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sexta-feira, fevereiro 26, 2021

Fake news com covid à portuguesa e, de sobremesa, Paulo Portas com manipulações e meias verdades.
Salva-se a querida Dame Judi Dench e o queridíssimo Chico Buarque.

 



Por motivos que não vêm ao caso, tivemos que ir à cidade. Muita gente. Muita gente sem máscara e outros com meia máscara. Fez-nos muita impressão. Desviávamo-nos, incomodados. Mas aquela gente não sabia que ainda estamos em regime de confinamento? Esqueceram-se que ainda há covid? É certo que estávamos na rua mas, bolas, cruzando-nos uns com os outros em quase permanência, gente a passar por nós a menos de um metro... Andámos aos ss na rua, a fugir de um, a fugir de outro, tentando ser discretos, sem perceber a que mundo tínhamos ido parar. E tantas lojas abertas. Não conseguimos perceber. 

Depois, já que estávamos ali e precisava de sacos para o aspirador, resolvemos ir, num instante, comprá-los. Ao entrar na loja, uma mulher mais velha que eu vinha na minha direcção também para entrar. Mas vinha sem máscara. Desviei-me para que não ficasse a respirar-me para cima, a menos de meio metro. Quando vi que ia mesmo entrar, disse-lhe: 'Desculpe mas não pode entrar sem máscara'. Ela disse, sem espanto: 'Sim, tem razão'. Abriu a bolsa e retirou uma máscara. Mas ali andava sem máscara, na maior descontração. 

Ao presenciar toda aquela movimentação, fiquei a pensar que, afinal, se calhar, ao contrário do que por vezes penso, quando a pandemia for debelada tudo voltará ao que era. Para nosso grande espanto, não fora algumas pessoas de máscara, dir-se-ia que estávamos nos tempos de antes do corona. Na loja, várias pessoas comprando e escolhendo coisas com vagar, umas tirando dúvidas junto dos funcionários, outras revirando objectos. Preocupação por estarem num espaço fechado, zero. 

Aqui onde vivemos, não muito longe da cidade mas cumprindo os deveres de confinamento, estamos distantes dos velhos hábitos que, pelos vistos, se vão reatando.

Pelo telefone, o meu filho desvalorizou: que quase um ano de vida alterada acaba cansando a disposição das pessoas, que isto é natural. Os mais novos sentem-se praticamente a salvo e, a menos que por dever cívico queiram proteger os outros, virão para a rua gozar a vida. Diz ele. Talvez. Acredito que sim. 

Era quase noite. Provavelmente os que vi, entre o sítio em que estacionámos, o largo onde havia assuntos a tratar, a rua, o percurso para a loja e o caminho de volta ao carro, terão sido umas cem pessoas na rua, talvez mais, não sei calcular. Dessas, talvez metade das pessoas andasse sem qualquer preocupação de afastamento. Talvez uns trinta ou quarenta por cento estivessem sem máscara. Vários dos que estavam de máscara estavam de nariz de fora. Talvez seja uma amostra pouco significativa, talvez não possa tirar conclusões precipitadas. Não sei. Mas fez-me muita impressão. Achei um excesso de à vontade.

Pelo caminho, na rádio ouvimos a notícia de que um farsante do PSD, avençado do Observador, resolveu forjar um plano, usando um template do Governo, com logótipo e tudo. Depois veio com desculpas esfarrapadas que nem ao menino jesus convencem. Fizeram bem os que, lestamente, enviaram o caso para o Ministério Público. Não há pachorra para os chico-espertos para quem só a desestabilização importa. Numa altura em que as hostes laranjas se agitam -- volta o Passos, não volta o Passos --, aparecem as fake news que agitam as redes sociais e lançam a confusão. 

Se não tivesse sido tão prontamente denunciado haveria de andar já meio mundo nas televisões a discutir mais uma treta, uma de entre tantas. 

É como o Paulo Portas. Ao princípio até gostei de vê-lo aos domingos na TVI: um comentário abrangente, aparentemente documentado. Mas rapidamente derrapou para a manipulação, para a meia verdade, para a insinuação, para a maledicência. Fala do que os opositores de Costa intrujam e intrigam como se fossem as posições do Costa. Pouco sério, isso. Ou apregoa como medida certa e de sua lavra coisas que Costa já decidiu faz tempo. O meu marido já desistiu e eu no domingo passado desisti a meio. Gosto de gente que pratica a honestidade intelectual, gente de bem, gente que, mesmo em quadrantes políticos contrários, usa de armas limpas, argumentação franca. Mas pode alguém ser quem não é? Não, né...? Paulo Portas é quem é e, pelos vistos, não mudou nada. Portanto, azarinho: para mim o comentário político do PP nas noites de domingo da TVI  já era. Aos domingos à noite fugia do cagalhotas e ia ouvir o Portas. A partir de agora, viste-o. Estão bem um para o outro, um na SIC, outro na TVI. Aos poucos, vou-me desligando de tudo o que seja treta, falsidade, intrujice. 

Há bocado, ao tentarmos ver alguma coisa, deu-nos uma aversão total a esta comunicação social que explora a má língua, a acusação, a leviandade, a estupidez. O meu marido disse: vamos desligar a televisão. Mas não fui tão radical mas fui ver outra porcaria, o MasterChef Brasil. Aquilo não é culinária, são casos sociais

Enfim.

Pelo meio, por acaso, até gostei da comunicação de Marcelo. Falou bem. É isso: já chega de futilidade, de parvoíce, de irresponsabilidade. Ao falar com a minha mãe, ela disse o mesmo ao comentar a comunicação dele às 20: o homem está como eu, farto de gente estúpida, gostei de ouvi-lo, tem todo o meu apoio. E eu disse: E o meu.

Tirando isso. Dia preenchido como sempre. Mas já estou com a cabeça no que quero fazer no sábado: tentar tirar o vaso dali. O meu marido continua a insistir que é impossível a menos que se tire a terra e, na prática, se mate a planta que está a querer renascer. E isso, obviamente, não. Agora há uma coisa: quando a gente quer uma coisa, consegue. Portanto, não acredito que aquele vaso descomunal vá ficar ali até ao fim dos meus dias. Temos que conseguir. Se não fossem as escadas, a coisa seria de caras. O pior é fazê-lo descer as escadas.

Penso nisso e em varrer o jardim. Nem sei como vou estar concentrada nas reuniões quando me apetece é ir varrer o jardim. Com um ancinho, com um balde para recolher as camélias murchas, a caruma, as folhas secas. O meu marido quer ir podar algumas buganvílias. E temos que ir os dois tentar domar as roseiras bravas, trepadeiras, que circundam uma das árvores grandes.

Não serão grandes objectivos, eu sei, mas agora é o que há. Parece que já nem sei ter grandes ideias nem grandes desejos...

A minha mãe, ao telefone, dizia que pelos anos não quer nada, que tem os armários e as gavetas cheias de coisas de que não precisa, que já nem tem onde guardar mais nada. Eu disse que estou na mesma, que há um ano que não compro praticamente nada a não ser comida e que não sinto falta de nada. Mas, se sinto um certo orgulho por me ter tornado assim, a verdade é que penso que, se muito mais pessoas estão como eu, isto é o desastre total para a economia. E é que eu acho que isto não é apenas enquanto durar a pandemia, acho que isto é assim forever. Mas, lá está, na volta é comigo e pouco mais porque, se calhar, mal nos desconfinemos, meio mundo irá a correr gastar dinheiro em traparia. Não sei. Aliás, não sei mais nada de nada.

Por isso, calo-me. Espero que gostem das fotografias de Philotheus Nisch e da companhia de Natalia Lafourcade e Omara Portuondo a interpretarem  Tú me acostumbraste. E espero que gostem também de ver os vídeos que hoje vi e de que gostei.


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Dame Judi Dench e Benedict Cumberbatch Unite Us


Já agora, deixem que partilhe o vídeo de alguém que fala das várias gerações, desde as memórias da bisavó da mãe até aos seus sete netos. E eu que tenho tantas saudades dos meus -- pimentinhas mais lindos, que agora só os vejo por fotografias ou filmes ou conversas à distância.

Chico Buarque fala sobre sua relação com seus netos


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E tenham um belo dia
Força. Boa disposição. Saúde.

quarta-feira, janeiro 10, 2018

Tocar o céu




Às vezes digo na brincadeira que acho que já devia ter direito a ser um homem. De facto, já fiz dois filhos, já escrevi material que dava para um monte de livros e já plantei nem sei quantas árvores. Um homem e dos grandes.
Mas, claro, é brincadeirinha pois estou muito bem como estou, mulher de corpo e alma.
No entanto, metáforas à parte, isto de uma pessoa ter que fazer certas coisas para atingir o estatuto de gente inteira faz-me sentido. Não sei como seria eu se, por algum acidente do destino, eu não tivesse conseguido ter filhos, não me desse ao desfrute de escrever sempre que me apetece ou não tivesse tido a oportunidade de plantar árvores. Se penso nisso, concluo a mesma coisa do que quando alvitro o que teria acontecido se a minha mãe tivesse casado com outro que não com o meu pai: não era eu que aqui estava.


Quando estudava e era muito boa aluna, custava-me aceitar elogios e parabéns e não era por falsa modéstia: é que, genuinamente, achava que o que alcançava era por acaso. Não por louvável mérito mas, sempre, por mero acaso. Já o contei muitas vezes: nunca fui de me esforçar. A vida tem solicitações demais para eu as desperdiçar e, em vez de as agarrar, andar a perseguir outras. Talvez por isso, nunca fiz directas enquanto estudava, nunca sofri de males de amor, nunca me senti frustrada por não ter alguma coisa. Contentava-me (e contento-me) com o que a vida punha (e põe) no meu caminho. E se a vida tem sido generosa. Pôs-me um par de mãos que escrevem que se fartam -- e eu não as impeço. Pôs-me um homem mesmo ao meu gosto no meu caminho -- e, por ele, larguei o que tinha. E em boa hora o fiz pois este, certamente melhor do que o outro o faria, completa-me e com ele fiz os meus filhos queridos que me completam ainda mais. E pôs-me um bocado de terra em bruto debaixo dos meus pés -- e eu não desdenhei de tanta pedra e tanto mato. E ainda bem. Fez-me sonhar, imaginei que dela fazia um petit bois e, de facto, dela nasceu um pequeno bosque onde florescem pássaros, borboletas, flores, frutos, sombras, grutas, aconchegos.


As minhas árvores minúsculas pelas quais lutei como uma fera luta por crias frágeis e indefesos, estão hoje enormes, vigorosas. Encanto-me com elas. Fotografo os troncos, passo as mãos pelos fios de seiva cristalizada, abrigo-me à sua sombra, vejo como a vegetação que junto delas também se abriga se diversifica. Aparo as ramagens que a desconfiguram, espreito as bagas, os rebentos, as pinhas, os frutos, os verdes, a beleza total, passo a mão pelas suas rugas, aspiro o perfume que exalam, sinto o bafo morno da terra que se amacia para melhor as tratar. Deslumbro-me com a generosidade da mãe-terra de cujo ventre vem o alimento que faz viver as minhas queridas árvores.


Há quem sinta devoção por deuses abstractos ou por ídolos concretos. Eu sou mais de outros mundos: eu sinto-me abençoada quando na presença de milagres como a existência de árvores. Não sei se são seres divinos, metamorfoses de espíritos livres, acasos improváveis ou o quê. Mas sei que são uma fonte de maravilhamento e religiosidade, isso eu sei. Olhando-as eu toco o céu.


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E estou a escrever estas palavras e mostrar estas fotografias que fiz no fim de semana in heaven -- mais um post a propósito de árvores -- pois a L., Leitora amiga a quem muito agradeço, me enviou um vídeo que logo me encantou: Judi Dench e a sua paixão por árvores. Atrás desse vídeo vieram os que aqui partilho convosco.






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E aqui chegados permito-me sugerir que não percam tempo com rapazoladas e hugalexadas em volta do que a ministra Francisca disse sobre a putativa Sta Mana Joana. Deixem isso para a gentinha desqualificada que pulula por entre os balcões televisivos onde se despacham comentários a metro. Nem percam tempo com aquele outro rapazola fora de prazo que, perante a Dominatrix de Sousa, mostrou que tem mais graça quando anda armado em conquistador das dúzias do que quando, inutilmente, tenta parecer credível. Por isso, aceitem o meu conselho: fiquem por aqui em vez de descerem ao post que se segue. Aquilo de que ali se fala não se aproveita para nada.

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sábado, fevereiro 15, 2014

Filomena - ou a história verdadeira de uma mulher a quem a família escondeu num convento quando engravidou e a quem as freiras roubaram o filho, vendendo-o para o estrangeiro. Uma de entre muitas histórias iguais. Uma de muitas páginas negras da Igreja Católica.


Bom, apesar de ter chegado há bocado a casa, este já é o quarto post do dia (ou melhor: da noite). Abaixo poderão ver o primeiro carro que saíu no sorteio da Factura da Sorte e depois uma coisa intrigante que alguém escreveu no google e que o trouxe até aqui e, finalmente, uma dúvida sobre a Ana Lourenço.

Vinha com ideia de me limitar a contar sobre o filme que fui ver mas não resisti.

Bom, mas isso é a seguir a este.

*

Aqui, agora, a conversa é outra. Resolvemos ir ao cinema e, antes, jantar por lá, no centro comercial onde está o cinema.

Pois não imaginam: uma enchente brutal. É certo que estávamos na zona dos restaurantes rápidos e, logo, económicos mas, mesmo assim, fiquei espantada. Até que o meu marido (que, no fundo, é um romântico) disse: isto é de ser dia de S. Valentim. Pois, capaz disso. De facto, resmas de casais de todas as idades. No fundo, e não é surpresa nenhuma, os portugueses são uns pinga-amores, uns lamechas. Lá está: uns piegas, já o Láparo o dizia.

A seguir fomos então ver o filme. O meu marido contrariado, temia uma xaropada, se a coisa mete história de tristezas de caixão à cova ele está fora. Mas lá consegui arrastá-lo, que não, que era do Stephen Frears, o das Dangerous Liaisons, que o filme era bom, que era com a Judi Dench, etc, etc. Talvez por ser Dia dos Namorados lá me fez a vontade.




Chorei, confesso. Impossível não chorar. Aliás, logo às primeiras cenas, o rosto de Judi Dench me comoveu.

Mas há contenção no desempenho, contenção no desenrolar da história (verdadeira), e uma mistura suave com o humor britânico que atenua a densidade do que ali se mostra. Não é, nem de longe, um filme lamechas.

Anthony Lee com uma freira antes de ser vendido
A Igreja está cheia de situações que envergonham qualquer um que tenha uma mente saudável. A Igreja Católica é responsável por crimes horrendos, desde logo o dos abusos sexuais (centenas de padres têm sido expulsos - e, confesso, fica-me a dúvida: haverá alguma outra profissão em que haja tão grande percentagem de pedófilos?), e o da repressão e violência sobre jovens internados, o da sonegação dos filhos às mães, quando não o que aqui é relatado, de venda de crianças. E já nem falo de uma coisa que a mim me incomoda sobremaneira e por isso me afastei da igreja, não me casando por igreja nem baptizando os meus filhos: o da instilação dos conceitos da culpa, do pecado, do arrependimento por tudo e por nada.

Quantas pessoas vivem uma vida inteira amargurada a expiar e a esconder o que julgam ser pecados ignominiosos? E tantas vezes não foi culpa sua: foram, sim, vítimas. Mas os agressores costumam inculcar o sentimento de culpa nas vítimas (e a igreja alimenta esta doentia atitude perante a vida).

A verdadeira Philomena em Sean Ross Abbey,
um Convento em Roscrea,
onde deu à luz e a partir do qual as freiras venderam
o seu filho de quem ela nunca mais conseguiu saber o paradeiro

Foi o que aconteceu a Filomena, the facto Philomena Lee, a mulher interpretada por Judi Dench (uma mulher bela nos seus quase 80 anos) a quem a igreja roubou o filho (que era Anthony mas a quem foi depois dado o nome de Michael Hess) para o vender a uma família rica americana.


Não conto o resto da história mas deixo links para que, quem não possa ou não queira ver o filme, possa conhecer a realidade aqui descrita.

Depois da publicado em 2009, o livro Philomena levantou o véu opaco que escurecia a vida de muitas pessoas e tem levado a que milhares de crianças irlandesas adoptadas e as suas mães 'envergonhadas' tenham dado um passo à frente, contando as suas histórias. Muitas ainda estão à procura dos seus familiares perdidos. Uma coisa terrível. Uma coisa em que custa a acreditar.

Muito boa também a contida interpretação de Steve Coogan que faz o papel de Martin Sixsmith, o jornalista que acompanhou Filomena na procura do seu filho e que, depois, escreveu o livro. É também produtor do filme.


Deixo-vos com o trailer do filme que, como de costume, aqui no youtube está legendado em língua de tradutor automático, uma coisa catastrófica, mas o que me permito recomendar-vos vivamente é que vão vê-lo ao cinema. É um filme a não perder - e aprovado pelo meu marido!





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Relembro: Abaixo deste post há mais três e, descansem, tratam de assuntos bem mais leves.

Caso estejam afim de um cocktail espumoso e tutti frutti, desçam por favor.

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E, com isto, passa das duas da manhã e amanhá tenho que estar a pé cedinho e, portanto, agradecendo os comentários a que, como ultimamente vem sendo hábito, não consigo responder, e não conseguindo sequer rever o que acabei de escrever, despeço-me por agora.

Tenham, meus Caros Leitores, um belo fim de semana.