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sexta-feira, novembro 02, 2012

Lídia, a mulher que era triste e que agora se descobre uma mulher bem diferente, tem a sua primeira noite de amor (e faz de Paulo um homem muito feliz) - The End





O coração de Lídia quase saltava do peito. Mesmo que lhe ocorresse tentar controlar-se não o conseguiria. Enervada, enervada. Mas, apesar disso, uma determinação inesperada batia mais forte. Não recuar, não recuar, pensava surdamente. O que fazer, como fazer, seriam perguntas a que, se as formulasse, não saberia responder. Reparou que Paulo também não estava tranquilo como habitualmente. Não conseguia abrir a porta do quarto, virava o cartão em todas as direcções e a porta não abria. Depois respirou fundo, endireitou-se, e tentou de novo. A porta abriu-se mas ele não se riu como se teria rido noutras circunstâncias.

Lídia pensou vagamente que não devia fazer sexo inseguro mas não conseguiu pensar muito mais do que isto. Não saberia como o evitar, não estava prevenida para nada. Sentia-se a tremer e já nem se lembrava da dor nos pés. Paulo disse, Se quiser, pode descalçar-se. E dê-me o casaco que eu penduro aqui no roupeiro. Lídia tremia, não disse nada, não se descalçou e quase não conseguia despir o casaco. 

Paulo disse, Quer aqui vir ver a vista do quarto? 




Lídia foi mas sem acção, É bonita, disse sem qualquer convicção e só pensava E agora? E agora o que faço? Que medo, que nervos.

Paulo perguntou-lhe, Quer que ligue a televisão?, mas sabia lá ela se queria, se não. Encolheu os ombros. Paulo ligou a televisão.

Depois durante um instante os seu olhares cruzaram-se mas logo o desviaram. Lídia pensou, Se não fosse a vergonha de fazer figura de parva, ia-me já embora. 

O quarto era pequeno e estavam os dois de pé, notoriamente atrapalhados, desconfortáveis.

Paulo disse, O quarto é pequeno, se houvesse uns sofás, eu dizia para a gente se sentar, assim só posso oferecer a cama. Mas Lídia continuou de pé. Depois pensou, Mas que situação mais ridícula, aqui de pé, especada no meio do quarto. Paulo tinha-se sentado na cama, de lado. Permaneciam em silêncio. Depois, sentindo que não seria possível prolongar por muito tempo a situação, Lídia também se sentou mas do lado contrário. E ali ficou, de lado, a olhar para o chão. Até que, olhando num relance para Paulo, lhe deu vontade de rir. Que situação, que figura. Talvez fosse dos nervos, um escape, qualquer coisa; o certo é que nem se reconhecia na incontrolável vontade de rir. Ria, ria. Paulo também se desatou a rir e, às tantas, já riam os dois à gargalhada, Lídia chorando de riso como nunca antes lhe tinha acontecido. E, então, Paulo aproximou-se e abraçou-a e, como se nem mais nem menos, beijaram-se.

Depois Paulo baixou-se e disse, Vou tirar-lhe os sapatos, vou pôr água a correr na casa de banho, senta-se na beira da banheira e põe os pés de molho que eu a seguir dou-lhe uma massagem nos pés. Pode ser? Lídia pensou, Se me sento com os pés dentro de água, na banheira, vou ficar com as calças encharcadas e então disse, Já agora tire-me também as calças.

Paulo quase caíu para trás. Sério...!?, perguntou, duvidando do que tinha ouvido. Lídia disse, As calças são justas em baixo, não dá para as pôr para cima, se me ponho de calças na banheira, molho-os todas. Paulo riu, É o sentido prático das mulheres… Mas eu tiro-lhe as calças com todo o gosto. Baixou-se e tirou-lhe os sapatos. Lídia pensou que ia ficar ridícula sem calças e de meias pelo joelho e, por isso, disse, Tire-me também já as meias. Paulo obedeceu.

Lídia, então, levantou-se e deixou que Paulo lhe tirasse as calças. E pensou, Felizmente comprei lingerie de jeito antes de vir. Quando a viu, Paulo quase ficou fulminado. As pernas de Lídia eram bonitas e as cuecas eram inesperadas, muito cavadas, de seda muito fina, cor de pele, debruadas a renda um pouco mais escura. Paulo quase instintivamente ia tocar mas Lídia não o deixou, Não senhor, não permito tais ousadias a um massagista e, alguém de fora que a visse, não a reconheceria, decidida e maliciosa. Foram então para a casa de banho.

Lídia disse então, Não sei, parece que me estou a sentir desenquadrada, assim despida. Vou fazer uma coisa. Descalce-se também. Paulo obedeceu. As meias também. Paulo obedeceu. Depois Lídia desabotoou-lhe o botão das calças. Paulo estava quase em ponto de rebuçado. Lídia lentamente pôs-lhe as calças para baixo. Paulo nem se mexia. Na verdade, quase nem respirava. Lídia disse, Tem que ajudar, levante um pé, agora o outro. E Paulo ficou assim, também sem calças, o desejo exposto. Lídia, se parasse para pensar, não se reconheceria. Mas pensar era coisa de que ela não iria ser capaz naquele momento.

Sentaram-se, então, os dois na borda da banheira, os pés lá dentro, sentindo a água quente que corria. Que bom, que bom...  E ficaram assim, por um momento, em silêncio.

Mas depois Lídia disse, Há uma coisa, Paulo.

Paulo sorriu, Sim... diga, estou preparado para tudo.

Mas Lídia atalhou, Não, não é mais nenhuma revelação. Não é isso. É que, se vai acontecer alguma coisa, acho que deveríamos ter cuidados...

Paulo abraçou-a, brincando, Oh minha senhora, esteja descansada, está tudo previsto...

Lídia ficou surpreendida, aborrecida, Mas então já veio para cá a pensar nisto...? Já estava a contar com isto?! É muito convencimento da sua parte. Ou isso não tem a ver comigo? Anda sempre prevenido para o que der e vier?

Paulo foi muito directo, Não Lídia, não ando sempre prevenido, não ando por aí à caça. Mas é verdade que admiti que, aqui, poderia acontecer qualquer coisa. Somos adultos, livres, gostamos um do outro.  Não tem mal, é normal, é saudável. O sexo é uma coisa boa, faz parte da vida, não é pecado, não deve ser encarado com culpa. Eu quero, Lídia. A si não lhe apetece?

Depois abraçou-a. Lídia suspirou. Depois disse, Vou fazer uma coisa que há muito tempo ando com vontade de fazer. Desabotoou-lhe, então, a camisa e com as duas mãos sentiu a pele de Paulo, o peito peludo, o tronco, mexeu, sentiu, acariciou. Paulo estava imóvel, deixava que ela fizesse o que queria, quase em transe com as inesperadas carícias. Lídia nunca tinha experimentado uma sensação tão boa. A pele quente de Paulo, o corpo tão desejado de Paulo. Depois, olhando-o nos olhos, disse-lhe, E eu? Não tenho direito a nada…? Paulo nem percebeu. Lídia esclareceu, Quero eu dizer: não tenho direito ao mesmo tratamento? Paulo apressou-se, Claro! e, desajeitadamente, tirou-lhe a blusa. E ficou quase de boca aberta, de olhos fixos, sem pestanejar. Lídia tinha um soutien igual às cuecas, um soutien gorge, muito decotado, muito sensual. Parecia estar quase sem lingerie, não fora a renda ligeiramente mais escura que debruava as pequenas peças. Tão bonita, Lídia, tão bonita…

Lídia sentiu-se desejada e isso ainda ateou mais o desejo nela. Numa fracção de segundo passou-lhe pela cabeça o que a sua amiga Mary costumava dizer na brincadeira, que umas gotinhas de Chanel nº 5 vinham sempre a calhar. Devia ter pensado nisso. Mas, agora, paciência, logo compraria no aeroporto.

Quando saíram da casa de banho a caminho do quarto, Lídia disse, Já anoiteceu. E foi até à janela. Andando pelo quarto apenas em lingerie, sentia-se livre, sensual, sentia-se desejada. Olhou a rua. 




Numa curva da rua, um andar iluminado de azul, uma festa, gente animada.  Chovia. E o som suave da chuva, as luzes que iluminavam a noite, tudo, tudo convidava ao aconchego, à proximidade, ao abraço quente e bom, ao calor dos corpos que se querem. 

Lídia deixou-se ficar assim, quase nua, à janela. Paulo estava quase sem reacção, tão bela e desejável a via, recortada contra a janela, impúdica, imprevisível, outra.

Depois virou-se, feminina, sedutora, e perguntou-lhe, Posso despir-me ou ainda me quer ver mais um pouco? e o sorriso era de pura malícia. 

Paulo sorriu vagamente, rendido, seduzido. Não, não dispa ainda, deixe-me ver melhor. Vire-se. E Lídia virou-se, sensual, provocante. Depois, passado um pouco, disse, Agora já chega, e, então, lentamente, começou a despir uma alça, outra alça, devagar, e depois, uma perna, e depois, muito, muito lentamente, outra perna e os movimentos eram quase felinos, provocantes. E ficou nua, disponível, olhando um Paulo extasiado, e o olhar dos dois era de desejo, puro desejo. A seguir disse, e a voz era quase um sussurro, rouco e quente, Então prepare-se para eu ver como é, que de futuro faço eu. Paulo, quase tímido, obedeceu. Lídia disse, Agora deite-se, Paulo. E Paulo deitou-se.




E, então, Lídia sentou-se em cima dele e, com cuidado, com deleite, inaugurou o prazer de ser mulher.

Depois abraçaram-se, beijaram-se, felizes, saciados, e o carinho era tanto, mas tanto, que os olhos de Lídia estavam molhados mas as lágrimas eram lágrimas de felicidade e Paulo disse-lhe, Que amor tão grande que eu sinto, Lídia, há tanto tempo que eu não me sentia assim, Lídia, gosto tanto de si, tanto, tanto. 




E Lídia, abraçou-o ainda mais, enlaçada nele, com vontade de partilhar a mesma pele, com vontade de lhe beijar o coração, E eu nunca antes tinha sido tão feliz, Paulo, meu amor mais querido. 


FIM


*
Chega assim ao fim a minha história de Lídia, a mulher que era tão triste e que, aos poucos, foi aprendendo a viver.

Começa agora a história de Lídia e Paulo. Se eles fossem de verdade, desejar-lhes ia toda a sorte do mundo. Assim, desejo apenas que permaneçam algum tempo na memória de quem, aqui, os conheceu.

Gostava muito que esta  história servisse para iluminar um pouco a vida de alguém. Ou, pelo menos, o dia de alguém. Ou, pelo menos, este momento do dia de alguém.

*

A música é de Chopin, Nocturnos 20 e 2, e é interpretada por Adam Harasiewicz.

Relembro que, caso queiram ler a história desde o início, deverão procurar nas etiquetas aí ao lado direito, lá mais para baixo, 'Lídia, uma mulher muito triste'

*

E a vocês, meus Caros Leitores, desejo que também festejem a vida e o amor e que procurem conquistar momentos que fiquem, para sempre, gravados no vosso coração.

Tenham uma bela sexta feira!

quarta-feira, outubro 31, 2012

Lídia, a mulher que era tão triste, confessa o seu segredo e, um dia depois, toma uma decisão





*

Foram jantar com Sara que os levou a um restaurante pequeno, simpático, a bons preços. Sara, muito animada, falou das aulas, do ambiente na universidade, da cidade, dos amigos e toda ela ria, gesticulava, os olhos brilhantes de juventude e esperança. Lídia ouvia-a, encantada. O contacto com a juventude, que bom, que arejamento de cabeça, e que sorte esta, de, enquanto estudante, poder estar num país estrangeiro, à solta, à descoberta. Disse-lhe isso mesmo, Não sei se sabe que tem muita sorte em poder estar aqui, aproveite muito bem, é muito bom. Eu nunca pude sair de casa, sempre constrangida, sempre vigiada, e, às tantas, já era eu própria cheia de medos. A minha vida teria sido toda tão diferente se eu tivesse podido ter a sorte que a Sara está a ter.  Sara sorriu e fez uma festa na mão de Paulo, Eu sei, estou muito agradecida aqui ao paizão, foi ele que incentivou, que eu nem queria muito, foi ele que andou atrás de mim e eu sei o que isso lhe custa. Depois carinhosamente beijou a mão do pai. Paulo fez-lhe uma festa na cabeça.

Lídia sentia-se envolvida por esta ternura tão física, tão verbalizada. Era algo a que nunca estivera habituada, sempre tanta secura, tanta austeridade, sempre um tom de reprovação no ar.  

Depois de jantar, apareceram uns quantos amigos de Sara que a foram buscar no meio da maior paródia e ela lá se foi, brincando, Está aqui uma chave, Lídia, pode entrar à hora que quiser e, se não quiser, também pode dormir fora… e piscou o olho ao pai.

Quando saíram, Lídia respirou fundo, pousou as mãos em cima da mesa, e, lentamente, pesadamente, começou a falar. Qualquer coisa, eram as vizinhas, tu não sabes mas elas estão sempre à espreita, era olha lá o que vai dizer a tua tia, ou era a tua avó se sabe, vê lá o que vão dizer. Cada rapaz para que eu olhava tinha defeitos, é uma gente que não tem onde cair morta, é uma gente que não presta, ele vê-se mesmo que é um valdevinos, quer-se é aproveitar de ti, era isto, aquilo e o outro. E os anos foram passando. Já lhe contei isto. Mas quero explicar. 




Paulo viu como ela estava transtornada, tentou atalhar, Mas se lhe custa falar disso, para que é isto agora? O que lá vai, lá vai. Vamos mas é falar de coisas mais agradáveis.

Mas Lídia tinha que lhe contar. Sei que estou a ser maçadora, mas quero falar, tenho que lhe contar. E continuou, Se eu falava mais com alguém tinha que ser às escondidas para ela não pôr defeitos. O meu pai era um pouco melhor mas tinha medo dela, não abria a boca para me defender. Por isso, não foi por opção minha. Eu sonhava que me haveria de casar. Fiz enxoval, a minha mãe quis que eu tivesse um bom enxoval, dizia que ninguém podia pôr defeito. Tenho uma arca cheia de lençóis bordados, ponto richelieu, ponto pé de flor, outros com grandes barras de renda, renda fina, linha 20 que é quase como linha, fazia ela e fazia também eu, uma dor de cabeça fazer rendas assim, uma trabalheira, toalhas de mesa de linho com aplicações, jogos de casa de banho, tantas coisas, coisas que já não se usam, coisas que nunca foram usadas, coisas que eu tinha ali preparadas para um dia. Sonhava que me havia de casar, pela igreja, vestida de noiva com véu, um bouquet na mão. Mas nunca calhou, eu também andava sempre agarrada a eles, se queria sair com alguma amiga lá vinha ela, essa já está falada, tem uma linda fama, andas com ela, ficas falada como ela. Se eu a contrariava punha-se doente ou fingia, sei lá, fazia-se de vítima, quase não falava, o meu pai logo de roda dela e a olhar-me com ar de censura. Nem sei bem explicar. Passou um mês e outro e outro e agora tenho quase cinquenta anos e não sei como se passou todo este tempo e eu assim. Comecei a ter vergonha, já lhe contei. Como se tivesse defeito, alguém que nunca ninguém quis.

Falava em voz cada vez mais baixa e as lágrimas caiam-lhe lentamente pelo rosto.

Depois, com muito esforço, concluiu, Ainda sou virgem, Paulo. E baixou os olhos, tanta a vergonha. Não viu, portanto, que Paulo teve um quase imperceptível sobressalto. Mas logo se recompôs, Paulo é um homem habituado a tudo, não se haveria de aguentar com coisa tão inocente? Com ternura, passou as costas da mão pelo rosto de Lídia, limpando as lágrimas. Depois segurou-lhe as mãos, tomou-as entre as suas e beijou-as. Guardou-se para mim, portanto…. E sorriu. Lídia levantou os olhos e tentou perceber o que realmente pensava Paulo. Um homem talvez goste de desvirginar uma jovem mulher. Agora uma quase cinquentona…? Até ela, pondo-se no papel de homem, percebe. E o medo que ela tem, medo, medo da atrapalhação, medo, vergonha - e o constrangimento que isso deve para um homem, lidar com uma mulher entrada a portar-se como uma menina, credo. 

Mas Paulo, se pensava isso, disfarçava muito bem. Mas, então, minha senhora, quando vamos nós tratar disso…?, ar brincalhão.

Lídia sorriu, já mais tranquila. Não sei, Paulo. E não se ria... Tenho medo. Sei que é um absurdo o que vou dizer mas…. acho que ainda não estou pronta… e ela própria sorriu, percebendo o ridículo da hesitação.

Não está pronta mas vai ficar, ora essa. Seria muito incompetente eu se não fosse capaz de tratar do assunto, ora essa, mas Lídia percebeu que ele se estava a esforçar por soar natural, percebeu que Paulo não estava, de facto, muito à vontade com a situação. Sentiu de novo aquela sua velha vergonha, era como se fosse imprestável, produto de refugo, toda a gente conhece o amor e ela não, as colegas falam naturalmente das noites que passam com os namorados, toda a gente conhece o que são os segredos da cama, as viúvas, as casadas, toda a gente tem experiência menos ela, a rejeitada. Contudo Paulo, cavalheiro e gentil, não se atrapalha com imprevistos destes, com quantos imprevistos e situações delicadas está ele mais que habituado a lidar, e diz Mas as coisas só são quando tiverem que ser, não tenho pressa. Quando for, quero que seja porque é da vontade dos dois. E não tenha medo que não é caso disso, mas Lídia sentia que a voz dele tinha perdido um pouco da firmeza habitual.

Algum tempo depois, Lídia disse que queria ir andando, que estava cansada, que ainda queria ligar outra vez a Nita, queria saber como estava a mãe. Paulo levou-a ao apartamento das miúdas. Despediram-se mas era como se fizessem alguma cerimónia.

O dia seguinte amanheceu cedo. Lídia sentia-se mais leve. Ligou para casa. Nita assegurou-lhe que estava tudo bem, que não precisava de estar sempre a ligar, que se divertisse, e acrescentou, Olhe, ainda agora já me fartei de rir com a sua mãe, imagine que disse que tinha passado a noite no truca-truca com o cunhado. Lídia respondeu, Ah sim? Com o cunhado? Sai-se com cada uma... O médico disse-me que é comum estes doentes terem conversas deste tipo. Ao princípio fazia-me impressão... e ainda me faz um bocado. Mas, enfim, a gente vai-se habituando a estes disparates. Lídia combinou que ligaria, de novo, à noite.

Estava mais frio e Sara colocou um gorro na cabeça de Lídia, embrulhou-lhe o pescoço com um lenço às cores, e Lídia, quando se viu ao espelho, quase não reconheceu a mulher jovem bonita que a olhava de frente. Riu.




Sara levou-os ao Vondelpark, um parque muito calmo, lindo, atapetado de dourado, grandes árvores, magníficas árvores.




E a água, sempre a água, e aquela paz.




Sentaram-se um pouco, olhando aquela natureza tão doce. Paulo, disse então:

                                  Quando, Lídia, vier o nosso outono
                                  com o inverno que há nele, reservemos
                                  um pensamento, não para a futura
                                  Primavera, que é de outrem,
                                  nem para o estio, de quem somos mortos,
                                  senão para o que fica do que passa
                                  O amarelo actual que as folhas vivem
                                  e as torna diferentes.

Lídia sorriu, deleitada. Não conhecia. Ainda Ricardo Reis?, perguntou. Paulo sorriu, Sou um pessoano...

Sara soltou uma gargalhada. Boa, paizão! Bom aluno, o meu paizão. E que jeito tem para dizer poesia, quem diria? O senhor agente da autoridade já pode declamar poesia quando for prender os marginais… Boa!

Paulo explicou. Eu gosto muito de poesia, é verdade, e então perguntei a Sara se havia poemas dedicados a alguma Lídia e ela enviou-me estes. Decorei-os para impressionar, confesso… Sim, que um homem faz qualquer coisa para agradar a uma miúda…

Lídia riu-se com a alegria cúmplice daqueles dois.

A seguir, Sara, brincalhona, colocou-se a meio dos dois e deu um braço a cada um. E ali foram os três, na maior alegria.

Depois foram andar de barco pelos canais, Têm que vir, têm mesmo, é lindo, tinha Sara insistido e eles, claro, fizeram-lhe a vontade..




Uma hora a andar por canais estreitos, debaixo de pontes, ao lado de casas que mergulham na água, depois até o porto onde entram os navios que vêm do mar do Norte, depois mesmo junto às belas moradias dos gentlemen, e os cisnes deslizando junto a eles. Tempos felizes, pensava Lídia, tempos tão felizes, meu Deus.




Lídia ouviu a explicação de que quase todas as casas têm um pequeno guindaste no topo porque, como Amesterdão sempre teve um problema de área disponível, as casas de habitação eram todas muito estreitas, pagavam imposto em função da largura e, então, as escadas eram tão estreitas que as mobílias tinham (e têm) que ser içadas pela janela.




Lídia soltava exclamações de admiração, Sara chamava-lhes a atenção, olhem ali, já viram?, olhem, reparem e Lídia pensava que queria que estes dias fossem eternos, que sempre os guardaria no seu coração. E Paulo olhava enternecido as suas duas meninas.

À tarde, Sara disse que tinha que ir fazer uns trabalhos com uns colegas mas que lhes aconselhava o Van Gogh. Paulo e Lídia acharam muito bem e adoraram.




Quando saíram, Lídia queixava-se um pouco dos pés. Paulo disse, Acho que faz bem pôr os pés de molho em água quente. O meu hotel não é nada de jeito mas, se quiser, eu trato-lhe dos pés. Lídia hesitou. Não disse nada e andaram um bocado em silêncio.

Depois, mais à frente, Lídia deu o braço a Paulo, encostou a cabeça no seu ombro e disse, Parece-me bem. Passado um pouco, estavam os dois a entrar no quarto de Paulo.


*

Natalie Merchant interpreta, em cima, Nowhere Man. 

*

Caso ainda vos apeteça continuar, um pouco mais, na minha companhia, é com todo o gosto que vos convido a virem comigo até ao meu Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras pairam assustadas muito longe da longínqua utopia em que, afinal, vivia e juntam-se à gaivota de que fala Manuel Alegre no Cais das Colunas.  A música é o lamento de uma ninfa, tal como o sonhou Monteverdi.

*

E, por hoje, por aqui, nada mais. Apenas desejar-vos uma bela quarta feira, com muita saúde e boa disposição!


terça-feira, outubro 30, 2012

Lídia, a mulher que era triste e que agora está francamente enamorada, passeia pelas ruas e pelos canais de Amesterdão enquanto pensa que não pode continuar a esconder de Paulo o segredo que tanto a atormenta



*

Mal chegou, Lídia, de coração apertado e ainda com um certo sentimento de culpa, telefonou a Nita. Mas esta tranquilizou-a, Por aqui está tudo bem, tudo na forma do costume, os gatos continuam a entrar pelos buracos, as janelas estão todas escancaradas a deixar entrar a chuva, os homens têm vindo fazer visitas e, de caminho, roubam tudo, já sabe como é, a taralhouquice do costume. Mas tem comido bem, está calma. Por isso, não se preocupe, D. Lídia, aproveite bem, goze a estadia, namore muito. Nós cá tratamos da sua menina, não se preocupe com isso, descanse a cabeça, tire daqui o sentido e esteja descansada, se houver alguma coisa eu ligo, mas não vai haver, vá mas é curtir, dizem que isso aí é uma maravilha, descontraia, não ande preocupada. Lídia sorriu. Era este desprendimento e boa disposição de Nita que tanto a ajudavam.

Sara estava à espera que Lídia acabasse o telefonema para passar à parte prática: instalá-la, Vai dormir aqui, ali é a casa de banho, ali é a cozinha, não se assuste com a desarrumação, isto aqui é a bagunça total, mas é uma bagunça organizada...

Sem nunca antes ter vivido tempos de liberdade e despreocupação, Lídia via-se agora num pequeno apartamento habitado por jovens buliçosas, irreverentes, cheias de vida. Sara cedeu-lhe a cama e passaria a dormir no sofá. Rapidamente tomaram Lídia de assalto, fazendo-lhe perguntas, O que faz?, Onde vive? Vive sozinha? Já cá tinha estado? Quantos anos tem?, e sempre rindo, rodeando-a de alegria e futuro. Para Lídia tudo isto era uma novidade.

Depois de Lídia instalada, Sara pegou nela e de braço dado, como se fossem velhas amigas, foram rua fora, conversando, para se irem encontrar com Paulo. Quando as viu chegarem assim, Paulo desatou a rir-se. 




Na Dam Quare, a praça principal da cidade, passaram pela feira de diversões, parecia uma feira popular, e, no meio daquela música e daquelas luzes feéricas, Lídia teve vontade, mas não o confessou, de ir andar nas cadeiras que balouçavam a muitos metros de altura. 




Talvez quisesse, sem o saber, voltar ao tempo em que era menina para, agora, viver a meninice. ou talvez quisesse voar.

Depois Sara levou-os à Biblioteca nova, onde se maravilharam com aquela arquitectura moderna, com a cultura à disposição de todos os cidadãos, sete dias por semana, doze horas por dia. E depois ao Nemo, o centro de ciência, e toda aquela arquitectura moderna.




Depois, já cá fora, junto à Centraal Station, Sara deu-lhes um mapa, assinalou o local de encontro para jantarem, marcou o ponto em que estavam e riscou a vermelho o percurso que sugeria. E, com ar malicioso, despediu-se, Se precisarem de alguma coisa, liguem-me. Agora deixo-os sozinhos… Portem-se bem…  e afastou-se a dizer-lhes adeus, brincalhona.

Ficaram, então, os dois. Paulo pegou no braço de Lídia e enfiou-o na curva do seu para que ficassem de braço dado. Um casal passeando numa grande cidade. Lídia respirava fundo, como se quisesse absorver aquele ar tão livre, tão novo, como se quisesse reter aqueles doces instantes para sempre no seu coração.

E lá foram. Nunca imaginara uma coisa assim. Tanta gente. Tanta gente alegre. 




Tanta gente de bicicleta, tanto movimento, tanta liberdade, parecia que tinha chegado a outro mundo. 




Paulo ria-se, chamava-lhe a atenção para os prédios, para as pessoas, para as montras, Olhe, repare ali, no tecto, vacas pregadas ao tecto, e riam-se. 




Lídia e Paulo pareciam, pois, duas crianças caídas num outro planeta, um planeta habitado pela diversão e pela alegria.



Depois havia os canais e era como se toda a cidade fosse atravessada por pequenos rios dourados. O outono dourava as árvores e as folhas douradas caíam sobre a água dos canais. 




Lídia sentia um aperto no peito, tanta era a felicidade, tão desconhecida era esta felicidade. Queria falar mas não conseguia, não estava habituada a exprimir a felicidade, quase nem conhecia as adequadas palavras para falar desta suavidade, desta paz que a invadia.

Paulo olhava para ela e sorria, contente de a ver assim, olhos abertos de espanto, rosto rejuvenescido. 

Depois passaram por um mercado de flores, uma rua cheia de tendas brancas vendendo flores. 




Quando as viu, Lídia que tanto gosta de flores, parou, ficou em silêncio e depois Ah…, tantas flores, olhe este colorido, nunca imaginei nada assim, tantas, tantas flores, que bonito, ah se eu pudesse levar os braços cheios de flores.

Paulo olhava as flores e olhava-a a ela, luminosa, colorida, feliz, percorrendo as tendas, curvando-se para ver melhor, passando as mãos ao de leve, cheirando, encantada. Depois comprou para lhe oferecer uma pequena cesta de flores, todo contente pelo cavalheirismo do gesto. E lá foram, rua abaixo, um casal enamorado, cheio de esperança numa vida que se desdobrava em felicidade.

A seguir passaram por um mercado de arte no meio de um jardim. O chão atapetava-se folhas douradas, todo o ambiente era dourado e as peças, Que beleza, que beleza Paulo… bailarinas, barcos, árvores, pinturas. 



Depois Lídia parou, encantada, numa tenda de sedas pintadas, lindas. Écharpes, gravatas, lenços, peças originais, divertidas, macias. Tocou-lhes, Que suavidade, que toque, suspirou. Viu o preço, impossível. Não vivesse ela com os tostões contados, permitir-se-ia uma loucura, mas assim… Paulo não resistiu. Também eu. Eu e quase todos os portugueses, todos vivemos agora com os tostões contados mas olhe, um dia não são dias. Escolha que eu faço questão de lhe oferecer, Lídia.

Lídia corou, Nem pensar, que ideia, é caríssimo, nem pensar, nem era isso que eu queria dizer, era só um sonho, a sério, não quero, oh Paulo, que ideia, não quero mesmo... Mas Paulo insistiu, Faço questão. E Lídia escolheu, tímida, agradecida, um lenço num estampado em tons de azul alfazema e azul violeta. 

Depois, quando se iam afastar, voltou atrás e disse, Vou comprar aquela écharpe do gato, ou do tigre, não sei que bicho é, mas é lindo, vou levar para a minha amiga Mary que está a passar por um momento menos bom, acho que ela vai ficar feliz por ver que me lembrei dela.

Paulo admirou-se, Tem a certeza, Lídia? Mas Lídia atalhou, Tenho; é o que diz, Paulo, um dia não são dias e a minha amiga Mary bem merece, é um gesto, é um mimo, e ela bem precisa de um miminho assim. 

E, quando se afastaram, Lídia e Paulo iam felizes na sua generosidade, no carinho que sentiam um pelo outro e pelos amigos.

Abraçados, um casal enamorado, continuaram o passeio, admirando a beleza dos canais.




Contudo, dentro de si, Lídia transportava um segredo. Desde há algum tempo que esse segredo a atormentava, sentia que teria que falar sobre isso com Paulo mas nunca conseguia, e ia adiando. Ali, passeando em Amesterdão, sentia que o momento de o revelar se estava a aproximar. Estava feliz, claro que estava, mas, lá no fundo, uma sombra de medo e vergonha escurecia os seus pensamentos.

A cada momento ocorria-lhe que tinha que ganhar coragem mas a verdade é que os momentos iam passando e a coragem não aparecia.

O frio começava agora a acentuar-se, o fim de tarde convidava ao aconchego. 




Paulo debruçou-se numa das muitas pontes que atravessam os canais. 




Olhe, um cisne. Lídia espreitou, sorrindo, Tão bonitos. Olhe, olhe, vêm lá outros, são três. Paulo passou-lhe a mão pelos ombros, E olhe os barcos, Lídia, disseram-me que há barcos que são casas. 




Lídia olhava e eram tantos os motivos de admiração e encantamento, Tão bonito tudo, Paulo, tão bonito, nunca pensei.




E passeavam ainda, enlevados, em silêncio, sorrindo ao de leve, quando Paulo, ao passarem por um banco junto a um dos canais, lhe disse, 

                                 Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
                                 Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
                                 que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
                                 (Enlacemos as mãos.)

Sentaram-se e, então, segurou-lhe as mãos. Lídia sorriu. Conhecia muito bem este poema. Nunca imaginara era que Paulo o conhecesse. E então, com a voz trémula de emoção, as lágrimas a aflorarem, continuou ela:

                                  Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
                                  Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,

Paulo, em voz baixa, grave e quente, acrescentou – e Lídia sentiu as palavras dele como uma suave carícia sobre a sua pele, que se arrepiou:

                                  Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
                                  Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,

Tocou-lhe, então, devagar, no queixo, virando o rosto de Lídia na sua direcção e, de olhos fechados, beijou-a. Lídia deixou-se beijar. Depois, quando o beijo estava a terminar, com uma inesperada energia, encostou-se mais a Paulo e era como se toda ela se entregasse e beijou-o com paixão, muita paixão. Paulo abraçou-a muito, muito, o desejo muito forte.




Nem por um instante Lídia se lembrou que estava na rua, no meio de uma pequena multidão. Depois pensou que era forçoso, cada vez mais forçoso, confessar o seu segredo, impossível continuar a ocultar aquele facto que a feria de vergonha. Fechou os olhos para ganhar coragem.

Mas Paulo levantou-se, puxou-a pela mão, Vamos, daqui a nada a Sara está à nossa espera, venha.

Lídia suspirou, contar-lhe-ia mais tarde, talvez nessa noite. Quando estava de pé, Paulo disse-lhe ao ouvido,

                                Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
                                pagã triste e com flores no regaço

Lídia sorriu e fez-lhe uma festa no rosto. Depois deu-lhe um beijo na face e rectificou, Já não sou triste, Paulo, agora sou apenas uma pagã. Ele sorriu. E ela ouviu-se a dizer e tinha a certeza que os olhos se toldavam de malícia. 



Uma pagã cheia de vontade de pecar, Paulo…


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A música é Ancora da autoria e interpretado pelo pianista compositor Ludovico Enaudi. 

A poesia dita por Paulo e por Lídia é parte do poema Vem sentar-te comigo, Lídia de Ricardo Reis. 

As fotografias foram feitas por mim, tal como as anteriores, durante a visita que fiz a semana passada a Amesterdão.

Recordo que, caso queiram ler esta história desde o primeiro dia, poderão procurar nas etiquetas aí do lado direito, lá mais para baixo 'Lídia, a mulher triste'.

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Caso ainda tenham disposição para continuar na minha companhia, gostava muito de vos ter no Ginjal e Lisboa, a love affair. Hoje as minhas palavras choram e o tom é de desalento em volta do poema Allegretto de Vasco Graça Moura. A música é de Monteverdi.

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E, por hoje, já chega, não é?
Tenham, meus Caros Leitores, uma bela terça feira.