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quinta-feira, agosto 06, 2026

Cenas da vida conjugal in heaven

 

Olho para a azinheira grande e penso: 'aquele ramo grande ali podia ser cortado, a árvore já se diversificou de uma maneira tal que aquela grande pernada já é dispensável '. Mas depois penso que aquele ramo é, em si, quase uma árvore, não podemos ser nós a ocupar-nos do assunto, não temos uma serra para coisas daquela envergadura. 

Depois, estou a varrer uma zona e penso que os ramos baixos da romãzeira e os do cedro também deveriam ser cortados senão junta-se toda a espécie de folhagem lá por baixo. Vou chamar o meu marido que refila, diz que está ocupado com outras coisas e eu sempre a pedir-lhe para interromper e vir fazer outras. Mas vem. 

Depois reparo que o tamarix tem muitos ramos secos por baixo. Peço para ele cortar também. Diz que não é só cortar, é depois levar lá para baixo, para o infinito monte que se vai formando. Refila. 

Continuo a varrer. Encho não sei quantos carrinhos de mão que depois levo para um canteiro, lá mais abaixo, e onde está caruma e folhagem ajudará a manter a terra mais húmida por baixo. Quem duvidar que espreite o meu Instagram, está lá uma ínfima amostra do muiiiito que carreguei.

Depois peço ao meu marido que tente arrancar a hera selvagem que invadiu o canteiro onde estão os alfazemas, agora já quase expulsos do recanto que lhes era devido. Peço também que tenha cuidado porque ao fundo há uma ivone e ele que não a assassine como assassinou a outra que estava num outro canteiro. Fica furioso, primeiro porque mais uma vez estou a arranjar-lhe trabalho e, segundo, porque diz que lá venho eu, outra vez, com a porcaria da ivone. Não lhe perdoo.  Responde que ela não estava ali a fazer nada. Digo que não se pode pôr fim à vida de uma ivone só porque, na maior subjetividade, se declara que não faz falta. Essa agora. E nós fazemos? 

Portanto, indisposto com a confrontação, deixou grande parte da hera selvagem. Eu acho que tem que se puxar à mão, mas ele diz que eu acho mal. 

Já o luso-fusco vinha tombando quando fui aos figos. Mas, antes de abastecer os saquitos que levava, comi mais de uma dúzia. Ainda pensei que talvez tenham proteína e fibra, que talvez seja uma dieta até interessante. Mas resolvi ser honesta: deve ser só açúcar e aquela barrigada deles deve ser o equivalente a estar a chutar açúcar directamente para a veia e para o perímetro abdominal.

Foi já de noite que vim ocupar-me dos orégãos. Já enchi alguns frascos. Desta vez, até de kombucha usei, acho-lhes piada.

Ainda há mais para esfarelar mas tenho que os deixar secar mais uns dias, pois alguns ainda não se desprendem.

Agora estou a escrever e doem-me um pouco os ombros. Penso que é da força que faço para transportar e, sobretudo, virar e despejar os carrinhos. Ou de apanhar pás e pás e pás e pás e pás de folhagem e terra. 

Ainda peguei num livro mas, ao fim de um bocado, fechei e pensei: 'Caraças, já não há editores que se aproveitem? Só publicam redações infantis?'. Feito com apoio de uma bolsa da DGLAB, ainda por cima. Está tudo doido.

E é isto. Aqui estou no telemóvel, coitada de mim. Quando leio que ainda há quem escreva coisas em papel fico espantada. Eu já só sei escrever no computador. Os dedos sabem o sítio das teclas, andam sozinhos. Aqui é um desatino, esta gaita altera grande parte das palavras que escrevo.  Por exemplo, de cada vez que escrevo 'esta' ele vai e põe-lhe um acento, fica 'está'. E como isto muito mais. Deve ser fácil descobrir onde desactivar está inteligência, mas tenho preguiça. 

Bem. Fico-me por aqui.

Fiquem bem, ok? Divirtam-se.

sábado, agosto 01, 2026

Seguro: TACO... perdão SACO
-- E cá está, de novo, o meu marido --


Percebemos hoje, com surpresa e agrado, que afinal a fonte de Belém não secou. Terá estado em manutenção, talvez em reparação, mas voltou a jorrar pujante. Diz o Expresso que o Presidente não falou para não adensar a crise. A questão do Seguro não falar é um hábito antigo, para quê comprometer-se?, não é surpresa é mais do mesmo. Mas esta de ele assumir haver uma crise também me surpreendeu. 

O Neves segue as pisadas do Montenegro: trapalhadas, irregularidades, quiçá, ilegalidades (até ouve mimetismo na cena dos dossiers na conferência de imprensa, só para inglês ver). 

O Fernando com as suas decisões cria desigualdades no acesso dos jovens ao ensino superior e desbarata o erário público para corrigir os erros que originou. 

A ministra da saúde dá cabo da saúde dos portugueses. 

A ministra da justiça finge que não existe, quando bens sob custódia do estado vão parar a um armazém lá para os lados de Barcelos. 

O gabinete do Ventura na AR é, presumivelmente, assaltado. 

E, com este panorama, o Expresso refere que há uma crise e que o PR não falou para não a adensar. 

Nada mais errado. Este é o normal funcionamento do governo da AD e das instituições. Só os mais tresloucados achariam bem que o Seguro dissesse umas banalidades, que outra coisa não lhe parece vir ao espírito, por causa da situação atual. A coisa está normal, tudo o que o governo faz é asneira. E já agora uma proposta, se de Trump se diz que TACO, não fiquemos atrás dos cowboys: de Seguro se passe a dizer que SACO (Seguro always chickens out). Parece-me adequado! 

terça-feira, julho 28, 2026

Eleições antecipadas -- na lógica do Tiririca, pior do que está não fica
[A opinião do meu marido]

 

A minha opinião diverge da opinião daqueles que dizem que não deve haver eleições antecipadas porque delas não resultaria nenhuma solução de governo estável. Acho que, pelo contrário, se os astros estiverem alinhados pode resultar uma solução de governo estável. 

Uma coisa é certa: a não ser que o Chega tivesse maioria absoluta, o que não parece provável, qualquer governo que resultasse das eleições não conseguia, por muito que tentasse, ser pior que o atual -- portanto, haveria pelo menos uma vantagem. 

Mas qual a razão para eu pensar que pode haver um governo estável? 

Admitindo que o Luís não ganhava as eleições (as sondagens atuais colocam a AD em 3º lugar) e que o Chega não tem maioria absoluta, é possível que o Chega, ganhando ou não as eleições, fique à frente do PSD. Neste cenário, o Luís ia às urtigas e voltava à Spinumviva, e não me parece que o novo líder, seja ele qual for, esteja disponível para participar como subalterno do Andrézito numa solução governativa. 

Se apostar de forma irritante no otimismo, acredito que até é possível que o próximo líder do PSD seja um social democrata sensato e que se preocupe com o futuro do País. Como acredito que o José Luís Carneiro tem estes atributos, não é descabido pensar que dois líderes com esta natureza poderão dar origem a uma solução governativa duradora, forte e que potêncie o desenvolvimento do País. 

Muito otimismo? Talvez, mas não é impossível, certo?

domingo, julho 26, 2026

Somos um povo de masoquistas para querermos que esta legislatura chegue ao fim?
-- A palavra ao meu marido --

 

Admitindo que a sondagem foi bem feita, a maioria dos portugueses quer que a legislatura chegue ao fim, embora na mesma sondagem haja uma maioria de portugueses que desaprova fortemente as políticas setoriais do governo. É difícil perceber qual é o racional desta opção. Seremos maioritariamente masoquistas? Temos um governo em que o PM não sabe governar, segue a agenda da extrema direita, mente descaradamente (ainda hoje ouvi que no início do ano anunciou que iam adquirir 275 viaturas para o INEM e hoje o respetivo diretor referiu que iam lançar um concurso para 40 viaturas), atravessou mais vezes o atlântico durante o mundial que os pilotos da TAP, demonstra uma enorme insensibilidade social, decretou o simplex ético (uma vénia ao Pedro Marques Lopes) e não cumpriu as promessas que fez na campanha eleitoral. Um ministro da administração interna que, de acordo com as notícias recentes, trata os aspetos relacionados com obras particulares com uma grande informalidade, senão, irregularidade ou pior. Um MAI que nasceu com o rabo virado para a lua e consegue comprar vários montes no Alentejo por preços muito inferiores ao preço de mercado e, simultaneamente, efetuar obras nos montes sem os correspondentes pagamentos ao empreiteiro, que não entrega declarações de património e parece protagonizar uma situação alo bizarra com uma galera sob custódia da PJ. Uma ministra da saúde que para além de tudo o que de péssimo tem feito no SNS agora conseguiu põr diversas especialidades médicas contra ela e, mais grave, recusarem-se a efetuar atos médicos. Um ministro da educação, uma verdadeira fraude, que, com a sua arrogância e incompetência, conseguiu introduzir o caos no sistema de exames e introduzir desigualdades nas avaliações -- pior seria difícil. Um ministro das infraestruturas que de pacote em pacote continua na mira do MP por causa do período em que foi vice-presidente da câmara de Cascais e participou na aprovação de um projeto muito controverso. Uma ministra do trabalho que também mente descaradamente (a última foi sobre as baixas) e levou com chumbo grosso quando tentou alterar a lei laboral. Uma ministra da justiça que não fez nada no setor e se mantém muda e queda apesar da galera á guarda da PJ ter ido passear para  Barcelos. Um ministro das finanças que não controla a despesa pública. Um ministro da presidência que não prima pelo rigor e revela uma falta de preparação atroz. Um ministro da economia que não existe. Uma ministra da juventude que para além de pôr em prática políticas erradas também mente. E já basta de exemplos. Portanto, com este panorama, das duas uma: ou somos masoquistas ou andamos a chutar para a veia para querermos manter este governo. Por mim mandava-os pastar caracóis de imediato. Existem riscos na opção de convocar eleições mas em democracia há surpresas e pode acontecer que depois desta experiência a maioria vote com a cabeça e não com os pés.

domingo, julho 19, 2026

Atrelados, mentirosos e quejandos: Luís , Luís & Alexandre -- firma unipessoal de irresponsabilidade ilimitada
[A palavra ao meu marido]

 

O Luís (neste caso Neves) seguiu as pisadas do Luís (neste caso Montenegro) no caso Spinumviva. Arranjou um empreiteiro amigalhaço que tinha feito obras para a PJ, da qual era diretor, para fazer umas obras lá em casa num espírito de grande informalidade. A coisa já tem que se lhe diga, mas piorou. Soube-se que o Luís (neste caso Neves) autorizou que um atrelado apreendido numa operação de droga, cheio de químicos, parqueado num depósito da Marinha no Seixal, fosse parar às mãos do empreiteiro amigalhaço. Tão inverossímil que parece fake. Se o MAI não for corrido depois desta, nunca ninguém será corrido de um governo de Luís (neste caso Montenegro). E já agora sugiro uma linha de investigação à PJ sobre este caso. Parece que o Luís (neste caso Neves) cravou uma solipas à IP para fazer obras lá em casa. Será que o atrelado não foi cedido para transporte do material cravado?  Já agora um conselho ao responsável pelo depósito do Seixal. Vi numa imagem televisiva que há imensas lanchas parqueadas no depósito -- será que ainda estão lá todas? Uma embarcação destas dava imenso jeito para dar umas voltinhas tanto no mar como no rio em Odemira.

O caos nos exames é inacreditável e o comportamento do ministro ainda pior. O Alexandre mente, ameaça, chuta responsabilidades e enxovalha os professores. Para além disso é burro que nem uma porta. Um tipo com inteligência mediana nunca cometeria tantos erros em tão pouco tempo como o Alexandre fez no processo dos exames. Os senhores comentadores que achavam que este tipo é o suprassumo da batata frita o que dizem agora? Pois,... A talhe de foice, os professores que foram desrespeitados, acusados de várias formas e ameaçados com demissões impossíveis comeram, calaram e não fizeram birras. Longe vai o tempo em que por dá cá aquela palha amuavam e faziam greve. O dinheiro é um poderoso motivador não é?

Este governo é um governo de incapazes e mentirosos, até a ministra pepsodente mentiu descaradamente sobre as instruções da UE relativamente à gratuitidade em algumas entradas nos museus. 

As sondagens indicam que os portugueses pensam o pior sobre as políticas setoriais e, no entanto, também mostram que querem que o governo se mantenha até ao fim. Há muito tempo que conclui que somos um povo de masoquistas, o que se confirma com esta opção paradoxal. 

Um governo em que não fazem nada que se aproveite, criam problemas atrás de problemas, mentem descaradamente... e a malta quer mantê-los a governar? Está tudo bêbado ou é do calor que se tem sentido?

terça-feira, julho 14, 2026

Está esclarecido, os ministros estão no governo para arranjar problemas
-- Mais uma vez, a palavra ao meu marido --

 

Hoje o nosso Primeiro fez mais uma intervenção no seu estilo, confirmando que ou tem um baixo nível intelectual ou pensa que a malta é burra. Eu apostaria que no meio é que está a virtude. Tenho para mim que quem é burro acha sempre que os outros ainda são mais burros. Após a intervenção do Luís, percebeu-se finalmente qual o grande objetivo dos ministros. O objetivo número um dos ministros é criarem o maior número de problemas possível para depois, como fez hoje o Luís relativamente ao ministro da educação e fez anteriormente, por exemplo com a ministra da saúde, vem a público afirmar que estão de pedra e cal no governo e que os nomeou para resolverem os problemas (deveria ter acrescentado: 'os problemas que criaram enquanto ministros' -- mas isso já seria pedir demais). 

Quem duvida que esta é uma prática muito salutar para organizar um governo impróprio para governar? Não há dúvida. E os exemplos são muitos e variados. 

O que tem feito a Ana Paula Martins senão criar miríades de problemas na saúde sem conseguir resolver nenhum? Missão cumprida! 

O que tem feito o ministro da educação senão criar problemas desnecessários e que  deixam as famílias dos alunos em alvoroço? Missão cumprida! 

O que fizeram as ex-ministras da administração interna e o atual ministro senão criarem problemas que se foram agravando durante o tempo que estiveram no governo? Missão cumprida! 

O que fez a ministra da segurança social senão criar um problema enorme com a lei da reforma laboral (que, por sinal, até originou um desgaste muito significativo no governo)? Missão cumprida! 

E o que fez a ministra "pepsodente" com as medidas para os jovens, nomeadamente tudo o que tem a ver com a habitação, e o ministro da coesão quando agem ou botam faladura? Criam problemas. Missão cumprida! 

Até o Bugalhito, putativo ministro, criou ontem um problema com a intervenção que fez sobre o pagamento das horas extra aos professores. Missão cumprida! 

E o que faz o Luís com as políticas de insensibilidade social e privilégio dos mais ricos? Cria problemas que não sabe resolver e que agravam a situação dos portueses. Missão cumprida! 

Tudo isto seria cómico, senão fosse trágico, revelando um amadorismo e uma falta de conhecimento e bom senso absolutamente confrangedoras.

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Para terminar. Vi na televisão umas pessoas a entrarem pela calada da noite aparentemente no armazém onde estão os exames para procurarem folhas em falta. Serão técnicos do EduQA. E, pelos vistos, também por lá andaram repórteres. Fiquei pasmado. Tendo um neto que fez exames, fico de pé atrás porque quem nos garante que estas pessoas não põem ou tiram folhas onde lhes convém, podendo, assim, prejudicar ou beneficiar alunos? A dúvida está instalada. Missão cumprida! 

O ministro é tão desprovido que origina imagens que só criam problemas ao governo e revelam a falta de rigor e de segurança que há em todo o processo. Missão duplamente cumprida!!

segunda-feira, julho 13, 2026

A bronca dos exames é o expoente máximo da extraordinária incompetência do governo? Não, há muito mais!
-- De novo, a palavra ao meu marido --

 

Então não é extraordinário ver o Bugalhito, com ar de quem acabou de se levantar e de se aperaltar, anunciar o pagamento de horas extraordinárias aos professores? Em que condição? Idiota útil? Futuro PM? Futuro ministro da educação? Ou parvinho do costume que quis encantar o ministro e tentar salvar o PSD? E não é também extraordinário anunciar que o governo vai pagar horas extras a quem faz trabalho extraordinário e tem o direito a receber o valor correspondente conforme consagrado na lei? Neste caso talvez não seja tão extraordinário, reflete apenas o espírito e a forma de tentativa de reforma trabalhista do governo que pretendia sonegar o pagamento de trabalho extra a quem trabalhavasse fora de horas. E não é extraordinário que o Luís fale sobre o problema com as avaliações dos exames no Alive em frente ao cartaz da Solverde? É o que resulta de termos um eterno bimbo sem sentido de estado e sem qualquer empatia pelos problemas das pessoas como PM. E, mesmo que involuntariamente, ainda fez publicidade aos antigos patrões, o que por si só já é bastante extraordinário. E não devemos considerar extraordinário que o ministro da educação ponha professores a digitalizar exames em máquinas 'piquininas' e, ainda por cima, quando foram a serem utilizados 40 disse que roubaram 70? O tipo fazia um programa na RTP 2 onde disse que não percebeua de educação. O tipo não percebe é nada de nada e ainda por cima desperdiçado o erário público comprando, aparentemente, muito mais equipamentos do que os necessários para garantir o funcionamento normal do processo e pondo profissionais a fazer trabalho de auxiliar da forma menos eficiente possível. 

E também me parece extraordinário que a ministra da saúde (é difícil pensar que ainda conseguirá fazer pior, mas ela consegue sempre) para diminuir a lista de esperas para cirurgias tenha anunciado uma aplicação que não contabiliza todas as cirurgias e, assim, diminuir artificialmente o número de cirurgias em espera. Que falta extraordinária de ética e de rigor! Mas, nada me surpreende quando analisamos a falta de rigor e de ética de Ana Paula. 

E não será extraordinário que o Luís consiga duplicar o valor dos gastos com o combate a incêndios? Neste caso é até muito comum. O que o Luís sabe fazer é por dinheiro em cima dos problemas. Eficiência e racionalidade não entram com ele. São coisas tão extraordinárias para ele que possivelmente nunca acontecerão enquanto for PM.

quinta-feira, julho 09, 2026

Ainda o caos nos exames e o Fernando Alexandre, e, desta vez, também a FENPROF
-- a palavra ao meu marido

 

Esta nova trapalhada do governo com a classificação dos exames é apenas mais um episódio da falta de capacidade técnica e política e da incompetência gritante que este governo tem demonstrado em todos os assuntos em que se mete de uma forma mais profunda. É assim na Saúde (depois da reorganização das maternidades feita pelo governo, hoje a notícia é que o hospital de Almada está a recusar receber grávidas). É assim na Habitação com o aumento de preços a subir sem parar. É ou foi assim na Administração Interna com os enormes problemas no combate aos fogos. É assim no apoio às populações afetadas pelas tragédias que têm assolado o País. Agora chegou a vez da Educação onde a jóia da coroa, the one and only Fernando Alexandre, meteu mais uma vez a pata, desta vez, numa poça sem fundo. O ímpeto """reformista""" (e ponham as aspas que quiserem) não olha a nada. Testar as aplicações antes de começarem a funcionar, nem pensar! Não vale a pena! É preciso é fé no programador e força no teclado. Se a coisa der para o torto culpa-se tudo e todos menos o responsável e realça-se o ímpeto reformista do governo que de facto não tem qualquer capacidade para fazer as mudanças que o País precisa. Com sorte ainda conseguem descobrir que a programação foi feita pela malta do Industão e arranja-se mais um argumento para o Leitão Amaro falar na imigração descontrolada,  encontra-se  um bode expiatório e desvia-se a atenção da populaça. Lata e descaramento para propagarem uma mentira destas não falta a este pessoal (por acaso, no lugar onde estou, uma coisa é certa: sem imigrantes, não comia e o hotel não funcionava. É por estas e por outras que não compreendo os argumentos estúpidos contra a vinda dos imigrantes). 

Nada me surpreende na incompetência do governo, mas há outras coisas que me suscitam alguma surpresa. Uma delas é: onde tem estado a FENPROF? Então essa rapaziada, sempre pronta para ir para a rua manifestar-se e ocupar a comunicação social com anúncios de greves e chorrilhos de notícias, agora tem estado praticamente muda e queda? Só agora começou a dar um leve arzinho da sua graça. O que se passa? Anteciparam as férias? Renegaram a herança do Nogueira? 

Quando analisava a questão ,surgiu-me uma ideia peregrina, provavelmente, inverossímil. Será que a  FENPROF foi comprada pelo Alexandre com todo o dinheiro que atirou para cima da mesa para calar os  professores (por acaso este aumento de custos não resultou em nenhuma melhoria efetiva no ensino público). Mas devo estar enganado. A FENPROF supostamente desfilava para melhorar a qualidade do ensino e defender os alunos menos favorecidos, não desfilava apenas porque queriam ganhar mais dinheiro e  um tratamento de favor em termos de carreiras. No entanto, o que se constata é que, desde que conseguiram o que queriam em termos salariais e de carreiras, borrifaram para a qualidade do ensino e para a defesa dos alunos menos favorecidos. Parece-me que é esta a realidade. A FENPROF só se preocupa com reinvindicações salariais e, como tem um ministro que faz o que a central sindical quer, não o afronta. Mal vai a principal central sindical dos professores quando, numa situação como a atual, apenas fala de fininho. Assim se confirma qual eram as reais reinvindicações dos profs.

Parece que o Montenegro no seu objetivo de cavalgar a onda foi ver o jogo de Portugal e obrigou o Falcón da Força Aérea a fazer mais umas quantas horas de voo. Teve azar. Não conseguiu tirar dividendos da viagem. E já chega de populismo bacoco nos elogios sem sentido à Seleção nacional que fez um mundial para esquecer. Resta-me uma dúvida: quem aprova este tipo de viagens? Como se justifica que o PM passe a vida a ver a Seleção mesmo quando manifestamente nada o justifica? Se fossem outros governos e outros PM, a rapaziada da AD não se calava, agora até elogia esta falta de ética (... e lá me lembrei outra vez da Spinumviva). 

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Nota minha: como dá para perceber, o meu marido não leu o que eu escrevi ontem. Por isso, se o texto vos parecer um pouco redundante, confirmo: é mesmo. Mas a liberdade por estas bandas é total e, portanto, se ele se lembrou de escrever isto (enquanto eu cochilava de tarde), não ia fazer a desfeita de lhe dizer que não publicava porque ontem já tinha abordado estes temas. De qualquer forma, não falei na Fenprof. E ele tem uma forma talvez mais acutilante do que a minha. Seja como for, é o que é. Está dada a explicação.

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Desejo-vos uma feliz quinta-feira

segunda-feira, julho 06, 2026

Sirenes, moscas e moscardos, aspersores e mangueiras

 

Não sei se já alguma vez falei nisto mas o meu marido, que é zeloso, de noite costuma activar um dos alarmes parciais que o nosso sistema de segurança tem, para cobrir algumas partes da casa que não estão propriamente à vista, como, por exemplo, a garagem, o sótão e outros pontos que o técnico de segurança identificou. Tudo bem, não tem qualquer problema.

O que acontece é que ontem esteve todo o mundo a ver futebol, a França - Paraguai, até às tantas. A seguir foi aquela dinâmica do vai tu, já vou, vai tu primeiro, etc. Depois é a cena das lavagens de dentes e ida à casa de banho. Finalmente, o mais pequeno disse-me que só me dava um beijinho se eu lhe contasse uma história a preceito. Conclusão, a operação 'cama' não acabou cedo e só depois peguei nisto. Ou seja, deitei-me tarde. E já sabia que a alvorada seria cedo. Mas não tão cedo. É que às sete, ou se calhar antes, desata a sirene do alarme a tocar. E, quando isso acontece, todos os cães das redondezas desatam a uivar. Um sobressalto. Acto contínuo, o telefone da central de segurança. Tinha sido qualquer coisa no piso de cima. O meu marido foi ver. E não era nada. Quando os quartos, que são cá em baixo, estão todos ocupados, o cão é isolado para não ir chatear ninguém, e geralmente vai para o piso de cima. Deve ter dado um salto do sítio onde dorme para o chão ou coisa do género, o que, em condições normais, não acontece. Resultado: com o susto, espertei. Portanto, passei o dia todo perdida de sono. À tarde, já só nós os dois, mal me encostei adormeci. Mas, como é certo e sabido que, se durmo de tarde, tenho insónio de noite, o meu marido não teve cuidado para não fazer barulho perto de mim e acabei por apenas dar uma cochilada.

Há bocado fomos fazer o nosso passeio nocturno e, quando saímos, o alarme fica sempre ligado. Mal tínhamos andado um bocado, outra vez aquele chinfrim que se ouve em todo o lado e arredores. Desta vez assinalou que era na sala. Voltámos atrás. Mais uma vez nada. Aliás, as imagens mostravam que nada. Mas, mal entrei, ouvi um zzzz. Provalmente, uma mosca ou moscardo a passar em frente ao vídeo-sensor.  Felizmente estamos cá, deu para validar no local. 

Mas já apanhámos, uma vez, um susto às três da manhã, quando estávamos no campo, com uma chamada da central de segurança. Os vídeos não mostravam presença humana, mas não ficámos descansados. A polícia que lá foi também confirmou que não havia problema. Mas apanhamos sustos. E tenho ideia que nesta época de calor é pior, deve haver insectos nocturnos que se passeiam onde não devem. São os chamados falsos-positivos. 

E estou a falar nisto pois estou a escrever e a ouvir um zumbido. E é enervante. Zzzzzzz.... Não tarda estou toda picada. Acho que temos mesmo que tratar das redes mosquiteiras. Ontem, perdida de sono quando cheguei à cama, também a ouvir zzzzz e a pensar que deveríamos acender a luz e ir à caça. Mas com o sono com que estávamos. Tanto mosquito ou melga ou lá o que é.... O meu filho falou numas fitas para pendurar no exterior, acho que também temos que tratar disso. Que castigo que está ser este ano...

Também aconteceu outra contrariedade. Habitualmente a rega funciona de noite. Mas agoras temos painéis solares para autoconsumo e, portanto, regulámos a rega para a parte da manhã. E vimos que, num ponto, um aspersor está fora e, portanto, sai a água toda e não rega nada, fazendo com que nos aspersosres seguintes a água saia com menos força. Fomos tentar encaixar e não encaixa nem por mai suma, não enrosca, não se percebe. E, numa das partes principais do jardim, pura e simplesmente não há rega. Andámos à procura e vimos que há uma rotura por detrás de umas treliças. O espaço é apertado e tem trepadeiras. Por isso não foi fácil lá chegar. E vi uma imensa poça de água e não percebi de onde vinha a água. O que sei é que não chega depois aos aspersores que se seguem. E agora arranjar alguém que se ocupe disto...?

É certo que são males menores, coisas de nada, irrelevâncias. Mas eu prezo muito o meu jardim. Andei de mangueira a regar à mão mas não dá, é complicado. E a mangueira que ali temos é fraca, retorce-se, engalfinha-se nela própria, trinca, e a água não sai. Tenho que estar sempre a voltar atrás, uma perda de tempo.

Nestas coisas o meu marido chuta para canto, se não regar, não regou, não quer saber. Anda sempre de maquinaria em punho, a desbastar a sebe, a desbastar as buganvílias, a cortar as glicínias que trepam para o telhado. Somos o oposto: preocupo-me é com a rega e, de resto, gosto é que tudo cresça à vontade e à vontadinha.

E é isto. Por uns motivos ou por outros há sempre coisas e coisecas. Se, quando eu estava a trabalhar, me viessem com estas conversas eu fartava-me de rir: frioleiras, preocupações de gente desocupada. E não considerava que fossem problemas. Eram simples ocorrências que se resolveriam, se calhar até por si. Mas é o que é. Mudam as circunstâncias, mudam as perspectivas. 

E mais não digo. Vou pirar-me daqui que já não aguento o estupor da mosca só a zumbir e a vir pousar-me ora na perna ora no braço, já estou cheia de comichões só de a ouvir. Caneco.

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Só mais uma coisa antes de ir: já viram a cor da buganvília lá em cima? Não é tão linda? É a tender para o alaranjado, acho-a mesmo alegre e bonita.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira 

quinta-feira, julho 02, 2026

O Leitão, o Ventura, a Ramalho e o Alexandre ou a "liga dos sem vergonha", sem esquecer, bem entendido, a Dona Ana Paula e o chefe deles todos, o Luís
-- E, finalmente, eis que o senhor meu marido se dignou, de novo, a dizer de sua justiça --

 

Ouvir um tipo que é jurista e deputado dizer que o governo não deve cumprir uma ordem do tribunal é assustador e chocante. Assustador porque percebemos que a extrema direita se sente com poder suficiente para fazer este tipo de afirmações, chocante porque apesar desta e de outras afirmações semelhantes ou piores, muita gente vota neles. O Ventura é o Trump cá do burgo. Populista, demagogo, xenófobo e autocrata -- e podem ver pelo que tem acontecido no EUA e no Mundo o desastre que é eleger um tipo com esta natureza. Devia servir de vacina e ninguém votar num tipo sem um pingo de vergonha! 

Mas neste cantinho à beira-mar plantado temos outras aberrações semelhantes. 

As afirmações que o "Lentão" Amaro fez recentemente sobre a imigração confirmam que a xenofobia e a direita mais populista ocupam lugares de relevo no governo. Ter um ministro que, das duas uma, ou não tem um mínimo de conhecimento da realidade ou mente descaradamente é uma vergonha para quem os elegeu, para quem o escolheu e naturalmente para o próprio. 

Outro elemento do elenco governativo que se pauta por uma enorme falta de vergonha, basta relembrar as mentiras que foi dizendo para suportar as suas tentativas legislativas discriminatorias e com cheiro a direita saudosista é a Palma Ramalho. É preciso não ter vergonha para fazer o que tem feito mas, é preciso ser verdadeiramente desavergonhada para manter a reforma da lei laboral na agenda após 12 meses de negociação e namoro ao Ventura que no final redundaram no colossal fracasso que conhecemos. Como é possível tanta falta de razoabilidade e de vergonha!

Não procurando ser exaustivo sobre os membros do governo que fazem parte da "liga dos sem vergonha" e sendo óbvio que o PM e a ministra da saúde são sócios desde a primeira hora (como é possível a ministra ter gasto mais 21% na saúde, termos atingido o caos atual e não ser corrida?) tenho que referir mais um que está de corpo e alma na liga: é o rapaz da Educação. O Alexandre depois de torrar dinheiro em tudo o que dava chatice decidiu tentar fazer umas coisitas que não correram nada bem. Desde os números sem fundamento relativos ao número de alunos sem aulas, referidos pelo ministro até à vergonha que é o atual processo de correção dos exames, existem bastas razões para incluir este ministro em lugar de destaque na "liga dos sem vergonha".

Mas tenho que voltar à da Saúde. Com estes calores extremos, o que ouvimos à que nunca mais é ex é que alerta para o aumento da mortalidade. Mas alguém morre porque quer? O que é isto de alertar para a o aumento de mortes? Não passa pela cabeça da Ana Paula Martins que o que ela tem que fazer é dar conselhos práticos, é informar sobre medidas concretas, é fazer com que haja meios para minimizar insolações ou para acudir rapidamente a quem se sinta mal? O que mais esta senhora tem que fazer de mal para que o Luís perceba que mantê-la é caso quase de alarme social?

E é destas vergonhas que se vai fazendo uma parte da politica em Portugal. Que vergonha!

terça-feira, junho 02, 2026

Cenas da vida de um casal

 

Estive ocupada cá com a minha vidinha, coisas que meto na cabeça fazer e que me ocupam bastante, sabe-se lá se com resultados algum dia atingíveis. Mas sou discípula daqueles que diziam que só são vencidos os que desistem de lutar. 

Como continuo a ser a mesma -- quando meto na cabeça que tenho uma coisa para fazer, não descanso enquanto não a faço --, trabalho no assunto horas a fio sem me cansar, sem me desviar. O meu marido pasma com o meu regime, com a minha capacidade de me manter focada durante tanto tempo, apesar de não ter qualquer perspectiva de vir a ser bem sucedida. Nunca trabalhou no mesmo sítio que eu pelo que não sabe que, no que se refere a trabalho, é assim que sou. Isto agora não se pode dizer que seja um trabalho propriamente dito mas, pelo menos, é um projecto. Pode ser um projecto mais lírico do que pragmático. Mas é um projecto e lutarei para que se concretize.

Com isto, a televisão passa-me praticamente ao lado. Mesmo as notícias me parecem um carrossel que anda em volta sem sair do mesmo lugar. Espreito as novidades do dia, e está feito, fico informada q.b. Os jornais da noite alongam-se, alongam-se, metem reportagens e trapalhadas pelo meio, esticam a duração até mais não. Espreito o que se segue a isso, e ou é o Joker com o Palmeirim sempre com piadas secas, coisa que me deprime, e, portanto, evito, ou são novelas da treta na SIC para as quais não tenho qualquer pachorra, ou a xaropada indigente dos intermináveis big brothers e afins na TVI, o que faz com que, há anos, nunca paremos neste canal, ou são debates sobre tudo o que mexe, gente saída sabe-se lá de debaixo que pedra e para cujo peditório não me peçam para dar. Na Dois às vezes há coisas interessantes mas é preciso estar concentrado pois muitas vezes falam línguas que não domino e, portanto, requerem que esteja só a ver televisão para ler as legendas. Ora gosto é de estar com um olho no burro e outro no cigano e, portanto, se não posso, abdico. O meu marido, por ele, vê ténis, o Roland Garros, ou futebol. Eu desando e vou para a minha vida.

Ele, como todo o dia anda ocupado com desbastes, limpezas de terreno, corte de rebentos ladrões, etc., chega à noite e dá-lhe o sono. Portanto, ao fim de um bocado, a televisão fica a falar para o boneco. 

Claro que nessas suas actividades diárias o que não falta são disparates. Gosta do que faz mas não consegue ser cuidadoso, atento. Por exemplo, a última. Num canteiro, havia um arbusto grande, de nome Ivone, que era preciso aparar. Em volta desse arbusto estava a enlear-se uma coisa que não sei como se chama, uma espécie de hera selvagem, que cresce doidamente e que pica. Então, eu tinha-lhe dito que era preciso arrancar essa hera e desbastar um bocado o arbusto. Ouvi-o andar não sei se com a serra eléctrica, se com a roçadora ou o aparador. Não fui ver senão não faço outra coisa senão andar atrás dele. Confiei. 

Fiz mal. Quando vi, fiquei para morrer. Tive que respirar fundo cinquenta vezes. Noutras alturas, quando eu estava na flor da idade, dispararia em direcção a ele, capaz de engoli-lo vivo. Agora, com a sabedoria que a idade madura me está a trazer, prudentemente afasto-me dele. E espero que a fúria me passe. Só quando o vi, tentando mostrar toda a calma do mundo, lhe disse: 'Há algum motivo para teres dado cabo da Ivone?'. Ficou espantado. Ao fim destes anos todos, ainda não aprendeu que a defunta se chamava Ivone. Expliquei, com a calma possível: 'Cortaste, deste cabo, acabaste com a Ivone. O arbusto verde com nuances douradas. Não sobrou nada.'. E apontei para o espaço vazio. Com aquele ar de sonso que tão bem conheço, respondeu: 'Não disseste que era para arrancar?. Mais uma vez tive que fazer cinquenta respirações, e das profundas. 'Arrancar a erva daninha, a hera, não a legítima. Obviamente não era para assassinares a Ivone'. De novo, tentou a abordagem do costume, desvalorizar: 'Volta a nascer'. 

O pior é que não: não volta a nascer, deu cabo dela. 

Mas depois fico a pensar: o mal está feito. Por muito que eu estrebuche ou estabeleça tácticas de vingança, a Ivone não vai ressuscitar. Poderia pensar: 'Enganos destes não podem passar impunes, senão vai continuar a fazê-los'. Mas sei que, de uma maneira ou de outra, vai. Não distingue espécies, gosta é de cortar a eito. Portanto, tenho é que pôr o coração ao alto.

Enfim. É o que é.

Ao fim da tarde, o tempo tinha mudado, estava vento, a tender para o frio. Fui dar uma volta mas tive que voltar a casa para buscar um agasalho. No caminho, atravessou-se à minha frente, a correr, um pequeno bicho, peludo e quase preto. Dorso arqueado. Fiquei parada, de espanto. Não há coelhos ou esquilos pretos. Então o que foi aquilo? Ainda me enfiei pelo meio das pedras e das ervas a ver se via alguma coisa, mas os bichos são espertos e dissimulados. Por isso, não vi nada. Saí foi toda arranhada nas pernas.

Para o jantar, o meu marido comeu lombinho de porco estufado, acompanhado por legumes, mas eu ando cada vez mais a tender para a simplificação em tudo, até nos jantares. Como tinha um resto de iogurte grego, magro, juntei-lhe um bocado de kéfir, um bocado de queijo cottage, um bocado de uma mistura de sementes, umas cinco amêndoas, cinco ameixas secas, quatro ou cinco morangos e meia banana. Misturei. Soube-me lindamente. E fiquei bem.

E agora fico-me por aqui, a noite já vai avançada.

Desejo-vos uma boa terça-feira.

segunda-feira, junho 01, 2026

Mato cortado, calças cosidas, calças vintage
-- Sobre o que fizeram ao Juiz Ivo Rosa terei que deixar para outro dia --

 

O chamado mato está já praticamente todo cortado e, felizmente, desfeito. Num terreno contíguo, andaram a cortar e o que eram arbustos e ervas verdes são agora montes de folhagem seca, verdadeiro combustível. Há muita pedagogia a fazer pois o que se faz para cumprir a lei é aumentar o risco de incêndios. Também nós já recebemos um aviso e uma coima porque não cortámos alecrim e rosmaninho, verdes, porque a GNR, de longe, vendo a partir da estrada, não viu a terra nua mas sim campo verde e entendeu que não tínhamos cortado o mato. É um problema. Mais do que imposições absurdas deveria haver campanhas informativas, vídeos exemplificativos. 

E temos visto que, nesta preocupação de cortar o mato, muita gente faz avançar tractores ou roçadoras e ficam os campos cheios de mato seco, muito pior do que se estivesse fresco, na terra.

Mas, enfim, cortámos tojo e silvas e, claro, compreendo que não lhes é fácil andar a distinguir pé a pé de flor, e, portanto, em grandes zonas, cortaram tudo o que estava sob as árvores. Mas as máquinas são fantásticas pois, no fim, a terra está fofa, atapetada, tudo desfeito, não fica qualquer vestígio do que foi cortado.

O que ainda não conseguimos resolver, mas temos esperança de que o será durante este mês é a remoção da lenha, mas isso pensamos que cá virá um homem que vende lenha. E o pior são as pilhas de ramagens, sobretudo de cedros, mas também de pinheiros e de aroeiras, que estão um pouco por todo o terreno. Queremos arrastá-las para o espaço a que chamamos campo de futebol para que, quando o tempo estiver de feição e o site das queimas e queimadas o aprovar, possamos queimar. E essa componente está mais complicada pois não é trabalho para os que têm máquinas, é trabalho, segundo eles dizem, para 'ajudantes'. E não os há. Por aqui ainda não há imigrantes. E não se encontram pessoas da terra disponíveis: ou estão velhos ou, se estão novos, têm outros trabalhos. Tentámos nós os dois transportar uma parte, e conseguimos. Uma pequeníssima parte. O que há requer muita mão de obra, muita força, pois é muito; e muitos ramos são enormes e muito pesados.

E ainda há canteiros e muros que se partiram e cuja remoção apenas será possível com bobcat -- e vamos lá ver se é mesmo possível -- mas um senhor que o tem só está disponível daqui por algum tempo. Há muitas limitações. O Governo prolongou até ao fim do mês mas vamos ver o que se consegue. Sem gente, é complicado.

Portanto, ainda há muito trabalhinho pela frente. Mas muito está feito, e o que falta, de uma maneira ou de outra, haverá de se encaminhar.

Tirando isso, estive a coser uns jeans do meu marido. Não sei como, se calhar é das jardinagens, dá cabo dos jeans. Abriram nos joelhos. Ficaram só para trabalhos no campo, mas, ainda assim, aquilo incomoda-o. Com jeitinho, lá consegui cerzir, disfarçar, os rasgões.

No outro dia fomos, uma vez mais, comprar outros. Como sempre, mal põe o pé no centro do comercial já fica farto e a dizer que é para despachar. Hélas. Onde entrámos ou os modelos eram baggy ou slim. Ora ele queria regular. Básicos. Já com vontade de desandar, viu uns que diziam 'vintage'. Disse: 'Vintage, é isto mesmo'. Além do mais também eram 'regular'. Escolheu o número, pegou neles, 'vamos, vou pagar'. Sem provar, sem nada. 

Passados uns dias, quando foi vesti-los, teve uma surpresa: estavam cheios de rasgões. Por isso lhes chamaram 'vintage'. Mais rasgões do que os usados.

Mas, a propósito do meu trabalho de costura, houve um facto a relevar. No outro dia, no Lidl, vi uma caixa de costura muito composta que resolvi comprar: linhas de todas as cores, uma fita métrica, uma tesoura, um conjunto de agulhas e, junto às agulhas, uma pecinha metálica cuja função desconhecia. Admiti que tivesse a ver com as agulhas mas não estava a ver em que medida. Fotografei, coloquei no chatgpt e foi uma descoberta e tanto. 

A dita pecinha, na ponta, tem um filamento, em forma quase de losando que a minha falta de vista não me tinha permitido distinguir. Enfia-se aquele filamento no buraco da agulha, e é muito fácil, e depois a linha nesse dito losango, depois puxa-se e já está. Aquela luta para enfiar a linha no buraco da agulha está ultrapassada.

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Tirando isso quero aqui deixar uma anotação: tenho andado a adiar falar da pulhice que fizeram ao Juiz Ivo Rosa pois tenho que encontrar o registo certo. É um tema que me traz tão revoltada, tão agoniada, tão enojada que só me apetece dizer que gostava de estar na frente de alguns dos pulhas responsáveis por isso para lhes atirar com um copo de água à cara. Mas não faz sentido eu escrever aqui isso. Também me incomoda que o Seguro não fale sobre o assunto, mas fale em público, que peça responsabilidades, que obrigue uns quantos a saírem com um pontapé no rabo, que exija que se criem condições para que canalhices destas não voltem a acontecer. Mas, como disse, tenho que conseguir esfriar a cabeça para conseguir falar do assunto com a gravitas que ele merece.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

segunda-feira, maio 11, 2026

De Montenegros não reza a história. Provavelmente, nem de Seguros.
--- A palavra ao meu marido ---

 

Há muito tempo que escrevo que considero o Montenegro e seus ministros uma cambada de incompetentes. Os factos comprovam-no e basta vermos, ouvirmos ou lermos as notícias desta semana. 

Recapitulando: 

  • A negociação do pacote laboral correu-lhes tão mal e foi tão mal feita que conseguiram afastar das negociações as duas centrais sindicais e o PS. Ficaram nas mãos do Chega e vão suar as estopinhas e ajoelhar se quiserem seguir com o pacote laboral do patronato-de-antanho para a frente. Ministras arrogantes, de direita radical e fechadas na academia, é o que conseguem. 
  • No relatório sobre a atividade do SNS confirma-se que gastaram mais dinheiro, têm mais recursos e conseguiram fazer menos operações e menos consultas. Não é de admirar. Quem não sabe o que faz nem tem capacidade para discernir o que fazer, só faz asneiras. Não é, Ana Paula? 
  • De acordo, com os últimos dados, Portugal é o País que está em último lugar na execução dos fundos europeus. É normal, este governo só sabe executar PowerPoints. 
  • A rapaziada da AIMA diz que vai fazer greve porque está farta da inoperância e incompetência da tutela, que diz a tudo que sim mas não faz nada. Obviamente que não é caso para surpresas, sabendo-se que quem tutela a AIMA é o Lentão Amaro. 
  • A legislação sobre a expulsão de imigrantes e sobre a pena acessória de perda da nacionalidade para imigrantes foi chumbada pelos juízes e pelo TC (já é a segunda vez). Também não surpreende, a legislação tem a mão do "Lentão" e, naturalmente, o cunho do Luís por convicção e para não ficar atrás do Andrézito. 
  • Os escândalos nas polícias são chocantes e envergonham os portugueses. Infelizmente, também não é de admirar depois das senhoras que passaram pelo MAI, nomeadas pelo Luís. 
Além disso:
  • A justiça cada vez funciona pior,
  • uma parte significada da rapaziada continua sem aulas,
  • o custo de vida aumenta assustadoramente e o governo assobia para o lado, 
  • o governo não paga às transportadoras embora tenha acordado com elas suportar o custo do transporte gratuito dos jovens, 
  • a ajuda não chega aos que sofreram estragos com as tempestades, 
  • não sabemos quem são todos os clientes da Spinumviva, 
  • ... 

Tudo isto, e mais alguma coisa, resulta do "ganda" trabalho que o Luís anda a fazer. A quem não sabe o que faz até não fazer nada atrapalha. Certo, Luís?

Provavelmente o Seguro não quer ficar atrás do Luís e também quer fazer um "ganda" trabalho. Contudo:

+ Se é para promulgar legislação com comentários, tivemos cá o Marcelo durante dez anos. 

+ Se é para tentar fazer as vezes de PM, também nos chegaram as Marcelices. 

+ Fazer pactos para a saúde que estarão, se estiverem, prontos daqui a um ou dois ou mais anos, contratar um Adalberto para marcar 47 reuniões e, provavelmente, ficar com um nó tão grande na cabeça que tem que ir para a fila de espera do SNS, não parece ser o caminho certo para fazer alguma coisa de jeito na saúde. 

Vou dar uma sugestão ao novo habitante de Belém: consulte o que aqui ontem se apresentou:  O SNS que Portugal Merece -- Diagnóstico, Benchmarking Internacional e Roteiro de Reforma

Poupa 47 reuniões ao Adalberto e tem um documento com princípio, meio e fim na hora, a partir do qual se poderão seguir caminhos sensatos para resolver os problemas do SNS. Pequeno senão: duvido que o Adalberto ou o senhor presidente consigam ter pedalada para a jornada que se impõe. 

Não vamos longe!

quarta-feira, maio 06, 2026

Longe da civilização

 

Tem sido o barulho das serras eléctricas. Ontem estávamos, na sala, a conversar, eu e o meu marido, quando ouvimos um estrondo profundo e, ao mesmo tempo, seco. Eu disse: 'Foi abaixo'. O meu marido fez que sim com a cabeça. Tinham abatido o cedro gigante. O barulho sobre a terra foi violento. 

Fui espreitar cá de cima. Estava a olhar para aquele volume de verde sem compreender bem onde começava e acabava a grande árvore, quando ouvi, vindo lá de baixo: 'Olá, menina, boa tarde!'. Apurei a vista. 'Aqui, em cima, no tronco!'. E lá estava ele, o mais acrobático, empoleirado em cima do tronco cortado. Quando viu que eu o tinha descoberto, fez-me adeus, todo orgulhoso da sua façanha. Cá em baixo o outro virou-se e fez-me também adeus. E disse-me: 'Isto vai!'. 

Disse-lhe: 'Vocês tenham cuidado, não se magoem.' Riram-se: 'Esteja descansada. O pior já foi, já lhe cortámos a cabeça'.

Percebi que um tinha trepado a meia altura e tinha serrado a parte que jazia. Mesmo tendo caído apenas meia árvore, tinha sido aquele horrível som cavo, pesado.

Depois disso ainda estiveram durante mais umas duas horas a serrar. Estavam a cortar o tronco, as pernadas, a decepar todo o enorme corpo.

Quando se foram embora, já era quase noite, havia um intenso cheiro a madeira de cedro, um perfume maravilhoso. É, então, esse o cheiro que os cedros exalam ao serem esquartejados...

Hoje, de manhã, quando lá fui ver de perto, o cheiro ainda se fazia sentir mas já não era tão inebriante quanto o da véspera à noite.

O meu marido contou-me que os rapazes, ontem ao fim do dia, lhe tinham dito que, sem aquela árvore gigante, até veríamos melhor o pôr-de-sol, e fez questão de me dizer que concordava com eles. Talvez se veja melhor a linha de horizonte da serra em frente, mas isso não apaga a pena que sinto por termos destruído uma árvore tão vigorosa, tão bela.

Ainda há mais umas quantas para serrar mas já não é crítico nem tem a ver com a Kristin: é uma figueira que secou, um ramo grande de aroeira que está tombado demais, são dois troncos anteriormente cortados e que ficaram demasiadamente a sair da terra. E mais umas quantas pernadas. A serra elétrica do meu marido não tem dimensão ou força para ramos tão grossos. Durante o dia ele anda a desbastar árvores ou arbustos, mas de dimensão mais comedida. 

Há bocado tive um sobressalto. Eu tinha-lhe dito que estava um folhado grande, muito tombado sobre o caminho, ali mesmo em frente, e que ele poderia cortar. Luz verde para cortar coisas é do que ele gosta. Passado um bocado, já ouvi a serra elétrica. Cortou, cortou, e eu nem estava a perceber o que é que ele tanto cortava. Mas estava ocupada com outra coisa, não fui investigar. Quando o meu filho me ligou, fui andar lá para fora enquanto falava com ele, e, para meu espanto, o folhado ainda lá estava. Em contrapartida, um vazio num outro lado. Um vazio difícil de perceber. Só quando acabei a chamada é que perguntei ao meu marido o que é que ele tinha feito. Achou que eu me tinha referido a outro, um que não estorvava nada, enorme, lindo. E deu cabo dele. Ao lado, no chão, um monte enorme. Fiquei para morrer. Nestas alturas só não fico possuída e à beira de apoplexia porque já aprendi a conter-me e a relativizar. Quanto a ele, nunca se dá por achado. Como se não tivesse feito um disparate de todo o tamanho, disse: 'Pensava que era aquele. E também não estava ali a fazer nada.' Respondi que, por essa ordem de razões, também ele, também eu, também tudo e todos não estamos cá a fazer nada. Mas, pronto, fazer o quê?, o mal estava feito. Coração ao alto.

Hoje o barulho foi o da roçadora: silvas, sobretudo. E ainda não estão todas. E ainda falta o tojo. O meu marido disse que ele tinham que ter cuidado comigo pois se eu via que tinham cortado orégãos não iria perdoar. Por causa disso, a produtividade não foi a maior. O meu marido diz que não é assim que as coisas se fazem, que o que se devia fazer era apontar para uma área e dizer: corte. Eu não concordo. Acho que tem que haver uma selecção. Claro que andar com atenção, a contornar os pés de orégãos não deve ser fácil.

Cá em cima, longe de cena do crime, chegava não só o barulho contínuo das roçadoras mas também o intenso cheiro das verduras sacrificadas. É um cheiro bom.

E ainda falta muito mais. Por um lado, sinto que estamos a fazer o que tem que ser feito. Compreendo e constato que, se nada fizermos, a natureza avança e toma conta de tudo. Misteriosamente constato também que este bocado de terra se tornou tão verdejante que, apesar de se terem estado a cortar tantas árvores, pernadas e arbustos, o que se vê e sente é ainda uma saudável mancha verde. Mas, ao mesmo tempo, sinto aquele instinto primário de viver no meio da natureza, de deixar que ela siga o seu curso.

Quando se passam assim vários dias, aqui hibernada, sinto que os conflitos absurdos que homens dementes levam a cabo perdem ainda mais o sentido. A meu ver, todos os esforços deveriam ser envidados para que o planeta fosse fértil, saudável, eterno, um lugar de leite e de mel, um lugar de grande beleza. Sei que isto é conversa de quem não vai além da primeira camada cutânea, de quem desconhece toda a espécie de tormentos e perturbações que habitam a mente de muitos humanos, que a guerra e o apelo pelo mal fazem parte da natureza desta nossa espécie. Mas tenho pena. Tanta ciência, tanto desenvolvimento e, afinal, pouco se encaminhou para extinguir a maldade e a vontade de destruição.

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Estive a ver o vídeo abaixo que gostava que também vissem: vê-se e quase parecem sonhos. Como é possível que ainda haja povos a viverem assim? Como devem ser felizes por desconhecerem a malvadez que se propaga como um vírus daninho nas zonas ditas civilizadas.

Humanos Inacreditáveis ​​​​| 11 Culturas Extraordinárias que Não Vai Acreditar que Existem | 4K

Das tribos que vivem nas árvores da Papua aos nómadas do mar no Sudeste Asiático, dos guardiões do deserto do Saara aos monges espirituais do Butão, a humanidade adaptou-se aos lugares mais extremos e fascinantes da Terra.


Neste vídeo de viagem em estilo documentário, exploramos 10 comunidades extraordinárias:
  • Tribo Korowai (Indonésia)
  • Povo Maasai (Quénia e Tanzânia)
  • Povo Yakut (Sibéria, Rússia)
  • Nómadas do Mar Bajau (Filipinas)
  • Povo Aymara (Bolívia)
  • Povo Moken (Tailândia e Myanmar)
  • Povo Dogon (Mali)
  • Monges do Mosteiro Ninho do Tigre (Butão)
  • Tribo Kogi (Colômbia)
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Desejo-vos um dia feliz

quinta-feira, abril 30, 2026

Será o Montenegro o Orbán cá do burgo? E o Andrézito é um brincalhão do caraças? E o MP não se interna voluntariamente Rilhafoles?
-- A palavra ao meu marido --

 

Talvez alguns tenham ficado surpreendidos com o apoio objetivo dado por Montenegro a uma repescagem de Putin. Para mim não é surpresa. O Montenegro faz parte da direita com pendor populista que em grande parte está ao lado do Putin e o quer ver regressar, com alguma pompa e circunstância, aos palcos internacionais. Depois do Trump fazer todos os possíveis para dar protagonismo ao Putin, eis senão quando vem o Montenegro, antes de haver concertação europeia nesse sentido, apoiar o Trump e antecipar-se à maioria dos nossos parceiros europeus, seguindo as pisadas do tipo responsável pela enormíssima e perigosíssima crise em que o mundo está mergulhado. Será que temos um novo Orbán na Europa? O PM português? Ainda não chegou aos extremos do húngaro mas segue os passos do Trump, revela-se defensor da re-inclusão de Putin nas plataformas decisórias, já aprovou com a extrema direita as leis da nacionalidade e da imigração, já revelou enorme falta de respeito pela verdade e pelas instituições e já atacou bastas vezes a comunicação social. De facto, isto é apenas a cereja em cima do bolo. Para além de seguirmos a política de bar aberto relativamente à utilização das Lajes pelos americanos, ainda temos o Montenegro a defender que o Putin volte a ser considerado na cena internacional.

Parece que o Andrézito definiu hoje a linha vermelha para aprovar o pacote laboral. Embora se possa admitir, atendendo à habitual coerência do rapaz, que a linha vermelha hoje definida amanhã muda de cor, dizer que só aprova o pacote se a idade da reforma descer é de mestre. Esta não lembrava ao mais pintado. O Montenegro até deve ter batido três vezes com a cabeça na parede para ver se alucinava de vez. Não há nada tão reconfortante como ter o Andrézito como parceiro, não é Luís?

Hoje o tribunal, por unanimidade, decidiu absolver o Rui Pinto considerando que o julgamento era inválido e inconstitucional e que o MP tinha violado as garantias de defesa do réu. Será possível que o MP ainda desça mais fundo? Os procuradores deviam ser internados em Rilhafoles e punidos por incompetência e desbaratamento do erário público. O PGR devia demitir-se, emigrar e ir pentear macacos para o meio da selva. Ou melhor ainda: fazia um trio com os dois acima referidos e iam contar osgas para a Conchichina. Isso é que era!

sábado, abril 25, 2026

A escandaleira do Ministério Público
--- A palavra ao meu marido e ao Claude ---

 

Hoje comemoramos o 25 de Abril. É um dia de Festa. Todos, todos, todos, deveríamos festejar o que os portugueses conseguiram nestes 52 anos, e foi mais do que muito. 

Aos saudosistas da PIDE, dos tribunais plenários, da tortura dos presos políticos, das eleições fraudulentas, da censura, da corrupção, do compadrio, da guerra  colonial, da fome, da miséria, do analfabetismo, da saúde para muito poucos e das doenças para muitos, do atraso cultural, social e econômico e da política dos três F contrapomos as enormes conquistas proporcionadas por Abril. 

Sim, o 25 de Abril é um dia Festa. Viva o MFA! Viva o 25 de Abril. Vinte cinco de Abril sempre! 

No entanto, há aspectos em que o 25 de Abril ainda não conseguiu cumprir-se na íntegra: o de uma Justiça justa, decente, atempada, que defenda os cidadãos.

A notícia que saiu esta semana sobre a inspeção ao DCIAP revela bem -- e confirma -- as disfunções, que foram apontadas ao MP durante os últimos anos, sobre a forma como investigam e sobre a discricionariedade das investigação que conduzem. Um escândalo e uma vergonha. Haver um relatório que refere ilegalidades, discricionaridades e funcionamento aberrante no MP há mais de um ano e o Governo, o PR anterior, o PGR e os órgãos da magistratura que devem agir nestes casos nada terem feito é também escandaloso (será que o facto do atual PGR ter sido diretor do DCIAP entre 2013 e 2019 foi relevante para esconderem o relatório?).

Em vez de escrever um post sobre este escândalo, coloquei várias questões à Inteligência Artificial (Claude) e pedi-lhe para escrever textos com base nas perguntas que fui fazendo. 

Abaixo os textos do Claude que, na minha opinião, são muito bem feitos e que me parecem bastante rigorosos. São simultaneamente brilhantes e assustadores, em várias dimensões. Seguem os textos aos quais cortei as inúmeras referências que, a meu pedido, continham mas que, aqui, tornariam o texto ainda mais longo.

A Crise no DCIAP: O Que Revelou o Relatório de Inspeção

O Documento e o Contexto

Um relatório de uma inspeção ao Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) aponta graves falhas de funcionamento e morosidade nos processos, aconselhando o Procurador-Geral da República a pedir reforço dos meios para a tramitação atempada dos processos. O documento, finalizado em março de 2025 e só conhecido esta semana, tem 305 páginas e foi redigido pelos inspetores Olga Coelho, Auristela Gomes e Nuno Salgado. Foi noticiado em primeira mão pelo Expresso e pela CNN Portugal.

Os Erros e Falhas Identificados

    1. Ausência de regulamento interno

O relatório concluiu que a maior unidade de investigação do Ministério Público está sem regulamento interno e é o único departamento a não usar o Citius para tramitar processos, contribuindo para falhas sistemáticas de gestão. O agravante é que a falta de regulamento interno já tinha sido assinalada na inspeção ao DCIAP realizada em 2014  o que demonstra que a omissão foi tolerada durante mais de uma década.

    2. Sistema informático obsoleto e isolamento tecnológico

O DCIAP tem um sistema informático obsoleto que faz deste o único departamento judicial a não utilizar o Citius na tramitação dos processos, usando ao invés um sistema de pastas partilhadas, o que compromete a interoperabilidade com outras plataformas, o acesso a bases de dados e pedidos por via eletrónica a tribunais. 

    3. Gestão processual disfuncional e morosidade

O relatório aponta críticas à organização do trabalho do DCIAP e à maneira como foram conduzidas algumas investigações. A gestão dos processos é feita de forma não objetiva e eficaz, prolongando-os no tempo, por vezes à espera do que possa acontecer, o que conduz a durações por períodos pouco compreensíveis. [Renascença]

Os inspetores descrevem uma distribuição discricionária de inquéritos-crime, feita caso a caso por despachos da direção, sem critérios transparentes ou equitativos.

    4. Escutas telefónicas fora do prazo e sem controlo central

Esta é uma das falhas mais graves do relatório: as escutas telefónicas têm sido realizadas sem existir um controlo central, havendo inquéritos-crime em que se prolongaram para além do prazo máximo de duração do inquérito, com os inspetores a indicarem, como exemplo, dezanove processos-crime abertos entre 2016 e 2022 em que isso ocorreu. As prescrições dos processos não são, aparentemente, transmitidas ao diretor quando acontecem, tudo porque não há regras de comunicação definidas.

    5. Falta de coordenação estrutural

Os inspetores apontam a falta de uma estrutura eficiente de coordenação, sublinhando que essa coordenação tem sido feita de forma pouco eficaz, a falta de uma secção central alargada para registo, receção e digitalização dos processos e prova documental apreendida, e a inexistência de uma secção dedicada ao branqueamento. 

    6. Carência grave de meios humanos e materiais

Os autores do relatório identificam insuficiências nas instalações, como falta de espaço para armazenar processos e material apreendido, material informático obsoleto, e apontam falta de funcionários judiciais e técnicos operacionais em vários serviços, assim como de especialistas e assessores.


Os Principais Responsáveis em Foco

O relatório dirige atenção particular à 6.ª secção do DCIAP, liderada pelo procurador coordenador Rosário Teixeira. Dos 271 processos pendentes nesta secção, 114 (42%) são tutelados pelo seu procurador coordenador, e o tempo médio de pendência nos processos identificados é de três anos e sete meses.

Os inspetores defendem uma reformulação da 6.ª secção e sugerem a definição de critérios escritos para determinar que comunicações dão origem a averiguações, afirmando que tal decisão do coordenador da secção não pode continuar a depender de critérios casuísticos do mesmo. Ter cerca de metade dos inquéritos pendentes da secção sob tutela do procurador coordenador gera desequilíbrios na gestão processual. 

O documento propõe ainda que o relatório seja enviado ao diretor do DCIAP, Rui Cardoso, e à secretária da PGR para que, no âmbito das suas competências, ponham em prática as sugestões organizacionais e de funcionamento cuja execução não careça de qualquer medida legislativa ou gestionária  dos poderes políticos.

A nível político, a Iniciativa Liberal reagiu de imediato, pedindo a audição urgente do Procurador-Geral da República, Amadeu Guerra, sobre a morosidade da justiça na fase de inquérito e o alegado caos no funcionamento do DCIAP. 


Os Processos Afetados

O DCIAP é onde se concentram os casos mais complexos e mediáticos do país. É no DCIAP que são investigados casos que envolveram o antigo primeiro-ministro José Sócrates e os processos relacionados com o Banco Espírito Santo. 

O caso mais flagrante de morosidade é o processo Monte Branco, instaurado em junho de 2011. Os inspetores indicam-no como um caso paradigmático de morosidade na 6.ª secção, onde se detetou uma sistemática dificuldade em delimitar o seu objeto e projetar os seus limites e termo. Trata-se de um inquérito que há muito pende e sobrevive à espera do que mais possa apurar-se de novo.  A Operação Marquês é outro dos processos tutelados por esta secção.

Os inspetores criticam ainda a tendência para converter processos, já de si complexos, em mega processos, alargando desmesuradamente o seu âmbito, o que suscita um aumento exponencial das diligências a realizar e a sua complexidade, comprometendo muitas vezes os resultados da investigação por força dessa morosidade. 

A dimensão do problema é expressiva: os inquéritos-crime pendentes há mais de cinco anos nos serviços do Ministério Público passaram de 611, em 2015, para 12.039, em 2024 — um aumento de cerca de 1870%. 


Como o DCIAP Deveria Funcionar

Para superar estes problemas, os inspetores e especialistas apontam um conjunto de reformas estruturais indispensáveis:

Regulamento interno obrigatório. A ausência de regras escritas durante décadas é incompreensível numa instituição desta dimensão. É necessária a aprovação e cumprimento de um regulamento que defina competências, fluxos de comunicação e critérios de distribuição de processos.

Modernização tecnológica urgente. A integração no sistema Citius é incontornável. O isolamento informático do DCIAP prejudica a eficiência, a transparência e a articulação com tribunais e outras entidades.

Controlo central das escutas e dos prazos. A existência de escutas realizadas fora do prazo legal, sem que a direção sequer saiba, é uma vulnerabilidade jurídica e constitucional grave. É necessário criar um mecanismo centralizado de supervisão.

Distribuição equitativa e transparente de processos. A concentração de quase metade dos processos de uma secção num único procurador é insustentável. Os critérios de distribuição devem ser escritos, públicos e auditáveis.

Reforço de meios humanos e materiais. O Conselho Superior do Ministério Público e o Procurador-Geral da República devem suscitar aos poderes legislativo e executivo a adoção das medidas necessárias para dotar o DCIAP dos meios humanos e materiais imprescindíveis ao exercício das suas funções. 

Limite à expansão descontrolada dos processos. A tendência para converter investigações em mega processos sem fim à vista deve ser travada por regras claras sobre o âmbito dos inquéritos e prazos mais vinculativos.


Conclusão

O relatório de inspeção ao DCIAP revela um problema sistémico que vai além das falhas técnicas: há uma cultura institucional que tolerou a ausência de regras, a opacidade na gestão e a morosidade como se fossem inevitáveis. A acumulação de 12.000 processos pendentes há mais de cinco anos é o sintoma mais visível de uma disfunção que corrói a credibilidade da justiça portuguesa e prejudica diretamente arguidos, vítimas e a sociedade. A reforma é urgente e não pode aguardar mais uma década.



Como o Ministério Público Está Organizado nos Países Europeus com Melhor Justiça

Os países europeus com sistemas de justiça mais eficientes — nomeadamente os Países Baixos, a Alemanha, os países nórdicos e a França — partilham um conjunto de princípios organizativos que explicam o seu melhor desempenho. Analisando cada modelo, emergem lições importantes para o caso português.


     🇳🇱 Países Baixos — O Modelo mais Avançado em Gestão de Casos

O Serviço de Acção Penal Pública neerlandês (*Openbaar Ministerie*, OM) tem dez escritórios regionais, coordenados a nível nacional pelo *College van Procureurs-Generaal* (Colégio de Procuradores-Gerais) em Haia. 

O traço mais distintivo do modelo holandês é a sua capacidade de resolver casos sem tribunal. A lei de 2008 (*Wet OM-afdoening*) conferiu ao OM poderes para impor diretamente sanções penais por crimes menores e infrações administrativas sem envolvimento dos tribunais, processando mais de 300.000 casos anualmente através desta via simplificada.

Outro elemento chave é a especialização: a especialização acelerou desde meados do século XX à medida que a criminalidade cresceu em complexidade, transformando os procuradores de generalistas em peritos de domínio em áreas emergentes como infrações económicas, crimes ambientais, justiça juvenil e cibercrime. Existem ainda unidades dedicadas especificamente à criminalidade económica e à investigação de funcionários públicos corruptos. Os Países Baixos são o país mais avançado da Europa Ocidental em termos de resolução de casos de forma informal, ou seja, sem audiência em tribunal.


     🇩🇪 Alemanha — Hierarquia Clara e Princípio da Legalidade

Os serviços de acção penal pública alemães (*Staatsanwaltschaft*) são órgãos hierarquicamente estruturados, independentes, da administração da justiça penal, colocados ao mesmo nível dos tribunais. Existem serviços independentes em cada jurisdição local, e a nível federal existe o Serviço Federal de Acção Penal junto do Supremo Tribunal Federal. 

O sistema alemão assenta num princípio fundamental de obrigação de investigar: em teoria, a polícia tem obrigação de investigar qualquer crime participado e enviar todas as investigações ao *Staatsanwaltschaft*, que revê os resultados e decide se acusa ou arquiva o processo. 

O serviço de acção penal tem três funções principais: liderar os procedimentos de investigação, conduzir a acusação nos processos judiciais, e executar as penas criminais e tratar das graças presidenciais. Cada serviço está dividido em divisões chefiadas por procuradores seniores. 

Uma característica distinta é a imparcialidade formal: ao contrário dos EUA, o procurador alemão deve sempre actuar de forma imparcial, tendo em conta factos que possam ilibar o arguido — não é apenas um adversário do réu. Uma fragilidade reconhecida é que no quadro do direito de instrução, o serviço de acção penal tem a obrigação de reportar e receber instruções do respectivo ministro da justiça, o que tem gerado críticas em termos de independência.


 🇸🇪 Suécia e países nórdicos — Integração e tecnologia

Os países nórdicos destacam-se por uma justiça integrada digitalmente, com sistemas de gestão de processos universais que garantem transparência e controlo de prazos em tempo real — algo que o relatório do DCIAP aponta como gravemente deficiente em Portugal. A Suécia tem uma estrutura nacional unificada com uma autoridade de acção penal (*Åklagarmyndigheten*) separada da polícia mas com coordenação estreita, e investiu fortemente em plataformas digitais partilhadas entre polícia, procuradoria e tribunais. A Dinamarca distingue-se pela integração da tecnologia no combate à criminalidade económica.


Os Princípios Comuns que Explicam o Sucesso

Comparando estes modelos com o que o relatório de inspeção detectou no DCIAP português, emergem diferenças estruturais claras:

1. Regulamento interno obrigatório e escrito. Todos os países com boa justiça têm regras claras, escritas e publicamente conhecidas sobre como os processos são distribuídos, geridos e encerrados. Em Portugal, o DCIAP funcionou durante décadas sem regulamento — algo impensável nestes sistemas.

2. Tecnologia partilhada e integrada. Nos Países Baixos, a transição para operações digitais tem sido uma prioridade estratégica, visando simplificar processos e melhorar a acessibilidade dos serviços. Em Portugal, o DCIAP usa um sistema de pastas partilhadas em vez do Citius — sendo o único departamento judicial a não usar a plataforma nacional.

3. Especialização por áreas de crime. Os melhores sistemas criam unidades especializadas por tipo de criminalidade (económica, ambiental, cibercrime), com magistrados e equipas dedicadas. Em Portugal, a organização do DCIAP em secções com critérios de distribuição casuísticos e opacos é o oposto deste modelo.

4. Controlo central e prazos vinculativos. Nos sistemas de referência, os prazos de investigação são controlados centralmente e qualquer desvio é imediatamente comunicado à chefia. Em Portugal, o relatório revelou que escutas ilegais decorreram durante anos sem que a direção do DCIAP sequer soubesse.

5. Resolução extrajudicial eficiente. Nos Países Baixos, a capacidade de impor sanções directamente para crimes menores, sem tribunal, permitiu processar mais de 300.000 casos por ano, libertando a justiça para os casos complexos. Em Portugal, a ausência de mecanismos equivalentes contribui para a sobrecarga de todo o sistema.

6. Independência equilibrada. Os melhores sistemas encontraram um equilíbrio entre independência funcional dos procuradores e responsabilização institucional — nem a subordinação política alemã na sua forma mais pura, nem o isolamento sem controlo que o relatório descreve no DCIAP.


 Conclusão

A comparação europeia mostra que os problemas do DCIAP não são inevitáveis nem naturais: são o resultado de escolhas organizativas erradas e de décadas de tolerância com a ausência de regras. Os países que investiram em especialização, tecnologia integrada, controlo de prazos e critérios transparentes de gestão têm uma justiça mais rápida, mais credível e mais eficaz. O caminho para Portugal existe — falta vontade de percorrê-lo. 


A IA nos Ministérios Públicos Europeus — Estado Atual e Potencial para Portugal

O Que Diz o Estudo Europeu mais Recente

Em outubro de 2025, o Conselho Consultivo dos Procuradores Europeus (CCPE) do Conselho da Europa publicou um estudo temático sobre o uso da inteligência artificial nos serviços de acção penal, com base em respostas de 31 países europeus, incluindo Portugal.

As conclusões são reveladoras: a maioria das respostas demonstrou que a IA não é ainda utilizada de forma geral para apoiar o trabalho dos procuradores, ou que a sua utilização está ainda numa fase inicial de desenvolvimento. 

Onde a IA já é usada, é geralmente para apoiar tarefas simples, como pesquisa jurídica, transcrição e tradução, anonimização de decisões e gestão do tempo. Alguns países indicaram que o Microsoft Copilot foi disponibilizado aos procuradores. Em casos mais avançados, a IA está a ser usada em projetos-piloto para análise de grandes volumes de dados e evidências, e para apoiar o desenvolvimento de estratégia processual e previsão de resultados — sendo sempre sujeita a revisão e verificação humana. 

O estudo identificou ainda uma lacuna regulatória preocupante: apesar do AI Act europeu e da Convenção do Conselho da Europa, o uso específico da IA nas funções de acção penal continua a ser uma área pouco regulada, com práticas divergentes entre jurisdições e falta de consenso sobre responsabilidade, transparência e impacto na independência dos procuradores. 


As Aplicações Concretas já em Uso na Europa

  Gestão e análise de grandes volumes de dados — A Eurojust, organismo europeu de cooperação judicial, tem identificado como prioritárias as ferramentas de processamento de linguagem natural (NLP) para lidar com enormes volumes de dados não estruturados em processos transnacionais. Estas tecnologias são particularmente úteis para o processamento de grandes conjuntos de dados não estruturados, habitualmente manuseados pelas autoridades judiciais, bem como para pesquisa jurídica e identificação de estatutos, disposições e jurisprudência relevantes para um caso.

  Análise forense digital — Nos Países Baixos, a procuradoria usa o sistema **Hansken**, uma plataforma baseada em cloud para análise forense de grandes volumes de dados digitais apreendidos — telemóveis, computadores, servidores — permitindo pesquisar e correlacionar informação de forma muito mais rápida do que a análise humana.

  Previsão e triagem de casos — Os governos já usam a IA para facilitar processos internos automatizados e adaptados, melhorar a tomada de decisões e previsões, detetar fraudes, e melhorar a qualidade do trabalho dos funcionários públicos. No Brasil, por exemplo, o sistema VICTOR automatiza o exame de recursos ao Supremo Tribunal, identificando casos com relevância geral — uma tarefa que um funcionário leva 44 minutos a fazer e que o sistema VICTOR resolve em segundos.

  Deteção de criminalidade económica e financeira — A Eurojust e o Europol usam ferramentas de IA para detetar padrões em redes de branqueamento de capitais e fraude fiscal que seriam impossíveis de identificar manualmente.

Como a IA Poderia Resolver os Problemas Específicos do DCIAP

Aplicando estas experiências ao caso português, as utilizações mais imediatas e impactantes seriam:

1. Controlo automático de prazos. Um sistema simples de IA poderia monitorizar todos os processos em tempo real, alertando a direção quando um prazo de inquérito se aproxima, quando escutas estão próximas do limite legal, ou quando um processo está parado há demasiado tempo. Este é exatamente o problema que o relatório identificou — prescrições e escutas ilegais que ninguém sabia — e a solução tecnológica é relativamente simples.

2. Gestão inteligente de processos. Um sistema de gestão com IA poderia distribuir processos de forma equitativa e transparente, com base em critérios objetivos como carga de trabalho de cada procurador, complexidade do caso e prazos — eliminando a distribuição "casuística" que o relatório critica na 6.ª secção.

3. Análise de grandes volumes de prova digital. Em processos como o Monte Branco ou o BES, a quantidade de documentação é enorme. Ferramentas de NLP podem ler, indexar e cruzar milhares de documentos, identificando automaticamente conexões relevantes que um procurador demoraria anos a encontrar.

4. Transcrição e tradução automática. Especialmente útil em processos com escutas telefónicas extensas e documentação em línguas estrangeiras.

5. Pesquisa de jurisprudência. Ferramentas de IA já disponíveis comercialmente (como o Copilot ou sistemas semelhantes integrados no Citius) poderiam ajudar os procuradores a pesquisar jurisprudência relevante em segundos.


  Os Riscos e Limites a Considerar

A adoção da IA no MP não é isenta de riscos. Apesar de não existirem ainda preocupações de que o uso atual da IA possa comprometer a independência dos procuradores ou introduzir enviesamentos, há reconhecimento de que, à medida que o uso da IA se desenvolver, essas preocupações precisarão de ser tidas em conta e mitigadas. 

Os Países Baixos são aliás um exemplo de cautela necessária: o escândalo dos subsídios à infância holandês tornou dolorosamente clara a consequência de algoritmos discriminatórios, em que milhares de pais foram falsamente acusados de fraude pelas autoridades fiscais devido a algoritmos de autoaprendizagem. 

A IA também não pode ser decisora — apenas apoio. As decisões de acusação, arquivamento e estratégia de investigação têm de continuar a ser humanas, com responsabilidade clara e revisão judicial. O AI Act europeu classifica muitos destes usos como "alto risco", impondo requisitos estritos de transparência e supervisão.


Conclusão

Portugal está em atraso neste domínio, mas a situação pode ser uma oportunidade. A implementação do Citius no DCIAP — o passo mais básico que o relatório exige — é o pré-requisito para qualquer adoção inteligente de IA. Sem dados digitais estruturados, não há IA útil. A modernização tecnológica e a adoção gradual de ferramentas de IA no MP não é um luxo: é uma condição para a eficácia da justiça num mundo onde a criminalidade é cada vez mais digital, transnacional e complexa.