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terça-feira, novembro 26, 2024

No 25 de Novembro dou conta do que almoçámos a 24: comida de tacho com as cores de Outono

 

Uma vez que não fui eu que cozinhei, não partilho a  receita uma vez que não sei pormenores. Contudo, como o Chef foi o meu filho, há alguns aspectos que consigo referir:

1 - A comida foi cozinhada em tacho de ferro fundido, no forno, um tacho grande, fundo e muito pesado. 

2 - Primeiro, as carnes com cebola e abóbora, uns minutos com o forno ao máximo. Depois, creio que duas horas ou um pouco mais, a 160º.

3 -  Do que sei, 5 kg de carnes (porco e vaca), cebolas, couve chinesa, abóbora pequena com a casca, batata doce roxa e maçarocas de milho. Os legumes terão entrado mais no fim, quando o forno estava desligado, depois de entalados cá fora.

4 - O tacho sempre tapado. 

O que posso dizer é que estava delicioso. Comida de conforto. Na fotografia não se vê o molho que, no fundo, era constituído pelos sucos que os ingredientes foram deixando enquanto cozinhavam. Saboroso e saudável.

Para a sobremesa, a Chef Doceira (mulher do Chef 'de salgados') fez arroz doce com leite de amêndoa. Lamentavelmente não há fotografia. E, neste caso, também não sei a receita mas creio que será equivalente à que usa o leite de vaca. Bom. Como o que sobrou ficou cá em casa, agora estou a dar cabo da dieta (que, em boa verdade, também nunca existiu...). Estou eu e está o meu compagnon de route que, em tempos, não gostava de doces...

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Sobre as comemorações do dito 25/11 nada posso dizer pois tive mais que fazer mas quem viu disse-me que uma senhora que ia a acompanhar o marido ia vestida como se fosse a um casamento em Espinho. Também fez referência a um outro aspecto, algo cómico, mas prefiro não falar nisso pois parece-me tão improvável que receio não ser justa na descrição e pecar por defeito. E não me perguntem mais nada sobre o 25 do 11 de 2024 pois não faço ideia nem do que disseram, nem do que fizeram: não vi, não ouvi, não cheirei, não inalei.

segunda-feira, novembro 25, 2024

Sempre estou para ver como é que os totós de serviço vão comemorar o 25 de Novembro...
E, já agora, a minha memória desse tal dia dos idos do século passado

 

A esta distância o que me ocorre é que nessa altura a gente ainda nem sonhava que haveria de vir o dia em que a nossa vida, em especial quando atravessamos momentos de alguma atribulação, seria bem mais facilitada por termos outros meios para nos comunicarmos.

Sem telemóveis, nem sei como era possível a gente aguentar-se em cima do arame... Aguentávamo-nos mas, caraças, por vezes com que dificuldade...

Num post lá muito mais para trás, já o contei: namorava um, que era o namorado oficial, um pouco mais velho que eu, que, apesar de ainda estar a estudar, já dava aulas, andava a maior parte do tempo com outro de quem estava cada vez mais inseparável, e, para apimentar a coisa, tinha um amigo, colega, com quem estava sempre que não estava com qualquer dos outros dois e de quem esses dois tinham imensos ciúmes. Qualquer dos dois, a maior parte das vezes, ao chegarem ao pé de mim, encontravam-me em animada conversa ou a almoçar com esse colega, ficando enfurecidos comigo e lançando olhares furibundos ao meu amoroso amigo. Chegavam até a ser desagradáveis com ele, o que me arreliava bastante.

Mas com quem eu tinha que fazer ginástica a sério para não se cruzarem era com o namorado oficial e com o que queria roubar-lhe o lugar. Num dia em que se cruzaram, e foi de longe, o primeiro manifestou vontade de ir à cara ao segundo e só porque o ameacei de acabar o namoro de imediato é que não houve ali tareia a sério. 

O jeito que umas mensagens de aviso teriam dado. Assim, andávamos às cegas, correndo riscos de todo o tamanho.

Um filme.

O dia 25 de Novembro de 75 era um dia que, em termos de agenda, era complicado pois almoçava com o meu colega, grande, grande amigo, depois ia estar com o namorado e, a seguir às aulas de inglês no British Council, ia estar com o segundo.

Ora, com aviões no céu, com aquele ambiente de caldinho, receios de que a coisa ainda fosse dar para o torto, fiquei a achar que o mais certo era que não desse para ser um dia 'normal'. Mas a chatice é que não tinha como avisá-los. O meu amigo sofria com as minhas tangentes e, por ele, eu acabava era com os dois e, embora nunca o tivesse verbalizado, eu intuía que ele achava que eu ficava bem era com ele. 

Resolvi que o melhor que fazia era ir para casa (a casa dos meus pais) pois ir para a residência na Rua de Artilharia Um, com o quartel ali ao lado, era capaz de não ser lugar muito tranquilo.

Agora como combinar isto com eles, avisá-los de que os encontros habituais ficavam sem efeito, e, ao mesmo tempo, garantir que não se cruzavam uns com os outros?

Ainda liguei para o telefone fixo da casa do segundo a pedir para a mãe avisar o filho para não ir ter comigo pois eu ia para casa dos meus pais mas a amável senhora respondeu-me que ele não estava em casa nem devia lá chegar senão às tantas da noite. Ou seja, o mesmo que nada em termos de comunicação. Com o oficial, então, não tinha mesmo como comunicar.

Lembrei-me, então, de deixar um papel no portão da Faculdade (pois o meeting point geralmente era na cantina, local onde, por haver mesas e cadeiras, era também local de estudo, de encontros variados). Nesse papel dirigia-me a qualquer deles pois apenas escrevi a inicial do nome deles que, por sinal, é a mesma letra. Aí disse que ia para casa dos meus pais, pedindo que 'ele' me ligasse para lá. Assinei com a inicial do meu nome. Qualquer deles, perceberia que o recado era para ele.

Quem fez questão de me acompanhar foi o meu colega. Achou que eu não devia andar sozinha. Não sei se ele temia que houvesse bombardeamento ou se, simplesmente, era cavalheiro e fofo. Queria ir acompanhar-me até casa dos meus pais. Mas, com medo que algum dos outros dois malucos lá resolvesse ir e ainda dessem de caras com ele, impedi-o. Aí, sim, haveria guerra a sério.

Depois disso, só me lembro de ter ido ter à escola em que a minha mãe estava a dar aulas como se nada se passasse. Estava na sala de aula com ela e com os alunos quando apareceu uma Contínua (naquela altura chamava-se assim) a dizer que estava um rapaz à minha procura. Lembro-me bem do susto que apanhei, sem saber qual deles era e com medo de que, às tantas, ainda aparecessem os dois e armassem barraca justamente na escola onde a minha mãe trabalhava.

E o estúpido disto é que não consigo lembrar-me de qual deles é que foi. O meu marido também não se lembra. Cá para mim foi ele mas agora já não tenho como saber. 

E a ideia que tenho é que, como afinal não houve guerra e eu já não passava sem a adrenalina daquela liberdade, que era tão boa, e  sem aqueles amores, no dia seguinte de manhã voltei à capital para a vida 'normal' e agitada que, na altura, era a minha. 

Quanto ao resto, para falar verdade, mal dei por isso. Havia liberdade antes e houve liberdade depois, a liberdade do 25 de Abril, e a liberdade é uma coisa maravilhosa. E o amor também. 

E o resto é conversa.