Mostrar mensagens com a etiqueta Hania Rani. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Hania Rani. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, julho 05, 2021

Sim, Luísa, chegou o tempo dos caranguejos

 




O Bezos vai para o espaço mas mantém um pé na gestão da Amazon. Não me pronuncio. O espaço não me seduz. Melhor dito: seduz-me para sonhar, para olhar para o infinito-além e acreditar que é inalcançável. Se pensasse no espaço como um alvo a atingir, ele perderia o mistério. E toda a maravilhosa mística que o envolve estaria perdida.

Se eu tivesse um empório como Bezos talvez preferisse dedicar-me a outra tarefa impossível: acabar com a pobreza no mundo. Talvez não fosse preciso assim tanto dinheiro quanto isso nem o objectivo seria tão fútil quanto o das Miss Universo. Talvez baste investir em formação intensiva e uns ensinariam outros, talvez baste algum investimento em infraestruturas e em projectos inovadores.

Talvez, nos países mais ricos em especial nos países da Europa em que a demografia está pelas ruas da amargura, investisse em formação e alojamento para refugiados. Talvez também apoiasse a reconstrução de países dizimados pela guerra, pela fome, pelas secas.

Em vez de gastar o dinheiro em projectos cujos destinos são longínquos, talvez o usasse, no curto prazo, para tornar melhor a vida dos homens e a vida do planeta.


Mas ele lá sabe. Se calhar, sou eu que não vejo além do meu estreito horizonte. E, de resto, porque estar à espera da filantropia de Bezos? Não poderemos nós, cidadãos, escolher governantes que tenham essa visão, não devemos nós organizar-nos em torno de ideias comuns e, com pequeno investimento financeiro e com a nossa disponibilidade pessoal, dar vida a projectos que mostrem que a raça humana é merecedora de continuar a viver para além de um horizonte temporal que está cada vez mais perto?

Enquanto escrevo vejo a Maria João Pires a tocar a Patética de Beethoven. Tem as mãos pequeninas e as unhas pouco arranjadas típicas das mulheres de trabalho. Tenho pena de só agora aqui ter vindo parar. Estive a ver o Got Talent: gente muito talentosa, de facto.

Tenho também a Netflix que o meu filho instalou depois de ter subscrito. Enquanto esteve connosco in heaven, no ano passado, a minha filha já o tinha feito mas depois, nós dois, deixámos expirar o período experimental sem assinar a sua continuação. Parece que o tempo não nos chega. Só chegamos à sala já tarde e sem grandes vontades para nos pormos a descobrir séries interessantes.  Mas vamos ver se, desta vez, a coisa pega.


Hoje o dia foi tranquilo. De manhã estivemos num pinhal com a trupe do meu filho. Os meninos quiseram ver cabana que construíram há uma ou duas semanas e quiseram reforçá-la. Coberta de musgo é uma casinha que sentem como a sua casinha. Fico feliz por ver como se apegam e entretêm com coisas assim. Depois, cá em casa, estivemos a podar a grande buganvília que embelezava a passagem entre a parte da frente do jardim e a parte de trás. Podámos também os excessos da glicínia e da trombeteira. E cortámos algumas folhas gigantes do filodendro. Custa-me sempre cortar o que está exuberante de viço e beleza mas compreendo que não podemos deixar que invadam o nosso espaço vital. Já tínhamos que nos desviar delas pois o corredor estava a tornar-se estreito demais para nós.

De tarde fui a casa da minha mãe. Está de férias da universidade sénior e está quase a acabar a blusinha para a bisneta. Já receia ficar sem nada que fazer. Não ter nada que fazer é um marasmo que acaba com a energia de qualquer um.


Voltei a estar de volta de artigos e vídeos sobre temas que têm a ver comigo. E depois voltei a ficar cheia disso. Já percebi. Claro que me falta agora a componente de perceber investigações em curso. Por isso, vou parar por aqui e, em vez de ficar à espera que um cão ponha um ovo, vou antes concentrar-me em perceber como prevenir os efeitos mais penosos desta gaita. Se bem me conheço, dentro de algum tempo, se me sentir fisicamente bem, tenderei a nem me lembrar disto. Terei é que fazer o que o meu marido e a minha mãe tanto insistem: deixar-me de excessos. Carregar baldes de terra, baldes de pedras, carregar regadores cheios de água. Trabalhar de manhã à noite: a minha filha também insiste que, se há tanto para fazer, o problema não é meu, ou melhor, só meu.

Não sei. 

Começa uma nova semana e, é verdade Luísa*, estamos no tempo dos caranguejos. O que abria a temporada já não está: o meu pai. Mas estão vários outros. Festejemos a vida. A seguir aos caranguejos virão os leões que também estão em bom número. Não sei como vai avançar a covid mas a gente habitua-se a tudo, habitua-se, nomeadamente, a aprender a encontrar o afecto e a proximidade de todas as formas possíveis e imaginárias. 

A gente passa por tropeções, leva encontrões, tentam tirar-nos o tapete, ficamos, por momentos, a pensar: 'ó caraças, mas afinal que raio de coisa é esta que está a acontecer-me?'. Mas logo os caranguejos se põem a  caminho: podem ir de lado, podem parecer desajeitados. Que se lixe. 

A vida continua. E as flores continuam lindas e os sorrisos, mesmo que apenas feitos de palavras. continuam a alimentar-nos a alma.


* Em resposta a um mail

________________________________________________

Pinturas de Gustav Klimt
Hania Rani – Soleil Pâle
_________________________________________________

Uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Alegria. Abraços (reais ou virtuais)

terça-feira, setembro 22, 2020

O apelo de mulheres menos belas e não tão jovens

 


Apesar de possuir um apurado sentido estético e de ter preferido desde sempre as raparigas muito jovens com o seu encanto primaveril, não deixava também de reagir perante o apelo de mulheres menos belas e não tão jovens. Durante os bailes sucedia por vezes deixar-se prender por uma qualquer rapariga desanimada e sem frescura, que ninguém desejava e o conquistava pela via da compaixão, e não só da compaixão, mas devido também à sua eterna curiosidade. 
A partir do momento em que se dedicava a uma mulher -- fosse por semanas ou apenas por horas --, ela tornava-se bela aos seus olhos e a sua entrega era completa. A experiência ensinara-lhe que todas as mulheres eram belas e capazes de dar prazer, e que mesmo a de aparência insignificante, desprezada pelos outros homens, podia revelar um ardor e uma entrega inauditos, e que mesmo aquela que perdera já o viço da juventude era capaz de derramar uma doce ternura melancólica e mais que maternal; no fundo, todas possuíam um segredo e um encanto cujo desvendar o fascinava.

Nesse aspecto eram todas elas semelhantes: havia sempre um gesto especial capaz de compensar qualquer falta de juventude ou beleza, embora nem todas o prendessem durante o mesmo tempo. A menos bela não lhe inspirava menos amor e gratidão do que a mais jovem e graciosa, a sua entrega era sempre total. 


 ____________________________________________________________________

Excerto de Narciso e Goldmund, Hermann Hesse; Bodyscapes de Carl Warner;  F Major de Hania Rani

_____________________________