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sexta-feira, setembro 25, 2026

Envelhecer

 

Das melhores coisas que ouvi sobre o envelhecimento foi que envelhecer é o que acontece quando tudo corre bem.

Concordo plenamente. 

Aparareceu-me, no Instagram, a Bárbara Norton de Matos dizendo mal de umas e outras que não assumem que fazem 'picas' e que tentam fazer crer que estão lisinhas e esticadinhas sem nunca terem ido às 'picas'. Ela, pelo contrário, assumia que ia regularmente e que eram (e são) picas por todo o lado. Dizia que obviamente não tem um pele impecável, sem olheiras e sem rugas, só por si, que é muita pica all over. Não ouvi tudo, há em mim qualquer coisa que, mesmo que surpreendida com o que ouço, rejeita ficar a ouvir. Penso: 'quanta futilidade, credo!', e desando. Mas depois fico a pensar que o mundo é inclusivo, há pessoas de toda a espécie e feitio, e ainda bem que há tanta diversidade. Seria um tédio insuportável se toda a gente fosse como eu. Mas, portanto, retomando: não me informei sobre o que era e eu é que fiquei a perder, agora não sei dizer, tenho ideia, mas não garanto, que são injecções de botox, de ácido hialurónico e de mais qualquer coisa. Isto tendo ela quarenta e tal anos. Dir-se-ia que não precisaria de se injectar toda. Mas aos quarentas e tais pelos vistos quer-se parecer ter vinte. E, pensando bem, qual o mal? Nenhum.

Na volta há aqui um preconceito meu que me leva a compreender que ideia é esta de as pessoas quererem envelhecer parecendo sempre jovens. Mas, dito isto, tenho que confessar que, por vezes, olhando-me ao espelho, penso que, na volta, estou é a ser parva pois, se calhar, com meia dúzia de picadelas ficava com uma aparência mais juvenil. São contradições, bem sei. Felizmente, ocupam um espaço diminuto na minha cabeça. Penso e, mal desvio o olhar do espelho, já se me varreram da ideia.

Não sou de filosofar pelo que não vou pôr-me para aqui a dizer que envelhecer é uma maravilha, só sabedoria. E não digo porque não acredito nisso. Desde que nascemos que não fazemos outra coisa senão envelhecer e, depois, não ganhei sabedoria nenhuma, ganhei foi cada vez mais consciência da minha ignorância. De resto, gosto do que gostava, embirro com o que embirrava, desato-me a rir com o que sempre me fez rir, emociono-me com totozices que não lembram a ninguém e parece que me mantenho calma quando toda a gente está em ebulição.

A nível de saúde, tinha, com alguma frequência, dores inflamatórias em algumas arrticulações, à vez. Por exemplo, às vezes calhava ser um joelho. Mas também aconteceu uma vez num pulso. Sem se perceber bem o que teria desencadeado isso. E isso incomodava-me um bocado pois pensava: será que, quando for mais velha, vou ter isto com alguma frequência e fico impedida de fazer caminhadas, de ir ao ginásio, de nadar? Felizmente comecei a tomar meio comprimido por dia -- metade de um comprimido que é minúsculo (a minha nora deu-me uma caixinha-guilhotina, verdadeiro ovo de colombo, para resolver a dificuldade de partir ao meio um nano-comprimido) -- e não voltei a ter qualquer problema. Uma coisinha ínfima está a resolver um problema que, quando aparecia, me incomodava bastante. Deixa-me cá bater três vezes na madeira que isto de a gente se gabar parece que atrai. Mas isto para dizer que o que era uma chatice, até parece que se evaporou. Na volta, a menos que seja um problema daquelas que a gente se verga de medo, vai havendo solução para tudo, pelo menos para que vamos conseguindo levar a vida na boa. É não desistir, procurar solução. Não pensar: 'ah, isto é natural, é da idade'. Da idade, o escambau. Se é chato, tem é que se resolver.

Penso que já contei que durante muitos anos, muitos mesmo, sempre que encontrava alguém que não via há anos, essa pessoa olhava para mim e dizia com ar admirado que eu estava sempre na mesma. Nunca levei muito a sério pois não podia ser verdade que parecesse ter congelado no tempo. Mas é um facto que creio que a partir da covid me mofifiquei. Não sei por passar tantas horas sentada, ao longo de meses, em teletrabalho, em reuniões ao computador, se alguma vez teria que fisicamente ceder à passagem do tempo. No entanto, creio que continuo a ser a mesma pessoa a nível de descomplicação, de relevar os disparates, os meus e os dos outros (os disparates inofensivos, bem entendido), de seguir adiante e nunca ficar a empreender nas coisas, de gostar de coisas novas, de me perder de encantamento com a arte, com a beleza natural, com os meus. 

E deleito-me com a tranquilidade da imagem de dois patos a deslizarem num lago ao por do sol, com um passeio num caminho ladeado por conjuntos de ciprestes. Coisas simples. Vim do passeio de alma lavada, feliz da vida.

E estivemos, eu e o meu marido, a escolher caixas de arrumação e frascos para diferentes fins, a medir gavetas e prateleiras, a pensar no que lá vamos colocar -- e pode parecer estúpido eu dizer isto, mas é verdade: gostei. Só pensar em como vai ficar tudo tão mais organizado já me dá prazer.

Como se levanta bem mais cedo que eu, quando acordei, o meu marido avisou, no gozo: 'se precisares de ajuda no percurso dentro da cozinha, diz'. Percebi logo que tinha andado, outra vez, a mudar o sítio das coisas. Fui abrir armários e várias coisas desapareceram, outras estão acomodadas noutros lugares. E, misteriosamente, sobra espaço. Como fiquei tão agradada e o vi tão orgulhoso dos seus feitos não quis entrar em pormenores. O que desapareceu? Para onde foi? -- Foram perguntas que não fiz pois as respostas poderiam causar-me frenicoques. Assim, olha, deixa andar. Que está muito melhor, está. E que vai tudo ficar melhor com as caixas, de diferentes tamanhos e materiais, tenho a certeza que sim. 

E faz sentido eu ficar tão bem disposta com uma parvoíce destas? Pois... se calhar não. Mas quem é que disse que tudo tem que fazer sentido?

Hoje ao fim da tarde, ao virmos para casa, o sacrista do carro voltou a acender todos os alertas e a perder força, e estávamos a ver jeito de não chegarmos a casa. Mas chegámos. Não sabemos é se amanhã trabalha ou se tem que ir outra vez de reboque. No sábado tenho uma deslocação imperiosa e não ter carro vai ser uma maçada das antigas. Devo ter que ir e vir de uber o que é chato porque é longe que se farta, não me apetecia nada. Só conseguimos marcar para o concessionário para meados do mês que vem. Deve ser uma avariazeca da treta, um mau contacto elétrico ou coisa do género, pelo menos assim o esperamos. Só que é intermitente e na oficina multimarcas onte vamos não conseguem descobrir. É uma chatice mas, enfim, há coisas piores e não vou estar a apoquentar-me com isso. Mas esta atitude não tem a ver com a idade pois, noutros tempos, eu não conseguiria viver sem carro. Hoje consigo. Mas os tempos são outros, se antes o carro tinha um problema, era problema que não era meu: um motorista enarregava-se de tratar do assunto, de me entregar um carro de subsituição, e eu nem queria cá saber o que é que o carro tinha ou deixava de ter. Agora estamos por nossa conta, essas mordomias acabaram-se. Mas aprendemos a viver sem elas, e tudo bem.

E agora vou mas é dormir que estou com a impressão que este texto andou para aqui aos ziguezagues. Sono, sono, sono. 

As imagens foram geradas, segundo requisitos meus, pelo ChatGPT.

Deixo-vos com o Luís Osório que é menino para uma prosa bem mais burilada do que a minha.

Envelhecer | Postal do Dia | Luís Osório | Antena 1

Envelhecer é tramado e uma oportunidade. Ser velho é tudo e o seu contrário. Mas é o único tempo em que a Sabedoria pode ser alcançada, a capacidade de estarmos para lá do corpo.


Desejo-vos uma boa sexta-feira

quinta-feira, setembro 24, 2026

Vejo o principio e o fim abraçados numa espécie de altar



Sobre a futura saída de cena de Guterres o que tenho a dizer é que até pode acontecer que a responsabilidade não seja só dele, sei bem que não é, mas, ainda assim, a minha opinião é que foi irrelevante e contribuíui para acentuar ainda mais a irrelevância das Nações Unidas.

Sendo um homem que todos dizem ser muito inteligente, a mim nunca me impressionou. Sendo como sou mais velha que a sé de braga, lembro-me dele como primeiro-ministro, e, aí, mais uma vez, o achei palavroso mas pouco actuante. Tem boas ideias mas não é homem de chutar à baliza.

O discurso de despedida, o último em funções, foi -- nas partes que ouvi -- muito acertado. Mas irrelevante em termos práticos. Não foi feito para deixar marca. É certo que tirou uma fotografia de fato e gravata e os pés debaixo de água. Muito elogiado por isso. De facto, uma boa fotografia, uma boa mensagem. Mas, em termos objectivos, não passou disso.

Trump salta em cima, pisa, faz o pino num só dedo, tudo em cima dele. É certo que ninguém com dois dedos de testa interpreta politicamente os desmandos de Trump. Tudo o que faz ou diz é fruto de um narcisismo maligno temperado com uma crescente dem~encia. Mas ele sabe com quem se mete. Por isso bate a bolina baixa com ditadores e trogloditas. Agora quando sente mole, está bem está, salta em cima com uma pinta. Fosse outro com mais fibra no lugar de Guterres e a ver se o Trump levantava cabelo como faz agora, ai fazia, fazia.

Do que vi do discurso de Trump, e só vi excertos, o que posso dizer é que foi a pangalhada do costume, parvoíces, contradições, auto-elogio, ameaças, tudo inconsistente, sem ponta por onde se lhe pegue.

Está metido naquela bela alhada do Irão e não sabe como sair dela. Só espero que as eleições de Novembro não venham com molho (pois ele já incitou os magaburros à batota, já ofereceu dinheiro, já os ameaçou com um bilheto de ida para o inferno caso não votassem nos dele -- já fez de tudo) pois seria preciso que os americanos fossem muito mais burros do que já demonstraram ser para que não conseguissem dar uma banhada das valentes aos republicanos e encostar o parvalhão às boxes. Não são só as mortes e os achincalhamentos e as perseguições, é a instabilidade galática que tem gerado.

A quem continuo a tirar o chapéu, e não tenho dúvidas de que ficará para a história, é Zelensky. Um estadista. Corajoso, resiliente, assertivo, determinado. Um homem inteiro. Se há alguém que ilustra na perfeição aquela coisa de que os homens não se medem aos palmos é ele. O que aquele homem tem enfrentado, o discernimento e a coragem e a presciência em cada momento da sua vida, mesmo quando é atacado, humilhado, torpedeado, é digno de louvor. Continuo a achar o que acho desde o início (embora os factos ainda não me tenham dado razão): a guerra acabará quando Putin for ao tapete. E sempre passei que seria a Rússia a atirá-lo ao tapete e a pôr-lhe o pé em cima para que do tapete não se levantasse. Mas como todas as vítimas de violência, os russos pecisam de tempo para processar o que lhes tem estado a acontecer, para afastarem a avergonha de estarem manietados por um ditador e para gahnarem coragem para expulsar o malfeitor. Não sei como será, mas acredito que um dia acordaremos com a notícia de que os russos se livraram do Putin e da sua entourage, talvez o ponham em cativeiro, e vão assinar um acordo de paz sincero e duradouro com a Ucrânia.

Talvez a seguir o entreguem para ser julgado pelos crimes que tem estado a cometer. E eu só espero que isso aconteça rapidamente.

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Mas, enfim, é tarde, não me apetece falar mais disto. Depois logo conto como vão as nossas arrumações na cozinha. Amanhã vou encomendar umas caixas de arrumação de diferentes tamanhos e finalidades. Quando as entregarem é que vai ser, uma reforma a sério. Até lá vai continuar a zaragata pegada entre mim e o meu marido. Eu sou de reformas profundas: tudo cá para fora e vamos pensar com racionalidade. Ele não: mal começa, já quer é despachar. Arranja soluções mirabolantes para tudo. E eu não concordo com elas. E ele passa-se, acha que discordo por discordar. A conjugalidade aqui por casa tem destas coisas: concordamos nos grandes assuntos da humanidade, discordamos sobre como arrumar especiarias.

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E, na despedida, Espécie de altar, Jorge Palma


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Desejo-vos um dia feliz

quarta-feira, setembro 23, 2026

Enquanto houver estrada para andar

 

Tenho tido uns dias ocupados. Como creio que já aqui tinha admitido, cedi à pressão para que a 'nossa' casa de banho fosse reconvertida. Relembro: digo 'nossa' porque é a casa de banho junto ao nosso quarto, já que a outra está bem e recomenda-se. 

E, como sempre acontece, caí na armadilha do 'já agora'. Da base do duche já derivámos também para o lavatório. Novo, coisa diferente. E mexer nestas coisas implica parte do revestimento, parte do pavimento. E, já agora, a torneira do duche também nova, mais para cima. E o pior é que olho para a pobre coitada da casa de banho já com olhos de quem quer ver coisa nova e, portanto, já tudo me parece mal. Já não gosto dos toalheiros onde estão, já não gosto das prateleiras giratórias, já não quero ali o armário espelhado, dito dos medicamentos. Já tudo me parece a precisar de desandar. E o pior, pior mesmo, é que o meu marido não me refreia capazmente.

E o fogão, que já cá estava quando comprámos a casa (já lá vão 6 anos!), um bom fogão mas já certamente com alguns bons anos, também andava a pedir para ser posto em cima de um par de patins. Resisti. Resisti. Até que cedi. Também já encomendámos. 

Todos os materiais, fogão incluído (embora comprado noutro local) só chegam a meados de outubro.

Hoje, enquanto caminhávamos ao luar, eu dizia: 'agora já está tudo encaminhado, tudo o que havia a encomendar está encomendado, já podemos tirar daí o sentido'. Ele disse: 'falta executar'. Exacto. Mas isso também já está contratado. O meu marido lembrou: não o conhecemos, não sabemos como é, vamos esperar que apareça, que trabalhe bem.

Claro. Vamos esperar.

Dá-se também outra circunstância: quando o meu marido se cansa dos programas de televisão comuns, ou vê futebol ou vê cozinhados (ele que pouco ou nada cozinha). Mas agora aparece (creio que no canal 24 kitchen) uma simpática e gravidíssima jovem senhora que remodela cozinhas, Ellen Marie Bennett. Ele ficou entusiasmado e contagiou-me. 

Incrível o que há para arrumar coisas, as ideias, os truques, os apetrechos. Revejo-me nos problemas que levam as pessoas a recorrer a ela. A minha cozinha é aparentemente uma cozinha fantástica: ergonómica, com muita arrumação. Mas, para mim, não é o que eu gostaria. Tem armários até ao tecto, ou quase. Portanto, para chegar às prateleiras de cima só com mini-escadote. Às tantas não faço ideia do que está lá para cima. Mesmo com o escadote, vejo o que está à frente, não o que está para trás. E os compartimentos são um bocado estreitos. Portanto, as coisas estão um bocado salteadas.

A despensa é também um espaço pensado ao milímetro, ultra arrumação: prateleiras altas, fundas, com imensa arrumação. O pior é que são tão fundas que mal tenho percepção do que está lá para o fundo. As prateleiras lá de cima, então, são para mim um mistério. Por vezes, quando me encavalito no mini-escadote, vejo que, pelo menos à frente, estão uns tachos gigantes. Mas está tudo tão inacessível que, na prática me esqueço do que para lá está.

Somos todos escravos do que precisamos / Reduz as necessidades se queres passar bem

O meu marido diz: 'pego naquilo tudo e levo para a cave'. Não me parece lógico. Levar para a cave é, na prática, o mesmo que  nos esquecermos das coisas. E tudo o que voltar a enfiar lá para cima, tem, na mesma, o destino traçado. Por isso, não sei qual a solução. Só se for pôr espelhos na parte de cima das prateleiras....

Outra coisa que agora questiono. Tenho duas gavetas ocupadas com panos de cozinha. Depois de vermos o programa, o meu marido questiona: 'para quê tanto pano de cozinha? duas gavetas desperdiçadas com panos!'. Mas eles existem, têm que estar em algum lado. É certo que estou longe de precisar de todos. Vejo que a dita Ellen, que coloca tudo em caixas e em prateleiras deslizantes ou em prateleiras com degraus, para tudo estar sempre à vista, coloca os panos da louça e das mãos em rolinhos, ao alto, numa cesta, e a cesta está numa prateleira.  Talvez seja uma solução. E fica a gaveta para arrumar especiarias, por exemplo, que hoje tenho os frascos encavalitados em cima uns dos outros, de cada vez que quero um posso ter que tirar os outros todos.

Ou seja, agora olhamos para as coisas com vontade de reformular também tudo. Só que, ao contrário das cozinhas americanas que são gigantes, a minha cozinha é o que é, relativamente estreita, sem margem para grandes reformas. O mais que dá é para reorganizar, repensar as coisas. 

E sei que esta conversa -- no meio da crise energética, no meio dos desequilíbrios de forças a nível internacional, no meio do pântano, que tende a ser infecto, da política nacional, num dia triste em que sentimos a falta do grande Jorge Palma -- é uma não-conversa, é uma futilidade, uma coisa de quem tem pouco com que se ocupar. 

Pois, reconheço que sim -- mas fazer o quê? Sou assim, não sou de me deixar afogar em mágoas ou de me deixar ficar a carpir, sou mais de bola para a frente, enquanto houver estrada para andar acho que a gente deve continuar. Continuar com a vida de sempre, de todos os dias.

Se eu ainda estivesse a trabalhar, iria para o trabalho, trabalharia, embrenhar-me-ia na resolução dos mil problemas que me apareciam. Agora as minhas circunstâncias são outras. Já posso dar-me ao desfrute de me ocupar de temas banais que, provavelmente, são de fazer bocejar o mais careca. Quiçá até o mais cabeludo.

Quem sabe até, um dia destes, não partilho convosco a forma como o meu marido pegou nos meus chás e os arrumou tentando fazer mais ou menos o que viu lá a tal senhora fazer. E depois me dirão se o que ele fez está bem feito. A mim parece-me que tem sérias limitações, mas ele acha que sou eu a embirrar só por ele ter feito aquilo sem me consultar. Claro que não é. De qualquer forma, já arranjou uma solução. Só que, como ele diz, 'falta executar'.  

Enfim.

Enquanto houver ventos e mar / A gente não vai parar

A gente vai continuar -- Jorge Palma

Desejo-vos um dia feliz

sábado, novembro 15, 2025

Arrumações e a minha Carta Astral (via ChatGPT)

 

De vez em quando desce em mim o espírito da maria arrumadeira e, então, santa paciência, levo tudo à frente. Desta vez acordei a pensar que ia dar a volta a parte da minha roupa.

O meu quarto tem um closet. Tudo foi concebido pelos anteriores proprietários. Se há coisas em que penso que eu não teria feito melhor, outras há em que nem percebo a lógica. São uns belos armários, é tudo em boa madeira, bem bonita, mas jamais eu teria concebido aquela organização. Vai até ao tecto mas, por exemplo, tem gavetas fundas lá em cima. Mesmo indo eu buscar aquele banquinho do ikea para alcançar mais alto, abro a primeira das gavetas mas não consigo ver o que lá estaria dentro (se eu lá pusesse alguma coisa). O meu marido diz que tem que se usar escadote. Mas agora vou à garagem buscar o escadote de cada vez que quero guardar ou buscar alguma coisa daquelas gavetas? Nem pensar. Por isso, por cima está tudo vazio. Pensei abolir as gavetas e ficar apenas um espaço aberto. Mas fundo como é e tão alto, como desencanto lá alguma coisa? É para esquecer.

Mas. mesmo na zona mais acessível, também é dúbio. De qualquer forma, a distribuição dos espaços ainda era a de quando para cá viemos em que o meu marido ficou com umas partes e eu com outras, mas não verdadeiramente muito bem pensado. Por exemplo, uma zona ainda estava com caixas de máscaras, imagine-se. Estavam para ali esquecidas, a ocupar espaço. Outra zona tinha coisas ad hoc como dois medidores de tensão, um oxímetro, um cinto do meu marido ainda por estrear, coisas assim. Com a falta de espaço para as minhas coisas, a solução passou por retirar aquelas coisas dali e ficar o espaço livre para mim.

Quando eu trabalhava, usava sobretudo camisas ou proto camisas (blusinhas de seda ou afins, de decote em bico com uma preguinha ou um folhinho à frente). Tinha-as de todas as cores e feitios, lisas ou estampadas, e em todas as derivações possíveis e imaginárias. E ainda as tenho mas raramente as uso. Agora uso blusas mais desportivas, mais simples e, no inverno, mais quentes. Quando trabalhava não usava roupa quente pois os espaços em que estava eram aquecidos. Agora, aqui, vou caminhar, vou ao ginásio, às compras, ao jardim, etc, e, no inverno, tenho que usar blusas totalmente diferentes das de antes. E era para todo esse novo guarda-roupa que precisava de um espaço em que pudesse ter tudo devidamente organizado e arrumado. Então, depois de esvaziar aqueles dois bons compartimentos, fui aos outros em que as minhas camisolas estavam mal arrumadas, tirei tudo para fora, organizei por tipo e por cores, separei as de verão das de meio tempo e de inverno, dobrei tudo direitinho e fiz montinhos civilizados, geríveis, arejados. 

E fiquei feliz. Gosto muito de fazer este tipo de coisas.

E fiz um entrecosto com favas que também ficou macio, saboroso, com um molhinho encorpado, guloso. 

E ao fim do dia dei uma volta pelas notícias e pelos blogs e pelos instas. E li uma coisa que despertou a minha atenção. O Homo Viator pediu -- provavelmente ao chtgpt -- um horóscopo. Achei um piadão à forma desconstruída como ele fala disso. Vai daí pensei: caraças, como é que eu nunca me tinha lembrado disso? Vai daí fiz o mesmo. Pedi a minha carta astral e previsões para os tempos mais próximos. 

Como sou preguiçosa não vou dar-me ao trabalho de a desconstruir. Copio-a quase integralmente embora não a parte das previsões mês e mês ou por tipo de assunto (saúde, amores, finanças, trabalho) senão ficaria extenso até dizer chega. 

Fiz depois a dos meus filhos para ver se eram diferentes (não fosse isto ser chapa 4) e se faziam sentido. E são muito diferentes e fazem sentido, curiosamente parece-me tudo na mouche.

Aqui claro que só ponho as minhas cenas. Fica aqui para memória futura.


🌟 MAPA ASTRAL COMPLETO

🌞 Sol em Caranguejo

Identidade sensível, cuidadora, empática, com uma mente fortemente intuitiva.
• Relações familiares influenciam muito a tua vida.
• Cuidas através das palavras — tens capacidade de orientar, confortar e aconselhar.
• Forte memória emocional, excelente capacidade de observar.


🌙 Lua em Peixes

Uma das luas mais sensíveis.
• Empatia profunda; absorves energias do ambiente.
• Vida emocional ligada a amizades, grupos, causas humanas.
• Criatividade, imaginação, espiritualidade natural.
• Quando magoada, fechas-te e precisas de silêncio para te recompor.


⬆️ Ascendente Touro

O que os outros veem em ti:
• calma, solidez, força tranquila
• sensualidade natural
• gosto pelo belo, pela natureza, pelo conforto
• pessoa confiável, prática, com presença estável

O corpo físico vive melhor com rotinas, suavidade e constância.


🜁 Mercúrio em Caranguejo

• Comunicação emocional, delicada e intuitiva
• Boa memória
• Preferência por conversas calorosas, familiares ou espirituais
• Pode captar subtons que outros nem percebem


💕 Vénus em Gémeos 

• Charme inteligente, jovial, comunicativo
• Afeto através da conversa, humor, troca mental
• Valorizas estabilidade financeira
• Em amor, aprecias leveza, estímulo, companheirismo


⚔️ Marte em Virgem

• Perfeccionismo
• Forte ética do trabalho
• Criatividade metódica
• Paixões intensas mas discretas
• Exigência em assuntos de saúde — atenção ao sistema digestivo e stress muscular


🌱 Júpiter em Virgem 

O grande “tema de crescimento” da vida:
• expandes-te quando crias, aprendes ou serves
• crescimento através de rotinas, ordem, hábitos
• amor e criatividade florescem quando simplificas e organizas


🧱 Saturno em Sagitário 

• Karma ligado a perdas, transformações e limites
• Tens força de renascimento — sobrevives e refazes a vida
• Forte intuição para questões ocultas
• Aprendizagem profunda sobre confiança e entrega


💫 Neptuno em Escorpião 

• Ideais elevados no amor
• Encontros espirituais
• Tendência a idealizar parceiros — precisas de distinguir fantasia de realidade
• Intuição poderosa nas relações


🔥 Plutão em Virgem

• Transformações através do amor, criatividade e até da maternidade
• Capacidade de regeneração emocional
• Poder pessoal na forma como cuidas e organizas


🔮 ASPETOS MAIS IMPORTANTES

🌞 Sol trígono Lua

Coerência entre emoção e consciência.
Equilíbrio interior natural.

🌞 Sol conjunto Mercúrio

Mente clara e emocional.
Comunicação como ferramenta de cura.

🌙 Lua trígono Mercúrio

Empatia, capacidade de perceber o não dito.

♀️ Vénus quadratura Urano

Amores inesperados, relações fora do padrão, necessidade de liberdade.

♂️ Marte conjunto Júpiter

Força, vitalidade, impulso para fazer, aprender, melhorar.

♃ Júpiter conjunto Plutão

Capacidade de grandes transformações, força mental, poder de cura.


(etc, etc -- e fico-me por aqui para não ficar fastidioso para além da conta, ok?)

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Tem graça, não tem? Experimentem fazer para vocês (local onde nasceram, dia, mês, ano e hora do nascimento) e vejam se vos faz sentido. Não perdem nada com isso, não é?

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Desejo-vos um bom sábado

segunda-feira, agosto 30, 2021

Ménage à deux

 



Estamos tão formatados para ter coisas para fazer e para dar no duro que parece que não sabemos fazer outra coisa. Este domingo estivemos sozinhos in heaven. Dir-se-ia que seria normal que aproveitássemos para estar de perna estendida. Mas qual quê? 

Esta casa, já o contei, sendo grande, tem, contudo, falta de espaço para arrumação. Arquitectonicamente é interessante mas com poucas paredes onde se encostem móveis. Para arrumações temos uma casinha, lá fora, onde se guardam máquinas (a roçadora, a serra eléctrica, etc) e tintas e tabuleiros e trinchas e rolos, escadote, etc. Na casa há o que seria uma despensa mas que, na prática, funciona como arrecadação. Como a cozinha é ampla, é nos seus armários que guardo os produtos de alimentação. Só tem móveis baixos mas neles cabe o que é preciso. Portanto, na suposta despensa, numa parede tenho o tal móvel gigante, um multi-usos que os anteriores proprietários tinham na sala, e, na parede em frente, há uma estante de arrumação embutida. Nesta estão as caixas de ferramentas, produtos de limpeza, caixas com cenas, etc. Na parte de baixo, estão os sapatos e num outro separador também em baixo, vários garrafões de água para um just in case. 

No móvel havia de tudo: brinquedos, coisas da escola, sacos com indefinidos, vinhos, livros, roupas, bibelots, candeeiros, whatever. 

A divisão é estreita. Ao fundo, na parede onde está a janela (que raramente abrimos), está o aspirador, a tábua de passar a ferro e o ferro de engomar, algumas cadeiras de tipo realizador e outras de exterior e almofadas das espreguiçadeiras. Na parede oposta, a da porta, está um cabide de parede onde estão impermeáveis, sacos, chapéus de chuva. E, num canto, estão as vassouras, os baldes e as esfregonas. A babel da bagunça. Tão cheia estava que já tínhamos perdido o fio à meada.

Então, hoje o meu marido tirou praticamente tudo cá para fora. Apenas a zona das ferramentas lhe escapou. Diz que está bem assim, que encontra sempre o que quer. Eu acho que está a maior confusão. Nunca consigo encontrar o que quer que seja. Penso que deveria ter umas caixas grandes com compartimentos para poder ter as coisas organizadas por tipo e não, como está, tudo ao molho e fé em deus. Mas ele diz que não me meta no assunto e que não chateie. 

Mas, então, foi tirando coisas de todos aqueles compartimentos do móvel grande e de cima (porque estava até ao tecto). E eu, cá fora, ia triando. A quantidade e diversidade de coisas que saiu à cena é indescritível. Coisas que há muito julgava que se tinham perdido para sempre ali estavam. As coisas mais inenarráveis. Até um par de barbatanas e uma prancha de skimming. Não percebo. Vai-se encafuando e perde-se o rumo às coisas.

E tralha, tralha. Felizmente tínhamos cá um rolo de sacos pretos para o lixo. Fui enchendo. 

Apareceram mais uma porção de livros infantis e juvenis que eu não sabia onde andavam. Até livros meus, incluindo os da Berthe Bernage de que tanto gostei quando era miúda.

Os brinquedos e jogos estão agora todos na salinha de baixo da zona antiga da casa. Assim, é possível ver tudo e escolher o que se quer.

Temos ao fundo do corredor uma estante estreita de tamanho intermédio. Supostamente todos os livros infanto-juvenois estavam lá embora eu desde sempre me intrigasse por achar que deveriam faltar outros tantos. Mas como nunca os tinha contado e não fazia ideia de onde estavam os que achava que faltavam acabei por desistir de alimentar a dúvida. Apareceram. Como sobrava espaço nessa estante, tinha-se completado com livros de viagem e alguns de arquitectura que já não cabiam na zona deles. Agora estamos a pensar reorganizar algumas estantes, deixando esta apenas para livros para a maltinha jovem. Teremos é que arranjar sítio para os que de lá se tirarem.

E separámos alguns testes escolares ou trabalhos dos meus filhos que me pareceram com potencial interesse estimativo para que eles vejam se querem aproveitar alguma coisa. E brinquedos da minha filha para que ela decida se ficam, se vão fora.

E lavei alguns cortinados ou peças de vestuário que cheiravam a coisa guardada. E um vestido estampado de verão de que gostava muito e que acho que talvez sirva e fique bem à minha filha. É certo que o vestido era o 36 e que ela varia entre o 38 e o 40 mas pode ser que o 36 de antes seja o 38 de agora. Ela fica sempre surpreendida ao ver como eu cabia em roupinhas tão delgadinhas. Mas a vida é assim mesmo: as mulheres são como as árvores, o seu tronco vai ganhando espessura. 

Quanto ao resto -> lixo.

Sacos e sacos. Roupa para dar. Sacos com livros e cadernos para reciclar. E coisas para o lixo-lixo. O meu marido viu-se aflito para conseguir enfiar tudo no carro. E nunca mais aparecia de volta. Diz que esteve o tempo todo a separar os sacos pelos respectivos contentores.

Almoçámos às quatro da tarde.

Depois ainda pus uma cortina de casa de banho em lixívia, lavei uns tapetes, sei lá. E ele andou a desbastar a figueira e outros arbustos aqui em frente da janela da cozinha para que, ao estarmos aqui, tenhamos a sensação de que estamos em plena natureza. 
A janela é muito grande. Antes tinha umas cortinas de renda a meia altura. Agora achamos que preferimos a nudez do vidro que nos traz a visão integral do exterior. 
Sentámo-nos, entretanto, no sofá a descansar. Ele adormeceu logo. Eu não. Depois vimos dois episódios da Grace & Frankie.

Para o almoço limitámo-nos a restos (do peixe de ontem e de carne que trouxemos). Para o jantar, fiz ovos de tomatada que comi com pão pelo meio e que ele acompanhou com arroz.
E, com esta tomatada, acabei com os belos tomates do vizinho. Era bom que ele se lembrasse de cá voltar a pô-los à disposição. Mas, na volta, viu-me tão reticente em agarrá-los que agora se inibe. E isso será uma pena. Pode trazê-los à vontade que eu rapidamente lhes chamarei um figo.
Agora estive a fazer uma encomenda à ikea e, a seguir, adormeci. 

O meu marido há bocado perguntava: agora já está tudo ou ainda falta alguma coisa? Falta. Falta arrumar a parte de cima da escrivaninha. Está uma confusão desgraçada. Anos de crianças a mexerem e nós a fazer com que o tampo feche. Para encontrar alguma coisa é preciso muita destreza e equilibrismo. Uma coisa tipo mikado.

Se calhar, quando tivermos arrumado tudo, e ele desbastado mato e eu varrido tudo à volta da casa, vamos sentir-nos fatigados por já não termos nada que fazer. Mas, por enquanto, não descansamos enquanto não nos esfalfarmos a trabalhar.

Há explicação para isto? Estamos a ficar uns workaólicos da ménage? Ou what?

Será que não vou conseguir passar um dia de perna estendida...? Pergunto-me.

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Martha Argerich e o neto, David Chen, interpretam Laideronnette de Ravel. As maçãs são aqui mostradas por William Mullan

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.
Saúde. Alegria. E força nisso.

segunda-feira, agosto 16, 2021

Um fds de tareia

 



O meu marido, ao fim do dia, disse-me: Tu olhas para mim e não vês um idoso... mas olha que sou...'. E sorriu, dúplice. Estava em cima do escadote a colocar um varão metálico, enorme e pesadíssimo. Respondi-lhe que, de facto, o vejo como sempre vi: um homem à altura das circunstâncias. Riu-se e fez que sim com a cabeça, como quem pensa: está bem, abelha; dá-me música. 

Ficaram os três varões colocados e as cortinas levezinhas de uma das salas também mas os cortinados pesados já não deu. Estiveram ao sol, sacudimo-los, mas achamos que devem ser aspirados. São uns reposteiros de um tecido muito encorpado e, ainda por cima, forrados. Pegar neles requer músculos frescos e, ao fim do dia, a canseira já se fazia sentir. Deixei-os estendidos no chão da sala, a repousar, a ver se não se amarrotam. Quando lá voltarmos logo tratamos deles.

Ainda há muita coisa para arrumar. Como toda a casa foi pintada por dentro, na prática só lá ficaram os móveis. Bibelots, louças, roupas, livros, quadros, espelhos, tapetes, almofadas... tudo foi para o estúdio. 

Agora que já limpámos e lavámos a casa, começámos a trazer as coisas. Mas deparam-se-nos dúvidas. Como quero ter muito menos tralha à vista, há que arranjar local para guardar a remanescente. Não quero deitar fora coisas boas e de que gosto pois quem sabe um dia não me apetece voltar a ter algumas coisas à vista. No entanto, já foi fora imensa coisa.

Depois há os brinquedos e jogos que, por acharmos que os miúdos gostam de os ter à vista quando lá vão, estavam numa das salas. Agora acho que já estão grandinhos e, sobretudo, gostava de ter menos coisas que dificultem a limpeza. 

Acontece que a minha casa, por características arquitectónicas muito particulares, tem pouca arrumação. Também são opções decorativas minhas. Não gosto de móveis grandes que encham as casas, deixando-lhes pouco espaço para respirar. Já contei que, quando lá chegámos, in heaven, a casa era soturna, escura. Havia móveis escuros em toda a casa. 

Os anteriores proprietários tinham-se separado. Ele gostava daquilo e de fazer obras e melhorias em casa. Ela odiava a vida no campo, a pasmaceira, e o marido sempre entretido em coisas que pouco lhe diziam. Lembro-me de um vizinho contar que ela, às vezes, saía a correr de casa, como se quisesse fugir daquele fim de mundo. Divorciaram-se e deixaram tudo para trás. E o que deixaram revelava bem o desinteresse pela harmonia e a tristeza que a habitavam (melhor: que os habitavam a eles também).

A sala da lareira era tristíssima. Para começar, a própria lareira era acanhada, tímida. Mas o pior é que a parede maior estava preenchida com um daqueles móveis modulares, em mogno escuro, que, em tempos, se usaram. Portas em cima, portas em baixo, nichos, estantes, bar -- tudo aquele móvel tinha. Devia ter quase uns três metros de comprido e, de altura, não sei bem, talvez uns dois ou mais. Em madeira escura. De facto, aquilo tinha arrumação para tudo e mais alguma coisa mas tornava a sala sorumbática. Foi logo para a despensa. Vai de parede a parede e do chão ao tecto. E está cheio de brinquedos, de livros infantis, de trabalhos dos meus filhos de quando andavam na escola, de garrafas, de material de revelação de fotografia... sei lá. Um dia que me reforme hei-de dedicar-me a pesquisar o que por lá há... e certamente encherei vários sacos de lixo. Mas isto para dizer que o único móvel com arrumação está atafulhado, já não cabe lá mais nada, acho que nem um alfinete. 

Há ainda, cá fora, a casinha das ferramentas mas está na mesma, a precisar de arrumação à séria. Disse isso ao meu marido: Havíamos de arrumar a casinha a ver se arranjamos espaço. Respondeu-me: Força, estás à vontade. Calei-me pois aquilo não é petisco para uma lady, muito menos alone. 

Portanto, agora temos uns três caixotes com coisas que não sabemos onde pôr. 

Já tenho uma ideia mas não consegui expô-la cabalmente pois o meu marido ficou logo arreliado: não estejas sempre a arranjar coisas para eu fazer...  Não disse coisas, claro, utilizou uma palavra menos perfumada.

Agora, enquanto escrevo, reparo que ainda não consegui tirar a tinta toda de mim, ainda tenho um ou outro salpico no braço e uma unha quase toda coberta.

Já pintei uma mesinha de branco. Mas o branco é ingrato. Gastei quase uma lata de spray e o escuro do mogno não ficou bem coberto. Com as outras cores tem sido mais fácil.

Tinha também daqueles pequenos móveis que acho que se chamam colunas, umas mesinhas minúsculas, com pés fininhos, altos, com uma prateleirinha em baixo. Eram das minhas avós. Pintei uma de cor-de-rosa pastel, pálido, e outra, a maior, de um verde que pensei que ficasse mais pálido mas que, ainda assim, não ficou mal. Os móveis ganham logo outra graça e a casa também.

E ainda tenho mais umas duas ou três para levarem igual tratamento. 

Tinha, na parede da casa de banho maior, uma moldura escura em volta de um azulejo pintado à mão. Não gostei de ver. Pintei-a também. Mas deu luta pois tem um friso dourado que tentei preservar; não foi fácil. Tenho que arranjar fita-cola de pintor. Usei fita-cola larga normal e rapidamente percebi que não é a mais aconselhável.

Tenho umas outras que vou ver se arranjo spray dourado ou prateado para as aclarar e iluminar. 

Na sala da lareira também já há um tapete novo, mais claro que o anterior que foi para outro sítio.  A sala está muito mais alegre, iluminada, envolvente. Para a cozinha foi um outro que estava quase escondido. Talvez seja mais pequeno do que devia mas é bonito. Tenho que ver se me habituo à sua dimensão.

Não temos tido um minuto de descanso entre ir comprar o que nos faz falta e limpar, arrumar, colocar. 

Por exemplo, atrás das portas do quarto e das casas de banho, portas que eram de madeira escura, havia uns cabides de madeira, aparafusados às portas pelo lado de dentro. Agora com as portas branquinhas, nem pensar em atarrachar-lhes aqueles cabides. Entã,o fomos este domingo de manhã comprar uns branquinhos, daqueles que se põem a passar pela parte de cima da porta, não sendo preciso parafusos ou pregos. 

Nas mesas de cabeceira tínhamos uns candeeiros de pé dourado e com abat-jour de papel de tipo pergaminho com filet dourado. Dantes eu gostava sobretudo de coisas elegantes. E não pensava se eram ou não frágeis. E geralmente eram. Com o tempo, os frágeis abat-jours queriam separar-se do aro dourado que os sustinha e tínhamos que andar sempre a obrigá-los a um equilibrismo. Então, resolvemos dar-lhes tréguas. Comprámos uns simples e aparentemente indestrutíveis. Já lá estão. As mesas de cabeceira, tal como a cómoda, já não são escuras: são agora de um branco com toque a verde-água. Com o tampo em mármore, tudo fica clarinho a sereno. Os candeeiros ficam lá muito tranquilos, sólidos e, ao mesmo tempo, discretos.

Fomos no sábado e trabalhámos no duro até que, ao fim do dia, interrompemos para irmos visitar a minha mãe e virmos jantar a esta casa (a lindas horas, diga-se...). De manhã, neste domingo, estava eu a dormir o sono dos justos, acorda-me ele: 'estive aqui  pensar que, se calhar, o melhor era voltarmos lá para ver se damos cabo daquilo'. Não costumo ser receptiva a propostas desonestas quando sou acordada no primeiro sono mas, assim como assim, a ideia pareceu-me boa. Arranjei os mantimentos e fomos, parando para irmos às referidas compras. 

De facto, como balanço, posso dizer que ainda não foi desta que demos cabo daquilo. Mas trabalhámos alarvemente. Como de costume, andei descalça e não apenas andei de balde e esfregona como andei a lavar à agulheta uma série de coisas. E a pintar e a arrumar e a sacudir almofadas e tapetes. E sei lá que mais,

Viemos de lá tardíssimo, estafadíssimos. O que nos valeu é que os figos já estão bons senão também teríamos vindo varados de fome. 

Aliás, com este calorão, quer-me cá parecer que estão a ficar maduros à força, quase cozidos, sem terem tempo de crescer. 

Apanhei os que estavam à sombra, mais à fresca, e, logo ali, despachei o assunto. Estes aqui acima, que são os que estão mais perto de casa, são dos pardinhos, encarnado-rubi por dentro, doces que só visto. Depois de ter a barriga cheia, apanhei mais uma mão cheia deles para levar ao ancião que andava a esfalfar-se lá dentro. Isto por umas duas vezes.

Chegámos tarde e más horas e logicamente ainda fomos tomar banho. Portanto, jantámos (restos) bastante tarde. 

Passado um bocado de aqui estar deitado, adormeceu. Eu também estou capaz disso até porque já é tardíssimo mas, antes de me ir deitar, gostava de ainda ver um episódio da série que tenho andado a ver, o Bodyguard. Estou a gostar. O mundo dos Serviços Secretos interessa-me.

E ainda vou seleccionar umas fotografias quer feitas aqui quer in heaven. Já viram que consegui captar o pica-pau que por aqui estou sempre a ouvir?

E, pronto, é isto. 

Esta segunda-feira é dia de trabalho. Com sorte, consigo restabelecer-me da tareia que foi este fim-de-semana. 

[Tareia mas tareia da boa, note-se. É disto que eu gosto: de mudar, de limpar, de arrumar, de varrer, de lavar, de pensar em tornar a casa mais acolhedora, mais bonita]


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Desejo-vos uma semana muito boa.
Saúde. Alegria. Motivação.

quarta-feira, agosto 04, 2021

Dia de ida ao médico

 



Há dias em que tudo converge: todas as reuniões parece que têm que ser naquele dia, todas as urgências parecem inadiáveis. E calha no dia em que há consulta, também ela inadiável. E a campainha a tocar quando se está em reunião, telefonemas a chegarem quando se está ao telefone. Podem dizer que isto dos astros é treta mas, se isto não é um alinhamento astral destrambelhado, não sei o que seja.

Foi esta terça-feira. Hoje era dia de ir mostrar análises e um dos exames mas parece que não havia mais coisas para tentar encaixar. Um stress que tentei gerir sem me stressar.

No médico, nada de muito especial mas, ainda assim, necessidade de continuar e complementar a medicação e prescrição de novo e algo sofisticado exame, daqui por uns seis meses, para validar como estão as coisas e observar mais em pormenor o fluxo sanguíneo, em especial em determinadas condições. Ainda se tenta perceber o que me aconteceu e causou as sequelas que subsistem. Melhor: não propriamente a causa, que essa pode ter sido qualquer uma, mas, mais, tentar perceber os riscos de que volte a acontecer algum acidente ou se as sequelas são apenas as já identificadas ou se há outras.

Gosto do médico. É sóbrio, atento. 

Lê o relatório, vê as imagens, volta a ver e pergunta-me: 'Como se sente?'. Respondo: 'Bem'. Ele olha para mim com atenção. Faz-me impressão que me olhem assim quando tenho a cara quase toda coberta. Tenho vontade de tirar a máscara para que veja que não estou a mentir. Insiste: 'Não sente cansaço? Falta de ar?'. E olha-me. Confirmo: 'Não, não sinto nada.' Depois rectifico: 'Sinto-me normal'. Ele continua a olhar-me. Por momentos duvido de mim. Serei tão optimista que nem percebo que não estou bem...?. Mas não corrijo a resposta. Ele diz: 'Ainda bem'. Mas depois, volta ao mesmo: 'Não tem sentido dores no peito, tonturas, falta de fôlego?. Confirmo de novo: 'Nada. Normal'.

Explica-me e comenta os resultados do exame. Ouço com atenção. Por sua iniciativa, responde à pergunta que eu poderia ter feito: 'No limite o que poderá acontecer-lhe é...' e diz o que é. Não digo nada mas penso e ele, de novo adivinhando-me o pensamento, acrescenta: 'Mas, face ao seu estado actual, diria que é pouco provável que isso aconteça'. Não comento mas penso que também acredito que é pouco provável. 

Depois levanta-se, coloca-me a pinça no dedo e lê o valor no monitor. Então comunica-me, como se a tranquilizar-me: 'O oxigénio está bom'. Já no outro dia aconteceu o mesmo. Fico intrigada. Será que pensa que isso me preocupava? Melhor: será que isso é coisa com que deva preocupar-me? Não percebo. Mas, como ando numa de não querer saber tudo, não pergunto. Mas porque haveria de estar com o oxigénio baixo? Depois passa para a tensão. 'Está boa', diz-me. Ausculta-me. Como não diz nada, agora pergunto. Ele diz: 'Está bem'. Depois vê-me a pulsações nas pernas, um pouco acima do tornozelo. Diz: 'Também está bem'. Nunca tal me tinha acontecido, verem-me a pulsação na perna. Estive para perguntar mas logo me desinteressei. Se calhar acha os meus pulsos pouco credíveis.

Por fim, pergunto se há cuidados que deva ter. Detesto 'cuidados a ter' mas, apesar disso, acho que devo saber. 

No domingo estivemos in heaven e, na sequência das pinturas, a casa estava virada do avesso, tudo cheio de pó. Com a porta aberta e gente a entrar e sair durante uns dois meses (dois meses intermitentes pois acho que foram mais os dias em que não iam do que os que iam), deixaram a casa num lindo estado. Ainda por cima, levaram o balde e a esfregona. Por momentos pensámos que o melhor era contratar uma empresa de limpezas. Mas as coisas não estavam no sítio, tudo desarrumado e, sem lá estarmos, gente desconhecida, era outra chatice e mais demora. Fomos comprar o balde, a esfregona e produtos e deitámos mãos à obra. 

Gosto de fazer limpezas profundas. Limpo móveis ao pormenor, por trás, por baixo, escovo-lhes os meandros, lavo casas de banho, azulejos, esfrego. 

Há tempos uma conhecida cujo marido é um médico experiente, conceituado, disse-me dele, à sua frente: 'acho que a vocação dele é tratar da casa'. Ele sorriu e encolheu os ombros, com compreensão perante os desmandos da mulher. Eu entendo-me bem com ela, o meu marido entende-se bem com ele. Ela disse isso na sequência de estar a contar-me que o marido, uma ou duas vezes por ano, aluga uma máquina profissional de encerar, se bem percebi uma máquina que antes retira a cera anterior e, depois, aplica a nova e dá brilho. Dizia ela que ele andava pela casa com a máquina, parecia, dizia ela, um daqueles trabalhadores que, nos hospitais, andam com grandes máquinas a lavar e encerar os corredores dos hospitais. E eu às vezes penso que, na volta, a minha vocação também é fazer limpezas profundas, grandes arrumações. Não a banalidade e a pouca coisa. O dia a dia, na lida doméstica, não me despertam interesse. Mas andar descalça, meio despida, cabelo apanhado, de vassoura, balde, esfregona, panos e embalagens de produtos de limpeza, isso, sim, motiva-me à brava. 

Saímos de lá já tarde mas com parte da casa já habitável, limpinha, cheirosinha.

Felizmente, foi no domingo passado. É que o médico disse-me hoje: 'o cuidado a ter é, sobretudo, quando estiver cansada, descansar.' Fiquei a olhar e a processar. Parecia um conselho la-paliciano demais. Ele explicou: 'Evite cansar-se. Se sentir cansaço, descanse'. Quando cheguei ao pé do meu marido pensei se não deveria sonegar-lhe essa informação. É que, agora, receio que tente condicionar-me por tudo e por nada. Mas a verdade é que, no domingo, andei naquela trabalheira toda e não me cansei. Contudo, se fosse agora, não só andaria ele a querer que eu não andasse naquilo como, com tanto cuidado, até eu ficaria de pé atrás, se calhar a tentar descobrir algum vestígio de cansaço.

Não tenho vocação para ser uma 'mulher doente'. 

Enquanto estou na sala de espera, esqueço-me da minha própria condição. Durante um bocado, mantive-me sentada, sossegada. Quando dei por mim estava quase a dormir. Então, para ver se me mantinha acordada, pus-me a observar as pessoas. A mulher, talvez com uns quarenta e tal anos que devia ter tido um avc ou qualquer outro acidente que a deixou combalida, quase incapacitada. O marido e os filhos tentavam ajudá-la, orientá-la. Ela apática, arrastando-se, perdida. 

Às tantas, para espertar, levantei-me pus-me fazer piscinas no corredor. Eu num sentido, um outro, talvez da minha idade ou um pouco mais novo, a fazê-las em sentido contrário. De cada vez que ele passava ao lado da funcionária, protestava. Estava quase colérico, que no sns os atrasos compreendiam-se, ali não. Eu, tranquila, observando. Já não tinha compromissos, estava zen. Depois uma mulher jovem, despachada, bonita. Queria saber se podiam tirar-lhe um pontos que tinham ficado esquecidos. Sentei-me por perto para ouvir e tentar perceber que mistério era aquele. Como tantas vezes me acontece, pensei que gostava de abordar as pessoas, pedir para fotografá-las, fazer-lhes perguntas. Depois chegar aqui e fazer reportagens autorizadas. Assim, não posso dizer tudo o que ouvi: sem autorização das pessoas, seria coisa de paparazzi pôr-me aqui a relatar o que ouvi à sorrelfa.

Depois do médico, fomos ao Leroy comprar primário e um rolo com cabo e à Fnac buscar uma coisa. Ao estar ali, deu-me uma vontade súbita de mergulhar no mundo antigo. Fui à Zara. Estranhamente, nada me seduziu. Para onde olhava, não apenas não via nada de extraordinário como pensava que não tinha falta. Ao passar pela Natura e pelos seus saldos, também me deu vontade de espreitar. A mesma coisa. Ao fim de cerca de ano e meio sem entrar em lojas de roupas de mulher... entro e nada me seduz. Nada. Concluí que estou curada: já não sou consumista. Como é óbvio, fiquei contente.

Ao chegarmos a casa, estreámo-nos nos testes covid. O meu marido tem andado constipado, com tosse, com dores de garganta, adoentado. Então, resolveu testar-se. Eu ia lendo as instruções e ele ia zaragatoando as narinas, espremendo a zaragatoa no frasco não sei quantos, etc. Comprou dois testes. Se ele estivesse positivo, a seguir testava-me eu. Felizmente está negativo. Portanto, tout est bien qui finit bien.

Para o jantar, resto do frango assado que trouxe, no domingo ao fim do dia, de um take away não muito longe da casa da minha mãe. Tinha feito ontem uma salada russa, cujo resto acompanhou o frango. Fácil e agradável. 

Depois de jantar, ligou-me o meu filho. Tinha estado a jantar com um outro médico com quem falou do que o meu me tinha prescrito. Eu tinha-lhe contado quando ele me ligou antes de ir jantar. Tinha-me logo dito que achava que o medicamento novo batia na trave. Confirmou: a opinião do outro médico era também que os colaterais eram grandes e que, na opinião dele, eu não deveria tomar. O meu filho disse que nisto o melhor seria eu ler o folheto, avaliar e tomar a decisão por mim, levando também em conta a confiança que o cardiologista me inspira. Concluí que a medicina é tudo menos ciência exacta. Concluí também que vou perguntar à minha mãe que chá me recomenda. Ou seja: não tenho paciência nenhuma para isto.

Tenho aqui ao meu lado o livro que ando a ler, de que estou a gostar bastante e do qual queria transcrever um bocado. Mas não deu. A ver se amanhã, consigo. 

E, assim de repente, nada mais. Apenas mais um dia nesta minha vida que tem pouco que se lhe diga.

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Fotografias provenientes do artigo do Guardian: Top seeds: artists capture global efforts to future-proof nature. 

Ben Harper & Vanessa Paradis interpretam Waiting on an Angel

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Desejo-vos um dia muito bom

Saúde. Alegria. Ânimo

segunda-feira, novembro 02, 2020

Sempre existirão dentro de nós
[e, ainda, a despropósito, aquelas insignificantes minudências de que a vida é feita]

 


Não há um dia específico para lembrar aqueles que partiram. No outro dia a minha mãe, ao conversar comigo sobre uns amigos de juventude, ia referindo um e outro e acrescentava 'já morreu' e a seguir 'também já morreu'. Às tantas, resumiu: 'desses tempos, só já cá estou eu e ...' e referiu mais umas duas ou três pessoas. Depois acrescentou que isso lhe faz um bocado de impressão. Imagino. Penso algumas vezes como será quando eu tiver a idade dela, vendo-me cada vez mais perto do fim da linha. 

De todos os que, da minha família, se foram nos últimos tempos, guardo memórias que acarinho. Não tenho para elas um dia em especial. As memórias vêm quando vêm. Não penso neles como seres ainda com matéria que justifique uma visita. Para mim, fisicamente já não existem. Uns estão enterrados, outros foram cremados. De uns foram depositadas as cinzas, de outros havia a ideia de as deitar ao vento em lugares que lhes eram queridos. 

Por isso, o dia em que se recordam os que partiram não tem, para mim, qualquer significado. É apenas mais um dia. 

A vida é isto mesmo, um daqueles tapetes rolantes em que entram uns, saem outros. Quanto tempo nos vamos aguentar em cima dele é uma incógnita. Tenho um amigo que organiza a sua vida em função de quando for mais velho, chegando mesmo a equacioná-la caso fique viúvo. Aliás, ele não o explicita, diz apenas: 'não quero isso pois, se um se for e o outro se vir sozinho, não sei como seria...'. Eu, que sou optimista militante e despreocupada, penso em função do que vale a pena. Se agora é bom, já vale a pena. Pode ser bom apenas durante uns dias, mas já vale a pena. Pode acontecer uma hecatombe e o futuro não ser nada daquilo que se pretendia mas se, enquanto durar, for bom, então, já vale a pena.

E, durante um bocado da nossa vida temos connosco amigos e família que, aos poucos, vão ficando para trás e, ao mesmo tempo, vão entrando outros. É assim. Não vale a pena pretender que seja de outra maneira.

Hoje, aproveitando estarmos no mesmo concelho, fomos de manhã à praia e encontrámo-nos lá com a parte da família que também cá mora. Todos de máscara apesar do ar livre. Os meninos andam na escola, os mais pequenos sem máscara, portanto nunca se sabe. Também é um dado adquirido que resisto mal a manter-me afastada deles. Portanto, para me protegerem, não tiram a máscara. Enquanto os pais foram correr, eu joguei ao disco com a menina, fiz buracos na areia com o mais pequeno, fiz pizas com o do meio, organizei saltos em altura e em comprimento com todos. Ar livre, aquela leve neblina que nasce junto ao mar, a companhia dos meus. Tão bom. Bom tempo, apesar de tudo. Uma temperatura branda, poucas pessoas, um areal amplo. A água estava boa mas apenas molhei os pés. Depois deles terem ido, fomos nós dois fazer uma caminhada.

De tarde, andei, de novo, de volta dos livros. Na primeira leva, houve uns maus passos. Não sei como, algumas autobiografias, biografias e correspondência que não de língua portuguesa vieram parar à estante dos autores de língua portuguesa. Provavelmente por falta de espaço nas estantes lá de cima. Em contrapartida, vários de língua portuguesa foram parar às estantes onde supostamente só devia haver autores que não de língua portuguesa. Por isso, andei abaixo e acima a trocar a questão das nacionalidades. Depois a reorganizar: uma zona para correspondências, outra para entrevistas, outra para diários, outra para autobiografia, outra para biografias. E outra para crónicas. Em baixo tudo isto mas de autores de língua portuguesa. Em cima a mesma coisa mas para não de língua portuguesa.  Também autonomizei numa pequena estante, os livros que falam de livros, que falam de literatura ou de crítica literária. E ainda vou arranjar uma prateleira específica para literatura pornográfica/humorista/picante. Constatei que tenho pouco deste género. Não sei se há mesmo pouca, se sou eu que tenho pouca. Acho que, um dia que tenha tempo, hei-de tentar compor o ramalhete.

Tive que interromper pois tinha mais que fazer pelo que esta segunda-feira terei que arranjar tempo para ver se concluo a empreitada.

Não tive foi tempo de ir arrumar as roupas que vieram no outro dia e que ainda estão em sacos. Tenho que ver bem como as separo e guardo. A roupa guardada durante muito tempo fica a cheirar a mofo, parece que fica áspera. 

Este domingo fiz uma máquina com toalhas turcas que vieram no outro dia. A maioria já tinha vindo. Estas estavam esquecidas lá num roupeiro. Apesar de estarem lavadas, não consegui guardá-las assim. Parece que a roupa perde a vida quando está esquecida. Mas tudo isto dá trabalho. O meu marido queixa-se, diz que nesta casa não consegue descansar, há sempre coisas para fazer. É verdade, tem razão. Mas é porque ainda estamos na fase de instalação. Também todas as caixas que trouxemos no outro dia, tupperwares, jarros, medidores de líquidos, coisas assim, é tudo lavado antes de ser guardada. Uma trabalheira. E decidir onde se guarda, outro desafio. Para as coisas não ficarem atravancadas, para ficarem acessíveis, para ficarem arrumadas de forma lógica... é preciso cá uma ginástica mental...

Estes armários da cozinha vão até ao tecto. Há, pois, muita arrumação. Contudo, só com escadote alto eu conseguirei chegar às últimas prateleiras. Por isso, aquilo que o meu marido tem posto lá para cima, é bem capaz de também ficar meio esquecido. Quando penso em voz alta sobre estes profundos dilemas, o meu marido remata sempre: se deitasses fora tudo aquilo de que não precisas já não tinhas tantos dilemas... E aí eu calo-me.

Tirando isso, o que sei é que este ano, ao estar afastada das zonas de consumo, não sei como estão as lojas. Já devem estar a antecipar o natal mas imagino que seja um bocado triste. As lojas devem estar meio vazias de fregueses e mais ainda hão-de ficar. E os proprietários e os empregados devem estar assustados. Compreendo. O comércio, com o tempo, vai deslocar-se para o online. As grandes superfícies tal como os grandes espaços de escritórios devem ter o destino traçado. Mas outras coisas surgirão. Há-de desenvolver-se tudo o que tenha a ver com a natureza, creio. E com a proximidade, onde possamos ir a pé, onde nos conheçamos todos. O regresso ao espírito de aldeia. E isso talvez seja bom. A sociedade há-de ajustar-se e adaptar-se a tendências sociais que vão surgindo. É isso: uns saem do tapete rolante, outros entram. Pessoas, hábitos. 

Ficam as memórias. Sempre as guardaremos dentro de nós.

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Rianne van Rompaey aqui é fotografada por Mikael Jansson ao som de Always on my mind numa interpretação de The Webb Sisters.

E Tom Hiddleston diz Do not go gentle into that good night de Dylan Thomas 

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Desejo-vos uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira.

domingo, novembro 01, 2020

Vamos ter que viver com o coronavírus, em relação de dependência, até finais de 2021...?
Ah pois vamos.
Por isso, vamos lá a ver como melhor sair desta vivos, inteiros e prontos para reaprender a viver como se fossemos livres.

 


Hoje trabalhámos imenso. Estivemos a arrumar as coisas que vieram no outro dia, no último round da mudança. Caixas, sacos. E a colocar no lugar certo o que tinha vindo da primeira vez e que tinha sido colocado um bocado ali, só para nos livrarmos de caixas. Bibelots não utilizados, roupa que estava provisoriamente onde não devia, à espera que viessem os roupeiros, revistas de decoração, revistas Ler, revistas Relâmpago, livros da minha área académica, da área dele, coisas assim. Já está quase tudo. As jutas e lãs dos tapetes de arraiolos também já estão arrumadas. Malas, carteiras também quase tudo. Produtos que vieram das casas de banho também. 

Ainda há algumas na outra casa mas já é tudo residual. Já não assusta, nem há pressa. O meu marido diz: quando vendermos a casa, vamos buscar o resto. Espero que antes mas também não faço grande questão. Sei que vai ser outra sessão de decisões complicadas. Por exemplo, ele trouxe pouca roupa. Dos vários blazers azuis, todos iguais, que lá tem, deve ter trazido um. Dos de bombazina, ainda no outro dia que espreitei vi aquele azul muito escuro, praticamente preto, que eu gosto tanto de lhe ver. Diz que não precisa deles todos, que já têm algum tempo, que vai dar tudo. Nem quero pensar. Camisas vi lá uma enfiada delas. Diz que já trouxe aquelas de que precisa. Parkas são várias as que ainda lá estão, em bom estado, bonitas, boas. Não quer, diz que não quer encher os armários, que já cá tem que chegue. Não ando com disponibilidade para reagir mas sei que isto vai dar irritação. Faz-me impressão uma pessoa desfazer-se de tudo sem querer saber de vir a precisar ou a apetecer-lhe usar e já não ter. Está cada vez mais minimalista, mas a um ponto que a mim quase me choca. Por isso, não me importo de ir adiando esse confronto.

Mas foram horas e horas, a arrumar, a levar daqui para ali, a subir e a descer escadas. Uma canseira. Amanhã ainda há que fazer mas já muito menos. 

Devo dizer, contudo, que gosto de fazer arrumações de fundo. Gosto de pegar numa coisa que parece caótica, uma cave cheia de caixas e sacos e tretas e, aos poucos, ir vendo tudo a compor-se, a desordem a transformar-se em ordem. Gosto mesmo. A ver se amanhã, depois de tudo arrumado, o espaço amplo e organizado, varro e lavo o chão. Tenho este lado de femme à ménage que é muito forte.

De manhã, antes de começarmos com a empreitada, fomos fazer uma caminhada na praia. Estava um sol bom. Tirei a blusa de manga comprida, fiquei apenas com um top de alcinhas. Mantive as calças porque me pareceu que ficar de cuecas era capaz de ser chato. Este domingo levo calções. Apanhar sol é bom. Andar é óptimo. Depois fomos ao supermercado pois ontem não arranjei produto para limpar madeiras. Aproveitei e trouxe peixe que fiz cozido com todos. Fiz ainda uma máquina de roupa.

Ando com um vaso de Erica gracilis para transplantar há uma semana e ainda não tive tempo. A ver se consigo antes que definhe. Também tenho uns caroços de pêra abacate que quero plantar a ver se nascem árvores gigantes e carregadas de fruta macia que também quero ver se é este domingo que é desta.

Tirando isso, a pandemia. As notícias não são boas e a ver se um dia destes não estamos à volta dos 10.000 novos casos por dia. Não sou puto alarmista ou pessimista mas, neste caso, a menos que as mais recentes medidas sirvam de travão às quatro rodas, não estou muito tranquila. Isto vai ser a doer (aliás, já começou a doer).

Estive a ler uma entrevista a Christian Bréchot, presidente do Global Virus Network e o que ele diz não é especialmente animador: que a primeira leva de vacinas será para os grupos de maior risco, que será pouco eficiente, e que vacina mais efectiva e para o maralhal só lá mais para os fins de 2021. E que os tratamentos existentes são limitados, pouco clara a evidência da sua eficácia. Tudo ainda muito nebuloso. Portanto, é isto. Um cenário do caraças.

Ou seja, dado que o cenário é nebuloso e incerto, temos que aprender a virar-nos. Temos que aprender a perceber melhor os mecanismos de contágio para tentarmos sobreviver sem grandes danos, não nos deixando contagiar e, também, não menos importante, sem contagiarmos outras pessoas. E temos que arranjar mecanismos para irmos passando por entre os pingos da chuva sem desaprendermos as manifestações de afecto que agora são contrariadas pelo distanciamento. Isso preocupa-me e chateia-me (o que, podendo parecer que são coisas sinónimas, não são).

E temos que sei lá o quê, que nada disto é fácil. Os hospitais vão estar cada vez mais a rebentar pelas costuras. E a gente ter alguém da nossa família a entrar para um hospital numa altura destas e não poder acompanhar, estar perto, visitar, é uma dor de alma. Sei bem do que falo. E para quem está doente e é internado ainda bem pior deve ser, uma solidão e um medo que ninguém merece. Portanto, a ver se nos portamos inteligentemente para sairmos deste pesadelo bons do corpo e da alma.

Por mim, vou-me socorrendo da beleza. Nomeadamente da beleza das palavras. E da beleza das imagens e da música. 

Abaixo, Shakespeare - Soneto 116 lido por Sir Patrick Stewart. Um bálsamo.


As fotografias são de Hatti Rees ao som de Les Feuilles Mortes numa interpretação de Yves Montand

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E tenham, meus Caros, um belo domingo