antes tinha validado (a olho...) que o caldo presente no tacho seria sensivelmente o dobro. Envolvi tudo.

Quando o arroz estava cozinhado, o caldo absorvido, juntei um bocado de vinagre. Envolvi.

Ficou bom.

Tirando isso fiz várias coisas como arrumações, apanhar nêsperas, limões, etc. Por exemplo, há pouco vi um vídeo com a Fran Lebowitz que gosto sempre de ouvir. É desabrida, é educada, é divertida, é lúcida, é inteligente... e é democrata. 

Podem colocar-se legendas em português mas creio que só daquelas em que a tradução é automática (que, como se sabe, por vezes é manhosa...). Mas, vão por mim, vale muito a pena. Também ela se insurge contra os estúpidos, os ignorantes, que andam a dar cabo das democracias. 

Nem todas as mentes são suficientemente abertas para ouvirem os alertas ou algumas sugestões que servem sobretudo para lançar o tema, para fomentar a discussão. Há ainda muita gente que se acha mais esperta que os outros e podem os populistas estar a minar a democracia, regredindo nos direitos e nas liberdades, infectando todo o sistema legislativo e a fazer porcaria por todos os lados, que continuarão enfeudados nos seus redutozinhos de intelectualidade reaccionária e míope. Por eles, bem podem os populistas, os ditadores, os maiores energúmenos avançar sobre nós que não mexerão um dedo, entretidos a 'mandar bocas' aos que tentam resistir.

Enfim, é o que é. 

Fran Lebowitz on the joy of revenge, holding grudges and why men shouldn't dye their hair

Fran Lebowitz sobre a alegria da vingança, sobre guardar rancor e a razão pela qual os homens não devem pintar o cabelo 


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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Coragem. Frontalidade. Paz.

domingo, fevereiro 11, 2024

O tio-avô anarquista, a avó que era Frida vibe, casórios e muitas centenas de cartas e de fotografias (centenas? ou milhares?)

 

Passei o dia de volta das caixas. Descobertas que, para mim, são fascinantes. 

Uma fotografia me encanou: a minha avó materna, muito jovem, sentada com o meu tio, ainda bebé, ao colo e a minha mãe, talvez com uns três anos, muito loura, olhos muito claros, muito séria. Mas o que mais me surpreende é o porte da minha avó, muito direita, com um vestido que devia ser de uma cor viva com um padrão não de bolinhas claras mas um qualquer motivo assim, com mangas compridas, cós branco nas mangas, um decote em bico com uma gola branca em volta e um colar de grandes e coloridas contas. Morena, cabelos pretos, sobrancelhas vincadas. A minha filha disse Frida Kahlo vibe. E é.

Tenho que arranjar maneira de ter em casa, algures, em destaque, algumas das incríveis fotografias que  descobri. E para as cartas antigas. Tenho que tê-las num lugar em que saiba onde estão. Receio guardá-las num sítio em que se perca o rumo para elas.

Descobri também um pequenino caderninho em que a minha bisavó escreveu a data de nascimento da minha avó, a data em que se casou e a data em que a minha mãe nasceu. Afinal nasceu à tangente com a minha avó com dezasseis acabados de fazer. 

Aí escreve também como o filho andou aos tiros, foi preso, foi deportado. Na fotografia dessa folhinha apaguei o nome desse meu tio-avô.

Noutra folhinha, diz que regressou e, mais tarde, foi outra vez preso.

Já descobri que era anarquista. Encontrei-o, via google, num trabalho sobre os movimentos anarquistas. Bate certo com o que a minha bisavó escreveu, a data, o nome do navio, etc. E a minha filha descobriu uma fotografia com os deportados dos anos 30 em Timor, na ilha em que, justamente, ele esteve. Um dos da fotografia é certamente esse meu tio-avô anarquista de que sempre ouvi falar como sendo um combatente, um aventureiro, corajoso. Viveu clandestinamente, esteve preso. Morreu pouco antes do 25 de Abril para grande desgosto da minha avó pois toda a vida ele lutou pela liberdade.

No dia do enterro da minha mãe (custa-me dizer enterro pois foi cremação; apenas uma semana e tal depois é que fizemos o enterro das cinzas), os meus primos, filhos do irmão da minha mãe, disseram que tinham descoberto não sei o quê sobre esse tio, qualquer referência histórica, creio, e que aparecia lá o nome de código dele. Tenho que lhes enviar a fotografia de algumas destas coisas que estavam com a minha mãe e pedir-lhes que me mandem imagens do que, se calhar, estava com o pai deles.

Nesse livrinho a minha bisavó fala de uma Luiza que tinha um amante e que viveu um drama, tendo sido salva. Nunca ouvi falar dela. Seria uma outra filha? Não sei.

Descobri também duas folhas antiquíssimas com textos, creio que humorísticos (mas tenho que me debruçar para conseguir ter a certeza). Tenho ideia que era correspondência dos primos algarvios, entre eles o que foi presidente.

E inúmeras, inúmeras fotografias. Primos em Lisboa, outros no Algarve. E muitas, muitas de quando eram jovens. Era um grupo enorme de amigos e deviam andar sempre juntos. E fotografias do casamento dos meus pais. E dos meus tios, os meus pais como padrinhos de ambos, a minha mãe de chapéu, elegante, o meu pai muto bem, eu de menina de alianças.

Passando para a correspondência que me foi dirigida tenho muitas dezenas, talvez centenas, de uma grande amiga epistolar, alguém que escrevia muito bem, com muita facilidade e que me encantava pelos seus gostos, pela sua cultura. São Tavares. Tenho ideia que estudou História. Tenho cartas que vinham de Leiria mas creio que ultimamente vivia no Porto. Não consigo descobrir o nome completo para conseguir descobrir que é feito dela.

E várias outras. Por exemplo, a Mané de Leiria. Era muito alegre, tenho ideia que era um espírito livre. E muito bonita. Mas a única coisa que sei dela é isto: Mané. Conhecia-a, a ela e à São, num acampamento creio que na Quinta dos Lilases, ao Lumiar. Estivemos uma semana a acampar e tornei-me muito amiga delas, uma amizade epistolar que durou vários anos.

Com tempo vou pôr as imensas cartas por ordem cronológica e vou ler.

Mas já separei as cartas por sacos: um para as cartas da São, outros para as da Mané, outro para as da Jill, outro, quase a rebentar, para o namorado que escrevi que se desunhava. Etc. Encontrei também cartas anónimas de um que dizia que era louco por mim, que me adorava há muito tempo. Como nunca descobri quem era, juntei-as ao saco do namorado. Enfim, vários sacos,

Foi o dia quase todo de volta do conteúdo das caixas. Tinha pensado que o dia me chegava para arrumar lençóis e toalhas de mesa mas o tempo não esticou. Entre refeições, caminhadas, fotografias e correspondências, não deu para mais nada.

A meio da tarde senti um cansaço grande, uma saturação. Ia pondo as coisas em cima de uma mesa e ia vendo, eu de pé. Mas o cansaço não foi, certamente, de estar tantas horas de pé. Deve ter sido de tanto tempo de atenção, de seguida.

Agora tenho que intervalar disso, tenho que descansar a cabeça.

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Um feliz dia de domingo

Saúde. Esperança. Paz.