Presumo que aquilo do Marcelo ter pontos em comum com o seu antecessor -- essa ilustre figura da história portuguesa, o marido da Dona Maria Cavaco -- passe por aquilo de alguém ter que nascer mil vezes para ser mais honesto que ele. Por isso, nada do que adiante se dirá nem o título do post permitirá concluir que ponho em causa a honestidade e a transparência do nosso ubíquo e hiperactivo Presidente. Não.
Já disse o que tinha a dizer sobre esta conversa dos familiares e digo mais: toda esta areia é coisa com a cara do Rangel. Poeira, baderna, injúria, fofoca, intriga, permanente cacarejo -- é com ele. Conhecemos Rangel há tempo de mais para podermos ainda alimentar alguma esperança de que um dia seja mais do que isto. Não será. Rangel é daquelas figuras irrelevantes e cómicas que atravessam a política. Rangel não é para ser levado a sério.
E Marcelo, com esta sua borbulhante maneira de ser, sempre a querer protagonismo, sempre a querer cavalgar qualquer onda, em vez de se portar como um Presidente a sério, moderado, ponderado e lúcido, em vez de desdramatrizar, em vez de introduzir racionalidade na conversa, não senhor: acelera o passo e resolve tomar a dianteira da demanda populista. Mas, como sempre que é tomado pela suprema ânsia de ser omnipresente, omnisciente e omnipotente, tende a dar passos em falso. Foi o que, uma vez mais, aconteceu. Resolveu armar-se em legislador e, para dar o exemplo, não as mediu:
Não pode o Presidente da República nomear como pessoal referido no número 1 do presente artigo, ou seja, para a Casa Civil, Casa Militar, o Gabinete, o Serviço de Segurança, o Centro de Comunicações e o Serviço de Apoio Médico, o seu conjuge ou equiparado, algum parente ou afim em linha reta até ao 6º grau em linha colateral, adotados ou qualquer outra pessoa sua representada, por si ou por seu conjuge, na situação de adulto acompanhado, ou com quem viva em economia comum
Ou seja, ninguém escapa: só se for cão ou gato. Ou galinha.
E se isto, ainda por cima, inclui afins, equiparados, adoptados, pessoas representadas, amancebados, e isto em linha recta, oblíqua ou colateral, então esqueçam.
E daí eu concluir que, de cada vez que alguém quiser convidar alguém para algum cargo seja onde for, terá que mandar investigar se há algum ponto de semelhança entre as cadeias de DNA e nomear uma equipa de historiadores e espiões que verifiquem ligações clandestinas no século actual, passado ou ainda mais recuado. Já ouvi falar em árvores genealógicas mas isso não serve pois isso não abrange toda a panóplia de afinidades que será sinónimo de cartão vermelho.
Um nonsense. Um perfeito nonsense.
O mundo está a cer cilindrado por populismos com a ajuda de gente descerebrada que a única coisa que sabe fazer é parir fake news e eu fico assustada quando verifico que isto não acontece só aos outros, aos poucos vai acontecendo também por cá.
E custa-me um bocado que uma pessoa inteligente e responsável como Marcelo Rebelo de Sousa em vez de se portar como um esteio de um edifício frágil (como é a democracia) se ponha a cavar um fosso no qual inevitavelmente cairão tantos bons democratas, tanta gente válida e honesta.
Brinco quando pergunto se ele terá participação em laboratórios que fazem a sequenciação de DNA mas não brinco quando digo que me decepciona e preocupa quando lhe vejo atitudes bizarras e inconsequentes como estas.
Receio que nas próximas presidenciais não se perfile grande alternativa mas, se Marcelo continuar nesta sua deriva (que o leva a andar de velório em velório, de acidente em acidente, de inauguração em inauguração, de comentário em comentário e até, segundo li, até a fazer selfies no velório da Dina), terei que pensar bem antes de tomar a minha decisão de voto.
Receio que nas próximas presidenciais não se perfile grande alternativa mas, se Marcelo continuar nesta sua deriva (que o leva a andar de velório em velório, de acidente em acidente, de inauguração em inauguração, de comentário em comentário e até, segundo li, até a fazer selfies no velório da Dina), terei que pensar bem antes de tomar a minha decisão de voto.
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James Turrell, nos antípodas de Marcelo
Juntei imagens de alguns trabalhos de James Turrell para que o post tenha algum apontamento de beleza. Claro que, sendo tudo tão relativo, haverá quem não veja qualquer beleza nisto. Mas nunca ninguém conseguirá ser sempre consensual e, de resto, quem nivela tudo por baixo para que tudo o que diz ou faz apareça como consensual são os populistas, raça que abomino. Eu arrisco expor os meus gostos e, portanto, arrisco não agradar a todos.
Haverá quem fique na história pela emoção cujos trabalhos sabem transmitir, pela beleza que sabe procurar e fixar para todo o sempre. E há os que gostariam disso mas que se perdem no frenesim com que tentam agradar, deitando tudo a perder. James Turrell, com as suas construções que entrelaçam luz e espaço e que impressionam pela sua aparente simplicidade, faz parte do primeiro grupo (em meu entender, claro)
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