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sexta-feira, fevereiro 12, 2016

Eis que se abre um pouco mais a grande porta do infinito:
"Ladies and gentlemen, we have detected gravitational waves. We did it!"






No outro dia escrevi: Mas sei que há uma flor navegando pelos ares, que há água e estranhas formas de vida noutros planetas, que há milhões de sóis, milhões de céus, milhões de sonhos perdidos em órbitas desencontradas, palavras flutuando sobre as ondas que as marés siderais levam e trazem, medusas aladas, anjos, luas, pedrinhas, memórias, braços que procuram abraços, sons estelares, infinitos nadas; e lugares escuros, sem tempo, onde passado, presente e futuro se misturam. 



Não escrevi por escrever: escrevi porque é assim que vejo o vasto espaço que nós habitamos -- nós seres ínfimos, insignificantes, pouco inteligentes, uns entre muitos outros seres dispersos pela inimaginável vastidão. Vejo o vasto espaço como um imenso mar feito de partículas infinitamente pequenas que, em situação normal, isto é quando não existem brutais explosões, deslizam suavemente como vastas marés, um ondular suave que transporta memórias (restos de impactos, restos, restos não sei de quê, talvez pós de pedrinhas, invisíveis areias vindas de longínquas luas, poeiras do que antes foram pessoas, agora talvez anjos), um espaço atravessado por sons provenientes do movimento dos astros, dos astros que morreram, dos que são sugados para o interior de si próprios, dos que se expandem mais do que exponencialmente. Vejo isto na minha cabeça. Vejo a partir do que leio. Vejo talvez a partir de sonhos vindos não sei de onde. Estava a escrever aquilo e, como disse no fim do texto, era como se não fosse eu a escrever -- de tal maneira que não consegui dar título ao que escrevi.


Falar da Física tem este misterioso efeito sobre mim, falo sem saber do que falo, falo como se os rastos de luz que aquilo que não se vê deixa na atmosfera guiassem as minhas mãos. Sinto-me cega, tacteando o invisível, querendo descobrir o desconhecido, o intangível, o imaterial, percorrendo caminhos que não vejo, que nunca vi e que me levam não sei onde. Cega, inocente como uma criança, inventando histórias impossíveis, dou por mim a acreditar que por vezes em mim coexistem aquilo que fui, que fui nesta minha vida, com aquilo que fui num qualquer outro corpo (seja de mulher, seja de cavalo ou gaivota), e também com aquilo que sou agora e com aquilo que serei. Uma fusão intraduzível em palavras. E também sinto, por vezes, que estou perto daqueles a quem posso tocar com as mãos mas também perto dos que, estando longe, estão aqui, agora, ao meu lado, porque me lêem, porque me querem bem, porque, como dizia a Rita num comentário a um texto mais abaixo 'somos todos mais parecidos do que nos julgamos', tão parecidos que nos tocamos, nos interseccionamos e que, parte de mim, está agora convosco tal como agora que escrevo tenho aqui comigo alguns de vós. Sei que escrito assim pode parecer uma coisa de doidos mas é o que eu sinto como verdadeiro, sem que consiga explicar o que quer que seja a propósito disto -- melhor: sem que queira explicar.


A verdade é que, se eu deixar de me impor barreiras e deixar que o meu pensamento flua, ponho-me a dizer coisas sem um nexo identificável. E, como disse, não tento sequer pôr ordem nas minhas palavras não vá perder-se o fio de ariadne que me conduz através do infinito labirinto. Eu que gosto tanto de brincar a transformar o mundo em modelos e que me delicio com os milagres da simulação que se aproxima tão tangencialmente da inteligência artificial, em momentos assim, seria incapaz de verter o meu despensamento em expressões algébricas. Pelo contrário, toda eu me movo na mais pura abstração e se tivesse que descrever por onde ando, falaria de espaços que são abertos, sem formas identificáveis, uma imensidão sem princípio nem fim, percorrida por algo que não é silêncio nem som, por um movimento que não se sente, sem sombras nem luz, onde o tempo não existe e onde tudo é tudo. E penso que gostaria de ser capaz de me exprimir sem recorrer a estas palavras que estão puídas de tanto uso pois queria falar de realidades primevas, espaços e tempos em que a razão dispensava a expressão, em que a emoção existia envolta em silenciosos e apenas pressentidos frémitos.


Querer equacionar, neste contexto, como foi que tudo começou parece-me pensamento fútil. Não começou. O imenso infinito onde muitos mil sóis, muitas mil luas, muitos mil seres navegam em elegantes movimentos ou desaparecem recuando ao âmago da sua origem ou se expandem em louca exuberância é um contínuo sem princípio nem fim. Se não há começo não há, pois, quem o tenha começado. Mas, se não há um deus fundador, há, sim, muitos mil deuses. É a feliz aleatoriedade que por vezes é mãe da harmonia e da felicidade, é a beleza das descobertas ocasionais, é a suavidade das convergências improváveis, é a infinita mão que nos protege, feita da memória de todas as boas mãos que alguma vez existiram, é o bailado milagroso que se dança dentro nossa cabeça e do qual nasce a nossa capacidade de olhar, de ouvir, de sentir, de amar, de escrever poesia, de escrever palavras sem dono, injustificáveis como números primos.


Nesta quinta-feira, à hora de almoço, olhei o telemóvel, espreitei as notícias. E só não caí de joelhos porque me segurei. Tinha sido anunciada a descoberta das ondas gravitacionais. Pensei logo nas minhas ondas das marés siderais. Fechei os olhos, arrepiada. Finalmente. Depois abri os olhos, procurei mais informação. Só me apetecia ir para o campo, para o meio das árvores, ou para  a beira do mar, deitar-me, encostar os ouvidos à superfície do planeta, tentar ouvir os seus segredos, adivinhar o mistério que ele esconde. Mas depois pensei que o segredo não está no interior da terra. E depois pensei que não há segredo. E depois pensei que o que há é beleza, a magia da infinita beleza, a mágica beleza do infinito.


Onda gravitacional é a onda que transmite energia por meio de deformações no tecido do espaço-tempo, ou seja, perturbando o campo gravitacional. A teoria geral da relatividade prediz que massas aceleradas podem causar este fenómeno, que se propaga com a velocidade da luz.(...) Em 2016, pesquisadores do projeto LIGO (Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory) observaram "distorções no espaço e no tempo" causadas por um par de objetos com massas enormes interagindo entre si. Acerca da descoberta, David Reitze, diretor do projeto, em uma entrevista coletiva em Washington, disse: "Nós detectamos ondas gravitacionais. Nós conseguimos".



O avanço científico está a ser recebido com uma das descobertas do século. A equipa internacional que fez a descoberta diz que esta primeira deteção das ondas gravitacionais significa a entrada numa nova era na astronomia.

O físico teórico alemão Albert Einstein (1879-1955) defendeu, na Teoria da Relatividade Geral, que o celebrizou, que os objetos que se movem no Universo produzem ondulações no espaço-tempo e que estas se propagam pelo espaço. Previu, assim, a existência das ondas gravitacionais e demonstrá-la de forma direta era o último desafio em aberto da Relatividade.



E leio, sobretudo, a contagiante alegria de Carlos Fiolhais: HABEMUS ONDAS GRAVITACIONAIS! 

Como disse um dos cientistas envolvidos, até agora só tínhamos olhos para o espaço, Agora temos também "ouvidos". E o espaço não é um sítio de pasmaceira, é um cenário de acontecimentos violentos, que nos fornece feéricos espectáculos de luz e cor.
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Vídeos sobre as Ondas Gravitacionais




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No meio de guerras com armas de toda a espécie, incluindo as financeiras, eis que mais uma porta maravilhosa se abriu. E, portanto, se, por um lado, vivemos tempos sombrios, por outro, atravessamos uma época de luz.
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Lá em cima, Renée Fleming interpretou a Canção à Lua de Dvorak

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E, depois disto, caso sejam dados a gostos estranhos como mergulhar na lama, mais propriamente no imenso lamaçal em que está transformada a comunicação social portuguesa completamente infestada pelos PàFs e pró-PàFs, queiram, então, por favor, deslizar até ao post já a seguir onde falo da forma implacável como Manuela Ferreira Leite lhes baixou os fundilhos e lhes aplicou umas valentes nalgadas. E aplaudi, claro está.


terça-feira, setembro 23, 2014

Paula Teixeira da Cruz e Nuno Crato, concorrentes na Casa dos Desgovernos, vão ao confessionário contar à Teresa Guilherme o que andam a fazer respectivamente com a salsicha jurídica e com a salsicha educativa. É capaz de não ser coisa deles, é capaz de ser missão ditada pela Voz (que, pelo tom de barítono, se suspeita ser Passos Coelho em pessoa)





Na Casa dos Desgovernos, Teresa Guilherme chama ao confessionário Paula Teixeira da Cruz.



- Paulinha, filha, então como tem passado?
- Bem… 
- Bem? Não me parece...
- Bem… Tem razão: bem, bem não será. Alguns transtornos.
- Transtornos? Não me diga que esteve com o TPM, querida.
- O que é isso, Teresinha…?
- Ó filha, não me diga que não sabe… Toda a gente sabe o que é o TPM, querida. Ora veja lá se adivinha, puxe lá pela cabecinha.
- Ai Teresinha, como é que quer que eu adivinhe uma coisa dessas… TPM… TPM... Totó do Primeiro Ministro…? Não me faça rir, Teresinha. Está-me a perguntar se eu estive com o Totó do Primeiro Ministro…? Ai Teresinha, não seja assim, tão mazinha.
- Não, filha! Transtorno Pré-Menstrual, filha.
- Ai Teresinha, que ideia. Não, nada disso. Estive foi com alguns transtornos na salsicha.
- Credo, filha! Repita lá! Na salsicha...?!
- Sim, Teresinha, na chamada salsicha jurídica.
- Jurídica? Salsicha jurídica...? Ai filha, essa eu nunca lhe tinha ouvido chamar.
- Ai Teresinha, sempre a pensar no mesmo: sexo, sexo, sexo. 
- Ai filha, que assim ainda mais ajuda a dar mau nome às louras, filha. E não era para revelar já o seu segredo… Ai, todos tão burrinhos. Vá-se lá embora, querida. Para que é que já foi falar na sua salsicha? Ai, cabecinha oca... Olhe, querida, quer mandar beijinhos?
- Quero, Teresinha! Beijinhos para os senhores juízes, para os senhores advogados, para os réus, para as testemunhas, para todos, todos tão amigos dos seus amigos, e quero pedir desculpa pelos transtornos que a minha salsicha jurídica tem causado. nunca pensei que ela fosse engrossar tanto, juro, juro, Teresinha, nunca pensei, juro pela saúde do meu laparoto de estimação.
- Vá lá, filha, vá lá. E chame o Nuno.





Teresa Guilherme com Nuno Crato no confessionário


- Então Nuno, conte-me coisas.
- Sim, Teresa, diga lá o que quer que lhe conte. Mas antes deixe que lhe diga que está uma brasa, esse vestido fica-lhe a matar. Olhe, aqui só para nós, se a apanhasse à mão de semear, papava-a toda. E o babete capaz de até dar jeito. 
- Credo, filho, que me deixa sem jeito. Papanços são dentro da casa e é para se despacharem que a gente quer é cenas que dêem canal. Mas só o vejo a engonhar. A ver se passa à acção, ouviu?
- Ouvi, Teresa, mas com quem?
- Ai isso eu não sei, com qualquer uma ou qualquer um. Olhe, não gosta da Paulinha...? Mas já lá chegamos. Agora vamos começar pelo principio. Então, conte-me coisas: como é que tem passado?
- Bem, Teresa, sempre na maior. Sabe como é…
- Sei filho…? Não sei. Conte lá…
- Já sabe que eu sou um engatatão, ninguém escapa ao meu mamar doce.
- Alto! Pára tudo!
- Então, Teresa, o que foi…?
- Mamar doce? Conte, conte, que estou a gostar. Quem, quando, onde? Conte-me tudo. Não me poupe aos pormenores sórdidos. Tudo!
- Espere aí, Teresa, em que é que já está a pensar? 
- Eu, querido? Eu, nada. Você é que disse.
- Era uma maneira de dizer, Teresa, não sei bem o que aquilo quer dizer mas sua-me bem.
- Não é sua-me, querido, é soa-me.
- Se a Teresa o diz. Mas então, o que eu queria dizer e que já comecei a fazer lóbio.
- Lóbio? Mas o que é isso, Nuno? Eduquês?
- Fazer lóbio é facilitar, lubrificar, não sei se está ver, Teresa.
- Não querido, não estou a ver. Conte lá: quem é que você lubrificou?
- Mandei uma boneca com cara de Avoila ao Nogueira, mandei uma bandelete ao Santana Castilho, mandei alpista para os papagaios da televisão e, a títalo simbológico, mandei uma chamada salsicha educativa ao Fiolhais.
- Credo, filho! A títalo? Simbológico? Cruzes. E ao Fiolhais?! Ao Carlos Fiolhais? Uma salsicha? Mandou uma salsicha ao Fiolhais? 
- Esse mesmo. Mandei a mando da Voz mas mandei entregar em mão. Em mão, não. Pela goela abaixo, a ver se o gajo e os outros todos se calam com essa gaita da investigação e da avaliação e de andarem sempre a pegar no meu pé, que já nem os posso ouvir. Chiça! Cambada de pica-miolos!
- Ai, filho, que você é mesmo mauzinho.
- Não sou nada mauzinho, Teresa, a salsicha era pequenina. Já era antes mas, nas minhas mãos, ainda mirrou mais.
- Mas mesmo assim, e mesmo que seja missão ditada pela Voz, você é mauzinho. Andar a maltratar o pobre do Fiolhais e os outros cientistas, investigadores, professores com salsichas educativas, por muito mirradas que sejam, é ser mauzinho, ó Nuno.
- Não sou mauzinho, sou é maoista.
- Maoista, querido? Mas disse isso aqui....?! Esse não era o seu segredo? Ai, credo, que burrinho me saíu, todos tão burrinhos, parece que foram escolhidos a dedo, credo. Olhe, quer mandar beijinhos, filho?

- Não, Teresa, que eu sou muito macho, só mando caneladas  e encontrões, por minha vontade mandava era implodir esta merda toda. E preciso é de me despachar daqui porque parece que a Voz quer que eu vá aumentar o tamanho de algumas salsichas para as mandar entregar não sei bem onde, parece que é ao Palácio das Laranjeiras e ao de Belém. 
- Ai, credo, filho, diga mas é à Voz para ir ao psicanalista. Que é que se terá passado com ele, no passado, para andar com essa pancada das salsichas e de aumentar salsichas, credo? Ele devia era tratar-se,
- Está bem, Teresa, vou já e eu digo-lhe que a Teresa disse para ele ir a um médico de tarados.
- Não disse bem isso, mas isso também agora não interessa para nada, diga o que quiser, querido. Até amanhã. Dê lá beijinhos aos seus colegas da Casa. E vá mas é consolar a Paulinha que me apareceu aqui quase a chorar, a queixar-se de transtornos na salsicha.
- Está bem, Teresa, vou ver se a meto no citius.
- Vá lá, filho, vá, Beijinhos!




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E, já agora, se falamos em aumentar salsichas, em Passos Coelho ou na Casa dos Segredos, let's Think Dirty


(Marty Feldman e a Hot Dog lady - Sexy, Funny, Saucy)





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E, assim sendo, desçam até ao post a seguir, meus Caros, que já aqui abaixo poderão espreitar pelo buraco da fechadura e assistir à sessão de psicanálise da Voz (digo, do putativo barítono Passos Coelho). Vamos ver de onde lhe apareceu esta da salsicha.





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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira 
- e, de preferência, sem trombas de água que é para não culparem o António Costa 
(mesmo que as ruas alagadas sejam as as Caldas da Rainha ou do Porto)


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terça-feira, julho 08, 2014

Os ignorantes com poder têm medo das pessoas do saber como o diabo da cruz. Escorraçam professores, desprezam cientistas, destratam artistas, maltratam indefesos apenas porque lúcidos. Gente intelectualmente destituída mas circunstancialmente poderosa apenas se sente bem quando está rodeada de espelhos, papagaios, bichos rastejantes, cortesãos, pobrezinhos e almas caridosas (para servirem sopa aos pobrezinhos). Tudo o resto está a mais.






Conheci, em tempos, um homem grande, gordo, que apenas usava roupa de marca, se possível feita por medida em reconhecidos alfaiates, camisas com monograma. Moreno, cabelo liso preto que puxava para trás com um pouco de gel ou que usava tombado na testa, quando saía à rua era para se deslocar no banco de trás do carro topo de gama e usava, então, uns óculos completamente escuros. Eu olhava para ele como olharia para aqueles padrinhos da máfia que o cinema divulgava. Talvez devido ao peso ou a uma inquietação que disfarçava, transpirava com facilidade. Quando se enervava, a situação agravava-se e, então, tirava um lenço do bolso e limpava a testa. Por vezes, as circunstâncias não eram adequadas a esses gestos e, então, viamo-lo, discretamente, a tentar disfarçar uma gota de suor que escorria plebeiamente pelo canto da testa.

Por ser amigo de um secretário de estado que era amigo de um ministro (do PSD), chegou a amigo do ministro. Por ser amigo do ministro, poderosa figura do regime, tornou-se administrador de grandes empresas e, como recompensa, o ministro passou a frequentar os seus lautos jantares que reuniam convidados de várias áreas económicas do país.

Quando chegava a um lugar novo, punha como condição que o carro fosse de alta cilindrada de uma determinada marca e que pudesse manter o motorista pessoal. Antes disso, já teria negociado o salário, os prémios, os seguros, fringe benefits - o costume.

O seu tempo era gasto a fazer e a receber telefonemas: contactos. Sobretudo combinava almoços, jantares, pequenos almoços. Para além disso, arranjava maneira de receber convites para todas as festas, jogos de futebol, celebrações, e até concursos de misses. Discutia o lugar que lhe tinham destinado e, se fosse necessário, fazia-se de ofendido (e, aliás, ficava preocupadíssimo, receando que isso significasse que a sua importância estivesse a esmorecer). Não descansava enquanto não o punham em lugar de honra. Claro que não era ele, pessoalmente, que tratava disto: era a secretária ou alguns colaboradores mais servis (porque sempre os há). 

Durante os anos em que convivi de perto com ele, não lhe conheci uma competência profissional que fosse, dotes culturais ou artísticos, ou sequer habilidade social. Quando em grupo, limitava-se a dizer e a repetir o que se dizia, comentava ao de leve títulos de jornais, mas não tinha conversa social, digamos assim. Mas como era (e ainda deve ser) tonitruante e espaçoso, disfarçava a insegurança com uma conversa ruidosa e divertida invariavelmente à volta do futebol. Aí sabia mais do que todos. Todos os dias lia os jornais desportivos e não havia pormenor que lhe escapasse. Tirando isso, a conversa preferida girava à volta deste que agora está ali, o outro que foi convidado para acolá, sicrano que está bem visto junto de beltrano, fulano que lhe tinha confidenciado que ia haver mudança, adivinhem quem eu vi a almoçar com o ministro A, ou consta que o outro está a cair em desgraça junto do ministro B. Uma conversa de vizinhas mas aplicada ao mundo dos negócios. Não passava disto.

Incompetente em toda a linha, nunca ninguém lhe viu nada escrito, e chegava a duvidar-se que soubesse escrever. Isto na brincadeira, claro, porque se lia jornais desportivos também deveria saber escrever.

Pessoas assim, que têm grandes privilégios (e ele tinha-os) e que sabem que o que têm assenta em cima de coisa nenhuma, tornam-se desconfiados. Este via inimigos em todo o lado. Ou se estava com ele ou se estava contra ele. Por outro lado, tinha em sua volta um grupo de amigos a quem pagava grandes almoços nos melhores restaurantes de Lisboa, a quem arranjava convites para espectáculos, a quem convidava para os célebres jantares na sua casa.

Por uma má avaliação da parte dele, talvez por me achar influente qb, tentava agradar-me permanentemente e, assim, arranjava maneira de ter reuniões e mais reuniões comigo, reuniões que duravam horas. Ora eu tenho algumas inibições e uma é a que advém da minha boa educação - e era assim que eu dava por mim a ouvir aquele autêntico burgesso sem ser capaz de o mandar bugiar. Era quase como se ficasse paralisada. As anormalidades que ele dizia, as confidências que me fazia convencido que eu era do clã dele, os ardis que arquitectava para se defender de possíveis ataques de outros ou ratoeiras que engendrava para ficar com os outros na mão e de que me dava conta, deixavam-me em estado de estupor catatónico. Outras vezes, ficava de tal forma fascinada por aquele mundo rocambolesco que dava por mim a fazer jogo duplo: mostrava-me interessada e ele, vaidoso, sentindo-me uma audiência interessada, falava, falava, falava. E eu puxava e ele falava, e eu ia dando corta e ele ia-se enforcando. Ouvi coisas inacreditáveis. Muitas vezes pensava, 'com o que sei deste anormal, bastava-me fazer um telefonema para o Expresso que acabava com a prosápia dele em três tempos'. Nunca o fiz. A traição não está nos meus genes mesmo quando se trata de um biltre encartado como ele.

Durante esses anos, de vez em quando proporcionava-se coincidirmos em reuniões com gente de fora em que se teria que falar em inglês. Pois bem, nunca o vi numa única dessas reuniões. Tinha sempre compromissos inadiáveis, idas para fora, o que calhasse. Estou convencida de que não sabia falar inglês mas sempre o disfarçou bem. Gente assim cultiva com labor a manha e o disfarce.

Como todos os estúpidos e incompetentes, odiava quem ele achasse que, por saber mais do que ele, poderia vir a causar-lhe situações desconfortáveis. Fugia de se encontrar com essas pessoas e inventava toda a espécie de intrigas, suspeições, tudo para afastar essas pessoas mesmo que para isso tivesse que as prejudicar profissional e pessoalmente. As pessoas nem sabiam porque lhes estavam a acontecer as coisas más que lhes aconteciam.

Mas eu não podia ficar a assistir impávida e serena e, assim, movia-me na sombra. Avisava A para avisar B para avisar C (sem que nunca o meu nome fosse referido) que se estava a passar certa coisa e que deveria ficar atento, defender-se, agir por antecipação. Vivi tempos de grande actividade intelectual e emocional. Era uma verdadeira agente dupla. Não sentia isso como traição mas, sim, como a indispensável defesa que alguém tinha que fazer dos que poderiam tornar-se vítimas sem perceberem sequer porquê. Ou seja, aparentemente comia à mesa do figurão mas, nos bastidores, minava o que podia para que ele não conseguisse sacrificar aqueles que ele temia serem seus inimigos. De facto, enquanto andou perto de mim, sem ele saber, tentei neutralizar todo o mal que tentou fazer. Nem sempre o consegui mas tentei sempre, muitas vezes correndo grandes riscos, muitos vezes passando por verdadeiros apertos.

Eu ficava passada com tanta maldade indiferente. Gente assim, se não é, torna-se psicopata. Este inventava coisas para justificar as maldades que fazia e ficava sempre de consciência tranquila, como se tivesse agido em legítima defesa.

Por essas alturas, lidávamos ambos com uma pessoa que era de uma inteligência superior, grande amigo meu e a quem eu contava o que se passava, e junto de quem confidenciava a pulhice infinita de que o mafioso era capaz. No entanto, mais do que indignar-se, o meu amigo divertia-se a observar a vida atribulada desse biltre que outra coisa não fazia na vida senão gerir a sua própria rede de relacionamentos - e sempre que podia, provocava-o. 

Uma vez calhou encontrarmo-nos os três à volta da mesma mesa. O gigante gordo vendo inimigos em toda a parte, tentando lançar insinuações e pronto a difamar quem calhasse, dizia, a certa altura, que havia uma rede de pessoas que o difamava por pura maldade ou má fé. O meu amigo, que gostava de me ver dançar no arame, às tantas, ar de safado, diz: 'e não sabe quem é que está à cabeça dessas manifestações contra si?'. O outro, assustado, 'quem, sô tôr?'. E ele, 'aqui a nossa amiga'.

O outro olhou para mim de boca aberta, olhar esgazeado. O meu amigo, malicioso, sem o outro ver, piscou-me o olho. Queria ver como é que eu me safava desta, adorava malandrices de salão. Depois de um choque inicial, recompus-me, ri-me e disse 'claro, cartaz na mão e tudo'. O gordo nem sabia o que pensar e eu continuei 'já constituí um movimento de oposição e tudo' e o meu amigo 'esta aqui não descansa enquanto não o derrubar'. O gordo riu, sorrisinho amarelo, sem saber o que dizer. O meu amigo descansou-o 'ó meu caro, descanse, ninguém lhe quer fazer mal' e, às escondidas, voltou a piscar-me o olho.

Talvez que vós, meus Caros Leitores, lendo estas minhas palavras, achem que estou a falar de um anafado ganancioso mas inseguro e inofensivo. Mas não. Era anafado e ganancioso mas não inofensivo.

A verdade é que, apesar de nunca se lhe ter visto um único acto de gestão, uma única intervenção, nada, nada, e apesar do seu mau carácter, o calmeirão por aí tem andado, de administração em administração, sempre com o motorista particular a reboque, motorista que é, na prática, um criado para todo o serviço.

Não sei por onde anda agora nem quero saber. É criatura da qual quero distância. É difícil descrever em três penadas, uma pessoa assim. Como todas as pessoas que cultivam o mal, tinha depois uma faceta simpática, comovente mesmo. Cheguei-o a vê-lo a falar emocionado da infância, do seu irmão que não tinha progredido na vida, e por mais de uma vez, de olhos marejados de lágrimas falando de uma das filhas, então com problemas. Hannah Arendt falou disso e a história não tem feito outra coisa senão dar-nos exemplos de como são comuns e banais as pessoas que praticam o mal sem quaisquer escrúpulos.


Gente ignorante teme os outros. E, por temer, deseja-os longe. E, para os ter longe, faz de tudo.


Tenho para mim que a rejeição de todas as classes profissionais e sociais que lidam com o conhecimento e com a investigação a que se tem assistido por parte dos incompetentes deste Governo, tem a ver com isto.

Os incompetentes e ignorantes que, por via de favores, serviços espúrios ou inocentes complacências, conseguiram alcandorar-se a lugares onde obtêm altos privilégios, travam depois verdadeiras lutas de sobrevivência para se manterem com acesso ao dinheiro e ao reconhecimento social a que se habituaram, e não hesitam em deitar mão a todas as armas para afastar todos quantos podem um dia pô-los em causa.

A luta contra os professores, contra os cientistas, contra os artistas, contra toda a gente que possa pôr a nu a sua ignorância é uma luta sem quartel e essas pessoas serão impiedosamente condenadas ao êxodo, ao desemprego, à humilhação social - e apenas não à morte porque longe vão esses tempos (porque senão...)


Daqui, deste meu insignificante canto, vai o meu apoio a Carlos Fiolhais e a todos os outros cientistas, investigadores, professores e gente do saber que vem travando uma heróica e destemida luta contra este verdadeiro império do mal que alastra pela sociedade portuguesa.


E vai também o meu apoio para os médicos, enfermeiros e demais agentes da saúde que lutam em defesa da Saúde Pública.


Tudo o que eu puder dizer, direi para denunciar a perfídia desta gente que não tem pejo, nem pudor, nem remorso pelo que está a fazer ao meu País.


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A música faz parte do álbum IL CANTO DI MALAVITA: ergastulanu 

Os rostos florais fazem parte do trabalho Face the foliage da autoria da designer americana que nasceu em Los Angeles e estudou design em Itália, Justina Blakeney. Não terão muito que ver com o texto mas, quando cheguei ao fim, não quis que fosse tudo mau. Mulheres floridas são sempre uma alegria em qualquer ambiente, certo? Trazem esperança, acho eu.


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Um ramo de alfazema colhido in heaven - para todos quantos lutam por um Portugal melhor

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E, por hoje, por aqui me fico.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça feira.

E que nunca o tédio, o cansaço ou a desesperança nos tolha os movimentos ou a vontade porque nossos são todos os caminhos.

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quarta-feira, maio 14, 2014

Carlos Fiolhais esteve no 5 para a Meia-Noite e foi um prazer: o físico prodigioso e bem humorado ora fala como um poeta, ora como um menino deslumbrado perante a vida. Se não o viram, não sabem o que perderam. //// E uma adenda para iniciar uma resposta aos apoiantes do PCP que protestaram por eu ter pregado um raspanete ao João Ferreira


Ai estas minhas desregradas noites. Tenho estado para aqui a prometer que vai haver tareia, que não me vou ficar, a ameaçar que tiro a faca da liga e tal e coisa e depois, sento-me aqui, e perco-me. Leio os comentários em volta do João Ferreira da CDU e vejo as hostes a alinharem-se para uma bela briga de rua e eu, em vez de saltar para o meio, por aqui me vou deixando ficar. 

Comecei com um desfile de sexy girls, depois juntei um trio de gente talentosa - um poeta surpreendente, um músico ímpar e uma fotógrafa de nus - e agora ainda vou aqui tecer mais um comentário.

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Eu, como qualquer mulher que se preza, sou multi-tasking (e, ao escrever isto de ser mulher já me estou a lembrar de uma outra coisa - mas fica para outro dia), e, portanto, estou a escrever aqui e, ao mesmo tempo, estou com um olho no burro e outro no cigano.

Face ao que vou dizer, talvez devesse rectificar a expressão pois a pessoa de quem vou falar de burro não tem nada e, se é cigano, não dá ares disso. Mas, enfim, adiante que se faz tarde.

Queria eu dizer na minha que, enquanto desfiava poemas, seleccionava nus de mulheres e de montanhas e cerzia tudo com transições musicais, estava de olho na televisão.

Pois não é que o maluco do José Pedro Vasconcelos levou o ganda maluco do Carlos Fiolhais ao Cinco para a Meia Noite? 



Saquei logo da machine para fazer a reportagem. Ganda pinta a deste homem. Um comunicador. E eu, que, como já aqui tantas vezes falei, me encanto pela poesia da Física, pelo mistério das coisas de que tudo é feito, pela beleza intangível das partículas elementares, ouço-o falar da intimidade do mundo e de coisas assim e fico presa às suas palavras.

Pontilha-as com humor, com uma irrequietude quase infantil e nós ainda mais cativados ficamos. Computação, modelação, simulação, e eu bebo o que ele diz. O super computador centopeia,  e o milipeia, e os átomos que gostam de estar juntos, a investigação pelo prazer de descobrir, e a utilidade imprevista que depois se faz da ciência, e a elevação moral que vem do despojamento de quem já se viu perante o inesperado e misterioso  - uma sucessão virtuosa de prazeres. Fico rendida.

Contou do Pelintrão, confessou que não sabe o que são glutões e que não acredita em pipocas saltitonas  -mas, em contrapartida, mostrou que sabe que o caminho do conhecimento se faz caminhando, pelo prazer de caminhar, pelo prazer de saber que algures poderá aparecer um rasto de luz e que, indo atrás desse rasto de luz, se poderá descobrir algo infinitamente pequeno cujo comportamento poderá vir a explicar o comportamento do infinitamente grande ou abrir a porta para o grande desconhecido.

Claro que não é um qualquer Medina Carreira, Passos Coelho ou Durão Barroso que poderá perceber esta linguagem.

Carlos Fiolhais, quando fala, fala para quem tem a mente livre, não para os seres pequenos, formatados, jotas, iguais e nulos. Fala para crianças de verdade, fala para poetas, fala para cientistas, fala para estrategas, fala para visionários, fala para as pessoas que amam o mundo, não para os que se acham superiores ao mundo.

Em boa hora, o entrevistador levou lá também Vanessa Fidalgo, especialista em duendes, elfos, fadas, seres alados. É o lado místico, fantasioso, do não-conhecimento, do que está ainda na sombra, dos pontos de luz perdidos algures nos labirintos do infinito. Um contraponto inteligentemente antevisto por quem pensou juntar os dois na mesma conversa.


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O vídeo lá em cima é Illustris Simulation of the Universe (Credit: NASA, Harvard CfA, Illustris Collaboration)


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São quase 2 da manhã e daqui a nada tenho que estar a pé. Por isso, como temi desde o início, a tareia política que prometi fica para amanhã (embora amanhã à noite tenha a casa cheia, pimentinhas em força, pessoal a jantar e alguns a pernoitar, pelo que não sei se conseguirei dar um ar da minha gracinha). Mas, se não for amanhã, é depois. Contudo, para que não fique no ar a ideia de que amuei ou coisa do género, aqui deixo uma imagem que vale mil palavras:



Imagem obtida aqui a propósito desta mesma temática. 


O que defendo, não é um partido de esquerda a engolir os outros, não é um a anular os outros, não é uns a abdicarem dos seus ideais a favor de compromissos espúrios: é apenas pôr o País acima das diferenças. Perante uma situação de calamidade, unirem-se para derrotar os que devastam o País. Não será possível encontrar linhas de convergência para o futuro? Não?!

Diferenças? Claro. Que se mantenham. Que se discutam essas diferenças. Que não existam consensos sobre tudo. Claro. Mas que se consigam encontrar percursos comuns para que se consiga salvar este pobre e desengonçado País. De que servirá ao PC ter mais um ou dois deputados, roubando-os ao PS? De que serve isso, com esta direita ultra-liberal no poder?

Não percebem que o que devem é derrotar a direita? Que é a direita estúpida, ignorante e incompetente que deve ser derrotada? Que se devem unir para defender o País? Um ou dois deputados a mais valem a destruição do País?

... Capisce J e Anónimo?


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Relembro que este é o meu terceiro post de hoje e que, se forem deslizando por aí abaixo, poderão encontrar belezas para vários gostos. Moda, mulheres quase despidas, mulheres completamente despidas, fotografia, poesia, música.

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E, por agora, por aqui me fico. 
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta feira. 
E que ganhe o Benfica, ora essa. Acima de clubites eu ponho o meu País!

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terça-feira, abril 22, 2014

Judite de Sousa já mal consegue aguentar estar de Olhos nos Olhos com o chato do Medina Carreira. Hoje a coisa esteve quase a pegar fogo, com Carlos Fiolhais a agudizar o mau feitio do 'Ó-doutor-medina...' /// [E queria falar da Revista Estante, a nova revista sobre livros, uma edição da FNAC - mas apenas falo um pouco até porque, a abri-la, dei logo com o Valtinho]


No post abaixo já aqui deixei uma pergunta ao nosso irrevogável-vice-primeiro-ministro e, antevendo que ele não se dará ao trabalho de me responder, respondi eu, aproveitando para aqui lhe deixar um sincero conselho. É que, se ele não o seguir, temo bem que o vejamos a chegar ao último dia do Governo de Passos Coelho aparentando ter mais idade que o Mestre Manoel de Oliveira.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. Aqui falo do que vi enquanto jantava.


Fado Cravo



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Jantei tardíssimo. Estava cheia de fome e, para variar, também já com sono. Devo ter começado a jantar já muito perto das 10 da noite (e, portanto, estava há cerca de 9 horas sem comer) e, como podem imaginar, a minha disposição não estava famosa.

Judite de Sousa está não apenas mais bonita
mas, também, mais simpática, mais empática
e melhor moderadora e entrevistadora

Mas eis senão quando, ao ligarmos a televisão da copa, demos com os Olhos nos Olhos e com o insuportável Medina Carreira todo enxofrado com o impagável Dr. Carlos Fiolhais, pessoa por quem nutro admiração, e com a bela Judite de Sousa em palpos de aranha para pôr alguma ordem naquela mesa.


Discutia-se, penso eu, o orçamento relativo ao ensino (como apanhei o programa perto do fim, não sei bem se terá sido apenas sobre o ensino superior).

O chato - e um verdadeiro cata-vento - Medina Carreira dizia que, sendo o País um país de pelintras, não há dinheiro para pagar cursos que não servem para nada.

Vistas curtas, verbo afiado, Medina Carreira é um daqueles que, com poder na mão, também daria cabo do País em três tempos.

Simpático e com uma notável bonomia,
Carlos Fiolhais não é, no entanto, uma mosca morta.
 Pelo contrário é bem um homem do seu tempo.

Carlos Fiolhais explicou-lhe - com a graça, bonomia e brilho que se lhe conhecem - que os pelintras podem não ter dinheiro mas, se tiverem conhecimentos, podem vir a criar muita riqueza. Deu o seu próprio exemplo que é Físico e que tem ajudado a formar Físicos e deu outros exemplos notáveis: foi pedagógico, paciente e convincente. Explicou que as invenções surgem no decurso de experimentações, tantas vezes acidentalmente e, para as quais, apenas anos depois se descobre a utilização. É apenas um dos casos que deu. Acabe-se com os cursos de Física, que não servem para nada?, perguntava ele a Medina.

Servem para formar cientistas que depois se vão encaixotar e que o País não pode pagar!!!, retruca-truca o exaltado Medina, o olhar cada vez mais de viés.

No entanto, antes do desnorte no final em que já nem conseguia disfarçar a raiva de que foi tomado, de cada vez que Carlos Fiolhais dizia uma coisa lógica e irrebatível, o intragável Dr. Medina, para ver se passava, dizia que estavam a dizer a mesma coisa. Mas a bela da Judite (que, de facto, está bem mais bonita) não estava para dar mole e, portanto, não perdoava, 'não estão nada a dizer a mesma coisa, ó Dr. Medina, estão é em rota de colisão' e o Medina, fulo, fulo da vida, espingardava com ela, com o outro, mostrando que é mesmo uma daquelas criaturas com um mau feitio que não se aguenta.

Vejam bem o arzinho de fúria da criatura

Carlos Fiolhais não perdeu a tramontana mas não deixou uma por dizer. Deu uma lição de cultura, de civismo e de cidadania, mostrando como o caminho que está a ser seguido é o oposto do que devia ser. E a Judite de Sousa lá foi dizendo que o Dr. Medina diz mal de tudo e, apesar de ir sorrindo, não lhas perdoou.


Via-se que, perante o ar furibundo do Medina Carreira que por vezes quase roçava a má criação, ela estava desertinha por acabar o programa e, quando isso aconteceu, talvez nem se lembrando que continuava a ser filmada, agarrou o cabelo, estendeu-se na cadeira, esticou-se e, devo dizer, que acho que muito pouco fez ela. Não me admiraria nada se a ouvisse dizer 'fónix! que estava a ver que não aguentava isto até ao fim...'


Judite de Sousa relaxa depois de tentar moderar os ímpetos furiosos do Dr. Medina

Se fosse eu, não sei se me aguentava sem virar uma garrafa de água na cabeça daquela criatura maledicente e intratável que parece que destila ódio e que para ali ainda ficou a pregar enquanto o pacholas do Fiolhais, sorridente, tentava acalmar aquele bicho horroroso.

Não sei se a Judite tem pachorra para aguentar por muito mais tempo aquele sujeito. Nem sei se os telespectadores o aguentam.

Um programa deste género é útil e interessante mas com uma outra pessoa. Aquele Medina é uma autêntica megera.


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O fado lá em cima é o Fado Cravo interpretado por Alfredo Marceneiro. 

Vá lá explicar isto, quando pensei numa música para acompanhar o derrotismo, o pessimismo doentio do Medina, lembrei-me logo de um daqueles fados desgraçados do Marceneiro (de raiva desfiz o cravo).

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Já agora, caso queiram ver o Professor Fiolhais a falar de ciência, deixo-vos aqui um vídeo.
É sempre um gosto ver e ouvir uma pessoa inteligente e com sentido de humor.

Pipocas com Telemóvel e outras histórias de falsa ciência

de Carlos Fiolhais e David Marçal





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E assim, uma vez mais, deixo para trás aquilo de que vinha com vontade de falar. Comecei aqui tarde demais e já cansada e, em vez de ir direitinha ao ponto, cedi ao impulso e desatei a falar do que tinha acabado de ver. Quando começo, penso sempre que vou despachar-me e que, em três tempos, estarei pronta para o que quero. Mas qual quê? Ponho-me à procura de músicas, no caso deste post tirei fotografias à televisão, depois passei-as para o computador, depois converti-as para não ficarem pesadas, e depois gosto de compor minimamente o visual da coisa e assim sucessivamente. Ou seja, o tempo vai passando e as minhas anteriores intenções vão sendo postergados. Qualquer dia ainda arranjo um ghost writer para me ajudar: é que não consigo dar vazão a tantas coisas que aqui quero trazer.


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Entrevista a José Tolentino Mendonça
no Número 1 da Revista Estante

Também queria falar da nova revista literária, a Estante, uma edição da FNAC. De tarde já um Leitor me tinha enviado um excerto da entrevista do Pde Tolentino Mendonça e, quando abri a caixa de correio (física), lá tinha a revista. O primeiro número foi oferta mas, a partir daí custará 1,5€, ou seja, um preço imbatível. 


A nível gráfico é agradável, o papel é simpático, deve ser reciclado, mas tem partes significativas escritas com uma letra miseravelmente pequena. Eu, que não uso óculos para ler, vi-me grega para ler aquilo. Um disparate, quase que só com lupa. Depois é quase mais um catálogo do que uma revista literária. Mas, em contrapartida, tem alguns aspectos úteis.

A ver se amanhã falo dela com mais vagar pois, para já, preciso de pegar nela com, justamente, mais vagar. Uma coisa me deixou logo de pé atrás. Ou melhor, com os dois pés atrás: o Editorial foi escrito pelo Valter Hugo Mãe, o bom do Valtinho. Se isto é para valer ou se foi só este 1º número, uma experiência a ver como é que ele se porta, não sei. O que sei é que o naco de prosa não engana: é mesmo coisa do Valtinho, credo.

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Para verem o desgaste que este governo está a ser para todas a gente, incluindo para aquele que tanto parece ambicionar lá estar, Paulo Portas, é descer, por favor, até ao post já a seguir.

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E, por hoje, fico por aqui. Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça feira.