Po vezes quase descreio da bondade e da inteligência da humanidade -- humanidade lato sensu, leia-se. Ao mesmo tempo que escrevo, apetece-me ironizar, gozar comigo própria por parecer que estou a dramatizar. E estou. Mas, ao mesmo tempo, forço-me a esfriar as ideias. Já aqui escrevi: se fizermos uma viagem literária às arrecuas (arrecuas temporais, entenda-se), vamos ver que, em todas as eras e em todos os quadrantes, os escritores mais observadores ou mais dados à crónica social achavam que estava tudo mal, cada vez pior, que a classe dirigente era uma miséria, que a decadência moral estava a corrroer os alicerces do futuro. E, no entanto, o mundo foi andando, muitas vezes aos solavancos, aos pinotes, muitas vezes desviando-se dos caminhos morais, muitas vezes anulando o progresso que outros construindo. Mas foi andando. Não colapsou.
No meio das descrenças e decepções, vamos, portanto, andando.
Pela parte que me toca, lembro-me de, colectivamente, termos atravessado períodos de incerteza, de crise, de desalento. Crises financeiras, guerras por motivos inventados, a pandemia -- por exemplo. No entanto, não tenho ideia de um período em que a descrepitude moral fosse tão gritante. Em muitos países elegem-se como representantes os mais ignorantes, os mais broncos, os mais mal-intencionados, os mais inescrupulosos. Os países em que isso acontece são, assim, arrastados para situações inimagináveis, para guerras absurdas, para impensáveis derivas imperialistas, para cruéis atentados, para situações em que os mais pobres ficam mais pobres e os mais ricos se tormam destemidos e desencabrestados oligarcas.
Olho para o mundo e não reconheço lógica ou inteligência, vejo perigosos aventureirismos, vejo desatinos atrás de desatinos, riscos impensáveis nas mãos de irresponsáveis. Assusta-me o futuro.
Veja-se o que acontece em Espanha. Lá, como cá e por todo o mundo dito civilizado, não há casas para os mais pobres ou para quem está em início de vida. Grande parte das casas que estavam em arrendamento normal viraram-se para o alojamento local, em que o rendimento é muito maior e o risco muito menor. Por outro lado, face ao envelhecimento da população, grande parte da força de trabalho pior remunerado é levado a cabo por imigrantes que ganham pouco e não conseguem pagar uma casa cuja renda é superior ao que ganham. E o mal não está no valor das rendas pois parece que todas se arrendam. Ou seja, há procura para casas com rendas elevadas. Portanto, estar a olhar para isso é pura miopia. Esqueçam-se as casas que hoje estão no mercado. O problema não está aí, o problema está nas casas que não há. O problema está na escassez de casas, em número absoluto. Escassez. Fixemo-nos nisso e não no preço das rendas. E, claro, em particular escassez a rendas baixas -- habitação social pura e dura. Só por vistas curtas se pode pensar que o problema está nos senhorios ou nos despejos. Claro que se tem que dar garantias aos senhorios senão ou põem as casas em alojamento local ou vendem-nas ou fecham-nas. Portanto, deixem os senhorios em paz, tranquilizem-nos. O problema não está nos senhorios. O problema é que não há casas que cheguem, em particular casas que os mais pobres possam pagar. Os imigrantes amontam-se em quartos superlotados ou em bairros ilegais e os jovens não desandam da casa dos pais. Este é o problema. O problemão.
O Isaltino anda há que tempos a dizer isto mesmo: ponham-se casas no mercado, usem-se terrenos públicos para que neles se construam casas económicas (porque, terrenos privados, a preços de mercado, são caríssimos, e isso encarece logo o preço final das casas; deixem-se os terrenos privados para casas dirigidas à classe média ou média-alta). Vi que em Espanha, perto de Madrid, o município pegou em terrenos públicos, estabeleceu uma concessão de 75 anos a privados que lá construam casas económicas. E em cerca de 3 anos eles fizeram isso. Num condomínio com parque iinfantil, piscina, boas condições e a cerca de 30 minutos de Madrid, um T2 ou T3 arrenda-se à volta de 1300 euros. E note-se que o nível de vida em Espanha é superior a Portugal. Por isso, o que impede que os municípios em Portugal peguem também em terrenos devolutos (e, se necessário, alterem o Plano Director), e façam parcerias público-privadas para construirem e arrendarem prédios com fartura, bem pensados, bem integrados, bem urbanizados, com T0 e T1 a 500 euros, T2 a 700, T3 a 900? Por exemplo. Mas muitos prédios. Acabe-se com os bairros clandestinos e com a indignidade dos quartos com gente a monte. Caraças. Custa muito perceber isto?
Eu insurjo-me mas, pelos vistos, custa. Porque, em vez de se pensar na solução e de se pôr pés a caminho e mãos à obra, anda-se à volta, à volta, à volta, e discutir tudo menos o que é relevante. Fazer casas baratas, pegar em prédios públicos e reconvertê-los, pôr no mercado casas a pontapé a preços baratos, népias. Só conversa -- e acção zero, bola. Um atraso de vida que até dói.
Em Espanha, perante a crise e perante as manifestações, com as Portas do Sol transformadas num acampamento, quando Pedro Sánchez quis fazer qualquer coisa para atenuar um pouco o problema, o resto dos partidos boicotaram-no e a lei não passou. A direita e os populistas, uma vez mais, a ensarilharem tudo.
E, no entanto, as pessoas votam nesta gente que faz muito barulho, que atiçam multidões, mas que, na verdade, não têm nenhuma solução. Os deputados que fizeram isto, estão no Parlamento porque foram eleitos. Parte da população elege os mais trauliteiros, mais arruaceiros, mais incompetentes, mais estúpidos.
É como nos Estados Unidos, o exemplo mais acabado da suprema estupidez colectiva. Apesar de ser um cretino, um estupor, um corrupto, um desavergonhado, um anormal que já levou não sei quantas empresas à falência, já não sei quantas vezes condenado, com um passado infecto de atentados contra mulheres, um narcisista maligno que não respeita a democracia, um ignorante que nunca leu um livro na vida, Trump foi eleito pela segunda vez. E, apesar de todos os dislates, de todas asneiras que já fez -- e asneiras é palavra fofa para designar os atentados de toda a ordem que cometeu -- a verdade é que continua ainda a ter uma percentagem significativa de apoiantes.
Ensarilhou o mundo: uns pagam com a vida, outros pagam com carteira cada vez mais vazia. E vamos ver como vão correr as eleições de Novembro. Tudo o que faz corre mal, o que não espanta porque só faz porcaria. Mas é inspirado nele, no seu descaramento, no seu populismo, nas suas mentiras, na sua forma prepotente e aldrabona, que muitos movimentos políticos, por todo o mundo, se inspiram.
Quem conhece bem Trump é Michael Wolff. Gosto imenso das suas análises, quando conversa com Joanna Coles. Esta última conversa é muito elucidativa. Seria bom que se pensasse nele como pessoa, como o ignorante, o estúpido e cobardolas que é, e não como se fosse um político normal.
E, na volta, passa-se o mesmo com os estúpidos que por aí andam, a fazerem de tudo para que ninguém descubra que são umas nódoas, uns zeros. Esta conversa é tanto mais interessante quanto revela os mecanismos de defesa (que, muitas vezes, se transformam em mecanismos de ataque) a que provavelmente todos os estúpidos com poder sempre recorrem.
Estas são as 10 coisas que mais aterrorizam Donald Trump | Inside Trump's Head
Michael Wolff e Joanna Coles revelam os medos que, segundo eles, impulsionam Donald Trump — desde o medo de ser exposto como pouco inteligente e incapaz de absorver informação até ao pavor da rejeição, do ridículo, da solidão e de perder o protagonismo. Wolff relata os esforços extraordinários alegadamente feitos para manter o historial académico de Trump em segredo, explica porque é que uma conversa comum pode deixá-lo vulnerável e descreve um presidente que precisa de uma audiência, mas que se esquiva ao contacto humano genuíno. Ao analisar como estas inseguranças moldam os seus ataques, obsessões e recusa em aceitar a derrota, Wolff oferece uma previsão arrepiante de como Trump poderá preservar o seu poder depois de deixar o cargo — e porque é que a sua sede de atenção poderá nunca o deixar desaparecer.










