Hoje não estou inspirada. De tarde, quando estava num outro comprimento de onda, por sinal até animada e já com ideias para uma outra coisa, recebi um telefonema: 'Não tenho boas notícias...'. E, pronto, uma bomba. Uma inesperada bomba. E aquilo que eu achava que estava encarrilado e a caminhar para uma boa solução voltou à estava zero.
Fiquei ali um bocado a digerir. Uma desilusão que não vem nada a calhar.
Mas depois respirei fundo. Nestas situações, respiro fundo. Penso no que se segue. É coisa minha: para estes contratempos, tenho um mantra: há mais marés que marinheiros. E tenho outros, todos igualmente banais. Mas é nas grandes banalidades que se escondem as grandes verdades.
Portanto, bola para a frente.
Claro que tinha pensado regar a parte da frente da casa, e, com isto, passou-me a vontade. Não me apeteceu, fiquei com pouca energia.
Gostava que caísse uma pinga de água. Mas nem uma. Detesto quando vejo a terra seca, só me apetece que caia não uma pinga mas uma chuvada das valentes. Mas nada, nem sinal de água. Amanhã talvez regue.
Depois fui para a cozinha e fiz uma bela bacalhauzada. Bacalhau com todos é sempre uma coisa boa, aquece a alma.
O passeio que fizemos à noite foi diferente: foi feito já bem de noite e debaixo de frio. Os dias encurtam a um ritmo desconcertante. E arrefeceu bastante. Levava calções relativamente curtos mas, por cima da tshirt, levava um casaco já um pouco quente. Soube-me bem. De início senti frio nas pernas mas, com o andamento, ficou até agradável. Cheguei a casa arrebitada, a pensar que amanhã é um novo dia. Todos os dias são um novo dia.
E todos os dias vão chegando notícias: alguém que faz anos, um menino que foi convocado e a quem o jogo correu bem, um menino que compõe um rap a gozar com os primos, uma menina que monta e edita um vídeo para o mano, outro menino que vai passar uns dias com a namorada, outro que começa um novo desporto, e depois chega uma notícia triste, alguém que morreu, alguém que nos faz pensar aquilo que tantas vezes piedosamente pensamos, que mais vale que morra do que sofra, e até nos esquecemos que ninguém devia sofrer assim nem assistir à vinda da morte de dentro do próprio corpo, e depois já é uma amiga que vai viajar e todos lhe desejamos uma boa viagem... e a vida vai andando, um dia depois do outro, e depois outro, e depois outro, todos os dias muitas coisas, coisas díspares, umas que nos fazem felizes, outras que nos entristecem, mas não param, a seguir a uma vem outra e outra e outra e outra.
E ainda bem que é assim. Só assim, porque temos termo de comparação, sabemos dar valor às coisas boas, só assim nos obrigamos a viver com vagar e apreço os momentos bons.
E pronto, vou-me, não posso ficar por aqui senão não paro de dizer lugares comuns.
Seja como for, são temas que não domino. Não domino nem conheço. Quando vejo na televisão aqueles personagens, muitos com ar sinistro, desligo. Uns são cabeçudos, outros uns trauliteiros, outros têm voz de bagaço. Gente que não faz o meu género.
Mesmo que a televisão fique a emitir, eu deixo de ouvir. Nada daquelas conversas me interessa. Nem percebo o que dizem. Parecem umas vizinhas desavindas, hipócritas, mal-educadas, intriguistas, arruaceiras. Portanto, não percebendo nada da matéria, claro que não vou falar sobre isso. O mundinho do futebol português fede demais para o meu gosto
O tema apenas vagamente despertou o meu interesse pelo hipotético crime informático subjacente. E não tanto por isso mas por me interrogar acerca do que poderá isso significar: os sistemas da Procuradoria são abertos, vulneráveis? Quantos mais processos terão sido violados? Com que fins? Há controlo? Ou as toupeiras podem movimentar-se à vontadinha nos meandros dos sistemas informáticos? Ou, para ajudar à festa, os procuradores são uns totós e deixam os user names e as passwords num post it colado ao monitor?
Ou não? Escondem-nas a sete chaves mas não faz mal porque as passwords são do mais básico que há? Benfica_penta. Vieira2018. ABC123. Coisas assim.
Enfim.
Contudo, nada está provado e pode acontecer que estejamos na presença de mais uma cegada judicial daquelas em que uns quantos são indelevelmente manchados para que mil anos depois, quando já os julgamos mais que mortos, sejam declarados inocentes ou os processos arquivados por falta de provas.
Portanto, fico-me por aqui.
Acho que dia 8 é o Dia da Mulher e não sei se as mulheres devem marimbar-se para isso ou agradecer a gentileza.
Nem sei bem o que destacar a propósito disto do Dia da Mulher. Não gosto de vitimizações mas também não quero menosprezar as diferenças absurdas ainda existentes entre as condições e as possibilidades ao alcance de homens e mulheres. Por isso, dizer o quê?
Que as mulheres subestimam a força e o valor que têm?
Que os homens que acham que as mulheres estão num patamar abaixo deles devem ser atrasados mentais?
Não sei. O que me ocorre dizer é que ser mulher é uma coisa boa e que deve ser usufruída em todas as suas vertentes.
Estou a escrever e a pensar que deveria aqui ter fotografias de mulheres sofredoras, em campos de refugiados, em cenário de guerra, em salas de tratamentos oncológicos, a viver na rua, a viver em casas sem condições em subúrbios pobres e tristes. Mas daqui a nada tenho que estar a pé. Por isso, deito mão do que me é mais fácil: mulheres que representam a fantasia, o charme, a graça, a insolência.
E limito-me, também, a trazer aqui três meninas que já são grandes mulheres. Poderia ir buscar de outras áreas mas é o problema de sempre: o meu tempo é curto e o meu sono é grande.
Começo a ver balanços um pouco por todo o lado, está na altura deles. Não que me façam falta ou que me entretenham o desfastio. Mas tenho pena de não ser capaz de fazê-los. Se fosse, se calhar também não os fazia mas, enfim, não fazer era uma coisa voluntária. Assim não, assim é olhar para balanços alheios e pensar: para eu conseguir produzir um teria que fazer uma monda danada, como quando quero oferecer fotografias e tenho que passar em revista as milhares que fiz ao longo do ano. Penso: se calhar a coisa inteligente era, de cada vez que faço uma fotografia engraçada ou que acho algum evento marcante, fazer-lhe logo a devida assinaladela para, no fim do ano, as tarefas estarem praticamente aviadas.
Acreditem. Os melhores filmes do ano, os melhores livros do ano, as frases mais inteligentes do ano, os actos mais fantásticos, as músicas mais maravilhosas -- assim de repente não me lembro de nada. Ou, então, começo a desbobinar aquilo de que me lembro e sei lá eu se foram os melhores.
Mas, lá está, que interesse tem estar a desenterrar os mortos para os glorificar?
Ok, estupidez, sei que sim. Um livro lido não é um livro morto. Idem para o resto. Foi uma metáfora não apenas sinistra mas também estúpida. Mas é que não quero já saber do que fiz, a única coisa que me interessa é o que vou fazer.
Listas. To do lists. Também nunca fiz. Não gosto de me programar. Gosto de me sentir livre para fazer o que me apetecer.
Lista de boas intenções. Nunca fiz. Não tenho boas intenções, só más.
Acho extraordinário quando aconselham as pessoas a fazerem uma lista de projectos ou de ideias a perseguir no ano que se segue. Eu nem pó. Nunca na vida fiz tal coisa. Sei lá o que é que devo fazer. Em vez disso posso entreter-me a ler horóscopos ou a deitar cartas de tarot. Claro que mal acabo, já me esqueci. Tem uma graça momentânea mas altamente perecível. Por exemplo, fui agora ver à Vogue o que me aguarda em 2018. Como sempre, espera-me: trabalho, desafios, a minha criatividade posta à prova. Coisas assim. Sempre isto. A nível de amor também um ano em grande, paixão transbordante e quem sabe se até um bebé. Pelos vistos, até a menopausa me vai passar. E eu tão descansada que ando que já nem me lembro dessa coisa dos anti-concepcionais. Bolas, bolas, bolas.
Bem. Adiante.
Isto para dizer que acho muito bem. Um diz que vai ler a Agustina, outro voa sobre o ano que voou, outra diz que vai ser assim e assado e até a Estrela Serrano distribui medalhas. Gosto de ver. Gente com a cabeça no sítio. Tomara eu.
Eu, que tenho a minha sempre na lua, o mais que consigo dizer é que o Marcelo é incontornável. Até de carrocel já o vi hoje na televisão. Ia de boné e quase podia parecer outro mas juro que era ele. De vez em quando diz uma ou outra com sentido. Mas parece que já quase esgotou o reportório de coisas assisadas. A maior parte das vezes já só o ouço a dizer irrelevâncias, a anunciar cuidados para daqui por um ano, a sugerir remoques contra incertos ou a querer que se façam casas sem projecto, se calhar na candonga, clandestinas, e sem orçamentos, sem nada, tudo na base do sempre a abrir. E quando vê que as casas até já foram efectivaente construídas -- e como deve ser, algumas boas como nunca foram antes e tudo certinho, direitinho -- aparece a dizer que isso não chega, tem que se fazer mais. E o engraçado é que ele diz isto sabendo que o Governo está mesmo a estudar a forma de repovoar o interior, de aí dinamizar a economia. Mas o Marcelo parte do princípio que as pessoas não sabem que o Governo está a trabalhar nisso e aposta em que, quando as coisas aparecerem feitas, a malta pense que foi graças a ele e às bocas que andou a espalhar aos microfones e perante as câmaras. Cansa-me este Marcelo. Não é tanto já me enjoar aquilo de ele andar sempre a escarafunchar no luto alheio e a dar beijinhos a tudo o que mexe, é mesmo a sua necessidade compulsiva de dizer coisas. Não interessa que coisas. Coisas. Sempre a dizer coisas. Sempre na televisão a dizer coisas, sempre metido em cenas a dizer coisas. Um cansaço.
É que eu, assim que me lembre, a quem devemos mesmo tirar o chapéu é a António Costa. Pisando terreno quase sempre minado, com uma oposição desmiolada e desavergonhada, com uma comunicação social acéfala e com uma agenda muito própria em que vale tudo, com uns amigos de geringonça que acham que, para não perderem o pé, devem andar sempre com ralhetes, ameaças e greves pela trela, e com um presidente ciumento e obsessivo-compulsivo relativamente à fama, Costa tem conseguido ultrapassar a barreira de fogo alimentada pelo coro de carpideiras que está sempre à espreita, escudada pela ideologia do neo-afecto, tem resistido ao facilitismo e tem conseguido ir equilibrando as contas, restabelecendo a confiança e restituindo a dignidade aos portugueses. Com a sua forte alavancagem pessoal até conseguiu que Centeno fosse a presidente do Eurogrupo e vamos ver se, uma a uma, as pedras do caminhos europeu não começam a apontar num outro sentido que não o da dispautérica austeridade. Nem tudo tem sido perfeito e alguns maus momentos para sempre pesarão na memória colectiva de 2017 mas António Costa fez o melhor que conseguiu e o que se vê é que não foi pouco.
Tirando isso. Não me apetece falar de um outro incontornável, um outro narcisista. Só que, a nível cultural, esse outro não chega aos calcanhares deste nosso. Nem tem de base uma matriz democrática nem lhe dá para andar a bater perna vinte horas por dia a distribuir afecto e a fazer-se à selfie. Este a que agora me refiro é estúpido, bronco, básico e perigoso. Trump. A anedota do século.
Nem me apetece falar de algumas outras palhaçadas. Maus passos que a populaça, quando estimulada emocionalmente, volta e meia dá. Por algum motivo (e empresas como a Cambridge Analytica lidam bem com esses 'motivos'), uns resolvem atirar-se para fora da Europa e vão atrás do verbo insuflado de chicos espertos que, à primeira dificuldade, metem o rabo entre as pernas e arrepiam caminho, outros resolvem separar-se do país ao qual sempre pertenceram. Derivas independentistas que a razão desconhece e que, tarde ou cedo, darão com os burrinhos na água.
Também não vou falar dos que partiram -- e não foram poucos. Nos enterros há aquela velha máxima que toda a gente diz, encolhendo os ombros: é a lei da vida. Não sei se é, se não é. É o que é e nada se pode contra isso. Uns vão cedo demais, uns sofrem demais ao partirem, outros deixam um estranho vazio que se sabe que nunca será preenchido.
Mas há também os que chegam, leves como o futuro inteiro que têm pela frente e a quem desejamos toda a sorte e felicidade do mundo. Transportam em si o tempo por viver e a esperança de melhores dias.
A nível artístico muitos foram os que me proporcionaram bons momentos mas há dois em que estou agora a pensar -- e, lá está, se eu fosse de elaborar raciocínios ponderados, talvez pudesse, em consciência, afirmar a pés juntos que são estes e nenhuns outros; assim, são apenas os que, neste instante, me estão a ocorrer. E são eles:
o Salvador Sobral. Menino talentoso, invulgar. O coração que o acompanhou enquanto levou a canção da mana Luísa aos quatro cantos do mundo já não é o que agora lhe bate no peito. E eu desejo, mas desejo muito, que saia desta, que o transplante vingue, que todos os seus órgãos reajam bem e que, cedo, cedo, volte a estar bem, que recupere totalmente e que, um dia destes, já aí o tenhamos de volta, cantando e encantando, irreverente e alegre -- por muitos e bons anos;
e Alma Deutscher, essa menina prodigiosa que compõe, improvisa, interpreta. Sonatas, concertos, óperas. Canto. Uma coisa inacreditável.
Devia agora puxar pela cabeça para tentar falar também de pacifistas, ambientalistas, fotógrafos, bailarinos, escritores, políticos. Devia. Mas não vou fazê-lo. Ia falhar muito.
Também não vou falar das grandes dores, das grandes vergonhas, de todas as traições feitas ao género humano ou cometidas contra seres vivos, em geral. Iria também falhar em toda a linha. Por cada pequena conquista, várias pesadas derrotas. E se para ilustrar este não-texto escolhi ao acaso algumas imagens que, por algum inconsciente motivo, me agradam, para terminar escolho duas que, por motivos totalmente conscientes, ilustram a barbárie que vive dentro de nós.
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Mas, não obstante a bestialidade cujas demonstrações nos ferem o coração, o mundo é ainda um lugar maravilhoso, múltiplo nas suas magias e encantos.
É bom viver.
Convenhamos: 2017 não foi um ano mau de todo.
Não sabendo de nada, fui agora espreitar as news. Nada que puxe por mim. Talvez disparidades como as de colisões de massas astrais ou de neutrões ou minudências relativas a neutrinos. Ou células auto-imunes ou vislumbres relativos ao Alzheimer. Tudo temas que requerem leitura atenta. Ora, a cada cinco minutos de atenção caio para o lado. Presumo que seja a isto que se chame défice de atenção. Ou uma perigosa mistura entre cansaço e desmotivação. Mas a identificação das causas de pouco interessa para o caso. Adiante, pois. Também me interessa ler a opinião desacertada das pessoas que votaram a favor do brexit e que agora mordem as mãos sem saber como reverter a história. Mas a leitura em inglês de mais do que cinco linhas também me faz cair para o lado. Restam-me os bonecos. Entretenho-me, pois, a ver as fotografias em que o Príncipe Harry aparece a fazer de terceira roda, que é como quem diz, de pau de cabeleira, junto do brother ou da sua simpática cunhadinha. Ou as fotografias new age, em registo vogue, em que aparece com a sua noiva Meghan com um não unânime vestido que muitos acham que é demasiado red carpet. Leio com a cabeça em modo neutro, oncapaz de formar opinião. Ou, então, aquilo da prima de Kent, conhecida pro nazi, ter aparecido no almoço com a futura princesa mestiça com um broche racista ao peito. Penso: uma estúpida qualquer. Tantas vezes, quanto mais aristocratas, mais pataratas. Também me entretenho a ver sugestões de presentes de última hora: para solteiros, para casadas, para intelectuais, para maníacos de moda, para quem precisa de tratar do cabelo com muito cuidado, para as taradas por sapatos, para os amantes de arrumações. Ou uma estante feita em casa que é toda pintarolas. Portanto, já se vê que o meu estado físico e mental não evoluíu muito desde ontem. Uma lástima. Durante o dia ainda vá que não vá, agora, à noite, nada a fazer: sem pilhas.
Muita cena de Natal deixa-me assim. Muitos votos, muitos beijinhos. Faço acenos de longe, já não aguento tanto beijinho, tanto 'bom natal'. Almoço, lanche, jantar. Tanto festejo, tanta confratrenização. Não sinto falta antes, não sinto nostalgia depois. Hoje um convite para um jantar de natal a meio de janeiro. Só me apeteceu dizer: ora, porra. É que, a sério, já não há pachorra. Logo de seguida pasmei com os mails de alguns dos convidados todos a dizerem que sim, que bom, que bom. Não sei se isto é tudo gente carente ou se sou eu que estou cada vez mais bicho do mato.
Também reuniões que não acabam e eu incapaz de achar que há necessidade em fazer reuniões por cagadinhas que não interessam nem ao menino jesus. Outras vezes nem é isso, é apenas que para mim não é oportuno, não estou nem aí. Hoje ligava-me mais um a querer marcar reunião para a semana que vem e eu que não, que quero ter uma semana sossegada e que estou a ver que não consigo e que queria ter um ou dois dias de férias e que parece que nem isso vai ser possível. Nem sei se não bufei de enfastiamento. Diz-me ele do lado de lá: Mas, se preferir, podíamos antes almoçar.... Só me apeteceu dizer-lhe que era mesmo o que me faltava era ter que aturá-lo à hora de almoço. Mas não disse, ele é um querido. Disse só que me desse tréguas e que atirássemos o encontro para lá de meados de janeiro. No regresso, noite, noite, vinha no carro e os sacanas dos mails a continuarem a pingar. Num semáforo espreitei. Um tinha uma convocatória para a tarde inteira da próxima sexta-feira. E eu com vontade de me baldar. Disse alto e bom som: O caraças é que vou! mas ninguém me ouviu. Um protesto inócuo. Devia era ter rejeitado o convite e editar a resposta para chegar assim: Vá pentear macacos! Depois pensei que se me saísse o euromilhões era isso que fazia. Tornava-me inconveniente, dava respostas nesta base: E se em vez de andar a chatear os outros fosse, antes, dar banho ao cão?
Mas pronto. Para dizer a verdade esta sexta-feira até não foi tão dramática como os outros dias destas duas últimas semanas. Consegui dar um salto à Gulbenkian à hora de almoço. Estava com receio que o trânsito estivesse ensarilhado com a malta que vai para o Corte Inglês mas até nem por isso. Ou seja, foi bom. Almoçámos na esplanada. Eu comi o Brás de Pato com courgette que nunca perco quando lá vou. Depois, bolo de chocolate.
Ao Lanche de Natal, já de regresso ao contexto profissional, comi bolo-rei e dois pequenos suspiros. Ao jantar, tarte de gila. Portanto, ainda não foi o natal propriamente dito e já vou com quilos de açúcar de avanço.
Mas, dizia eu, Gulbenkian. Almoço na esplanada. Um sol bom. Tão bom. Eu disse: Sinto-me de férias. E é verdade. Cada pequena escapadinha me sabe a turismo e, se estiver sol e estiver em contacto com a natureza, é como se o city break fosse em pleno paraíso. (Exageros meus, claro, mas é assim que sou). Depois os livros. Feira do Livro na livraria da Gulbenkian é perdição e da boa. Preços de big saldo. Um gigante sobre azulejaria no sec. XVIII, outros com a Gulbenkian em factos e números desde 1956 até 2000. E mais dois. E alguns Colóquios de Letras antigos mas sempre actuais.
A alegria ilógica e boa de trazer livros. E o sentimento derrotado de saber que é impossível conseguir lê-los todos. Ouço: Mais livros para se juntarem a todos os outros que estão por ler? Penso que é verdade mas respondo: Mesmo que apenas me limite a folhear, já me chega, já é bom.
Penso mas não digo: Com dois pontos, traça-se uma recta, com três um plano. Com quatro notas uma sonata. Com duas palavras, uma frase, com três uma história.
À chegada fui, de novo, ao supermercado. Em termos de abastecimento, acho que já praticamente está feito. O meu filho vai ao talho e trata do resto.
Jantámos na praia. Depois quis caminhar no paredão rente ao mar mas o meu marido disse que estava gelado, que não fazia sentido àquela hora e com aquele frio andarmos ali. Não concordei mas ele perguntou: 'Vês mais algum maluco a andar por aqui?'. Não quis saber porque me apetecia mesmo largar a pele, deixar o peso dos últimos dias ali à beira-mar. Mas, pronto, demos meia volta, retrocedemos pela vila que sempre estava menos frio.
O chão da sala continua com os envelopes de fotografias, as molduras, agora mais os livros de hoje. Não consegui fazer nada ao chegar a casa. Tenho tanta coisa para fazer nestes dias que já combinei que amanhã vou ficar a dormir até mais não poder. O meu marido, que se habituou a levantar-se por volta das seis e picos, diz: 'Bela decisão, metade do dia logo à vida'. Tento explicar-lhe que lá por ele ser diurno e eu noctívaga isso não quer dizer que ele esteja certo e eu errada. Mas sei que sim. A nutricionista também veio com a conversa do ritmo circadiano e mais umas hormonas que precisam de descansar e da limpeza metabólica que rebéubéu pardais ao ninho que é feita durante o sono e que o sono para ser do bom deve ser de noite e não de dia. Paciência. Nasci assim, muito distante da normalidade, com vontade de trilhar caminhos imperfeitos.
E isto já para não falar que ando com esta aqui a trabalhar dentro de mim: 'o tratador de pinheiros'. Com isto, que não me sai da cabeça, eu construía uma história. Ando com sono, com mil coisas e mil maçadas mais os mil afazeres de natal e, agora também, com um homem misterioso que teima em vir ter comigo. Diz que é tratador de pinheiros. Fico a pensar: tratador ou cuidador? Tenho vontade de sorrir e de lhe perguntar: não será, antes, um encantador de pinheiros? Mas não lhe pergunto porque ele não existe.
Como não sei que título dar a este post, acho que vou usar isto.
E o mais estranho é que sei como ele é, e sei como é a sua voz. E sei como ele anda. Um dia que tenha tempo e que me lembre conto-vos. O estranho caso do encantador de pinheiros. Existe apenas na minha cabeça mas é real como alguém de verdade.
Não sei se coisas assim também acontecem convosco. É uma coisa tão misteriosa e, ao mesmo tempo, tão boa...
Só para dizer que hoje em casa estava mais frio do que lá fora. Agora, aqui nesta sala, já não. A madeira já crepita na salamandra. Podíamos acender a lareira na outra sala, na sala grande que fica a meio da casa, mas não vale a pena, só cá estamos os dois e, se não estamos na rua, estamos maioritariamente nesta saleta que dá para o sol e onde o calor da salamandra basta. Se cá estivesse mais gente e se tomássemos as refeições na sala de jantar, então, acender-se-ia também a lareira.
Lá fora, ao sol, está morno e húmido mas o céu está a toldar-se. Neste momento, está cá um senhor que veio pôr uma porta nova numa casinha. Pedimos-lhe sempre que faça os arranjos quando cá não estamos mas ele prefere vir quando tem companhia. Quero pedir-lhe que, proximamente, arranje uns canteiros que estão a rebentar tal o corpo que deitaram os cedros, mas o meu marido não está nada a favor, diz que isso 'é a maneira do gajo nunca mais de cá sair'. Mas têm que se arranjar.
Esta noite, dormi que foi um regalo. Acordei às dez e tal, à larga na cama, e ouvi logo o barulho da roçadora lá em baixo. Diz que se levantou às sete para dar cabo do mato. Até tremo. Com os óculos protectores postos ainda menos distingue o tojo do alecrim e ainda menos detecta pés de pinheiro que deveriam ser preservados. Paciência, não posso andar sempre atrás dele (nem ele quer).
Quando fui ver, já ele tinha dado um desbaste considerável. Comprou um disco que esfarela o que corta e que, portanto, dispensa que se recolha o mato cortado pois fica tudo relativamente desfeito.
Cortou tanto que agora, apesar de ter umas luvas protectoras, tem uma bolha nas mãos.
Para o almoço fiz bacalhau com todos. Soube bem.
A minha mãe alertou para a tempestade Ana, diz que deveríamos sair hoje de cá para amanhã não a apanharmos pelo caminho. Não sei. Talvez. Está-se aqui tão bem que é pena não ficarmos para domingo.
O meu marido diz: 'Um dia que um gajo se reforme, aqui tem sempre que fazer'. Concordo: entre desbastar, cortar, limpar, serrar, varrer, arranjar, pintar, caminhar, fotografar, dormir uma sestinha, preparar as refeições, ler, escrever no blog, fazer tapetes de arraiolos, ir às compras, dar uma voltinha, etc, etc -- pouco tempo deve sobrar para usufruir de algum tédio que aflore. Ele diz: 'A deitares-te às horas a que te deitas, claro que tens que dormir a sesta'. O remoque do costume. Paciência: é o que é. Nem toda a gente consegue ter o ritmo dele que é adormecer por volta das onze e tal e acordar antes das sete. Mas acrescento: 'E podemos ter uma hortazinha'. Ele responde: 'Não inventes'. Acrescento: 'E galinhas'. Mas depois lembro-me: 'Tinhas era que te instruir para conseguires matá-las quando fosse o caso'. Responde: Sim, sim. Vai esperando'. Ainda faltam uns quantos anos mas começa a bater esta vontadezinha de nos libertarmos das gaitas maçadoras de uma vida de trabalho de sol a sol -- a aturar toda a espécie de crises e a arcar com responsabilidades para as quais, muitas vezes, nem temos todos os meios para as resolvermos -- para nos podermos entregar à simplicidade de uma vida saudável no campo.
Mas, enfim, vamos andando. É tudo uma questão de irmos conseguindo equilibrar as coisas.
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Já agora, a propósito na necessidade de mantermos o equilíbrio, permitam que partilhe convosco:
Miyoko Shida Rigolo e o seu notável exercício de equilíbrio
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As fotografias foram feitas hoje in heaven e foram alteradas no LunaPic, por influência da sempre inspirada Gina.
Como puderam ver e ouvir lá em cima, continuo com a extraordinária menina que compõe, toca violino e piano e canta como se fosse gente grande e como se não houvesse amanhã: Rondino in Eb maj. composto por Alma Deutscher.
Por vezes o grande portão está coberto de cachos de glicínias lilases, outras vezes está sob um tecto dourado de florzinhas amarelas das tipuanas que o ladeiam. Agora nada disso: agora está nu. Do lado de dentro, apenas se vêem as folhinhas que sobram nos choupos do outro lado da rua.
Os aloés arborescens começam a formar os seus foguetes de natal. Não tarda, estarão floridos, incandescentes. Já apontam ao céu a sua gloriosa erecção mas ainda ocultam a voluptuosidade rubra que ostententarão por altura das festas. Fotografá-los-ei de novo, nessa altura, como sempre faço, pois é uma forma de aqui ir assinalando a passagem do tempo. Vivemos em ciclos, adoráveis ciclos de nascimento, jubilosa primavera, matura idade com frutos carnudos, outonal suavidade, folhagens douradas, depois a invernal frialdade e, logo, de novo a primavera e tudo se repetindo -- mas inexoravelmente caminhando na direcção da terra da qual nascemos e à qual todos regressamos.
Caminho. Feliz. Um casaco quente, um cachecol de lã. Muito frio. Uma névoa branca a envolver tudo. Os pássaros estão doidos de alegria. As árvores estão cheias deles. Não os vejo mas ouço-os e, ao contrário de outros dias em que, mal me sentem, logo partem numa revoada inquieta, hoje não, hoje continuam a cantar. Têm a inteligência de saber preservar o prazer do momento.
As árvores estão muito bonitas, muito verdes. Os troncos belíssimos. Ando em volta deles, encantada. A suave aragem, pesada de humidade, faz oscilar a pele seca que oscila, as ramagens que querem esvoaçar. Cheira a bosque em estado de imaculada pureza.
Não chove de forma evidente. Talvez tenha chovido de noite pois encontro algumas poças de água na qual se refecte o céu, as árvores, talvez o espíritos dos poetas invisíveis que aqui habitam. Deve ser esta fonte de vida que traz tanta alegria aos pássaros. Agora é apenas uma neblina que deixa a terra macia e os ramos gotejantes. Por onde passo, vou espreitando as gotas cristalinas que decoram os pinheiros de noël. Fotografo. Sei que um dia vai ser possível captar também os cheiros e divulgá-los como hoje se podem divulgar as imagens e os sons. É que apenas com essa outra dimensão conseguerei transmitir a sensação boa com que este meu pedaço de natureza me envolve.
Mas encontro mais decorações de christmas. Bolinhas encarnadas dispostas em arcos e grinaldas enchem o campo de espírito natalício. São as bagas da piracanta. Há-as em amarelo torrado e em encarnado. Tão bonitas.
Continuo a caminhar devagar. O canto dos pássaros pontua o silêncio. Tão bom este silêncio. Cobre-me os sentidos de paz. Esqueço-me do que não gosto. O mundo, nestes momentos, é, para mim, todo assim: um lugar de paz, de silêncio, um refúgio de aves cantoras.
A terra está fofa. A folhagem e a caruma estão húmidas. O campo está verde e pleno de vida. As bagas outonais que guardam ainda as cores dos bem recentes dias de calor vão-se tingindo de púrpura. Não tarda -- com os crescentes frios, com as vindouras chuvas -- apenas os verdes, os quase azuis, os cinzas e brancos das rochas, ocuparão o espaço. Oa pássaros abrigar-se-ão, então, nas copas mais densas.
A entrada das grutas, em especial a da gruta grande, estão cobertas de heras. Lá dentro deve estar a temperatura adequada aos abrigos e, imagino, lá dentro os coelhos, talvez os gatos se aninhem, protegendo-se dos maiores frios. Talvez raposas. Nunca vi nenhuma mas, como já contei, o vizinho diz que, por aqui, as há.
À medida que vou andando, vou reparando que aqui tudo está mais coberto de gotas de água, como se uma nuvem tivesse descido e as plantas e eu estivessemos agora respirando a chuva, dentro da bolha de tule branco que parece ter descido sobre estes caminhos.
E uma surpresa: de sob uma rocha está a nascer um feto. Não sei como foi ali parar. Surpreendo-me com a transformação que se tem gerado neste pedaço de terra, antes árido e pedregoso e agora assim, frondoso, fértil. Talvez um dia aqui nasça um rio e se forme um lago. Talvez depois, também, espontaneamente, apareçam peixes.
Uma vez, num pequeno tanque, apareceu uma rã. Não sei de onde veio e não sei que magia é esta.
Só as laranjeiras estão tristes. Têm laranjas, sim, e laranjas bem doces, mas as folhas estão fracas, amareladas. Algumas parece terem entrado em declínio. Isso entristece-me. Penso que foi dos calores extremos de verão. Aqui nada é tratado, tudo é genuíno. Mas talvez devessemos acautelar as fragilidades das árvores de fruto.
Gosto das cores e dos sabores das laranjas, gosto do odor crítico que por aqui paira e gosto da delicadeza dos perfumes das flores das laranjeiras. Não quero pensar que poderei perder esta parcela de prazer.
Para o jantar fiz frango no forno. Estava muito bom. Aqueci ao máximo o forno antes de introduir o tabuleiro. Cá fora, entretanto, preparei-o: um fio de azeite no fundo, salpicos de sal, folhas frescas de louro, depois a metade do frango. Por cima, mais umas pedras de sal, alhos laminados, mais louro fresco e ramos de alecrim acabado de colher. Reguei com mais um fio de azeite. Quando introduzi o tabuleiro, baixei para 160º e, logo que vi o frango alourado, baixei para 100º. Depois de pronto, ainda ficou no forno, mas agora a 60º. Deve ter estado, ao todo, umas três horas. Estava saboroso, ultra macio, suculento. Acompanhei com legumes que cozi: uma cebola, uma batata doce, uma cenoura, uma mão cheia de feijão verde. Para sobremesa, dióspiro a rebentar de madureza e doçura. Comprei a fruta na senhora que tem uma tenda à beira da estrada.
Agora estou na sala, a salamandra ao rubro, um calorzinho muito bom. A lenha e as pinhas são de cá. Há alguns anos que não precisamos de comprar lenha. Alguns troncos trazem um perfume doce e bom que, com o fogo, se converte em bem-estar e memória. Está-se muito bem aqui. O sono começa a chegar-me mas está a vir devagarinho e eu gosto de lhe sentir essa subtileza. Tão bom.
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Fotografias de hoje, in heaven
Lá em cima: Slow movement from Alma Deutscher's new Piano Concerto. This is the 2nd (slow) movement from Alma's new piano concerto, which she premiered this summer in Austria with the Vienna Chamber Orchestra.
Alma Deutscher: piano concerto in E-flat major (composed 2017) 2nd movement: Adagio Vienna Chamber Orchestra, Joji Hattori conductor. Alma Deutscher, Piano