Mais um dia tranquilo. Não poderei dizer que foi um absoluto dolce far niente mas não esteve muito longe disso.
Concentrei o grosso da coluna na parte da manhã para ter a tarde mais aliviada e, de tarde, concentrei o sobrante na recta final. Portanto, in between, teve-se bem.
Os dias assim são um regalo. O tempo bom, os pássaros cada vez mais atrevidos, chegando-se a nós como se já tivessem perdido o pudor. E a companhia foi boa. A trabalho -- mas, assim, o trabalho até parece leveza. Estivemos na maior tranquilidade entre o verde e as flores, ouvindo os passarinhos.
Claro que dizer que o tempo passa a correr é um déjà vu que já não se aguenta. Mas a verdade é que, não sei como, passou uma semana. Faz uma semana. Faz uma semana que passei a noite fora. E, por um fenómeno que quase se confunde com jet lag, dir-se-ia que, ao mesmo tempo, passou um mês. A elasticidade do tempo é surpreendente. Tento perceber como passou esta semana e não sei dizê-lo. Parece que não estive integralmente dentro de todos os dias. Não sei explicar.
O que sei é que aqui estou, reclinada no sofá, entre almofadas. À noite, aqui me deixo estar a ler, aqui me deixo estar a escrever ou a ver vídeos, a ouvir música. É um ninho.
O que sei é que parece até que estive fora durante um indefinido hiato de tempo. Ao ouvir as notícias dei-me conta de que uma variante ganhou terreno, a variante Delta. Nunca de tal tinha ouvido falar. E o jornalista dizia: está a ganhar terreno à Alfa. Também desconhecia que houvesse uma variante Alfa. Nem dei conta da Beta nem da Gama mas presumo que tenham existido porque, desde que o tempo é tempo, para se ir de Alpha para Delta, se passa por Beta e por Gama. No meu tempo eram a do Reino Unido, a do Brasil, a da África do Sul. Ainda há dias se falava da variante da Índia e da nepalesa. Agora, como se tivesse passado muito tempo, tudo isto desapareceu e há uma nova nomenclatura. Nem sei se o próprio corona deixou de ser chinês.
Portanto, não posso dizer mais nada. Na volta, aconteceram mais coisas estranhas e eu não sei de nada. Tenho, pois, que me reduzir à minha total insignificância. Vejo vídeos. Distraio-me.
Este aqui abaixo ganhou hoje a minha medalha: tem a graciosidade do pezinho de dança, a alegria da brejeirice anunciada, a malícia adivinhada. E os gritinhos assustados e desejosos das duas beldades que tapam a boca, que fingem que querem tapar o olhar, que querem que sim, que querem que não -- tudo perfeito.
E eu, aqui aninhada, sorrindo, querendo que sim, querendo que sim... Mas, afinal, o vídeo acabou e ups... afinal não, afinal não...
Les Beaux Frères
Vou ver com mais atenção a ver se é como o cruzar e descruzar de pernas da Sharon em que, apurando a vista e pondo a imaginação a trabalhar, se vê o que antes nunca tinha sido visto.
E, não sei porquê, até me lembrei do chega-chega-ó-minha-agulha
Ontem, por todos os canais onde se passava, lá estava o ataque à civilização e o Marega e os que não tinham apoiado o suficiente o Marega e mais o racismo!, racismo!, e a repugnância, e o fim da picada.
Parei as minhas leituras e fui ver de que se tratava: Marega, um jogador negro de aspecto possante, foi apupado e insultado e, muito compreensivelmente, fartou-se. E, mostrando que os tem no sítio, mandou os racistas irem dar banho ao cão e saíu do campo.
Foi isto. A coisa conta-se, pois, em duas penadas -- e o repúdio, sendo veemente e convicto, em menos que isso.
Pois hoje continua a não se falar noutra coisa. O tema devorou o coronavírus e a eutanásia. Um enxame de #somos.todos.marega e #abaixo.o.racismo.no.futebol invadiu os media. As televisões estão cheias de comentadores exaltados, todos na mesma, em roda: a mastigar, a regurgitar, a voltar a mastigar, a comerem o regurgitado uns dos outros -- em non stop. Falam, falam e não acrescentam nada. Até porque não há mais nada a acrescentar. A argumentação perde eficácia quando repisada ad nauseam.
Depois, noutros fóruns, discute-se se somos ou não somos racistas. Diz-se de tudo. E tudo é verdade e mentira ao mesmo tempo pelo que vale dizer tudo e o seu contrário. Uma discussão fútil levada a cabo por gente que parece descerebrada. Parece que é preciso pôr um rótulo colectivo e, como não é fácil pôr o mesmo rótulo na cabeça de dez milhões de pessoas, não saem do mesmo sítio. Em algumas pessoas, parece haver necessidade de auto-punição como se, pelo facto de uns serem racistas, todos termos que ser. E, uma vez mais, com generalizações, lá se perde a eficácia e objectividade da argumentação.
Ainda hoje, um conhecido meu, ao falar numa outra situação que nada tem a ver com o futebol, dizia que tinham arranjado 'meia dúzia de pretos' para irem fazer um certo trabalho. Devo ter feito uma cara de espanto pois caíu nele e disse, a rir: 'Caraças, ainda aparece para aí um Marega a chamar-me racista'.
Ora eu, do que lhe conheço, não consigo dizer que seja racista. É ultramontano e bota de elástico, é provinciano e, cá para mim, tem um parafuso a menos. Mas posso concluir que os portugueses, no seu conjunto, são racistas lá porque um zé-cueca se sai com uma parvoíce daquelas? Claro que não. Por cada um que se sai com tiradas parvas há outros tantos e muito mais que conseguem falar sem dizer parvoíces.
Agora uma coisa que eu acho ainda mais parva, mas mesmo completamente parva, é o Miguel Sousa Tavares, no noticiário da TVI, ter lá levado o André Ventura para o confrontar sobre este tema e sobre a sua reacção.
Um bailarico. O André Ventura pôs o Miguel Sousa Tavares a rodopiar, a dançar de fininho.
O André Ventura não é parvo. Tem boa memória. É uma verdadeira picareta falante. E não tem escrúpulos. Como bom populista que é, mistura coisas acertadas, fáceis de perceber, coloca-se do lado do zé-povo -- os simples, os bons, os que dizem as verdades -- e contra os intelectuais e políticos que têm a mania que são inteligentes e que só querem mostrar a sua superioridade perante o dito zé-povo. E, logicamente, o que sai dali é um cocktail bom de beber, que escorrega que nem ginjas pela goela dos incautos, ingénuos, desiludidos da vida, rebeldes sem causa.
Portanto, se o Miguel Sousa Tavares pensou que ia enquadrar o André Ventura, esteve muito longe de o conseguir. O que levou foi uma abada. Perante um André Ventura desenvolto e aguerrido, sempre colado ao povo, o que se viu foi um Miguel a ouvir e calar, incapaz de conter a torrente verbal do grande demagogo que é o Ventura.
Façam muito mais favores destes ao Chega, façam, e depois venham ganir baixinho e chuchar no dedo sem saberem o que fazer perante a ascensão do bicho. Continuem a dar-lhe palco e verão como, num ápice, ele papa o CDS, devora as pernas ao PSD e se torna charneira na Assembleia.