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terça-feira, setembro 02, 2025

Estas contradições que alimentam os nossos dias

 



Hoje não estou inspirada. De tarde, quando estava num outro comprimento de onda, por sinal até animada e já com ideias para uma outra coisa, recebi um telefonema: 'Não tenho boas notícias...'. E, pronto, uma bomba. Uma inesperada bomba. E aquilo que eu achava que estava encarrilado e a caminhar para uma boa solução voltou à estava zero. 

Fiquei ali um bocado a digerir. Uma desilusão que não vem nada a calhar. 

Mas depois respirei fundo. Nestas situações, respiro fundo. Penso no que se segue. É coisa minha: para estes contratempos, tenho um mantra: há mais marés que marinheiros. E tenho outros, todos igualmente banais. Mas é nas grandes banalidades que se escondem as grandes verdades.

Portanto, bola para a frente.

Claro que tinha pensado regar a parte da frente da casa, e, com isto, passou-me a vontade. Não me apeteceu, fiquei com pouca energia.

Gostava que caísse uma pinga de água. Mas nem uma. Detesto quando vejo a terra seca, só me apetece que caia não uma pinga mas uma chuvada das valentes. Mas nada, nem sinal de água. Amanhã talvez regue. 

Depois fui para a cozinha e fiz uma bela bacalhauzada. Bacalhau com todos é sempre uma coisa boa, aquece a alma. 

O passeio que fizemos à noite foi diferente: foi feito já bem de noite e debaixo de frio. Os dias encurtam a um ritmo desconcertante. E arrefeceu bastante. Levava calções relativamente curtos mas, por cima da tshirt, levava um casaco já um pouco quente. Soube-me bem. De início senti frio nas pernas mas, com o andamento, ficou até agradável. Cheguei a casa arrebitada, a pensar que amanhã é um novo dia. Todos os dias são um novo dia.

E todos os dias vão chegando notícias: alguém que faz anos, um menino que foi convocado e a quem o jogo correu bem, um menino que compõe um rap a gozar com os primos, uma menina que monta e edita um vídeo para o mano, outro menino que vai passar uns dias com a namorada, outro que começa um novo desporto, e depois chega uma notícia triste, alguém que morreu, alguém que nos faz pensar aquilo que tantas vezes piedosamente pensamos, que mais vale que morra do que sofra, e até nos esquecemos que ninguém devia sofrer assim nem assistir à vinda da morte de dentro do próprio corpo, e depois já é uma amiga que vai viajar e todos lhe desejamos uma boa viagem... e a vida vai andando, um dia depois do outro, e depois outro, e depois outro, todos os dias muitas coisas, coisas díspares, umas que nos fazem felizes, outras que nos entristecem, mas não param, a seguir a uma vem outra e outra e outra e outra.

E ainda bem que é assim. Só assim, porque temos termo de comparação, sabemos dar valor às coisas boas, só assim nos obrigamos a viver com vagar e apreço os momentos bons. 

E pronto, vou-me, não posso ficar por aqui senão não paro de dizer lugares comuns. 

Tenham um belo dia, ok?

segunda-feira, junho 23, 2025

Varrer, regar, ver esquilos, fazer conteúdos digitais

 

Quem se dá ao trabalho de ver os meus inconcebíveis vídeos no Instagram, para além de constatar um indiscutível amadorismo e uma total ausência de propósito, já deve estar farto do chinfrim que faço ao andar, pisando caruma, folhas secas de azinheira ou de eucalipto, bolotas ressequidas e tudo o mais que por aqui se junta. 

É certo que eu poderia -- e, se calhar, deveria -- aprender a editar os vídeos, retirar-lhes o ruído ambiente, cortar e colar bocados disparatados, etc. Mas, sinceramente, não ando com paciência para gastar tempo com isso. E, ao escrever isto, receio que achem falta de respeito da minha parte apresentar produtos de tão insólita falta de qualidade alegando falta de paciência para aprender e para editar. Porém acreditem: não é falta de respeito, é mesmo uma quase incapacitante falta de paciência. Pode ser que me passe... Um dia que leve mais a sério isto de fazer 'conteúdos digitais' (como agora sói dizer-se) talvez me leve a mim mesma mais a sério (e agora devia aqui inserir um emoji a piscar o olho e a deitar a língua de fora para que percebam que estou a pensar que está bem, está). 

Em contrapartida, tenho passado os dias a varrer em volta da casa. Só que a casa, ainda assim, tem um perímetro que vai lá, vai, e os calores dos últimos tempos têm feito o chão encher-se de folhagem seca. Por isso, é um trabalho insano, uma never ending story, uma cena à moda do sísifo. Até não há muito, com as chuvas, era musgo por todo o lado e até nascia erva das pedras. Agora está tudo seco e é o que se vê.

Lá por baixo, na extensão grande do terreno, não há como varrer ou impedir que os meus passos façam barulho ao pisar isso, mas, em volta da casa, até por razões estéticas ou de segurança, obviamente tem que ser tudo limpo.

Em tempos, tínhamos contratado um senhor da aldeia para tratar das limpezas e das regas. Vinha duas tardes (completas) por semana. Queixava-se, dizia que não chegava, dizia que era trabalho a tempo inteiro. Mas também não queríamos que isto fosse o palácio de versalhes, não era nossa ideia ter um jardim imaculado em volta da casa. Sobretudo, o que queríamos era que, ao fim de semana, não tivéssemos que nos preocupar com isso. Mas o senhor, para nos demonstrar que duas tardes (inteiras) por semana não chegavam, pespegava-se cá ao sábado. Nós a querermos estar descansados e à vontade e ele a cirandar por aqui, a chamar-nos para nos mostrar isto, a chamar-nos para nos perguntar sobre aquilo, uma seca de que não havia memória. Mesmo quando lhe dizíamos que íamos cá ter pessoas, ele não despegava. Aliás, parece que fazia questão em estar, em ver e ser visto. Ficávamos passados. Com muita dificuldade e cuidado para não o melindrarmos, acabámos por dispensá-lo.

Mas isto não se dá conta. Precisa mesmo de manutenção. O ano passado o meu marido contratou outro senhor da aldeia. Veio recomendado pelo vizinho do início da rua. Avisou-nos que ele bebia um copito a mais mas que era trabalhador e sério.

Chegávamos cá e estava tudo na mesma, com excepção de beatas por todo o lado. E não era das puritanas que rezam, eram mesmo das que podem pegar fogo. Queixava-se que era um trabalho ingrato, que vinha limpar e varrer e apanhar ervas todos os dias e que chegava ao fim de semana e o que tinha sido cuidado na segunda-feira já estava outra vez a precisar de ser limpo. O vizinho confirmava que o via andar por cá a trabalhar, que não era tanga. No fim, pagávamos horas que nunca mais acabavam e não se via nada de jeito, só beatas. Dizia que tinha cuidado, que as apagava bem. Mas eu não podia ver beatas por todo o lado, é coisa que me me complicava com o sistema nervoso. No conceito dele, os cigarros são para se deitar para o chão e parecia não perceber que não o deveria fazer. Acabámos por agradecer e, uma vez tudo pago, nunca mais lhe dissemos para vir.

Resultado, somos nós que tratamos do assunto. O meu marido reclama, diz que é trabalho a mais.

A mim não me custa. Gosto imenso de varrer. Aposto que para a minha cabeça é como se estivesse a meditar: não penso em mais nada. Ando completamente focada a varrer e fazer montes. O pior é que, depois, encher os sacos ou os carrinhos custa um bocado. Uso uma pá grande mas, às tantas, o meu marido pega ele naquilo e anda ele a recolher os montes, a transportá-los para a terra. E queixa-se. Diz que, antes de eu acordar, já ele andou a cortar mato ou a fazer outras tarefas e que, depois, eu não sei parar e varro este mundo e o outro e que não está para isso. Mas esta nossa dinâmica, de reclamarmos um com o outro, já tem barbas, ou seja, já não ligamos muito aos protestos um do outro.

Outra coisa que fica para mim é a rega. Gosto imenso de regar. Quem me acompanha aqui há muito tempo, recordar-se-á que já contei que, de início, investimos fortunas (salvo seja) em sistemas de rega mas que, quando cá chegávamos ao fim de semana, estava tudo roído. Os coelhos (ou outra bicharada) roíam tudo. O meu marido substituía e eles comiam. Desistimos. O meu marido decretou que o que sobrevivesse sem rega seria bem vindo, o que carecesse de cuidados, podia desaparecer à vontade. E assim foi.

Mas o que está mesmo em volta da casa, do lado da frente, tem que ser regado. Agora do lado de trás e dos lados (se bem que a casa, pela sua arquitectura, na prática não tem frente, nem lados, nem trás) nunca é regado.

E, no entanto, está tudo gigante. Só as laranjeiras, e estão à frente, é que estão raquíticas e vão acabar por morrer. Não deveriam ter sido plantadas, não se dão aqui, é impossível. Quando comprámos o terreno já cá estavam, e já eram infelizes. Trinta anos depois ainda sobrevivem... mas coitadas.

E hoje já andei a apanhar orégãos, amanhã já vou montar o estaminé do costume: lençol em cima da mesa da casa de jantar e eles espalhados em cima, a secar. 

Adoro. São perfumados, frescos. Bouquets graciosos, delicados e com a graça adicional de serem comestíveis.

O campo, para mim é uma mistura de mil sensações boas: os sons, os cheiros, a luz, a paz, o vagar, o contacto directo com a terra, com o trabalho simples. Maravilha maior. Não há cá férias em resorts, em turismos de habitação cinco estrelas, o que for: aqui é que a minha alma rural se sente bem.

E, ao fim do dia, enquanto estava ao telefone com a minha filha, ia ela a caminho de casa depois de umas belas férias abroad, e eu por ali andava de um lado para o outro, uma surpresa daquelas que me deixam a sorrir, com vontade de agradecer, com vontade de trepar às árvores a ver se me aceitam como uma deles: um esquilo a andar por cima de um banco, a trepar a um muro e depois a subir pelo tronco da azinheira sob a qual eu estava. Que bênção, que alegria. Eu com receio que eles tivessem desaparecido e, afinal, ainda por aqui andam. Este é mais escurinho do que os que eu tinha visto antes. Este era mesmo castanhinho escuro. Lindo, fofo, um rabo enorme, ao alto.

Estava a falar ao telefone, não consegui fotografá-lo. Mas acreditem, ainda por aqui andam. Provavelmente, enquanto ando a varrer, estão eles lá em cima a tentar compreender que animal é este que, cá em baixo, se entretém a fazer montes de folhinhas e bolotas (e pinhas que eles deitam para o chão depois de as roer). Esse animal sou eu que, tal como eles, vim de outras paragens para usufruir do privilégio de respirar este ar tão puro, para viver nesta paz tão mágica.

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Desejo-vos uma boa semana

Be happy

segunda-feira, maio 26, 2025

Em dia de final da Taça, bolonhesa encarnada para os sportinguistas.
Isto depois de, na véspera, sandwiches de feijoada para os benfiquistas
[Receitas incluídas]

 


No sábado fiz feijoada para o almoço. Deve haver mil maneiras de a fazer mas eu faço uma versão soft. Assim: num tacho, refogo ao de leve uma mega cebola. Depois junto um repolho (será que o nome correcto é couve-lombarda?), uns dentes de sal, salsa e coentros, uma folha de louro, um pouco de água, um little bit de sal e deixo cozer. Quero que a couve fique bem cozinhada para ser bem digerida. Quando está macia, junto carne de porco e vaca picadas. Deixo cozinhar um pouco. Juntei uma rodela de chouriço de carne apenas para dar alguma graça. Juntei depois um frasco de feijão encarnado cozido, com o caldo, e deixei que cozinhasse tudo junto durante uns minutos. Ficou bem saborosa. Pelo menos, nós gostámos.

Depois, quando estava quase tudo pronto, lembrei-me que parece que costuma haver arroz a acompanhar. Fiz simples, juntando apenas um pouco de salsa e coentros e uma folha de louro. 

O pessoal tinha dito que não viriam no sábado mas, ao princípio da tarde, a ala benfiquista disse que passaria por cá daí a pouco. 

Quando os mais novos disseram que estavam com fome, à falta de um lanche previamente estruturado, servi bolinhas de Rio Maior com feijoada. Antes aqueci levemente o pão; depois coloquei umas colheradas de feijoada, que ainda estava morna, em cada bolinha. Gostaram. E eu fiquei contente por terem gostado.


Este domingo, a ala benfiquista foi assistir ao jogo no Jamor. Mas a ala sportinguista, tirando o menino mais crescido que ficou a ver o jogo com amigos, veio cá ver o futebol com o sportinguista-mor.

Fiz bolonhesa que é coisa que sempre agrada. Embora banal, como também há mil maneiras de a fazer, conto como eu faço a minha.

Numa frigideira grande, ponho azeite, muitos dentes de alho, folhas de louro, um ramo de alecrim, e quando os alhos estão alourados, junto a carne picada (do mesmo lote do lote que usei para a feijoada, isto é, carne de porco e carne de vaca que, no talho, peço para picarem e misturar) e um pouco de sal. Deixo estar sempre no máximo e vou mexendo e virando a carne para fritar, isto é, para não cozer. Depois desligo.

Antes disso, num tacho coloco azeite, duas cebolas grandes aos bocados. Depois de refogar um pouco, juntei quatro tomates chucha bem maduros, cinco cenouras grandes aos bocados, um bom ramo de salsa e um pouco de sal. Tapo e deixo cozinhar até a cenoura estar cozida. 
Depois, com a varinha mágica, trituro até ficar um molho de tomate bem macio. Não fica nada ácido pois a o doce da cenoura corta a acidez. Fica, isso sim, um shot de vitamínico.

Num tacho grande, coloco água a ferver com sal e massa fresca, agora não me lembro o nome, é daquelas fitas largas com ovo. Pouca gordura, pouco sal. Coze durante uns cinco a sete minutos. Desligo. Escorro a água. Uma parte da água, pouca, junto ao tacho do tomate. Uma parte, ainda menos, junto à carne. A água de cozer a massa engrossa os molhos, dá-lhes uma boa textura. O resto da água foi fora. Mas ainda ficou uma parte do tacho. Temperei com azeite e salpiquei com orégãos.

Volto, então, ao tacho do molho de tomate. Com a varinha mágica, trituro até ficar um molho de tomate bem macio. Não fica nada ácido pois a o doce da cenoura corta a acidez. Fica, isso sim, um shot de vitamínico.

Servimo-nos em separado: a massa, depois a carne e, por cima ou ao lado, conchas de molho de tomate. Há queijo ralado para polvilhar.


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À tarde, cá em casa, claro que os sportinguistas começaram por sofrer para, por fim, deliraram. No Jamor, claro que os benfiquistas se entusiasmaram e depois sofreram. 

Como é bom de ver, nos poucos minutos que aqui estive, como sempre não consegui concentrar-me e estava para ser penalti e eu nem isso percebi. Gosto de ver as emoções de quem vibra e consigo colocar-me no lugar deles. Mas mais do que isso só consigo mesmo quando são jogos da Selecção em campeonatos importantes, como no Europeu ou no Mundial.

O meu marido, com tudo isto, nem assimilou o que comeu. Depois de ter almoçado e jantado bem, há bocado, ao ver um anúncio às bolachas Oreo, disse que estava cheio de fome e que até bolachas oreo marchavam se as tivesse, que parece que lhe apetecia qualquer coisa doce. Ele que nunca come bolachas e que poucos doces come... Antes de ir para a cama, ouvi-o na cozinha. Deve ter ido comer qualquer coisa, não faço ideia de quê. Não há bolachas nem bolos. 

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Os painéis de azulejos não têm a ver com o texto. Têm apenas a ver com o meu gosto por azulejos.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

quarta-feira, julho 31, 2024

Andam anjos in heaven?
Ou vamos mas é ao que interessa: a minha voz é igual à de José Castelo Branco?
(Se acharem que sim, agradeço que me poupem)

 

Dormi que foi um regalo. Acordei tarde, acordei descansada. 

E foi um dia bastante produtivo. 

Tenho sempre muitas coisas que fazer e isso agrada-me, em especial quando são coisas que me agradam (passe a redundância). Mesmo quando trabalhava, quando não havia coisa nova e se entrava quase na monotonia, ficava stressada. De vez em quando, o Grupo comprava empresas e era preciso assimilá-las rapidamente, metê-las no perímetro de gestão das empresas do grupo (metê-las no sentido de enfiá-las, nem que fosse contra a vontade delas), organizá-las, pô-las a funcionar como as demais, e tudo em prazo recorde. Se grande parte dos meus colegas ficava em ponto de rebuçado, achando que eram prazos impossíveis, que as circunstâncias eram irrealizáveis, toda eu vibrava.

Nada me agradava mais do que ter desafios que pareciam irrealistas e equipas descrentes ou equipas que tinham que ser formadas à pressão para começarem a colaborar nesses projectos. Mesmo quando era acusada de me atravessar 'à maluca' ou me atirar para a piscina ainda sem saber se teria condições para isso, e mesmo se eu própria, cá para mim, me assustava e pensava 'caraças, para que é que me fui meter nisto...?', a verdade é que essa adrenalina era um tónico indispensável para a minha existência.

Agora, reformada, também não paro de me meter em cenas e de me atirar 'à maluca'. Gosto de arriscar, gosto de ir à luta e, apesar das derrotas (que tendo a encarar como percalços naturais), muito dificilmente desisto. Posso ajustar o rumo, posso repensar estratégias mas desistir é para mim muito difícil.

Bem. Adiante.

A meio da tarde deitei-me cá fora e pus-me a olhar para o céu. E só pensava: 'Azul'. Ou não pensava nada, simplesmente olhava. Estive ali durante muito tempo a olhar para o céu e a única coisa que atravessava a minha mente era a palavra azul. Depois reparei que, muito lá em cima, um pequeno pontinho branco se movia. Como estava presa ao 'azul' levei algum tempo a pensar: 'avião'. Mas logo retrocedi e me fixei no mesmo: 'azul'. Depois ocorreu-me que, se calhar, estava a meditar. Para a coisa ser mais consubstanciada, pus-me a fazer respirações. 

No fim estava ainda mais descansada. 

Depois estraguei tudo. Fui aos figos. Comi uns poucos. E isto preocupa-me pois já sei que a balança vai castigar-me. Mas é o que é. Parece que nasci mais para pecar do que para ser abstémica.

E, como habitualmente, andei a passear in heaven e, mais uma vez, me deu para fazer vídeos. Fiz dois. Mas, para não ser uma overdose de maluqueira, hoje partilho apenas um.

Um dia destes tenho que ver se é possível transformar os vídeos feitos com telemóvel em vídeos de écran inteiro. Acho que seria melhor, não acham?


Dias felizes para todos!

domingo, janeiro 28, 2024

Falamos junto à luz


Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

Sophia de Mello Breyner Andresen, em ‘Dia do Mar’


De tarde, chamados pela luz suave e dourada, pelo prenúncio de primavera que nos trouxe temperaturas muito aprazíveis, e, sobretudo, pelo menos pela parte que me toca, pela necessidade de oxigénio, fomos para a beira do rio.

O prazer de andar e conversar num dos lugares bons da cidade, a diversidade de gentes com que nos cruzamos, o sol sobre o rio, a boa companhia, tudo isso é remédio certo para lavar a alma.

Em tempos fotografava pessoas. Adorava. Sentia-me sempre uma observadora clandestina e, ao mesmo tempo, transparente. Já conseguia antecipar os movimentos das pessoas, as suas expressões. Estava de tocaia e, quando a ocasião se proporcionava, disparava. E, aparentemente, ninguém dava por nada.

Tenho muitas centenas ou, melhor, provavelmente, milhares de fotografias de pessoas. Mas depois temia sempre publicá-las pois receava que estivesse a pisar o risco da privacidade. É certo que há mesmo a modalidade de fotografia de rua e muito do que era a sociedade em tempos mal documentados se conhece através do trabalho de fotógrafos de rua. Mas, por via das dúvidas, encolhi-me. E, se não posso mostrar, para quê estar a fazer?

Portanto, agora tento evitar a presença de pessoas. Contudo, por vezes, é impossível deixá-las de fora. Mas, como sempre costumo dizer quando aparecem pessoas nas minhas fotografias, se alguém se reconhecer aqui e não quiser cá estar, bastará que mo diga.

Fomos lanchar ao CCB, depois fui lá tratar de um assunto e, de seguida, fomos passear para a beira do rio. 

O que abaixo partilho é parte da arte de rua que por aqui se pode ver. Escultura de homenagem ao pessoal clínico em tempos covid, a escultura Central Tejo, os big e engenhosos trabalhos da Joana Vasconcelos (se é arte ou gigantes trabalhos que incorporam design e montagem isso não sei), o mural em que vários artistas homenageiam o 25 de Abril, os belos murais de azulejos com poemas de Sophia, o próprio edifício do MAAT que é escultural.

A última fotografia não foi feita hoje nem é em Lisboa. É em Setúbal, no belo PUA, e é uma homenagem a José Afonso. A minha filha estava lá à frente mas, com o corrector, retirei-a. Não ficou perfeito mas como a escultura é algo 'incerta' a modos que disfarça.

Em dias como estes, é bom sair de casa, andar a passear, a laurear, a flanar, a desopilar, a vadiar, a turistar, a espairecer, a espanejar, a dar ar à pluma. Mas, para quem não possa fazê-lo, aqui fica um cheirinho.


























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E vi este vídeo de que gostei e que gostaria de partilhar. Já não é Green Renaissance mas Reflections of Life e são sempre tão tranquilos, transmitem serenidade, a vida a ser vivida com vagar, o contacto com a natureza, o prazer de existir de forma simples.

BELONGING - Finding Connection

Quando somos incompreendidos e sem apoio, é fácil sentir-nos sozinhos, como se não nos encaixássemos no mundo que nos rodeia. Mas algo lindo começa a acontecer quando entendemos que nossa singularidade não é uma falha, mas um motivo de comemoração.

À medida que aprendemos a valorizar e a partilhar os nossos dons individuais, reconhecendo a beleza das nossas diferenças, encontramos uma ligação renovada com o mundo - semelhante à harmonia encontrada na natureza, onde cada elemento contribui para a beleza geral da paisagem.

Inspirando-nos no mundo natural, entendemos que abraçar as nossas diferenças é um presente que podemos oferecer ao mundo, tornando-o um lugar mais bonito para todos que nos rodeiam.

A resposta reside em colmatar lacunas, cultivar a empatia e revelar a vibrante tapeçaria da nossa experiência humana partilhada através do reconhecimento e da celebração da diversidade.

Filmado em Singapura

Com Kathleen Yap


Desejo-vos um bom domingo
Saúde. Serenidade. Paz.

segunda-feira, maio 22, 2023

Bora todos numa de Miyawaki...?

 


Uma vez mais, passa das duas quando começo a escrever. O dia começou mal. Quando fui tirar o bacalhau do congelador para fazer cozido com todos para o almoço, senti logo que estava meio mole. Apalpei os sacos vizinhos e tudo na mesma. Fui logo dar a notícia ao meu marido.

Não tinha faltado a luz porque a central dá aviso e não tinha dado. Como tínhamos estado uns dias fora, não sabíamos mais do que o que estava à nossa frente: nem quando nem porquê.

Como o frigorífico é digital, ele pensou desligá-lo da tomada e voltar a ligá-lo. Sentiu a ficha quente e viu que estava com cores de hematoma. Quando ligou, o painel desatou num pisca pisca muito descontrolado. 

Pensou que a tomada, por dentro, vá lá saber porquê, tinha tido um escaldão. 

Ligou-o, então, com extensão numa outra tomada e aparentemente ficou bom.

Mas, obviamente, tivemos que esvaziar. Descongelar e voltar a congelar não está com nada. 

Alguns sacos que estavam a meio da descongelação aproveitei. Fiz vários tachos de comida. 

O resto, tudo para o lixo. Uma dor de alma.

Mas aquilo da lei de Murphy -- que quando é para dar para o torto, dá mesmo para o torto, --esteve a pleno.

Mais coisas que, dado o adiantado da hora, nem vale a pena enunciar.

Para ajudar à festa, resolvi reler a última 'obra' que já tinha dado como relida. De noite tinha ficado com umas dúvidas. De dia, resolvi mudar uns aspectos e, para evitar contradições, rever de novo, coisa que só agora acabei.

Pelo meio fui vendo os comentários daqui que agradeço e com os quais, fossem outras as circunstâncias, faria uma festa. 

E agora, pouco tendo a acrescentar, deixo-vos apenas com um tema que me interessa. Li, a meio do dia, numa escapadinha, aos desagradáveis afazeres, um artigo que chamou a minha atenção: 

Primeira floresta Miyawaki do Algarve pode ajudar a combater a seca

A primeira Floresta Miyawaki do Algarve está a crescer no concelho de Silves com 18 espécies vegetais nativas da região que garantem um equilíbrio da biodiversidade e menor utilização de água. (...)

São pequenos passos, pequenos nadas. 

Eu que plantei a minha pequena floresta e que posso testemunhar como toda a paisagem mudou, como tudo ali nasce e cresce e como os animais dali fazem a sua casa (pois se até esquilos já lá vivem), sou muito sensível à necessidade de todos estarmos conscientes que temos que fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para travarmos a desertificação da nossa terra.

O vídeo abaixo é muito simples e está traduzido (para brasileiro). Mas dá para perceber.

O que são as 'microflorestas' que estão surgindo no mundo

Milhões de árvores estão sendo plantadas em todo o mundo na tentativa de combater as mudanças climáticas. Mas vários grupos ambientais também estão plantando "microflorestas" urbanas — do tamanho de uma quadra de tênis.

Neste vídeo, você vai conhecer uma floresta minúscula na Holanda.

A técnica de plantio usada, chamada "Miyawaki", vem do Japão — e o primeiro passo é preparar o solo com nutrientes e um mix de árvores nativas. Em poucos anos, cresce uma floresta rica e densa.

Mas será que há pontos negativos? E será que florestas tão pequenas realmente ajudam na luta contra o aquecimento global? Assista e entenda.


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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira
Saúde. Boas vibes. Paz.

sábado, maio 13, 2023

Como são bons os banhos de floresta

 



Não sei se no outro dia contei que estava na cozinha, a tratar do almoço ou a lavar a louça, não me lembro, e, ao olhar para o pinheiro lá mais ao fundo, vi um esquilo, com o seu mega cauda felpuda, a salta de um ramo para outro. Senti uma onda de felicidade. Se alguma vez, quando a terra à volta da casa era só pedras e mato rasteiro e eu sonhava com um pequeno bosque, eu podia sonhar que os pinheirinhos que o meu pai trouxe, ainda pequeninos, agora estariam tão altos e que neles eu haveria de ver um esquilo a brincar...

Não quis desviar o olhar pelo que não fui buscar o telemóvel para fotografar. Ao ver o bichinho verifiquei que apenas o vi porque ele estava a salta de um ramo para outro. Se não o tivesse seguido com o olhar não o detectaria. 

Quando estou a caminhar, tento descobri-los mas não consigo. Mas penso que, se calhar, são eles, lá em cima que estão a ver-me a mim.

A vida é uma breve passagem e mesmo que gostemos muito de cá estar chegará o dia em que chegamos ao fim da passadeira rolante em que calhou que viéssemos parar. Mas, enquanto cá estamos, é bom que aproveitemos, que gostemos de cá estar, que façamos aquilo de que gostamos e, se possível, que deixemos, à nossa passagem, coisas boas de que os que vêm a seguir possam desfrutar.

Hoje, nos intervalos dos meus trabalhos, por aqui andei a caminhar, a respirar este ar tão puro, a banhar-me nestes verdes tão límpidos, a fazer corridinhas ao despique com o ursinho cabeludo. 

Por diversas vezes pensei que era sábado ou domingo. Ainda não assimilei que posso ter uma vida boa durante a semana. Outras vezes, quando acordo mais tarde, sobressalto-me como se estivesse a baldar-me, a abusar da minha sorte dormindo quando devia estar a trabalhar. parece que o meu corpo (ou a minha mente?) ainda não se habituou completamente à liberdade.

Trouxe para ler um livro que a minha filha me deu sobre os banhos de floresta, o bem que fazem ao corpo e à mente, o bem que sabem, as maravilhas que se escondem numa floresta ou como essas maravilhas se mostram para quem está disponível para as ver, ouvir, tocar, cheirar, sentir, respirar.

Acredito muito nos benefícios de andar na natureza, de andar ao sol, de andar à sombra sob o fresco saudável da copa das árvores, de andar em silêncio, de escutar os sons das árvores e aspirar o perfume das flores, da aragem, de sentir a macieza da terra, dos musgos, da caruma, de ver os mil tons de verde.

Para além das fotografias que fiz ao fim da tarde, partilho convosco um conjunto de vídeos que têm a ver com isso. Espero que tenham tempo e vontade de os ver e ouvir e gostava que também gostassem deles.





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Um bom sábado
Saúde. Serenidade. Paz.

sábado, abril 08, 2023

Um urso cabeludo, um coelho aos saltos, um cão imponente, muita natureza, paz e beleza
-- In heaven --

 

Estava a passear ao fim da tarde, passarinhos cantando de dar gosto, olhando e fotografando flores e florzinhas, só eu e o meu urso cabeludo, quando o vejo dar um salto e largar em louca correria. No mesmo instante, vejo um coelho aos saltos, correndo e saltando. Por pouco não fiz o mesmo. 

Em vez disso desatei aos gritos, gritando pelo nome do urso perseguidor. Poderão achar que é exagero meu mas juro que estava arrepiada. Nos momentos em que um crime pode estar em perspectiva todo o meu corpo fica em transe. Finalmente vi o urso deter-se num zona de moita mais compacta e desatar aos saltos, com latidos curtos e bem sonoros. E eu  gritar por ele. Temi até ao último instante que me aparecesse com o inocente coelhinho nos dentes.

Mas o coelho, veloz, deve ter-se enfiado nalguma lura. 

Pois eis que o urso veio a correr, aos saltos, a dar ao rabo, pondo-se de pé, todo ele sorrisos e felicidade. Pela reacção percebi que achou que fez o que achou que tinha que ser feito: rechaçou o inimigo.

O meu marido chegou entretanto e ele fez a mesma festa. Nitidamente estava a dar conta, também ao dono, de que tinha feito uma boa acção.

Depois foi pegar-se com os enormes lobos da quinta lá de baixo. Os três bisontes ferozes encostados à vedação do lado de lá e o urso do lado de cá, uma peleja que só visto. Dos três do lado de lá, há um que é imponente. Quando me aproximo, cala-se e fica a olhar para mim. É um animal fascinante.

Como continuei a minha caminhada não vi o vizinho, apenas ouvi vozes. O meu marido contou-me que o vizinho estava a chegar e, ouvindo tamanho ruidoso concerto, foi ver o que se passava e aproveitou para desejar boa páscoa. Simpático.

Entretanto, andei a apanhar nêsperas e, pelo sim, pelo não, a comê-las. E fiz também os meus telefonemas. E etc.

Já quase noitinha, o meu marido sugeriu que era melhor virmos para dentro e eu concordei porque a friagem começava a descer. Ele foi chamar o cão de guarda que andava desaparecido. Aqui é que o dog anda nas suas sete quintas. 

A fotografia está assim pois foi feita muito de longe, um zoom bem longínquo

Chamou, chamou. Por fim já chamava à bruta, na base da ordem de ou vens ou vais pagá-las. Fui também chamar. E também assobiei (que I know how to whistle). 

Nada de fera.

Passado um bocado apareceu, lampeiro, com as barbas meio molhadas e todo ele se lambendo. Feliz da vida.

Passado um bocado, já aqui na sala, veio pôr ao pé de mim uma corda de brincar. Peguei e ele agarrou com os dentes para eu puxar e ele fazer o mesmo em sentido contrário. E então senti-lhe um cheiro que não identifiquei, um cheiro orgânico, a coisa viva, uma coisa muito disturbing. O meu marido disse: por isso não veio quando chamei por ele. Nem quero pensar no que pode ter sido.

Para além de coelhos há de certeza vários esquilos. 

Debaixo dos pinheiros do costume há um mar de pinhas roídas. Quantos esquilos serão necessários para darem conta de tamanho ror de pinhas...?

Mas lá em baixo, ao fundo, também já vi vestígios deles. 

E sabe-se lá o que mais há de bicharada. Já para não falar nos pássaros. Um chilreio que derrete qualquer coração. Aliás, tudo aqui derrete, afaga e conforta o meu coração.

Tirando isso, fui ao supermercado e fiquei outra vez estarrecida com o que gastei. No fim, olhei para o talão tentando perceber como foi tal possível. As coisas a um preço estúpido. No fim, como que para gozar com a minha cara, aparecia escrito que tinha poupado 19€. Se tivesse apanhado a patroa do supermercado à minha frente capaz de fazer uma bolinha com o talão e, pedindo-lhe licença, fazer-lhe pontaria à cara de pau com que se apresenta a dizer que, nisto tudo, a distribuição está a fazer grandes sacrifícios. 

Mas, pronto, já fiz as compras todas para o fim de semana. Dessa já estou despachada.

Só ainda não contei que depois da visita familiar, da ida ao supermercado e do almoço, viemos os dois até ao sofá, carregámos no botão para o transformarmos em quase cama e, não sei como, quando demos por nós, eram seis e meia da tarde. Não sei quando é que este peso de sono nos vai sair de cima. Imagina se isto nos dava quando ainda estávamos no activo. Havia de ser bonito. Ou então isto não tem a ver com a covid mas com cansaço acumulado durante décadas. Não sabemos. 

Mas há-de passar.

O que sabemos é que há por aqui muito que fazer, muito mato para cortar, muita árvore para podar. Temos que vir com mais tempo. 

E só de pensar nisto me encho de felicidade.

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E, já agora, dois vídeos cheios de muita beleza e que também me trazem felicidade


Julie Gautier. Musica de Carlos Hof do album ADORE.

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Corda flexível de aço @CirqueduSoleil
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Um dia bom
Saúde. Serenidade. Paz.

segunda-feira, fevereiro 20, 2023

Um domingo in heaven.
E conhecemos pelo menos um dos novos vizinhos. Se calhar, dois...



Fomos passar o dia ao campo, coisa breve. Com tanto pinheiro não queremos arriscar outro acidente com as infernais lagartas. Tinha visto que o cozido era prato de dia e resolvemos ir comprá-lo ao restaurante onde às vezes nos abastecemos. O restaurante a abarrotar, gente cá fora, gente lá dentro. Deve haver muita gente a sofrer com a subida do custo de vida e dos juros nos empréstimos mas a verdade é que o trânsito anda que não se aguenta, os restaurantes deitam por fora, as lojas a bombar. E se uma criança faz anos há toda a espécie de cenas com os parques temáticos cheios, apesar do que custam. Não sei. À vista a desarmada diria que a economia está a bombar que é um regalo.

Primeiro que conseguisse chegar ao balcão para fazer o pedido, quase tive que esbracejar tão compacta a amálgama de gente em que tive que penetrar. Quando estava à espera, uma chamada do meu marido: que trouxesse também pão. Perguntei ao senhor que fez um ar desolado. Pode comprar-se tudo menos pão, não há pão para take away. Percebe-se. Mas também devo ter feito um ar tão desanimado que, passado um bocado, quase à socapa, o senhor veio com um pacotinho de papel. 'Foi o que consegui arranjar'. Ao pegar, percebi que era um carcaça. Passado um bocado, o saco com as duas caixas. Estava com vontade de pedir uma sobremesa mas no meio de um incrível reboliço, o senhor, na maior das eficiências, tirou o talão e não estava lá o pãozinho. Disse-lhe e ele encolheu os ombros: 'Deixe lá isso'. Agradeci. E não quis passar pela mesma vergonha de parecer que estava a mendigar uma sobremesa.

Uma dose chegou para os dois e ainda sobrou um bocadinho. Portanto ainda tenho mais um refeição e um pouco de outra no frigorífico.

Para sobremesa apanhei uma laranja.

Quando chegámos, depois de abrirmos as janelas e pormos a casa a arejar, fomos passear por lá. Eu fotografando, aspirando os perfumes de uma primavera que começa a avizinhar-se, o cão brincando (embora pela trela), o meu marido inspeccionando potenciais processionárias.

Estando lá em baixo, reparámos que o novo vizinho cuja propriedade tem, em parte, um dos lados adjacente a uma parte do nosso, uma parte separada por uma vedação de rede, estava a serrar uns troncos. Contudo, ao ver-nos, veio na nossa direcção. Mas veio ele e os três cães gigantes. O nosso, como é óbvio, ficou num desatino, ladrava e saltava como se estivesse possuído. Ou seja, mal nos ouvíamos. Ele chegou-se à rede do lado dele e eu aproximei-me do nosso lado, enquanto o meu marido tentava controlar o urso frenético.

Resumindo: o senhor, de tshirt (enquanto nós estávamos encasacados), apresentou-se, colocou-se ao dispor. Nós também. Trocámos contactos. Depois enviou um mensagem muito amável.

Quando cheguei a casa googlei. E fiquei a saber que é pessoa com uma considerável pegada digital, com um historial de vida que tem que se lhe diga. No carro, de volta, vim a ver uma entrevista sua e vi também a sua biografia na wikipedia. Uma personagem. Comentámos: 'olha, pelo menos, acho que estaremos bem guardados'.

Depois do casal anónimo e ultra discreto, temos agora um vizinho que é o oposto.

Quando ao fim da tarde vínhamos a sair de casa, no carro, cruzámo-nos com um jovem, muito alto, magro, muito louro. Vinha a praticar corrida, com o seu cão ao lado. Nunca o tínhamos visto. Lembrei-me que há uns meses recebemos um contacto no sentido de sabermos se estávamos interessados em adquirir um terreno que, numa parte, também é adjacente ao nosso. Parece que nos terrenos rústicos, antes de se vender um terreno, devem questionar-se os vizinhos pois, a quererem, terão primazia. Em tempos, de facto, tínhamos pensado nisso mas entretanto percebemos que ter um terreno rústico bem cuidado dá trabalho e custa dinheiro. Informaram-nos então que, nesse caso, o terreno seria vendido a um jovem, salvo erro finlandês, que dizia ir dedicar-se a agricultura biológica. Não sei se será aquele rapaz mas talvez seja.

E assim a envolvente vai evoluindo, vizinhos novos com hábitos também certamente novos. 

Mas, dentro do nosso espaço, a paz é a mesma. Há outra vez muitas pinhas roídas e isso vê-se onde antes não se via. Ou seja, já andam em vários locais. Estão, pois, a aventurar-se. Não tarda teremos esquilos por todo o lado. Adoro a ideia.

Voltaram também a ver-se aquelas pegadas grandes e fundas e o terreno lavrado. Voz entendida, há algum tempo, disse que era javali. As pegadas apareciam sempre no mesmo sítio. Qualquer coisa os bichos procuram ali. Penso sempre: se calhar, trufas. Mas agora apareceram também num outro sítio. 

E vi rolas, várias. Não é inédito. Mas desta vez eram mais, muitas.

Penso sempre em como será quando lá não estamos. Deve ser um paraíso absoluto para a bicharada. Tenho muita vontade de que passe a época das bandidas das lagartas para podermos passar lá mais tempo. Agora já podemos.

De volta, um dissabor: a casa dos gelados continua fechada. Nunca mais abre. Como é possível? A falta que um gelado me faz nestas noites de inverno.

Tirando isso, está tudo bem.

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Desejo-vos uma boa semana, a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Alegria, Paz.

domingo, junho 26, 2022

Dia no campo de vassoura na mão, noite no arraial com dança no pé

 



É a história da minha vida. Peço: que nada nem ninguém me acordem. E ainda eram sete e picos e já eu estava a ser acordada com o animal a ladrar freneticamente. Estava sozinha na cama. Chamei pelo meu marido. Nada. Liguei-lhe, então. Atendeu. Perguntei-lhe por que raio de carga de água tinha saído e deixado a fera dentro de casa. Disse que pensava que ele tinha saído. Pedi que lhe viesse abrir a porta. Passado um bocado, ouvi-o a abrir a porta e a chamar por ele. Só que, com isto, espertei, já não dormi mais.

Cabe talvez aqui dizer que o urso felpudo adora estar in heaven. Aliás, quando queremos vir-nos embora, recusa-se. Deita-se no chão, não se mexe. Tem que quase ser arrastado à força. No entanto, para ele, estar lá é um desassossego. À luz do linguajar de hoje, deveria dizer: um desafio. Não tem parança. Qualquer mota ou carro que sinta na estrada, qualquer cão ao longe ou, pior que tudo, os cães da casa do outro lado da rua que antes entravam e cirandavam por todo o lado como se fosse tudo deles e agora se ficam pelo lado de fora, tudo o tira do sério. Sai a correr, ladra como se estivesse possuído. Com os cães vizinhos, o meu marido teve que pôr uma rede no gradeamento não fossem eles arriscar-se a entrar cá. Seriam estraçalhados. Agora reforçou pois os outros abeiram-se e este salta como um maluco, capaz de lhes arrancar um pedaço. 

Não queria eu um cão de guarda...? Pois. Caraças. Melhor que a encomenda.

E, ao mesmo tempo, um fofo, um doce, um querido, um peluchinho, uma coisa mais quentinha e mais linda. Dou-lhe abracinhos bons e ele nem se mexe, meiguinho que só ele.

Mas, portanto, dizia eu que este amiguinho da onça me acordou quando eu queria ficar a dormir e, assim sendo, com uma manhã larga pela frente, aproveitei para aquela never ending task de varrer à volta da casa, debaixo do telheiro e no caminho que vem do portão da rua. Com aquela vassoura pesada de arame e com aquela pá de alumínio de cabo alto.

Varre-se, varre-se e há sempre que varrer. Folhas de plátano, folhas de nespereira, folhinhas de azinheira, montes, montes delas, caruma -- enfim, tudo o que cai das árvores, dos arbustos, das flores. Claro que nunca me chega o tempo para ir varrer nos caminhos mais afastados da casa nem ao pé das mesas lá de baixo. E bem precisado está tudo. É trabalho para tempo inteiro, não para part-time.

Isto é uma coisa que talvez seja estranha para outras pessoas: vou lá, adoro lá estar e, em vez de aproveitar para descansar, só me dá para trabalhar. Por exemplo, não sei se já alguma vez me sentei nos cadeirões novos que estão ao pé da lareira. Estavam lá duas bergeires que não eram especialmente confortáveis. Arranjei dois cadeirões confortáveis, bons para lá se estar a ler ou, simplesmente, a estar, apenas estar. Pois tenho ideia que nunca lá me sentei. Tenho sempre que fazer. Abrir janelas, pôr a casa a arejar, fazer a comida, lavar roupa, limpar a casa, varrer dentro e fora, apanhar ervas, caminhar e fotografar. E o tempo vai passando. Ninguém me obriga. Sou eu que gosto. Há sempre que fazer. Por exemplo, já disse que, na próxima vez, vou começar a apanhar orégãos. Parece-me que já estão bem floridos. Antes que fiquem secos, quero apanhá-los para os deixar, depois, sobre um lençol estendido sobre a mesa grande para ficarem a secar durante a semana. Depois, quando sequinhos, é tempo de separar os tronquinhos das folhinhas, colocar em frasquinhos de vidro. 

Também andei a apanhar alfazema. Apanhei um belo ramo. Dobrei os pés e coloquei num copo de vidro que coloquei na cómoda do meu quarto ao pé dos anjinhos. Também apanhei um ramo grande e coloquei numa jarra de vidro na cozinha. Um perfume limpo e fresco que dá gosto.

De regresso, consegui um desvio pela maravilhosa casa dos gelados. Contive-me. Um cone de apenas uma bola. Chocolate com laranja. Buoníssimo. 

Quando chegámos a casa já a maltinha do lado da minha filha cá estava. A turminha do lado do meu filho não, está parcialmente encovidada. Três em cinco. Cerca de quatro meses depois, estão outra vez. Felizmente, parece que mais brando do que da primeira vez. E na primeira vez apanhou-os aos cinco e, desta vez, até ver, dois talvez escapem.

E à noite fomos para os santos, arraial a preceito, bailarico e cheiro a bifanas e a caracóis. Música popular a puxar pelo pé. Bem me soube. Não atino é com as coreografias. Parece que toda a gente as sabe, mão na cabecinha, mão na cintura, mão na perninha, mão para cima, mão para baixo. Se tento, atraso-me pois estou a ouvir pela primeira vez e, ao meu lado, toda a gente parece que não faz outra coisa desde que nasceu. Limito-me a fazer como me apetece. 

Os meninos não são de danças, foram jogar futebol com outros rapazinhos. Escuso de dizer que o meu marido dispensou. Agora tem a desculpa do cão, que tem que ficar em casa a tomar conta do cão. Está bem, abelha.

A minha mãe, por seu lado, também teve programa. Foi com uma amiga, inserida num grupo, à revista, ao Politeama. Hesitou, que não sabia, que não sei quê, não sei que mais, que a amiga é que queria e patati-patatá. Disse-lhe que se deixasse de coisas, que fosse. Lá foi. 

Só consegui falar com ela à noite, Em vez de tirar o som, desligou o telemóvel. Só o ligou quando chegou a casa. Toda feliz da vida, parecia uma adolescente vinda de uma excursão. E assim é que deve ser.

E foi isto. Os dias passam a correr. Tinha a ideia de ler mas não me sobrou um minuto. Estava com vontade de reler um certo livro, em especial as últimas páginas. Cá por coisas. Talvez este domingo. 

As ameixas já estão doces: o pior é que caem ou que os pássaros as comem

E nada mais que isto já vai longo e nem uma linha alusiva ao São João propriamente dito. Que aliás, Dia de São João já foi antes, não foi este sábado, pelo que nem sei bem a que santo se reportava o arraial desta noite. E, para dizer a verdade, mesmo que fosse ainda ao São João também nem sei a que São João se refere. Será ao João Baptista? Mas também não faz diferença. Todos os Joões merecem que se festeje em sua honra.

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Já agora, numa de natureza e boa onda, deixem que partilhe um vídeo tranquilo e bonito

Caroline Zimmermann: Portrait of an Artist in her Tuscan Garden

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Fotografias feitas in heaven na companhia de Angelina Jordan a interpretar Suspicious minds

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Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde. Pé de dança. Sorrisos. Ar puro. Paz