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segunda-feira, setembro 07, 2026

Como é a casa de uma feminista?

 

Durante muito tempo não quis pensar em mim como sendo feminista. Parecia-me redundante. Claro que era, sempre fui, ferozmente defensora da igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, da igualdade de direitos. Mas sempre senti aversão a clubes do bolinha. Lugares só para mulheres, tal como lugares só para homens, é coisa que me parece absurda. Nunca fui capaz de frequentar 'retiros' só de mulheres, causam-me urticárias clubes de leitura só de mulheres, projectos só de ou para mulheres. Ou só para homens. O mundo é plural e as suas múltiplas derivações também o devem ser.

E sempre me pareceu evidente que o mundo caminharia para a rejeição de privilégios (de classe, de género, de 'raça'), para uma rejeição da homofobia, da xenofobia, para uma rejeição de coisas canhestras e ridículas como a defesa de que o papel da mulher é em casa, a tratar de tudo para que a vida do marido seja mais feliz. Tudo isso me pareciam coisas do passado e que já nem valia apena andar a repisar coisas que tinham passado à história.

Só que não, não passaram à história.

Começam a reaparecer saudosismos, ignorâncias, regressões culturais e civilizacionais. Parece-me impossível que isto esteja a acontecer, mas está. Como se uma coisa que se considerava morta e enterrada, começasse a reaparecer de debaixo das pedras, uma coisa com ar meio decomposto, meio infecto.

Quando andei no liceu, havia disciplinas extra curriculares, para quem o quisesse. Como sempre quis tudo, a minha curiosidade era ilimitade e a minha disponibilidade para me entusiasmar era insaciável, inscrevia-me em tudo e mais alguma coisa. Uma em que me inscrevi, porque me disseram que a professora era fixe, foi Lavores Femininos. Supostamente seria para ensinar as raparigas a serem boas donas de casa e boas mães de família, mas disseram-me que não e, por isso, fiquei ansiosa por frequentar. Aprofessora, por sinal casada com um conhecido general, tinha mente arejada. As aulas eram momentos de animada conversa. Foi a ela que ouvi pela primeira vez que o Hitler tinha um único testículo e que, por se sentir complexado, se terá desforrado e exercido tão gratuita e inenarrável violência. Falávamos de tudo, alargávamos horizontes. Portanto, já nessa altura, e há tanto tempo que isso foi, a ideia que havia é que nós, raparigas, podíamos fazer o que quiséssemos. Eu, pelo menos, sempre assim pensei.

Pensar que aos dias de hoje há anormais, perfeitas anormais, que vêm defender o contrário é quase incompreensível, coisa de gente ignorante e burra.

Há dias ouvi uma dessas descerebradas, certamente também psicologicamente perturbada, descrever as feministas como mulheres que viviam para agradar ao patrão, desprezando a vida familiar. Felizmente nunca estive frente a frente com uma dessas anormais, senão haveria de ter muita dificuldade em controlar-me. No mínimo, levantar-me-ia e virar-lhe-ia costas pois com gente estúpida não vale a pena perder tempo a explicar-lhes que tudo o que dizem é mentira, é pura estupidez.

Morreu há dias uma das feministas mais conhecidas, Gloria Steinem. Sempre que falava sorria. Muito longe de quezílias ou discussões estéreis, limitava-se a falar do que importava. Não perdia tempo a rebater A ou B ou a deixar-se submergir pela espuma dos dias: a sua causa era a da defesa dos direitos das mulheres e era nisso que se concentrava. Mulher de cultura mas também de sociedade, elegante, com um savoir faire que ilustra bem que ser feminista não é ser 'radical' ou 'pouco feminina'. Elegante, sempre bem vestida e bem penteada, Gloria Steinmen tem, neste vídeo um colar que eu não me importaria nada de ter igual. E a pulseira também é bonita.

Aqui, ela mostra a sua casa, um apartamento que começou por ser de um piso, depois comprou o piso de baixo e uniu-os por uma escada interior. E tem um jardinzinho, por sinal com a vedação pintada numa cor de que gosto muito. Se um dia repintar a minha casa, esta é uma das cores fortemente candidatas, talvez um pouco mais clara do que a dela.

É uma casa incrível, com muito bom gosto, com muito conforto, com peças interessantíssimas. Claro que já sabem que o meu lado prático me faz sempre pensar no trabalho que dará limpar o pó daquilo tudo. E numa outra coisa: eu adoro tapetes, almofadas, mantas, cortinas. Mas acumulam pó. Tem que se aspirar muito bem, sacudir, lavar com frequência. Senão podem causar alergias. Vou ser muito sincera e temo que me considerem também muito estúpida mas, ao ver a casa, pensei: não é a casa mais saudável e segura para uma pessoa com mais de noventa anos. É certo que tem o jardinzinho, mas ela diz que pouco o frequentava. E vê-se, ao lado dela, uma bengala, por sinal bem engraçada, e isso significa que já tinha alguns problemas de mobilidade. Ora tanto tapete...

Mas o que eu penso ou deixo de pensar não interessa, o que interessa é a diversidade e beleza de tantos objectos que ela tem, é o conforto daqueles sofás, são os tecidos e as cores, são as pinturas, são as soluções engenhosas (como a do quarto extrra). 

Para quem não atina bem com a língua inglesa, relembra que dá para pôr legendas em tradução automática para português.

Por dentro da casa histórica de Gloria Steinem em Nova Iorque | Architectural Digest

A AD tem o prazer de receber Gloria Steinem para uma visita guiada à sua casa em Nova Iorque, onde vive há muitos anos. O ícone feminista mudou-se para o seu duplex num edifício de tijolos do século XIX em 1968, após o estrondoso sucesso da sua reportagem de 1963, "A Bunny's Tale", que expôs o caso do Playboy Club e impulsionou a sua carreira jornalística para novos patamares. Nos 58 anos em que Steinem viveu na sua casa, esta tornou-se a base perfeita para fazer e testemunhar a história. Foi em 1971 que a sua sala de estar recebeu mulheres dos media e da política, e onde nasceu a revista Ms. A casa de Steinem é profundamente pessoal, repleta de memórias fascinantes da sua incansável carreira e ativismo – um espaço luxuoso e colorido, onde é fácil sentir-se acolhida e instantaneamente em casa. Steinem não pretende deixar de receber mulheres influentes tão cedo.


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Desejo-vos uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira

quinta-feira, outubro 23, 2025

Serão os homens uns trogloditas? Uma ameaça para as mulheres?

 

Nunca gosto muito de falar em cima do acontecimento. Não sou repórter. Prefiro falar em abstrato, sobre situações genéricas, indefinidas. 

Além disso, neste caso, estivam presentes pessoas conhecidas. Não quero ser indelicada ou inconveniente.

Em geral, posso até dizer que até gostei de lá estar. Gosto sempre de estar em lugares. Aproveito sempre nem que seja numa perspectiva de observação. Aquilo ali era bem uma amostra de uma certa sociedade. Não direi jet set, até porque estas pessoas não gostam de pertencer a esse género tão mal afamado. Direi antes bcbg (bon hic bon genre). A beautiful people da linha (Estoril-Cascais) ou os agro-betos (os que gostam de se afastar para o campo). As mulheres são globalmente iguais entre si. Fisicamente e na maneira de vestir. Os homens igualmente iguais entre si, identicamente no aspecto e no trajar. As vozes também iguais.

Tenho a certeza que eu não sou igual e que a minha voz é o oposto (quem me acompanha no Instagram, sabe bem que não tenho voz grossa nem o meu registo é histriónico). Mas não que faça para ser diferente: simplesmente, não conseguiria, mesmo que quisesse, ser assim. E não que tenha algo contra estas pessoas. Não. Simplesmente, quando num grupo assim, sinto-me totalmente a ovelha que não encaixa naquele rebanho.

Mas não vou entrar em questões objectivas. Mais depressa, daqui por uns tempos, repescarei alguns episódios desirmanados como o da jovem companheira de um conhecido actor que se descalçou e se sentou sobre as pernas cruzadas ou o incrível bronze de uma comentadora da nossa televisão. Mas mais tarde, agora não.

Hoje quero apenas trazer aqui o meu desconforto sobre o que lá foi dito. Não referirei alguns aspetos mais pitorescos -- realmente insólitos e divertidos --, mas, sobretudo, o tema que foi lançado: no fundo o da guerra dos sexos.

Referiram as oradoras, em especial a principal, que, desde pequenas, as mulheres são ensinadas a tomar cautelas com os homens pois são animal predador. Ia dizer que, segundo ela, são também animal insensível mas a tese dela é que não são insensíveis de todo pois há um tema ao qual são bastantes sensíveis: ao sexo. Segundo ela, salvo disfunções eréteis, estão sempre prontos para o sexo. Mais: diz ela que são relativamente indiferentes a outros atributos (nem ligam muito à beleza ou ao companheirismo ou ao que for) desde que se lhes proporcione a possibilidade de ter sexo.

E toda a dissertação, até a do senhor que também falou, andaram à volta disto: os homens são violentos, os homens fazem coisas que molestam as mulheres, e, por outro lado, as mulheres aprendem desde sempre a sujeitar-se à vontade dos homens, ou, se vão na rua, a temer os homens. E, mesmo em casa, a ter cuidado com o olhar do pai.

E depois afirmava ela que mulher que diga que não tenha tido estas experiências é porque não é mulher, é porque não tem vivido.

Portanto, tendo ouvido dizer isto, fiquei a pensar que, de acordo com esta afirmação dita com tamanha assertividade, não sou mulher. Ou, então, não tenho vivido.

Ora, posso estar enganada mas tenho-me em conta de ser mulher, muito mulher, e ter tido até aqui e ainda ter uma vida bem vivida.

E, no entanto, o meu testemunho é o oposto. Nunca, nunca, em tempo algum, senti qualquer olhar estranho por parte do meu pai, dos meus tios, do meu avô. Nunca, nunca, nenhum colega ou chefe se afoitou a ser inconveniente comigo. Nunca, nunca, nenhum amigo se aproximou ou se insinuou ou tentou o que quer que seja de impróprio comigo.

Poder-se-ia dizer: pudera, feia como uma bruxa, antipática como um animal do mato, como poderia ser diferente? Mas sei que não sou nem tão feia nem tão antipática assim. 

Talvez tenha tido sorte. Mas se todos os homens fossem as bestas quadradas, os trogloditas de que ali se falou, alguns já me teriam calhado na rifa. E não. Nunca.

Mais: constatei ao longo de toda a minha vida que mais 'atiradiças' são as mulheres, mais ousadas, mais destemidas ao darem um passo em frente sem saberem se são bem sucedidas.

Claro que há homens estúpidos, tarados, doentes, atrasados, perturbados e, nesse caso, dado terem fisicamente mais força do que as mulheres, podem ser perigosos. Mas não são todos. São uma minoria.

Os homens, na sua maioria, são boas pessoas, sabem estar, sabem viver civilizadamente, conseguem ter relacionamentos saudáveis. E merecem respeito e carinho. São pessoas de corpo inteiro. Pelo menos, é este o meu testemunho.

quarta-feira, abril 02, 2025

Clara Ferreira Alves e a 'manosfera' - a 'percepção' em vez da estatística
-- Isto para não dizer: a ficção em vez da realidade --

 

Li com algum espanto e até alguma pena o artigo da Clara Ferreira Alves no Expresso, "Manosfera, manual de combate". 

Parece que existe uma manosfera. Sempre existiu, sem ter meios de comunicação tecnoinclusivos ou nomenclatura e sociologia a gosto. Welcome to my world.

No mundo em que nasci, o da expansão económica do pós-guerra, e do nascimento das marchas e lutas dos direitos civis, a violência masculina era um dado adquirido. Nascer mulher era não só nascer imiscuída nessa violência e prisioneira dela como nascer forçada a aceitar essa violência. E considerá-la parte do estádio civilizacional da época. Ou seja, normal.

Começava em casa. O pai, ou pater familias, era o único detentor do poder paternal, do poder financeiro e do poder disciplinador, que exercia com maior ou menor benevolência. A mãe era o polícia bom, o pai o polícia mau, chamado a depor no tribunal do casal sempre que havia a ameaça de desobediência ou rebelião. (...)

Na minha família não havia sevícias físicas, mas a violência verbal do pater familias era assustadora. Era uma violência exercida sobre toda e qualquer liberdade residual que uma rapariga ousasse ter. O mundo estava medido e escolhido para ela. O que podia e não podia fazer era designado desde o nascimento, mesmo quando se aceitava que a rapariga estudasse. E “estudar” num curso dito superior não era assim tão comum. Mais comum era fazer o liceu, o secundário, e a seguir arranjar um emprego, talvez de secretariado, uma posição subserviente, ou de qualquer modo um emprego que implicasse saber datilografia. Escrever à máquina. Na pequena burguesia da época, a capacidade era considerada um trunfo. A seguir, a rapariga casava e o marido teria de ser alguém aceite pelas duas famílias. Depois de casar-se, a rapariga seria mãe e colocar-se-ia numa situação financeira de pura dependência em que era norma aceitar as infidelidades conjugais. (...)

Na escola de repetentes, fui confrontada pela primeira vez com abortos, alunas lésbicas, e as “galdérias”, as raparigas que tinham dormido com rapazes. Pairava uma insurreição na escola, e a violência no recreio era bestial. De besta. Dos rapazes sobre as raparigas. Era uma coisa nova, e foi uma educação. Descobri que fora do estreito círculo feminino, oprimido, a relação entre os sexos era eminentemente violenta.(...)

Ao longo da vida, as situações de violência e discriminação que tive de enfrentar ou sofrer, e foram muitas, não cabem aqui. Assisti a muitas mais. Mesmo depois do 25 de Abril, que mudou tudo e não mudou logo tudo, a violência continuava, exercida muitas vezes na clandestinidade. Como os abortos. Como as violações, nunca reportadas. A posição subalterna da mulher era um dado adquirido e sofrida em silêncio. A trabalho igual nunca salário igual. E continua. 

(...)

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Como escrevi acima, tudo o que aqui leio me espanta. Sou contemporânea de Clara Ferreira Alves. E, no entanto, se eu fizer uma resenha do que têm sido os 'meus tempos' e qual a minha experiência, quer como interveniente directa quer como espectadora, seria totalmente diferente.

O ambiente em que vivi nunca foi violento. Nunca testemunhei violências. Não digo que não houvesse violência. Haveria. Mas da mesma forma que não consigo dizer que eram tempos absolutamente tranquilos, todos eles peace and love, também me parece abusivo retratá-los como um farwest.

Em minha casa trabalhava o meu pai e trabalhava a minha mãe. Opinavam e decidiam de igual para igual. Talvez uma parte significativa das mães dos meus amigos não trabalhasse, até porque era um meio relativamente burguês, mas muitas trabalhavam.

Além disso, todas as minhas amigas desde a infantil, à primária prosseguiram para o secundário. E a grande maioria das minhas colegas de liceu seguiram para a universidade. E há várias engenheiras, gestoras (e médicas e professoras e psicólogas, incluindo de germânicas, e uma escultora e sei lá que mais). Todas escolheram o que quiseram. Se há alguma Secretária, desconheço. Não que isso fosse mau - simplesmente não era regra nem imposição nem coisa nenhuma.

A regra também não era casar, ter filhos e ficar na dependência do marido. Não conheço uma única que tivesse ficado na dependência do marido. E a minha melhor amiga engravidou antes de casar e eu e todas as minhas outras amigas não engravidámos porque tivemos mais cuidado.

O liceu em que andei era misto mas as aulas e os recreios não eram mistas. Contudo, no meu 3º ano, actual 7º, tal como aconteceu com Clara Ferreira Alves, criaram turmas piloto. Mas o piloto traduzia-se em serem mistas. Os melhores alunos, femininos e masculinos, na mesma turma, a turma A. A partir daí o liceu passou a ter um encanto suplementar. Nunca, nunca, nunca, houve qualquer episódio de violência masculina sobre as raparigas. Pelo contrário, eram os tempos da pré-adolescência e depois da adolescência, em que nos encantávamos uns com os outros. Havia sempre alguém que fazia anos e fazia festas em que se dançava, íamos ao cinema, só miúdos, no verão íamos à praia, um grande grupo supostamente vigiados pela mãe e pela tida de uma das minhas amigas.

Depois do 25 de Abril, na faculdade, nunca, nunca, nunca assisti a nenhum episódio de violência de rapazes sobre raparigas. Zero. Eram tempos de maravilhosa liberdade, de afecto, de descoberta.

Comecei a trabalhar aos 20 anos, dando aulas. Quer a nível de alunos e alunas quer a nível do corpo docente, nunca assisti a qualquer violência masculina. Nunca.

Tinha ainda 22 quando me mudei para o ambiente empresarial, indo trabalhar para uma das maiores empresas do País, uma empresa em que a larga, muito larga, a larguíssima maioria dos funcionários, incluindo os dirigentes, eram homens. No transporte para lá, eu era a única mulher. Durante anos só lidava com homens. Nunca fui alvo de violência, desconsideração, desrespeito. Nunca. Sempre ganhei o mesmo que os meus colegas homens. Progredi profissionalmente e em pouco tempo integrei o corpo de dirigentes. Durante muitos anos era a única mulher nas reuniões de gestão. Nunca me senti inferior, inibida ou prejudicada. 

Com o tempo começaram a aparecer mais mulheres em todas as funções, sempre a par e par com os homens. 

Nunca soube de violações mas assisti a vários momentos de assédio e todos eles foram de mulheres sobre homens. E, identicamente, nunca assisti a casos de assédio de homens mais 'poderosos' sobre mulheres em situação de 'inferioridade hierárquica' mas, pelo contrário, a mulheres que faziam de tudo para terem um caso com o doutor, o engenheiro, o director. 

Por isso, se não posso dizer que o artigo de Clara Ferreira Alves é pura ficção ou um disparate sem pés nem cabeça, o que posso dizer é que tendo eu trabalhado sempre em empresas muito grandes, frequentado meios muito diversos e sendo uma pessoa razoavelmente informada, o testemunho que posso partilhar é o oposto.

Sei que há casos, certamente mais do que deviam, até porque deviam ser zero, de violência de homens sobre mulheres -- mas estatisticamente são marginais. E claro que ainda há muitos grunhos, machistas, marialvas, abusadores. Mas são uma minoria. Os que há não chegam para tornar a sociedade, no seu todo, um antro de homens violentos, estúpidos, assediadores, prepotentes.

Uma das coisas que sempre achei nocivas para a sociedade no seu todo é a atitude das mulheres que se colocam no patamar em que Clara Ferreira Alves se põe: a de vítima, de ser inferior ou inferiorizado perante os homens. Em toda a minha vida pessoal e profissional nunca, nunca, nunca me apresentei assim ou me coloquei nessa posição. Nem tal me passou pela cabeça. E tendo chefiado durante quase toda a minha profissional grandes equipas, inicialmente predominantemente masculinas mas progressivamente cada vez mais totalmente mistas, nunca nenhuma pessoa das minhas equipas me acusou de privilegiar uns ou outros em função do sexo. 

O artigo da Clara Ferreira Alves deixou-me, pois, algo incomodada. E a única explicação que tenho para o que ela escreveu é que ela está a deixar-se tomar pela grave e, pelos vistos, contagiosa doença das percepções.

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Desejo-vos uma boa quarta-feira

quarta-feira, dezembro 04, 2024

Maria Teresa Horta na lista da BBC das 100 mulheres mais influentes e inspiradoras
- Uma notícia surpreendente e fantástica --

 

Admiradora que sou de Maria Teresa Horta, considerando-a das melhores poetas portuguesas e uma mulher lúcida, franca, inteligente e informada, claro que fico muito contente.

Transcrevo parte do artigo do Expresso cujo título puxei para título deste post:

A lista "BBC 100 Women" deste ano inclui nomes de pessoas mais conhecidas, como a atriz norte-americana Sharon Stone, a artista britânica Tracey Emin, a sobrevivente do caso de violação em França Gisèle Pelicot e a iraquiana Nadia Murad, vencedora do Prémio Nobel da Paz.

As brasileiras Lourdes Barreto, ativista pelos direitos das prostitutas, e a ginasta Rebeca Andrade e a bióloga Silvana Santos também estão na lista, que teve em conta a imparcialidade e a representação regional.

A BBC salienta que, ao longo do ano, as mulheres "tiveram de se esforçar muito" para encontrar novos níveis de resiliência e enfrentaram "conflitos mortais e crises humanitárias" em Gaza, no Líbano, na Ucrânia ou no Sudão e testemunharam a "polarização das sociedades após um número recorde de eleições em todo o mundo".

A equipa do BBC 100 Woman elaborou a lista com base em nomes recolhidos através de pesquisas e sugeridos pela rede das 41 equipas linguísticas do Serviço Mundial da BBC, bem como pela BBC Media Action. Todas as protagonistas femininas deram o seu consentimento para aparecerem, e não são apresentados por uma ordem específica.

A escritora portuguesa Maria Teresa Horta tem sido amplamente premiada ao longo da sua carreira literária, destacando-se, só nos últimos anos, o Prémio Autores 2017, na categoria melhor livro de poesia, para "Anunciações", a Medalha de Mérito Cultural com que o Ministério da Cultura a distinguiu em 2020, o Prémio Literário Casino da Póvoa, que ganhou em 2021 pela obra "Estranhezas", e a condecoração, em 2022, com o grau de Grande-Oficial da Ordem da Liberdade.

Nascida em Lisboa em 1937, Maria Teresa Horta frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi dirigente do ABC Cine-Clube, militante ativa nos movimentos de emancipação feminina, jornalista do jornal A Capital e dirigente da revista Mulheres.

Como escritora, estreou-se no campo da poesia em 1960, mas construiu um percurso literário composto também por romance e conto.

Com livros editados no Brasil, em França e Itália, Maria Teresa Horta foi a primeira mulher a exercer funções dirigentes no cineclubismo em Portugal e é considerada um dos expoentes do feminismo da lusofonia.

Sendo presença bastamente presente neste meu espaço, aqui fica o link para todos os posts em que falo dela. 

E muitos parabéns à Maria Teresa Horta!

quarta-feira, setembro 13, 2023

Lee e Kate

 

Quando se pensa na falta de abertura que o mundo reservava às mulheres há cem anos pensamos, e bem, que que tomara que isso tivesse acabado. E, no entanto, por racionalmente estranho que possa parecer, ainda não acabou. Não apenas há países retrógrados como, mesmo nas sociedades mais avançadas, ainda há resquícios dessa mentalidade.

E, como se fossem os únicos, não vale a pena pensarmos de imediato em países árabes ou africanos em que a cultura assenta em regimes pouco ou nada democráticos, regimes misóginos, trogloditas. Não é preciso ir tão longe. Claro que por lá é a regra e por cá felizmente já serão ilhas -- mas basta passearmos pelas terras do interior para vermos como é frequente os cafés estarem cheios de homens e como as mulheres ainda têm medo de ser faladas se ousarem sair sozinhas, ir para uma esplanada, andarem a fumar em público ou se concorrerem a trabalhos tipicamente masculinos.

Contudo, foi no século passado, daqui a nada há cem anos, que a bela Lee Miller passou de modelo da Vogue e musa de fotógrafos a fotógrafa de moda e, depois, a corajosa fotógrafa de guerra. A sua vida é extraordinária. 

Afortunadamente, no meio das ortodoxias há sempre quem não se aquiete, quem queira ser o dono do seu destino, do seu corpo -- digam o que disserem.

Lee Miller era linda mas era sobretudo uma inspiração pela sua força, pelo seu querer, pela sua entrega ao prazer do que fazia por gosto.

Capturing Lee Miller (2020) I Official Clip I MetFilm Sales

Vogue model, artist’s muse, fearless war photographer: Lee Miller had many lives. Built on images of Lee and by Lee, CAPTURING LEE MILLER explores a pioneering female artist who broke taboos and defied expectations.

E está prestes a estrear o filme produzido e interpretado por Kate Winslet (a talentosa actriz que recusa o papel de estrela, de diva, de eternamente jovem): Lee. 

É das melhores actrizes da actualidade e, apesar disso, a sua simplicidade é fantástica.

A entrevista que concede à Vogue e que abaixo partilho mostra bem quem é Kate Winslet.

[Nota: Quem não se entenda com a língua inglesa, poderá colocar na opção da autotradução de inglês -> português. Não será um português escorreito mas sempre poderá ser uma ajuda.]

Kate Winslet Talks Ice Baths, Raising Chickens, and Her New Film | Vogue

Lee Miller’s photographs “are amongst some of the most significant historical images ever taken, and people don’t really know that,” says Kate Winslet of the inspiring subject of her forthcoming film, “Lee.” The October Vogue cover star also discusses ice baths, antique tables, and acting in some of the toughest scenes she's ever filmed.


domingo, setembro 03, 2023

Ainda é bom ser rei...?

 

Não me interpretem mal. Não suporto machistas, azeiteiros, parvalhões. Já nem falo em assediadores, muito menos em violadores, caso em que falamos de crime e já nem tanto de costumes.

Mas não me acho uma zinha, sem voz própria, incapaz de me defender nem acho que as mulheres devam ser todas vistas como umas pobre coitadas, indefesas, necessitadas de um coro de virgens de cada vez que algum homem ponha o pé em ramo verde.

Uma coisa são situações de franca inferioridade, seja profissional, social ou, mesmo, mental, em que um chefão malandreco ponha e disponha senão a pobre coitada vai suar as estopinhas. Aí algum apoio será requerido para que a pobre mulher consiga defender-se. 

Mas outra coisa é quando um qualquer macho alfa, extrovertida ou impensadamente, faz um gesto um bocado para além do que os cânones estão dispostos a aceitar. Aí, caraças, acha-se que a mulher não sabe defender-se? Ou que é uma qualquer beijoca ou piada brejeira ou olhar malandro que vai ferir os sentimentos das mulheres? Molestá-las? Traumatizá-las? Caraças.

Qualquer dia os homens ganham medo e, por via das dúvidas, fazem-se eunucos. Que mundo mais sem graça queremos para nós? Está tudo maluco ou quê...?

Que venha, por favor, o Mel Brooks e atire uma pedrada para o charco.






Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde. Bom humor. Paz.

sexta-feira, setembro 16, 2022

Emily em Nova Iorque

 

Não há nada mais comovente do que uma mulher corajosa. Nem há nada mais inspirador do que uma mulher que dá um pontapé para o ar em tudo o que são preconceitos, tabus, baias, e caminha de cabeça erguida e olhar destemido.

Se um homem rompe barreiras e deixa para trás algumas ortodoxias, a ideia que dá é que há nos seus gestos alguma coisa de provocador, alguma beligerância, quase como se quisesse afirmar-se através do desafio, através dos outros.

Se uma mulher avança com orgulho e valentia, quebrando barreiras e enterrando medos e censuras alheias, ela fá-lo por si mesma, por sentir que tem direito ao seu espaço, à sua vontade, à sua liberdade e felicidade.

Emily Ratajkowski tem 31 anos, mede 1,70m, tem um filho e acabou de avançar para o pedido de divórcio. Na sua primeira aparição pública depois desse passo importante na sua vida, Emily surgiu com um look sensual, um penteado desalinhado e ousou a toilette mais impudica do desfile de Tory Burch  em Nova Iorque. 

E eu acho isso uma maravilha. Não apenas gosto do vestuário, das transparências, das sobreposições, das cores mas também da coragem de Emily ao avançar orgulhosa e elegantemente como se estivesse a traçar o seu caminho. E está.

Aliás não foi apenas Emily que vestiu transparências ou sobreposições. Houve outros modelos também bastante bonitos e, mesmo, houve uns outros mamilos que também se afoitaram.

Abençoada liberdade e abençoada coragem. Salve Emily e salve todas as mulheres que não receiam as opiniões censoras ou os próprios medos.


Mas não é apenas na moda que Emily mostra que sabe o terreno que pisa. Emily é uma mulher que sabe o que quer, que empunha cartazes, que eleva a voz, que se arrisca a bem do direito sobre o seu próprio corpo e da defesa da liberdade e da democracia:


Salve Emily!

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Um dia bom
Saúde. Elegância. Coragem. Paz.

sexta-feira, agosto 13, 2021

Las cholitas peleadoras e las cholitas escaladoras
-- um exemplo de libertação no feminino

 

Todos os dias aprendo qualquer coisa. Seja com quem for. Por exemplo, com os miúdos estou sempre a aprender. 

Hoje foi esta que aqui partilho convosco: as cholitas luchadoras. Não foi com os meus pimentinhas mas foi no The Guardian.

Estou espantada com o que estou a ver. Vivendo num meio marcadamente machista, lutando contra dogmas, preconceitos e estereótipos, estas mulheres deram um pontapé em tudo isso e partiram para a acção. Fazem o que querem e ninguém ousa travá-las. Pelo contrário, adquiriram uma projecção com que jamais alguém poderia ter imaginado. 

Transcrevo do Guardian:

Bolivia’s cholitas luchadoras began wrestling in the early 2000s. The women, indigenous Aymara Indians who have traditionally been marginalised and oppressed, took to Mexican-style lucha libre wrestling for mental and physical health – and to stick two fingers up to a culture where wrestling was strictly a male preserve. For many it was also a means of escaping domestic violence. Their choreographed fights in the ring became a dramatisation of day-to-day struggles, all the while adorned in their traditional dress of layered skirts, petticoats and embroidered shawls. Their name, too, subverts and reclaims a term, cholita, that has often been used to demean. But there was also a social and recreational aspect to the wrestling matches that are staged as entertainment, and have grown over the years. Today it’s become a living for many of them, with their fights drawing huge crowds of local people and tourists.
Eu que passo a vida a tentar que os miúdos não se ponham a ver wrestling (porque, senão, tentam reproduzir e correm o risco de se magoarem), desta vez fiquei curiosa. 

Em especial a ideia de que, para além de ser uma libertação a bem da sanidade física e mental, algumas o começaram por fazer para fugirem à violência doméstica parece-me assaz interessante e seria até bom que fosse uma ideia inspiradora para quem sofre violência, física ou psicológica, no interior da sua casa. 


Uma mulher poder virar-se a um patife cobardolas e assustá-lo, ameaçar saltar-lhe em cima, deve ser deveras assustador. Imagino que um zé-ninguém armado em valentão, preparado para dar um par de tabefes numa mulher, pense duas vezes antes de fazê-lo se souber que há sérios riscos de ela o levantar no ar, dar-lhe uns valentes piparotes, acabando a saltar-lhe em cima a pés juntos.

A ideia de que, além disso, isto já é um modo de vida para muitas mulheres parece-me daquelas reviravoltas na sorte destas mulheres que não podia deixar de aqui falar nisto. 

É ver para crer. Contado não se acredita.


Aqui é mesmo o vale tudo, provavelmente até tirar olhos. E o cenário de batalha montado no meio da rua numa zona notoriamente pouco abonada dá bem a ideia de como isto é uma actividade do povo, mais concretamente, de mulheres do povo.. 

Carmen Rosa, cholita peleadora


E aprendi que há também as cholitas escaladoras. Uma lição de força, de libertação, de coragem.

“Cholitas” are Bolivian women with indigenous heritage known for their colorful attire, round top hats and ornate earrings. In the world’s highest capital city of La Paz, Bolivia, 11 Cholitas are on a mission to overcome sexism and discriminatory attitudes and climb mountains in their traditional garb. Led by Jimena Lidia Huaylas, the Cholita Climbers were once high-mountain cooks. But since December 2015, they've been ascending the country's snowy peaks as mountain climbers. United by their love of mountains and a sense of defiance, the Cholita Climbers will stop at nothing to attain the feeling of freedom that comes from scaling great heights.

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A primeira e a terceira fotografias são da autoria de Todd Antony

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Se calhar, por cá as associações de apoio às vítimas de violência doméstica poderiam proporcionar-lhes formação em técnicas de defesa e luta. Tenho ideia que os homens que exercem violência de qualquer tipo sobre as mulheres rapidamente meterão o rabo entre as pernas se se sentirem verdadeiramente ameaçados, nem que seja ameaçados de serem postos a ridículo

terça-feira, julho 27, 2021

Killing Kittens
O erotismo no feminino -- ou quando, na festa dos corpos, as mulheres é que dizem como é

 


Em tempos não muito remotos eu alimentava o secreto desejo de me dedicar a uma actividade profissional pouco confessável. É uma actividade legal apesar de ser socialmente pouco recomendável. 

O meu marido achava (e acha) bem e creio que me incentivará bastante nesse sentido.

Contudo, o tempo vai passando e tenho a sensação que vou perdendo o élan. Estou a ver que nem presidente da câmara nem esta outra coisa.

Tenho em mim um lado muito prático e, o mesmo tempo, talvez já por deformação profissional, muito virada para o bom negócio. Trabalhar para aquecer só aqui mas isto não é trabalhar, é distrair-me, é descansar a cabeça. Mesmo nos meus hobbies gosto de produzir. Tenho inúmeras carpetes feitas em legítimo ponto de arraiolos e réplicas de desenhos originais do séc. XVII e fi-las não apenas com o grande prazer que retiro de fazer trabalhos manuais mas também com a consciência de que estava a fazer coisas de valor. Também fiz durante anos camisolas de tricot ou mantas de crochet porque não encontrava a meu gosto por valor equivalente e sabia que não apenas estava a ter gosto em fazê-las como estava a fazer peças únicas e mais baratas do que arranjaria no mercado. Deixei de fazê-las quando as zaras desta vida (para as camisolas) e os gatos pretos (para as mantinhas) apareceram com oferta de qualidade a valor razoável, deixando as minhas peças de ser competitivas.

Por isso, para a minha actividade eventualmente por vir, tenho na minha cabeça que, antes de me entregar a ela, terei que avaliar se poderei ser bem sucedida e, também, se há quem me possa ajudar a progredir. Quando falo em ajudar, falo em termos profissionais. Não sei bem como mas admito que faria sentido ter um agente que seria remunerado em função do meu revenue. 

Trata-se, como deve dar para perceber, de uma actividade que me é estranha em absoluto. Nunca fiz nada, nem de perto nem de longe, nestes domínios. Mas, com a minha matriz profissional sempre a querer impor-me a atenção aos fundamentals, só avançarei depois de conhecer os caminhos a percorrer, depois de ter o know how mínimo necessário e depois de ter antecipado que o resultado será favorável. É aquilo de apenas investir depois de ter o business case sólido e bem estruturado. Ora tudo isso requer tempo e esforço, e, com o tempo a passar e eu ainda presa ao meu emprego tradicional, não sei se vou ter tempo e disponibilidade para isso.

Mas veremos. Não vale a pena antecipar.

Prezo o valor intrínseco das mulheres e acredito que não deveriam ter que disputar o seu lugar seja onde for. Não acredito na superioridade masculina (tal como não acredito na feminina) nem aceito que haja espaços que lhes estejam sonegados. 

Claro que, junto da elite intelectual, a igualdade de oportunidades ou de direitos das mulheres já não é tema. Mas a elite é isso mesmo: le beau monde. Fora desse escol, mesmo em meios cosmopolitas supostamente detentores de mentes abertas, acha-se que há um mundo natural dos homens e um mundo natural das mulheres. E, ao falar-se nisto, lá vem à baila a ideia de que o mundo natural das mulheres é primordialmente o mundo da família, da criação dos filhos, da casa. Enquanto isso, segundo essa visão, que é ainda a visão dominante, o mundo dos homens é o mundo do trabalho fora de casa, seja no trabalho, seja na política, seja no desporto ou no lazer em geral.

Salvo as elites intelectuais, em especial nas grandes cidades, o mundo do sexo ou do erotismo em geral é ainda um mundo predominantemente masculino, quer na produção e distribuição de produtos (sejam filmes, objectos ou locais de prazer) quer no que se refere ao seu consumo. 

Ora estou em crer que não há por que ser assim. As mulheres estão numericamente em maioria e são tão ou mais sensíveis ao erotismo e à ousadia do que os homens. Aliando a isso a de que são naturalmente mais disponíveis para o consumismo do que os homens, temos que há um imenso mercado por desbravar.

Ou seja, creio haver mercado para que as mulheres se afirmem assertivamente neste mercado, quer como produtoras quer como consumidoras. 

Por ser assunto que me interessa, fico especialmente agradada quando percebo que actividades que se situam nesses ambientes são lideradas por mulheres e que, imagine-se, estão a bombar. 

É o caso das Killing Kittens. 

The KK Group’s brands empower women from the bedroom to the boardroom. We create experiences—both online and offline—that inspire the next generation of independent women.

Killing Kittens was founded in 2005 by Emma Sayle in response to demand from young, independent single girls and couples who needed something more. The world’s most exclusive, decadent and hedonistic parties were created, fully focused on the pursuit of female pleasure. Girls remain at the forefront…in control, knowing what they want whilst also empowering adventurous couples the world over.

Since 2005, Killing Kittens has evolved and expanded beyond organising parties. An online community of over 100,000 women, gentlemen and couples has been formed – chatting, flirting and socialising all over the world.

Durante o confinamento, as Killing Kittens viraram-se para as festas virtuais mas, agora que (um bocado incompreensivelmente) a liberdade já foi decretada lá por terras de Sua Majestade, as festas esgotaram. Tal como aos tempos de guerra se sucedem tempos de farra, celebração com libertinagem à mistura, parece que o mesmo vai acontecer depois da era covid. Enquanto em casa muitos casais vêem a sua relação corroída e as separações disparam, os corpos parece estarem ansiosos por partir à aventura, à descoberta de novas sensações, de novos parceiros, de novas experiências.  

Festas de mulheres, nos quais os homens são os convidados das mulheres. Aposto que é o paraíso para eles. Estarem numa festa de mulheres desinibidas, serem voyeurs e jouets, creio ser o sonho de grande parte dos homens. E para elas, sentirem-se livres, poderosas, terem a primeira e a última palavra, poderem pôr e dispor dos homens, é também porem o pé naquilo que deve ser o paraíso.

Não sei se sou suficientemente ousada para participar numa festa destas mas gostaria muito de lá fazer uma reportagem: fotografar, fazer perguntas, mergulhar na devassidão e liberdade daquele ambiente.

Enquanto isso não acontece vou mas é ver se mantenho viva a chama da minha segunda vocação para ver se, daqui por algum tempo, me dedico de corpo e alma ao que, se calhar, é aquilo para que nasci.


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Carla Bruni interpreta, uma vez mais, a Femme Fatale.
Encontrei as fotografias que usei ao longo do texto na net relacionadas com as Killing Kittens.
Também encontrei estes dois vídeos.




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Desejo-vos um dia feliz
Enjoy.

segunda-feira, junho 21, 2021

O power das mulheres quando não têm vergonha do seu corpo

-- Thot Shit --

 

Depois do desfile de chapéus que mostro abaixo, uma festa de mulheres, apetece-me ter aqui uma outra festa: uma em que as mulheres mostram, sem rebuço, o seu tremendo poder. Quando as mulheres põem de parte as suas vergonhas, os seus receios pela censura alheia e seus os medos ancestrais e percebem a força que têm e a poderosa arma que é o seu corpo, não há quem as detenha. Aleluia!

Megan Thee Stallion é um mulherão com apenas 26 anos. E é um mulherão não apenas por ser grande mas porque é destemida, guerreira e porque avança sem medo onde outras apenas fingem que o não têm mas não conseguem senão fingir bravatas que logo se vêm que são artificiais. Poder-se-á dizer que é showbiz. E é. E é do bom. Mas é muito mais que isso: é descaramento, é desafio, é desmando e força. 

O conservadorismo arvorado em puritano cai pela base, exposto ao ridículo, no meio de mulheres que exibem, gloriosas, as suas curvas e o seu corpo que usam como muito bem lhes apetece, um corpo que não é instrumento passivo do gozo alheio mas, pelo contrário, bandeira de libertação e afirmação de uma vontade forte e festiva.

Uma alegria de ver, um gozo. Um tremendo gozo. Oh yé.

Megan Thee Stallion - Thot Shit


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E queiram continuar a descer para assistirem ao desfile dos chapéus há muitos
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Uma semana feliz
Saúde. Esperança. Alegria

sexta-feira, março 05, 2021

Homens & Mulheres

 



Grande parte da minha vida profissional tem sido passada maioritariamente entre homens. Conheço bem a sua maneira de agir, em geral. Em lugares de gestão ou de poder, a larga maioria, a esmagadora maioria, é de homens. Durante muitos anos eu era a única mulher numa equipa de gestão totalmente masculina. Aliás, toda a sociedade foi, até há não muito, uma sociedade maioritariamente dominada por homens. Se calhar até deveria dizer: até aos dias de hoje. Basta ver a percentagem de mulheres que, por cá, já ocuparam os primeiros lugares da hierarquia de Estado. Se arredondar às unidades, zero. Na Igreja, então, o atraso de vida é ainda maior. Nas Forças Armadas, idem.

No entanto, tenho que reconhecer que, apesar de tudo, tem havido consideráveis avanços. Custa até pensar como, até não há muito, as mulheres não podiam votar ou careciam de autorização do marido para exercer direitos que hoje parecem básicos.

Mesmo se me situar no domínio das artes, ao longo dos tempos, quantas mulheres artistas ocultaram a sua identidade pois também não era aceitável que as mulheres pudessem ombrear com os homens na criação artística?

Como foi possível que os homens exercessem tão absurdo domínio durante séculos é enigma dificilmente explicável.

Com o pretexto da sua maior força física e com notável espírito de corpo, os homens blindaram todo o espaço que tinham ocupado recusando a entrada das mulheres. No fundo, os homens sentem-se intimidados perante as mulheres. Sentem-nas imprevisíveis, destemidas, versáteis, ousadas, persistentes, determinadas e sabem que, perante uma mulher desinibida e focada num objectivo, pouco podem. Temem-nas, não o duvido. Sabem que, além disso, as mulheres encerram mistérios, sabem de manhas ancestrais e sabem fazer uso de forças que lhes nascem das entranhas. Os homens temem as mulheres por tudo o que elas são.

Podem os homens, nos bastidores, fazer grupo, uns com os outros, fingir que desdenham delas, ensaiar ares de superioridade, gozar com o que dizem ser os seus humores ou hormonas. Mas é tudo disfarce. No fundo, sabem que jamais terão pior adversário do que uma mulher que lhes faça frente.

Pretextos, enredos, intrigas, tudo tem servido para manter as mulheres a bom recato, inofensivas à força. Quando penso que tempos houve em que o sangue menstrual era pensado como impuro, motivo de repulsa, motivo para o afastamento das mulheres... Como é possível? Impuro o sangue que sai do ventre de uma mulher? Como pode ser impuro? Quando penso que talvez ainda hoje se preterem mulheres para algumas funções por poderem ter filhos, afectando a sua produtividade... Como é possível...? Há lá mérito maior do que poder gerar uma vida? Como falar de improdutividade a propósito de alguém que produz uma vida? 

Só por ignorância, obscurantismo ou muito medo alguém pode pensar assim. 

Gostava de ainda poder ver, no meu País, uma mulher como Primeira-Ministra ou como Presidente da República. Ou, no mundo, uma mulher como Papisa, talvez não entre os luxos do Vaticano mas num lugar modesto.

O mundo seria um lugar tão mais de paz, tão melhor, haveria tanta mais criatividade e generosidade se houvesse mais mulheres em lugares de poder. 

Eu sei que a própria palavra 'poder' tem más conotações, como se fosse sinónimo de ganância, prepotência, nepotismo, coisas que tais. No masculino, de facto, muitas vezes é bem assim, Mas 'poder', no sentido que aqui refiro, significa apenas influir ou determinar o rumo das coisas. 

Por isso, foi com particular prazer que ouvi as palavras de Eduardo Galeano no vídeo abaixo. E a música que acompanha as palavras também é de se lhe prestar atenção.


La vida según Galeano



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Fotografias de Alba Yruela ao som de O viridissima virga, Hildegard Of Bingen

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Uma boa sexta-feira.

sexta-feira, março 06, 2020

Mulher/es





Nisto do COVID-19 dá para ver a diferença entre homens e mulheres. Os homens gostam de se mostrar superiores a tretas, paranóias não é com eles, medo não têm de nada. Se alguma mulher diz que tem que se acabar com os apertos de mão ou com os beijinhos, eles riem, fazem chalaça, trocadilho ou graçola, como se ter cuidado fosse coisa de mulher, fosse mariquice, caguinchice, e, para anular o cuidado, há quem, jocosamente, pergunte se beijo na boca também faz mal. As mulheres, pelo contrário, preocupam-se com todos, querem prevenir, alertam, explicam, sujeitam-se às chacotas palermas deles.

Claro que há mais diferenças, mil diferenças. Por exemplo, nisto dos refugiados até dói. O que aqueles estúpidos homens, todos homens, fazem é de vómito. A humilhação, a indignidade, a falta de respeito com que aqueles milhares de pessoas são tratadas é de partir a alma. Homens sem cabeça, sem alma, sem coração, homens que se esquecem que são efémeros, homens que destroem a vida de milhares de pessoas. Homens.

São também maioritariamente homens os que dão gás à especulação financeira, são homens que, recebendo multimilionários bónus, levam os bancos à falência, são homens os reguladores que nunca detectam qualquer irregularidade, são homens que alimentam a indústria de armamento, são homens que inalam petróleo e se marimbam para o planeta, são homens que abrem e fecham fronteiras como se fosse despique de extremas entre vizinhos, são homens que fazem tiro ao alvo, sendo os alvos os refugiados. Não vejo mulheres aos comandos nessas situações. Não digo que as não haja, digo apenas que não as vejo.


Haverá excepções. Há homens que não são parvalhões, há homens que não são estúpidos, há homens que não são marialvas de meia tigela. Há homens que merecem o mundo. Que merecem o céu. Que merecem todo o amor do mundo.

Há pouco, a falar com a minha filha sobre isto e queixando-se ela do mesmo, dos valentões de plástico, dizia ela: 'Mas, se ficam doentes, é vê-los na mariquice'. E é. Conheço um que gosta muito de se armar em macho man. Quem o veja parece ele que não tem medo de nada e que é superior, mas superior lá muito em cima, a qualquer um (ou uma) que se mostre humano mostrando por vezes algum medo. Pois bem, se tem uma indisposição de caca fica para morrer, parece que está em risco de vida, liga para todos os médicos que conhece, faz mil exames, durante dias não fala de outra coisa. 

Muitos dos erros deste mundo devem-se a disparates masculinos: têm medo de dar parte de fracos, fazem de tudo para não arriscarem uma nega, não arriscam um gesto mais temerário com medo de que corra mal e, sobretudo, têm medo de ser confrontados ou gozados, medo que a sua imagem saia beliscada. Uns cobardolas sob a fina capa de campeões.

As mulheres são mais ousadas, arriscam mais, marimbam-se mais para a censura alheia, genuinamente preocupam-se mais com os outros.


Digo sempre que não sou feminista mas acho que o digo sobretudo porque detesto rótulos e não consigo encaixar-me em agremiações, sejam de que tipo forem. Mas, rótulos ou agrupamentos à parte, a verdade é que acredito no valor e no poder das mulheres e acredito que muitos dos males do mundo se devem ao excesso de homens em lugares de poder.

É certo que as coisas começam a ganhar outro rumo: há mais mulheres em lugar de comando e mais mulheres a rebelarem-se contras as desigualdades.
[Mas, tenho que dizer, também não suporto ver as mulheres a armarem-se em vítimas puritanas, a acusarem de tudo e mais alguma coisa homens junto dos quais antes se derretiam, a tomarem por assédio qualquer graçola masculina ou a fazerem-se de coitadinhas por qualquer insignificante porcariazeca. Mas adiante].

E isto dito passo ao vídeo abaixo, um trailer de um documentário que é pena que não chegue cá pois deve ser muito bom.

Woman

Woman répond à l’envie de regarder le monde avec les yeux d’une femme. Ce film nous amène aux quatre coins du monde à la rencontre des premières concernées : toutes ces femmes aux parcours de vie différents, façonnées par leur culture, leur foi ou encore leur histoire familiale.C’est aussi le reflet du monde actuel. Un reflet parfois sombre face à toutes les injustices subies par les femmes. Mais avant tout, ce film est un message d’amour et d’espoir envoyé à toutes les femmes du monde. Une tentative de comprendre leur vie, de mesurer le chemin parcouru mais aussi tout ce qui reste à faire. Comment y parvenir ?
Ensemble, elles font émerger une autre vision du monde, indispensable pour construire l’avenir de notre #planète. Après « Human » en 2015, Anastasia Mikova et Yann Arthus-Bertrand proposent « Woman » en abordant plusieurs thèmes forts comme l’éducation, la pauvreté, la justice et le courage. Parce que faire entendre la voix des femmes est une priorité, la Fondation ENGIE a décidé de soutenir Woman et plusieurs associations mises en avant dans le film : http://bit.ly/Woman-FondationENGIE
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As esculturas são de Camille Claudel e enlaçam-se ao som da música de Clara Schumann

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sexta-feira, fevereiro 28, 2020

Be a Lady



Gostava de escrever umas palavras sobre este tema sem me colocar no centro do texto. Gostava de falar na qualidade de narradora e falar delas como se eu não fosse uma delas. Mas não tenho engenho e arte nem, sequer, distanciamento. Sou mulher, gosto de ser mulher. E já aqui o referi que uma das coisas que disseram de mim e que mais me agradou foi dito por um médico, por sinal indiano e lindo, a uma amiga comum: que eu era a mulher mais mulher que ele tinha conhecido. Quando ela, um bocado estupefacta, me contou isto eu fiquei tão agradada que ainda hoje, anos decorridos, penso nisso.

E conhecendo a vida difícil de muitas mulheres -- tal como conheço a vida difícil de muitos homens - e sabendo o peso cultural que sobre elas se abate, ainda mais sinto a necessidade de me solidarizar e sentir empatia em relação a todas as observações a que são sujeitas e tudo aquilo a que se sentem obrigadas.

O vídeo que abaixo partilho é um vídeo poderoso. Contudo, acho que pode ficar a ideia de que as mulheres são exclusivamente umas vítimas, umas pobres coitadas, fracas e indefesas. E não são isso. Ou, pelo menos, não apenas isso.


Mas as mulheres são também corajosas, lutadoras, alicerces, esteios, pináculos, e são resilientes, bravas, umas leoas, umas lobas. 

Gosto de ser mulher e tenho muito orgulho em ser mulher. Por isso, partilho o vídeo porque é muito verdadeiro mas aqui deixo registado que acho que o que ali se vê é apenas parte da história.

Cynthia Nixon: Sê uma Senhora, dizem 



As duas fotografias são obra de © Letizia Battaglia

sábado, março 09, 2019

A Inteligência Artificial será a pior coisa que alguma vez terá acontecido às mulheres?





Não gosto de me considerar feminista porque tenho a sensação de igualdade entre homens e mulheres de tal forma interiorizada em mim que quase me parece aberrante tomar partido numa disputa sexista. No entanto, já me explicaram mil vezes que ser feminista não é essa guerra fundamentalista entre sexos que os mais tacanhos apregoam mas é, sim, lutar pela justa igualdade de oportunidades, de direitos e de deveres entre homens e mulheres. 

Seja.

A verdade é que prefiro pôr-me ao lado dos homens -- dos civilizados, bem entendido -- e, com eles, lutar pelo progresso de todos. E quem diz dos homens civilizados digo também das mulheres. Das civilizadas. 

Vinha no carro, ao início da noite, quando ouvi uma mulher que estava na manifestação, a ser entrevistada. À pergunta de se havia discriminação no seu trabalho disse que sim, embora uma discriminação subtil. E exemplificou: quando está com outras colegas e chega um colega homem, ele faz piadas sexualizantes e que isso a incomoda. E eu é que fiquei incomodada com um tal argumento porque piadas 'sexualizantes' é coisa que pode até ter graça, que pode ser inócua, é coisa que não define uma discriminação sexual no trabalho. Se ela dissesse que, no seu local de trabalho, quando abre uma vaga para uma chefia, escolhem sempre um homem, mesmo havendo mulheres mais qualificadas aí, sim, ela teria mais do que razão para ficar chateada. Agora pretender que os homens fiquem indiferentes às mulheres e não possam galanteá-las, cortejá-las, tentar fazer uma graça ou um agrado, já me parece mais um comportamento assexuado do que feminista -- e amesquinham as verdadeiras razões de queixa das mulheres.

[Não me refiro, obviamente, a homens ordinários que se comprazem a dizer badalhoquices a mulheres. Aliás, penso que já nem os haverá a agir assim em terreno aberto, muito menos estando em minoria no meio de um grupo de mulheres. Homens assim, machistas, parvalhões, são, regra geral, uns cobardolas.]
Mas isto para dizer que, do que frequentemente se vê, grande parte das mulheres que gostam de se armar em super feministas usam uma argumentação tão rasteirinha que acabam por se menorizar. Não gosto.

Gosto é de ver mulheres a lutarem de igual para igual, a mostrarem a sua força, a sua indómita vontade, a não vergarem, a manterem-se inteiras 'mesmo quando os outros se dividem'.


E é verdade: longo tem sido o caminho das mulheres para aqui chegarem. E, em muitos lugares, longo ainda é o caminho a percorrer. 

O vídeo abaixo é muito interessante e mostra os riscos que podem ainda estar por vir, em tempos que se antevêem pejados de inteligência artificial. Sendo que a grande maioria dos profissionais das áreas das tecnologias da informação é composta por homens, será de temer que construam um mundo misógino, que não incorpore a visão e os interesses femininos?
On International Women's Day, the author Jeanette Winterson reads an extract from her book, 'Courage Calls to Courage Everywhere', in which she describes the threat to women posed by the future dominance of AI, warning society cannot allow it to become a new exclusion zone

Is AI the 'worst thing to ever happen to women?




Um bom sábado a todos.

sexta-feira, janeiro 11, 2019

Ele não consegue amar uma mulher com mais de 50 anos.
E eu, olhando para ele e ouvindo o que ele diz, só me ocorre dizer que eu também não seria capaz de amá-lo.
Nem sequer de apenas ir para a cama com ele.


Aliás, tenho a dizer que li a notícia há uns dois ou três dias e nem tugi nem mugi. Para começar nunca tinha ouvido falar de tal pessoa. Quero lá saber do que qualquer um diz. Mas depois fui lendo notícias, o escarcéu que se foi levantando, meio mundo indignado com uma afirmação que a mim me pareceria tão inócua. 

E hoje resolvi ir perceber melhor quem é Yann Moix. 

Trata-se de escritor, realizador e apresentador de televisão. Parecem-me skills a mais num único corpo mas, pensando bem, o Cláudio Ramos também é escritor e apresentador e ninguém me garante que também não faça vídeos. E se puxar mais pela cabeça sou capaz de encontrar uma palete deles também por cá. Gente polifacetada, quero eu dizer.
O facto de também não o conhecer como escritor não desabona a favor dele mas, provavelmente, de mim. Na volta, salvo um ou outro maluco destrambelhado que ainda vou conhecendo, de resto sou ignorante da nova literatura francesa.

Mas não deixa de me espantar que um sujeito qualquer, seja ou não escritor decente, caia nas bocas do mundo só por dizer que as mulheres com mais de cinquenta não lhe dão pica. E que ele tenha 50 parece-e mero pormenor. Se não dão, não dão. Só gosta de jovens. Está no direito dele. Porquê tanto falatório?

Claro que os jornais e revistas logo se encheram de fotografias mostrando toda a espécie de apetecíveis idosas, com mais de cinquenta. Há montes delas, claro. 


Não desfazendo, eu própria me insiro aí (presunção e água benta, ora pois). Mas, claro, gostos não se discutem e o facto de eu me ver dentro do prazo de validade não quer dizer que um Yann qualquer desta vida não me veja senão como uma avozinha daquelas em quem nem o lobo mau pega. 

Agora duma coisa eu sei: vendo as fotografias dele ou vídeos em que o vejo a falar, não tenho dúvidas que ele a mim também não me inspira nada, nem sentimentos nem apetites. Não é por ter cinquenta anos porque eu, nisso, sou agnóstica: é porque aquela cara parece que indicia um candidato a tarado ou, se olhar melhor, um tipo com ar de campónio metido a besta. Ná. Nem tem um ar sereno nem civilizado nem parece ter sentido de humor. Pior: tem ar de quem não tem uma 'boa pegada'. 

Pode acontecer que uma teenager -- linda, fresca, inexperiente e com pouco mundo -- se deixe deslumbrar por uma vedeta televisiva e vá na conversa de um mal encarado destes. Agora uma mulher feita, que saiba que há mais marés que marinheiros e que são as mulheres que escolhem e não o contrário, olha para uma fraca figura daquelas, disfarça o desinteresse (não vá a florzinha amachucar-se) e segue em frente.

Tirando isso, nada.

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Para quem queira conferir: Yann Moix, o chopinha de macha por ele mesmo