Mostrar mensagens com a etiqueta Timothée Chalamet. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Timothée Chalamet. Mostrar todas as mensagens

sábado, março 14, 2026

Linha do tempo de um dia tranquilo

 

Geralmente é o meu marido que, de manhã, levanta a persiana do quarto. Levanta-se bem antes de mim, toma o pequeno-almoço, vai acordar o pobre do cão e arrasta-o até à rua, a seguir vai podar árvores, árvores e arbustos ou causar estragos que não lhe perdoo pois corta sempre demais e, quando já não sabe o que mais fazer, vai até ao quarto e pergunta-me se ainda não são horas. Isto para dizer que, quando levantou a persiana, vi que estava sol. Pensei: 'Vou mas é pôr já a roupa a lavar'. E assim fiz. Lençóis, toalhas, panos das mãos e o mais a que deitei a mão (compatível com temperaturas e cores, bem entendido), tudo para a barrela. 

Depois tomei o meu pequeno almoço. Laranja, depois um copo de kefir natural com sementes e latte dourado. A seguir um café.

Depois de estendermos a roupa, tarefa que dividimos, fomos para o ginásio. E, a propósito disso quero aqui deixar um apontamento: no outro dia, se calhar por causa duns stresses que vieram bater-me à porta (e de que já me livrei), estava com um torcicolo, acho que falei nisto aqui, o pescoço tolhido, a nuca apanhada e dorida. O meu marido pensou que eu não ia ao ginásio e, para dizer a verdade, ainda hesitei. Mas depois resolvi que ia na mesma. Não abusei muito, mas fiz o habitual, embora não tivesse puxado demais pelos ombros ou braços. Não piorei. E voltei. E pus-me boa. Sem tomar um comprimido. 

Aqui há algum tempo li um artigo científico em que se concluía que, para osteoartrites e inflamações de articulações e/ou artroses, o melhor remédio é o exercício. Não o repouso ou contenção de movimentos mas, justamente, o oposto, o exercício. Não sei se é para todas as situações, mas o que me tem parecido é que, pelo menos comigo, parece ser verdade. Em contrapartida, sinto que estar muito tempo sentada, andar pouco, fazer pouco exercício, isso é que dá cabo do corpo todo.

Bem.

Vindos do ginásio, tomámos banho, apanhámos a roupa e fomos almoçar. E não sei se foi a essa hora que ouvi a notícia que me pareceu a mais estúpida do dia. No meio das desgraças inomináveis das guerras absurdas e cruéis que estão em curso e de todas as implicações que já aí estão e as muitas mais que por aí virão, ouvi novidades da mais recente e espectacular operação da Polícia Judiciária, a Rigor Mortis: que as buscas à morgue do Hospital Santa Maria e às casas das pessoas, aparentemente, têm por base o facto de os funcionários da morgue receberem verbas entre 5 e 30 euros por cada corpo que preparam antes de os entregar às funerárias. Ouvi isto e só me apeteceu atirar um copo de água à cabeça do maluco que mobilizou investigadores da Judiciária para uma treta destas. É que não sei quem é que fica prejudicado com isto. Se os pobres coitados que têm como profissão lidar com mortos preparam minimamente os respectivos corpos e, com isso recebem uns trocos, que mal há nisso? O hospital fica prejudicado? Alguém fica prejudicado? E, mesmo que haja aqui qualquer coisa de vagamente ilícito, é caso para mobilizar tanta gente, tantos investigadores que custam caro, para uma coiseca destas? Não andariam melhor a apanhar traficantes de droga? Não andariam melhor a apanhar traficantes de armas de todo o tipo? Não andariam melhor a caçar pedófilos? Não andariam melhor a prestar atenção a bandidos que praticam violência doméstica e ameaçam as mulheres caso estas os denunciem? E a comunicação social também não tem neurónios? Que sentido dar tanto destaque uma notícia destas que nem se percebe que raio de notícia é? Não bastaria dar uma rabecada aos pobres coitados que, pelos vistos, ganham uns trocos indevidos? Era preciso tanto aparato? 

Bolas, só maluquices. Caraças.

Adiante.

Depois de almoço, estava um sol bastante jeitoso. Pensei que não era cedo nem era tarde: boa ocasião para a vitamina D. Vesti uns calçõezitos e uma tshirtezita e estendi-me numa espreguiçadeira. E senti-me abençoada por poder receber assim, em liberdade, um calorzinho tão bom. Ser reformada tem destas coisas: não ter horários nem obrigações, não ter que estar enfiada em escritórios de manhã à noite, a respirar ar condicionado e a resolver problemas e a aturar gente em contínuo, por telefone e em pessoa, sem possibilidade de pôr o pescoço de fora para curtir um raiozinho de sol.

Pois, pois. Foi mas foi sol de pouca dura. Veio uma nuvem e foi-se o verão. Logo depois estava frio. Tive que vir para dentro, mudar de farpela.

Tenho ainda a dizer que cá em casa praticamente não se comem doces: o meu marido não aprecia e eu aprecio mas, por cada 10 gramas de açúcar que ingiro, aumento 1 quilo. Além disso, não gosto de fazer sobremesas. Mas, de vez em quando, apetece-me. E o meu marido, volta e meia, diz: 'devia haver qualquer coisa que se comesse entre refeições, quando nos apetecesse, para não ser só frutos secos'. Pois bem. O Instagram tem-me trazido coisas com piada. No outro dia apareceu-me um japonês que dizia que se pode fazer um doce sem farinha e sem açúcar. 

E mostrava: esmaga-se batata doce cozida, mistura-se um ovo, leite de amêndoa e cacau em pó, bate-se e leva-se ao forno. E ficava com bom aspecto.  Então resolvi fazer. O pior é que não tinha quantidades. Tudo a olho. Não tinha leite de amêndoa mas tinha kefir. Pensei que, com o kefir, ainda deveria ficar menos doce. Então, antes de vazar a mistura para a forma, juntei algumas, poucas, tâmaras e nozes cortadas aos bocadinhos. Levei ao forno. 

E, se querem que vos diga, acho que ficou razoável. O meu marido não ficou extraordinariamente convencido e diz que com mais tâmaras talvez fique melhor pois assim parece que ficou com pouco sabor. É que, quando a gente vai comer um bolo -- e este fica macio, com um ar até a modos que apetitoso -- vai à espera de lhe saber a doce. E este doce, doce, não é. Para a próxima junto-lhe ou uma colherzita de mel ou mais tâmaras e talvez, até, algumas passas e arandos. Contudo, há pouco reparei que, apesar de lhe saber a pouco, até já comeu um bom bocado.

E depois fomos fazer uma caminhada e vi umas florzinhas amarelas muito lindas, lindas mesmo, um amarelo torrado, mais do que dourado, quase a querer alaranjar, mas tão perfeitas, tão harmoniosas, as pétalas quase translúcidas... Umas florzinhas ali, nascidas do nada. Nunca as tinha visto. Fiquei fascinada. 

A natureza é uma coisa repleta de mistérios. Tira-os da manga a toda a hora. Fotografei-as e filmei-as e depois coloquei o vídeo no instagram. Não sei se quem vê estas minhas platitudes pensa que, se não tenho nada de mais original para partilhar, mais valia estar quieta. Talvez. Mas, para mim, estas coisas não são vulgaridades, são, isso sim, verdadeiros milagres. E milagre que é milagre deve ser louvado e, se é para louvar, que o seja com testemunhas. Por isso, partilho.

O pior é que, quando estava a pôr aquilo no instagram, recebi uma chamada. Interrompi o processo, Quando acabou a chamada, carreguei na coisa de partilhar ou publicar ou lá o que é. E lá vai disto. Fui à minha vida. 

Há bocado, fiquei perplexa: vi que publiquei duas vezes. Ou seja, quando recebi a chamada, sem querer devo ter publicado. Depois dupliquei a dose. Agora quero apagar um deles e não consigo pois têm ambos visitas. Quem vê deve achar que sou maluca, publicar duas vezes a mesma coisa. 

E, pronto, vou ficar por aqui, não vou pôr-me ainda a falar do jantar nem da minha magnólia -- que está espectacular, coberta de um manto de flores belíssimas -- nem da nova bebé da família, fofa, fofinha, fofésima, uma ternurinha, por sinal minha homónima, nem do meu tio que está cada dia mais confuso, o único sobrevivente daquela geração, nem de mais nada que isto já vai para aqui um lençol que não se aguenta.

[Nota: Dei o título de 'linha do tempo de um dia tranquilo' pois agora está na moda isto da linha do tempo: por tudo e por nada, lá sai a linha do tempo à cena. E eu embirro solenemente com estas coisas que viram virais e só tenho pena que a ironia não se perceba bem sem uma expressão facial de malícia ou desdém. E aqui, a escrever, e ainda por cima num título, sem verem que isto tem ironia à mistura,  penso que, sem eu acrescentar esta nota, não perceberiam que claro que isto não é nenhuma linha do tempo, é um simples desfiar de tarefas irrelevantes ao longo de um dia normal, bom mas normal.]

_________________________________________________

Mas, antes de ir pregar para outra freguesia, toma lá mais esta, ó Chalamet, vê lá se percebes que meteste a pata na poça.

Jiří Kylián: Sechs Tänze

____________________________________________________________

Desejo-vos um belo sábado

quarta-feira, fevereiro 19, 2025

Les beaux esprits se rencontrent

 

Quando tinha para aí uns dezassete ou dezoito anos, não sei bem, o meu namorado da altura perguntou-me, quando fiz anos, se havia algum disco que eu gostasse de ter. 

Naquela altura o conhecimento que havia -- sobre tudo mas, neste caso, sobre música internacional -- , era rudimentar face ao que hoje se passa. Hoje, com o youtube, o spotify e a internet em geral, o acesso ao conhecimento é instantâneo, praticamente universal, ubíquo. Mas, naqueles longínquos anos, os meus amigos eram muito apreciadores, havia sempre alguém que trazia discos de fora, e havia sempre festas com baile incluído, e, ou assim ou de qualquer outra maneira, eu ia minimamente sabendo sobre o que, a esse nível, se passava no mundo. 

Disse-lhe que gostava do último LP do Bob Dylan. Ele ficou espantadíssimo. Não fazia ideia que eu soubesse da existência do Bob Dylan ou que gostasse dele a esse ponto. Se bem me lembro da expressão que fez, creio que terá até ficado preocupado, sem saber se conseguiria obtê-lo, em especial no prazo de meia dúzia de dias, até eu fazer anos.

Mas ofereceu-mo. Provavelmente está ainda junto dos outros LPs que trouxe de casa da minha mãe. Não sei.

O que sei é que eu gostava imenso de ouvir o Bob Dylan. Adorava. Tudo ali era desalinhado: a voz, a música, a letra, ele próprio. E eu gostava muito disso.

Do Timothée Chalamet também sou fã. Também é desmanchado e também parece ter sido tocado por um talento insólito, pouco usual. Sempre que o vejo a actuar, fico espantada. Que rapaz versátil, que capacidade de representar inacreditável. Agarra qualquer papel e, em todos eles, é fantástico. Faz sempre que fique claro que bem representar é uma arte. Ainda não o vi a representar o Bob Dylan mas quem viu diz maravilhas.

Quanto a Anderson Cooper já aqui o trouxe muitas vezes: gosto imenso dele. É um repórter e um entrevistador extraordinário, talvez o melhor. Não há reportagem ou entrevista que ele faça que não seja irrepreensível, memorável ou quase.

Por isso, a entrevista que conduz com o Timothée Chalamet a propósito da sua interpretação do Bob Dylan é um prazer.

Timothée Chalamet: The 60 Minutes Interview

“A Complete Unknown” actor Timothée Chalamet, known for  “Dune,” “Wonka,” and “Call Me By Your Name” grew up wary of acting. He explains why and how he ended up making movies.

"60 Minutes" is the most successful television broadcast in history. Offering hard-hitting investigative reports, interviews, feature segments and profiles of people in the news, the broadcast began in 1968 and is still a hit, over 50 seasons later, regularly making Nielsen's Top 10.


____________________________

E uma bela sexta-feira!

quarta-feira, outubro 18, 2023

Quando um príncipe se encontra em frente a um rei

 

Em dia de dúvidas e perplexidades, movo-me para um território mais seguro. Dois grandes, um ainda jovem, outro maduro (maduro mas não a cair de maduro, calma...), numa gostosa conversa.

Está legendado.

Timothée Chalamet & Martin Scorsese Have numa conversação épica | GQ

It's the pairing of a lifetime and Timmy brought notes. Our newest GQ cover star Timothée Chalamet sits down with legendary director Martin Scorsese for an epic conversation. From their collaboration on new Blue de Chanel fragrance campaign to "Killers of the Flower Moon" and the death of "mainstream," the native New Yorkers are equally in awe and inspired by one another during this interview.


sábado, junho 10, 2023

Uma estrela

 

Não é Chanel quem quer. Tem que se merecer, merecer muito. A lista de nomes que têm sido escolhido ao longo dos anos ilustra bem o que é ser 'Chanel'.

E se, este ano, Timothée Chalamet saltou para rosto Bleu de Chanel, aqui percebe-se bem porquê. 

Shadow & Light interview 

— BLEU DE CHANEL

sexta-feira, junho 02, 2023

Azul, sem dúvida a cor mais quente

 

Alguém caminha por dentro do azul. 

Não tem pressa. Um lobo suave prescrutando a noite. Ou rasgando a madrugada. 

Timothée Chalamet é o homem perfeito para dar corpo ao perfume quente do azul. Mario Sorrenti faz o filme.

Bleu de Chanel

(ao som de Nights in white satin, pelos Moody Blues)

quinta-feira, setembro 08, 2022

Já há um novo 'rapaz mais belo do mundo'... e, caraças, é escandalosamente belo

 


Björn Andrésen tinha catorze anos, chamava-se Tadsio em 'A morte em Veneza' e nunca se tinha visto beleza tão inocente, tão perfeita... tão tentadora. As mulheres enlevavam-se. Os homens sentiam-se atraídos. Não sei se todos, se apenas alguns. Nem sei se todos o confessariam. A beleza do rapaz era talvez andrógina, talvez etérea. Um anjo atrevido, ambíguo.

Mas os anos passaram. Björn Andrésen tem agora sessenta e sete anos e é avô. O lugar de rapaz mais belo do mundo ficou em aberto.

E nem Brad Pitt, que se apresentou jovem e descarado e nos desinquietou em Thelma & Louise, conseguiu destroná-lo.

O lugar tem estado livre.

Mas já não está. 


Timothée Chalamet tem 26 anos, é lindo, talentosíssimo, premiado. Se calhar também tem qualquer coisa de andrógino e, se calhar, isso torna-o ainda mais atraente. Não sei. Pode ser que seja simplesmente muito belo. Mede 1,78m, tem olhos verdes e umas feições de menino. É o namorado preferido de todas as jovens, de todas as mulheres maduras e de todos os homens que gostam de rapazes bonitos.

Nos filmes em que o vi sempre me espantei com a intensidade, com a leveza, com a graça, com a agilidade elegante. 

Acresce que há nele qualquer coisa que faz com que possa vestir qualquer coisa. Apesar de um pouco desengonçado, tudo nele assenta bem. Pode ser um smoking, pode ser um casual, pode ser uma loucura qualquer. Fica lindo, insolentemente lindo de qualquer maneira.

Na Mostra de Veneza arrojou de vez, uma coisa nunca antes vista. Os fotógrafos ficaram malucos e não o largaram. E eu, se lá estivesse, faria o mesmo.


Lindo até dizer chega.

Timothee Chalamet | Beautiful Boy | Let It Unfold You by Bukowski


Top 10 Timothée Chalamet Movies


--------------------------------------------------------------------------------------------------------

E, se apreciam a beleza, queiram continuar a descer: abaixo umas longas pernas vos esperam

-----------------------------------------------------------------------

Um dia feliz
Saúde. Beleza. Paz

domingo, fevereiro 02, 2020

Mulherzinhas, ambientes literários, homens interessantes, Pedro Mexia, chás e infusões perfumadas, etc.





Hoje o dia foi, outra vez, muito preenchido. Tive que pôr o despertador para pôr logo a comida a cozinhar. Depois tive um compromisso e ficou o meu marido em casa, adiantando uma componente do cozinhado. Depois regressei cheia de pressa, atarefada, com algumas compras, e, logo a seguir, teve ele que sair. Home alone, atirei-me aos tachos. Quando ele chegou assustou-se com a quantidade de vasilhame mas eu só quis que ele pusesse a mesa pois, ainda por cima, eram muitos, dia de mesa comprida toda aberta com a mesa nova encostada e a última coisa é chegarem, esfaimados, muitos, e não estar tudo a postos.

E lá ele pôs a mesa e ainda ajudou a arrumar a cozinha e, numa corrida, fui telefonar à minha mãe e etc, e, logo de seguida, chegou todo o maralhal.

Depois, toda a gente se deslocou até à sala da televisão pois hoje trouxeram playstation e, portanto, puseram cadeiras em frente da televisão e ali estiveram na jogatina. Crianças hoje eram seis, dos quais cinco rapazes. Pelo menos, estiveram sossegados. Entretanto, a minha filha quis que o irmão a ajudasse numa matéria profissional e a minha menina cada vez mais linda veio sentar-se ao meu colo para eu lhe fazer penteados enquanto ela jogava no telemóvel da mãe ou da tia ou de não sei quem. Enquanto isso o bebé, já não tão bebé quanto isso, saltava de uma cadeira, em mergulho, para cima da mãe que, numa senhorinha baixinha tentava ler. 

Lá mais para mais do meio da tarde saíram e nós dois fomos a casa dos meus pais. Como seria de esperar, mal o carro arrancou, deu-me o sono. Como sabia que o meu marido também estava cansado, esforcei-me por me manter acordada com medo que ele, sem dar por isso, fechasse os olhos. Contudo, não fui bem sucedida. A meio caminho adormeci e, entre querer acordar e não resistir, fui a dormitar até mesmo à rua dos meus pais.

A minha mãe estava a acabar umas meias de lã para a bisneta, a pôr umas lantejoulas no cós, que fez aos biquinhos, tudo em tons claros, muito bonitos. Tinha também já feitas umas meias para o neto, mas essas em tons mais escuros, em bordeaux e cinzento. Já antes tinha feito para o outro bisneto. Vai agora começar umas para a mãe dos meninos. Gostam de dormir com aquelas meias quentinhas que ela faz. Eu não, não consigo dormir com calor nos pés. Por vezes, quando entro na cama, deixo estar as meiinhas que estou a usar em casa mas, passado um minuto, quando sinto que estou a adormecer, tiro-as.

De casa dos meus pais passámos pelo meu filho que não estava, tinha ido correr, para deixar as meias. Entretanto, tivémos cá alguns dos meninos a jantar e, depois de os entregarmos, fomos nós dois ao cinema.

Estávamos um pouco na dúvida. Tínhamos vontade mas, também, alguma vontade de descansar. Mas resolvemos que o descanso esperasse. Estávamos hesitantes: eu pendia para o Mulherzinhas, ele para o 1917 embora não se importasse de ir às Mulherzinhas (refiro-me ao filme, claro). Pelas horas a que chegámos, o que calhava era mesmo este.

Desde pequena que sou como sou, avessa a êxitos e a must do, must read, must see, must listen. Portanto, nunca li 'Mulherzinhas'. Todas tinham lido menos eu que adorava ler e lia tudo. Mas, quando elas andavam encantadas com as Mulherzinhas, andava eu a ler Liza, a Pecadora e outros livros que consumia desvairadamente, abastecendo-me na biblioteca do liceu, na biblioteca de uma amiga da minha mãe ou, claro, em casa. 

Mas no outro dia tinha visto a apresentação deste e gostei. Uma vez, em resposta a um comentário, referi que não me importava de ter vivido na Inglaterra de Virginia Woolf, de ter frequentado aqueles ambientes. O Leitor estranhou, referiu o suicídio dela e, porque às vezes não consigo tempo para responder, não expliquei que o que me atraíria seria o convívio com mentes brilhantes, livres, amantes de literatura, pintores. Frequentar aquelas tertúlias teria sido fascinante para mim. 

Gosto muito de conversar sobre arte. Embora seja amante de música não sei falar sobre música. Mas gosto de ouvir falar. Mesmo que não fixe o que dizem. Não tenho a preocupação de registar, apenas o prazer de ouvir. Mas gosto de falar sobre pintura ou sobre literatura. Mas também não sei falar sobre personagens ou enredos. Esqueço-me ou, pelo menos, quando chega a altura de falar, não me ocorre. É que o que registo mesmo são emoções, o que me encanta é o prazer da escrita, o meu ao ler e o de escrever, que pressinto, no escritor. Ou no pintor. Mas também gosto de conversar sobre arquitectura. Ou escultura. Ou dança. O prazer de falar, de ouvir falar, o prazer de ver, de ouvir, de ser levada para aquele limbo que está no limiar do desconhecido.

Um amigo, que é um ser diferente e especial, ao ouvir-me, evoca o que o Jorge Luis Borges escreveu:
La música, los estados de felicidad, la mitología, las caras trabajadas por el tiempo, ciertos crepúsculos y ciertos lugares, quieren decirnos algo, o algo dijeron que no hubiéramos debido perder, o están por decir algo; esta inminencia de una revelación, que no se produce, es, quizá, el hecho estético.
E eu no outro dia falei-lhe que tinha ouvido na rádio uma brasileira, de que agora não me lembro do nome, a dizer que a arte substitui a vontade de acreditar em deus. E é isso. Ele concordou.

O prazer da beleza, da beleza que pode estar numa cadeia de palavras elegantemente cerzidas, num fio de música, numa flor a despontar no campo, na força do mar, num gesto que nos chega de longe, na forma como a luz ilumina ou esconde, em coisas assim -- tudo isso me inunda de um estado de felicidade que não sei explicar. Talvez seja o tal hecho estético.

Mas regresso às Mulherzinhas.

O filme é muito agradável de ver, apaziguador, terno, bonito, envolvente. Preferia que fosse mais linear e não com tantos recuos temporais mas, enfim, é o que é e, apesar disso, senti-me bem a vê-lo. Perguntei ao meu marido se tinha gostado. Nunca é efusivo pelo que pelo tom de voz que parecia conter um encolher de ombros ao dizer que sim deduzi que o viu sem incómodo e, diria mesmo, com a tranquilidade de que provavelmente estava necessitado.

Os actores são bons mas a Saoirse Ronan (cujo primeiro nome não sei como se pronuncia) e o Timothée Chalamet destacam-se. Não sei se já o disse antes mas, do que tenho visto, este jovem é talentoso, tem graça e carisma, e antevejo-lhe um brilhante futuro. É muito bonito, tem um corpo desengonçado que o torna ainda mais atraente e só pode tender para melhor. Alguém a acompanhar.

Há homens que perdem quando o viço se lhes escapa. Há outros que nunca perdem o viço. E há outros para quem o viço é pormenor e que só ganham com o evoluir do tempo.



_______________________________________________________________________


Quando comecei a escrever este post liguei a televisão. Estava no fim do Governo Sombra. Não consigo ver este programa porque não suporto a vacuidade do João Miguel Tavares nem a superficialidade, por vezes associada a uma desagradável distorção mental, do Ricardo Araújo Pereira e custa-me ver, ali no meio, o Pedro Mexia.

Gosto imenso de ler o que o Pedro Mexia escreve, é intelectualmente honesto e dá para perceber que é uma boa pessoa. Gostava muito de ler os seus blogs tal como gostava de ler as suas crónicas no Expresso e, se calha ter alguma recaída e comprar o jornal, é logo a crónica dele que vou procurar. Os seus livros de compilações de crónicas são um prazer. Mas se o imaginaria a participar numa tertúlia como as de Virginia Woolf  & Friends, tenho muita dificuldade em vê-lo ali, naquela mesa, rodeado por duas criaturas que parece que pensam que o público gosta é de vê-los a exibirem a sua veia de alarves e onde o debate não é debate, é um conjunto de graçolas sem ponta por onde se lhes pegue. Mas não o censuro. Toda a gente precisa de ganhar a vida e a gente que nos calha na rifa para trabalhar ao nosso lado nem sempre é a que escolheríamos. Só não percebo é porque não propõe ele às televisões um programa em que recrie tertúlias onde se fale de arte, onde ele fale de escritores, de livros, de filmes, de personagens e outros falem também disso de outras coisas. Estou convencida que aceitariam essa sua proposta e que seria um programa mesmo bom de se ver. E certamente que lhe daria a ele um maior prazer do que estar ali a aguentar aquelas parvoíces do Governo Sombra.

__________________________________________________


Enquanto escrevo, estou a beber uma infusão que se chama Seasonal Siesta e que é uma delícia. Faz parte de um conjunto que a minha filha me ofereceu pelo Natal. Ela sabe que eu sou chá addicted e desencanta estas coisas que sabe que são sempre a meu gosto. Mostrei lá em cima a fotografia da caixa e a composição daquele que escolhi e agora, mesmo aqui acima, a da caneca que está aqui ao meu lado, neste momento já vazia. Se isto da internet estivesse mais evoluído, agora punha aqui um botão e, se vocês quisessem experimentar, carregavam nele e eu enviava daqui uma caneca fumegante, com um líquido perfumado e bem saboroso. Teria é que avisar que não ponho açúcar. Chás e cafés sempre sem açúcar.

De todas as canecas que tenho, a que prefiro é esta. O rebordo é afilado e macio, tem um toque agradável, tem um formato e uma dimensão que me agradam. Tem o pai natal mas não quero saber disso até porque ainda acredito nele. A toda a hora recebo presentes que me deixam contente como uma criança -- e o mais engraçado é que não conheço quem mos oferece. Cá para mim é tudo coisa do pai natal e honi soit qui mal y pense.

__________________________________________________________

E vou parar porque, agora que reparo, isto já vai para lá de longo.

A si que aí está desse lado desejo um belo dia de domingo.

domingo, outubro 27, 2019

O romantismo dos dias chuvosos *





Lembro-me de quando comecei a namorar o meu marido. Já andava com ele mas era coisa não direi à socapa mas, enfim, como dizer?, meio clandestina. Nem isso. Talvez, apenas, não publicamente assumida. Mas, naquele dia, tinha uma notícia para lhe dar. Ele tinha-me trazido um daqueles tubinhos com água de sabão em que a tampa tinha uma haste com uma argola, para fazer bolhinhas. Tinha comprado a um vendedor ambulante junto ao metro. E eu fiquei toda contente e experimentei mas a notícia era outra e falava mais alto. Ia pôr uma carta no correio. E assim fiz. Depois disse-lhe: era a carta a pôr fim ao namoro. Durante o fim de semana tinha feito por isso mas o meu namorado não tinha aceitado, pediu tempo, pediu que eu percebesse que o que eu sentia pelo outro era um entusiasmo passageiro, assegurou-me que amor de verdade era o que havia entre nós. De tal forma foi que percebi que tinha que ser um corte abrupto, a seco, sem apelo, sem lágrimas.


E assim foi. Era inverno e o dia estava muito húmido, uma névoa densa envolvia Lisboa. Aquele por quem me tinha apaixonado percebeu a relevância do gesto e, embora andasse há que tempo a pedir que eu o fizesse, naquele momento estava sério, como se tivesse acabado de assistir a um acto cruel. E sabia como me custava fazê-lo, sabia o afecto que eu sentia pelo outro, como me custava fazê-lo sofrer. E eu estava também um pouco angustiada pois tinha preferido que o corte tivesse sido concretizado cara a cara e não por carta. Além disso, sabia o quão doloroso este meu gesto a a quase brutalidade das palavras daquela carta ia ser para aquele outro que tão intensamente me amava.

E, portanto, envolta numa névoa fria e lacrimejante, eu ia dizendo que precisava de espaço, de um interregno, queria fazer uma pausa antes de voltar a envolver-me a sério. Ele ouvia-me em silêncio, não sei se compreendendo, se lamentando que, ao fim de tanto tempo à espera que eu quebrasse aquele vínculo, afinal, agora que o tinha feito, estivesse a pedir mais tempo.


A verdade é que, comigo, por vezes, o tempo acelera loucamente; e o tempo que eu estava a dizer que precisava esgotou-se como um breve sopro. Acabei agora de ver a distância que percorremos. Trezentos metros. Ao fim de trezentos metros, e vendo-o eu tão silencioso, coloquei-lhe uma mão no rosto, virei-o para mim e, logo ali, selei com um demorado beijo o namoro que, na prática, estava a começar. 

Ainda tentei ir para a aula que tinha a seguir. Fui até lá e ele comigo. Mas não nos largávamos. Entretanto, já chovia. Mas nem dávamos pela chuva. Decidimos ir passear para o Parque Eduardo VII. Abraçados e felizes, nem nos importávamos por estarmos a ficar molhados. Lembro-me que, nos intervalos, ainda tentava fazer fazer bolhinhas de sabão mas, ou porque a humidade exterior fosse tanta ou porque não me concentrasse, tenho ideia que as bolhinhas de ar não floresciam.


Nesse inverno choveu muito. Grande parte das minhas memórias desses meses abençoados está envolta em neblinas, chuvas, frios e muitos beijos. Tínhamos que andar sempre abraçados para nos protegermos. Passeávamos muito. Lembro-me de um passeio em Sintra, as árvores a pingar, envoltas em nuvens, nós a subir a pé a estrada para a serra. Tudo me parecia muito romântico. Havia, na minha cidade natal, um café recente, aberto por um italiano, que tinha um cappuccino muito bom. As chávenas grandes e bonitas vinham quentinhas e eu envolvia-as com as minhas mãos e aquele cheirinho a café, a chocolate a natas parecia-me provir de néctar de deuses. Tinha também uns gelados artesanais, na altura os únicos na cidade, que eu adorava. E, então, sentávamo-nos numa mesa num recanto de onde se via a rua e ali estávamos, conversando, dando-nos as mãos, enamorados, enquanto víamos a chuva a cair lá fora. Isto ao fim de semana quando ia a casa dos meus pais. Durante a semana, todos os dias ficávamos juntos até tarde e, já com a noite avançada, ele ia levar-me a casa. Chovia na rua, íamos abraçados debaixo do chapéu de chuva e invejávamos as pessoas que estavam dentro das casas iluminadas cujo conforto adivinhávamos.


Ainda agora, eu que sou dada à luz, ao calor, a andar com pouca roupa, anseio pelos frios e pelas chuvas, sinto saudades do som da chuva, gosto de estar no sofá agasalhada no meu canto, gosto de sentir que a natureza se regenera, se limpa, sinto que apela ao romance, aos longos e apertados abraços, aos olhares que mergulham na alma, ao amor.

......................................................................

E hoje, que não choveu nem esteve frio, depois de termos ido a casa dos meus pais e de termos passeado pelas ruas por onde andávamos quando namorados, resolvemos ir ao cinema.


Um dia de chuva em Nova Iorque. É um filme suave, agradável, inteligente, bom para se ver e sair de lá a sorrir, e, podendo, a andar de mão dada, a dar beijinhos. Tem uma música bonita, tem um ambiente romântico, tem aquela ironia nonchalante tão típica de Woody Allen. A minha filha perguntou-me: mas não é um filme para adolescentes? E eu acho que sim, também para adolescentes. Mas, quis ela saber, alguma coisa de especial? E eu não acho que tenha alguma coisa de especial no sentido de excêntrico, do nunca visto, do insólito. Não, tudo muito normal, cool, muito agradável, sem dramas, com bons sorrisos à mistura.

Antes, na apresentação do que está em exibição ou por chegar, vi monstros, mortos-vivos, armas, gente que aterroriza, gente sem olhos, gente que escorre sangue, seres que destroem cidades e atemorizam o mundo. O filme Um dia de chuva em Nova Iorque não é nada disso, é um filme com pessoas normais a viverem uma situação normal numa cidade normal. E quem quiser que ponha aspas nos normais que quiser pois, na verdade, o que é normal para uns não é normal para outros. Mas, quero eu dizer, há uma dimensão humana no filme e isso, em tempos de crescente desumanidade, é bom.


----------------------------------------------------------------------------------------------------------

E, nesta onda da névoa, da chuva, da tranquilidade, permitam que partilhe convosco um daqueles vídeos que gosto imenso de ver. Espero que também gostem. 



----------------------------------------------------------

As pinturas lá em cima são da autoria de Osnat Tzadok e a mim parecem-me paisagens urbanas envoltas em chuva. A música é Kiss the Rain de Yiruma. E, no título, asterisquei o 'romantismo dos dias chuvosos' pois sei bem que nem todos os dias chuvosos são românticos: há os dias de juízo aquando de chuvas excessivas, há as dores do corpo para quem não tem como proteger-se, há os dias chuvosos associados a tristes memórias. Mas, em abstracto e, sob o filtro da benevolência, a chuva é boa para abraçar os afectos, lá isso é.

--------------------------------------------------------------------