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domingo, setembro 27, 2026

Reencontros felizes

 

Se grande parte dos dias podem ser bons apenas porque não são maus, outros há que são bons porque são mesmo muito bons. Felizmente não tenho de que me queixar, mas há situações que, mais do que serem-me agradáveis, são verdadeiros presentes da vida.

Toda a minha existência tem sido feliz, ou, pelo menos, boa, e cada vez mais penso que isso se deve, sobretudo, a ser descomplicada, a não querer saber do que me indispõe ou maça e a dar muito valor ao que me apraz. Raramente me aborreço com o que não tenho, raramente desejo o que sei que está fora do meu alcance. E digo raramente para não dizer nunca. Pelo contrário, contento-me com pouco. E também não quero saber do que dizem ou pensam de mim. E não é por arrogância, é mesmo porque nem me ocorre ligar a isso. Muitas vezes já aqui disse, e disse-o com sinceridade: acho-me muito básica, muito primária, quase ao nível dos animais que se dão por felizes com o que têm e que vão às estrelas quando recebem qualquer coisinha, em especial quando dada com afecto.

E este meu sábado foi mesmo muito bom. Não abano o rabo porque estou sentada a escever, mas, por dentro, estou toda sorrisos e agradecimentos mil. Reencontrei uma vez mais muitos amigos que vêm de um outro tempo, do tempo em que tínhamos todos o futuro inteiro pela frente. 

Imagem gerada pelo ChatGPT para ilustrar aquilo de que aqui falo

E bora lá com música:
In my life - The Beatles

O futuro agora é mais curto. Mas não interessa, tudo é bom enquanto dura. 

Senti a falta dos que não puderam ir e não pude deixar de sentir ainda mais dolorosamente a falta dos que entretanto partiram. Quando estive pela última vez com estes, os que entretanto partiram, não sabia que não haveria próxima vez, e eles, se calhar, também não. É muito triste que tenham sido levados. Parece que não faz sentido, que foi injusto, que eles não mereciam ser afastados da festa que pode e deve ser a vida.

Mas é o que é. E a vida continua. Por vezes faz sentido invocar alguns lugares comuns e este é um deles: a vida continua. E há que agarrá-la bem porque, como sabemos, é fugidia, tantas vezes traiçoeira.

Por isso, é com ambas as mãos que agradeço a vida que me habita, a vida que habita os meus, a vida daqueles a quem quero bem, a vida daqueles que me acompanharam quando eu era uma jubilosa menina e que agora, tantos anos depois, ainda partilham aqueles instantes de cumplicidade e empatia que parece que nos uniram para a vida.

Quando falo sobre estes felizes reencontros apetece-me sempre aqui falar, mais em particular, de alguns dos meus amigos. Num dos últimos assim fiz e, no dia seguinte, tinha uma mensagem de um deles. A filha tinha lido o que eu tinha escrito e percebeu que eu estava a referir-me ao almoço a que o pai também tinha ido. Ligou ao pai e ele logo descobriu o enigma. O blog é anónimo mas é escrito por uma pessoa com uma vida real e, por vezes, alguns apontamentos, sabe-se lá como, chegam a quem os consegue decifrar. E eu, mais do que surpreendida, fico feliz, quase como se fosse um milagre.

Desta vez tenho que reconhecer: contei à menina que me ofereceu a linda árvore que me foi dada como sendo da baunilha mas que, afinal, não dá baunilha mas, sim, umas delicadas florzinhas violetas que se alegram quando o sol lhes dá, que não apenas estou no instagram como tenho este blog. Por isso, para ela, o blog não é anónimo. 

Ao longo dos anos, aqui, ao recordar os meus tempos de menina e adolescente, várias vezes me referi a ela. Ela diz que, naquela altura, era tímida, apagada. As pessoas têm percepções de si próprias que muitas vezes não correspondem às percepções alheias. É o caso. Nunca a achei apagada. Pelo contrário, sempre a achei a mais bonita de todas e muito sincera, genuinamente boa pessoa, divertida, muito espontânea. Nós duas, em conjunto com uma outra, ríamo-nos imenso, achávamos graça a tudo, entre nós ríamo-nos dos traços pitorescos dos outros, imaginávamos situações divertidas. Não tínhamos segredos. Eu, pelo menos não tinha, partilhava dúvidas, amores, contava tudo o que sentia ou pensava, falava das minhas ideias, e sentia-me sempre acolhida por elas. Aos meus olhos ela não era nada apagada: era uma parte muito importante da minha vida.

Seguimos cursos distintos, eu saí logo de casa dos meus pais, só ia ao fim de semana, enquanto elas continuaram a viver em casa. Portanto, deixámos de nos ver. Não havia telemóveis, as comunicações eram complicadas para quem não frequentava os mesmos lugares. Arranjei novos amigos, casei, fui viver para outra cidade. A vida levou-nos por caminhos divergentes. 

Mas eu pensava muitas vezes nelas. Com uma ainda mantive algum contacto, ainda a visitei levando já a minha filha, ela também já com um filho. Com esta de que falo não. 

Por obra e graça de algumas almas generosas que fizeram o trabalho de formiguinhas, encontrando o contacto de uns e outros e fomentando a reunião, voltámos a encontrar-nos todos. Uma felicidade.

Com esta minha amiga -- a que se lembra de si própria como sendo uma menina tímida e apagada mas a quem recordo como luminosa e de uma inocência extraordinária, tocante mesmo --, voltei a sentir aquela compreensão que sempre senti. Parece que adivinho o que ela pensa, e solidarizo-me com tudo o que ela diz e pensa e sente. Mesmo quando ela, adolescente, se encantou por uma pessoa que a mim me parecia não reunir as características de príncipe encantado com que ela sonhava, eu compreendi. Eu olhava para ele e pensava que ele não seria o amor para a vida inteira com que ela sonhava, e tinha pena, mas, ao mesmo tempo, percebia o que nele a encantava: a subversão, a suprema irreverência, a ideia de liberdade. E, por isso, tenho ideia que não fui capaz de lhe dizer o que achava dele, dizer que não fosse por aí, pois pensava que, se calhar, apesar de não ser para a vida toda, enquanto durasse talvez a fizesse feliz, e essa felicidade não lhe deveria ser negada. E quando a felicidade, mesmo que incompleta ou breve, dá frutos, então, claro que vale a pena. Que se esqueçam as desilusões e que se louve a felicidade dos frutos que o romance fez nascer.

O tempo passou, as nossas vidas andaram para a frente. Percursos diferentes. Mas, dentro de mim, ainda sinto que, se ela precisar, estarei lá para ela. Sempre, incondicionalmente.

Também me apetece falar de uma outra, amiga um pouco mais tarde, mas muita amiga nos tempos de faculdade. Alegre, alegre, brincalhona, por vezes truculenta, tiradas divertidas, por vezes com uma deliciosa malícia. Cumplicidade também total. Acompanhou os meus animados tempos a nível amoroso, brincava com isso. Nunca tive segredos com ela. Sabia das minhas dúvidas, da minha queda cada vez mais fatal por um e pelo meu desligamento cada vez mais irreversível de outro. Assistiu a tudo. Ainda me lembro de estarmos as duas, eu à espera de um, e ela anunciar com sobressalto na voz: 'Olha! Ele vem aí!', como se estivesse a avisar-me que o outro tinha aparecido, e eu, em pânico, a pensar que a coisa ainda ia dar para o torto, os dois frente a frente. Depois ria-se do susto que me tinha pregado. Continua igual. Brincalhona, leve, leve, amiga da boa disposição.

E talvez amanhã fale de outras duas. Não hoje que o texto vai longo. 

Só lhes desejo bem, a todas. A todas e a todos, que nisto, como em nada na vida, não sou sexista. Que tenham saúde. Que a vida lhes corra o melhor possível. E que por muitos e bons anos continuemos a encontrar-nos, a gostarmos de estar uns com os outros.

E, de resto, talvez não seja preciso muito para sentirmos momentos de felicidade, talvez baste apenas reconhecer como felizes estes momentos em que nos sentimos bem.

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Desejo-vos um belo dia de domingo

terça-feira, setembro 15, 2026

Muito ruído e alguma substância

 

É sempre assim. Penso que o meu corpo segue a racionalidade que procuro ter. Mas não segue. Sabendo que tinha que me levantar cedo, fui para a cama sem estar a dormir em pé, que é como gosto de me deitar. Pus o despertador. Vi que nem seis horas de sono. Mas menos mal se as dormisse. Claro que não dormi. Acordada até começar a perceber qiue o dia já dava mostras de querer levantar-se. Daí por um bocado, o despertador.

O meu marido ouviu-me na casa de banho e foi dizer-me que ia sair para o passeio matinal do dog e que só entraria depois dos homens terem entrado. Pouco depois, os homens. Carregaram coisas e coisas e começaram a trabalhar. Entretanto, o meu marido chegou e sitiou a fera.

Nos trabalhos, o costume: imprevistos, coisas técnicas, queriam falar com o meu marido. Não percebo metade, apenas que tem que ser.

No fim, à tarde, quando se vão embora vejo lá fora uma coisa horrível. O meu marido diz que com tinta se disfarça. Não creio. Deveria ter acompanhado e dito que não. Só que, nestas coisas, me afasto, não tenho paciência, cada um dá sua opinião e nenhuma me agrada e, a bem dizer, não percebo bem o que dizem. E eles também não estão interessados na minha opinião. Mesmo cá dentro, ao ver o resultado, penso: mas porque não ficou centrado? O meu marido diz que foi para aproveitar as furações e que assim também não está mal. Está. Podia ter ficado melhor. Ele diz: não vale a pena, não há nada a fazer.

Fico arreliada. Um dia inteiro de irem ao carro, depois irem buscar material, depois vão almoçar, depois desliga o quadro, depois liga o quadro, depois, 'minha senhora, podemos falar com o seu marido?' -- e, lá fora, o cão permanentemente a ladrar, um chinfrim do caraças, alto e bom som, ininterruptamente. A cabeça feita em água, uma vontade de que se despachem e se vão embora.

Mas, no meio, um telefonema bom, como se nos falássemos todos os dias quando passam anos ou meses sem nos falarmos. Mas, de cada vez, é como se estivessemos a retomar a conversa do dia anterior. Conversa boa, fluida, animada e franca como sempre foi. No fim, ao contar ao meu marido, ele diz: 'estás a falar como se fosses ela'. O sotaque dela cola-se-me, falo e quase parece que é ela que está a falar através de mim. E quase adivinho o que ela vai dizer. Contava-me o que uma outra lhe tinha dito e eu, ao ouvir, reagi com um comentário. E ela, 'foi isso mesmo que eu lhe disse'. E as nossas interjeições são iguais. Uma amizade que vem do século passado.

Depois, uma troca de mensagens com uma outra. Conta-me o que tem andado a fazer, um trabalho meritório. A minha prima disse-me dela: 'tem um feitiozinho... por causa dela muita gente deixou de trabalhar lá, fugiram para não ter que a aturar'. Não me admiro. Tem mesmo um feitiozinho, sempre teve. Muita gente não gosta dela. Mas eu gosto de conversar com ela, e, de longe, por vezes trocamos longas mensagens, conversas interessantes, fora dos temas correntes. É culta, informada, viajada. Não foi feita para ser consensual, parece que leva tudo muito a peito, que analisa as coisas sem que o coração interfira. Não sei, não sei bem dizer o qu elhe acho. Mas gosto de conversar com ela e ela diz que gosta de conversar comigo. As outras dizem-me: 'gabo-te a paciência'. Mas não preciso de paciência. Há pessoas que não nasceram para serem afectuosas, e isso não tem mal. É casada e tem filhos pelo que provavelmente há momentos em que consegue sentir e demonstrar afecto. De qualquer forma, ela age a pensar no bem dos outros. Apenas o faz de uma forma científica, talvez distante, não sei. Nunca soube interpretar.

E, no meio da confusão cá em casa, ainda tratei de muitas coisas. Ao fim do dia, depois de termos arrumado a casa e posto tudo no sítio, fomos passear para a praia. E soube-me maravilhosamente. Olhei o mar, olhei as pessoas, fotografei. Sempre o mesmo encantamento. Parece que me descansou a cabeça.

Esta segunda-feira, ao fim da tarde

Depois de jantar, sentei-me no sofá e tive que fazer um grande esforço para não adormecer.

Penso nos dias em que tinha que sair de casa antes das 6 para ir ter reuniões às 9 da manhã a trezentos quilómetros de distância. E metia almoço, muitas vezes visitas ou continuação de reuniões na parte da tarde e chegava a casa por volta das 9 ou mais da noite, perdida de cansaço para no dia seguinte a labuta continuar. E isto, nos últimos anos, depois de me deitar à uma e tal ou duas da manhã para estar a escrever no blog. E aguentava. Caraças. Aguentava. Não sei como, mas aguentava. 

Hoje, não sei se foi da agitação cá em casa, se do cão a ladrar que nem um perdido por imaginar que o seu rebanho estava à mercê de perigosos predadores e ele sem poder acudir, se por quê, estou assim a modos que ko. O meu marido disse que estava com vontade de cascar no Fanã, que só faz porcaria atrás de porcaria, agora isto de tanta criança sem lugar na escola, mas depois disse que estava com sono, mas que achava que eu devia escrever. E eu disse que escrevesse ele porque eu estava com sono para escrever o que quer que fosse. Não quis, disse que tinha que ir dormir. E eu estou na mesma, não consigo, também tenho que ir dormir.

quinta-feira, setembro 03, 2026

Impermanências

 

Estava a ver o vídeo aqui abaixo e a pensar que  Karin Andersen, sobe quem é o vídeo, me faz imenso lembrar uma antiga colega minha. Muito este género. Nunca se destacou muito, creio que dela nunca a ninguém ocorreria dizer que era extraordinária. Apesar de ser alta, na altura era a mais alta de todas, quase não se dava por ela. Sei hoje que, na verdade, tinha um ou dois anos mais que eu, que quase todas as daquele buliçoso grupo. Sempre gostei imenso dela. Mas imenso. Muito boa pessoa, muito tranquila. Nunca foi de intrigas, longe, longe disso, não se metia em aventuras, creio que os rapazes não se derretiam por ela, tenho até ideia que não era daquelas que era convidada para a maioria das festas. Pelo menos, não me recordo de a ver por lá. Também nunca me recordo de a ver numa excitação para saber se este ou aquele também iriam. Se calhar porque ela, própria, não ia. Não era esse género. Eu era. Eu era tudo. Pelo menos assim me lembro de mim. Eu inventava o que fazer, tinha ideias, pregava partidas, apaixonava-me, apaixonavam-se por mim, pensava nas roupas, inventavas roupas, queria pintar os olhos, queria tudo, queria combinar ir ao cinema, ir passear, pentear o cabelo de outra maneira, sonhar acordada com tudo e mais alguma coisa. Tudo. Ela, do que me lembro, era o meu oposto. Não sei o que pensava ela de mim. Eu gostava tanto dela. Parecia uma parede fresca à qual eu poderia encostar-me e refrescar a minha sempre alta temperatura, parecia um jardim onde eu poderia ficar sem dizer nada, parecia ser uma permanente presença de amizade. 

Quando a reencontrei, vi-a igual. Tranquila. Quase distante. Vive num outro comprimento de onda. Faz a sua arte, viaja, frequenta espectáculos, cinema, espaços em que a natureza é virgem, em que não há temas de partidos políticos, em que não há espuma. Eu falo, pergunto, tenho vontade de saber. Ela escuta, tranquila.

Nessa longínqua altura em que pouco ou nenhum pronto-a-vestir havia, eu queria usar calças e procurava em todas as lojas, e encontrava, feias (face ao gosto de hoje) mas encontrava, eu queria usar biquini e quase não os havia e eu, e outra grande, grande amiga, procurávamos ansiosamente, e isso mobilizava-me, e depois comprámos, uma vitória, o meu pai passado com a minha ousadia, e eu feliz por conseguir o que queria. Do que me lembro este era o género de coisas para os quais ela não estava nem aí. E se ela assistia a esta minha maneira de ser, não faço ideia do que pensaria. Talvez também não estivesse nem aí e nem se apercebesse disso.

Qualquer coisa nela sempre me pareceu meio transcendente. 

Tenho ideia de que nunca a vi emotiva como aqui abaixo a Karin Andersen está. Mas com certeza terá os seus momentos. No entanto, quando penso nela parece que a imagino como também sempre acima dessas transitoriedades, parece que a imagino como parte da natureza.

É curioso. 

Hoje, quando a vejo, acho que é das mais modernas de nós todas. Veste-se de uma maneira sui generis, penteia-se, usa uns colares que são diferentes, que parece que fazem sentido nela. Zero aparatosa, zero chamativa. Pelo menos, deliberadamente. E, no entanto, vê-se a milhas que é alguém diferente. Pelo menos, eu acho.

Quando mostrei as fotografias, a minha filha apontou-a e disse: 'esta tem pinta'. É isso. Tem pinta. Não se parece, nisso, com a Karin, que é mais simples. Mas a Karin, sendo uma mulher simples, também atrai pela sua simplicidade, genuinidade, também, certamente, se distingue por não se enaixar em modas. E esse desencaixar é a forma como as pessoas assim, boas, generosas, francas, afáveis, se destacam. Quem quiser um porto seguro pode sempre ir ter com pessoas assim. Não censura, não julga, parece até quase nem querer saber. Mas está presente. Sabe esta presente.

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Às vezes gostava de lhes dizer que tenho este blog, mas depois penso em dias como hoje: se soubesse que ela iria ler, seria capaz de escrever com a liberdade de movimentos com que estou a escrever? Não sei. Talvez tivesse receio de embaraçá-la. Mas, por outro lado, também gostaria de retribuir em palavras toda a gentileza que sempre vi nela. Nela e em todas e todos sobre os quais gostaria de escrever. Tenho tão boas memórias. Sou tão grata.Não faria sentido que eles soubessem isso?

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Gostei imenso de ver o vídeo que aqui partilho, talvez um dos que alguma vez mais gostei, desta série da Reflections of Life. Não apenas a Karin me faz lembrar a A., como, sobretudo, me identifico com muito do que ela diz. Gosto das palavras que usa. Percebo a emoção dela, sinto o que ela sente, em particular quando fala da perda da mãe e da falta que ainda sente, e da presença que ainda sente -- e como pensa que talvez isso nunca passe.

Por que razão o extraordinário é sobrevalorizado

Ninguém percorre a vida completamente sozinho. Somos moldados por aqueles que caminham ao nosso lado, por aqueles que vieram antes de nós e até por aqueles cujas vidas se cruzam com as nossas apenas brevemente. De formas visíveis e invisíveis, acompanhamo-nos uns aos outros pela vida.

Estar presente para alguém não significa repará-lo ou mostrar-lhe o caminho a seguir. Muitas vezes, significa simplesmente dar-lhe espaço para ser quem é. Existe um profundo conforto em ser verdadeiramente conhecido e aceite, sem sentir que precisamos de esconder partes de nós próprios ou de nos tornarmos outra pessoa.

E esta ligação não termina necessariamente quando alguém morre. Aqueles que amamos permanecem nas nossas memórias, na forma como vemos o mundo e, por vezes, até no rosto que nos encara ao espelho. Transportamo-nos uns aos outros connosco e talvez seja por isso que, mesmo nos nossos momentos mais solitários, nenhum de nós está verdadeiramente sozinho.

Com Karin Andersen.

Filmado na região de Overberg, África do Sul.

[Poderão activas as legendas em português] 


Desejo-vos um dia feliz

domingo, outubro 12, 2025

Friends & Co.

 

Como naqueles filmes, assim eu na vida real. Ao fim de muitos anos, aos poucos vamo-nos reencontrando. Algumas vezes todos, outras vezes em grupos mais reduzidos. Hoje foi assim: envoltos em sol, como se o tempo não tivesse passado, um grupo de amigos encontra-se. 

Em volta da mesa, conversamos como se sempre tivéssemos mantido o contacto assíduo. As expressões são as mesmas, os risos os mesmos. Os truculentos continuam truculentos, as serenas continuam serenas, as rebeldes e fora da caixa continuam assim só que, como dizem, agora sem filtro. E vai risada. E a nossa artista continua artista, mas agora com obra feita, cotada. E, aliás, de uma maneira ou de outra, todos temos obra feita nem que com obra feita estejamos a referir-nos, sobretudo, à família que constituímos.

Há novos personagens, claro: o marido de uma, a mulher de outro, a namorada de um outro. E todos conversam e riem. Recordamos episódios, muitas vezes esquecidos ou nem apercebidos por alguns. 

Contam coisas de mim ao meu marido. 'Não nos ligava nenhuma', confessam os rapazes. (Não lhe contam que não ligava a eles mas havia um e depois outro a quem ligava). E falam-lhe dos meus feitos académicos e, nesse capítulo, como sempre, não consigo dizer nada. É como se dissessem: 'Tinha o nariz grande.'. Que poderia dizer? Nada. A ser verdade, não teria feito nada por isso. Tento mudar o rumo da conversa. 

Falamos das eleições. Há interpretações distintas, visões diferenciadas sobre o trabalho realizado. Há quem invoque situações pessoais, há quem se insurja porque tem que se pensar na cidade e não na sua situação pessoal. Os ânimos ficam acalorados. A política, ainda por cima em véspera de eleições, ainda incendeia. Uns desentendem-se e a mulher de um dos assanhados põe água na fervura: 'Isto é só uma tertúlia', ou seja, não um combate de box. Mas o sangue na guelra dos intervenientes mantém-se vivo. Passado um bocado, os dois amigos atiram-se num mergulho e põem-se a nadar, amigos somo sempre.

Fazemos um brinde, dois brindes. Desejamos todos que nos mantenhamos assim, de boa saúde, amigos, com vontade de partilhar o dia, a companhia uns dos outros.

Nunca tinha estado naquele lugar. Dir-se-ia um lugar quase no fim do nada. E, no entanto, uma maravilha. Muito verde, muito amplo, muito iluminado. E com peças de arte, umas adquiridas, outras feitas, que acrescentam beleza àquele espaço.

Chegámos a casa já noite. Fomos passear o cão que, coitado, tinha ficado em casa sozinho. Mas ficou no jardim e isso mantém-no sempre atento e ocupado, sempre em guarda do território.

Por isso não vimos notícias nem sabemos de novidades. Ou seja, nem eu nem o meu marido temos alguma coisa a dizer. Acresce que a noite passada praticamente não dormi, tossi, tossi, tossi, toda a santa noite até às sete e tal da manhã, uma daquelas tosses que resultam de uma comichão na garganta que não passa. Depois ainda dormi um pouco mas, claro, pouco demais. Agora estou melhor mas carregada de sono. Só que, entretanto, peguei ao meu marido, agora está ele. Pôs avamys no nariz e tomou paracetamol e foi enfiar-se na cama. Não arriscou na ceterizina pois viu como eu fiquei (passaram-me os espirros e o pingo mas no dia seguinte fiquei completamente KO).

Concluindo: o dia foi muito bom, adorei, mas se, enquanto lá estive, estive razoável, agora, aqui chegada, estou capaz é de ir para a cama.

Mas, antes de ir, uma nota: ao ligar o computador e espreitar as notícias, vi que morreu a Diane Keaton e isso deixou-me em choque. 

Diane Keaton, by Pablo Lobato

Há pessoas assim, que, saberemos lá dizer exactamente porquê, nos tocam de uma maneira especial, parece que queremos tê-las a partilhar o nosso tempo, enquanto o nosso tempo existir. 

Mais uma estrelinha que foi brilhar para mais longe.

Contudo, a vida continua, a vida sempre continua. E que seja boa para os que cá estão.

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Desejo-vos um belo dia de domingo

E não se esqueçam de votar pois votar é mais do que um dever, é uma obrigação, é mesmo, ok?

domingo, outubro 05, 2025

A alegria dos reencontros felizes

 

A mim, que gosto tanto de probabilidades, acontecem-me muitas improbabilidades. 

Na última vez que estivemos juntos, contei-o aqui e, como sempre, falei em abstracto, sem referir nomes ou locais. Pretendo que o que escrevo valha por si, fale de emoções ou de impressões que sejam independentes de referências concretas. Escrevo, digamos, para mim; ou, então, para quem, através das minhas palavras, se reveja no que por aqui vou desfiando. Para mim é uma espécie de pro memoria: muitas vezes, quando quero localizar, no tempo, algum episódio da minha vida ou rever o que, em determinada altura pensei, venho aqui pesquisar.

Pois, como já aqui o contei, para meu espanto, no dia seguinte tinha uma mensagem de uma das pessoas presentes. De facto, eu tinha-me, também, referido a ele, embora, pensava eu, pelo que tinha escrito jamais alguém conseguisse identificar-me ou identificá-lo a ele. E, no entanto, imagine-se, tinha sido denunciada... Para minha total estupefacção, a filha desse meu amigo tinha reconhecido o pai nas minhas palavras... e logo também percebeu que esta que aqui vos escreve e que ela seguia há algum tempo era amiga do pai... e logo ele percebeu que essa pessoa não podia ser outra que não eu. Fiquei com um sorriso de orelha a orelha e ainda hoje sorrio com isso. Há coisas extraordinárias. 

Ainda no outro dia, aqui em casa, recordámos isto. E as perguntas voltaram: 'Mas como é que perceberam que eras tu? Como é que ela reconheceu, no que escreveste, o pai dela?'. E a minha explicação foi: 'Pois, é espantoso. É inteligente como o pai, só pode.'. E agora acrescento: 'E, pelos vistos, improbabilidades também são a sua praia...'

Hoje, com ele, falámos nisso e, claro, sorrimos os dois. Vivendo fora do País, foi esta jovem, que eu não sabia que por aqui me aturava, que, juntando dois pontos, rapidamente traçou a recta que, num ápice, chegou até mim!

Disse-me ele que viria aqui espreitar para ver se eu relatava o nosso encontro de hoje. Não deixei transparecer mas confesso agora que me deixou sem jeito. Parece que, assim, perco um bocado a espontaneidade de escrever em abstracto, para mim e mais ninguém, para o ar, para o anónimo mundo que me cerca.

Mas, então, até porque, de facto, iria mesmo escrever, aqui vai. 

Quando chego a casa destes nossos encontros venho sempre feliz, feliz, feliz. Quando penso em todos, parece que estão sempre todos a sorrir. 

O tempo passou. Ao princípio quase não nos reconhecíamos. O tempo esculpiu algumas transformações, por vezes parece que até as nossas feições mudaram. Mas, agora que nos reabituámos, acho que, afinal, estamos quase na mesma: boa onda, boas pessoas, bons amigos, só que com uma diferença - parece que estamos todos mais felizes. Já não temos nada a provar, agora somos nós no que temos de mais genuíno, nós e a amizade que afinal não esmoreceu, nós e o carinho de, ao fim de tanto tempo, ainda gostarmos de estar juntos.

É muito bom reencontrarmo-nos. E até os que estavam doentes ou 'empanados' na última vez agora, felizmente, estão bem, recuperados. Na mesa em que eu estava, quando começámos, fizemos um brinde. Desejámo-nos saúde, alegria. E eu acrescentei: 'E que, para a próxima, estejamos cá todos'. No mesmo instante em que o disse, pensei: 'Olha que estupidez... isto soa a fatalismo'. Mas todos desejaram que sim, que para a próxima cá estejamos todos. 

É que fiquei muito triste, muito mesmo, quando a G., que parecia tão bem e que tinha sempre aquele sorriso doce, morreu. Pareceu-me uma daquelas rasteiras que não são admissíveis. Uma das nossas a ir-se assim, tão cedo, tão a despropósito... Depois foram umas doenças que tocaram alguns e o teu acidente, e, com tudo isso, fiquei como que assustada. 

Lembro-me que, na altura, depois de ter lido o que eu tinha escrito no grupo, um dos amigos escreveu-me uma mensagem privada em que dizia que temos que nos preparar, que nas nossas idades, temos que nos mentalizar que, de vez em quando, chegarão notícias assim. Racionalmente compreendo, claro que compreendo. Mas, com a inocência da adolescente que eu era naquela nossa altura, apetece-me bater o pé, dizer que não quero, não aceito partidas antecipadas, maleitas, sustos e tristezas. Quero é que continuemos a sorrir uns para os outros, mostrando-nos confiantes, bem dispostos, felizes.

Estive a ver as fotografias que, entretanto, já foram partilhadas, não apenas deste sábado mas também as da viagem a Madrid. Como é possível que tenha passado tanto tempo? Passa rápido o tempo... Caraças.

Os jovens saberão que devem aproveitar bem os seus dias, não os desperdiçar com intrigas, futilidades, desencantos desnecessários? 

A vida é boa, cada pequeno momento deve ser acarinhado como único, irrepetível. E se querem fazer alguma coisa, arriscar, passear, o que for, pois que façam, não fiquem à espera pois a vontade ou a oportunidade de o fazer pode esmorecer ou desaparecer e, depois, fica a mágoa do que não se fez. É que é tudo tão rápido...

Mas, lamechices ou filosofices à parte, adorei o dia, o reencontro. Vim feliz. Estou feliz. Estou a escrever e estou a sorrir. E cheia de vontade que venha o próximo. 

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Desejo-vos um belo dia de domingo

domingo, abril 27, 2025

Dia de encontros felizes

 

Já vim do Instagram onde é tudo mais na base do toca e foge. Sendo eu caudalosa como sou, vejo-me e desejo-me para poder encaixar qualquer coisa numa legenda de uma fotografia. Se faço vídeos, a maltinha cá de casa e arredores mói-me a cabeça, que aquilo não tem jeito nenhum, que ninguém faz coisas assim (ora os vídeos são longos demais, ora são malucos para além da conta).

Por isso, aqui estou. 

O dia foi muito bom. Dia de reencontros. Como sempre, mal nos vemos desatamos a falar como se tivéssemos interrompido a conversa no dia anterior. Os abraços que recebo, calorosos, são sempre aconchegantes. Espero que os que dou o sejam também. E constato como a maneira de ser das pessoas, apesar das voltas e reviravoltas da vida, se mantém. E, talvez por isso, a compreensão que havia antes se mantém intacta. As minhas melhores amigas de então continuam a ter a mesma maneira de falar, entendemo-nos como sempre nos entendemos, os gestos, os olhares, os sorrisos são os mesmos.

E depois há os romances que têm surgido. Alguns são surpreendentes, enternecedores, outros por vezes a gente percebe que são inviáveis -- mas não faz mal, o enamoramento é bom mesmo que não possam senão ser uma amizade especial e mesmo que a gente saiba que, mesmo assim, não têm grandes pernas para andar. Mas não faz mal: há coisas que são boas enquanto duram e que, mesmo que não vão acabar em casamento, um dia que acabem deixarão boas memórias. 

Mesmo quando falamos dos ausentes, é com carinho e saudade que o fazemos. Mas seguimos em frente. A vida continua. Há que saber dar valor ao que temos até porque sabemos bem que tudo é efémero, precário. Um dos 'nossos' está internado, ainda sem se saber o que tem. São médicos, sabem do que falam quando dizem que não sabem o que se passa. Ficamos preocupados. Mas o que desejamos é que, um dia destes, esteja de volta. Um outro teve um acidente que poderia ter sido dramático. Teve que ser operado, esteve internado algum tempo, ficou debilitado. Mas já está de volta, a recuperar muito bem. E sorrimos e toda a gente fica contente porque, no meio de tudo, teve muita sorte. E a boa sorte tem que ser festejada.

E, quando nos separamos, já estamos com vontade que o próximo encontro chegue rápido.

E hoje conheci a mulher de um deles, uma simpatia. E conversámos também como se nos conhecêssemos e agora até estivemos a trocar mensagens. 

A vida é muito curiosa, cheia de surpresas. Temos é que estar disponíveis. É que o comodismo tende a deixar-nos no nosso canto, como se fosse preferível estarmos sossegados, sem ondas. Mas, a mim, estas coisas mobilizam-me gostosamente. Preparo vestimentas, maquilho-me, escolho brincos. E, como estamos na onda 25 de Abril e a minha filha me ofereceu um pequeno cravo em crochet (creio que comprou na feirinha do CCB), até o levei posto como pregador (digo pregador para evitar as armadilhas da língua portuguesa).

E é isto. Quando regressei, passei pelo supermercado, depois fiz o jantar (para mim, uma coisa ultraligeira) e, a seguir, fomos fazer uma caminhada nocturna que me soube lindamente. E, entretanto, já estive a ver algumas fotografias que alguns amigos partilharam. 

Quando vinha a sair do lugar onde nos encontrámos, reparei que estavam a escrever a ementa para domingo. Vi que tinham ovas de choco. E fiquei com imensa vontade de as comer. Adoro ovas de choco, adoro, adoro. Até escrevi isso numa coisa que publiquei no Instagram. Não me saem da cabeça. Imagino-as fritas, estaladiças por fora, branquinhas e suculentas por dentro. Juro que salivo só de pensar. Caraças. 

Mas pronto, já escrevi demais. Estou com sono. Por hoje dou o expediente por encerrado.

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Fotografei estes meus hibiscos hoje. São perfeitos, lindos, exuberantes e precários.

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Desejo-vos um belo dia de domingo

domingo, novembro 17, 2024

A felicidade dos bons momentos

 

Hoje vou ser bem minimalista. Saí de casa cedo e cheguei tarde. Antes de sair, aperaltei-me cuidadosamente pelo que, como é bom de ver, tive que me levantar com tempo para tal. Agora estou um pouco exausta, embora bem feliz.

Tive um dia muito bom, fantástico, cheio de abraços e beijinhos, cheio de sorrisos, ternura e alegria. 

Já comecei a receber fotografias e é engraçado ver como todos estão felizes. Ao longo de horas, o que se vê é gente a conversar e a sorrir. 

Agora, não sei se foi de alguma coisa que comi no belo repasto ou se é de outra coisa qualquer, estou com uma afta, dói-me a língua aqui de lado. Além disso, e vocês desculpem-me a falta de maneiras, não faço outra coisa senão bocejar...

Mas como me custa que aqui tenham vindo e saiam de mãos a abanar, sem nada que se aproveite, partilho o vídeo novo da série Reflections of Life, de que gosto muito. Sou sincera: apenas o fiz salteadamente. Amanhã vejo o resto. Como acredito que deve ser interessante (embora, pelo que leio no texto de apresentação, fale de momentos menos bons), aqui está:

Beauty in the ordinary

Trigger Warning - This film contains reference to suicide, which may be triggering for some viewers.  If you have been affected by a similar issue and you need someone to talk to, please reach out to an organisation or individual near you for help.  Take care.

Even in life’s most challenging moments, beauty quietly waits to offer us comfort. In times of pain or loss, noticing the small things around us — the warmth of sunlight, the comfort of a friend — can remind us of life’s gentle grace. These seemingly ordinary experiences, so easily overlooked, become subtle guides back toward hope and healing.

Resilience doesn’t mean ignoring hardship; it means facing it with courage, allowing ourselves time to process and grow. Gratitude can be a lifeline, a way to hold onto the blessings that remain, no matter how difficult things may seem. Though the journey may be marked by grief, embracing the beauty in each day can help us move forward. In this way, the smallest moments of light can offer strength when darkness surrounds us.

Featuring Doreen Gail Hemp.


Desejo-vos um bom dia de domingo

domingo, outubro 20, 2024

Sábado assim-assim.
E receita de frango a que não sei que nome dar

 

Logo de manhã tive notícia que um amigo está numa situação clínica muito complicada e, pelo que é, ficámos todos preocupados. Fiquei em estado de choque e, como eu, todos os amigos. E porque vejo os que são médicos tão preocupados ainda mais temo que a situação seja mesmo crítica. Todo o dia tenho andado com esta apreensão. Ele é daquelas pessoas de quem ninguém poderia alguma vez pensar que lhe acontecesse uma destas. Muito jovial, muito alegre, com um aspecto saudável, cheio de energia e irreverência. E, de repente, está mal.

Portanto, o meu dia ficou um pouco toldado.

Não há dúvida de que, quando estamos bem, devemos dar graças por isso, curtir a generosidade da vida, degustar a felicidade. É que, de um momento para o outro, pode haver uma guinada de pouca sorte... Portanto, que, ao menos, tenhamos sempre a sensação de que não andámos a ser parvos e a desperdiçar o que tínhamos de bom à nossa disposição e não soubemos aproveitar bem.

Enfim...

Acresce que antes de ontem dei um jeito ao pé e, na sequência, ficou dorido e, para me provar que era a sério, inchou. O peito do pé todo gordo, a sola do pé também inchada e um dos dedos também reboludo. Nem conseguia dobrar ou mexer os dedos. Nem fiz programas familiares para estar com o pé no ar e com gelo. Agora já está melhor. Esta coisa de pôr os pés ao alto e de os refrescarmos geralmente dá bom resultado. Também pus aquela pomada Diclofenac, que penso que é o genérico do Voltaren, e que também é eficaz,

Como estou assim a modos que levemente jururu, pensando no meu amigo que está tão mal, vou ficar-me por dizer o que fiz para o almoço pois ficou saboroso e creio que saudável. E é simples de fazer.

Como foi só para dois, as quantidades são inferiores às que uso quando é para o quartel.

Meio frango do campo. É relevante ser frango do campo pois a carne tem outra textura e outro sabor.

Num tacho coloquei água, um pouco de sal, uma cebola bem grande aos bocados, dois alhos franceses (apenas as partes de baixo pois comprei uma embalagem com eles sem a rama verde) também aos bocados, cenouras às rodelas e o frango cortado aos bocados (tinha pensado fazer uma canja pelo que tinha pedido no talho para o cortar assim).

Deixei cozer durante talvez uma hora ou quase. O frango do campo tem a carne mais rija. Se fosse frango normal, metade do tempo seria suficiente.

Quando vi que o frango estava já quase macio, juntei três batatas, um bocado de abóbora, uma quantidade generosa de feijões verdes, uma boa quantidade de salsa e mais umas três cenouras às rodelinhas. Temperei com um pouco de açafrão e um pouco de pimentão doce -- pouco para nem se dar por eles, mas o suficiente para ficar com um gostinho saboroso e não facilmente identificável. 

No outro dia, quando fiz os rolos de carne (ainda não disse como fiz... a ver se um dia destes o digo pois ficou bom), recheei um com maçã e farinheira de porco preto do Alentejo. Só usei meia farinheira. Por isso, sobrou metade que hoje juntei ao cozinhado.

Quando os legumes estavam cozinhados, juntei um frasco de grão de bico cozido e uns bons ramos de hortelã. Misturei tudo e desliguei.

Para quem não está tão habituado, um pormenor: quando junto as coisas, ponho o lume no máximo até ferver. Depois, cozinho tudo com o lume no mínimo.

Ficou com um caldinho bom que, depois de comermos os sólidos, apanhámos com colher.

Deu para o nosso almoço e, como estava preguiçosa, repetimos e deu para o nosso jantar. E ainda sobrou um pouco mas que já não dará para os dois.

Para sobremesa, e agora falo só por mim, comi dióspiro. Adoro dióspiro. Não comi inteiro. A cada refeição cortei meio às rodelas e em cada rodela coloquei um niquinho de queijo de cabra. Fica delicioso.

E pronto. Nada mais a reportar.

Ah, sim, tenho andado a ler o Escrever do Stephen King que, até ver, é a sua auto-biografia. Vou agora entrar na parte em que creio que vai falar, em particular, na sua actividade de escrever. Nunca tinha lido nada escrito por ele. Lê-se muito bem, é uma escrita sincera, sem rodeios, com sentido de humor. Não é uma peça de alta literatura mas também não sei se é suposto ser. E, cá para mim, aqui e ali, tem algumas pequenas arestas que presumo que resultem de uma tradução não extraordinariamente refinada. Mas, seja como for, tenho lido bem.

E é isto. Hoje não comento os comentários, estou um bocado off. Mas agradeço-os.

Um bom domingo a todos. 

sábado, setembro 30, 2023

Dia 29 de Setembro de 2023

 

Hoje não vou escrever muito pois estou um pouco exausta. Esta sexta-feira foi um dia muito especial para mim.

Acontece que, em vez de poder focar-me completamente na preparação para o evento em que ia participar durante o dia, de manhã tive uma série de assuntos para tratar. E depois a pessoa com quem tinha que falar não estava, a secretária disse que ela logo ligava, e eu pedi que fosse, no máximo dos máximos até às onze pois, a seguir iria ficaria indisponível... e o tempo passava e nada de telefonema e, a seguir a esse telefonema, teria que fazer um outro e ainda mandar o mail... e nada, nada, nada. Uns nervos. Tudo isto foi acontecer no pequeno intervalo de tempo que eu hoje tinha livre e que tinha destinado a outra coisa. 

Não sei se acontece convosco mas as coisas podem acontecer ao longo de meses e não acontecem. Mas, quando acontecem, parece que acontece tudo ao mesmo tempo.

E, estava eu a correr de um lado para o outro e a preparar-me para ir enviar o mail, recebo uma mensagem em que as pessoas com quem eu ia diziam que já estavam estacionadas à minha espera. Mas diziam que estavam num sítio que eu desconhecia. 

Saí para a rua e nada delas. Liguei. Disseram-me o nome da rua em que estavam. Rua desconhecida para mim. Ou seja, tinham ido parar a outro sítio. O meu marido, gozão como é, já tinha antevisto: 'Vão perder-se'. Pois.

Mas lá nos achámos.

E foi um dia muito bom. Um dia escreverei sobre isso. Foi daquelas coisas cuja descrição daria uma novela. Mas não quero escrever a quente, prefiro que as coisas assentem dentro de mim.

Só que não sei se para os vossos lados também esteve assim. Presumo que sim. Um forno. Ao sol não se aguentava. Muito, muito calor. 

Mas, tirando esse pormaior, o que posso dizer é que esta sexta-feira foi daqueles dias que jamais esquecerei -- pelo menos enquanto tiver os neurónios em bom estado.

Felizmente houve quem fizesse a reportagem e, portanto, para além da memória terei esse testemunho de que tudo aconteceu de verdade.

Fico-me por aqui até porque agora, desabituada que estou de acordar cedo e com despertador, quando isso acontece durmo muito pouco, acordo antes de tempo. Acresce que, ainda por cima, cometi o mesmo estúpido erro de sempre: sabendo que tenho menos horas para dormir, levo-me a mim própria mais cedo para a cama. Ou seja, ainda sem sono. Portanto, uma espertina do caraças.

Agora, ao escrever a data lá em cima, no título da mensagem, reparei que por uma diferença de dez dias, por pouco não tinha também comemorado o dia porventura mais decisivo da minha vida.

domingo, agosto 13, 2023

Regresso devagar ao teu sorriso como quem volta a casa

 

Hoje o dia foi especial. Aquilo de que não se deve voltar onde já se foi feliz, afinal, não é forçosamente bem assim.

Não sou saudosista e, em geral, página virada é página esquecida. Mas, lá está, também há aquilo do nunca digas nunca. 

Assim, hoje fui visitar uma pessoa que, em tempos, foi queridíssima amiga. A vida levou-nos por caminhos distintos e, quando andamos muito atarefados a criar filhos, a trabalhar, a construir uma vida, pouco tempo sobra para o que vai ficando para trás.

Mas nunca me esqueci dela. Enquanto eu sempre fui de ter muitas ideias, muita vontade de fazer coisas, amores intensos, ela sempre foi a serenidade em pessoa, a companhia perfeita e justa, a que ouvia e aconselhava. Nunca uma palavra de julgamento ou censura, nunca um gesto de deslealdade. Nunca. Sempre a presença amiga, autêntica, amável.

Fui, em tempos, muitas vezes a casa dela, na cidade, e passei muitas tardes, belíssimas tardes, na grande casa que tinham no campo, no sopé da serra.

No lugar dessa grande casa há agora duas belas casas, uma dela, outra de uma das irmãs. O que antes era campo, é agora um dos limites da cidade. A casa dela está agora envolta noutras casas. Está na cidade mas com vista para a serra, com a acalmia do campo. 

Abraçámo-nos com emoção, um abraço muito amigo. E conversámos como se a conversa nunca tivesse sido interrompida. O seu olhar doce é o mesmo. A compreensão com que antes me ouvia é a mesma. A afabilidade é a mesma. Com ela continuo a sentir-me aceite, acarinhada, apoiada como antes me sentia.

E a casa, que eu não conhecia, é uma casa acolhedora, ampla, de uma beleza delicada, generosa, repleta de memórias, de afectos. Vê-se que é a casa de quem costuma acolher amigos, uma casa que nos abraça. 

Falámos das nossas famílias, falámos de nós, falámos do nosso reencontro.

Estava com medo que o urso cabeludo se atirasse a ela mas, estranhamente, foi como se a reconhecesse. Fez-lhe, imediatamente, uma festa, pôs-se em duas patas como se lhe quisesse agradar, como se quisesse abraçá-la. Ficámos admirados com aquela reacção.

E isto foi de tarde. Agora à noite estive à conversa com ela e com outros queridíssimos amigos. 

A vida sabe tão melhor quando é vivida em torno de afectos, de afinidades, de compreensão perante as diferenças, de admiração perante o que, nos outros, é bom.

Sempre tive vontade de, quando me reformasse, ter uma vida nova, ter um recomeço numa outra direcção. E é o que está a acontecer. E sinto-me muito agradecida, muito feliz. 

Amor Como Em Casa
| Poema de Manuel António Pina com narração de Mundo Dos Poemas

Desejo-vos um belo dia de domingo

Saúde. Afecto. Paz.

domingo, julho 23, 2023

Nada de especial

 

Nos últimos tempos tenho tido uma experiência tão inesperada, tão bizarra e tão repleta de nuances que, inevitavelmente, sobre ela ou sobre algumas das suas vertentes irei um dia escrever. Claro que terei que deixar destilar, terei depois que aplicar alguma dose de abstração, depois aplicar uma demão de qualquer disfarce. Não posso correr o risco de verter a vida de algumas pessoas para uma prosa em que, de pessoas de carne e osso, se vejam metamorfoseadas em personagens.

Nesta experiência, sem dúvida radical, tenho apreciado a personalidade de alguns dos intervenientes, a história de vida de outros e, de modo geral, tenho tido algumas surpresas. Pensava que conhecia razoavelmente algumas pessoas e verifico que me faltavam muitos ângulos de visão. Conhecer uma pessoa sob diferentes perspectivas não é forçosamente uma boa coisa pois, por vezes, ao desaparecer o mistério ou a nebulosa que permitia algumas suposições, fica uma realidade demasiada crua.

Nestes dias em que tenho estado de férias, muito ocupada a ir daqui para ali, a banhos aqui e ali (ou melhor, mais ali que aqui pois as águas a sul andam estupidamente geladas), com os meninos sempre naquela hiperactividade que lhes é tão própria (apenas interrompida quando foram levar a sua primeira massagem e saíram de lá tão zen, flutuando, quase sem conseguirem falar), pouca atenção tenho conseguido dedicar a essa tal experiência. Apenas de raspão vou espreitando a imensa actividade, quase vinte e quatro sobre vinte e quatro, que ali reina mas, de cada vez que consigo abeirar-me logo me espanto.

E interrogo-me frequentemente: será que eles e elas se espantam também comigo? Por vezes, parecer-lhes-ei uma alien? Serei uma alien? Por vezes vejo-os tão entusiasmados com coisas que a mim me passam totalmente ao lado... 

Enfim. Divagações.

E não me alongo. Este domingo o dia começa cedo pelo que tenho que ver se vou para a cama a horas normais.