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quinta-feira, abril 26, 2018

Mário Soares anda pelo Jardim a partir deste 25 de Abril


Não fui a manifestações, não participei em eventos de qualquer espécie. Acordei cedo convencida que iríamos dedicar o dia a cortar mato mas, afinal, não sou só eu que tenho o corpo despreparado para grandes labutas rurais. O meu marido também anda com um ombro dorido. Ainda por cima, andar ontem à noite a passear com o bebé ao colo, deixou-o ainda pior. Portanto, mudança de planos. 

Fomos cirandar. Depois de almoço rumámos ao restaurado e recém nomeado Jardim Mário Soares que antes chamávamos de Campo Grande. Por lá tinha andado, umas duas horas antes, Marcelo Rebelo de Sousa, Ferro Rodrigues, António Costa, Fernando Medina e membros da família Soares.




Durante os anos de estudo, era frequente andar por estas bandas. Alugávamos bicicletas e andávamos por ali e pela Cidade Universitária. Sempre gostei muito de andar de bicicleta e ali havia como. Era também normal jantarmos na Cantina de Farmácia ou da Cidade Universitária e, de caminho, passarmos pelo jardim do Campo Grande.

A minha filha, com quem estive agora a falar, também ainda se lembra de andarmos de barquinho lá no lago. Diz que se lembra do pai a rabujar. E eu lembro-me porquê. Eles não paravam sossegados, tudo aquilo balouçava, eu ria a bandeiras despregadas, e o meu marido, sozinho, tinha que aguentar o barco.


Os barquinhos ainda cá estão. O jardim agora está mais bonito, mais arranjado. Tem agora elevações que dão graça à paisagem, que protegem do vento e isolam do ambiente urbano. É um oásis no meio da cidade e nem se dá pelas ruas circundantes, cheias de carros.


Tem agora também um outro laguinho e já cá andam meninos a tomar banho e a brincar. Sobre a curiosa escultura que está pousada no topo, transcrevo:
Fonte-escultura, que representa uma caricatura, decorrente do desenho cartoonado, executada, em 1992, por Samuel Torres de Carvalho, mais conhecido por Sam, e traduz uma peça única, metálica, resultante de várias formas que ao serem insufladas se transformaram numa só, à semelhança de um balão habilmente manipulado. Localizada na margem do lago do topo Sul do Jardim do Campo Grande foi inaugurada, em 17 de Setembro de 1993, por iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa.
Escultor - Samul Azavey Torres de Carvalho. Data - 1993. Material - Bronze. Estilo - Figurativo.
 Mesmo na direcção da casa de Mário Soares, mais um apontamento: só é vencido quem desiste de lutar.


Fiquei agradavelmente agradada. Muitos casais jovens com crianças, a andar de bicicleta, a patinar, as zonas de parque infantil cheias, muitos jovens, muita gente. Pensei que, durante anos, quando estava num qualquer outro país, ficava sempre admirada porque, lá, as pessoas andavam na rua, desfrutavam os espaços públicos. A primeira vez que passeei em Hyde Park fiquei espantada: gente a apanhar banhos de sol, deitadas na relva, homens em tronco nu, gente a tocar. Cá ninguém ia para os jardins e esplanadas, era gente maioritariamente encafuada, ensimesmada.


Penso que muito do ambiente opressivo de antes do 25 de Abril perdurou nas mentalidades durante muitos anos depois. 

O tempo que passa, o intercâmbio estudantil do Erasmus, as viagens low costs que facilitam o conhecimento de outras culturas e a multidão de turistas que nos últimos anos têm trazido novas práticas, têm ensinado aos autóctones o gosto pelo convívio, pelo contacto com a natureza, a descontração de se fazer o que apetece desde que não se moleste ninguém.


Um pouco mais à frente, li 'Sempre' e pensei: tomara que, para todos, seja 25 de Abril sempre. E que haja a vontade inquebrantável para defender a democracia e a liberdade sempre.


Como já não ia para aquelas bandas há algum tempo, não sei se alguns dos edificados ou apontamentos escultóricos já ali estão há muito ou se são recentes. O que sei é que gostei. Claro que alguns estão grafitados de forma despropositada mas, nisto como em tanta coisa, penso que há ainda um caminho de aprendizagem a percorrer. 

Penso que os poderes públicos, nomeadamente a nível autárquico, têm uma palavra a dizer. O graffiti pode ser uma arte e penso que se for dado espaço e prestado respeito a quem a pratica passará a haver compreensão de que a sua prática indevida pode ser puro vandalismo.


E, estava eu fotografando, isolada do mundo como sempre me acontece quando toda eu convirjo no que estou a observar, quando ouço o meu marido a chamar-me. 'Olha, ali a atravessar a rua, o Eduardo Lourenço'. Estava parado nos semáforos, esperando que abrisse o verde para peões na direcção talvez da Biblioteca Nacional. Enterneci-me. Comemorando o 25 de Abril, o estóico filósofo, 94 anos, ali estava junto ao jardim que relembra Mário Soares. Um país é feito de muita coisa: da sua história, da sua geografia, das suas gentes, da sua memória, dos seus desígnios mas quem consegue a fusão de todos os aspectos e sabe transformá-los na matriz genética do povo são as pessoas da cultura. Deles somos todos eternos devedores.


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Enquanto escrevia este post e escolhia as fotografias para aqui colocar, estive a ver uma entrevista de Vítor Gonçalves a Conceição Matos e Domingos Abrantes. E o que aconteceu foi que, a maior parte do tempo, parei de escrever para ouvir e ver com atenção o impressioante testemunho deste casal que suportou a tortura da PIDE e que sobreviveu, com inteireza e notável dignidade, para o poder contar. A quem não viu e possa fazê-lo, sugiro que use a box e tente ver o programa. É um testemunho absolutamente extraordinário. Toda a gente devia conhecer o que eram as práticas do regime anterior ao 25 de Abril para que não subsistam dúvidas.

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domingo, março 19, 2017

UHF Sinfónico no Campo Pequeno


Grande concerto

Mais de cem jovens na orquestra (a Orquestra Nacional de Jovens) a acompanharem os UHF.
Uma sonoridade impressionante. Uma sintonia perfeita entre os arranjos orquestrais e o rock puro e duro da banda. E uma grande empatia com o público.


Anunciaram que haverá um outro destes concertos acompanhados por esta Orquestra no dia 1 de Abril em Guimarães. A quem esteja por perto, aqui deixo a minha recomendação.

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segunda-feira, abril 25, 2016

25 de Abril 2016
Festa na rua, um mar de gente a cantar, a festejar a Liberdade
E um grande concerto dos UHF


Viver em liberdade é também isto: podermos encher as praças, ouvirmos música, cantarmos, dançarmos na rua. Nesta noite de primavera, há música na rua, há gente, muita gente, um mar de gente. As ruas estão cheias e convergem, como braços de rios, para a grande praça que se enche -- toda a praça e largos e escadarias em volta.

Estava quase a ser 25 de Abril e toda a gente vinha feliz para o receber. Há razões para festejar. Há um certo sentimento de esperança no ar. O País tem esta coisa de, volta e meia, patinar em seco, deixar-se ficar na cauda, tem esta fraqueza de, volta e meia, eleger umas fracas figuras que fazem fracas e fortes gentes. Mas agora que saímos de um período negro de quatro anos, queremos acreditar que estes quatro que aí vêm serão melhores e os que se lhe seguirem também. Queremos sentir confiança, e de confiança se faz a construção do futuro.

E o País tem, sobretudo, a felicidade de viver em liberdade
-- e pode até ser que a liberdade, volta e meia, seja a modos que condicionada, pode até ser que a comunicação social, a soldo de quem lhe paga, manipule a opinião pública, mas também é verdade que toda a gente pode opinar (como eu estou aqui a fazê-lo, e não tenho medo que me venham prender, nem, quando estou na rua a festejar, tenho medo que haja agentes no meio da multidão prontos a denunciar-me ou a quem se manifeste contra isto ou aquilo) -- 
e a conquista da liberdade é das mais valiosas conquistas que um povo, antes espezinhado e maltratado, pode ter alcançado. E isso devemo-lo ao 25 de Abril de 1974 e só isso é razão mais que suficiente para o festejar.

E, então, com a praça cheia de gente. 
a música rebentou no palco 
e a energia foi imensa, 
contagiante.

UHF - 25 de Abril de 2016 - Almada


Como me limitei a fazer fotografias, socorro-me de vídeos disponíveis no youtube colocando aqui os que se referem a músicas que os UHF interpretaram.

Vejam bem 

- UHF a cantarem Zeca Afonso

E se houver 
uma praça de gente madura 
e uma estátua 
e uma estátua de de febre a arder



Reparem nos pequenos rectângulos de luz:
em tempos as pessoas acendiam isqueiros para ondular ao som da música -- agora filmam com os telemóveis.
De forma instantânea, certamente muitos vídeos do concerto foram parar às redes sociais


Se há coisa de que gosto é de concertos de rua em datas especiais em que se juntam novos e velhos, ricos e pobres, gente de todas as raças e cores, em que a despreocupação é total e a espontaneidade impera, onde meio mundo canta e dança, de forma genuína, onde se junta a alegria do momento com a energia da música. 

Os UHF estavam em casa e o António Ribeiro não disfarçou a emoção por estar a festejar o 25 de Abril numa praça repleta com a gente da sua terra, milhares de pessoas. 


Pela minha parte, para além de festejar, dançar e tirar fotografias, tive uma missão que me auto-atribuí: não perder nenhuma criança. Tenho um certo pavor em meter-me com a criançada no meio de tanta gente mas é bom que eles sintam esta intensa vibração e saibam como é bom festejar colectivamente a alegria da liberdade. Portanto, para além dos demais adultos estarem, obviamente, também in control, eu não desgrudei deles nem parei de os contar de segundo a segundo. 

Para além disso, já antes de irem, estavam a falar nos churros e waffles e, portanto, a meio do concerto, lá fomos em cortejo, agarrados uns aos outros, pelo meio da multidão, milhares e milhares de pessoas, uma coisa impressionante, até a uma das caravana dos comes e bebes e, depois, em sentido inverso, para nos posicionarmos de novo de onde conseguíssemos ver o palco. Uma aventura.

UHF - Nesta imagem, pai e filho, em noite de festa em Almada


Estávamos nós estrategicamente posicionados quando ouvi alguém a pedir licença. Olhei e era um homem jovem numa cadeira de rodas eléctricas, um jovem que me pareceu não ter pernas. Logo a seguir uma outra cadeira de rodas: uma jovem também com o que me pareceu acentuada deficiência. Toda a gente abriu alas para que eles tivessem bom ângulo de visão para o palco. Eles sorriam, encostavam os rostos, beijavam-se, felizes. Os miúdos olhavam muito admirados. Eu não queria que eles se pusessem a olhar insistentemente mas depois pensei que é bom que vejam que todas as pessoas têm os mesmos direitos, que ninguém é menos que ninguém lá porque nasceu sem pernas ou se teve algum acidente e perdeu a mobilidade ou se teve paralisia cerebral ou qualquer outro problema e não consegue quase movimentar-se.

Depois de satisfazerem a sua curiosidade, não ligaram mais e voltaram a estar com atenção à música, a cantar e a dançar. E, claro, foram ao rubro com os Cavalos de Corrida, música que adoram e cuja letra sabem de cor.


A seguir, à meia-noite, como não podia deixar de ser, cantou-se o Grândola Vila Morena e só quem não ame a liberdade é que pode desvalorizar a importância desta data; só quem não ame a liberdade é que pode desprezar os que se juntam para, colectivamente, na rua, a festejarem. 

Em cada esquina, um amigo
Em cada rosto, igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade


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E depois, já dentro do dia 25 de Abril, rebentou o fogo de artifício. Espectacular, os meninos em delírio, uma emoção, o ribombar que se desfaz em luz, as cores que explodem em mil estrelas voadoras, o cheiro forte, a fantasia feita realidade, os riscos que se imaginam, a coragem que se sente, a sorte que se teve por escapar a tantos riscos, a felicidade, e todos juntos, em liberdade.


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Que a Liberdade e a Democracia nunca nos faltem.
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Um bom 25 de Abril para todos vós, meus Caros Leitores.
Que seja um dia muito feliz, este e todos os que se lhe seguirem.
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sexta-feira, março 11, 2016

Receitas de amor para mulheres tristes
- [1º de Dois Posts]




Essa tendência para traíres, para mentires -- e para seres perfeitamente franca. Para te esconderes -- ou para te mostrares muito. Esse cuidado de te preservares tanto -- para acabares a contar a tua história, a tua verdade, com todos os pormenores a um desconhecido. Essa vontade de fugires, de saíres a correr quando alguém mostra que começa a conhecer-te, embora não te reveles, e essa vertigem de ficares. Essa indomável sede de alguém -- e de não estares com ninguém. De envolveres as carícias em palavras. Essa vontade de mudares sem renunciar a nada. Essa fome de impossíveis. Como pensar no meio desta confusão contraditória? É verdade e mentira, está bem e está mal, e não há saída.

Nada a fazer. Toma um copo de água.


Se encontrares alguém que és capaz de suportar (e já é muito), e se esse alguém for também capaz de te suportar a ti (e é já quase suspeita tanta coincidência), e se em certos momentos não apenas o suportas como o quererias mais chegado ao pé de ti, e se acontecer sentires a falta dele quando se demora muito, e se ao vê-lo te voltar a alegria, então não receies submeter-te a essa desolação da proximidade que é a vida a dois: é possível que consigas aguentá-la.


Algumas, num genuflexório e atrás de uma rede escura, confessam-se. Outras, talvez mais sábias, tomam banho e lavam-se. Umas e outras ficam limpas e vazias de culpa. Um duche, um banho de imersão, um momento de cavaqueira de peito descoberto. Velhas receitas, boas para tranquilizar.

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A canção é dos UHF - "Puseste o Diabo em mim", uma música que não me tem saído da cabeça e que aparece no último CD deles, que recomendo

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E queiram, por favor, descer até ao post seguinte para mais umas receitas de amor, desta feita destinadas às mais sofredoras e que não tiveram grande sorte com a companhia que lhes calhou na rifa. Lá explico de onde vem isto. 

E caso não apreciem o género e prefiram saltar logo para as investigações em torno da laranja-podre do PSD-profundo envolvendo aquela rapaziada de Gaia e arredores, podem clicar aqui e saltar já para lá.


sábado, dezembro 26, 2015

O que ganham os médicos no Serviço Nacional de Saúde




A conversa decorria sobre David que morreu porque não lhe efectuaram a cirurgia que o poderia salvar. Dizia um médico, durante muitos anos médico num dos grandes hospitais públicos de Lisboa, que, no governo de Passos Coelho, tanto cortaram em tudo que nada disto é surpresa -- nem novidade. Falámos que era o 5º caso. Ele corrigiu, que era o 5º caso deste tipo, o 5º caso conhecido.

E contou como sabia, pelos ex-colegas, os cortes que tinham sofrido: os da função pública, os das horas extraordinárias, os de isto, aquilo e aqueloutro. Contou que um dos grandes cirurgiões cardio-vasculares, uma especialidade complexa em que estão literalmente com a vida dos doentes nas mãos, ao falar com ele, lhe tinha contado que agora recebia 1.800 euros. 

Por isso, tantos saem, vão para a medicina privada.

Alguns colaboradores meus, que nem funções de coordenação têm e que não têm responsabilidades que se comparem, nem níveis de stress e, provavelmente, fazem muito menos horas de trabalho, ganham isso ou mais.

Paulatinamente e sem atender às alternativas que os médicos e enfermeiros têm nos hospitais privados, o Governo anterior reduziu, reduziu, cortou nos materiais, cortou nos contratos de manutenção, nos contratos de prestações de serviço, cortou nos ordenados e regalias do pessoal. Os custos do Serviço Nacional de Saúde reduziram-se, é certo. Mas o êxodo para a 'privada' foi brutal, deixando os serviços dos hospitais a trabalharem no limiar do risco. Ou melhor, em alguns casos, como agora se viu, abaixo dos limites admissíveis.

Dizia esse médico que, quando nos hospitais privados há um caso grave para o qual não têm meios de socorro, transferem os doentes para o público. O público era o último reduto. Agora já não é. Agora pode acontecer que não tenham equipas para acorrer às urgências e deixem morrer os doentes.

O actual ministro da Saúde já se chegou à frente e, aparentemente, segue-se agora um aturado trabalho de reconstrução. Mas não será fácil pois os médicos e enfermeiros que se transferiram para os hospitais privados dificilmente sairão de lá. O que Paulo Macedo, o tal ministro que tanta gente elogiava, fez enquanto ministro da Saúde foi um atentado ao Serviço Nacional de Saúde.

Dizia hoje esse médico: Dinheiro só há para salvar bancos. E eu pensei: 'Para salvar bancos -- não doentes. Os doentes podem morrer à vontade.'
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Pensei que escrever sobre isto não era lá muito natalício. Mas depois achei que sim: falarmos é uma forma de lutarmos. E lutarmos para que haja mais condições nos hospitais para atender a quem precisa é uma forma de querer o bem dos outros. E não é esse o verdadeiro espírito natalício?


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Lá em cima os UHF interpretam 'Podia ser Natal'
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Desejo-vos, meus Carlos Leitores, uma belo sábado.

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quinta-feira, junho 26, 2014

Chapéus há muitos! - [Ascot 2014... e, alô, alô, business angels, uma proposta de negócio cá para Portugal]


Só pergunto uma coisa: porque é que não há um Ascot dos pobrezinhos aqui em Portugal? 

Está certo que não temos o hábito de corridas de cavalos. Mas e daí? A criatividade não serve para dar a volta às situações insolúveis?

Ora bem. Neste caso nem sequer é insolúvel: não era de cavalos era de outra coisa qualquer.

Podiam ser corridas de palermas, de presidiários, de corruptos, de ex-espiões e de espiões no activo, de cagarras, de josé gomes ferreiras, de outros papagaios, de banqueiros que levam os bancos à falência, de segurinhos que fazem biquinho, de vice-irrevogáveis, de láparos, de outros palhaços, de lombinhas, de inconseguidas mentais, de cátias palhinhas mais conhecidas por cátias passarinhas, de gis, de fannys, de jotas, de presidentes da junta fiéis ao seguro ou ao cão com pulgas... o que fosse preciso. Arranjavam-se uma série de categorias. Havia uma para cada semana do ano. Corredores para cada uma é coisa que também há com fartura. E, se soubessem que ia haver reportagens de televisão de manhã à noite, buffet à descrição e fotografias na Caras, VIP e Flash, notas do Prof. Marcelo e posts pseudo-engraçados dos Henriques do Expresso (o Monteiro e o Raposo), então, não haveria cão nem gato que não quisesse participar na corrida. Tinha era que se pôr os bilhetes  a um preço exorbitante porque, senão, a malta que hoje vai aos programas de espectáculos que as televisões organizam aos fins de semana estava toda lá caída. Ora não queremos nada disso. Povo é coisa que não dá dinheiro. Só quereríamos gente com muito papel, em especial angolanas, chinesas, russas e brasileiras. E, claro, professoras. Ou outras funcionárias públicas. E, sobretudo, reformadas. Ou seja, gente dessa que nada em dinheiro (aliás, não têm feito outra coisa senão afundar o país com os ordenados milionários que auferem; a elas a gente deve o ter tido que se chamar a troika).


E música, se faz favor: Burn



Pensando bem, isto parece ter pernas para andar, ou seja, cá está outra ideia de negócio: organizar corridas temáticas. Claro, não nos podemos esquecer, o objectivo era ser um sítio onde poder usar chapéus espectaculares.

Ou seja, só seriam admitidos convidados (convidados pagantes, claro) que fossem de chapéu, mas chapéus originais, cada qual mais original que o outro. Por isso, gente banal, daquela com chapelinhos muito déjà-vu seria barrada à entrada.
Exemplificando: estaria vedada a entrada à Joana Vasconcelos porque o chapéu seria demasiado previsível, ou feito com pegas ou com tachos, à Leal ao Láparo porque iria enrolada em trapos, desde a cabeça ao pescoço, à Judite porque iria de mini-saia, botas de d'artacão e chapéu de cowboy, à Joana Amaral Dias porque iria com um garfo a sair-lhe das costas a fazer de chapéu, à Ana Gomes porque iria com um chapéu em forma de submarino, à D. Laurinha porque iria com uma farófia mal parida na cabeça, à D. Cavaca porque iria com um roteiro aberto no prefácio em cima do penteado, etc. Eu faria uma lista de personas non gratas. No portão de acesso ao recinto, colocaríamos dois calmeirões munidos da dita lista de indesejáveis. Assim de repente estou a lembrar-me do Marques Mendes e do Liberato que seriam revezados pelo Maçães e pela Poiazita. Com feras destas à entrada a ver se havia algum penetra que se arriscasse... é o arriscas.
Quanto mais me alongo, mais a ideia me entusiasma. Quando me reformar (daqui por 70 anos - já que acredito que, com a reforma do sistemas de pensões levada a cabo pelo magricelas da mota e sob os altos auspícios do grupo de burros que validará os resultados do estudo, a idade da reforma deve passar para lá dos 100 anos, e isto para se receber um trocadinho mal aviado), terei que me moderar senão desato a investir em negócios atrás de negócios e vai-se-me o pé de meia num ápice. Tenho tantas ideias e todas tão boas que a economia do País disparava num abrir e esfregar de olhos - só não adianto aqui mais algumas (para que vejam que são mesmo boas) porque o segredo é a alma do negócio.

Adiante e voltando à cold cow.

Adoro chapéus mas não tenho oportunidade de ousar. Uma ousadia em grupo é moda, mas uma ousadia a solo é maluquice. Imaginem se amanhã apareço no edifício asséptico onde trabalho - cheia de executivos bem cheirosos e todos parecidos uns com os outros e de executivas bronzeadas e bem torneadas - e vou com um chapéu artístico, de deixar qualquer um de cara à banda, vasos com passarinhos a sair-me da cabeça, penas de pavão, ovos estrelados, rabos de gato... Havia de ter graça. Aliás, algum dos que sobem comigo no elevador haveria de chamar o segurança para me pôr no olho da rua.

Não dá mesmo. Só mesmo com um Ascot à la portugaise.

Reparem: já viram, para além do negócio das corridas temáticas em si, a quantidade de negócios adjacentes que se desenvolveriam?

Quais...? O dos chapéus, justamente, e isto apenas como exemplo.

Entretanto, cá vai uma compilação de alguns chapéus de Ascot 2014 à laia de cardápio para as minhas Leitoras que precisem de um empurrãozinho para se aventurarem. Apenas os das duas primeiras fotografias não são tanto o meu género. Poderia ter escolhido dos extravagantes, cómicos ou disparatados, que por lá os há em todas as cambiantes, mas optei por escolher alguns chapelitos que eu não me importaria nada de usar.


Já sabem: ainda não atinei bem com o processo de publicar fotografias arrumadinhas aqui no blogue. Vai uma para cada lado e eu por aqui ando à bulha com elas - até que desisto e vai como for. No computador talvez nem saiam desarrumadas de todo mas no smartphone deve ser uma bagunça. Não sei, amanhã logo vejo.


As manas Beatriz e Eugénia, as princesas magalonas,
 filhas de Sarah Ferguson,
só não seriam barradas à porta
porque são podres de matrafonas,
dão sempre vontade de rir
Esta seria admitida.
A Ana Loureço, que gosta tanto de cavalos,
era moça para se apresentar assim.







Simples mas com muita pinta.
Amarelo e preto é uma mistura sempre garantida.
Um chapéu fácil de fazer em casa e, certamente, muito económico.

Muito bem os chapéus destas manas, uma em amarelo outra em red: dois clássicos
Fazem lembrar as mulheres colombianas,
daquelas todas quitadas, silicone nas bochechas, silicone nas poitrines, botox all over


O género de chapéus que me tenta: fáceis de fazer em casa, imprevistos, joviais, provocantes
(e ficam bem com cabelo despenteado, o que, para mim, é uma grande vantagem)


Uma bela borboleta azul que fica a matar com uns olhos azuis
A senhora ao lado, com uma rosa na cabeça, quase passa despercebida de tão discreta

Uma elegância, um modelo quase oriental:
quase me sentiria tentada
mas teria que ir com um vestido decotado à frente e completamente sem costas
para ninguém me confundir com uma dondoca bem comportada

Talvez o meu preferido
Quase oculta o rosto mas, quanto mais o oculta,
mais curiosidade desperta.
Quem é a mulher atrás do véu,
entre flores, rendas, plumas?
Quem será ela?
Uma elegância distinta, quase indecente.
Ficaria igualmente bem com cabelo caído,
esvoaçando

Um dos meus preferidos:
ficaria lindamente com o cabelo solto;
mas assim,
com o cabelo meio apanhado, despenteado,
também fica bem irreverente





























E eu e vós, minhas Caras Amigas Leitoras, requintadas, indecorosas, com belos e inusitados chapéus, a vermos o lombinha dos briefings e outros que tais a correrem na pista e nós a batermos discretas palminhas a incentivar aquele em quem teríamos apostado... Não seria uma delícia?

Depois, entre conversetas e intrigas gostosas, deslocar-nos-íamos até às mesas onde frescas bebidas e apetitosos amuse-bouches interromperiam, por breves instantes, as fofoquinhas inocentes.

Uma vez refrescadas e de novo completamente maliciosas, deslizaríamos até à beira da pista, onde outros lombinhas desta vida iniciariam nova corrida. Vai Pedrocas, gritaria uma, mostra o garanhão que és!, enquanto outras puxariam por um qualquer outro da mesma categoria.

[À falta de melhor, qualquer lombinha faria na perfeição o papel de cavalo de corrida. E, quem diz lombinhas, repito, diz salgados dos milhões esquecidos, isaltinos bem comportados, arrependidos e prontos a tornarem-se escritores, jotas já deputados apesar de não saberem ler nem escrever, avillezes abelharudas de balsemão ao peito, etc, etc, etc. Sky is the limit. Tudo serve de cavalo de corrida.]


(Cavalos de Corrida)



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Para o caso de se sentirem relutantes, receando não saberem como se apresentarem à altura, aqui deixo o vídeo com o dress code, que é como quem diz o Royal Ascot 2014 - Official Style Guide


Com esta lição, não terão desculpa, dizendo que sei lá se aquela saínha é adequada ou será que o chapéu com medinas nas abas condiz com o vestido com carreiras nos bolsos, ou os cavalheiros sem saberem se é suposto ir de gravata ou esgargalados, de pêlos do peito à vista, à Paulo Portas e, nesse último caso, se deverão ir de boné ou chapéu de aba larga.

Vejam, por favor, qual o modelo com que mais se identificam e depois adaptem-no ao vosso gosto - mas, please, não fujam muito do estilo porque, quando este meu projecto estiver no terreno, só quero lá gente estilosa.





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Bem. Isto hoje não saíu coisa para intelectuais. Galo. E agora o que pensarão os meus Caros Leitores que procuram aqui erudição da grossa...? 

Como tentar compensá-los, limpar a minha barra...?

Já sei. Um poema. Um poema dá sempre jeito. Ora, então, cá vai.

Outra maneira de ser: um homem
de facto, às riscas. Um vulto
com sintomas às costas,
no lodo da fala, uma pausa
turva, de homem
conforme o ódio. Moribundo
que escolha, o início a nada,
o cio a perdas e danos,
uma vida negada, repleta
de segundas intenções.


O Poeta Rui Baião que não me leve a mal por o colocar aqui no meio de cavalos de corrida, lombinhas e outras maluquices. Não é por mal. É mesmo só uma maneira de descansar a cabeça. Uns deitam-na na almofada, eu penso em chapéus e escrevo coisas assim.

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A música lá em cima é Burns -Vintage '60s Girl Group Ellie Goulding Cover with Flame-O-Phone  - Postmodern Jukebox

Os Cavalos de Corrida são interpretados pelos UHF

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E por hoje é isto. 
(E agradeço o vosso cuidado mas, a sério, não fiquem preocupados. Amanhã já devo estar normal.)

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta feira!