Mostrar mensagens com a etiqueta rádio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta rádio. Mostrar todas as mensagens

domingo, outubro 01, 2023

O olhar perto chão no adeus aos Sinais de Fernando Alves, o Senhor Rádio

 

Quando ia trabalhar, tentava sempre ouvir os Sinais. Cheguei a ficar estacionada fora do edifício (porque no parque subterrânea perdia o sinal de rádio) para ouvir o apontamento do dia. Se não conseguia, tentava ouvir à hora de almoço.

Não eram apenas as palavras em si, tão bem escolhidas, e a forma como o Fernando Alves as entretecia mas também a voz e a maneira de as dizer. Qualquer coisa de poético. Frequentemente, arrepiava-me.

Claro que a sua intervenção na TSF ia muito além dos Sinais. E, fosse nas reportagens fosse nas entrevistas, ele era sempre exímio. Tudo o que ele fazia dava vontade de ouvir várias vezes. 

A sua voz e os seus trabalho  eram dos mais esplêndidos da rádio.

Reformou-se. Compreendo. Sei bem o que isso é.

E a TSF em particular e a rádio em geral perdem uma parte relevante da sua graça. Claro que virão novos jornalistas e que o rejuvenescimento, em si, não é mau. Mas o Fernando Alves é todo um património, um património que leva muito tempo a edificar. E tudo envolto numa toada que encanta -- e com esse talento nem todos têm a sorte de nascer.

Para que aqui fique como um saudoso pro memoria, transcrevo o último texto que disse no seu pessoalíssimo Sinais

Sugiro que cliquem no link para poderem ouvi-lo dito por ele.

O olhar perto do chão

No seu mais recente livro, "Montevideu", que nos é apresentado como "uma ficção verdadeira", Enrique Villa-Matas descreve-nos um dos seus vários encontros com Tabucchi a quem muito admirava desde "Mulher de Porto Pim", esse livro que, assim o vê o catalão, trata "com leveza poética" questões "difíceis e complicadas". Os dois haveriam de tornar-se amigos, partilhando experiências em várias cidades, em conferências literárias ou movidos pelos fios invisíveis de um acaso feliz.

Certa vez, sentados numa esplanada nas margens do Arno, em Florença, Tabucchi contou a Villa-Matas que tinha chegado à fala com um tipo estranho, um vagabundo que muito impressionara o amigo, em Paris.

Villa-Matas guardava do vagabundo uma imagem vincada. Todos os dias, ele sentava-se no chão, à porta de uma livraria, no Boulevard Saint-German. Em frente, havia um quiosque de jornais. O que retivera a atenção de Villa-Matas, nesses longínquos dias parisienses? O modo elegante como o vagabundo se comportava, cumprimentando quem entrava e saía da livraria. Por vezes, levantava-se, fumando, com o olhar perdido no horizonte, um magnífico havano. Durante a maior parte do tempo, permanecia sentado no cartão de vagabundo, lendo um clássico. Durante algum tempo, enquanto viveu em Paris, o catalão viu com muita frequência o estranho vagabundo. Anos depois, em Florença, conversando com Tabucchi, este confidencia que, certa vez, chegara à fala com o homem. Estava sozinho em Paris, vagueou pelas ruas e deu com aquele homem sentado no chão lendo o seu clássico. O vagabundo convidou-o a que se sentasse a seu lado, no chão, apreciando o mundo desse patamar ao nível dos pés. Tabucchi não hesitou. Sentou-se ao lado do vagabundo, ficaram ambos durante algum tempo em silêncio, observando os que passavam por eles com total indiferença.

Na noite estival de Florença, Tabucchi contou a Villa-Matas o modo como o vagabundo quebrou o silêncio. Ele nunca mais esqueceria aquelas palavras. Disse-lhe o vagabundo: "Estás a ver, amigo? Daqui uma pessoa pode vê-lo muito bem. Os homens passam e não são felizes".

Partilho convosco esta passagem do magnífico livro que me ocupa por estes dias, na última crónica que assino nesta rádio. A meu modo, vou ocupar as horas, em grande medida, um pouco à maneira do vagabundo desta história. Não penso sentar-me no chão, à porta de uma livraria. Mas procurarei, muitas vezes, bancos de jardim, à sombra. E assim me deixarei ficar, absorto, tomando notas para uma improvável emissão futura, feita de silêncios e de palavras elementares, assim me pouse no ombro a ave clandestina. Ambição chã. Ficarei a ver passar os transeuntes com o seu ar triste, como só os vagabundos sabem detectá-lo. Até sempre.

_________________________________________

Tomara que alguém da rádio o convença a voltar 

(nem que seja 'apenas' para continuar com os Sinais).

__________________________________________

Desejo-vos um feliz dia de domingo

Saúde. Afecto. Paz.

terça-feira, fevereiro 18, 2020

O alarmismo militante na TSF


De novo, ao ir almoçar, sintonizei a TSF. Ainda não aprendi que dali não sai uma leitura serena da realidade... 

Com ar de alarme, a jornalista informava que havia mais um doente suspeito de ter coronavírus e rematava -- naquele seu usual tom de sobressalto -- que 'já são dez os suspeitos de coronavírus em Portugal!'.

Passei de imediato para a Antena 2. É que o que se passa é que, até ver, todas as suspeições têm sido infundadas. Portanto, a notícia séria deveria ter sido: 'Sendo que até aqui, felizmente, nenhum caso de coronavírus se confirmou, está agora um caso em análise'. E ponto. A notícia era essa. 

Eu, que gosto imenso do Fernando Alves com os seus Sinais ou do Uma questão de ADN da Teresa Dias Mendes tal como dantes gostava de ouvir o Pessoal e Transmissível do Carlos Vaz Marques, não suporto estes noticiários, estes empolamentos e empolgamentos absurdos, esta tentativa de lançar o alarme. 

Não haverá quem controle isto? Não haverá uma voz experiente que explique que isto é manipulação, é mau jornalismo?

___________________________________________________

Pelo contrário, a mensagem a reter é esta:


E, como sempre, mantenha as mãozinhas lavadas. 
(Mas também não vale a pena arrancar a pele... ok?)

terça-feira, dezembro 10, 2019

O Alvim diz que vai ser pai em 2020 e sugeriram-lhe que entre o Ano Novo em Vizela, no Golpe Baixo, a casa de meninas onde são todas anãs.
E isto já para não falar do menino Pato que gosta de pizza de fiambre.





O meu dia foi cheio de coisas. De manhã, uma coisa absolutamente invulgar. Mas, sobre isso, não posso falar. Parecendo que não, tenho os meus segredos.

De tarde, então, nem vos digo nem vos conto. Sabem aquela história da banana que era obra de arte e em que veio um senhor e a comeu? Pois, é isso mas vertido para tendência de gestão. No intervalo, uma colega disse que já não tem idade para coisas destas e eu respondi que eu, então, nem se fala. Uma coisa muito à frente que, para mim, é do mais faz de conta que se possa imaginar. Macacada em estado puro.
E lá terei que recordar o senhor que, tendo nós pedido para plantar umas certas árvores, choupos mais concretamente, nos disse que nunca tinha sabido que aquelas árvores se dessem ali e não à beira delinhas de água mas, havendo dinheiro para gastar, pois que lhe pagássemos que ele abria os buracos e as plantava. Claro que as árvores não vingaram e foi dinheiro deitado à rua. 
Mas, enfim, não vos maço com cenas destas que enfeitam o dia a dia das empresas e por onde se esvaem os ganhos de produtividade. Embora, se lhes perguntarem, não senhor, é gestão da boa. E como é tudo à força de muito dinheirinho gasto com certos consultores que vivem à custa de vender espuma a peso de ouro, no fim a malta ainda ganha prémios de gestão e coisa e tal, prémios esses sponsorizados pelos ditos consultores, pois of course.

Mas agora não posso falar nisso. Noblesse oblige. Um dia que me reforme e esteja livre de NDAs escrevo as minhas memórias e, aí, me aguardem.

Portanto, vou ao que interessa: saí deserta de me pôr ao fresco. Mas o meu anjinho da guarda anda retorcido e deve ter achado que eu ainda não tinha sofrido o suficiente e, por isso, dei por mim enclausurada numa fila de trânsito quilométrica e praticamente parada.

Liguei à família, li as gordas das notícias, enfureci-me, abri a janela, fechei a janela, embaciou-se, liguei ao ar condicionado, fiquei com calor, abri a janela, praguejei, depois apeteceu-me carpir, a seguir atendi o meu marido que estava igualmente desatinado no meio do trânsito. E, por fim, caí em mim e decidi que estava mas era bom para ouvir o Alvim.

Em boa hora.

Passado um bocado ocorreu-me, de novo, aquilo de sempre: sou tão incrivelmente primária que até a mim me faz espécie. É que já ria a bom rir, completamente esquecida que estava aborrecida por estar ali presa, como se tivesse todo o tempo do mundo para estar a curtir as vozes da radio. O que gosto do Alvim...!

A Prova Oral sem tema. Um ouvinte, cá para mim, acertou: se o programa estava sem convidado e sem tema é porque o convidado faltou à última hora. Quem foi que faltou, conta aí, ó Alvim? Mas o Alvim não se descoseu, que era mesmo sem tema. E foi bom: só telefonemas e divertimento.

E, no meio do Alvim dizer que está a pensar ir passar o réveillon ao Alentejo, alguém ligou a dizer que qual Alentejo, onde ele podia ter uma grande passagem de ano era em Vizela com as anãs. Acho que ele não percebeu bem, deve ter achado que era uma graça. E então a Xana deve ter googlado e foi parar ao Golpe Baixo, a casa de alterne com preços baixos para condizerem com as meninas que são todas anãs. O que me ri.
Até me lembrei daquela vez em que, íamos de carro, passámos pela 'Casa das Avózinhas', um lar de terceira idade, e o meu marido disse que era um bom nome para uma casa de putas (pardon my french). E, com aquela sua mente perversa que cultiva o absurdo, já imaginava um furo comercial, uma oferta diferenciada para um nicho de mercado: homens que gostam de mulheres experientes, séniores. Tenho ideia que até acrescentou: homens ou mulheres. E eu devo ter achado o máximo, uma casa de passe só com avozinhas. 
Adiante. Voltando à Prova Oral.

E depois apareceu um telefonema de uma menina de apelido Pato a dizer uma coisa ao Alvim, não me lembro o quê, talvez que gostava de ouvir a Prova Oral e, a seguir, apareceu um menino, o mano, salvo erro Miguel Pato, a dizer: 'Olá Alvim, eu quero dizer que gosto de pizza de fiambre'. E o Alvim e a Xana e eu desatámos a rir.  Mas o Alvim disse mais, disse que com crianças a ouvir o programa, tem que ter cuidado e não falar de sexo. Sugeriu que, em vez de falar explicitamente, poderia acabar as frases com um 'não sei se me estás a entender...'. Uma alusão a pairar, sexo no ar.

Quando o programa acabou, às 20, tive uma pena do caraças. Já nem me lembrava que estava enfiada dentro do carro, sem evasão possível. O que me ri, satisfeita por estar engarrafada. 

---------------------------------------------------------------------

E, não tendo aqui como partilhar aquela abençoada maluqueira, vai um vídeo antiguinho de quando o Alvim era pequenino

_________________________________

Não queiram saber a razão de aqui ter os homens em Dolce & Gabbana Alta Sartoria, la sfilata uomo alla Pinacoteca porque não há explicação possível. A mesma coisa com I Knew You Were Trouble - pela Tia Simone. Razões que a razão desconhece -- mas só espero que tenham lido isto a dançar, a gingar, a sentirem a  música a saltitar por vocês adentro. Na boa, na boa, na boa.

Tirando isso, não sei bem sobre que temática deveria pronunciar-me já que as profundas exigem mais de mim do que tenho para dar e as superficiais passam tão depressa que não consigo agarrá-las. 

______________________________________________

E talvez até já porque, ao contrário do que possa parecer, até tenho aqui um tema a trabalhar dentro de mim. A ver se consigo dá-lo à luz.

quarta-feira, junho 19, 2019

Gestos, essa arquitectura do nada





As minhas sobrancelhas não têm história. São como são de nascença, sem depilação, sem desenhos por cima, sem reformatação, sem coloração. 

Quando vejo que se usam sobrancelhas bem definidas, até a atirar para o farto, bem penteadas e marcantes, sobrancelhas que são, em si, um statement, e olho para as minhas, tão o oposto, tão discretas, tão claras e despercebidas, penso que um dia hei-de experimentar escurecê-las um pouco, engrossá-las -- tudo na base do efémero, claro, com um lápis castanho para poder sair com a lavagem -- só para ver se a minha personalidade muda. E depois olharia de frente e inclinaria levemente a cabeça a ver se impunha respeito. Li que sim, que produz bom efeito.

Deveria fazê-lo primeiro em casa, ao espelho, ensaiar a pose, testar se resulta.

Só que sou fútil por natureza. Se reconfigurasse as sobrancelhas e me olhasse com sobranceria ao espelho estou em crer que, em vez de me sentir intimidada pelo respeito que o olhar e a atitude imporiam, haveria de me pôr a prestar atenção a pormenores que não vinham nada ao caso: que talvez o tom de castanho devesse ter sido mais arruivado em vez de tão soturno, que talvez as devesse ter alongado mais em vez de manter a curvatura original, que devia era ter disfarçado a cicatriz, que devia era ter apanhado o cabelo, quiçá posto um chapéu, talvez aquele chapéu basco com a fita encarnada. 

Portanto, porque intimamente ainda não acreditei que seja interessante impressionar alguém com base em situações não naturais e espontâneas, ainda não mexi nas minhas sobrancelhas. Também receio que, sem querer, ao mudar algo em mim, sem querer desvende um ser misterioso que me habita e que só estava à espera de uma oportunidade para se revelar.

Mas, agora que escrevo isto, penso que mal também não fazia e que talvez fosse mesmo interessante perceber se me sentiria diferente se me olhasse ao espelho e me visse com umas sobrancelhas à Frida. Como se sente uma mulher que tem umas sobrancelhas espessas e insolentes como asas de bicho peludo, descarado, mal intencionado?

Vou ali fazer isso e já venho. Um momento, por favor. Só espero é que não aconteça nenhum bruxedo.

Tenho medo. Tenham medo.

Já fui e já estou de volta, quase horrorizada. Para começar, não encontrei nenhum lápis castanho ou, sequer, preto. Encontrei um verde e um azul escuro. Optei pelo azul que é marinho. Pintei-as e juntei-as. À medida que as ia pintando, quase horrorizada ia vendo que parecia estar a deixar de ser eu. 

Quando as acabei e ficaram azuis espessas e escuras, juntas ao meio, eu era outra. Impossível ser eu, manter a mesma maneira de ser, com tais sobrancelhas. Fiquei com um ar mais do que rural, um ar primitivo. A mulher primitiva que, com ar sério, me olhava não era eu, era alguém saído de outro tempo, com uma outra maneira de ser, perigosa, castigadora. Ainda pensei fotografar mas não consegui. Peguei numa toalhita e limpei tudo. Aquela podia ter sido eu há muitos anos, a viver numa gruta, talvez na minha misteriosa gruta, alimentando-me de bagas e frutas e dormindo no meio de lobos. Aliás, talvez seja isso. Talvez fosse isso que vi quando me vi ao espelho, uma mulher lobo, com umas sobrancelhas azuis prestes a voar.

E tudo isto é uma conversa que parece não ter sentido, eu sei -- mas, por acaso, até acho que tem. O nosso corpo condiciona a nossa maneira de estar. Talvez não seja por acaso que, em algumas línguas, ser e estar se dizem da mesma maneira. E, portanto, quero eu dizer, o nosso corpo condiciona a nossa maneira de estar e, logo, de ser. E poderia dar alguns exemplos. Só não os dou porque, sem querer, iria descrever-me fisicamente e, francamente, tenho mais que fazer -- e vocês certamente também.


E apeteceu-me escrever isto depois de ouvir a crónica de Fernando Alves, 'O segredo está nas sobrancelhas' que me foi enviado e que muito agradeço. Tanta a gentileza.

[Um dia ainda gostava de ouvir um texto meu lido pelo Fernando Alves. Será que iria ficar presa à voz dele, esperando o desenlace, o arrepio final, o poema a varrer-me a pele? Como se as palavras estivessem a nascer dele?]

---------------------------------------------------------------------------------

E, claro, fui conhecer o poema por ele referido 


Amo-te por sobrancelhas, por cabelo, debato-te em corredores
branquísimos onde se jogam as fontes da luz,
Discuto-te a cada nome, arranco-te com delicadeza de cicatriz,
vou pondo no teu cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.
Não quero que tenhas uma forma, que sejas
precisamente o que vem por trás de tua mão,
porque a água, considera a água, e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitectura do nada,
acendendo as lâmpadas a meio do encontro.

Tudo amanhã é a ardósia onde te invento e desenho.
pronto a apagar-te, assim não és, nem tampouco
com esse cabelo liso, esse sorriso.

Procuro a tua súmula, o bordo da taça onde o vinho
é também a lua e o espelho,
procuro essa linha que faz tremer um homem
numa galería de museu.

Além disso quero-te, e faz tempo e frio.

[Júlio Cortázar]


E dias felizes para quem aí está desse lado. 

[E saibam que estou a olhar para vocês com a minha cabeça levemente inclinada na vossa direcção]

quarta-feira, junho 12, 2019

Sinais. Ruben. Olhares. Árvores. Memórias.
E um tango com o perfume de uma mulher.





Há gente que a gente não conhece e de quem, no entanto, já se habituou à companhia. Dois deles são da rádio. Não são só esses mas desses eu hoje quero falar. Poucas vezes consigo ouvir os Sinais do Fernando Alves mas, quando posso, não perco e, mesmo antes dele começar, já antecipo o arrepio que sempre sinto quando aquela voz encorpada roça aquelas suas melódicas palavras que caminham para o final no qual tudo converge, como braços de rio a avançar para uma doce enseada. E não desconheço a mecânica dos rios, não, usei mesmo aquela imagem por deliberação porque assim as palavras dele, correndo, sobressaltando-nos ou levando-nos nos braços e, no fim, não se perdendo no mar mas, antes, tudo se resolvendo e aquietando, represado em nós.


Hoje consegui ouvir. Falava de olhares, de uns olhos azuis e de uns outros, verdes que ficavam amarelos, falava de duas mulheres, uma que recordava e outra que ouvia, e falava também de um poema de Octavio Paz.

Cheguei aqui para ouvir outra vez, o arrepio a querer de novo percorrer-me a pele. E, então, aparece-me o Nónio, que quer que me registe se quero ouvir os Sinais. Um desconsolo. As belas palavras e profunda voz do Senhor Rádio a serem condicionadas por uma treta contra a qual os jornalistas deveriam manifestar-se. Gostava de aqui poder partilhar convosco o que senti ao ouvi-lo. Não posso, não quero ser condicionada desta forma tão escancaradamente absurda. 


E queria, a propósito do que ouvi e de outras coisas cá minhas, falar de olhares, de como, para mim, é indispensável o contacto visual com o olhar do outro. Pelo olhar me desnudo, pelo olhar procuro a alma do outro. E queria contar como os meus olhos mudam de cor e como me desreconheço quando espero um tom do fundo do mar e os vejo, no espelho, da cor de pedras reluzindo ao sol e não sei se é o espelho que lhes dá a luz ou se são os meus olhos que inventam cores novas quando se vêem ao espelho. E queria contar que os meus olhos míopes parece que não precisam de ver para me darem a conhecer o que dizem os olhos dos outros e adivinham até o temor dos que não deixam que os meus os olhem de frente e em profundidade, como que receando que eu mergulhe fundo demais. Mas isto, se calhar, não é bem assim, isto, se calhar, sou eu que sou dada a rêveries, a inofensivas loucuras.

Mas, pronto, não tendo eu para aqui partilhar convosco os Sinais, não falo. 


E foi também no carro que tive uma má notícia: tantas vezes a nossa companhia ao sábado junto à hora do almoço, Ruben de Carvalho -- que se divertia à grande com Jaime Nogueira Pinto, os fantásticos Radicais Livres -- tinha-se libertado das amarras da vida. E escrevo assim não porque a hora careça de metáfora mas porque não gosto de usar a palavra certa. A palavra certa assusta-me quando a a ceifa atinge pessoa que me faz boa companhia. Parece que receio que contagie, que seja mau presságio. Evito.

Muitas vezes tínhamos que levantar o som, apurar o ouvido, eles falavam ao mesmo tempo, riam-se, tinham o prazer da concordância, sempre contentes por se lembrarem das mesmas coisas ao mesmo tempo, avindos apesar de tudo. Histórias, episódios, apartes -- e sempre ambos a completarem-se, rindo da sintonia. Riam um do outro, o da esquerda e o da direita, gozando com a própria irreverência face à ortodoxia. Radicais e livres. E agora o Jaime Nogueira Pinto não terá o seu amigo para desfiar memórias e opinião a par e par e nós, no carro, não teremos o prazer de o ouvir trocando postalinho com o seu companheiro. 


Se calhar vai chegar o dia em que vou começar a sentir que o meu mundo vai ficando mais pobre, sem muitos daqueles que acompanham os meus passos. Ainda não quero dizer isso porque não sou fatalista, não gosto de curtir tristeza. Mas custou-me mesmo que ele se tivesse ido embora e, ainda por cima, sem dar aviso, sem que eu fosse criando mentalização para o que estava para vir. E falo de forma egoísta, não falando no sofrimento dos que lhe são próximos, falando apenas de mim, no carro, a ouvi-lo. Mas acredito que, quem fala na rádio, fala como se falasse para cada um que o ouve e é dessa tertúlia agradável e culta que vou sentir muita falta.

Mas é assim mesmo a vida, cheia de coisas destas, de olhos que se fecham, coisas nem sempre esperadas, coisas que nem sempre causam arrepio bom na pele.

Mas continua. Sempre continua, a vida. 


----------------------------------------------------------------

Os teus olhos  -  Octavio Paz

Tus ojos son la patria del relámpago y de la lágrima, 
silencio que habla, 
tempestades sin viento, mar sin olas, 
pájaros presos, doradas fieras adormecidas, 
topacios impíos como la verdad, 
o toño en un claro del bosque en donde la luz canta en el hombro de un árbol y son pájaros todas las hojas, 
playa que la mañana encuentra constelada de ojos, 
cesta de frutos de fuego, 
mentira que alimenta, 
espejos de este mundo, puertas del más allá, 
pulsación tranquila del mar a mediodía, 
absoluto que parpadea, 
páramo.

---------------------------------------------------

E para não chegar ao fim num tom dolorido, com saudades de olhares longínquos, com a melancolia de amores perdidos uns dos outros, com a nostalgia de vozes que gostaríamos de ter perto de nós, vou lá acima trocar o Nocturno pelo Redemption e vou colocar as minhas palavras sob a copa das minhas tão amadas árvores que me abrigam quando estou in heaven

Ou melhor: vou acabar a dançar. E vou buscar um dos tangos mais enternecedores e mais sedutores de que tenho memória. E com uns olhos que, na realidade, vêem mas que ali, não vendo a fingir, vêem mais do que todos os olhos que com ele deslizam no salão, a menina deslizando nos seus braços, rendida, transportada.



--------------------------------------

Entretanto, por gentileza de um Leitor num comentário abaixo e a quem muito agradeço, recebi a indicação de aqui se consegue ouvir a crónica do Fernando Alves:

http://podcast.static.tsf.pt/sin_20190611.mp3



terça-feira, setembro 20, 2016

Da obra vil e tão repugnante que não vale uma poia de cão largada no passeio, o que dirá aquele que diz não ser da coisa obrada o empreiteiro mas que, porque deu a palavra, a vai apresentar?


Por vezes venho a pensar escrever qualquer coisa e, às tantas, porque vejo que outros o fizeram antes de mim, faço a agulha e aponto noutra direcção. Com quem me acontece isso mais frequentemente é com o Valupi ou com a Penélope, ambos do Aspirina B. E escrevem com tal galhardia que me fazem pensar: ó céus que se me anteciparam outra vez e com tal talento que nem vale a pena pretender vindimar vinha já tão bem vindimada. Chapeau.

Hoje foi outro desses dias. Conto.

Estava eu no carro de manhã quando ouço um daqueles momentos de rádio que valem ouro e que justificam a razão de, àquela hora, eu sintonizar a TSF e não outro posto. Fernando Alves, o Senhor Rádio, leu, com aquela sua inconfundível voz, uma pequena crónica que, de imediato, achei ser uma peça de antologia. Pensei: logo vou colocar no blog o link para esta pérola (ou, vá lá, para esta flor excrementícia).


À noite, à vinda para casa, um engarrafamento. Acidente numa das vias mais movimentadas à hora de ponta e o caldo está automaticamente entornado. Fiz telefonemas, ouvi a Antena 2, desesperei; até que me pus a ver os blogs da galeria lateral do UJM. E, bolas!, gaita!, outra vez!
O Distinto Valupi lá se tinha, uma vez mais, antecipado.

Contudo, agora aqui chegada, pensei que desta vez não me ia ficar até porque me quedaria pena de, neste meu sítio, que é quase um repositório de 'cenas' que vou pensando ou registando, não ficar com o apontamento deste fantástico momento de humor, ironia, sarcasmo -- e arte de bem escrever e de bem dizer. Fernando Alves não diz um nome, Não diz que o empreiteiro da obra que não vale uma poia de cão é José António Saraiva, não diz que a dita obra vil é o asco em forma de livro que dá pelo nome de 'Eu e os políticos' onde o pequeno arquitecto verte para papel o que ouviu off the record ou o que inventou, nem diz que o apresentador da obra que nada poderá dizer que se não suje é o inteligente Passos Coelho. Mas não precisa de dizer.


A quem ainda não ouviu, sugiro que clique para ouvir. É imperdível.

Toleima do apresentador obstinado


____

Já agora:

 Pela veemência da repulsa são também dignos de visita:

'Que se afunde com a bosta' de Daniel Oliveira que li na Estátual de Sal
e, no Escrever é triste,
'Um livro que nunca lerei' de Henrique Monteiro
e o delicioso 'Toma' de Rita Roquette de Vasconcellos

.....

terça-feira, fevereiro 23, 2016

Não há vida para além do Orçamento? - pergunto.
E pergunto à TSF, à SIC, à TVI, à RTP, todos esses que, com tanta conversa da treta levada a cabo por tanta gente desqualificada, ainda não perceberam que andam a dar tiros nos pés, uns atrás dos outros.


Nas televisões todas, o mesmo: enxames, resmas, paletes de comentadores, os jornalistas também transformados em comentadores, toda a gente a opinar, à boca cheia (e, a maior parte, com a cabeça vazia) sobre economia e finanças. Fulanos e fulanas que não devem ser capazes de somar 2 e 2 para ali estão, ensarilhados na aritmética mas armados em técnicos de finanças públicas. Todos opinam, todos baralham e dão de novo, pontapés nas rubricas em catadupa, uma confusão pegada sobre as regras mais elementares da aritmética -- mas não faz mal, no meio da confusão, vale tudo. Em suma (e desculpem a franqueza): uma porcaria de comunicação social que não se pode ver, uma intoxicação, uns fazedores de trapalhadas mentais - em geral e em suma, uma cambada.

E à hora de almoço, de carro, ouvi a abertura do noticiário da TSF e quem é que lá foi plantado (provavelmente a ver se pega de estaca)? Passos Coelho! Quem mais?! Mais de 4 minutos! Bacoradas do princípio ao fim, um exercício verbal que deveria ser analisado por um psiquiatra para ver se o fulano é um mentiroso vulgar ou se é esquizofrénico ou se qualquer outra coisa ainda pior.


Aguentei só para ver até onde ia a pouca vergonha dele e a da TSF. Quase 5 minutos. Desliguei de imediato e passei para música. É que uma pessoa podia não concordar mas enriquecer a perspectiva ou aprender qualquer coisa, ouvindo-os. Mas não: desinformação pura do lado da TSF e um puro exercício de falta de vergonha do lado do Passos Coelho.

E o que eu digo é: se o PSD não correr rapidamente com esta sinistra figura, de uma coisa podem estar certos -- nas próximas eleições, o partido valerá tanto como o CDS. Ou seja, desaparece tal como o CDS. Tende para a mais absoluta irrelevância. 


E se a rádio e a televisão persistirem neste banho de PàFs, bem os seus trabalhadores podem começar a ver se arranjam outro tipo de emprego -- porque isto não vai acabar bem. As audiências devem tender a diminuir à força toda. Estes gestorzinhos de meia tigela ainda não devem ter percebido que, com estas opções perdedoras (quem é que ainda está para ouvir o desqualificado Passos Coelho ou estes comentadores a metro?), não tarda estão sem audiência e, sem audiência, não há publicidade e, sem publicidade, não há receitas.

[Apre que nunca pensei que houvesse tanta gente incapaz neste país.]

___

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira. 
(E daqui a nada já cá volto. Tenho um outro post praticamente pronto mas estou perdida de sono, não sei se aquilo está, ao menos, bem formatado. Mas me aguardem.)


segunda-feira, fevereiro 15, 2016

Paulo Baldaia, António Costa (ex-Diário Económico), e essa gente que salta de canal em canal, da rádio para a televisão, sempre a dizerem mal do actual Governo como se, pelo contrário, o Governo de Passos Coelho tivesse feito uma única coisa de jeito, pretende o quê? Quem os contrata, contrata para quê? E quem dá voz às desvergonhices de Passos Coelho pretende o quê? Não há paciência! Essa gente não tem um pingo de amor pelo seu próprio País? Ou é tudo gente burra?


Está de chuva, um tempo tramado. Uma pessoa arruma a casa, faz o jantar, lava a roupa e, às tantas, desliza até ao sofá. E, então, merecidamente, descansa, lê, e, por fim, para ver a quantas anda o país, liga a televisão e... miséria: aí estão eles. 

Por todo o lado, Passos Coelho, com aquela sua cara de pau, aparece a dizer que não acha bem tanto imposto ou que não acha bem o capital chinês que porventura se infiltrou na TAP ou que o Banif no tempo dele é que estava bem, e a gente pensa que o fulano devia ser internado, tanto descaramento e falta de vergonha já parece padecimento de foro mental. Mas, pior ainda, deve estar quem oferece palco a criatura com tão patológico comportamento.


Mudo de canal, farta, e eis que, do outro lado, me aparece o Baldaia a dizer coisas que não colam com a realidade, teses lunáticas, a defender o indefensável, parece que tem ódio a estes que agora nos governam ou, então, tanta parvoíce bolsa a toda a hora que já não sabe o que diz.

E depois é aquele que trabalhava num jornal económico que parece que foi à falência, um tal que também se chama António Costa, e que agora anda também por todo o lado a atacar a eito o que este governo faz mas antes de o ter feito.

Ou é o José Gomes Ferreira que ora é comentador, ora é entrevistador, ora escreve armado em economista doutorado em finanças públicas. E sempre, sempre, sempre, doentiamente sempre a agitar papões, fantasmas, como se deste governo apenas pudesse vir a peste suína, a peste amarela, a peste negra e como se, pelo contrário, as anteriores políticas tivessem sido bem sucedidas. Ouve-se o que a criatura exala e vê-se, em forma de palavras, o que é a incoerência e a falta de sentido de responsabilidade ou ética.

Qualquer órgão de comunicação social que prezasse a isenção, o rigor e a decência proibia isto. Mas aqui não, aqui dá-se palco a estas criaturas que ou padecem de um permanente vício de raciocínio ou de taras.

E quem diz estes, diz outros de quem não sei o nome e que já se dão ao luxo de até prever a queda do governo. E, pela forma como o vaticinam, adivinha-se como exultariam se isso acontecesse.

Uma vergonha, esta gente. 

Qualquer burocrata em Bruxelas ou alemão de raça canina que arreganhe o dente, querendo vergar a coluna aos portugueses, e aí está, acto contínuo, uma tropa fandanga -- que, parecendo que anda a fazer o trottoir e a rodar a bolsinha de esquina em esquina, circula entre a rádio, a televisão e os jornais -- a dar-lhes razão e a querer derrubar os que defendem a soberania e uma melhoria de vida para os portugueses.

Não sei o que é isto. Será que as mães foram picadas, em seu tempo, pelo zika? Ou será que a estupidez e o ódio é doença contagiante e se infectaram uns aos outros?

O que sei é que há uma chusma de gente desqualificada que não sei se deliberadamente ou na maior ignorância -- ou até talvez como torpe forma de vida -- não se cansa de vilipendiar os que lutam pelo desenvolvimento do país. Na sua encarniçada sanha persecutória, estas Direcções de Informação e e estes comentadores avençados (que, de caminho, estão a destruir a imagem do jornalismo em Portugal) mais parecem defender uma abúlica rendição colectiva às mãos dos agiotas que mais não são do que agentes dos ditos mercados.

E mais não digo que o comportamento desta gente me revolve as entranhas. Lamento dizer mas a verdade é que penso neles e só me lembro de ratos.

_____

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.


terça-feira, abril 21, 2015

Gente como nós



Clique, por favor, para ouvir

O que naufraga


[Sinais de Fernando Alves]


(...) o que é que vão fazer? Já sei que a resposta vai ser "lutar contra as máfias do tráfico de pessoas", que vivem à custa da exploração daquela pobre gente, com travessias de imenso risco. 

Até aí estamos todos de acordo. E depois? Está a Europa disponível para acolher no seu solo os muitos milhares de africanos que chegam às costas da Líbia (onde hoje não há Estado)? E quantos? E como os distribui? Ou será que se está apenas a aproveitar esta indignação para, através do pretexto da luta contra as máfias, tentar, afinal, evitar que os africanos entrem no continente europeu? Será que a Europa está disponível para dar uma solução de vida a essa gente? Ou será que apenas pretende um modelo como aquele que existe em Ceuta, com centenas de pessoas penduradas nas redes de metal que encerram a primeira praça da nossa expansão? Não será isso, lá no fundo, o "sonho" europeu?

A Europa tem de ter a coragem de dizer, alto e bom som, sem eufemismos, que não tem condições para receber milhares de cidadãos oriundos de Estados africanos (e outros) que se revelam incapazes de dar condições de vida decentes a essas pessoas. E tem de ter a frontalidade de dizer que, apesar dessa gente passar por lá fome, violência e imensas provações, não está disposta a abrir-lhes as suas portas. Mas tem de assumir isto, caramba! Andar com discursos piedosos a "fingir que faz" é de uma imensa hipocrisia política. 


O que a Europa podia fazer, e não faz, é promover políticas decentes e eficazes de cooperação para o desenvolvimento nos Estados emissores de emigrantes, que fossem estímulos para a fixação das populações. Basta consultar as conclusões das cimeiras entre a UE e os países africanos para se ter um completo e bem elaborado catálogo do que neles se proclamou, assinou e não se cumpriu.



[Excerto de 'Gente a sul da sorte' do blogue Duas ou Três Coisas do Embaixador Seixas da Costa]

...


....

'Genocide' in the Mediterranean: ANOTHER migrant ship tragedy on Europe's shores as packed



 

'Genocide' in the Mediterranean: ANOTHER migrant ship tragedy on Europe's shores as packed boat washes up on Greek island - just hours after 900 died 'like rats in cages' off coast of Libya. Over 900 feared dead after boat overturned Libya in one of the worst maritime disasters since end of World War Two. At least three migrants killed when a vessel sailing from Turkey ran aground on the Greek holiday island of Rhodes Malta's. PM Joseph Muscat demands the EU tackle civil war in Libya that allows traffickers to operate with impunity. Compounded by rise of ISIS which has threatened to send 500,000 migrants to Europe as a 'psychological weapon' .'Genocide' charged as boat capsizes in Mediterranean (...)

.....

Another tragic day off the Italian coast: 400 migrants die, witnesses report


 

Tuesday (April 14, 2015) marked "another tragic day":http://www.euronews.com/2015/04/13/fr... off the coast of Italy. Migrants arriving in the port of Reggio Calabria, at Italy's southern tip, told the charity "Save the Children":https://www.savethechildren.net/ that some 400 people died when their boat capsized en route from Libya. Italy: Hundreds of migrants still missing off Lampedusa after latest boat tragedy


....

Italy: Hundreds of migrants still missing off Lampedusa after latest boat tragedy




Dozens of bodies have been recovered from the Mediterranean Sea and brought ashore on Lampedusa after one of the worst tragedies involving African migrants trying to reach Europe. The mayor described the scenes on the quayside as "horrific, like a cemetery". Hundreds of people are missing after their boat sank about a kilometre from the Italian island. It is thought the boat capsized after migrants poured to one side of the vessel to escape a fire on board.

.....

Lampedusa: Way to Paradise or Hell for African migrants? 



As the turmoil of revolutions brought economic instability to many African countries, their citizens began to look across the sea, to Europe, for a chance to improve their lives. The Italian island of Lampedusa is often seen as “a gateway” to the EU paradise. Getting there, though, can be sheer hell. The journey is hard to arrange: it’s costly and travelers are at the mercy of boatmen, often unscrupulous traffickers. The waters are treacherous and have already claimed hundreds of lives. The authorities are determined to intercept would-be illegal immigrants before they can reach the EU border. Yet, in spite of all the hardship and danger, desperate African men and women continue to take their chances. Those who survive and reach the island for which they risked their lives, soon discover that, without papers or knowing the language, the future in a foreign country may be even more uncertain than in their own.

....


Quem tem responsabilidades, directas ou indirectas, no estado insustentavelmente caótico a que chegaram os países de onde foge esta gente, gente como nós, que faça alguma coisa. E mesmo os que não têm qualquer responsabilidade que se unam para ajudar aqueles países de origem a ser um lugar bom para se viver, Não é humanamente suportável que se permita que tantos milhares de sonhos se afoguem no inferno da fronteira para o paraíso imaginado.

...

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom dia.

...

sábado, fevereiro 14, 2015

Sinais - a voz dos céus que transporta as estrelas e as palavras de todo o mundo. Fernando Alves, a voz da Rádio, o homem que me acompanha quando atravesso a cidade.


A sua voz é espessa, tem grão, tem sombras. Com a idade a voz vai incorporando novas texturas, vai incorporando novas camadas de vida. Mas tem também um fio de luz, tem um afago na pele dos que ao longe o ouvem, tem sorrisos de ironia, gritos de raiva, silêncios, melodias.

Tantas vezes fico à porta do edifício esperando que ele chegue ou que acabe de falar antes de me meter a caminho do centro da terra, lá onde deixarei o carro e onde os sinais da rádio não chegam. Os seus Sinais completam os meus dias.

Fernando Alves, o Senhor Sinais, o senhor TSF, é uma companhia afável que me traz as vozes da terra, as notícias do mundo, o cheiro dos jardins, a vista do alto dos montes, a coragem de quem se rebela, o carinho de quem aconchega. Para mim ele é, sobretudo, o Senhor da Rádio.





Esta sexta-feira, Dia da Rádio, ele falou assim: Rádio e silêncio em volapuque


Eu podia estar um dia inteiro a ver o voo das gaivotas na beira do rio, a ver os veleiros, a aspirar os cheiros da maresia, a ler um livro e a ouvir os seus Sinais.


 


Estive a reler os títulos dos Sinais e escolhi apenas alguns para que aqui fique registada a maravilhosa polifonia que Fernando Alves faz chegar até nós.

2015-02-13 Rádio e silêncio em volapuque
2015-02-12 Zé da Luz de Itabaiana
2015-02-11 A Valsa das Bicicletas
2015-02-10 Uma Economia que Mata
2015-02-09 Saber Escutar
2015-02-06 Mais do que coisa nenhuma
2015-02-05 Fome, informação e urgência
2015-02-04 A Gravata
2015-02-03 A Espada e a Parede
2015-02-02 Samba - Enredo e Teologia
2015-01-30 Soldadinhos de chumbo
2015-01-29 O maravilhoso pânico
2015-01-28 Palavras de abrigo


A gente nunca se lembra de agradecer àqueles que vivem para trazer até nós coisas que damos por adquiridas mas hoje eu lembrei-me: muito obrigada Fernando Alves.

___

No post abaixo despedi-me do Borgen e muito gostaria que me acompanhassem.

...

quinta-feira, julho 10, 2014

Só uma perguntinha: o que têm o José Gomes Ferreira e outras virgens (que antes rasgaram as vestes contra qualquer tipo de reestruturação de dívida) a dizer agora da reestruturação da dívida no GES, mais propriamente na ESI? Gostava de saber. Nos antípodas da papagaiada que abunda nos media, está Ana Gomes, essa intrépida criatura. Ouçamo-la aos microfones da Antena 1: 'Se o BES é demasiado grande para falir, ninguém, chame-se Salgado ou Espírito Santo, pode ser demasiado santo para não ir preso'


No post abaixo já vos desafiei a virem comigo surfar o canhão da Nazaré. Para aqueles que estão danadinhos para saber como sou eu ao vivo, é a oportunidade de ouro. Lá estarei à vossa espera. É certo que coisa assim não é para meninas mas, alguém duvida?, tenho barba rija mesmo. Em tempos um administrador relatou a outro que, numa certa reunião quente em que ele tinha estado e o outro não, a única pessoa com tomates tinha sido eu. Pois bem. Se os tenho, e tenho, então vamos lá a ver até que ponto sou valentona. Mas, claro, não tem graça ir sozinha pelo que lá estarei à vossas espera, antes de me fazer à fera.


Adiante. Falemos agora de papagaios. Também podia falar de catatuas - e estou agora a lembrar-me de uma bem conhecida. Mas vou ficar-me pelos papagaios.

Quando meio mundo (com dois dedos de testa, bem entendido) já reconhece que, nas presentes condições, não há como pagar a dívida portuguesa (a pública e a privada) e os seus pesados juros, e que a única forma de evitar um desastre de grande proporções é avançar-se para a sua reestruturação, é altura de lembrar aquela criatura que encarna o mais descarado populismo ao serviço do jornalismo e que dá pelo nome de José Gomes Ferreira. Não há muito tempo, o self-apregoado especialista em assuntos económicos escreveu para aí uma carta aberta, em que se esfarrapou todo para provar que reestruturar qualquer dívida é do mais absurdo e anti-patriótico que existe e que quem quer reestruturar uma dívida é um caloteiro sem vergonha - e sei lá que mais. Não sei se são estas as palavras que usou mas a ideia que fica depois de o ouvir a repetir o argumentário dos representantes do poder financeiro, em especial, dos especuladores, é esta.

Imagem que obtive na internet
e da qual não sei a proveniência original.
Será daqui?

Pois bem, pergunto: este mesmo José Gomes Ferreira e outros e outras que tais que tanto ouviram, em êxtase, as palavras do santíssimo Ricardo Salgado e as suas homilias cheias de culpas e castigos, e tanto as papaguearam (que outra coisa não têm feito ao longo destes 3 anos), que dirão agora da reestruturação da dívida a que o GES, em desespero, está a recorrer? 


Tendo já entrado em incumprimento, o GES (em particular a ESI) está agora a pedir a todos os 'pobrezinhos' que lá, na Suiça, aplicaram as suas fortunas que troquem as aplicações que fizeram por papel porque dinheirinho, agora, é coisa que viste-lo.


Estou a perguntar-me o que dirão agora essas beatas - que tanto gostam de varrer o chão dos banqueiros - perante a solução a que os Espíritos estão agora a deitar mão... Mas sei a resposta. Não dirão nada. Assobiarão para o lado, como se não tivesse nada a ver. Papaguearão outra coisa qualquer. Incapazes de formularem, por eles, um raciocínio mais elaborado, limitam-se a papaguear o que lhes parece ser a voz do dono (seja lá qual for o dono).

A fraude, a má gestão e tudo o que está a vir à superfície do GES já contagiou a PT. A bolsa está com os alarmes todos a tocar e os juros já estão a subir por tudo o que é canto e esquina, inclusivamente na dívida pública. A isto se chama risco sistémico.

A situação não está nada animadora e só espero que Carlos Costa, essa criatura de passado um pouco intrigante e intervenções também um pouco dúbias mas que é venerado como se de uma sumidade se tratasse, saiba o que anda a fazer. Se não souber, o rombo global poderá ser pior do que levar com o canhão da Nazaré em cima.

Para que não digam que a minha língua é perigosamente venenosa, deixo-vos um parágrafo do seu CV que a mim, que sou simples de espírito, me intriga à beça.
Entre 1993 e o final de 1999, foi Chefe de Gabinete do Comissário Europeu Prof. João de Deus Pinheiro com as responsabilidades das políticas de “Comunicação, Cultura e Audiovisual” (1993-1994) e da Política de Cooperação da União Europeia com os países de África, Caraíbas e Pacífico (1995-1999).
Chefe de Gabinete de João de Deus Pinheiro quando ele andou a fazer turismo...? Ui. E com a responsabilidade das políticas da comunicação, cultura e audiovisual...? É lá! Que Governador ecléctico nos saíu na rifa. Puxa. (Um dia destes, ainda o Relvas nos aparece também a governar o Banco de Portugal, querem ver?)
E não falo dos 4 anos em que Carlos Costa foi director da área internacional do BCP e durante o qual afirma que nunca soube quem eram os beneficiários das sociedades offshore a quem o banco concedia crédito para a compra de títulos. Ceguinho e surdo como convém a quem vai para o Banco de Portugal.

Mas eu sou uma alma caridosa e o que lá vai, lá vai. É preciso é que agora saiba o que anda a fazer. O País agradece.


Mas se eu sou boazinha, já o mesmo não se poderá dizer de Ana Gomes, essa mulher que parece que traz submarinos na cabeça e que anda sempre com a faca na liga e a mão no gatilho das múltiplas armas com que se atavia. Uma verdadeira mulher de armas.

Pois justamente a propósito do que se está a passar no GES, muito gostaria de vos convidar a ouvir a guerrilheira Ana Gomes na Antena 1: "Ninguém, chame-se Salgado ou Espírito Santo, pode ser demasiado santo para não ir preso" e “o banco foi e é instrumento da atividade criminosa do grupo”. “Se o BES é demasiado grande para falir, ninguém, chame-se Salgado ou Espírito Santo, pode ser demasiado santo para não ir preso”.



Esta Ana Gomes quando se atira é logo à jugular. Não é como eu que é mais coceguinhas.

E adiante que eu hoje estou uma santinha, não estou para grandes touradas.

_

Estou mais para me fartar de rir com os papagaios de serviço. Ora vejam bem este aqui a cantar o 'atirei o pau ao gato'. Que artista. O que o Gomes Ferreira tem ainda a aprender...



_


E bora mas é surfar o canhão aqui em baixo, ok?

-

quarta-feira, maio 28, 2014

E se em vez de um Audi como os que sorteiam, eu quiser outro? O que devo fazer? A Senhora das Finanças explica ao Nilton


Enviado por um Leitor a quem muito agradeço, aqui partilho convosco um telefonema muito esclarecedor relativo à Factura da Sorte e ao sorteio semanal de um Audi.

Uma medalha para a senhora, que, coitada, não tem culpa nenhuma e se sai muito bem, com uma paciência de santa.


RFM - Nilton - Não quero um carro! Quero uma carrinha!




Telefonemas no Café da Manhã com Nilton, André Henriques, Joana Cruz e Mariana Alvim.
Na RFM .


quinta-feira, novembro 07, 2013

Margarida Rebelo Pinto concede entrevista à RTP Informação e mostra que é o Passos Coelho de saias. Ou o Paulo Portas em versão loura. Ou o lombinha dos briefings em versão fresca e fofa. Afinal a 'célebre escritora' não é apenas fantástica a vender livros: pode mesmo aspirar a ser a próxima guru neo-liberal deste maravilhoso Governo que nos desgoverna. Quem lhe deu resposta à altura foi o Bruno Nogueira na TSF. Boa Bruno! Dá-lhe!


Sinto repulsa por quem se manifesta contra a austeridade, sei lá, aborrecem-me os que não querem pagar a taxa moderadora, sei lá...


O que a mim me aborrece é que é gente destas que dá cabo da reputação das louras.




&&&

Já agora, conforme me recomendam num comentário, não deixem de ouvir a justa resposta de Bruno Nogueira à tia tontinha Guidinha. Foi na TSF e é imperdível.




NB: Sobre a entrevista de António José Seguro à Judite de Sousa é descer, por favor, até ao post seguinte.