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terça-feira, julho 07, 2020

Uma certa biblioteca secreta





Nesta fase da minha vida em que tudo muda, é como se estivesse a começar de novo. Ou seja, estou como peixe na água. Gosto de recomeços. Quando estou nesta, pouco ou nada me prende ao que era. Pelo contrário, quanto mais depressa despir toda a pele que ainda me prende à minha vida anterior melhor.

Hoje ao fim do dia, tive que ir a um sítio para escolher uma coisa. Mas, mal lá chegada, quando me preparava para ir tratar do que lá me tinha levado, uma pessoa chamou-me para me mostrar uma coisa. Fui. Pensava que era coisa rápida. Afinal foi demorado. Ia mostrar-me umas coisas simples. Afinal, de uma coisa, veio outra e, de outra, veio outra. Sempre mais coisas para me serem mostradas. E, às tantas, chegámos a uma sala e ali havia muita coisa para ver. E, estava eu a ver uma estante, diz-me: não está ver o que é esta estante? E eu: não. Então, a estante rodou e descobriu-se uma porta. Fui atrás. Máquinas. Não percebi que máquinas eram aquelas. De outro lado, caixas, arcas, coisas indistintas. Então, quando pensava que não havia nada mais a ver, dizem-me: e aqui atrás há isto. Espreitei.

Não queria acreditar: uma sala cheia de estantes e livros, livros, revistas. Explicou-me: uma biblioteca privada. Mas privada em todos os sentidos da palavra. Secreta, oculta, quase como se não existisse. Olhei em volta, perplexa. Estantes a toda a volta e, se não estou em erro, também ao meio, Se eu pudesse ter uma biblioteca assim, a library of my own, secreta, vasta, sigilosa, um espaço quase infinito... Fiquei sem dizer nada. Nunca poderia ter imaginado tal.
Quando saí daquele labirinto, já as pessoas com quem tinha ido encontrar-me se tinham ido embora, certamente cansadas de esperar por mim. O tempo tinha passado sem que eu tivesse dado por ele e sem que eu tivesse conseguido interromper quem tinha estado a conduzir-me naquela inesperada visita guiada.


O tempo não anda a ser-me suficiente para me entregar à absoluta descoberta de uma vida nova que se desdobra a toda a hora à minha frente até porque tenho que conciliá-la com o lado prático da minha actividade quotidiana mas, apesar disso, o que posso dizer é que, para mim, o mais estimulante são estes momentos em que passam por mim estas vibrações prenhas de expectativa e descoberta.

Há algum tempo, naquele longínquo tempo pré-covid, estava eu a almoçar, acompanhada, quando ouvi uma voz conhecida a exclamar: 'Olha quem ela é,,,!'. E já lá vinha ela de braços abertos e eu levantei-me e abraçámo-nos e demos o beijinho que, em tempos, as pessoas trocavam quando se encontravam. E logo ali, de pé, pusemos a conversa em dia. Quis que ela se sentasse e almoçasse connosco mas não, estava atrasada, ia ter com outra pessoa, já estava nas horas. Perguntei-lhe como estava a dar-se nessa sua nova vida. Sorrindo, transbordante de entusiasmo, disse: 'Bem! Óptima! Se eu soubesse que ia ser assim, há que tempos que tinha mudado'. Adorei ouvir, era bem ela, sempre pronta para ser a eterna adolescente que conheço há anos. Provavelmente sou também um pouco assim. Não fazer as coisas pela metade, não negar a experiência que se faz convidada, ousar, ir em frente.

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Uma vez mais, fotografias que nada têm a ver com o texto (ou será que têm?) da autoria de Eylül Aslan e que, cá para mim, se forem como eu, curvam-se perante Ennio Morricone que, pela milionésima vez, aqui nos traz o Oboé de Gabriel. 
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Talvez um dia destes regresse ao mundo dito real e fale da notícia do dia: o que o super-judge Alex -- o implacável justiceiro que parece odiar visceralmente quem tem dinheiro ou poder -- fez agora ao Mexia (o da EDP) e ao Manso Neto. Todo um filme. Uma opera bufa. Uma soap. Mas terá que ser num dia de muito estômago. 

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E boa sorte e muita saúde e alegria para si que aí está desse lado.

quarta-feira, março 20, 2019

Uma casinha na árvore





Vivi quase sempre em lugares altos. Em casa dos meus pais eu levantava-me e ia à varanda ver a serra. Ao princípio, via também o rio mas, depois, perdeu-se essa vista. Mas a vista sempre foi desafogada. A serra, um castelo, as casas ao longe, uma vastidão à disposição do olhar.

Depois, já quando por minha conta, vivíamos mesmo perto do céu. Um ninho de águia. O rio a toda a volta.

Agora ainda. Tenho cidade, tenho rio, tenho serra. Levanto-me e vou à janela. Fotografo vezes sem conta a largueza que o meu olhar alcança, como se quisesse fixar uma vista única. E é única. A luz muda de dia para dia, ao longo do dia. E isso muda tudo.


Quando andávamos à procura de um lugar no campo, procurámos tanto. Ou eram caros, ou eram espaços acanhados, mal avizinhados, confinados ou as casas eram feias ou escuras. Até que descobrimos este espaço a que aqui chamo heaven. Uma vista desafogada, a serra, o vale, saber que o rio corre lá ao fundo, poder ver o nascer e o pôr do sol, à noite muitas mil estrelas num céu infinito.

Gostava de ter a casa mais embrenhada em árvores. E está um pouco e o que me salva do furor radicalista do deita-abaixo é que são azinheiras, árvores gigantes e lindas, protegidas. Se for à janela ou quando abro as portadas para a rua fico no meio do verde e é uma sensação maravilhosa, uma paz total, um silêncio apenas entrecortados por trinados felizes. 


Mas a ideia de poder ter uma casinha mesmo no meio das árvores, uma casinha de madeira, não me abandona. Não me canso de ver 'modelos' e imaginar sermos mesmo nós a construir uma. Depois levar lá os meninos. Estar com eles a ver o imenso verde, o céu imenso.

Não terá nada a ver com a casa de Jim Olson o que imagino pois é mesmo numa cabanita que penso -- nada de grandiosidades, muito menos de luxos, mesmo que luxos despojados. Penso numa escadinha, uma casinha pequenina mas com uma varandinha para lá pormos duas cadeiras confortáveis. E sentarmo-nos lá a ver os montes, o arvoredo, ouvir o canto dos pássaros. Imagino isso.


E, enquanto isso não nasce das nossas mãos, vou-me entretendo a ver casas no meio da floresta, espaços arejados, luminosos, aconchegantes. A casa que abaixo se vê é linda, linda. Gostava de poder, um dia, passar uma noite numa casa assim. Uma noite ou um dia. Ou uma noite e um dia. 

In Residence: Jim Olson - inside the architect's treetop house


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Pinturas de Fed Williams e o Gabriel's Oboe de Ennio Morricone a acompanhar

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Confissões e circos no post abaixo.

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segunda-feira, maio 28, 2018

Olha os meus olhos





Há temas sobre os quais não consigo formar ideia, muito menos defender, de forma militante, as minhas razões.

No caso da despenalização do aborto não tive dúvidas em defendê-lo apesar de ter dúvidas sobre se eu, alguma vez, teria sido capaz de o praticar (a menos que fosse por razões de inviabilidade do feto). Mas as minhas questões pessoais não me impediram nunca de ter dúvidas sobre a legitimidade da opção.

Já sobre a eutanásia não consigo formar opinião. Tendo assistido, de perto, nos últimos anos, a situações em que a morte apareceu como inevitável e, mesmo quase, como desejável, vivi casos em que apareceu mais cedo do que expectável -- causando tristeza e grande abalos emocionais mas, na verdade, poupando sofrimentos --, ou, surpreendentemente, se afastou quando parecia mais do que certa, deixando-nos estupefactos com a inacreditável capacidade de regeneração do corpo humano. 

Ainda no outro dia comentava com a minha mãe que morte boa só aquela em que, tendo a pessoa já vivido uma boa e longa vida e tido os seus momentos de realização e felicidade, cai para o lado sem dizer água vai. Pode ser um choque para quem cá fica mas, vendo bem as coisas, acabará por ser percebida como uma bênção.

Lembro-me, a propósito, de um ex-colega meu. Uma vez ligou-me uma colega minha a dar a inesperada notícia e na hora seguinte choveram telefonemas e sms, toda a gente em choque com a morte dele. Estava reformado, feliz da vida, e um certo dia, sem nada que o fizesse supor, sentou-se, baixou a cabeça, disse que se sentia cansado e com calor e, instantaneamente, caíu morto. 

Mas há os casos de lenta agonia ou grande sofrimento ou há os casos em que o corpo vai perdendo, uma a uma, cada uma das suas inesgotáveis capacidades. Talvez aí se justifique a eutanásia. Mas isso se a pessoa o quiser e o quiser de uma forma consistente. Claro que há o caso em que os órgãos entram em falência e em que, por todas as circunstâncias, qualquer esperança está fora de questão. No entanto, aí não se pode falar em eutanásia mas em ajudar a pessoa a sair o melhor possível da condição de moribunda.

Não sou dada a filosofias de bolso e muito menos me sinto habilitada a falar sobre o sentido da vida humana. Não sei se viver só se justifica quando existe uma função utilitária ou quando a pessoa tem autonomia sobre os seus actos ou quando quer estar viva. Não sei mesmo. E não sei porque não sei se esses estados são forçosamente definitivos.

Seja como for há casos em que ainda bem que o próprio ou os seus próximos não desistiram.

O caso que acabei de ler é impressionante. 

Trata-se de Rikke Schmidt Kjaergaard, a cientista dinamarquesa que aos 38 anos adoeceu, subitamente, com uma bactéria mortífera. Toda a gente julgou que ela ia morrer. Esteve em coma durante meses. Os médicos pensavam que, mesmo que sobrevivesse, talvez o cérebro estivesse incapaz e seria provável que perdesse os dedos das mãos, os dos pés, o nariz e parte do rosto.

E, no entanto, ao fim desses meses em que viveu aprisionada dentro de um corpo tomado pela estranheza e em que apenas podia comunicar piscando um olho, ela voltou a si. Fez fisioterapia, reaprendeu a viver e agora, apesar de, de facto, ter perdido os dedos das mãos (com excepção de um polegar), ela voltou a viver, a andar, a escrever, a sorrir.

Publicou um livro: The blink of an eye - how I died and strarted living 

Recomendo a leitura do artigo no The Guardian -- Look into my eyes: one woman’s journey from coma to consciousness -- de Joanna Moorhead do qual me limito a transcrever um excerto:
After a deadly bacterial infection, Rikke Schmidt Kjærgaard woke to find herself locked in her own body, with only one way to communicate – blinking: one for no, two for yes. Yet five months later she made a full recovery. Here she tells her remarkable story
(...) Rikke spent five months in hospital, and her book details the agonising path to an almost-full recovery (as well as losing her fingers, she is virtually blind in her left eye). There is the day she utters her first, and very apt, word: “weird”; the days she becomes paranoid and delirious, a common occurrence in coma patients; the terrifying times when she is hauled, in agony, into an upright position in physiotherapy sessions. And then, as she gradually regains her strength and autonomy, there are some incredible milestones: the day she leaves the hospital to first buy the ingredients for, and then cook, a birthday cake for Peter; the day she takes Daniel to his school and climbs the mountain of steps to his classroom, with him holding her hand, willing her to do it, and glowing with pride when she reaches the top. (...)
A partir de agora vai dedicar a sua vida a lutar para que um doente tenha voz mesmo quando a não tem. Em coma, ela ouvia o seu corajoso marido a contar vezes sem conta aos diferentes médicos e enfermeiros qual a condição da mulher, os tratamentos que tinha feito, a sua evolução. Quando 'acordou' Rikke pensou que deveria haver uma melhor forma de enfrentar a situação.
(..) She and Peter were acutely aware of how difficult it had been, even as scientists, to communicate effectively with the hospital staff looking after her. “You experience a total loss of control; and in my situation, being a patient was really difficult. I met so many different doctors and every time Peter had to tell them over and over what had happened to me. So when I got better I said to him: ‘There has to be a better way to do this.’”(...)
“It’s all about being there for people, about never underestimating the difference it can make to simply be with someone in their difficulty, to be beside them, to not leave them. I want to give people hope. It’s what got me through and it’s why I’m where I am now.” 
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A fotografia lá em cima mostra a lava do vulcão Kilauea no Havai

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quarta-feira, agosto 09, 2017

O observador de montanhas
- ou uma maneira encantatória de detectar o início dos incêndios -





Uma pessoa que conheço -- um acelerado como nunca antes vi alguém assim, ansioso, stressado, impaciente, que nunca consegue tirar férias porque sem ele é o caos, exigente até dar com os outros em doidos e habituado a lidar com milhões como quem lida com tostões -- deixou toda a gente de boca aberta ao dizer que ia passar férias, sozinho, para a Índia. Interroguei-o. Já conhecia Goa e mais não sei o quê, e entre esse não sei o quê estava um lugar de que me contou a história, e que ia para um outro lugar, de que me disse o nome, onde ia ficar duas semanas de seguida. Intrigada, perguntei o que tinha esse lugar de especial. Contou-me também a história desse lugar. Perguntei se era um lugar tão especial assim que justificasse a permanência durante duas semanas inteiras. Aí já eu estava a suspeitar Um mosteiro? Meditação? Fez que sim com a cabeça. Sem computador, sem telefone. Sozinho, num mosteiro da Índia, a meditar. Comentei com outro que, também espantadíssimo, me respondeu : 'Vamos lá ver é se volta de lá'. 


Ainda mal tinha digerido tal proeza, estava eu numa reunião quando um dos intervenientes, alguém de alta cilindrada (digamos assim), um que tem génio e genica, saber e saber fazer como poucos, me diz que se eu precisasse de alguma coisa para o contactar até certo dia porque, depois, ia estar incontactável durante duas semanas. Pensei: caraças, mais outro para a Índia? Alguém lhe perguntou para onde ia. Para a Tailândia. Sem computador, sem telefone. Que lá tinha estado no ano passado e que tinha resolvido voltar e que, até, chegou a pensar não voltar. Fiquei banza. Ohando para ele, não se poderia imaginar.

E, no entanto, isto é estritamente verdade e a esta hora cada um, sem se conhecerem e sem terem nada em comum, lá estão, um na Índia e outro na Tailândia. Provavelmente a olharem para o céu, serenos e felizes.


O caso que hoje aqui trago não é bem isso, mas quase. Sobretudo, tem uma utilidade. Eu que tenho a mania de não desperdiçar tempo a fazer coisas inúteis ou a olhar para ontem, vejo com mais admiração Leif Haugen que, nos últimos 24, anos tem passado o verão isolado no alto de uma montanha em Montana (EUA), a olhar em volta, deixando o seu olhar espraiar-se por vales e cumeadas -- mas com um propósito.

Numa altura que, em Portugal, se tem falado da falta que fazem os Guardas Florestais na ajuda à prevenção de incêndios, aqui fica a sugestão. Não sei se o alô!, alô! deve ser para o Capoulas Santos se para a Constança Urbano de Sousa mas alguém do Governo do Costa devia prestar atenção. Aposto que não haveria de faltar quem quisesse ir passar uma temporada num abrigo de montanha, envidraçado, quase uma casinha nas árvores.  



Transcrevo:
For the past 24 years, Leif Haugen has spent his summers living alone atop a mountain in Montana’s pristine wilderness. As a fire lookout for the U.S. Forest Service, Leif is charged with protecting the surrounding landscape, watching for signs of fire from his solitary perch. Spending up to two weeks alone at a time, he spends his days unwinding amid the peace and quiet, watching as the world passes him by.

In Montana, a Solitary Life on Lookout Mountain



Candidato-me já

(desde que abram uma excepção: sozinha é o vais)

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As imagens mostram árvores que resistem apesar de tudo, e vi-as no Bored Panda.

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A si que aí está e que, dessa forma silenciosa me acompanha, desejouma quarta-feira muito feliz.

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domingo, junho 11, 2017

In heaven, entre pequenos lobos, longe do Parque e com os primos da Princesa Margaret





Por incrível que possa parecer, este ano ainda não fui à Feira do Livro. 

Durante a semana é o que é e ao fim de semana zarpamos para o campo e a maltinha toda cá connosco. A casa cheia, uma alegria em permanência tanta a brincadeira, os jogos de futebol, as mangueiradas, todos a varrerem e a apanharem folhas secas, a mesa curta para tanta gente, nós sem sabermos bem o que comem, a estimarmos por cima, e, no fim do dia, espantados por ter sobrado tão pouco, que comem cada vez mais, senhores (e rimo-nos, satisfeitos por vê-los assim, lobinhos esfomeados e cheios de vida, a crescerem a olhos vistos). Por exemplo, o pão. O meu marido de manhã estava na dúvida sobre a quantidade de pão. Eu disse: para aí umas oito ou dez bolas. Eu não como, um miúdo sozinho não come uma bola daquelas, é um grande pão, e os crescidos pouco pão comem, acho eu. Oito ou dez é à vontade. Ele disse: Pode ser pouco. Mas é uma chatice porque se não lhes dá para comer pão, fica aí pão para um mês. Mas no mínimo doze. Afinal, por via das dúvidas, trouxe dezasseis. Achei um exagero, umas saconas enormes cheias de pão. Disse-me que dava já para domingo. Eu não como pão mas ele come. Agora que saíram todos, já jantarados, ao arrumarmos a cozinha, diz ele: Sobraram cinco bolas. Estás a ver, se tenho comprado só oito ou dez?


É verdade. Uma pessoa já tem dificuldade em avaliar. De manhã, chegámos carregados com sacos do supermercado. O frigorífico ficou cheio. Agora está quase limpo. Fico contente. Gosto de vê-los a comerem de gosto. Para o almoço trouxémos peixe, douradas grandes e, em especial para mim, carapaus (gosto muito de carapaus, em especial dos grandinhos), que o meu filho assou lá fora. Quando, antes, tinha perguntado o que queriam para o almoço, a resposta foi a habitual: 'Qualquer coisa. Nada de complicações. Peixe, batatas, salada.'. Fiz também legumes (feijão verde, brócolos, cenouras) e, em vez de apenas batatas simples, também batata doce. E salada de tomate e alface.

Mas, estava o meu filho a assar o peixe, entra o mais pequeno (mais pequeno, não incluindo o bebé, claro): Há tremoços? E eu: Não... Lá foi dizer ao pai que não. Passado um bocado, aparece de novo: O pai diz que já podes dar o chouriço para ele assar. E eu, desolada, Oh amor, não trouxe chouriço.... Lá foi. Passado um bocado, apareceu, foi ao frigorífico buscar uma mini para o pai e disse: E azeitonas, também não tens...?.  E eu, infeliz, que não. Só pãozinho com manteiga. Sempre isto, que eu não complique, que me limite ao básico e, no fim, querem sempre o que não há...

Mas o peixe estava bom, no ponto, e as batatas e os legumes e a salada e a fruta, bem boas. Ao lanche iogurtes, fruta, pão com queijo, sumo. E, para o jantar, caracóis, salada de polvo, tortilha à espanhola, salada de atum com feijão frade, queijo fresco e, lá está, também pãozinho. E fruta. 

Por enquanto, o bebé partilha o convívio apenas indirectamente, já que ainda não se senta à mesa, não joga futebol ou toca guitarra. Sempre na maior, gordinho e sorridente, de colo em colo, sempre feliz com a animação, dá aos pézinhos e aos bracinhos, ri e palra enquanto olha para irmãos e primos. Lá fora, anda de boné, lindo e fofinho. Ainda não pode apanhar sol. Fez quatro meses agorinha mesmo. Depois, dá-lhe o sono e dorme belas sestas de que acorda para mamar até deitar por fora. Os mais crescidos, volta e meia aproximam-se, dão uma vista de olhos, de vez em quando beijam-no e prosseguem a brincadeira.

A mana tinha trazido caderno e livros para fazer os trabalhos de casa e preparar-se para os testes. Temperamental que nem a avozinha quando tinha a idade dela, a coisa facilmente derrapa para a zanga. Escrevi uma história em três linhas onde se dizia que 'a Princesa Margaret tinha ido ao circo com a mãe e com os primos. O cão Quicas também tinha querido ir mas não o deixaram. Por isso, ele foi às escondidas'.  Ela leu. Depois as perguntas de interpretação. Numa delas, escrevi: Com quem é que a princesa Margaret foi ao circo? Ela escreveu: A princesa Margaret foi ao circo com a sua mãe e com o seu cão. Eu disse: A resposta está incompleta. Ela cruzou os braços à frente do peito e disse: Não está nada. Eu disse: Lê outra vez a história. Ela recusou-se. Disse-lhe: Então deixa. Vou fazer outra pergunta. Ela aceitou de bom grado. Escrevi: Os primos da princesa Margaret são invisíveis? Ela leu a pergunta e, no fim, furiosa, pousou o caderno e arrumou o lápis, dizendo: Não faz sentido! E levantou-se, agastada.

O meu filho disse: Não é assim que se consegue alguma coisa dela. Foste provocá-la dessa maneira...


Tem 6 anos, anda no 1º ano, é excelente aluna - mas uma força da natureza que não se dobra com facilidade. Tirando isso, é uma doce, meiga, coquette, uma capacidade de apreensão e uma memória estonteantes.

Mas, portanto, para dizer que, com tudo isto, não tenho tempo e, verdade seja dita, também ainda não senti verdadeira motivação para ir à Feira do Livro. Tanta tralha vendida como se fosse livro, tanta barafunda, anúncios aos microfones como uma feira de diversões. aquele número que me parece sempre meio triste de alguns autores ali ao abandono. Não sei. Devia ser capaz de lá ir um dia de semana mais à noitinha mas não sei. O excesso cansa-me um bocado, parece que fico sem muita paciência para andar a garimpar no meio daquele pechisbeque. Dantes, long, long ago, passava primeiro por lá para as primeiras oportunidades e para recolher catálogos. Depois, em casa, fazia uma selecção. Depois voltava com uma lista, pavilhão a pavilhão,  e regressava carregada de sacos. Agora já não me dá para fazer nada disso. Mas, enfim, a ver se, antes de acabar, lá dou uma saltada. Parece que, se não for, estarei a trair este meu amr aos livros.

Enfim. Entretanto, o sono está a chegar e ainda quero ir ali espreitar o Versailles na 1, antes que acabe. Portanto, para já é isto e pode ser que, daqui a nada, ainda cá volte. Não é que tenha alguma coisa de escaldante para dizer mas, enfim, parece que estou com vontade de escrever mais.

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Um feliz dia de domingo

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segunda-feira, setembro 26, 2016

As Linhas do Tempo
Flores e flores e outras obras
Uma exposição na Gulbenkian


A cidade é uma quando se anda em trabalho e é outra, muito outra, quando se anda com tempo e olhos de ver.

Por ela ando diariamente, percorro-a muitas vezes de ponta a ponta e os locais que frequento são até alguns dos que tanto gosto. Mas ando formatada para não perder tempo, para estar a horas aqui e ali e, portanto, é quase como se nem a visse.

Portanto, por absurdo que possa parecer, estava cheia de saudades de andar por ela como gosto de andar, como uma turista acidental, passeando por aqui e por ali sem saber ao que vou, andando, espreitando, degustando.

No sábado à tarde foi dia de ajuntamento na Gulbenkian. A pièce de résistance é sempre o jardim. Os miúdos deliram com os recantos, os seus esconderijos. Antes de chegarem, fomos ver a exposição Linhas do Tempo. Aliás, parte do grupo ainda lá foi ter connosco, causando dor de cabeça aos vigilantes sempre com medo que eles deitem a mão onde não devem. Não partiram nada, felizmente. E, a tempo, foram impedidos de se sentarem nas cadeiras expostas.

E são imagens deste luminoso espaço que aqui vos mostro. A quem possa, aqui deixo a sugestão da visita. A entrada é gratuita.

Flores e flores de Hein Semke
(frente e verso - acima e abaixo)













Talvez um avô dedicado e um neto atento
 (mas não os conheço)
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Decorreu este fim de semana na Gulbenkian o Festival Jovens Músicos e, portanto, era vê-los por lá. Não tenho nenhum vídeo alusivo aos momentos que lá se viveram pelo que me socorro de um relativo a um vencedor de 2015: João Miguel no oboé interpretando o Concerto para Oboé de Mozart.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira.
Saúde, sorte, alegria para todos.

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