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domingo, outubro 20, 2013

Recapitulando - a crónica de Miguel Sousa Tavares no Expresso deste sábado sobre o inexequível, absurdo e nefasto OE 2014 e sobre a quota parte de responsabilidade, na destruição de Portugal, dos 4 partidos que, unidos, trouxeram a troika para Portugal (a saber: PSD, CDS, PCP e BE). E ainda a uníssona opinião de Nicolau Santos, dos arrependidos Daniel Bessa e João Duque (e, de raspão, a balofa opinião de Marcelo Rebelo de Sousa que não gosta, não gosta, mas aplaude a inteligência de Cavaco Silva ao, provavelmente, evitar uma crise política, deixando passar o aborto do OE)


Mais uma vez o Governo falha todas e cada uma das previsões: o PIB, o consumo, o investimento, o défice e a dívida - e todos vamos pagar por isso.


É uma vergonha que, todos os dias, todos os membros do Governo continuem a justificar o continuado desastre desta política com a herança de Sócrates.

A realidade, porém, é que, depois de dois anos e meio de austeridade, depois de 35.000 milhões de euros roubados à economia, depois de 400.000 postos de trabalho destruídos e milhares de empresas levadas à falência, o défice é praticamente igual ao que herdaram e a dívida pública não fez senão aumentar.


Pode ser que um dia eles acabem por ter razão, mas sobre as ruínas de um país devastado, depois de terem desqualificado para sempre o valor do trabalho como factor de produção, depois de terem enviado para a emigração os melhores do país, comprometendo para sempre o seu futuro, depois de terem vendido tudo o que tem valor estratégico e económico, e sepultado qualquer veleidade de modernização na economia, na investigação, na energia. E mantendo, intacto, o mesmo Estado que o país não consegue suportar, porque confundiram o corte de salários e pensões com o corte permanente da despesa do Estado.

Espero bem que o país não se esqueça de ajustar contas com essa gente um dia. 

Esses economistas, esses catedráticos da mentira e da manipulação, servindo muitas vezes interesses que estão para lá de nós, continuam por aí, a vomitar asneiras e a propor crimes, como se a impunidade fizesse parte do estatuto académico que exibem como manto de sabedoria. 

Essa gente, e a banca, foram os que convenceram Passos Coelho a recusar o PEC 4 e a abrir caminho ao resgate, propondo- -lhe que apresentasse como seu programa nada mais do que o programa da troika — o que ele fez, aliviado por não ter de pensar mais no assunto. 


Vale a pena, aliás, lembrar, que o amaldiçoado José Sócrates, foi o único que se opôs sempre ao resgate, dizendo e repetindo que ele nos imporia condições de uma dureza extrema e um preço incomportável a pagar. 


Esta maioria, há que reconhecê-lo, conseguiu o seu maior ou único sucesso em convencer o país que o culpado de tudo o que de mal nos estava a acontecer foi Sócrates — o culpado de vinte anos sucessivos de défice das contas públicas, o culpado da ordem vinda de Bruxelas em 2009 para gastar e gastar contra a recessão (que, curiosamente, só não foi cumprida pela Alemanha, que era quem dava a ordem), e também o culpado pela vinda da troika. 

Mas, tanto o PSD como o CDS, sabiam muito bem que, chumbado o PEC 4, o país ficava sem tesouraria e não restava outro caminho que não o de pedir o resgate. Sabiam-no, mas o apelo do poder foi mais forte do que tudo, mesmo que, benevolamente, queiramos acreditar que não mediram as consequências. 

***

  • O texto acima resulta de excertos da crónica semanal de Miguel Sousa Tavares no Expresso deste sábado, dia 19 de Outubro de 2013, crónica que ele designou por 'Recapitulando'.

  • Poderia aqui juntar também excertos do arrependido Daniel Bessa, antes tão apoiante deste Governo e agora já tão desiludido,

Quando tudo isto começou, pensei que subir impostos, baixar salários e reduzir pensões poderiam fazer parte de soluções intercalares, mas não fariam parte da solução definitiva. (...) 

  • ou excertos da crónica de Nicolau Santos, 'Anatomia de uma ficção desesperada', 

A proposta de lei do Orçamento do Estado para 2014 é uma ficção desesperada, controlada por funcionários estrangeiros de segunda e elaborada por uma ministra com alma de contabilista (sem ofensa para a classe...)

  • ou excertos da crónica de um outro arrependido, João Duque, crónica que intitulou 'Vender os anéis e ficar sem os dedos'

Talvez o Governo esteja a prever que o 'prego' seja a saída para muitas famílias, mas recordo que no próximo ano, depois de nos terem esturricado os dedos, o castigo vai continuar, porque é isso que o nosso desequilíbrio impõe na ausência de crescimento económico, embora para o ano já não existam anéis...
  • ou poderia referir todos os outros cronistas ou jornalistas que mostram nesta edição do Expresso, como ultimamente em todas, o mais profundo repúdio pela destruição e injustiça irreparável que o desGoverno de Passos Coelho e Paulo Portas está a levar a cabo no País - mas tornaria este post ainda maior, mais aborrecido de ler.

Mas não posso deixar de referir Marcelo Rebelo de Sousa no seu exercício semanal na TVI com Judite de Sousa (hoje mais bonita, melhor encarada e, sobretudo, melhor maquilhada) pelo seu cinismo, pela inutilidade dos seus comentários, tão cheios de artificialismos, de manobras e conselhos e contra conselhos - e tão desligado, de facto, da dura vida real.

Marcelo Rebelo de Sousa, mestre dos jogos de sombras, interpreta tudo à luz do tacticismo e dos jogos partidários, como quando acha inteligente que Cavaco Silva deixe passar o Orçamento e apenas se limite a enviá-lo para fiscalização sucessiva de modo a que os resultados só saiam para o ano que vem, evitando desta forma uma crise política. Para pessoas que se deixam dissolver nos cenários que conjecturam, como é o caso do comentador Marcelo Rebelo de Sousa, a vida real das pessoas que, por cada mês que passa, mais se degrada, nada conta. O que conta para ele são as habilidades palacianas - e isso é muito revoltante. A desgraça e a insegurança das pessoas deveriam merecer-lhe mais respeito.


Passos Coelho pode mandar detonar o país inteiro, Portugal pode estar devastado, numa irreversível derrocada, as pessoas podem estar a asfixiar debaixo das ruínas, que Marcelo Rebelo de Sousa vai continuar a dar as tácticas para que Cavaco Silva se saia bem e para que se consiga evitar que a responsabilidade caia em cima de Passos Coelho. E, por inverosímil que possa parecer, haverá ainda alguns que continuarão a dizer que a culpa foi de Sócrates (quiçá até por ter, um dia, perguntado, a um tal de Luís se, na televisão, ficava melhor de um lado ou de outro).  

Mas fazer o quê? O mundo é mesmo assim, cheio de coisas e de gente que não dá para entender. Gente que gosta de ver tudo ao contrário ou que gosta de atirar areia para os olhos dos outros sempre haverá. Nada a fazer.

domingo, março 24, 2013

Miguel Veiga fala destes tempos desalmados entregues a políticos de aviário; João Silvestre explica como uma austeridade para além do acordado com a troika fez desparecer 17,2 mil milhões de euros da economia; Daniel Bessa preocupa-se com a dívida pública que não pára de crescer, sem que os responsáveis políticos se preocupem com isso; e João Duque ironiza: que 'siga o enterro' com tudo a derrapar tão perigosamente... E, para a coisa não acabar mal, 'a pele que há em mim', cantada pela Márcia; e Rui Pires Cabral desfia um nocturno com aviões.



Miguel Veiga


Qual o motivo para rejeitar o candidato do seu partido?

Por ser um candidato do aparelho que só pode vingar, num partido como o PSD, que é livre e aberto, porque o aparelho o impôs, tal como impôs Passos Coelho. Quem fez Passos Coelho, primeiro-ministro?

Quem foi?

Uns tipos do piorio, que existem em Portugal. Um é Miguel Relvas, o outro é Marco António. Andaram durante um ano e meio a bater as distritais para angariar votos, a realidade é esta.

Quem está no poder, o PSD ou o aparelho?

O aparelho, quanto a isso não há dúvida. Encontram algum social-democrata no Governo? Nem um. Estes tipos não têm convicções. Simplesmente não têm uma ideia de convicções e, portanto, não têm uma ética da responsabilidade. Querem o poder pelo poder. Estão centralizados, incrustados e vivem num regime de sucessão eterna, quase dinástico, que se torna opressivo e do mais fechado que há. O regime é autofágico. Vão-se reproduzindo e é como um panzer. Levam tudo à frente. Este é um tempo crepuscular.


(Excerto da entrevista de Ana Soromenho e Valdemar Cruz a Miguel Veiga, advogado portuense, que ajudou a fundar o PPD e que, aos 77 anos, não desiste de uma rebeldia que o leva a ver o actual PSD como um partido de 'políticos de aviário' - Na Revista do Expresso deste sábado)


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Impacto das medidas de austeridade na economia dez 'desaparecer' 17,2 mil milhões de euros.

Governo aplica medidas de 23,8 mil milhões de euros entre 2011 e 2013 mas só consegue baixar o défice em 6,6 mil milhões de euros.

Governo foi além da troika mas nem assim impediu que metas tivessem de ser revistas duas vezes


(Tópicos do interessante artigo de João Silvestre no Expresso - Economia)


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Daniel Bessa


Alguns líderes políticos valorizam o défice público - para o que formulam diferentes trajectórias desejáveis. Outros valorizam a taxa de juro paga pela dívida pública, tanto na emissão como em mercado secundário.

Em minha opinião, sem querer desmerecer a importância destes objectivos, há, neste momento, um outro mais importante: o peso da dívida pública no PIB, que se aproxima dos 130%, para um limite aceitável da ordem dos 60%.

Pode o défice público estar a descer (menos que o desejável, em minha opinião). Pode até a taxa de juro da dívida pública estar momentaneamente controlada (muito por força da acção do BCE, em minha opinião).

A prazo um pouco mais longo, a solvabilidade do Estado português dependerá sempre do peso da sua dívida no PIB. E esta não pára de crescer, por várias razões, que se acumulam (défice público, inflação reduzida, decréscimo do PIB).

Preocupa-me sobremaneira que uma boa parte dos responsáveis políticos do meu país não se preocupem com esta questão - mostrando-se satisfeitos, por exemplo, sempre que alguém lhes autoriza um aumento do défice público.


(Excertos do artigo de Daniel Bessa no Expresso - Economia [e permito-me eu resmungar: é pena é que esteja a acordar para a realidade tão tarde; não viu que ia dar nisto enquanto andou a apoiar estes incompetentes?])


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João Duque


Vejamos um resumo de objectivos e resultados para a política orçamental e para o produto.

Para o défice orçamental previa-se 5,9% para 2011 e obteve-se um défice de 6,2%; Previa-se um défice de 4,5% para 2012 e observou 6,6%; (...)

Para o PIB, o memorando tinha implícita uma queda de -0,4% para 2012, observou-se uma queda de -3,2%; em 2011 previa-se um crescimento de 2,5% para 2013, agora estima-se uma quebra de -2,3% (...)

Sucesso?


(Excerto do artigo semanal de João Duque no Expresso - Economia [e resmungo eu de novo: e, sendo tão douto, presidente de uma das mais conceituadas Faculdades de Economia do País, porque é que só deu por isto tão tarde? Tão apoiante que era de Passos Coelho há uns tempos atrás...])


*

Temas desconsoladores? De desânimo? De desesperança? Pois são. As coisas estão mesmo muito preocupantes. A devastação está a atingir proporções das quais dificilmente escaparemos incólumes. Se isto não é travado o quanto antes, não sei o que vai ser deste País. O que vai ser de nós? Dos nossos filhos? Dos filhos dos nossos filhos?

Temos que impedir que isto continue. Não sei bem como mas o caminho que isto leva é de acelerada destruição em múltiplos quadrantes e razias desta monta têm que ser travadas, seja como for.

*

Para isto não acabar assim, neste tom desmoralizado, vou deixar-vos com uma canção de que gosto bastante, A pele que há em mim de Márcia






                                                                        para o Miguel Martins


Não estejas só. Tu também és
o que já foste e o que esperaste
vir a ser. A manhã que se aproxima

há-de passar, não importa. Para já,
os diligentes aviões de madrugada
sobrevoam o desenho das colinas

de Lisboa - e cá dentro, muito fundo,
numa redoma de música, os amigos
ainda bebem para esquecer

o futuro, que outro remédio
não têm, se a hora não se repete
e a vida é só esta espuma.


['Nocturno com aviões' de Rui Pires Cabral in Resumo, a poesia em 2011]

*

Este post saíu-me enorme (coisa que já não vos deve admirar, sabido que sou de muitas palavras) mas, ainda assim, muito gostaria que me visitassem também no meu Ginjal e Lisboa. Hoje há uma novidade muito especial, Adília Lopes. Sendo ela como é, desestabilizou-me por completo e, por isso, não se admirem com o que lá vão encontrar. Na música, temos a despedida de um grande intérprete, Nelson Freire interpretando Granados.
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*

E quero ainda desejar-vos um belo domingo. Domingo é dia de passear. Mesmo que chova, vamos para a rua ver o que há de belo à nossa volta, está bem?